quinta-feira, 30 de setembro de 2010

Pequeno Ensaio Literário sobre Poemas Filosóficos[1]

Will Goya
Filósofo clínico
Goiânia/GO

O mundo está escrito, ou por escrever.

Enquanto pensamos, somos todos prisioneiros da linguagem, e apenas livres para nos expressar através dela. Além disso, nem um só pensamento, nada pode ser dito.

Até a morte, a recusa... e o silêncio proposital nos instruem, comunicam suas intenções. Entretanto, se há quem expresse apenas seu dogma, seu eu e sua solidão, há quem deseje o diálogo, todas as formas de “escuta”, de respeito e proximidade.

Quem prefira a escrita, a literatura, faz da liberdade uma palavra, um jogo de entendimentos entre signos e sintaxes, e está obrigado a nela pôr um significado para o leitor através de muitas outras palavras; obrigado a encontrar na gramática, na semântica, em toda a cultura, o que só os cultos entenderão.

A palavra escrita só encontra sentido quando se casa consigo mesma. O mundo não tem sentido, apenas existe. Uma maçã é 1 maçã, sem dúvida! Cada mordida é um novo saber. Mas, se “uma rosa é uma rosa é uma rosa...”[2] – como dizia Gertrude Stein –, então o que seria o conceito universal de “a maçã”? Ou, se a palavra se refere à coisa, a quais exatos objetos se referem os termos “sarcasmo”, “filantropia”, ou o verbo “estabelecer”?

Alguns pensam: “é fácil falar de mim, difícil é ser eu”. Ledo engano, pára-choque de caminhão. Quem teria a facilidade de Vinícius de Morais para saber descrever uma das experiências mais básicas e conhecidas de cada um de nós, como revela o título do seu famoso poema “Da Solidão”?

Quem saberia falar a verdade sobre as próprias mentiras? Sobre as contradições, sutilezas, fragmentos, memórias de cheiro, fantasias... sobre os desejos ocultos do corpo e outros tantos mistérios de si mesmo?

Depois, parecem ser naturais termos idéias e emoções confusas, distantes e mal combinadas entre o que pensamos, o que sentimos e o que de fato somos e fazemos de nós mesmos. Haveria sensibilidade e conhecimentos de linguagem suficientes?

As palavras das delicadezas, das coisas e movimentos, os termos das grandes aprendizagens... enfim, tudo o que é pronunciado na vida só é compreendido se explicadas suas complexas e belas estruturas lingüísticas. Um poema não existe apenas, tem sentido. É uma competência. Não é, pois, correto dizer que um olhar sempre vale mais que mil palavras; dizer que as palavras são pobres e a boca pode menos que os olhos.

Acreditar nisso é nunca ter lido, por exemplo, Paul Valéry, André Gide, José Saramago ou Kalil Gibran. É também só “ter ouvido falar” de filósofos como Aldous Huxley, Bachelard, Sartre ou Camus.

Não haveria o nosso mundo conhecido, não houvesse literatura. Em que pese a isso, sempre haverá mais coisas que palavras, mais mistérios e mais desentendimentos. Dizer que as palavras são inúteis quando o olhar não diz nada poria fim ao imenso valor do diálogo.

Em geral, quanto maior o silêncio mais a ansiedade se acumula de interpretações e perigos; quanto mais firmes verdades o olhar carrega menos se escutam as palavras contrárias, calando a relação. Não raramente, problemas de diálogo se resolvem com mais diálogo.

Se é verdade muitas vezes que um olhar diz mais que mil palavras, igualmente, que se aprenda com as palavras de Guimarães Rosa a se ter outros mil olhares sobre a vida e o mundo, e saber ler com os olhos dos outros. Quem saberia ver – além de meras terras secas – as belezas, o espírito e a tragédia do Grande Sertão brasileiro sem as palavras de Rosa? Afinal, “o sertão está em toda parte...”[3].

Guimarães é exemplo vivo de um escritor cujas palavras têm o poder de dar vida a um ser, a um drama interior comum a todos nós, na medida em que as reflexões do personagem são capazes de dar ao leitor um novo olhar. Parece-me impossível ler Guimarães Rosa, com um interesse de alma, e em nada se modificar depois da leitura. As palavras também dizem mais que mil olhares. Quem souber todas as letras, fonemas, propósitos e pontuações, que veja.

Quando filosofia é literatura, a verdade é a trama da palavra, toda sua força, seu impacto, seu temor. Logos, a verdade, e tudo o que se diz ou se quer dizer reclamam intimidades vivas com a língua. É história. Verdade é um diálogo inacabado.

Se a palavra está definitivamente posta, impressa, sem conserto, ainda assim nada está perdido. Sempre haveremos de dialogar com o texto. Nem o próprio autor se pertence escrito, exclusivamente. Sua língua é de todos. Não há autor sem co-autoria; texto sem contexto.

Muitas vezes, quando nos falta o léxico, é a palavra não-dita, articulada e negada, que mais bem preenche o sentido, o enunciado da frase. São os gestos e termos da vida. Propositadamente, e não raro, a literatura é assim. Por que a verdade haveria de ser diferente na filosofia se a vida é a mesma?

Sem dúvida, a literatura decifra mais idéias, concebe mais realidades do que a filosofia é capaz, pois somente a arte consegue ser coerente com a vida sem deixar de ser contraditória. O que é verdade literal nunca é literatura.

Então, onde está o sentido de verdade da palavra escrita por outra pessoa? Em nenhum lugar se não houver leitor. Não se faz uma prece repetindo a oração. O poeta sente seus pensamentos, e quando deseja pensar em dizê-los, sonha com palavras escritas. Embora as palavras sejam comuns a todos, cada um as mastiga com um sabor próprio.

Como se pode alimentar de poesia a palavra de quem lê, se os significados da sensibilidade só foram escritos graças à estranha força da intimidade única de uma outra experiência pessoal? Escrever um poema é tirar da boca a fome de quem se admira das coisas absolutamente comuns, das emoções que atravessam como um rio profundo um dia simples, completamente natural, mexendo os detalhes da existência... e depois de tudo o que se acumula, de toda a solidão que não pode ser dita, angústia ou felicidade, deixar o leitor sozinho diante do poema.

Poetas e filósofos procuram nos livros o que encontram nas pessoas, mas com uma virtude bastante incomum: sabem que grandes almas podem estar em vários lugares ao mesmo tempo, em outras épocas, e habitar diferentes corpos, diferentes livros. Estamos mal acostumados a pensar que encontramos alguém só porque lhe vemos a pele com recheios.

Um livro é um corpo habitado por uma alma, ou mais; é um corpo tatuado de pensamentos. Há os que vivem cada palavra que dizem, mas preferem se relacionar por escrito; e assim o que têm de mais íntimo, de mais profundo e verdadeiro, talvez ainda viva e dialogue por séculos, com milhares de pessoas, uma a uma.

A literatura será filosofia, penso, se alguma mágica competência, talento reconhecível, mas de todo inexplicável, levar o leitor a transformar seus vocabulários em conceito, palavras em idéias; a condensar intuições, vivências abstratas, instintos, desejos e emoções contidos no texto para identificar, descrever e, quem sabe até explicar a realidade das experiências dramáticas da vida.

Isso, para dar sentido, movimento e resolução, chegada a hora em que o leitor, perante suas escolhas, seja ele próprio o autor da resposta: “o que fazer?” A arte não imita a vida, é em si mesma uma das mais belas formas de experimentá-la. Não copia o que acontece ou o que poderia ter acontecido, mas ensina a viver e amadurecer em perspectivas desconhecidamente alheias.

Quando alguém se abandona aos sentimentos da leitura – romance, conto, crônica ou poema – pelas dificuldades que encerram ou que constituem a luta emocional de assumir por um momento como seus os sentimentos e as opiniões dos outros, personagens e autores, esse alguém, já não mais referência para si mesmo, e tendo eleito um não-eu para estar no mundo e conduzir seus sonhos, além de superar o egoísmo moral, agiganta-se ao tornar-se co-autor intelectual da imaginação, fazendo de seu não-eu um eu melhor.

Não há um texto literário cujo fim não seja o mesmo: o leitor.

Filosoficamente, entender o outro é pensar por si próprio e reconhecer as diferenças. É fazer ser outro depois da leitura; fazer da leitura uma vivência dramaticamente real, e de cada livro uma nova vida. Essa é a ponte mágica entre o que cada um é capaz de ler e a universalidade escrita da experiência filosófica e literária, e pode levar a filosofia e a literatura a, razão do que têm em comum, por isso, se confundirem.

Sim! A literatura pode ser, entrelinhas, filosofia. Entrelinhas são pensamentos, interpretações de quem lê.

Mas, de qual autoria? A quem pertence, originalmente, a idéia subentendida? Quanto maior for a cultura literária, menos títulos e mais autorias; quanto maior a inteligência filosófica, mais humildade e diálogos. O que sei é que o espaço “entrelinhas”, de uma boa literatura, não é o que separa, mas o lugar onde o leitor pode se encontrar com os dramas de sua época, e com os próprios, com as afinidades e dessemelhanças para com o escritor (mesmo seja este os dois) discutindo autorias...

Há críticos que dizem nada poder se falar DO texto que não esteja NO texto, que não há entrelinhas. Teóricos da objetividade, fiéis ao método e adeptos das análises intrínsecas, podem e devem garantir um conhecimento rigoroso – o que não é pouco. Mas, se a tradução exata de uma língua para outra, palavra por palavra, quase sempre trai a verdadeira mensagem, aquilo que não está diretamente expresso num texto, num tempo e lugar, deve ser cuidadosamente lido, transcrito e versado para sua nova circunstância, com naturais perdas e vantagens.

Assim, quando um leitor substitui a unidade da palavra pelo conceito do léxico, ele descobre a idéia escondida, tal se como a literatura fosse um mapa, a verdade um tesouro e, entre linhas, talvez, o legado de alguma filosofia. Entre linhas existe a herança cultural da obra e o leitor, co-autores. Lugar em que não se caminha com segurança, talvez um dos mais honestos momentos escritos da vida em que a literatura e a filosofia deixam à imaginação, aos perigos e delícias da liberdade.

Quem saiba fazer literatura e filosofia ao mesmo tempo há de tentar ensinar verdades ocultando-as com palavras, atrás dos símbolos, substituindo a pedagogia da gramática pelos jogos de linguagem, a fim de que o leitor as encontre em seu próprio pensamento, reagindo. A lógica pode menos do que a realidade afirma.

Os clássicos foram tesouros da humanidade revelados. Os grandes espíritos dialogam com o futuro, ocultando-se no porvir uma parte essencial de suas idéias, conceitos da vida muito bem refletidos e elaborados, com justificativas cuidadosamente analisadas e postas em personagens, “falas” e “imagens”, cenários da imaginação.

Como não perceber que elas adquirem um sentido antes filosoficamente preparado? Esses gigantes não só conhecem a humanidade como também a inventam, criam novos valores, decifram realidades humanas, abrem ou preparam caminhos na ética, na ontologia, na política, nas dialéticas da racionalidade e em outros.

Após ler Água Viva, Fausto, O Alienista, A Metamorfose, o Livro do Desassossego, é de todo impossível negar a existência de uma autêntica filosofia de Clarice Lispector, de Goethe, de Machado de Assis, de Kafka e de Fernando Pessoa.

Há quem diga que não se faz filosofia em versos, nem o inverso; e que a poesia não é verdadeira, apenas bela (ou não). Prosa. Junto à poesia e à filosofia, no interior do poema e da tese, há fronteiras que precisam muitas vezes ser cruzadas para se vencer a crise generalizada dos enunciados e das narrativas, ou nada se descobrirá das belas tensões em que se constroem os discursos, as verdades e o sentido.

Um texto filosófico se dirige ao leitor para convencê-lo, persuadi-lo a filosofar, a criar idéias próprias. A idéia, ao servir-se de palavras para se exprimir, contorna, define e traduz um significado, e o nomina “conceito”. Quando desejo, estou subsidiariamente a pensar.

Capacidade de escolha em foco, carregada de apetites, apelos físicos, psicológicos ou morais. O impulso de natureza emotiva ou desejante é ele próprio um pensamento deliberado, que conduz a atividade mental para dar sentido a um objeto como idéia. Embora nem toda idéia seja emotiva, quase todas as emoções são pensamentos intencionais, com a única exceção, talvez, dos sentimentos místicos sem desejos, como a paz da meditação – metafísica do inefável.

Dessa forma, considerando que a raiz das nossas emoções é feita de idéias, isto é, que significam algo para nós, nada mais lúcido seja a filosofia bússola das nossas emoções, ensinando a sentir inteligentemente. Porque toda grande obra literária é uma profunda aula sobre a força dos desejos e as conseqüências existenciais das nossas escolhas, nada mais verdadeiro concluir que um clássico moderno e contemporâneo da literatura assuma pelo menos um clássico da filosofia. Mas, assim como as ciências vieram da antiga filosofia grega, cabe perguntar: de onde esta veio, se antes só havia artes e religião?

Sei que literatura e filosofia são coisas absolutamente distintas, no modo cartesiano, pois na literatura pode-se inventar e na filosofia tudo exige fundamentos para existir. Mas nem tudo é Descartes.

Também é verdade que Platão faz Sócrates refutar o seu detrator, o grande Aristófanes, e com ele toda a tradição grega, pondo fim à antiga literatura, à retórica, à poética, ao mito como base de explicação, propondo uma nova forma de pensar, falar e agir. Todavia, como negar, por exemplo, que o Fédon e O Banquete, não possuem em seus argumentos o estilo e a mais bela linguagem poética de sua época? A filosofia não negou a literatura, incorporou-a.

Se, de um lado a literatura é um discurso feito para despertar intensos sentimentos, a filosofia é o estudo da linguagem do pensamento, e mais. A filosofia deve subordinar os sentimentos a um raciocínio, mas seria a emoção ou a razão, a literatura ou a filosofia, ou ambos, o que melhor capta o conceito de uma idéia?

A resposta é individual, porque a vida também o é. Ninguém há de saber, nem de sentir pelo outro. No entanto, todo esse esforço de comunicar ao leitor a perspectiva de uma nova idéia sobre o mundo é pura linguagem. Muito arquitetural, a linguagem é uma inadaptação à realidade do instantâneo, do absolutamente simples e ingênuo. Um ligeiro “oi!” não está isento de significações secundárias, de interpretação e contextualização lingüística, de deciframento existencial e filosófico.

Análise feita, descoberta a intencionalidade oculta, pode querer dizer: “eu me sinto muito só, quero sua companhia, pois não sei mais o que é a minha vida... Preciso da sua ajuda!” Posso subverter a sintaxe, em aparente anarquia, reinventar o texto, o estilo, a estética e outros. Posso até reinventar a literatura...

Mas que filosofia honestamente conseguiria tocar a realidade inteira de um conceito vital com o uso exclusivo da razão pura? A filosofia não tem sequer essa pretensão, diria o filósofo alemão I. Kant. Vivesse mais dois séculos de uma civilização iluminista, ele teria percebido que a Razão aproximou-se do seu limite e entrou em crise.

E vendo o trágico diagnóstico da perda da possibilidade de um compromisso possível de nossas orientações fundamentais para a vida, entenderia que a autoridade da razão deve ser recuperada na historicidade do sentido, isto é, que a tarefa de auto-compreensão só tem êxito quando o homem se vê culturalmente, enquanto participante e intérprete da tradição histórica.

Filosofia é linguagem, é língua, é história.

Se eu quiser compreender um pensamento, um texto, ou a universalidade da experiência humana, devo aceitar a hermenêutica como filosofia prática. A hermenêutica possibilita reconstituir uma comunicação confusa; ela atinge, fere e revela os limites que separam a razão metódica dos dramas da vida.

Conquanto a filosofia analítica busque na linguagem do texto a unidade do significado, a hermenêutica filosófica trabalha com o sentido histórico; e ambas estão inseparavelmente certas, porque ao mesmo tempo em que a linguagem “quer dizer”, isto é, tem função semântica, ela também “é”, ou seja, é uma organização com concretude própria. Se algo puder ser compreendido será pela linguagem.

Logo, não só é possível uma filosofia poética, uma razão interessada e emotiva, como também é necessária. Mas, seria igualmente possível a existência de um poema filosófico? O poema não pensa a realidade como uma adequação entre a palavra-idéia e sua correspondente localização no mundo externo – quais certas antigas filosofias do realismo.

É algo diferente e mais intenso. Ele não representa mentalmente o mundo ou os objetos a que as palavras poderiam se referir, em nome da verdade. O poema é a realidade mesma com todas as nossas faculdades psíquicas e espirituais, e até com nossos corpos. O conhecimento agencia do interior a função da vida: uma idéia só existe para aquele que a vivencia. Uma idéia só existe como um fato.

A vida é a base para pensar, logo, o conhecer a ela se subordina.

Concordar ou discordar já é um engajamento, um compromisso, uma transformação e não um princípio teórico puro. Enquanto eu próprio não experimentar o sentido que entrego à notícia de que 2+2 = 4, isto pra mim ainda não será um fato, será apenas um desenho ou mancha sobre o papel, sem valor, tal como um cão que ao livro só fareja em busca de comida, mesmo que lá houvesse escrito onde se encontra enterrado o osso.

O conceito de número é um “número vivido”. Quando significativos, cada palavra, vírgula ou verso, são, de fato, uma respiração. O poema é um fato, pura realidade.

Logo, o poema não dá sentido ao mundo, ele é uma das expressões significativas do mundo. Quem cria novos significados para o amor através da poesia eleva o que se pensava e se sentia a respeito e, assim, evolui a pouca ou insuficiente maneira de antes amar. O grande poeta transfaz a antiga realidade moral criando um novo valor e conceito ético, quem sabe um comportamento. Faz o que pretende toda filosofia moral.

O melhor da poesia não nos eleva para um outro mundo melhor, antes e simplesmente prova o quanto o mundo – qual os poetas pertencem – neles evoluiu.

A poesia é superior e anterior à lógica. Disse superior, não melhor. Enquanto houver filosofia, muito há que se discutir, proclamar, defender e negar, porque injustiças, e afins, sempre existirão. Todavia, não há raciocínio que alcance as janelas dos sonhos – de uma a outra – por onde todos nós nos unimos ao céu, morada comum.

Se a humanidade não criasse o diálogo e, por meio dele, a literatura, não teríamos aprendido as racionalidades da filosofia. Desde as primeiras literaturas, as histórias, religiões e fábulas de mitos, foi pela linguagem poética que a palavra, pouco a pouco, legitimou a realidade do humano e se tornou a propriedade pública, ser do interesse político, do bem e da verdade. Do oriente ao ocidente, a história da inteligência deve à poesia.

Além disso, a matéria da filosofia é a mesma da poesia: o espanto da criação de um significado, o estranhamento do óbvio. Quando se escreve um novo significado para existência – seja pela literatura, adornando sentimentos e motivações vitais para o ser; seja pela filosofia, reinventando conclusões, análises e perspectivas – aprende-se a transformar impulso em direção, linguagem em necessidade.

Criar é especificar e promover as diferenças entre o antes e o depois. Aquele que é exatamente o mesmo após ler ou escrever nada fez se não do tempo a medida do próprio cansaço. Uma vida é pouco se repetitiva, e não haverá outra vida para quem não souber se recriar, ainda que reencarne mil vezes, preso ao karma da mesma consciência limitada.

Tanto a prosa filosófica quanto o poema criam conceitos na abordagem de idéias, afetos e impressões, estados de alma, de mundo e sociedade. Se a filosofia os cria pela força coerente dos seus argumentos, o poema o faz, geralmente, por associações semânticas, musicais e imagéticas. Conquanto a primeira convença e imponha a aceitação da realidade (não sem dor, muitas vezes); anti-didático, o poema trama o seqüestro das atenções e surpreende o leitor (ou o ouvinte) para, de repente, entregá-lo a si mesmo, refém, pasmo, sem explicação, ante a descoberta de que algo fundo se lhe modificou a percepção e o sentido da vida.

Muitas vezes a diferença entre prosa e poema não é suficientemente clara, existindo formas intermediárias. Cada vez mais, enquanto a prosa tende a poetizar-se combinando idéias com alegorias, símbolos, evocações da memória e do instinto etc., os poemas se aproximam da prosa literária pela renúncia aos esquemas métricos, rítmicos, estróficos, dando maior enfoque à realidade sentida e descrita artisticamente.

Assim como muitos romances podem ser tidos como poemas expandidos ou, ao inverso, um poema como um romance condensado, também muitas máximas da filosofia, sínteses de grande valor poético, poderiam ser facilmente tomadas como versos, como poemas.

Mas, filosofia e poema são coisas diferentes? A primeira diferença é um critério externo, formal e fácil de reconhecer: reside na presença ou não do verso. O poema é uma poesia em versos ou, pelo menos, em um só; enquanto a filosofia poética é uma dissertação racional, marcadamente desenvolvida pelo caráter demonstrativo, pelo rigor e coerência lógico-semântica.

Se, no entanto, o critério for interno, a diferença corresponderá à análise da intenção do discurso, seja na direção de uma finalidade “comprobatória” – filosofia –, ou no caminho de tornar a estrutura sintática um apelo à função “sugestiva” – poema.

Nem toda prosa é filosófica e nem toda filosofia é poética. A respeito, pode-se falar em filosofia poética, como uma prosa teórica inspirada no estilo literário, utilizando dos sentimentos e da criatividade para expressar idéias.

Também é possível falar em poesia ou, mais adequadamente em poemas filosóficos, ou seja, estruturas poéticas que hipoteticamente despertariam o ânimo para conseqüentes reflexões filosóficas. Algo diferente deste último – se não raro, improvável –, seria imaginar um poema não com adjetivação filosófica, mas com a substancialidade própria da filosofia; uma “filosofia-em-estrofes” de natureza dissertativa, uma grande e complexa seqüência estética de silogismos, cujas primeiras conclusões transformar-se-iam em novas premissas, verso a verso, reunindo o máximo da síntese poética e da objetividade lógica.

Não faço filosofia-em-estrofes. Escrever poemas filosóficos – propósito de muitos versos meus – é de tal competência que exige do poeta sua máxima capacidade de exprimir idéias por meio de palavras emotivas e sensitivas (embora haja quem prefira as duras e dolorosas, não mais fortes).

É preciso alguma sabedoria para identificar e distinguir as emoções, os comportamentos e as idéias comuns existentes entre os indivíduos, as classes e as diferentes culturas de uma época e região, sem o quê não se poderia fazer-se entender com uma linguagem adequada ao estímulo irresistível que desafia e envolve o leitor, prazerosamente ou não.

Naturalmente, aquém da sociedade, cada alma tem seus próprios labirintos a serem percorridos, e até os valores mais universais devem ser bem contextualizados.

Eu morro em cada poema, em cada artigo, livro, aula ou diálogo em que sou verdadeiramente capaz de produzir um novo significado de amor.

Aprendi com a poesia que se há amor, há verdades suficientes. Sinto que partes de mim morrem cada vez que eu renasço inteiro.

É como se minha existência, por alguns microinstantes, finalmente alcançasse todo o seu objetivo, a razão de tudo, e de alguma forma me provocasse aquela silenciosa gratidão de olhar a alma de todos os seres, desnecessitando palavras. Nesse momento, o ambiente mais próximo do meu corpo vira palco, e as intenções queimam. Morrer é-me o propósito da vida, renascer é o da morte. Só o amor permanece.

De todas, a poesia mais tocante é a que emudece, a que excede em significados para além dos versos, e transborda-se numa incompreensível sensação que ao mesmo tempo junta a coragem heróica de vencer a si mesmo, como também os maus e covardes, não obstante impõe com ternura a humildade capaz do auto-sacrifício pelos outros, quando nada podem. No grande poema, a palavra grita sem som, terminada a frase. É quando a vida faz sentido, sem explicação.

O bom poema filosófico é um bem moral supremo. Conquanto a filosofia reflexivamente queira a discussão, com análises quase intermináveis, o poema deseja o silêncio de quem já entendeu. Deseja a maior, e intraduzível, compreensão humana: a vivência íntima. Com menos palavras, maior síntese e ajuste, a estrutura poética é mais sábia, e fala o suficiente para calar o desejo de comentários. Qual filósofo foi alguma vez poeta assim? Perguntemos a Nietzsche.

O que se passa em minha mente e em meu corpo, quando escrevo, é mais rápido que a minha percepção. Isso arde de ansiedades minha inteligência enquanto não acho as palavras exatas. E porque em mim as idéias escritas nascem estéticas, e com ritmo musical, assim, sou obrigado a refazer todo um parágrafo ou um poema inteiro só para encaixar a sonoridade fonética aos desejos de uma palavra qualquer que insiste em ser a origem de tudo, por vezes no meio da oração, deixando-me com a agrura de resolver questões gramaticais, métricas ou semânticas.

Alegre, aflito e descontente, custa-me acamar-me. Às vezes é um demônio tão maior do que eu, e de tal grandeza belo e perfeito, que indômito, ao escrever, meus sentimentos são desencontrados entre o prazer de sofrer em mim as dores e alegrias dos dramas humanos, através da poesia, e a necessidade de dar paz e desobrigar esse espírito que me domina.

Enfim, quando a poesia fisicamente me vence – não sem cansaço e involuntária submissão –, ela se me desincorpora, e o poema já não me pertence mais. Porém, se depois o reconheço ainda como meu, só da minha subjetividade, então ele não alcançou um mínimo valor universal, e deve ser jogado fora.

Dizendo assim, quem assume a função de autor? Não sem imodéstia, deslumbro-me como se deslumbrasse em outros o verdadeiro senhor das necessidades: a vida nos empresta o corpo e a consciência para experimentar a co-individualidade, e reconhecer nos outros a íntima sensação de existir juntos.

É mesmo estranho sentir orgulho e alegria de perder a vaidade do próprio orgulho. É como se Deus, ou qualquer outra imprecisa definição do amor, não fosse mais do que a visão face a face da vida consigo mesma no rosto de outrem.

Eu, para alcançar esse enorme sentimento de humanidade, preciso perdê-lo como meu e resgatá-lo em alguém que por desventura ainda não o conheceu em si próprio. Salvo enganos, de mim muito pouco compreendi, restando os outros. É neles que encontro alguma honesta possibilidade de conhecimento humano. Além disso, nada.

Porque sou poeta e filósofo – e não digo o primeiro em importância, mas pelo grau de simplicidade que a poesia aparenta ser a mais – devo dizer que um poema não é espiritualmente mais fácil que uma tese, lendo ou escrevendo.

Isto é, um poema filosófico, como Amor de Filósofo, À Metade do meu Caminho, Questão Filosófica ou Identidade, para citar os meus, tomando por axiomáticas minhas verdades, exige-me uma profunda coerência intelectual, ainda maior que a emotiva, coordenando conceitos em favor da intimidade-ângulo da idéia defendida, questionando e antevendo objeções, provocando e conduzindo o leitor ao centro de gravidade filosófica, onde pode se dar, quem sabe, a vivência da resposta.

Poemas-problemas em que se instauram enigmas semânticos e se justificam aptidões estilísticas de sinestesias, metáforas adormecidas no cotidiano, neologismos, mitos... e outros. Tudo rigorosamente unificado por um pensamento filosófico intencional, que não se perde ou se deixa às facilidades meramente estéticas e populistas de consumo.

Tal poesia não é simples rima de brincadeira de crianças, não é jingle, comercial de TV ou qualquer letra de música. Um bom escrito é como um bom leitor. Não é a erudição, o acúmulo, que lhes aumentam o domínio intuitivo da percepção, é um profundo interesse cultivado pela vida, pelo sagrado, pelos conflitos do mundo e da própria existência.

A grandeza de um poema filosófico é, em meu entender, tão mais verdadeira e elevada quanto mais ele nos desperta compaixão pela humanidade – a sublime lucidez –, seja pelas belezas da ternura ou pela força da indignação. Problemas cuja resposta de um desenvolve a cultura de todos.

Após várias tentativas fracassadas, de análise e reflexão, para condensar meus pensamentos num todo assim concebido, compreendi que nunca conseguiria isso, e que as melhores coisas que eu poderia escrever neste pequeno ensaio permaneceriam sempre revistas.

Escrevi meu primeiro caderno de poesias aos 15 anos, e dele quase nada sobreviveu. Depois muito poucos, até hoje. De tudo guardo uma conclusão pessoal: gostaria realmente de ter escrito bons poemas, de ter nascido literato, pudesse, mas quando escrevo poesia penso filosoficamente, e quando me esforço para filosofar com extremo rigor, sou incorrigivelmente poético. Dá-me muito trabalho ser eu mesmo.


[1] Artigo publicado na Revista FRAGMENTOS DE CULTURA, Goiânia, v. 18, n. 9/10, p. 761-772, set./out. 2008. Texto aqui revisado.
[2]Esta frase faz parte do poema de Gertrude Stein, "Sacred Emily", de 1913. In:STEIN, Gertrude (2008). Writings, 1903–1932.
Library of America, University of Michigan.
[3] ROSA, João Guimarães (1983). Grande Sertão: Veredas. São Paulo: Abril Cultural, p. 9.

terça-feira, 28 de setembro de 2010

O mundo é representação nossa.

Rosangela Rossi
Psicoterapeuta e Filósofa Clínica
Juiz de Fora/MG

Chegou meu tempo sabático. Não levo livros, nem expectativas, vou com minha alma em festa.

Sei que vou admirar o que for acontecendo, sem julgamentos...apenas percepcionando e sentindo o que há de sagrado.

Gostar ou não gostar do lugar escolhido só dependerá de mim e de minhas representaçōes. Ou projeto minhas sombras e critico tudo ou olho com meu Self e vejo a beleza em cada detalhe. O mundo não tem culpa do meu estado interior. Mas, agora posso escolher o que ver. O que eu vejo me olha.

E lá vou eu, sem medo de ser feliz. Grata por tudo que a vida traz.

Fico a pensar em quanta felicidade perdida no controlar, no queixar, no esperar, no idealizar, no complicar. E a vida acontece sem dar a mínima para o passado e o futuro, ela acontece no agora, no sempre agora. Nossa tagarelice interna é que faz a confusão.

Por ter consciência de minhas imperfeiçōes, sei que posso projetar no mundo minhas insatisfações, por isso me coloco atenta. Sei - que sei eu? - que o mundo é como é e os problemas são meus. Por isso ao fazer a mala, deixo em casa os prejuizos e levo a leveza de minha alma livre.

Há muito para se admirar. Há muito para se aprender. Há muito para compartilhar. Há muito para brincar e rir ou chorar. Há Itália das artes, dos vinhos, do sagrado, do profano, dos filósofos, das feiras e mercados, dos sorvetes e das massas...

Das pessoas principalmente. Há muitas Itálias a me esperar, a nos aguardar e explendorosamente pronta a nos amar.

segunda-feira, 27 de setembro de 2010

Filosofia Clínica e algumas considerações sobre vivências.

Bruno Packter
Filósofo Clínico
Florianópolis/SC

Algumas pessoas vivem tracionadas na família, na sociedade, no trabalho de muitas maneiras.
Quantas pessoas não têm, às vezes, em casa um familiar: um irmão, uma irmã que é usuário de drogas e que dá tantos problemas. Isso é muito mais próximo da família que se vive, do que propriamente uma alegoria na qual, muitas vezes, a gente acredita e se machuca, se magoa fortemente por conta dessas questões.

O que fazer a respeito disso, quais as orientações, quais os encaminhamentos a respeito das relações?

Na minha opinião, cada um de nós tem seus problemas em casa, nas relações e não há nada de errado com isso, é assim mesmo que as coisas funcionam. Existem outras opiniões bem diferentes.

Como agir com os problemas que a gente tem de fato pra dentro de nossa casa, com os nossos amigos, com as pessoas que nos cercam? Quantas pessoas já estiveram nesta situação, quantos já chegaram em casa sem emprego do qual dependiam muito? É a vida e, também, o que possivelmente podemos passar, muitas vezes.

Muitas pessoas vivem suas vidas não se questionando de mais nada, não sente mais nada. Algumas pessoas vivem assim até que alguma coisa caia sobre elas: algum problema mais grave, uma perda familiar ou perda de emprego, por exemplo.

Muitas pessoas tentam viver a vida cumprindo as expectativas alheias e, às vezes, por conta disso a resultante é muito danosa, podem se machucar porque não há como viver cumprindo as expectativas dos outros, quando muito as nossas próprias a gente já não consegue.

É interessante como muitas pessoas crescem mantendo dentro delas uma visão de mundo infantil, não que isso seja um problema, pois muitas vezes isso até pode derivar em música, em poesia e muitas outras coisas bonitas.

De modo geral, finalizando, conforme a pessoa vive o mundo ela verá coisas e deixará de ver outras. Uma pessoa que vê o mundo de outro ponto de vista, também, provavelmente, verá coisas, mas deixará muitas outras de fora.

Por exemplo, uma pessoa que vive o mundo do ponto de vista das finanças, provavelmente não vê muito o pôr do sol, provavelmente não vê muitas coisas que a poesia num amor possa existir ou no olhar do filho, como tantas outras coisas das sensações.

Como lidar com isso?

O caminho do filósofo clínico se dará, inicialmente, na colheita da história de vida da pessoa. E, os procedimentos únicos para cada pessoa iniciarão a partir deste entendimento, ou seja, às vezes por devolução do que a pessoa já utiliza na própria vida e assim por diante.

quarta-feira, 22 de setembro de 2010

Esconderijos do espírito

Idalina Krause
Filósofa Clínica
Porto Alegre/RS

Uma luz qualquer acompanha os rabiscos mentais, não que se desconheça o sombrio das coisas todas. O obscuro tem seus brilhos, sabe quem transita nos esconderijos do desconhecido espírito seu.

Mares de incertezas, nús desertos, floração repentina, centelha no caos apocalíptico, tinturas, ondas, cores fugidias, variações, cabeça repleta, incessantes pensares, tempestade de signos, vertiginosa contemplação de vastas realidades...
Bom dia amigos do Cineclube AudiovisUAI.

Convido vocês a acessar o nosso blog que substituiu a nossa página anterior
Acesse http://audiovisuai.blogspot.com/ e ajude a divulgar esse projeto: cinema gratuito pra todos.

Valorize o cinema brasileiro!

Mariana Fernandes
Filósofa Clínica
Coordenação e Produção

segunda-feira, 20 de setembro de 2010

O espetáculo da ilusão*

Aqui dissipa-se o mundo visionário e platônico. Vamos entrar num mundo novo, terra fantástica, verdadeira ilha Barataria de D. Quixote, onde Sancho é rei (...). A pátria dos sonhos de Cervantes e Shakespeare."
Álvares de Azevedo

Pensar a estrutura mutante dos incontáveis disfarces pressupõe riscos de perdição. Achados em sintonia com a natureza expressiva dos encantos. A transcendência no olhar em desconformidade nos princípios de verdade pode desapontar expectativas para ser igual.

Trocadilhos deslizam na superfície escorregadia de ser uma coisa só. No compartilhar das fantasias, contornos de irrealidade fingem outras caricaturas. Os mesmos caminhos; no entanto, sempre outros. Superlativo a integrar giros num caleidoscópio indeciso.

Obscuridade sutil na manifestação em delírios intraduzíveis. Antever próximo no faz-de-conta a refazer artifícios na palavra. As convivências elucidam ou ocultam resquícios na racionalidade divergente. Um saber imaginante reivindica-se em lógicas da inclusão.

Gaston Bachelard reverencia Edgar Quinet ao citar Merlin, o feiticeiro: "Que fazes para aplacar um mar em fúria ? Contenho a minha cólera."

As estruturas do invisível percorrem o sentido único dos êxtases de abracadabra e seus personagens. Ânimos de cogitar favorecem aparições impensadas. Os fantasmas apreciam o olhar indiscreto do descobridor. Através da lente obscurecida pelos dias, levita ao transgredir inexistências. Nesse solo as retóricas das múltiplas verdades tentam descrever o indizível.

Mil e uma noites se alternam em roteiros de rara lucidez. Conexão em fascínios de espanto. Sonhos, pesadelos e suas derivações preparam o terreno fértil ao dom de iludir. Assim sendo, o flerte narrativo revela sua ideologia no jogo de cena com a normalidade. Trata-se de aguardar o melhor instante para surpreender a mensagem entremeios de desatino.

Ao inenarrável prefácio das impossibilidades, surge a multidão dos esquecidos. Direção sem roteiro prévio na retrospectiva com a imprecisão das cores e contornos. Rostos esculpidos pela incompreensão de uma vida inteira.

Fronteira entre o tumulto e a quietude na descontinuidade das inesgotáveis fontes. Intuição ainda irreconhecível a palavra. A ilusão invade o imaginário sonhador e reinventa o mundo inteiro. Atração irresistível em rumores de língua estranha. Na brevidade de um instante, a platéia imaginária convive com seus personagens. Momentos ao roteirista compartilhar ânimos de fantasia numa expressividade inflamada.

Nas alegorias da imprecisão a variedade do desassossego re-faz percursos na correspondência consigo mesma. Precursor das histórias re-significadas ao contar. As dúvidas e incertezas sussurradas na interseção podem reconstruir a impressionante subjetividade inconstante.

Inesperadas intenções desajustam a realidade para recriá-la. Ao descrever inacreditável disso tudo, a estrutura das miragens se alterna em esconder e mostrar. No dizer mágico de Tristan Tzara: "Uma nuvem de rios impetuosos enche a boca árida." Anúncios na interseção com a figurações do estranho. Engana-se quem acredita não ser o dom de iludir uma verdade.

As aparências podem deixar escapar a singularidade dos personagens. Faz-de-conta nas evidências de maior alcance. Nuanças de lógica insana no esboço fascinante de pertencer a algum lugar. O real se acaba na imprecisão de um só sentido. A irrealidade insinua-se nas dobras, desvios e rupturas com os nortes da certeza.

Dados não-verbais ajudam a decifrar os estranhos tons. Nas distorções da ilusão, o sujeito pode desvendar extraordinárias intencionalidades, até então cristalizadas num único jeito de ser.

Em Mircea Eliade: "O pensamento simbólico não é uma área exclusiva da criança, do poeta ou do desequilibrado: ela é consubstancial ao ser humano; precede a linguagem e a razão discursiva."

Milagres irreconhecíveis acontecem em todo lugar o tempo todo. O fato de passarem despercebidos pela veemência das recusas, não significa inexistência. As incríveis verdades possuem muitos nomes. Olhar visionário as precipitar especulativo das abstrações.

A fonte contradsitória possui conexões de longo alcance na 'poiésis' imaginativa a transgredir códigos. Excesso a desdobrar-se em feições e contornos de existir inédito. Íntimos saberes na diversidade das peripécias de contrasenso.

Nas promessas de uma só versão, horizontes se divertem ao desdobrar-se em truques a perder de vista. Translúcido vir a ser em profecias ilusionistas. Enredos na introspeçção de um Dom Quixote, a desvirtuar as regras da razão. Exílio de versão pitoresca, a descrever olhares de renúncia ao mundo conhecido.

Fugaz aparecimento nos espelhos do tempo, por onde amanhã se antecipa no agora sem sentido. As dinâmicas do extraordinário revelam coisas inesperadas. Quase nunca se mostram na objetividade de um ponto de chegada ou partida. Preferem pontos intermédios para esparramar seus rastros. A aptidão de magia, ao possuir características de androginia, seduz incontáveis variantes do masculino-feminino.

Ernest Cassirer desconstrói as pretensões de certeza, ao lembrar: "a magia não precisa apenas acreditar na eficácia do meio de feitiço, mas também naquilo que para nós é apenas um meio, possui a coisa como tal e a apreende imediatamente."

É o sonho que reaparece, ainda quando embaçado pela proximidade das estranhas arquiteturas. Presságios nos ensaios delirantes, por onde as raridades apreciam infiltrar-se. Mescla de convívios nos múltiplos deslocamentos.

Os papéis existenciais também se refugiam nas tipologias. Perspectiva alterada na especulação investigativa das lógicas do absurdo. Zona intermediária entre o nada e tudo de qualquer coisa. Embora se trate de medicação provisória, a magia da interseção insinua algo mais na exceção das vontades. Um despertar às novas miragens, onde a perturbação das certezas seja ponto de partida.

As fábulas da distância e da proximidade seguem impronunciadas na voz estrangeira da própria pessoa. Seu dom de camuflagem constitui a essência do ilusionista. Erudição a reanimar tragédias e comédias em conjecturas de desrazão.

*Hélio Strassburger
Filósofo Clínico
Porto Alegre/RS
Coordenador da Filosofia Clínica na Casa de Saúde Esperança em Juiz de Fora/MG e Secretaria Municipal de Saúde Mental em São João del Rei/MG.

domingo, 19 de setembro de 2010

A Tudo Cede, A Tudo Vence


Will Goya
Filósofo Clínico
Brasília/DF


Errado pensar que o amor sempre vence e tudo pode.
Com o amor a gente aprende a perder.
Naturalmente,
Controlar tudo é perder o controle
E perde quem não está disposto a perder,
Pois o orgulho destrói não a culpa, mas o coração do culpado.
Amar não é desejar o próximo como a si mesmo,
É fazer do amado o primeiro e de si mesmo o próximo.

O amor não é fraco nem forte, muito ou pouco,
É apenas inteiro,
Ainda que por uma fração de segundos
Nos instantes mais belos da vida.
Só o que é simples é completamente inteiro.
Pura entrega, o amor é leve.
Quem ama caminha nas nuvens,
Pois seu coração alcançou o reino dos céus.

O amor brilha a pele de invisível ternura
Quando o corpo se reveste da alma.
Ninguém vê a fluidez da água mansa, o sopro macio e perfumado da brisa,
Nem jamais tocou o céu com as mãos...
Mas quem não sabe de onde vem o flutuante azul da vida
Que a vestiu da alegria de ser a beleza do mundo?
Vem do sonho de Deus quando o homem nele ainda dorme
Um desejo inconsciente de amar,
Que se chama solidão.
Segredo por Deus a ele revelado
Quando nele esse sonho o acordou melhor.

A grande melancolia do destino é que a morte existe
E o amor não pode evitá-lo.
Mas a garra de recomeçar é uma fé
Que, talvez, nenhuma outra vida mais próxima da verdade saberá
O mistério que o dia deita ao sol de cada nova manhã.
Dorme quem gosta. Ama quem sonha.

sábado, 18 de setembro de 2010

Por que os apaixonados não conseguem enxergar


Ildo Meyer
Médico e Filósofo Clínico
Porto Alegre/RS


Desde criança sempre ouvi falar que paixão era um sentimento que transformava tudo o que o outro fazia, dizia, vestia, pensava em algo lindo e maravilhoso, transformando a outra pessoa na mais fantástica das criaturas deste mundo.

A tatuagem nas costas vira algo especial, as sardas no rosto são um charme, os dentes mostram um sorriso encantador, sua voz rouca transmite tranquilidade, seu bom humor impregna o ambiente... até o modo como solta a fumaça do cigarro passa a ser bonito e não incomoda mais.

Demorei muito para aprender que o sentimento que faz todos esses milagres não é a paixão. A paixão é um sentimento que quando chega traz consigo uma venda que cega a todos os sentidos, deixando os enamorados à mercê da imaginação, do delírio, do desejo, de uma idealização que vê no outro a perfeição. E nesse clima de fantasia é comum sapos se transformarem em príncipes e princesas.

É muito bom experimentar esse turbilhão de sensações, mas um belo dia o sonho acaba, as pessoas acordam e a paixão termina, e agora sim, invertem-se os papéis e príncipes e princesas viram sapos. Nada contra estar apaixonado, mas este sentimento tem prazo de validade e inevitavelmente vai se esgotar.

Já o amor pode ser visto como o verdadeiro instrumento da transformação, pois não é cego nem sonhador. O amor vai retirando pouco a pouco a venda da paixão idealizada, e a cada clarão que se faça, o outro vai sendo visto naquilo que realmente é e no quanto realmente atenda ao par nos critérios de uma parceria.

Desvelado, o outro passa a ser único, especial, com a devida condescendência aos seus defeitos, pois que o amor, se sabe, é condescendente. E por ser único, especial, admirado, o ser amado adquire o caráter de precioso. E coisas preciosas devem ser guardadas para sempre, sem risco de deteriorização. O amor é uma delas. Há controvérsias, mas quem amou sabe, amar é para toda a vida.

Paixão pode se transformar em amor, mas entre um e outro, há milhares de situações a serem experimentadas, muitas delas mal compreendidas e mal resolvidas.

Nem sempre se tem uma noção clara do que está acontecendo lá dentro de nosso coração, e às vezes enquanto um dos parceiros ainda está com os olhos vendados, confundindo seus sentimentos e emoções, o outro já tem certezas, levando ao descompasso do tempo certo para, juntos, viverem o amor.

Por conta de um, preso no estágio da paixão, os dois são privados do avanço. E assim a maior parte das intenções não sobrevive à fase da idealização, e perdem-se no temerário vácuo que separa a paixão do amor.

Sequelados e desiludidos depois de muitos naufrágios sem sequer beliscarem o amor, alguns desenganados optam por tentar um caminho menos sofrido e mais seguro: amar sem passar pela fase da paixão.

Relacionam-se, mas não se entregam, ficando sempre com um ou dois pés atrás. Não dão chance para os poros se eriçarem, a respiração trancar, o coração disparar, o pensamento colorir, a boca salivar.

Será possível chegar ao amor sem antes se apaixonar? Não sei responder, embora imagine que tudo nesta vida seja possível, e que não exista uma receita de bolo universal que ensine como alcançar o amor perfeito. Apesar de todos os riscos, continuo acreditando que se apaixonar faz parte da vida e que o apaixonamento seja um pré-requisito para o amor.

Antes que a venda seja retirada, as qualidades que seduziram, apaixonaram e transformaram o ser amado em único precisam deixar marcas profundas, tais como as flechas do cupido, que uma vez presas no coração, ali permanecem para sempre, atenuando defeitos e falhas que o amado certamente apresentará.

Como seria fácil se pudéssemos ter desde o início certeza de nossos sentimentos, ou se pelo menos pudéssemos ter controle sobre estes, ou, mais ainda, ter a exata noção de como somos vistos e o que os outros sentem.

Atravessar a ponte que une a paixão ao amor é para poucos. Não existem atalhos, o caminho não está claramente demarcado e não tem graça chegar lá desacompanhado.

Atingir o amor implica entrar na ponte de olhos vendados, segurando a mão do amado e apostar que aquele que conseguir enxergar primeiro, retardará seu ritmo até que o outro consiga, ainda no estágio da paixão, alcançá-lo.

sexta-feira, 17 de setembro de 2010

“O Mundo é a Minha Representação”

Com estas palavras o Filósofo Arthur Schopenhauer inicia a sua obra: O Mundo como Vontade e Representação.

Este será o tema do nosso próximo Café Filosófico, que terá como convidada especial a Filósofa com Pós- graduação em Filosofia Clínica Eliani Garcez Nedel.

As professoras Isolda Bacchi Menezes e Vera Lucia Leandro farão uma aproximação da obra de Schopenhauer com a Filosofia Clínica.


Data: 25 de Setembro de 2010 (Sábado)
Horário: das 15h às 16h30min
Local: Instituto Packter – Av. Cel. Lucas de Oliveira, 1937
Sala 303 Porto Alegre – RS

ENTRADA FRANCA

Informações: (51) 3330-6634 c/Aninha
98655097 c/ Isolda
98968172 c/ Vera
institutopackter@terra.com.br

quarta-feira, 15 de setembro de 2010

Convidamos os leitores para o lançamento do livro “Um Caminho Para Viver Melhor – A Filosofia ao Alcance de Todos”,

bate-papo e sessão de autógrafos com o autor prof. Ivo José Triches.

Data: 15/09/2010 (Quarta-feira)
Horário: 19h30
Local: Beiramar Shopping (Piso Joaquina, lojas 247 e 248)
Rua: Bocaiúva, nº 2468 - Centro
Florianópolis - SC

Atenciosamente,
Associação Catarinense de Filosofia Clínica
Convite:

Venha participar do grupo de estudos que acontece às sextas-feiras no Instituto Packter.
Encontro voltado para leituras e troca de experiências em consultório.

Local: Instituto Packter
Horário: 17-18:30hs
Pré-requisito: estudantes e formados em Filosofia Clínica.

Atenciosamente,

Ana Cristina da Conceição
Filósofa Clínica
Porto Alegre/RS

segunda-feira, 13 de setembro de 2010

Eu ou minha roupa?

Rosângela Rossi
Psicoterapeuta e Filósofa Clínica
Juiz de Fora/MG

Num mundo em que se previlegia a imagem fica difícil falar do Ser. Mas, vamos lá. Sinto todos os dias na clínica a angústia de muitos quando o assunto é corpo e imagem. A maioria não está satisfeita com sua própria imagem e preocupada com o que os outros vão dizer.

O corpo dessacralizado, desalmado fixa na forma idealizada. A consequência é a frustração e infelicidade. O modelo da medida perfeita, do cabelo chapinha, da roupa da vitrine, da maquiagem da Tv, dentre outras coisas, tomam as mentes distantes de sua própria identidade.

O que importa é seguir os padrões estabelecidos pelo hipercapitalismo que comanda o consumo. As pessoas viram coisas, objetos de troca.

O Ser como se é virou utopia. Ser um Chaplin não tem mais valor. Escolher o que se gosta ficou fora de moda. O homem massa segue os ditames dos que se arvoram donos do saber.
E o corpo abandonado chora do descaso e rejeição daquele que o possui. Adoece facilmente e não sabe mais o que fazer.

Quem chega na festa não é a pessoa, mas sua roupa e imagem de plástico. A noiva fica no último plano, pois todos querem competir com ela. Poucos querem ser presença no poder dizer: - aqui estou eu e não minha roupa.

Ter a naturalidade do filósofo, de um Francisco, de um palhaço ou de si mesmo se tornou livro de biblioteca ou peça de museu. Autenticidade. Que palavra é esta? Simplicidade? Nossa! Salve! Salve!

Romper as couraças, tirar as máscaras, quebrar com as imagens da representação requer espirito livre, coragem para transgredir e denunciar a opressão que a cobrança de perfeição impōe, pode ser uma das opções inteligente.

Sacralizar o corpo é resgatar a anima mundi, reencontrar a razão libertadora e se olhar no espelho com aceitação e gratidão, pois nosso corpo é nossa alma.

Que me desculpe Platão e Descartes. O corpo clama para que se compreenda que ele é a nave espacial que a alma utiliza para viver na existência. Cuidar dele é amá-lo integralmente. E para amá-lo só precisamos abandonar a expectativa de perfeição, a vaidade alienante, a comparação com os outros, o medo da rejeição e a aceitação da própria natureza.

Enfim, que em qualquer lugar eu chegue antes de minha roupa e que meu Ser brilhe com a luminosidade conciente do ser grato simplesmente.

sábado, 11 de setembro de 2010

Quando evitar um problema significa resolver

Lúcio Packter
Pensador da Filosofia Clínica


Há questões na vida construídas de tal forma que a abordagem direta se torna inviável.

Exemplo: a pessoa perdeu alguém que ama e tratar diretamente desta perda é insuportável para a pessoa. Não existe um modo direto e óbvio de tocar no assunto com ela.

No consultório esta manifestação aparece de vez em quando. Assim como alguém que danificou a pele e não suporta um toque direto sobre ela, há quem tenha se magoado na malha intelectiva de tal modo que não pode mais falar ou pensar sobre o que houve.

Em Filosofia Clínica estudamos caminhos para a consideração deste fenômeno. Pesquisamos desde a natureza até os encaminhamentos do assunto. Verificamos se de fato é necessário lidar com isso, se não é o caso de deixarmos de lado; verificamos se não é somente um sintoma de alguém anterior que merece maior consideração. Damos atenção aos conteúdos da historicidade de vida da pessoa até o aparecimento do problema. Trabalhamos diversos itens importantes.

Um dos modos que habitualmente costumam ser suaves no encaminhamento de questões contundentes que flagelam a alma diz respeito a abandonar o assunto e não se ocupar mais dele.

Exemplo: no caso da perda de alguém que se ama, não tratar mais deste assunto, não fazer qualquer menção a ele. Ocorre que muitas questões precedem a este posicionamento no consultório: saber se este abandono da questão não agravará o problema, entender se abandonar o assunto não é parte sintomática da questão, conhecer as premissas, avaliar as consequências.

O abandono de uma questão dolorosa com a qual não podemos lidar diretamente não se refere às questões que pedem apenas por tal ação para poderem se encaminhar naturalmente segundo um desfecho próprio. Aqui estamos tratando de um recurso que será imediatamente seguido de outro, profundo e essencial ao tema.

Como o filósofo clínico pesquisou detalhadamente a historicidade da pessoa, ele provavelmente descortinou diversos elementos atrelados à perda da pessoa amada, elementos estes que podem ser tangidos e articulados sem que se toque diretamente no fato da perda da pessoa amada, algo insuportável.

O filósofo então transita por estes elementos laterais, subjacentes, mas ligados ao cerne da questão, e estuda quais desenvolvimentos podem acarretar a modificação da questão em bases mais condizentes com o modo de ser da pessoa, com sua estruturação, com sua historicidade.

Em resumo, quais ações nos tecidos periféricos, mas relacionados ao núcleo da questão, uma vez instauradas promoveriam uma reacomodação nas raízes do tema tratado, a perda de uma pessoa amada, algo insuportável para a pessoa?

Teria sido uma ação semelhante a que Platão tomou quando da morte de Sócrates? Viajou, estudou, trabalhou questões outras até retornar para Atenas e retomar seu trabalho e o assunto.

É assim que no consultório, muitas vezes, a pessoa a quem atendemos inicia um curso de artesanato, sai para uma viagem de estudos para a Malásia, reforma seu apartamento, toma medidas e atitudes que em nada parecem ter relação com os problemas urgentes, e, no entanto, imediatamente, mostram capacidade para lidar com algo que até então era um entrave em suas vidas.

Há muitos caminhos, em geral, para a atividade em consultório. Abandonar a questão e trabalhar os elementos periféricos constitui um destes caminhos.

sexta-feira, 10 de setembro de 2010

Estéticas da desconstrução*


"A poesia é de certo uma loucura,
(...)É um defeito no cérebro (...)
É um grande favor, é muita esmola
Dizer-lhes bravo! À inspiração divina, e, quando tremem de miséria e fome, dar-lhes um leito no hospital dos loucos..."
Álvares de Azevedo


Rainer Maria Rilke inicia em 1898, aos 23 anos, os escritos do "Diário de Florença", por sugestão de Lou Andréas-Salomé. O inevitável viria depois: uma declaração de amor à vida e à beleza. Quiçá tradução de maior alcance na insinuação plural contida na descrição dos jardins, ruelas e esculturas.

Nas páginas iniciais o poeta já busca estabelecer pontos de contato com o coração da musa. Diz sua poesia: "Minha alegria permanece impessoal e sem brilho, enquanto dela não participares como confidente - ao menos por intermédio de alguma anotação íntima e sincera sobre esta alegria em um livro que te pertence".

Entrelinhas de embriaguez no agridoce veneno da paixão. Muitas doses depois, aquilo que poderia matar preserva. Institui-se em contraveneno.

No silêncio de Lou-Salomé parecem oscilar vontades contraditórias. A partir de agora se faz fonte de inspiração ao dizer estético.

O texto evidencia uma poética das madrugadas, da perdição e do arrebatamento, sem esgotar as suspeitas de outras incontáveis sensações. As coisas ao seu redor adquirem contornos de quase gente. As letras do autor descrevem a beleza do instante, das ausências e promessas caladas.

A in-conclusão das cartas segue a parcialidade da vida. Sempre existirá algo mais a ser dito. As pessoas, as flores e o sol de cada manhã perseguem o fim do dia. Preparam a noite em rascunhos de esquiva. Quando Rilke diz "estar cada vez mais convencido de que não se refere às coisas, e sim aquilo que elas fizeram dele", desveste-se aos olhos da amada.

O desatino da paixão compõe ritos para revelar a harmonia em todas as coisas. Ânimos de poetar reflexivo ao encanto de recordar. Sugere conversar com sua musa, no entanto, parece falar para si mesmo.

A mensagem de Florença assim se diz: "A criação do artista é uma insígnia: a partir de seu íntimo ele exterioriza todas as coisas pequenas e efêmeras: seu sofrimento solitário, seus desejos vagos, seus sonhos angustiados e aquelas alegrias que perdem o viço. Aí sua alma se engrandece e torna-se festiva, e ele criou o lar digno para si mesmo".

No compartilhar das narrativas o pretexto se oferece em paradoxos de um amor viajante. O rosto esconde-se nas brumas da manhã preguiçosa. Devaneios instituem meias verdades, como uma fonte oculta pela sol. Integram-se nos relatos nem sempre próximos à literalidade dos fatos.

Ao poeta nada mais resta a não ser fazer da realidade uma poesia interminável.

Um dos trechos da diário pode elucidar para onde se dirige: "Desejo apenas, querida, peregrinar por tua alma, percorrê-la até o âmago, até o lugar onde ela se torna um templo. E lá quero erguer a minha nostalgia como uma custódia, que há de se elevar até a sua magnificência".

Pensando bem, não se trata de uma epistemologia qualquer, as poéticas estão muito próximas à desrazão.

A obra de arte do autor ensina, socializa e restitui algo que parecia perdido: ao narrar-se entremeios das viagens, recorda antigas idéias de mudar o mundo, desconstrói as lógicas da certeza e convida a um passeio por seu ser sonhador.

Nas páginas seguintes desnuda-se ao refletir sobre as obras da cidade: "Pensei que traria para casa alguma revelação sobre Botticelli ou sobre Michelangelo. No entanto, trago apenas notícias a meu respeito, e são boas notícias."

A descrição concede vislumbres dos rastros esparramados pelo caminho. Depois disso seguirá com ele em busca de outras pousadas. Rilke não diz apenas de si ao descrever as paisagens a sua amada, reinventa o mundo inteiro, ao tornar-se cúmplice daquilo que não pode ser esquecido. Assim, recria as cores, formas e adereços na provisoriedade dos seus escritos.

Talvez um novo refúgio às modificações da alma. As distâncias encontram na palavra uma aliada para desarticular lonjuras. Saudade re-significada no presente das paisagens ao redor. As vontades apreciam restituir pela saudade a fonte de onde tudo partiu.

*Hélio Strassburger
Filósofo Clínico
Coordena a Filosofia Clínica na Casa de Saúde Esperança e Secretaria Municipal de Saúde Mental em Juiz de Fora/MG e São João del Rei/MG, respectivamente. Diretor do Instituto Packter.

quinta-feira, 9 de setembro de 2010

CASAMENTO DESCARTÁVEL

Ildo Meyer
Médico e Filósofo Clínico
Porto Alegre/RS

“Eu os declaro marido e mulher até que a morte os separe”.

Religiosos de todas as crenças, espalhados pelo mundo e por toda a história repetiram e repetem esta declaração na celebração de união entre dois amantes. As estatísticas estão ai para mostrar que mais da metade dos casais não cumprem estes votos. Mas nem sempre foi assim, casamentos costumavam durar por toda a vida.

Durante quase toda a história da humanidade, as pessoas morriam antes de completar 30 anos de idade. Assim, casamentos tinham uma duração máxima de quinze anos, ou seja, quase toda uma vida. Quando as pessoas não morriam por doença, as guerras faziam sua parte, deixando viúvas jovens e crianças órfãs.

Além disso, o respeito pela religião e pela opinião alheia era muito grande, poucos ousavam desafiar os Deuses e a sociedade cometendo o pecado de dissolver um casamento. Mesmo com relacionamentos amorosos emocionalmente arruinados, casais permaneciam juntos até o final de um dos cônjuges. “Casaram e foram felizes para sempre”, final glorioso de livros e novelas no passado, começou a não funcionar na vida real.

Os últimos 50 anos transformaram o mundo. A expectativa de vida dobrou. A medicina trouxe tecnologia de vacinas contra o câncer, transplantes de órgãos e células tronco, marcapassos anti-depressão, medicamentos anti-envelhecimento, cirurgias estéticas, diagnósticos precoces.

Estudos demonstram a possibilidade futurista de homens de 130 anos de idade, com energia e potencialidades físicas semelhantes as de um adulto contemporâneo de 50. Diferenças de idade superiores a 50 anos não serão problema para futuros casais.

Mudanças no estilo de vida e nas crenças também aconteceram, e a devoção religiosa já não é a mesma. E muito mais está por acontecer. Sem o vértice do pecado e com possibilidades centenárias de vida, homens e mulheres não estão conseguindo mais se manter casados. Monogamia e Perenidade são achados arqueológicos.

A grande dificuldade da evolução é do ponto de vista psicológico. O ser humano não está nem um pouco preparado para a velocidade e magnitude das modificações que aconteceram e das que estão por vir.

O conhecimento médico duplica a cada cinco anos, computadores ficam obsoletos em dois anos, vestidos saem de moda em três meses, revelações fotográficas são instantâneas, lentes de contato são descartáveis, relacionamentos duram uma noite.

O cérebro humano não consegue acompanhar a velocidade da evolução tecnológica. Sentimentos, emoções, crenças, preconceitos não andam tão rápido e também não são descartáveis como sapatos, garrafas e vestidos.

De um lado perspectivas infinitas de futuro e de outro crenças trazidas de nossos antepassados. De um lado casamento eterno, de outro, relacionamentos descartáveis.. Uma perna no passado, outra no futuro, e a cabeça no presente, sem saber para que lado ir. Confusão total.

Não podemos culpar o amor. Grande parte dos casamentos acontecem por paixão e são desfeitos sem nunca chegar perto do amor. Outros casais embora se amando profundamente, não conseguem conviver e terminam por separar.

Separação com amor dói muito, e é o que está lotando consultórios psicológicos, causando depressão e deixando milhões de pessoas culpadas, frustradas e solitárias. Talvez não seja o fim do amor o grande vilão dos divórcios. Talvez a descartabilidade, a sedução das possibilidades e a falta de paciência tenham mais responsabilidade na confusão gerada entre casais do que a falta de amor própriamente dita.

O estilo de vida moderno, retirando do casamento a pesada carga emocional e responsabilidade social de “ser para sempre” e de “ter de ser feliz”, não pode ser considerado um sacrilégio. Milhões de casais tiveram a oportunidade de refazer suas vidas.

Não podemos fechar os olhos para a evolução. Não podemos frear o progresso. Se a mentalidade moderna exige este comportamento, não podemos ignorá-lo. O verdadeiro crescimento consiste em aumentar a bagagem de conhecimentos e experiências com uma base forte para sustentá-las. Se não houver raízes, não podemos crescer. Nem tudo poderá ser descartável.

A sustentabilidade das relações hoje em dia não está mais baseada em crenças e novelas. Também não está presa a leis ou religião.

A responsabilidade e as atitudes são agora os determinantes de uma relação estável. A melhor maneira de algo ser duradouro é se renovando dia após dia. O segredo para um casamento eterno é descartá-lo logo após uma maravilhosa noite de amor, para reconquistá-lo na manhã seguinte. Descartar com consciência, conquistar com responsabilidade, amar com paixão. Um dia chegamos lá!

quarta-feira, 8 de setembro de 2010

Sábados Psicofilosóficos

Organizadora: Rosângela Rossi
Psicoterapeuta e Filósofa Clínica
Sociedade Brasileira de Harmonização da Bioenergia
Juiz de Fora/MG

ENTRADA FRANCA (para os que se inscreverem)

Encontros Fenomenológicos

“Sempre é tempo de refletir e qualificar nosso existir, sentir e pensar. Bom fazer e encontrar amigos. Quer compartilhar conosco? Vai ser um prazer recebê-lo para uma tarde gostosa de poesia, música, filosofia, psicologia e arte. Confira os temas e as datas e se inscreva com antecedência”.

23 de outubro:

“Contribuições da fenomenologia sobre a compreensão do corpo: ao redor e com os corpos”

Com Prof. Dr. Wesley Dourado – Filósofo, Coordenador do departamento de filosofia da UMESP, Faculdade Metodista de São Paulo.

20 de novembro:

“A Fenomenologia e o Sentido da Vida”

Com Prof.Dr. José Maurício de Carvalho - Psicólogo e Filósofo Coordenador do departamento de filosofia da Universidade Federal de São João Del Rei

6 de dezembro:

“Fenomenologia do Divino: os atributos de Deus”

Com Prof. Dr. José Carlos Lima da Motta – Juiz do trabalho, Professor da Faculdade de Direito Doctom e teólogo.

Local : Sindicato do Comércio. Avenida Rio Branco 2588-5º andar

Horário dos eventos de 15 às 18 horas nos sábados mencionados acima.

Informação e Inscrição: confirmação por e-mail ou pelo telefone (32)32139910

Vagas limitadas. Confere certificado. Apoio: Rede Sempre

terça-feira, 7 de setembro de 2010

Filosofia clínica: retomada do olhar filosófico

Miguel Angelo Caruzo
Filósofo Clínico
Petrópolis/RJ

“Somente quando a estranheza do ente nos acossa, desperta e atrai ele a admiração. Somente baseado na admiração [...] surge o ‘porquê’. Somente porque é possível o porquê enquanto tal, podemos nos perguntar, de maneira determinada, pelas razões e fundamentar. Somente porque podemos perguntar e fundamentar foi entregue à nossa existência o destino do pesquisador.” (HEIDEGGER, Martin. O que é Metafísica?. Col. Os pensadores. São Paulo: Abril Cultural, 1973, p. 242.)


Hoje a filosofia acadêmica ensinada nas faculdades e universidades tende a ser uma grande assimilação dos conteúdos escritos dos pensadores que nos precederam. Heidegger nos advertia em suas obras sobre a possibilidade mais comum entre os homens, que é o de estar na inautenticidade.

Esta consiste no olhar derivado do mundo, na perspectiva mais cotidiana, vivendo segundo o que “se diz”. Ao contrário da autenticidade, que se dava com o olhar mais voltado para o espanto e admiração diante do que nos rodeia ou constitui nossa existência, partindo para uma experiência mais pessoal e profunda.

A inautenticidade na filosofia se mostra costumeiramente quando ao ler um filósofo, nos contentamos em compreender o conjunto de palavras escritas no livro. Mesmo que o significado de sua lógica escrita tenha ficado claro para nós e possamos até passá-los adiante, isso não é filosofia.

É falar da referência feita pelo filósofo sem, contudo, voltar-se para o referenciado de fato. Ou seja, se fala de uma flor a partir de tudo o que foi escrito sobre ela, mas, não é aguçado o olhar quando, ao deixar o texto, se observa uma flor no cotidiano.

A autenticidade heideggeriana trata evidentemente de instâncias bem mais profundas. Mas, para a compreensão nossa, vamos pensar mais concretamente.

Quando Heidegger se refere ao espanto e admiração da realidade, ele nos remete à experiência da própria vida. Um filósofo não escreve para nós ficarmos “divagando” sobre a composição de sua estrutura escrita.

Escrever é posterior ao filosofar, ao pensamento. Primeiramente, o filósofo dá-se conta de algo, isso o causa certo espanto; em seguida, com admiração própria de quem se depara com o que estava velado no cotidiano, tenta compreendê-lo e, somente depois disso, se põe a escrever.

Portanto, seu escrito é uma busca para que nós nos voltemos para o que ele observou, para o objeto de sua experiência. Cada filósofo nos propõe um caminho para sua experiência, e seus escritos são meios e não fins em si mesmos.

Lúcio Packter, pensador da filosofia clínica, talvez possa nos ajudar nesse caminho. Por meio da filosofia clinica podemos deixar a massa inflexível de nossas buscas filosóficas de compreender o mundo, e nos voltarmos para um sistema que aguça nosso olhar sobre o mundo que nos cerca.

Desde Sócrates, a filosofia busca a compreensão partindo do homem. E a filosofia clínica parte desse grande mistério que é a humanidade. Mas, não busca estereotipá-la com definições pré-concebidas ou generalizar o ser humano em uma espécie de gavetas prontas, nas quais podemos colocar cada pessoa segundo um aspecto mais generalizado.

Heráclito nos apresenta o devir. Eis uma possibilidade de abertura para a compreensão do mundo: “ninguém entra no mesmo rio duas vezes”. Tudo muda. Não há fórmulas definitivas nem opções perfeitas.

Os livros de auto-ajuda se multiplicam e os problemas humanos continuam. Talvez os mais beneficiados com a venda desses livros sejam os autores, os editores e as livrarias. Digo talvez, pois, para algumas pessoas as dicas podem funcionar.

Seguindo o raciocínio do devir heraclitiano, Heidegger, utilizando a perspectiva grega sobre o que é a verdade, apresenta o desvelar.

Segundo o filósofo da Floresta Negra, nos abrimos à manifestação do ser que se mostra e, ao buscarmos definições que mais limita e afasta a significação do desvelado, o mesmo ser se esconde. É a dinâmica do movimento. Não há fórmulas definitivas. Podemos nos abrir ao devir do que se mostra a nossa frente, e apenas no movimento do espanto e admiração, mantermos nossos olhares aguçados para o amor ao saber.

Filosofia clínica é uma grande possibilidade, não definitiva nem única, para aguçarmos o olhar sobre esse desvelar de uma humanidade que pede ajuda, mas, está cansada de fórmulas prontas. A felicidade, busca de muitos humanos, tem significados diferentes. E não nos cabe julgar o certo e o errado. Cabe a nós apenas auxiliá-los em suas realizações. Não temos a verdade absoluta.

Nosso pensamento somente concebe o perfeito no pensamento, quando de fato o que vemos é movimento, é o devir.

Observar os homens a partir da filosofia clínica, nos tira da ótica da busca por mudar o mundo e nos propõe uma admiração pela busca e história da cada ser humano para sua vida.

O respeito que a filosofia clinica nos incute, leva-nos a ser mais contemplativos da humanidade, do mundo, e menos manipuladores com nossas fórmulas prontas para “engavetar” cada tipo que encontramos.

O caminho proposto por Packter é o do olhar para o que desvela, para o devir do que se mostra. Não o do olhar petrificado dos escritos que são vistos em si mesmos como o contemplado pelo filósofo.

Portanto, possa a filosofia clínica tornar-se mais conhecida a fim de que os olhares sejam mais filosóficos e menos pedantes. Que nossas universidades se abram cada vez mais a esse novo modo de ver o mundo, sobretudo, a humanidade, e conduzam os alunos para além dos sistemas escritos, aguçando-lhes o olhar para o que de fato os filósofos perceberam.

Que a abertura filosófica ao mundo, ao homem, à existência, seja o princípio do filosofar autêntico, espantando-se com o que vê com admiração e busca por compreensão.
Informativo do site da Associação Catarinense de Filosofia Clínica
Florianópolis – SC

Convidamos os leitores para as palestras de Bruno Packter nas Livrarias Catarinense.

Tema: Conversações sobre Filosofia e a Filosofia Clínica

Datas: 09 e 30 de setembro
Horário: 19h30
Local: Beiramar Shopping (Piso Joaquina, lojas 247 e 248)
Rua: Bocaiúva, nº 2468 - Centro
Florianópolis - SC

Atenciosamente,
Associação Catarinense de Filosofia Clínica
CAFÉ FILOSÓFICO: "POESIA E FILOSOFIA: MAIS QUE UMA RIMA?"

Tema: "Poesia e filosofia: mais que uma rima?"

Custo: 2kg de alimento não perecível, exceto sal, farinha e fubá.

– Prof. filósofo e terapeuta Will Goya, mestre em filosofia política (UFG) e filósofo clínico pelo (Instituto Packter/RS).

Convidados:

Profa. Gabriela Azeredo Santos, mestre em letras: literatura e crítica literária (PUC-GO), especialista em literatura brasileira (Univ.
Salgado de Oliveira), professora na Faculdade de Letras da UEG e no curso de Serviço Social da UFG.

Profa. Dra. Célia Silva, mestre em literatura (UFG), doutora em literatura (UFG) e professora da Faculdade de Letras da UFG.

DATA DO EVENTO
12.09.2010

HORARIO DO EVENTO
17:00 hs - 19:30 hs

LOCAL
Bolshoi Pub, situado na rua T-53/T-2, n° 1140, Setor Bueno, em Goiânia. (62) 3285-6185

segunda-feira, 6 de setembro de 2010

Eternidade interrompida

Luana Tavares
Filósofa Clínica
Niterói/RJ

Morrer é preciso... tão preciso quanto necessário. Morremos a cada momento através da eternidade; vivemos pela sua possibilidade. Somos impotentes diante do tempo, mas detemos a condição incontestável de exercer a vida. Direito este nem sempre exercido, mas que na maior parte das vezes é reivindicado.

Prescindir dele pode significar perdas incomparáveis para alguns; outros, porém, necessitam ter seu tempo supostamente abreviado... quem pode saber?

Na existência, talvez nada possa ser predeterminado. Apenas intuímos o porvir, que nem sempre se manifesta por um caminho esperado. O inusitado provavelmente está a nos esperar depois daquela curva, como um prêmio atento às nossas necessidades.

Podem acontecer imprevistos, surpresas, desvios e até o rigor de um traçado delineado. Cada fibra se desvela e se revela no desenrolar de uma rotação. O dia se inicia para alguns, mas apenas acontece para outros. A eternidade, porém, transmuta tudo, até o mais simples desejo a ela se rende. Pode ser que tudo realmente se realize. Mas pode ser que não...

Os traços da imortalidade de cada um se exercem pelo tempo, pelo espaço, pelo que há de mais importante, pelo que se acredita, pelo receio de que nada aconteça como previsto, pelo improvável. Não há garantias na caminhada, mas igualmente não há contemporizações que impeçam o perpétuo, contínuo ato de caminhar. A eternidade pode estar contida num olhar, num sorriso, numa lágrima, numa dor...

Pode estar ausente de si mesma e ainda assim nos lembrar da existência efêmera, fugaz... tão fugaz quanto nossos dizeres, que se lançam como flechas em direção ao próximo encontro. Encontro este que pode ser com o outro, consigo, com ninguém...

A imortalidade dança em nossos sonhos a perpetuar o infinito, nos mantendo vivos, ainda que em estado de suspensão perene. Talvez sejamos perenes para Deus... mas talvez sejamos apenas um ponto vago num organismo maior, ou talvez não sejamos nada. Não importa, pois, no instante em que acreditamos, podemos ser tudo.

Tudo na finitude nossa de cada dia, sem perdas, sem danos, sem dúvidas, sem temores... O que importa realmente é perscrutar o tempo de nossa eternidade, pelo que entendemos como tal, ainda que esta seja interrompida a cada morte e vida cotidianas, por meio dos atos singulares que nos permitem simplesmente ser, na plenitude da razão que nos suporta.

Mas não vamos esquecer que isso pode importar somente para alguns; para outros, mais vai valer sentar na beira do caminho e observar a vida passando, através tão somente do mecânico ato de existir, sem ressalvas ou pretensões. O agora pode ser somente um suspiro da eternidade que parou para descansar.

sábado, 4 de setembro de 2010

O instante aprendiz*


"Todas as coisas são de tal natureza que, quanto mais abundante é a dose de loucura que encerram, tanto maior é o bem que proporcionam aos mortais."
Erasmo de Rotterdam


Ao esboçar apontamentos sobre uma lógica da loucura, um viés de absurdidade se desvela em estilhaços de múltiplas faces. Fronteira onde a normalidade se reconhece nos seus paradoxos.

Uma das características da expressividade delirante é ensimesmar-se em desacordo com o mundo ao seu redor. Cria dialetos de difícil acesso, para proteger versões de maior intimidade.

O papel da Filosofia Clínica na interseção com a crise imediata, também é apresentação indeterminada num processo caracterizado pelo exagero da manifestação partilhante.

Um não-saber veicula provisórias verdades no compartilhar desconstrutivo das sessões. Representações existenciais difusas se alternam em narrativas no tempo da pessoa. A linguagem da loucura se constitui em um conjunto de convivências estapafúrdias.

O ponto de partida é a extraordinária língua da pessoa estruturada nalguma forma caótica.

Ernst Cassirer refere:

"Há coisas que, em virtude de sua sutileza e sua infinita variedade, desafiam toda tentativa de análise lógica. E, se existe no mundo qualquer coisa que devamos tratar da segunda maneira, é a mente do homem. O que caracteriza o homem é a riqueza e sutileza, a variedade e a versatilidade de sua natureza."

Os rastros da diferença podem deixar pistas nos termos agendados, na incompletude discursiva ou desestrutura pessoal.

O Filósofo Clínico se faz aprendiz, na interseção com as lógicas do extraordinário. Sente, ouve e percebe as inéditas formas de conversação, por onde a pessoa exibe contextos ainda irreconhecíveis.

Mais que um caminho de regresso às anterioridades, também possível, trata-se de uma iniciação no mundo partilhante. Investigar reflexivo e compartilhado das descontinuidades, rupturas e esteticidades entrevistas na busca de algum conforto existencial.

No início da clínica trata-se de fazer imersão na condição dessemelhante do sujeito e conhecê-lo em versão própria. Preliminarmente, se tem um interesse na expressividade e desdobramentos desses álibis da crise. Não se oferece conselhos, fórmulas prontas ou alguma leitura dos clássicos.

Na estrutura de pensamento refugiada em si mesma, a confusão pode embrenhar-se em episódios distantes da objetividade social. Um misto de assombro criativo alterna formas nas inconfidências da surpresa narrativa. Fundamentação prática para uma epistemologia da loucura.

Tzvetan Todorov assim se manifesta: "O fantástico leva, pois, uma vida cheia de perigos, e pode se desvanecer a qualquer instante. Ele antes parece se localizar no limite de dois gêneros, o maravilhoso e o estranho, do que ser um gênero autônomo."

As sínteses dos sobressaltos nem sempre são favoráveis à fluência dos convívios. Um discurso imprevisível amplia intermédios de excesso e aparente sem rumo.

Os manuscritos refeitos com as lógicas do delírio possuem característica plural. No devir instável um adorno de escassa nitidez insinua conjecturas de longo alcance.

O papel existencial cuidador aprecia decifrar esses subúrbios e margens improváveis por onde a pessoa desloca-se em seu singular desassossego. Nesse sentido, o cotidiano do Filósofo Clínico se apresenta como um interlocutor de raridades.

Roteiro de início sem-fim entremeios de razão e desrazão. As alegorias podem constituir uma linguagem incrível. Ao ser terapeuta restam as variadas traduções, na parcialidade das buscas para acessar o extraordinário desconcerto dessa formas de existir.

O ser dissonante desaloja verdades de sentido único. Atualiza, de forma estapafúrdia, uma crítica reflexiva sobre o aspecto bem acabado dos convívios normais. Quando não está alheia ãs coisas ao seu redor - a loucura - aprecia medir forças com sua fonte de inspiração: a normalidade.

Um viver clandestino mostra engenhosidade em um corpo que não lhe pertence com exclusividade. O viés pessoal delirante reanima-se na dessemelhança com os artifícios da realidade fingida.

*Hélio Strassburger
Filósofo Clínico
Coordena a Filosofia Clínica na Casa de Saúde Esperança e Secretaria Municipal de Saúde Mental em Juiz de Fora e São João del Rei/MG, respectivamente.

sexta-feira, 3 de setembro de 2010

Mudança

Idalina Krause
Filósofa Clínica
Porto Alegre/RS

Mu continente perdido. Mu estrêla entre Marte e Júpiter.
Muda planta jovem, incertos brotares...
Dança passos cênicos, coreografias recicláveis.

Assim entre devires despejo sonhos, sobre meu corpo exausto.

Movimentos rotação, translação, giros, fontes ilimitadas. Mutantes ocasiões, silêncios transplantados, aterramento equatorial sufocante. Suspensos pés alados, lavados por frescores noturnos.

Fonte amada te busco! Me refaço, somente tu conheces minha nudez de onde meu sangue brota.

quinta-feira, 2 de setembro de 2010

Não dá pra arrumar

Rosângela Rossi
Psicoterapeuta e Filósofa Clínica
Juiz de Fora/MG

Haja livro espalhado por todos os cantos! Amo os livros! Amigos de todas as horas. Meu sagrado vício.

Penso sempre, um dia vou arrumar minha biblioteca. Ah! Até parece que isto vai acontecer um dia, diz outro lado meu.

Cada livro me convida a mergulhar nele para refletir e navegar por mundos antes não pensados.
Por em ordem? Para que, se eles falam de mil coisas que me fazem muitas vezes ficar confusa.

Aprendi com eles que o Caos é Cosmos. Que o certo pode ser errado. Que tudo pode ser nada. Que a perfeição pode ser um grande engodo. Que bom que eles me ensinaram que posso ser imperfeita, angustiada e livre.

A bagunça eterna de minha biblioteca me permite, como agora sentar frente a porta de vidro e ver lá fora as orquídeas explodindo em forma desordenada em sua estonteante beleza ao lado da estátua de Afrodite que serenamente observa a jardim de primavera. Ah! Vida desordenadamente bela para quem se permite ver e ser.

Que Freud e psicanalistas me perdoem, mas não há interpretação para esta sagrada desordem. Lúcio e Hélio, mestres da Filosofia Clínica, compreendem bem nossa singularidade. Podemos ser como somos sem regras e prejuízos.

Rio quando olho as contradições dos temas a minha frente. Um livro sobre Jesus, outro Anti-Cristo do Nietzsche a darem as mãos esperando sem se preocuparem com minhas reflexões. Posso pensar diferente deles. Que bom! E quanto mais leio menos me preocupo em copiar idéias, sei que nada sei, mas posso pensar por mim mesmo, sem me preocupar com críticas. Viva a liberdade do pensar criativo!

Bem, lá fora os pássaros cantam me convidando a caminhar a ler a vida como ela é. Que biblioteca mais rica e desordenada que é a vida! Uau! E minha biblioteca continuará sempre desorganizada como a vida. Amém!

quarta-feira, 1 de setembro de 2010

Quanto evitar um problema significa resolver*

Lúcio Packter
Pensador da Filosofia Clínica


Há questões na vida construídas de tal forma que a abordagem direta se torna inviável. Exemplo: a pessoa perdeu alguém que ama e tratar diretamente desta perda é insuportável para a pessoa. Não existe um modo direto e óbvio de tocar no assunto com ela.

No consultório esta manifestação aparece de vez em quando. Assim como alguém que danificou a pele e não suporta um toque direto sobre ela, há quem tenha se magoado na malha intelectiva de tal modo que não pode mais falar ou pensar sobre o que houve.

Em Filosofia Clínica estudamos caminhos para a consideração deste fenômeno. Pesquisamos desde a natureza até os encaminhamentos do assunto.

Verificamos se de fato é necessário lidar com isso, se não é o caso de deixarmos de lado; verificamos se não é somente um sintoma de alguém anterior que merece maior consideração. Damos atenção aos conteúdos da historicidade de vida da pessoa até o aparecimento do problema. Trabalhamos diversos itens importantes.

Um dos modos que habitualmente costumam ser suaves no encaminhamento de questões contundentes que flagelam a alma diz respeito a abandonar o assunto e não se ocupar mais dele. Exemplo: no caso da perda de alguém que se ama, não tratar mais deste assunto, não fazer qualquer menção a ele.

Ocorre que muitas questões precedem a este posicionamento no consultório: saber se este abandono da questão não agravará o problema, entender se abandonar o assunto não é parte sintomática da questão, conhecer as premissas, avaliar as consequências.

O abandono de uma questão dolorosa com a qual não podemos lidar diretamente não se refere às questões que pedem apenas por tal ação para poderem se encaminhar naturalmente segundo um desfecho próprio. Aqui estamos tratando de um recurso que será imediatamente seguido de outro, profundo e essencial ao tema.

Como o filósofo clínico pesquisou detalhadamente a historicidade da pessoa, ele provavelmente descortinou diversos elementos atrelados à perda da pessoa amada, elementos estes que podem ser tangidos e articulados sem que se toque diretamente no fato da perda da pessoa amada, algo insuportável.

O filósofo então transita por estes elementos laterais, subjacentes, mas ligados ao cerne da questão, e estuda quais desenvolvimentos podem acarretar a modificação da questão em bases mais condizentes com o modo de ser da pessoa, com sua estruturação, com sua historicidade.

Em resumo, quais ações nos tecidos periféricos, mas relacionados ao núcleo da questão, uma vez instauradas promoveriam uma reacomodação nas raízes do tema tratado, a perda de uma pessoa amada, algo insuportável para a pessoa?

Teria sido uma ação semelhante a que Platão tomou quando da morte de Sócrates? Viajou, estudou, trabalhou questões outras até retornar para Atenas e retomar seu trabalho e o assunto.

É assim que no consultório, muitas vezes, a pessoa a quem atendemos inicia um curso de artesanato, sai para uma viagem de estudos para a Malásia, reforma seu apartamento, toma medidas e atitudes que em nada parecem ter relação com os problemas urgentes, e, no entanto, imediatamente, mostram capacidade para lidar com algo que até então era um entrave em suas vidas.

Há muitos caminhos, em geral, para a atividade em consultório. Abandonar a questão e trabalhar os elementos periféricos constitui um destes caminhos.

*artigo publicado na edição 49 da revista Filosofia, da Editora Escala.
Boa tarde amigos do cineclube audiovisUAI,

Escrevo para lembrá-los de acessar e ajudar a divulgar a programação do mês de setembro do cineclube.

Lembrando que este é um projeto social, sem fins lucrativos, aprovado e apoiado pelo Ministério da Cultura e pela Prefeitura Municipal de São Tiago- MG.

Acessem e enviem o site para seus contatos www.cineclubeaudiovisuai.webnode.com.br ou mandem e-mail para cineclubeaudiovisuai@gmail.com .

Abraços,

Mariana S. Fernandes (Coordenadora do Cineclube AudiovisUAI)
Filósofa Clínica