quinta-feira, 30 de setembro de 2010

Pequeno Ensaio Literário sobre Poemas Filosóficos[1]

Will Goya
Filósofo clínico
Goiânia/GO

O mundo está escrito, ou por escrever.

Enquanto pensamos, somos todos prisioneiros da linguagem, e apenas livres para nos expressar através dela. Além disso, nem um só pensamento, nada pode ser dito.

Até a morte, a recusa... e o silêncio proposital nos instruem, comunicam suas intenções. Entretanto, se há quem expresse apenas seu dogma, seu eu e sua solidão, há quem deseje o diálogo, todas as formas de “escuta”, de respeito e proximidade.

Quem prefira a escrita, a literatura, faz da liberdade uma palavra, um jogo de entendimentos entre signos e sintaxes, e está obrigado a nela pôr um significado para o leitor através de muitas outras palavras; obrigado a encontrar na gramática, na semântica, em toda a cultura, o que só os cultos entenderão.

A palavra escrita só encontra sentido quando se casa consigo mesma. O mundo não tem sentido, apenas existe. Uma maçã é 1 maçã, sem dúvida! Cada mordida é um novo saber. Mas, se “uma rosa é uma rosa é uma rosa...”[2] – como dizia Gertrude Stein –, então o que seria o conceito universal de “a maçã”? Ou, se a palavra se refere à coisa, a quais exatos objetos se referem os termos “sarcasmo”, “filantropia”, ou o verbo “estabelecer”?

Alguns pensam: “é fácil falar de mim, difícil é ser eu”. Ledo engano, pára-choque de caminhão. Quem teria a facilidade de Vinícius de Morais para saber descrever uma das experiências mais básicas e conhecidas de cada um de nós, como revela o título do seu famoso poema “Da Solidão”?

Quem saberia falar a verdade sobre as próprias mentiras? Sobre as contradições, sutilezas, fragmentos, memórias de cheiro, fantasias... sobre os desejos ocultos do corpo e outros tantos mistérios de si mesmo?

Depois, parecem ser naturais termos idéias e emoções confusas, distantes e mal combinadas entre o que pensamos, o que sentimos e o que de fato somos e fazemos de nós mesmos. Haveria sensibilidade e conhecimentos de linguagem suficientes?

As palavras das delicadezas, das coisas e movimentos, os termos das grandes aprendizagens... enfim, tudo o que é pronunciado na vida só é compreendido se explicadas suas complexas e belas estruturas lingüísticas. Um poema não existe apenas, tem sentido. É uma competência. Não é, pois, correto dizer que um olhar sempre vale mais que mil palavras; dizer que as palavras são pobres e a boca pode menos que os olhos.

Acreditar nisso é nunca ter lido, por exemplo, Paul Valéry, André Gide, José Saramago ou Kalil Gibran. É também só “ter ouvido falar” de filósofos como Aldous Huxley, Bachelard, Sartre ou Camus.

Não haveria o nosso mundo conhecido, não houvesse literatura. Em que pese a isso, sempre haverá mais coisas que palavras, mais mistérios e mais desentendimentos. Dizer que as palavras são inúteis quando o olhar não diz nada poria fim ao imenso valor do diálogo.

Em geral, quanto maior o silêncio mais a ansiedade se acumula de interpretações e perigos; quanto mais firmes verdades o olhar carrega menos se escutam as palavras contrárias, calando a relação. Não raramente, problemas de diálogo se resolvem com mais diálogo.

Se é verdade muitas vezes que um olhar diz mais que mil palavras, igualmente, que se aprenda com as palavras de Guimarães Rosa a se ter outros mil olhares sobre a vida e o mundo, e saber ler com os olhos dos outros. Quem saberia ver – além de meras terras secas – as belezas, o espírito e a tragédia do Grande Sertão brasileiro sem as palavras de Rosa? Afinal, “o sertão está em toda parte...”[3].

Guimarães é exemplo vivo de um escritor cujas palavras têm o poder de dar vida a um ser, a um drama interior comum a todos nós, na medida em que as reflexões do personagem são capazes de dar ao leitor um novo olhar. Parece-me impossível ler Guimarães Rosa, com um interesse de alma, e em nada se modificar depois da leitura. As palavras também dizem mais que mil olhares. Quem souber todas as letras, fonemas, propósitos e pontuações, que veja.

Quando filosofia é literatura, a verdade é a trama da palavra, toda sua força, seu impacto, seu temor. Logos, a verdade, e tudo o que se diz ou se quer dizer reclamam intimidades vivas com a língua. É história. Verdade é um diálogo inacabado.

Se a palavra está definitivamente posta, impressa, sem conserto, ainda assim nada está perdido. Sempre haveremos de dialogar com o texto. Nem o próprio autor se pertence escrito, exclusivamente. Sua língua é de todos. Não há autor sem co-autoria; texto sem contexto.

Muitas vezes, quando nos falta o léxico, é a palavra não-dita, articulada e negada, que mais bem preenche o sentido, o enunciado da frase. São os gestos e termos da vida. Propositadamente, e não raro, a literatura é assim. Por que a verdade haveria de ser diferente na filosofia se a vida é a mesma?

Sem dúvida, a literatura decifra mais idéias, concebe mais realidades do que a filosofia é capaz, pois somente a arte consegue ser coerente com a vida sem deixar de ser contraditória. O que é verdade literal nunca é literatura.

Então, onde está o sentido de verdade da palavra escrita por outra pessoa? Em nenhum lugar se não houver leitor. Não se faz uma prece repetindo a oração. O poeta sente seus pensamentos, e quando deseja pensar em dizê-los, sonha com palavras escritas. Embora as palavras sejam comuns a todos, cada um as mastiga com um sabor próprio.

Como se pode alimentar de poesia a palavra de quem lê, se os significados da sensibilidade só foram escritos graças à estranha força da intimidade única de uma outra experiência pessoal? Escrever um poema é tirar da boca a fome de quem se admira das coisas absolutamente comuns, das emoções que atravessam como um rio profundo um dia simples, completamente natural, mexendo os detalhes da existência... e depois de tudo o que se acumula, de toda a solidão que não pode ser dita, angústia ou felicidade, deixar o leitor sozinho diante do poema.

Poetas e filósofos procuram nos livros o que encontram nas pessoas, mas com uma virtude bastante incomum: sabem que grandes almas podem estar em vários lugares ao mesmo tempo, em outras épocas, e habitar diferentes corpos, diferentes livros. Estamos mal acostumados a pensar que encontramos alguém só porque lhe vemos a pele com recheios.

Um livro é um corpo habitado por uma alma, ou mais; é um corpo tatuado de pensamentos. Há os que vivem cada palavra que dizem, mas preferem se relacionar por escrito; e assim o que têm de mais íntimo, de mais profundo e verdadeiro, talvez ainda viva e dialogue por séculos, com milhares de pessoas, uma a uma.

A literatura será filosofia, penso, se alguma mágica competência, talento reconhecível, mas de todo inexplicável, levar o leitor a transformar seus vocabulários em conceito, palavras em idéias; a condensar intuições, vivências abstratas, instintos, desejos e emoções contidos no texto para identificar, descrever e, quem sabe até explicar a realidade das experiências dramáticas da vida.

Isso, para dar sentido, movimento e resolução, chegada a hora em que o leitor, perante suas escolhas, seja ele próprio o autor da resposta: “o que fazer?” A arte não imita a vida, é em si mesma uma das mais belas formas de experimentá-la. Não copia o que acontece ou o que poderia ter acontecido, mas ensina a viver e amadurecer em perspectivas desconhecidamente alheias.

Quando alguém se abandona aos sentimentos da leitura – romance, conto, crônica ou poema – pelas dificuldades que encerram ou que constituem a luta emocional de assumir por um momento como seus os sentimentos e as opiniões dos outros, personagens e autores, esse alguém, já não mais referência para si mesmo, e tendo eleito um não-eu para estar no mundo e conduzir seus sonhos, além de superar o egoísmo moral, agiganta-se ao tornar-se co-autor intelectual da imaginação, fazendo de seu não-eu um eu melhor.

Não há um texto literário cujo fim não seja o mesmo: o leitor.

Filosoficamente, entender o outro é pensar por si próprio e reconhecer as diferenças. É fazer ser outro depois da leitura; fazer da leitura uma vivência dramaticamente real, e de cada livro uma nova vida. Essa é a ponte mágica entre o que cada um é capaz de ler e a universalidade escrita da experiência filosófica e literária, e pode levar a filosofia e a literatura a, razão do que têm em comum, por isso, se confundirem.

Sim! A literatura pode ser, entrelinhas, filosofia. Entrelinhas são pensamentos, interpretações de quem lê.

Mas, de qual autoria? A quem pertence, originalmente, a idéia subentendida? Quanto maior for a cultura literária, menos títulos e mais autorias; quanto maior a inteligência filosófica, mais humildade e diálogos. O que sei é que o espaço “entrelinhas”, de uma boa literatura, não é o que separa, mas o lugar onde o leitor pode se encontrar com os dramas de sua época, e com os próprios, com as afinidades e dessemelhanças para com o escritor (mesmo seja este os dois) discutindo autorias...

Há críticos que dizem nada poder se falar DO texto que não esteja NO texto, que não há entrelinhas. Teóricos da objetividade, fiéis ao método e adeptos das análises intrínsecas, podem e devem garantir um conhecimento rigoroso – o que não é pouco. Mas, se a tradução exata de uma língua para outra, palavra por palavra, quase sempre trai a verdadeira mensagem, aquilo que não está diretamente expresso num texto, num tempo e lugar, deve ser cuidadosamente lido, transcrito e versado para sua nova circunstância, com naturais perdas e vantagens.

Assim, quando um leitor substitui a unidade da palavra pelo conceito do léxico, ele descobre a idéia escondida, tal se como a literatura fosse um mapa, a verdade um tesouro e, entre linhas, talvez, o legado de alguma filosofia. Entre linhas existe a herança cultural da obra e o leitor, co-autores. Lugar em que não se caminha com segurança, talvez um dos mais honestos momentos escritos da vida em que a literatura e a filosofia deixam à imaginação, aos perigos e delícias da liberdade.

Quem saiba fazer literatura e filosofia ao mesmo tempo há de tentar ensinar verdades ocultando-as com palavras, atrás dos símbolos, substituindo a pedagogia da gramática pelos jogos de linguagem, a fim de que o leitor as encontre em seu próprio pensamento, reagindo. A lógica pode menos do que a realidade afirma.

Os clássicos foram tesouros da humanidade revelados. Os grandes espíritos dialogam com o futuro, ocultando-se no porvir uma parte essencial de suas idéias, conceitos da vida muito bem refletidos e elaborados, com justificativas cuidadosamente analisadas e postas em personagens, “falas” e “imagens”, cenários da imaginação.

Como não perceber que elas adquirem um sentido antes filosoficamente preparado? Esses gigantes não só conhecem a humanidade como também a inventam, criam novos valores, decifram realidades humanas, abrem ou preparam caminhos na ética, na ontologia, na política, nas dialéticas da racionalidade e em outros.

Após ler Água Viva, Fausto, O Alienista, A Metamorfose, o Livro do Desassossego, é de todo impossível negar a existência de uma autêntica filosofia de Clarice Lispector, de Goethe, de Machado de Assis, de Kafka e de Fernando Pessoa.

Há quem diga que não se faz filosofia em versos, nem o inverso; e que a poesia não é verdadeira, apenas bela (ou não). Prosa. Junto à poesia e à filosofia, no interior do poema e da tese, há fronteiras que precisam muitas vezes ser cruzadas para se vencer a crise generalizada dos enunciados e das narrativas, ou nada se descobrirá das belas tensões em que se constroem os discursos, as verdades e o sentido.

Um texto filosófico se dirige ao leitor para convencê-lo, persuadi-lo a filosofar, a criar idéias próprias. A idéia, ao servir-se de palavras para se exprimir, contorna, define e traduz um significado, e o nomina “conceito”. Quando desejo, estou subsidiariamente a pensar.

Capacidade de escolha em foco, carregada de apetites, apelos físicos, psicológicos ou morais. O impulso de natureza emotiva ou desejante é ele próprio um pensamento deliberado, que conduz a atividade mental para dar sentido a um objeto como idéia. Embora nem toda idéia seja emotiva, quase todas as emoções são pensamentos intencionais, com a única exceção, talvez, dos sentimentos místicos sem desejos, como a paz da meditação – metafísica do inefável.

Dessa forma, considerando que a raiz das nossas emoções é feita de idéias, isto é, que significam algo para nós, nada mais lúcido seja a filosofia bússola das nossas emoções, ensinando a sentir inteligentemente. Porque toda grande obra literária é uma profunda aula sobre a força dos desejos e as conseqüências existenciais das nossas escolhas, nada mais verdadeiro concluir que um clássico moderno e contemporâneo da literatura assuma pelo menos um clássico da filosofia. Mas, assim como as ciências vieram da antiga filosofia grega, cabe perguntar: de onde esta veio, se antes só havia artes e religião?

Sei que literatura e filosofia são coisas absolutamente distintas, no modo cartesiano, pois na literatura pode-se inventar e na filosofia tudo exige fundamentos para existir. Mas nem tudo é Descartes.

Também é verdade que Platão faz Sócrates refutar o seu detrator, o grande Aristófanes, e com ele toda a tradição grega, pondo fim à antiga literatura, à retórica, à poética, ao mito como base de explicação, propondo uma nova forma de pensar, falar e agir. Todavia, como negar, por exemplo, que o Fédon e O Banquete, não possuem em seus argumentos o estilo e a mais bela linguagem poética de sua época? A filosofia não negou a literatura, incorporou-a.

Se, de um lado a literatura é um discurso feito para despertar intensos sentimentos, a filosofia é o estudo da linguagem do pensamento, e mais. A filosofia deve subordinar os sentimentos a um raciocínio, mas seria a emoção ou a razão, a literatura ou a filosofia, ou ambos, o que melhor capta o conceito de uma idéia?

A resposta é individual, porque a vida também o é. Ninguém há de saber, nem de sentir pelo outro. No entanto, todo esse esforço de comunicar ao leitor a perspectiva de uma nova idéia sobre o mundo é pura linguagem. Muito arquitetural, a linguagem é uma inadaptação à realidade do instantâneo, do absolutamente simples e ingênuo. Um ligeiro “oi!” não está isento de significações secundárias, de interpretação e contextualização lingüística, de deciframento existencial e filosófico.

Análise feita, descoberta a intencionalidade oculta, pode querer dizer: “eu me sinto muito só, quero sua companhia, pois não sei mais o que é a minha vida... Preciso da sua ajuda!” Posso subverter a sintaxe, em aparente anarquia, reinventar o texto, o estilo, a estética e outros. Posso até reinventar a literatura...

Mas que filosofia honestamente conseguiria tocar a realidade inteira de um conceito vital com o uso exclusivo da razão pura? A filosofia não tem sequer essa pretensão, diria o filósofo alemão I. Kant. Vivesse mais dois séculos de uma civilização iluminista, ele teria percebido que a Razão aproximou-se do seu limite e entrou em crise.

E vendo o trágico diagnóstico da perda da possibilidade de um compromisso possível de nossas orientações fundamentais para a vida, entenderia que a autoridade da razão deve ser recuperada na historicidade do sentido, isto é, que a tarefa de auto-compreensão só tem êxito quando o homem se vê culturalmente, enquanto participante e intérprete da tradição histórica.

Filosofia é linguagem, é língua, é história.

Se eu quiser compreender um pensamento, um texto, ou a universalidade da experiência humana, devo aceitar a hermenêutica como filosofia prática. A hermenêutica possibilita reconstituir uma comunicação confusa; ela atinge, fere e revela os limites que separam a razão metódica dos dramas da vida.

Conquanto a filosofia analítica busque na linguagem do texto a unidade do significado, a hermenêutica filosófica trabalha com o sentido histórico; e ambas estão inseparavelmente certas, porque ao mesmo tempo em que a linguagem “quer dizer”, isto é, tem função semântica, ela também “é”, ou seja, é uma organização com concretude própria. Se algo puder ser compreendido será pela linguagem.

Logo, não só é possível uma filosofia poética, uma razão interessada e emotiva, como também é necessária. Mas, seria igualmente possível a existência de um poema filosófico? O poema não pensa a realidade como uma adequação entre a palavra-idéia e sua correspondente localização no mundo externo – quais certas antigas filosofias do realismo.

É algo diferente e mais intenso. Ele não representa mentalmente o mundo ou os objetos a que as palavras poderiam se referir, em nome da verdade. O poema é a realidade mesma com todas as nossas faculdades psíquicas e espirituais, e até com nossos corpos. O conhecimento agencia do interior a função da vida: uma idéia só existe para aquele que a vivencia. Uma idéia só existe como um fato.

A vida é a base para pensar, logo, o conhecer a ela se subordina.

Concordar ou discordar já é um engajamento, um compromisso, uma transformação e não um princípio teórico puro. Enquanto eu próprio não experimentar o sentido que entrego à notícia de que 2+2 = 4, isto pra mim ainda não será um fato, será apenas um desenho ou mancha sobre o papel, sem valor, tal como um cão que ao livro só fareja em busca de comida, mesmo que lá houvesse escrito onde se encontra enterrado o osso.

O conceito de número é um “número vivido”. Quando significativos, cada palavra, vírgula ou verso, são, de fato, uma respiração. O poema é um fato, pura realidade.

Logo, o poema não dá sentido ao mundo, ele é uma das expressões significativas do mundo. Quem cria novos significados para o amor através da poesia eleva o que se pensava e se sentia a respeito e, assim, evolui a pouca ou insuficiente maneira de antes amar. O grande poeta transfaz a antiga realidade moral criando um novo valor e conceito ético, quem sabe um comportamento. Faz o que pretende toda filosofia moral.

O melhor da poesia não nos eleva para um outro mundo melhor, antes e simplesmente prova o quanto o mundo – qual os poetas pertencem – neles evoluiu.

A poesia é superior e anterior à lógica. Disse superior, não melhor. Enquanto houver filosofia, muito há que se discutir, proclamar, defender e negar, porque injustiças, e afins, sempre existirão. Todavia, não há raciocínio que alcance as janelas dos sonhos – de uma a outra – por onde todos nós nos unimos ao céu, morada comum.

Se a humanidade não criasse o diálogo e, por meio dele, a literatura, não teríamos aprendido as racionalidades da filosofia. Desde as primeiras literaturas, as histórias, religiões e fábulas de mitos, foi pela linguagem poética que a palavra, pouco a pouco, legitimou a realidade do humano e se tornou a propriedade pública, ser do interesse político, do bem e da verdade. Do oriente ao ocidente, a história da inteligência deve à poesia.

Além disso, a matéria da filosofia é a mesma da poesia: o espanto da criação de um significado, o estranhamento do óbvio. Quando se escreve um novo significado para existência – seja pela literatura, adornando sentimentos e motivações vitais para o ser; seja pela filosofia, reinventando conclusões, análises e perspectivas – aprende-se a transformar impulso em direção, linguagem em necessidade.

Criar é especificar e promover as diferenças entre o antes e o depois. Aquele que é exatamente o mesmo após ler ou escrever nada fez se não do tempo a medida do próprio cansaço. Uma vida é pouco se repetitiva, e não haverá outra vida para quem não souber se recriar, ainda que reencarne mil vezes, preso ao karma da mesma consciência limitada.

Tanto a prosa filosófica quanto o poema criam conceitos na abordagem de idéias, afetos e impressões, estados de alma, de mundo e sociedade. Se a filosofia os cria pela força coerente dos seus argumentos, o poema o faz, geralmente, por associações semânticas, musicais e imagéticas. Conquanto a primeira convença e imponha a aceitação da realidade (não sem dor, muitas vezes); anti-didático, o poema trama o seqüestro das atenções e surpreende o leitor (ou o ouvinte) para, de repente, entregá-lo a si mesmo, refém, pasmo, sem explicação, ante a descoberta de que algo fundo se lhe modificou a percepção e o sentido da vida.

Muitas vezes a diferença entre prosa e poema não é suficientemente clara, existindo formas intermediárias. Cada vez mais, enquanto a prosa tende a poetizar-se combinando idéias com alegorias, símbolos, evocações da memória e do instinto etc., os poemas se aproximam da prosa literária pela renúncia aos esquemas métricos, rítmicos, estróficos, dando maior enfoque à realidade sentida e descrita artisticamente.

Assim como muitos romances podem ser tidos como poemas expandidos ou, ao inverso, um poema como um romance condensado, também muitas máximas da filosofia, sínteses de grande valor poético, poderiam ser facilmente tomadas como versos, como poemas.

Mas, filosofia e poema são coisas diferentes? A primeira diferença é um critério externo, formal e fácil de reconhecer: reside na presença ou não do verso. O poema é uma poesia em versos ou, pelo menos, em um só; enquanto a filosofia poética é uma dissertação racional, marcadamente desenvolvida pelo caráter demonstrativo, pelo rigor e coerência lógico-semântica.

Se, no entanto, o critério for interno, a diferença corresponderá à análise da intenção do discurso, seja na direção de uma finalidade “comprobatória” – filosofia –, ou no caminho de tornar a estrutura sintática um apelo à função “sugestiva” – poema.

Nem toda prosa é filosófica e nem toda filosofia é poética. A respeito, pode-se falar em filosofia poética, como uma prosa teórica inspirada no estilo literário, utilizando dos sentimentos e da criatividade para expressar idéias.

Também é possível falar em poesia ou, mais adequadamente em poemas filosóficos, ou seja, estruturas poéticas que hipoteticamente despertariam o ânimo para conseqüentes reflexões filosóficas. Algo diferente deste último – se não raro, improvável –, seria imaginar um poema não com adjetivação filosófica, mas com a substancialidade própria da filosofia; uma “filosofia-em-estrofes” de natureza dissertativa, uma grande e complexa seqüência estética de silogismos, cujas primeiras conclusões transformar-se-iam em novas premissas, verso a verso, reunindo o máximo da síntese poética e da objetividade lógica.

Não faço filosofia-em-estrofes. Escrever poemas filosóficos – propósito de muitos versos meus – é de tal competência que exige do poeta sua máxima capacidade de exprimir idéias por meio de palavras emotivas e sensitivas (embora haja quem prefira as duras e dolorosas, não mais fortes).

É preciso alguma sabedoria para identificar e distinguir as emoções, os comportamentos e as idéias comuns existentes entre os indivíduos, as classes e as diferentes culturas de uma época e região, sem o quê não se poderia fazer-se entender com uma linguagem adequada ao estímulo irresistível que desafia e envolve o leitor, prazerosamente ou não.

Naturalmente, aquém da sociedade, cada alma tem seus próprios labirintos a serem percorridos, e até os valores mais universais devem ser bem contextualizados.

Eu morro em cada poema, em cada artigo, livro, aula ou diálogo em que sou verdadeiramente capaz de produzir um novo significado de amor.

Aprendi com a poesia que se há amor, há verdades suficientes. Sinto que partes de mim morrem cada vez que eu renasço inteiro.

É como se minha existência, por alguns microinstantes, finalmente alcançasse todo o seu objetivo, a razão de tudo, e de alguma forma me provocasse aquela silenciosa gratidão de olhar a alma de todos os seres, desnecessitando palavras. Nesse momento, o ambiente mais próximo do meu corpo vira palco, e as intenções queimam. Morrer é-me o propósito da vida, renascer é o da morte. Só o amor permanece.

De todas, a poesia mais tocante é a que emudece, a que excede em significados para além dos versos, e transborda-se numa incompreensível sensação que ao mesmo tempo junta a coragem heróica de vencer a si mesmo, como também os maus e covardes, não obstante impõe com ternura a humildade capaz do auto-sacrifício pelos outros, quando nada podem. No grande poema, a palavra grita sem som, terminada a frase. É quando a vida faz sentido, sem explicação.

O bom poema filosófico é um bem moral supremo. Conquanto a filosofia reflexivamente queira a discussão, com análises quase intermináveis, o poema deseja o silêncio de quem já entendeu. Deseja a maior, e intraduzível, compreensão humana: a vivência íntima. Com menos palavras, maior síntese e ajuste, a estrutura poética é mais sábia, e fala o suficiente para calar o desejo de comentários. Qual filósofo foi alguma vez poeta assim? Perguntemos a Nietzsche.

O que se passa em minha mente e em meu corpo, quando escrevo, é mais rápido que a minha percepção. Isso arde de ansiedades minha inteligência enquanto não acho as palavras exatas. E porque em mim as idéias escritas nascem estéticas, e com ritmo musical, assim, sou obrigado a refazer todo um parágrafo ou um poema inteiro só para encaixar a sonoridade fonética aos desejos de uma palavra qualquer que insiste em ser a origem de tudo, por vezes no meio da oração, deixando-me com a agrura de resolver questões gramaticais, métricas ou semânticas.

Alegre, aflito e descontente, custa-me acamar-me. Às vezes é um demônio tão maior do que eu, e de tal grandeza belo e perfeito, que indômito, ao escrever, meus sentimentos são desencontrados entre o prazer de sofrer em mim as dores e alegrias dos dramas humanos, através da poesia, e a necessidade de dar paz e desobrigar esse espírito que me domina.

Enfim, quando a poesia fisicamente me vence – não sem cansaço e involuntária submissão –, ela se me desincorpora, e o poema já não me pertence mais. Porém, se depois o reconheço ainda como meu, só da minha subjetividade, então ele não alcançou um mínimo valor universal, e deve ser jogado fora.

Dizendo assim, quem assume a função de autor? Não sem imodéstia, deslumbro-me como se deslumbrasse em outros o verdadeiro senhor das necessidades: a vida nos empresta o corpo e a consciência para experimentar a co-individualidade, e reconhecer nos outros a íntima sensação de existir juntos.

É mesmo estranho sentir orgulho e alegria de perder a vaidade do próprio orgulho. É como se Deus, ou qualquer outra imprecisa definição do amor, não fosse mais do que a visão face a face da vida consigo mesma no rosto de outrem.

Eu, para alcançar esse enorme sentimento de humanidade, preciso perdê-lo como meu e resgatá-lo em alguém que por desventura ainda não o conheceu em si próprio. Salvo enganos, de mim muito pouco compreendi, restando os outros. É neles que encontro alguma honesta possibilidade de conhecimento humano. Além disso, nada.

Porque sou poeta e filósofo – e não digo o primeiro em importância, mas pelo grau de simplicidade que a poesia aparenta ser a mais – devo dizer que um poema não é espiritualmente mais fácil que uma tese, lendo ou escrevendo.

Isto é, um poema filosófico, como Amor de Filósofo, À Metade do meu Caminho, Questão Filosófica ou Identidade, para citar os meus, tomando por axiomáticas minhas verdades, exige-me uma profunda coerência intelectual, ainda maior que a emotiva, coordenando conceitos em favor da intimidade-ângulo da idéia defendida, questionando e antevendo objeções, provocando e conduzindo o leitor ao centro de gravidade filosófica, onde pode se dar, quem sabe, a vivência da resposta.

Poemas-problemas em que se instauram enigmas semânticos e se justificam aptidões estilísticas de sinestesias, metáforas adormecidas no cotidiano, neologismos, mitos... e outros. Tudo rigorosamente unificado por um pensamento filosófico intencional, que não se perde ou se deixa às facilidades meramente estéticas e populistas de consumo.

Tal poesia não é simples rima de brincadeira de crianças, não é jingle, comercial de TV ou qualquer letra de música. Um bom escrito é como um bom leitor. Não é a erudição, o acúmulo, que lhes aumentam o domínio intuitivo da percepção, é um profundo interesse cultivado pela vida, pelo sagrado, pelos conflitos do mundo e da própria existência.

A grandeza de um poema filosófico é, em meu entender, tão mais verdadeira e elevada quanto mais ele nos desperta compaixão pela humanidade – a sublime lucidez –, seja pelas belezas da ternura ou pela força da indignação. Problemas cuja resposta de um desenvolve a cultura de todos.

Após várias tentativas fracassadas, de análise e reflexão, para condensar meus pensamentos num todo assim concebido, compreendi que nunca conseguiria isso, e que as melhores coisas que eu poderia escrever neste pequeno ensaio permaneceriam sempre revistas.

Escrevi meu primeiro caderno de poesias aos 15 anos, e dele quase nada sobreviveu. Depois muito poucos, até hoje. De tudo guardo uma conclusão pessoal: gostaria realmente de ter escrito bons poemas, de ter nascido literato, pudesse, mas quando escrevo poesia penso filosoficamente, e quando me esforço para filosofar com extremo rigor, sou incorrigivelmente poético. Dá-me muito trabalho ser eu mesmo.


[1] Artigo publicado na Revista FRAGMENTOS DE CULTURA, Goiânia, v. 18, n. 9/10, p. 761-772, set./out. 2008. Texto aqui revisado.
[2]Esta frase faz parte do poema de Gertrude Stein, "Sacred Emily", de 1913. In:STEIN, Gertrude (2008). Writings, 1903–1932.
Library of America, University of Michigan.
[3] ROSA, João Guimarães (1983). Grande Sertão: Veredas. São Paulo: Abril Cultural, p. 9.

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