sábado, 30 de outubro de 2010

Visões

Idalina Krause
Filósofa Clínica
Porto Alegre/RS


Abertura, vão, caminho, acesso, cilada, anexo ecológico, outra dimensão, porta falsa, liberdade, rito de passagem, trecho, cenário, terror, verde paragem, fim, encontrar Alice, incógnita vita, labirinto, prisão, campina, entrada, esconderijo, saída, perdição, antes e depois, natura, casa de Hera...

quarta-feira, 27 de outubro de 2010

S @ b e d o r i @

Ildo Meyer
Médico e Filósofo Clínico
Porto Alegre/RS

Estamos na era da informação. Ao menos é o que dizem. Em termos práticos, o que isto significa? Temos a possibilidade de saber tudo sobre tudo e sobre todos. O homem sempre quis estar no controle e para isto precisava de informações. O máximo possível. Quanto mais dados, mais poder.

Melhor ainda se estes dados fossem obtidos de forma automática e instantânea. Isto se tornou possível graças ao desenvolvimento de uma ciência, a informática, que estuda o processamento automático da informação através dos computadores.

Na sequência surgiu a internet, um aglomerado mundial de computadores interligados em rede, que permite o acesso às informações e a transferência de dados, transformando-se rapidamente em uma ferramenta de busca. Basta você digitar uma ou mais palavras chave, e em alguns segundos terá a sua disposição um infinito de informações. A internet virou um hábito e praticamente acabou com as fronteiras físicas.

Na verdade, estamos mesmo é na era do acesso à informação. Qualquer indivíduo minimamente alfabetizado, pagando cinco reais pode locar um computador por 30 minutos, navegar por todos os continentes e buscar informações. A informação está ali disponível, aliás, sempre esteve; nós é que não sabíamos como acessá-la. Agora conseguimos. Desenvolvemos as ferramentas, mas ainda não sabemos direito o que fazer com elas...

Acontece que “dados”, referências e até mesmo informações isoladas não tem valor e não dão poder a ninguém. O somatório das informações adquiridas gera o conhecimento, que vai servir de base para aquilo que chamamos de cultura. E o conhecimento está sendo acumulado via livros, computadores e aulas teóricas, sem que as pessoas sequer compreendam ou tenham vivenciado uma experiência prática.

Informações são buscadas, lidas instantaneamente, arquivadas em pastas específicas e eventualmente utilizadas sem critério algum. Relacionamentos virtuais estão se tornando mais excitantes que a vida real. Surge agora uma geração de indivíduos super cultos em assuntos específicos, viciados na internet, aprisionados a um computador e com dificuldades de sair para a rua. A essência do conhecimento consiste em aplicá-lo, uma vez possuído (Confúcio).

Falta-nos ainda o mais importante: Sabedoria. Para adquirir conhecimento é preciso estudo, mas para adquirir sabedoria é preciso algo mais. Como disse Marcel Proust “a sabedoria não nos é dada. É preciso descobri-la por nós mesmos, depois de uma viagem que ninguém nos pode poupar ou fazer por nós”.

Navegar na internet é preciso, mas viver também é preciso. Sabedoria nem sempre é raciocinar. Sabedoria é simplificar ao invés de acumular. Sabedoria é sentir, ponderar, ousar, respeitar, amar. Sabedoria é viver sem complicar.

terça-feira, 26 de outubro de 2010

Poetando com Mário Quintana

Márcio José de Andrade
Filósofo Clínico
Campinas/SP


Parafraseando Brecht, há pessoas que passam pelas nossas vidas e são boas, outras são muito boas e outras melhores ainda, mas há inesquecíveis pessoas, tanto que estas não passam, ficam. Assim foi com Mário Quintana.

Já conhecia o poeta de uma publicação feita pelo governo gaúcho, mas não havia ele me despertado o interesse por sua escrita, não naquele momento. Tempos depois, já desperto, recebi uma poesia dele, sobre o amor ter que se dito de forma silenciosa, quase imperceptível...

Fazendo jus ao título do poema, ele me chegou em forma de bilhete, talvez fosse um alerta, ou uma ameaça: “não falo que amo, mas quero que me ames” ou um simples despertar para o outro, neste caso a outra. Que para o azar de quem me presenteava, só hoje, quando escrevo essas palavras é que percebo seu intento, e nessa brincadeira lá se vão uns 15 anos...

BILHETE

Se tu me amas, ama-me baixinho
Não o grites de cima dos telhados
Deixa em paz os passarinhos
Deixa em paz a mim!
Se me queres,
enfim,
tem de ser bem devagarinho, Amada,
que a vida é breve, e o amor mais breve ainda...

E para o azar da moça, que me presenteava, não se restringir só ao tardio percepcionar de intenções, interpretei, erroneamente, que não deveria falar era do amor que vivenciava - e que de certa forma era um amor para ser vivenciado no silêncio dos amantes...

Enquanto isso o poema do Quintana ficava a martelar minha cabeça, não podia amar Claudinha em silêncio! Não queria amar em silêncio! Apesar de minha amada assim querer... O que fazer? Fiz então um poema-resposta ao Mário, que mais do que resposta era uma declaração de amor, bem, pelo menos eu ainda acho que seja, pois não seriam todos os poemas declarações de amor? Nem que no mínimo à escrita?

Uma interseção entre o sentimento e o gesto, e mais, uma forma de materializar esta emoção que busca, através das palavras, se fazer entender?
E pus-me a escrever e declamar

Mar e Rio QuintanaS
Não, não me contento com todos os telhados do mundo
- são tão pequenos -
Muito menos creio incomodar os passarinhos
O amor não cabe em um pingente.

Quero falar aos quatro cantos,
Gritar para todos,
Tudo, expressar

Traduzir minha loucura em alto e bom som

E aí sim, depois,
Meu mar serenado,
Vendo ser a vida breve,
E o amor mais breve ainda,
Viverei intensamente.

E assim vivemos. Alguns passaram, Mário passarinho. E lá se vão cem anos...

segunda-feira, 25 de outubro de 2010

Qual o lugar da Filosofia Clínica num mundo em veloz mudança?


Célia Costa Ferreira
Filósofa Clínica
Teresina/PI


Faço da janela, junto a qual estou sentada, a moldura para a paisagem que se organiza aos meus olhos, com palmeiras diversas, carregadas de frutos, ciprestes, quaresmeiras e arbustos com flores amarelas, alaranjadas; faveiras. Tudo isto tendo como fundo algumas montanhas de Petrópolis, para onde vim, fugindo da folia destes dias carnavalescos.

Aqui o verde predomina e o silencio é quebrado pelo chilrear dos pássaros ao longe. Bem no alto, nuvens brancas se deslocam no anil do céu. Um pássaro pousa no galho seco de uma árvore, viva, em renovação.

Este é um lugar da Filosofia no mundo em veloz mudança?

Tudo parece parado. Aparentemente está, entretanto apenas a velocidade do movimento da vida está reduzida, permitindo-nos usufruir do momento para refletir. Fazendo uma análise mais acurada vamos verificar que a velocidade no microcosmo deste ecossistema é igual ou maior ao que vi no vídeo (FISCH, Karl; 2007) que ilustra o tema a ser trabalhado.

Temos conta dos dados estatísticos sobre a população da China, da India, entre outros, todavia desconhecemos o número de formigas, saúvas, minhocas, abelhas e outros insetos que vivem e trabalham neste pequeno espaço, contribuindo para mantê-lo verdejante. Impossível mensurar o pólen e as sementes conduzidas nas patas e bicos dos insetos e aves. Este é um trabalho para Deus.

Que importância tem a velocidade das mudanças no mundo neste lugar onde me encontro agora? Outros que aqui estão, como eu, provavelmente, vieram para desacelerar a mente e o corpo. Curtir o tempo com mais vagarosidade, nem tanto quanto o cágado, mas nem tanto quanto a Internet, que os cientistas querem tornar mais rápida do que o cérebro humano. Ainda não basta o que o homem alcançou em termos de comunicação global? Homo, gratias!

Em contrapartida à velocidade de dados e de êxitos no campo do conhecimento, que se duplicará a cada três dias em 2012, conforme o vídeo (FISCH, Karl; 2007), o mesmo não ocorre no campo da produção de alimentos, de bens de serviços como a saúde, educação, transporte, enfim , básicos para a sobrevivência.

Muito se discute e promete, entretanto, povos estão sendo dizimados pela fome e doenças; a água já é motivo de conflitos; multidões dormem ao relento; doentes crônicos mendigam nas ruas, expondo suas ostomias cancerígenas; homens e mulheres deixam a pátria e família em busca de falsas promessas de empregos em lugares desconhecidos; outros são escravizados no próprio país.
Portanto, qual o lugar da Filosofia no mundo em veloz mudança?

Pergunto para mim mesma, se o mais importante é a mudança veloz ou a qualidade da mudança aliada à velocidade exigida pelo homem nos tempos atuais. E aí vislumbro o espaço a ser retomado pela Filosofia, para trazer o equilíbrio perdido, quando a visão tecnológica afastou o homem de sua postura reflexiva e o tornou refém do açodamento, necessário às tomadas de decisões do chamado mundo capitalista.

Tudo é urgente, como se não haja tempo a perder, pois tempo é dinheiro. Entretanto, as soluções nem sempre são satisfatórias para as maiorias desprovidas. Reuniões de cúpula são feitas, tratados escritos e nem sempre cumpridos na íntegra, porque falta aos dirigentes o compromisso ideológico, a diretriz filosófica, para respaldar, direcionar e dar sustentação aos projetos. Para mim, tudo fica no meio do caminho.

Mesmo que a China e a Índia tenham uma população com cifras assustadoras, estes números jamais serão maiores que as miríades que iluminam o firmamento ou maiores do que a população de seres visíveis e microscópicos que executam seu trabalho em silêncio sem competição desleal para ocuparem um primeiro lugar no mundo animal. Eles cumprem seu ciclo vital sem alterar seu ritmo, mantendo a harmonia da natureza, abalada, tão somente pela interferência do homem.

Como nos mostra o vídeo, a China tem mais gênios do que a América do Sul e do Norte juntas. Mas ele não mostra quantas pessoas vivem na condição de pobreza, não mostra a condição feminina, o analfabetismo, para que estes privilegiados alcancem o pódio da genialidade. Quantos gênios estão sendo desperdiçados por não terem a oportunidade de ingressarem numa escola?

Então, sem nenhum sentimento derrotista, como vislumbrar alguma vantagem nestas cifras, senão, a confirmação de que o Oriente vencerá o Ocidente” Vencerá em números ou também com e pela forca física, militar, ou pela genialidade, a serviço do bem? Sem Esquecer o predomínio já existente no campo comercial.

Como o bem é um valor relativo, havemos de esperar para ver a tendência do pêndulo. Hoje, 13 de fevereiro de 2010, o povo chinês comemora o início do ano do tigre, animal silencioso, astuto e ágil, que bem representa o comportamento deste povo, que permaneceu isolado no seu território durante milênios e, ao mostrar-se para o mundo o fez de um salto, incomodando as potencias mundiais. Política, Filosofia, ou ambas?

Mas há de se compreender que a China queira recuperar o tempo em que esteve reclusa entre suas muralhas, vivendo num compasso moderato sem utilizar o potencial humano a favor do desenvolvimento econômico e social, sob a ótica do Ocidente.

Suponho que tenha havido uma mudança nas bases filosóficas dos pensadores chineses, que motivou as mudanças que ocorreram naquele País, nas últimas décadas. Porque a Filosofia envolve aspectos do conhecimento, da ideologia, da ética, que estão na base da formação da pessoa e da coletividade, numa ampliação. Sob o comando de um governo comunista, afastadas as reações de uma minoria, controlada pela força, foi possível ao governo chinês, ordenar as mudanças planejadas, sem laissez-fair.

Talvez seja mais difícil obter os mesmos resultados num governo democrático, no qual a Filosofia não permeie os ideais dos diferentes grupos políticos, produzindo divergências que tornam menos velozes as mudanças e decisões a serem tomadas. “Cada cabeça é uma sentença”, significa dizer que a individualidade das pessoas que compõem um grupo partidário precisa ser lapidada até atingir um meio termo ideal. Existe ainda a oposição.

E neste jogo, os interesses funcionam como as marés. Então, o povo tem que esperar, e quando este povo é analfabeto político, sem a consciência de seus direitos, a amplitude da velocidade nos ganhos, nos avanços, aumenta sem consideração.

O quê e como fazer para corrigir as falhas no sistema e adequar a Filosofia à veloz mudança que ocorre no mundo?

Insisto que existem modelos no mundo, os quais podem ser aplicados ao Brasil; um deles é o controle de natalidade. Imaginem se a China não o adotasse, quantos chineses a mais estariam aumentando a população? Imagine se o Brasil seguisse esse modelo, pelo menos por um período, até que se equilibrasse economicamente e atendesse às políticas públicas de forma mais abrangente.

Certamente teríamos menos violência, menos drogados, menos mendicância; mais segurança, mais escolas, melhores salários, melhor qualificação no ensino, de professores e técnicos; mais pesquisas; ruas e estradas asfaltadas e seguras, saneamento básico ampliado.

É utópico? Ao contrário, uma grande parcela da população exulta com a Copa e as Olimpíadas. E como fica São Paulo com as enchentes? O Rio de Janeiro, com as favelas e o tráfico de drogas? O contrabando atravessando as fronteiras? As cidades do Sul expostas às intempéries? Porque a natureza dá mostras também que está em veloz mudança, por conta dos desvarios do homem e isto é também espaço para a Filosofia.

Portanto, se existe uma urgência para o atendimento de tudo isto, a Filosofia precisa acampar nos espaços políticos, sociais, educacionais para ocupar o lugar do qual foi retirada, cujos reflexos se fazem visíveis na atualidade.

Então, a Filosofia deve fazer uso dos recursos tecnológicos disponíveis, como a Internet sem deixar de se fazer presente, através dos seus seguidores para estar junto à pessoas, em quaisquer lugar que elas se encontrem, seja nas comunidades interioranas, seja nas rodas de intelectuais.

Sim porque, algumas vezes, somos surpreendidos pela fala de um semi analfabeto nos falando de coisas do seu conhecimento, contidas no seu mundo existencial, que nunca podíamos pensar que fosse saber.

Ela deve fazer parte do contexto familiar, onde tem origem as raízes da moral e da ética, em relação ao mundo externo, sobretudo, e do amor filial, fraternal, conjugal que deve alimentar as relações interpesssoais dos componentes de um núcleo familiar.

Numa sequencia, o estudo da Filosofia no ensino fundamental, como já acontece em algumas escolas e daí, até o nível superior, como disciplina fundamental na formação dos profissionais e técnicos.

Os efeitos desta mudança não serão tão velozes como se faz necessário, face a expectativa que temos de ver uma sociedade mais estável, entretanto, é preciso um início e um tempo, sem pressa, para usufruirmos os efeitos positivos.

Fonte de inspiração: FISCH, Karl. Vídeo Did you Know? Trad. y adaptacion: Carlos – Brasil: Lo sabias?... Los câmbios vienen ahi... Derechos Reservados 2007.

domingo, 24 de outubro de 2010

Desejo

Lúcio Packter
Pensador da Filosofia Clínica

Durante seis meses acompanhei Adhelia, uma mulher de quase quarenta anos, quase dois filhos, quase dois casamentos. Ela se definia assim. Ainda que no início ela estivesse confusa quanto a uma gama de fenômenos que lhe habitavam, sua confusão se aprofundou quando chegou à conclusão de que não desejava estar bem em algo, não desejava possuir uma nova casa (como afinal acabou desejando e tendo), não desejava que o filho menor resolvesse o problema com os dentes, não desejava as coisas para de algum modo ter essas coisas.

Adhelia encontrou algo em si mesma que lhe chamou a atenção: ela desejava pelo próprio gosto de desejar.

“Eu gosto de sentir dentro de mim a sensação de querer algo. É estimulante viver em mim quando surge o movimento de desejar. Não interessa o que estou desejando. Interessa somente o desejo. O desejar.” – disse-me ela mais de uma vez, em mais de um modo.

Semelhante a alguém que aprecia ler, mais do que o conteúdo da leitura; semelhante a quem se compraz em ser, mais do que o conteúdo do que o que é, Adhelia era basicamente um ser de desejo.

Ao se interessar por Filosofia, certo dia começou um questionamento que a levou a outros e que ainda hoje tem seus desdobramentos. Ela começou a questionar o que era de fato o desejo. No caso dela, surgia então mais um desejo.

O que é o desejo?

Quando os romanos, que tinham elementos helenísticos em sua engenharia, buscaram fazer as cidades melhor ocupáveis como morada e então construíram uma rede complexa de encanamentos, isso foi um movimento a partir de uma necessidade? O desejo seria uma decorrência de uma necessidade? Desejamos a água porque temos sede?

Ou talvez devemos considerar o desejo como algo nocivo? O desejo pode ser um sintoma de que algo não vai bem, assim como um estado febril indica às vezes um estado infeccioso no organismo. Neste caso, o ascetismo do hinduísmo, por exemplo, seria correto em sua interpretação do desejo como algo que deve ser observado e cuidado? Penso em Diógenes e sua repulsa por desejar coisas matérias.

Desejar não desejar pode ser uma armadilha conceitual. Na qual a pessoa passará a vida tentanto não desejar aquilo que deseja. Ou seja, desejando, de qualquer modo.

O anseio de Descartes, de entender a distinguir o verdadeiro do falso, o que era? Poderia ser somente uma resposta aos conceitos da escolástica medieval? Causa e efeito, algo assim?

O estudo da natureza do desejo não é recente e remonta a textos muito antigos. Podemos recuar até o Antigo Testamento e ali encontraremos ao menos dois mandamentos ligados diretamente à proibição dos desejos. Mas muito antes do escrito sagrado encontramos considerações importantes sobre o assunto.

Em muitos momentos, muitos escritos nos orientam nesta questão.

Alguns filósofos são evidentes em suas considerações sobre o tema. Platão, quando trará da alma, que para ele é anterior ao corpo, descreve sua natureza tripardida. No nível inferior, está a alma sensível, que é habitada por desejos e por paixões. Platão une-se a uma longa tradição que alcança os nossos dias segundo a qual o desejo não goza de boa reputação. Parece existir alguma questão ligada a erros, entraves, dor relacionando os desejos com a existência em geral.

Os mitos estão povoados do elemento desejo. Eles ganharam maior relevância com o adventos das psicologias. Pois a carga natural de desejo recebeu o aporte de outras que anteriormente não conhecíamos. Assim, Freud pensou que em Édipo existe o desejo de superação do pai.

Mas o que é o desejo?

Consideremos Eros, que afinal era o deus grego do desejo, do amor. Na antiga tradição grega, Eros trazia uma força de unificação, uma força ordenadora. Se o temos como apresentado em Hesíodo e em Empédocles, Eros tinha o poder de unir os elementos levando-os do caos ao cosmos. Na prática, uma combinação cujo final era a chegada a um mundo organizado.

O desejo seria, entre outras composições, a tentativa de uma organização entre fatores em conflitos ou entre fatores perdidos em mares infinitos?

Analogamente ao curso de um sinuoso rio que flue entre montanhas, despenhadeiros, planícies, poderíamos seguir a trajetória dos desejos em seus percursos cartesianos, mesmo perdendo parte de suas linhas nas áreas de lagos, intercurso com outros rios, pântanos, baixadas alagadas. Isso nos exibiria a trajetória dos desejos, mas a trajetória de algo não necessariamente nos mostra o que este algo é. Ficamos com a manifestação dos desejos e não com o que eles são. Ou seriam estes caminhos a própria identidade dos desejos?

Se, de outro modo, nos ocupamos do nascimento dos desejos, da fonte de onde partem os rios, segundo nossa analogia, podemos chegar, em muitos casos, à origem deles, o que não quer dizer que chegamos propriamente ao que eles são.

Em meu trabalho como filósofo clínico, identifiquei que algumas vezes esta origem está relacionada a necessidades, como resolver uma questão pendente; a associações de movimentos na malha intelectiva, como quando um prazer sensorial e uma interrogação se associam em uma composição cujo resultado é o aparecimento de um desejo; a diletantismos da existência, como em casos do exercício existencial de fazer algo com a energia disponível, feito uma criança de diante de uma bola inventa de brincar com ela; a um elemento predisponente na estruturação da pessoa, próximo ao que acontece com os dados outros existentes em nós que possibilitam a aparição e o desenvolvimento do sono, da alegria, da poesia, conforme as possibilidades que são vivenciadas permitem tais manifestações.

Mas este breve dicionário de sinônimos filosóficos em forma de possibilidades de fato pode nos levar a entender a natureza dos desejos?

Por que diante de uma visão de um mar suave, por exemplo, advem o desejo de nadar, ao invés da indiferença, do desvio de foco, de uma pergunta ou outra manifestação? Isso é provavelmente oriundo dos fatores determinantes, mais fortes (por assim dizer) na malha intelectiva da pessoa diante dos contextos naquele momento. Provavelmente.

Mas o desejo, o querer, a vontade, o movimento em direção a algo que se vai ocupar, ter, ser, o que é isso?

O desejo é uma característica humana de ocupar espaços existenciais? O desejo é a conseqüência de uma forma de ordenação mental na qual o movimento se dá pela busca, necessidade, procura, expansão, apropriação, associação de elementos mediante um querer? O desejo constitutivo do ser humano como a pele, os ossos? O que é o desejo?

Os manuais e dicionários de Filosofia nos trazem Aristóteles, Descartes, Heidegger ligando a resposta a apetites, à falta, ao ser projetivo que somos. E, nesta pesquisa, perguntei a alguns alunos de Filosofia no curso de formação de Filosofia do Instituto Packter, no qual sou coordenador, sobre o que é o desejo. Também no site SóFilosofia, o tema foi motivo de enquete entre milhares de leitores, estudantes de Filosofia, filósofos, professores de Filosofia.

A maioria das respostas apontou para umas poucas direções: o desejo é uma resposta à necessidade, é um desenvolvimento, é um elemento espiritual para o projeto humano, é o modo como fazemos o movimento do existir (assim como para andar colocamos uma perna diante da outra sucessivamente).

A Filosofia acadêmica segue nos advertindo sobre os cuidados com a vontade, o desejo, o sonho, em Schopenhauer, Lévinas e em outros filósofos.

Provavelmente, temos mais de uma resposta para o que é o desejo e provavelmente mais de uma está correta. Em Filosofia Clínica, ao examinar profundamente a existência de uma pessoa, às vezes a resposta aponta para a natureza do desejo como sendo um movimento natural de conceitos como bolas sobre uma mesa de bilhar que, quando se chocam, acabam afetando uma bola azul que descansava indiferente a um canto da mesa; às vezes, o desejo é a tentativa de suprir uma falta; às vezes, o desejo é a falta; em muitas ocasiões, o desejo é uma inflamação da alma na qual uma associação de pensamentos gerou uma busca; o desejo é muitas vezes também o exercício livre do pensamento, um empreguiçar rumo a algo; o desejo se apresenta várias vezes como renúncia, como possibilidade, como morte, o que não lhe impede de ser outras vezes vida e impossibilidade. E todas essas respostas, as quais poderia ainda agregar mais algumas, estão diretamente relacionadas ao sentido do querer, do ir em direção a, da volição, da vontade de.

Pressupor que devemos combater ou acolher os desejos sem examinar o que são, as funções que exercem, como estão posicionados e como interagem com outros elementos na estrutura do pensamento da pessoa, é indefensável do ponto de vista da Filosofia Clínica. Pregar abertamente a privação ou o incremento dos desejos sem pesquisar a historicidade e a estruturação de cada pessoa é como pregar abertamente a privação ou a exacerbação do uso da visão, da audição, do tato. Para um filósofo que trabalha em clínica isso torna-se grotesco e provavelmente algo a ser submetido a exame minucioso.

A última vez em que encontrei Adhelia foi no verão. Um verão muito quente, mesmo para os padrões do sul. Ela usava um óculos de sol colorido que achei muito engraçado. Ela me disse que tinha escolhido aqueles óculos porque havia encontrado algumas respostas para determinadas questões que há muito lhe incomodavam. Enquanto eu acendia o cachimbo e a olhava em silencio, ela me falou jovialmente:

- Comprei uma pequena máquina que faz pães. Ela tem um manual de instruções. Eu coloco os ingredientes, faço regular o relógio, acompanho tudo pelo pequeno vidro. Em poucos minutos tenho pães integrais, de chocolate, de batata. Tenho uma pequena padaria em casa.

Aparentemente o que Adhelia falava nada tinha a ver com qualquer coisa que fazia parte das consultas anteriores. Ela olhou para algum ponto ao longe e disse:

- ... aqueles ingredientes, farinha, ovos, água, leite, o assar da massa, a própria panificação, não são o pão. Achar que as primeiras coisas têm a ver com a segunda é um novo problema.

E depois de um silêncio, passamos a falar do verão. Os verões no sul ultimamente têm sido rigorosos.

sábado, 23 de outubro de 2010

O Fim das Certezas

Miguel Angelo Caruzo
Filósofo Clínico
Teresópolis – RJ


Heráclito com o devir, Platão com sua dialética, Aristóteles com potência e ato, Kant com os limites da razão, Kierkegaard com a angústia, Husserl com as críticas às certezas das ciências contemporâneas, e tantos outros pensadores, dos quais esses são apenas de caráter ilustrativo, mostram o limite e as incertezas diante da busca de dar um caráter absoluto ao saber humano.

Filosofia é busca pelo saber. O que há de mais comum no universo filosófico é o reconhecimento de que não se está dando a certeza absoluta para suas buscas. Não há frustração por isso. Aqui a humanidade mostra uma de suas realidades mais originais, o reconhecimento da limitação.

Albert Camus postula que diante do mundo, o homem vive o sentimento de absurdo quando reconhece que sua razão não pode abarcá-lo. Heidegger apresenta a angústia diante da limitação humana com a morte, como passo necessário para existir autenticamente. Sartre apresenta a falta de determinação ou destino e a angústia diante da liberdade humana para construir-se.

Nos cadernos de formação em Filosofia Clínica uma das palavras mais comuns é “Não sei!”. E a questão que fica é “Como em um curso o próprio estruturador da área estudada afirma não saber?”, e a resposta é que a Filosofia Clínica é, antes de tudo, Filosofia.

O método é apresentado. O aluno aprende o que são basicamente as categorias, a estrutura de pensamento e os submodos. Mas, como se darão as nuanças do trabalho clínico na prática e como agir diante disso é o que não se sabe.

Quando na academia o conteúdo é passado, é como se a certeza, a sabedoria, ali estivesse presente. Não há espaço para dúvida. Aliás, a certeza tende a se dar pela quantidade de informação decorada para a avaliação.

Como Lúcio denuncia nos cadernos, os originais geralmente não são lidos durante a graduação. O conteúdo é assimilado a partir de comentadores, de manuais de história ou introdução a filosofia. O aluno universitário tende a terminar o curso com uma formação baseada em manuais de filósofos. E, às vezes, acredita que sabe muito sobre o filosofar.

Dizem algumas sabedorias orientais que o melhor da busca não é a chegada, mas o caminho que se faz. O processo do pensamento é o que faz da filosofia um exercício de edificação humana; um caminhar para o reconhecimento do que Nietszchte chama de “humano, demasiadamente humano”.

A Filosofia Clínica vivencia esse processo diante da interseção com o partilhante. Depois de várias consultas a única certeza quanto aos resultados é, previamente: “Não sei!”.
O fim das certezas é o início da investigação filosófica.

A Filosofia Clínica, enquanto filosofia, é o abandono das certezas e o início da busca pela melhor qualidade possível de interseção para uma maior aproximação das questões do partilhante.
Somente aproximando ao máximo da Estrutura de Pensamento do partilhante, é que se torna possível uma ação do filósofo para buscar uma melhor resolução dos conflitos existenciais apresentados.

A limitação em reconhecer todos dos detalhes do partilhante, é completamente normal. Não se aspira a ter uma formula definitiva ou inteiramente eficaz na resolução dos problemas apresentados. Há apenas a finalidade de auxiliar o partilhante, mediante as ferramentas oriundas de 2500 anos de tradição filosófica, da melhor forma possível.

E os resultados obtidos são únicos. Tentar descrevê-los antecipadamente é uma ilusão. O que se sabe previamente a respeito do fim de um acompanhamento clínico, um filósofo clínico poderá claramente informar: Não sei!

sexta-feira, 22 de outubro de 2010

Convite:

Encontros Fenomenológicos
(Entrada Franca)

“Sempre é tempo de refletir e qualificar nosso existir, sentir e pensar. Bom fazer e encontrar amigos. Quer compartilhar conosco? Vai ser um prazer recebê-lo para uma tarde gostosa de poesia, música, filosofia, psicologia e arte. Confira os temas e as datas e se inscreva com antecedência”.

Rosângela Rossi
Psicoterapeuta e Filósofa Clínica

Sociedade Brasileira de Harmonização da Bioenergia
&
Café Filosófico "Pensando Bem" UFJF

23 de outubro 2010:

“Contribuições da fenomenologia sobre a compreensão do corpo: ao redor e com os corpos”

Com Prof. Dr. Wesley Dourado – Filósofo, Coordenador do departamento de filosofia da UMESP, Faculdade Metodista de São Paulo.

20 de novembro 2010:

“A Fenomenologia e o Sentido da Vida”

Com Prof.Dr. José Maurício de Carvalho - Psicólogo e Filósofo Coordenador do departamento de filosofia da Universidade Federal de São João Del Rei

6 de dezembro 2010:

“Fenomenologia do Divino: os atributos de Deus”

Com Prof. Dr. José Carlos Lima da Motta – Juiz do trabalho, Professor da Faculdade de Direito Doctum e teólogo.

Local : Sindicato do Comércio. Avenida Rio Branco 2588-5º andar - Juiz de Fora/MG.

Horário dos eventos de 15 às 18 horas nos sábados mencionados acima.

Informação e Inscrição: confirmação por e-mail ou pelo telefone (32)32139910

Vagas limitadas. Confere certificado. Apoio: Rede Sempre
Filosofia Clínica e Cinema

Márcio José de Andrade
Filósofo Clínico
Campinas/SP


“O que caracteriza o cinema não é apenas o modo pelo qual o homem se apresenta ao aparelho, é também a maneira pela qual, graças a esse aparelho, ele representa para si o mundo que o rodeia”.
Walter Benjamim


O USO DO CINEMA COMO RECURSO DIDÁTICO

AO ENSINO DA FILOSOFIA CLÍNICA
Ao nos propormos ensinar Filosofia Clínica como terapêutica deparamo-nos com uma dificuldade que é: - Como “mostrar” a FC entre a teoria e a prática durante o processo de aprendizagem? Como transpor fatores fenomenológicos para epistemológicos?

A questão a ser desenvolvida é a visualização das etapas a percorrer dentro de um delinear histórico. Os caminhos que foram percorridos pelo indivíduo até o alcance de um determinado submodo, como chegou a um tópico e qual o percurso que o descreveu.

A CAVERNA DE PLATÃO

Se pensarmos o cinema em uma de suas características como sendo reprodutora chegaremos a um modelo suposto do que seja o real. A Caverna de Platão pode ser vista como uma primeira idéia de representação dos modos de como funciona a proposta de utilização de filmes no ensino da FC.

O que é a parede da caverna senão uma grande tela onde é projetada a imagem da real figura que passa pela abertura, onde uma fogueira (luz) fornece a claridade para o que ocorre do lado de dentro, o que vejo pode ser determinado pelo meu ângulo de visão e a projeção que faço dentro de minha historicidade.

E o que temos projetado na parede? A princípio, o tópico 1: “Como o mundo parece (fenomenologicamente)”, como é a visão de mundo, seja do diretor, seja do roteirista. Não somos cinéfilos para ficarmos analisando qual a mensagem que o diretor quis nos transmitir, se o plano estava correto, quais foram os erros e acertos nas seqüências das cenas, estes procedimentos cabem a um outro momento, aqui nos interessa: as personagens, a fala, a postura, as interseções, os tópicos proeminentes, os submodos utilizados...

ESCOLHA DO FILME

A escolha do filme se dá de uma forma subjetiva, pela identificação de tópico para um ilustrar o dado descrito. A visão que se propõe tem um direcionamento, num primeiro momento pela afetação e num segundo pelos fatores que compõe o conceito que se quer mostrar. Quanto mais claro estiver o tópico mais facilmente ele poderá ser observado pelo estudante.

CRITÉRIO DE ESCOLHA:

Nos motivamos inicialmente para esta possibilidade pelos indicativos que encontramos nos livros Propedêutica do Lúcio – 1º Edição (que tem em suas últimas páginas, uma relação de filmes) e no Compêndio da Nichele, que faz uma relação de filmes ligados aos tópicos e submodos. Posteriormente em filmes que fomos recendo indicações, e assistindo, para o que viemos a formatar como um Curso de Extensão.

QUAL A IMPORTÂNCIA DE SE TER UMA LISTA:

Estando em constante estudo de aperfeiçoamento e ao apresentar um filme, nós, formadores, professores, já devemos tê-lo visto várias vezes, analisado-o minuciosamente, identificando passo a passo, os movimentos estruturais dos personagens, pois, quando apresentamos o filme para a formação de um conceito, buscamos alertar sobre a cena que representaria a função tópica na terapêutica, construindo um campo visual para a ação que se procede naquele momento.

NECESSIDADE DE CENTRAR O TEMA:

Quando apresento um filme à turma, e peço que seus sentidos estejam voltados para tais e tais tópicos, é porque sei que o direcionamento possibilita um ângulo de visão com tentativa de alcance do conceito.

OS FILMES SÃO MULTI CÊNICOS E MULTI TEMÁTICOS:

Eles são ricos em cenas. Etapas. Representam um grande mosaico de cenas que irá se costurando no que é denominado enredo. E, são poli temáticas, pois em um mesmo filme pode estar se tratando de vários assuntos inerentes à história que nos é contada. Por isso podemos demonstrar a diversidade de comportamento dos personagens que compõe um mesmo contexto com resultantes diferenciadas, mesmo que inseridos no mesmo campo cultural.

AGENDAR O TEMA DE ANTEMÃO:

Apresentar o filme que será visto na próxima aula proporciona a turma condições de enriquecer as relações conceituais que se quer mostrar, uma vez que, a fenomenologia que se descrevem a todos constrói uma rica descrição de dados observados inter-relacional. A visão de como o mundo me parece se expande ao ritmo do mundo imaginário de cada componente. De certo, sem perder as bases que estamos tentando construir.

PASSAGENS/PERSONAGENS FUNDAMENTAIS À AULA:

Passear pela construção histórica de cada personagem não retira do analisando em relação ao analisado os preceitos éticos para tal fundamentação. Muito pelo contrário, mostramos a singularidade e plasticidade que compõe cada indivíduo, reforçando sempre que possível o papel de quem está a partilhar nesta relação. Respeito às formas e simbologia e o que diferencia a caminhada em conjunto.

FORMAS DE APRESENTAR O FILME:

Os objetivos e os conceitos a serem desenvolvidos podem solicitar trechos de tamanhos diversos, conforme a apresentação a ser realizada, observamos a transposição das imagens de 3 maneiras:

a) Fotogramas. Trabalha-se com cenas fixas onde se encontra o tema abordado e textos que identifique o que se vai trabalhar. Uma sugestão é trabalhar com um fotograma que anteceda a cena abordada e com outro posterior à cena, possibilitando, assim, um vislumbre do movimento realizado.

b) Trechos do filme. É um processo através do qual se busca centrar o foco no tema, fragmenta-se o filme, possibilitando ver, especificamente, o desenrolar de um movimento existencial.

c) Projeção contínua. Neste processo, busca-se ter o filme como uma historicidade relatada, que nos possibilita um leque de opções de tópicos e submodos, e um exercício livre, guardada as devidas proporções, do identificar uma estrutura de pensamento e seu movimento.

TEMAS TRANSVERSAIS:

Podem ser trabalhados durante a aula como exercício filosófico, não clínico, por ex. velhice, liberdade, morte, ética, etc.

FILMES JÁ UTILIZADOS COM AS TURMAS E OS TEMAS TRABALHADOS - PATCH ADAMS:

Após tentar o suicídio, Hunter Adams (Robin Williams) voluntariamente se interna em um sanatório. Ao auxiliar outros internos, descobre que deseja ser médico, para poder ajudar as pessoas. Um primeiro embate ideológico e ético se dá dentro deste sanatório, onde os internos não existem, enquanto seres humanos, ao olhos da instituição.

Deste modo, Patch sai da instituição e entra na faculdade de medicina. Seus métodos poucos convencionais causam inicialmente espanto e repulsa, mas aos poucos vai conquistando aliados, e inimigos, como o reitor, que quer arrumar um motivo para expulsá-lo, apesar de ser o primeiro da turma. É através deste filme que nos servirá para tratar do temas “O que é a Filosofia Clínica”, “O que a Filosofia Clínica propõe” e “A Ética que a sustenta”.

INTRODUÇÃO À FILOSOFIA CLÍNICA:

Para esta introdução ao exercício do apresentar a Filosofia Clínica através do cinema é imprescindível ter o conteúdo muito bem fundamentado para poder desenvolver os três temas iniciais abordados. O Filme “Patch Adams” aborda, conforme a leitura, o que queremos enquanto postura com o outro, o relacionar-se com quem nos procura, entre outros temas a serem desenvolvidos.

1) O que é Filosofia Clínica.

2) O que propõe a Filosofia Clínica.

3) A ética que a sustenta.

ENCONTRANDO FORRESTER:

Após uma aposta com seus amigos, Jamal Wallace (Robert Brown) se vê obrigado a invadir o apartamento do Senhor Janela, que mais tarde vem a saber ser William Forrester (Sean Connery), um talentoso e recluso escritor com quem virá a desenvolver uma profunda amizade. Jamal um jovem adolescente que ganha uma bolsa de estudos em uma escola de elite de Manhattan, devido ao seu desempenho nos testes de seu antigo colégio no Bronx e também por jogar muito bem basquete.

Percebendo talento para a escrita em Jamal, Forrester procura incentivá-lo para seguir este caminho, ambos terminam recebendo algumas boas lições de vida. Neste filme trabalhamos com Interseção, Historicidade, uma apresentação ao que seriam as Categorias, e a primeira Categoria Assunto (imediato e último).

INTERSEÇÃO, HISTORICIDADE, ASSUNTO IMEDIATO E ASSUNTO ÚLTIMO:

1) Interseção: Tudo em clínica é a resultante da qualidade da Interseção entre o filósofo e a pessoa. É importante fundamentar que na Filosofia Clínica o filósofo clínico e o partilhante estão em interseção, sempre! No sentido que não há significação em um apenas quando tomado separadamente.

2) Historicidade: Trata-se, aqui, da linha histórica-existencial da pessoa que procura o filósofo clínico. Ela é elaborada de forma cronológica e sem saltos lógicos, onde a pessoa relata sua vida, suas percepções. É onde o filósofo clínico colhe os dados para a aplicação em clínica.

3) Categorias: Em geral é qualquer noção que sirva como regra para investigação ou para expressão lingüística em qualquer campo. Para Aristóteles são os modos em que o ser se predica das coisas nas preposições.

Para Kant são os modos pelos quais se manifesta a atividade do intelecto. Para a Filosofia Clínica, são as maneiras de como a pessoa se estruturou existencialmente. Explorando as cinco categorias (Assunto, Circunstância, Lugar, Tempo e Relação), o filósofo forma um conceito bem estruturado do mundo da outra pessoa: uma representação para si mesmo da representação do outro.

3.1) Assunto (imediato e último): Assunto Imediato é o que leva o partilhante a procurar um filósofo clínico. Ele nos informa rapidamente a questão e o jogo comunicativo em curso. Assunto Último é o que realmente está a incomodar o partilhante, e pode ser melhor visualizado após a colheita da historicidade, dos dados divisórios e dos exames categoriais. Pode ou não coincidir com o Assunto Imediato.

BALEIAS DE AGOSTO:

As velhas irmãs Libby (Bette Davis) e Sarah (Lillian Gish) vivem juntas numa casa ampla no rochoso litoral do Maine, onde costumavam passar o verão desde a infância, sempre de olho nas baleias que aparecem em agosto. Agora Libby está cega e Sarah precisa cuidar dela.

Ambas vivem de recordações da família, dos maridos e dos amigos. O sr. Maranov (Vincent Price), um velho nobre russo fugido da Revolução de 1917, passa a visitá-las, mas é rechaçado asperamente por Libby, que teme que ele apenas queira se instalar na casa delas para aproveitar o pouco de dinheiro que ainda possuem. Trabalhamos neste filme as Categorias Tempo e Circunstância.

EXAMES CATEGORIAIS:

1) Tempo: Ela informa como a pessoa relaciona seu código temporal interno em direção ao tempo convencionado na sociedade humana, o tempo que é marcado pelo tic-tac do nosso relógio. Interessa saber qual o relacionamento entre o tempo convencionado (afixado no relógio) e o tempo subjetivo.

2) Circunstância: É o somatório de singularidades que acompanham uma situação. Aqui são levantadas as variáveis pertinentes, próximas e longínquas, tudo o que o clínico julgar necessário para situar a pessoa dentro de um quadro mais nítido, como se de linhas gerais chegassem a uma representação mais minuciosa e precisa.

TOMATES VERDES E FRITOS:

Evelyn Couch (Kathy Bates) é uma dona de casa. Ed (Gailard Sartain), o marido dela. Em uma visita a tia de Ed, em um hospital, esta permite que Evelyn adentre ao quarto. Enquanto ela espera que Ed termine sua visita, Evelyn conhece Ninny Threadgoode (Jessica Tandy), uma gentil senhora de 83 anos, que lhe conta histórias.

Através das semanas ela faz relatos a Evelyn que estão centrados em uma parente, Idgie (Mary Stuart Masterson), que desde criança, em 1920, sempre teve um excelente interseção com o irmão, Buddy (Chris O'Donnell). Quando ele morre atropelado por um trem (o pé ficou preso no trilho), Idgie não consegue conversar com ninguém, exceto com a namorada de Buddy, Ruth Jamison (Mary-Louise Parker). Através destes relatos a Interseção entre Evelyn e Ninny irá se transformando, bem como a própria Evelyn, que em forma de inversão irá se descobrindo. Trabalhamos neste filme as Categorias Relação e Lugar

EXAMES CATEGORIAIS:

1) Relação: O comportar-se de determinada maneira em referência a alguma coisa, segundo Aristóteles. Para efeito de nosso estudo, a relação é a qualidade estabelecida quando da interseção.

2) Lugar: Mensuramos como a pessoa se sente (portanto, suas sensações) e o que pensa (portanto, a representação mental, intelectiva, que criou para si mesma) a propósito do ambiente onde está inserida.

PERFUME DE MULHER:

Frank Slade (Al Pacino), um tenente-coronel cego, viaja para Nova York com Charlie Simms (Chris O'Donnell), um jovem acompanhante imposto pela família. Slade resolve ter um final de semana inesquecível em Nova York antes de se matar. Não conseguindo se livrar do acompanhante, resolve levá-lo e pensa em dispensá-lo assim que chegarem ao seu destino.

Porém, durante a viagem ele começa a se interessar pelos problemas do jovem, procurando auxiliá-lo, sem contudo esquecer de seu intento. Neste filme apresentamos o que é Estrutura de Pensamento e seus três primeiros tópicos: “Como o mundo me parece”, “O que acha de si mesmo” e Sensorial & Abstrato”.

ESTRUTURA DE PENSAMENTO:

Estrutura de Pensamento é o jeito existencial da pessoa. Tudo o que você conhece, sente, intui, tudo o que há em você na sua totalidade, isso é a sua Estrutura de Pensamento. A maneira que sua EP usa para vivenciar em forma de ação, comportamento, atuação, isso são os submodos.

1) Tópico 1 – Como o Mundo me Parece: Reportando a Protágoras e Schopenhauer quando, respectivamente, nos lembram que: “o homem é a medida de todas as coisas” e que “o mundo é representação”, deve-se considerar que quem expressa algo está somente manifestando seus limites, seu sistema métrico com o qual faz a mensuração dos dados que se lhe apresentam no mundo onde vive. Aqui, neste tópico, o filósofo colocará, literalmente, o que a pessoa lhe relatou a propósito do meio onde ela vive.

2) Tópico 2 – O que Acha de Si Mesmo: Neste tópico temos o que a pessoa expressa de si mesma. O que ela traduz, imagina, sente, intui, reflete, possui a respeito de si mesma? O que ela expressa de si mesma sobre o que entende ser?

3) Tópico 3 – Sensorial e Abstrato: Sensorial refere-se às sensações, a tudo aquilo que está diretamente ligado aos sentidos, órgãos receptores das sensações, que nos possibilitam o primeiro contato com os objetos de nosso conhecimento. Abstrato refere-se a tudo o que estiver ligado indiretamente aos sentido. Abstração é o processo através do qual os materiais de nosso conhecimento são agrupados, repetidos , comparados, reunidos, dando origem à idéias complexas.

MINHA VIDA DE CACHORRO:

O filme conta a vida de um menino, Ingemar (Anton Glanzlius), então com 12 anos, que está passando por um momento difícil. A mãe, Anki Liden, passa por um agravamento de saúde, sendo Ingemar enviado à casa dos tios, que conhecera nas férias de verão, lugar em que encontrou amor, carinho e compreensão para amenizar a saudade que sente da mãe e de seu irmão mais velho.

Antológicas, são as cenas na qual o garoto busca auxílio emocional nas mazelas da humanidade, em acidentes de carro e no sofrimento da cadelinha Laika em órbita da Terra, para amenizar seu sofrimento. Neste filme trabalhamos os Submodos: “Em direção às idéias complexas”, “Reconstrução” e “Retroação”

SUBMODOS:

Os Submodos são as maneiras como a pessoa vai existencialmente de um momento ao seguinte, eles são os modos como agimos, como usamos o conteúdo que se apresenta à farta em cada tópico da EP. É fundamental ter presente que os submodos são usados em clínica somente após os exames categoriais e a Estrutura de Pensamento apurados.

1) Submodo 4 – Em direção às idéias complexas: Segue as indicações de Hume e Locke, referindo-se a imagens mentais que se seguem a alguma vivência relacionada aos sentidos e/ou que sejam simultâneas a estes. Em Idéias Complexas a pessoa vai associando termos/conceitos, sempre mais, vinculando-os uns aos outros, derivando juízos, ampliando uma rede de pensamentos que a cada instante se afasta dos dados básicos, sensoriais, aqueles oriundos da experiência.

2) Submodo 29 – Reconstrução: Esse instrumento visa abrir um leque maior na malha intelectiva do partilhante, a partir de uma experiência positiva e significativa para ele. É como uma recuperação, re-fabricação, leva-se em conta uma estrutura existente que precisa ser reerguida. Ou seja, não se começa do nada, mas de um ponto de referência.

3) Submodo 24 – Retroação: Há um retrocesso, no sentido de começar do problema até a origem, pode-se fazer uma correlação com a Metafísica Aristotélica, onde busca-se, de forma metodológica uma busca da essência ao ser. Retroação é simplesmente ir de um ponto, por exemplo 10 ao ponto 1.

Bibliografia Sugerida:

AIUB, Monica – Para Entender Filosofia Clínicia – Wak Editora. Rio de Janeiro/RJ. 2005.
_____________ Sensorial e Abstrato. Apafic. São Paulo/SP. 2000.

HACK, Olga Cristina e SILVA, Márcio José Andrade da. Filosofia Clínica e Cinema, in Informação Dirigida, nº 3 . Insituto Packter, Porto Alegre/RS. 2006. (no prelo)

PACKTER, Lúcio – Filosofia Clínica – Propedêutica, 1ª Edição. AGE Editora Porto Alegre/RS.1997
________________ Cadernos. Instituto Packter. Porto Alegre/RS. s/d.

PAULO, Margarida Nichele – Compêndio de Filosofia Clínica, Imprensa Livre. Porto Alegre/RS. 2001.

quinta-feira, 21 de outubro de 2010

Do imbecil diário

Idalina Krause
Filósofa Clínica
Porto Alegre/RS


Em volta da mesa para uma reunião formal, basta ceder mais espaço-tempo para que caia o véu do encobrimento. O ar pesa, poeira ganha densidade entre papéis farelados de torpes manuseios. A "santa" surge, "reta", "pura", kantiana em seus universais legais. Forma tentacular que com dedos ágeis puxam brasas para seu assado.

Retórica mínima, ultrapassada pelo imbecil diário de uma vidinha sem graça. Dejetos pululam entre "pensares" categóricos que buscam um fim proveitoso. Uma pequena arquitetura pobre de um jogo de damas: "preciso comer tuas pedras!!". "Se possível fico com o tabuleiro"...

Papiza de venerações próprias e um mínimo clero, dada a pequenos desatinos quando não pode conter sua maldade. Espuma pelos cantos da boca, bílis fabricada em um corpo deformado pela falta de paixão.

Dores dilaceram este espírito que se trai na vagância dos dias. Mais uma ilusão de vitória recheada de sacanagem, do que não se ousa dizer nem admitir. Ações escondidas, veladas, pintadas com horríveis tintas deformantes de um rosto que aparece mas não é seu.

E acredita piamante que a vida seja essa mixórdia que construiu para si, onde o coro sem olhos deve dizer amém!

quarta-feira, 20 de outubro de 2010

Coisas que significam outras coisas

Beto Colombo
Filósofo Clínico
Criciúma/SC


Na colina tinha uma bica d’água onde agricultores serviam-se dela e saciavam a sede. Então, uma gruta de pedra foi erguida e dentro dela uma imagem da Santa colocada, agora aquela água virou água benta e milagrosa. Será que verdadeiramente ela é milagrosa?

Tomo um copo d’água, a água mata a minha sede. Não me pergunto se a água é verdadeira, ela apenas é cristalina, fria... O fogo é o fogo e ele significa apenas fogo, significa a si mesmo. Ele aquece, ele ilumina, ele queima. Perguntar se ele é verdadeiro não faz sentido. Assim como a flor é uma flor, o máximo que posso perguntar é se ela é perfumada, se ela é bela...

Aquela água da torneira clorificada torna-se benta se colocada num cântaro no altar da gruta, assim como a flor pode ser uma confissão de amor ou até uma afirmação de saudade, se jogada sobre uma sepultura. O fogo torna-se símbolo sagrado nas velas dos altares e nas piras olímpicas.

Rubem Alves, no livro O Que é Religião, com sabedoria diz que há coisas que significam outras, são as coisas / símbolos. “Uma aliança significa casamento; uma cédula significa um valor; uma afirmação significa um estado de coisas além dela mesma.”

E se alguém simplesmente usar uma aliança na mão esquerda sem ser casado? Uma cédula pode ser falsa. Uma afirmação pode ser uma mentira. Por isso, quando nos defrontamos com as coisas que significam outras coisas, é inevitável que levantemos perguntas acerca de sua verdade ou falsidade.

Aquela fonte no morro, que era apenas uma bica d’água, tornou-se um lugar de peregrinação porque aquela gruta construída deu um novo significado e a água que brota dela, agora é benta e cura gastrite, reumatismo e faz milagres.

Fui à casa de um bom amigo e encontrei um antigo altar da igreja de Santo Agostinho que outrora era a mesa de celebração da Eucaristia nas missas dos domingos, onde o vinho transformava-se em sangue de Cristo e o pão no corpo de Cristo, e agora é apenas uma mesa de jantar de uma família como outra qualquer.

Quando um artista pinta um quadro, ele está dando o seu significado àquela pintura. Outra pessoa que nada sabe sobre aquele artista dará a sua interpretação conforme o acervo agendado no seu intelecto, na sua estrutura de pensamento.

Um beijo dado por Maria em Jesus Cristo provavelmente é amor e carinho, agora um beijo dado por Judas significa outra coisa.

Algumas vezes nos deparamos com palavras de alguém que fala e o interpretamos dando o nosso significado àquela situação sem dar a chance dele colocar “sua verdade”, apenas julgamos e condenamos como se fôssemos juízes: isso é verdade, isso é mentira. Verdade pra quem? E mentira pra quem? Aquela verdade pode ser a interpretação da minha verdade.

Algumas vezes, antes mesmo de ouvir o outro, antes de prestar atenção naquilo que ele está dizendo, apenas estamos ouvindo nossos pensamentos para formularmos o que vamos dizer em seguida. Será que estamos ouvindo o que o outro fala ou apenas o que estamos sentindo e significando conforme nossa estrutura de pensamento e talvez com nossas verdades? E às vezes nós transformamos o que o outro está falando conforme nosso significado em objeto de concordância ou discordância.

Tenho aprendido que é preciso manter-se a literalidade do falante, limpando a mente de todos os ruídos e interferências durante a fala alheia. Ouvir o outro sem oferecer julgamento, sem significar, apenas entregar-se ao outro e diluir-se nele. No início da minha prática como terapeuta em consultório esse foi um grande desafio, não foi fácil, mas hoje sei que é necessário e possível. Sou testemunha disso.

segunda-feira, 18 de outubro de 2010

Adeus Gaiarsa*

Rosângela Rossi
Psicoterapeuta e Filósofa Clínica
Juiz de Fora/MG


Nossa! Quanta perda em tão pouco tempo.
Hoje faz uma semana que meu pai partiu e um dos meus mestres também resolve ir embora.
Haja coração!

Com ele aprendi muito sobre couraças, bionergia, muito da psicologia corporal e renascimento.
Recebia sempre em primeira mão seus novos livros.
Foram anos de aprendizagem e reflexāo. Aprendizagem e prática. Grande mestre.

Pudemos fazer aqui em Juiz de Fora uma homenagem de gratidão à ele. Que bom!

Onde há vida há morte. E a morte de um mestre como Gaiarsa deixa não apenas tristeza e falta, mas a responsabilidade de preservar seu trabalho.

Sinto muita gratidão pelo mestre, amigo, terapeuta que deixa sua marca em todos aqueles que acompanharam suas idéias revolucionárias e libertárias.

Nem sei, agora o que escrever.

São tantas boas memórias desde do dia em que o conheci, que nem sei por onde começar. Uma coisa é certa. Ele viveu intensa e livremente. Pensou e falou francamente tudo que acreditava. Ensinou muitos a serem o que realmente são.

Não sei se acabou o livro que estava escrevendo sobre Deus. Tomara que sim.

Parta em paz meu amigo e mestre. Que o sagrado do TaoDeusUniversoInfinito o receba da mesma forma que viveu: de braços abertos.

*Entrevista com José Ângelo Gaiarsa no espaço "Vistas entre palavras".
Consulta Pré-operatória e Filosofia Clinica*

Ildo Meyer
Médico e Filósofo Clínico
Porto Alegre/RS


A medicina no Brasil ainda é muito mais curativa do que preventiva. Pacientes costumam procurar o médico quando estão doentes e não quando estão saudáveis visando prevenir alguma moléstia. A saúde para alguns, é considerada um valor, mas para a grande maioria, só é lembrada no momento em que foi perdida.

Partindo desta premissa, pode-se sugerir que as pessoas procuram os médicos não por desejo e sim por necessidade. A necessidade da cura é o que leva um paciente a procurar ajuda na medicina curativa, classificando assim, teoricamente, a medicina em uma categoria de serviços não desejados e sim, necessários.

Quem se submete a uma cirurgia, o faz por necessidade e não por um simples desejo. Poderíamos citar como exceção, cirurgias estéticas, porém mesmo nestas situações, o paciente submete-se à cirurgia por sentir que este procedimento é necessário para seu embelezamento, pois pode estar se sentindo “feio”, e quem sabe, em sua visão de mundo, até mesmo doente.

A partir da necessidade e da indicação de uma cirurgia, pacientes são encaminhados para uma consulta pré-anestésica alguns dias antes da cirurgia, visando avaliar o paciente, planejar a técnica anestésica e fornecer explicações e instruções pertinentes. Em alguns casos, esta consulta prévia não pode ser realizada, acontecendo o contato entre paciente e anestesiologista momentos antes da cirurgia.

Tendo concluído a pós graduação em Filosofia Clinica, passei a fazer uso do aprendizado em minha prática anestésica, e gostaria de compartilhar esta experiência, e, quem sabe, de alguma forma, contribuir para uma melhoria na percepção dos anestesiologistas, a respeito da visão de mundo do paciente no contexto de uma cirurgia iminente.

Anestesiologistas são médicos especialistas, trabalhando em ambientes de alta precisão tecnológica, onde pequenas falhas podem ser fatais, e por isto, precisam estar atentos aos mínimos detalhes e em estado de vigilância constante do paciente. A preocupação com as alterações emocionais decorrentes de todo o processo operatório, bem como o treinamento para lidar com estas situações, não são enfatizadas, ou pelo menos, são colocadas em um plano secundário durante os três anos de formação na especialidade.

Desta maneira, no momento da consulta pré-anestésica, vai acontecer uma interação entre um paciente teoricamente ansioso, fragilizado que tem como Assunto Imediato a realização de uma cirurgia não desejada, com um médico anestesiologista focado para o lado técnico anestésico-clinico, e, provavelmente, com deficiências para tratar dos aspectos psicológicos contextualizados nesta situação.

O que esperar desta consulta?

O desafio emoldurado é uma consulta de quarenta e cinco minutos onde além da avaliação médica propriamente dita, seja desenvolvida uma interação positiva entre anestesiologista e paciente, sejam visualisados os conflitos existenciais relativos ao contexto cirúrgico e, se possível, a utilização de submodos (procedimentos clínicos utilizados em filosofia clinica) adequados para auxilia-lo em caso de necessidade.

Durante a anestesia propriamente dita, o paciente estará inconsciente ou provavelmente sedado. A consulta pré-anestésica, momento em que o paciente encontra-se desperto, é a oportunidade de se demonstrar respeito, atenção, empatia com o sofrimento alheio e disponibilidade para auxiliar num momento de vulnerabilidade e dependência.

Algum gracejo por parte do paciente ou familiares não é um fato raro. “Este é o perigoso”, “Não tenho medo da cirurgia, tenho medo da anestesia”, “Não vai me deixar paralítico”, etc. O que fazer numa situação destas? Sair dando explicações? Em filosofia clinica, recomenda-se não fazer agendamento algum antes de se conhecer o paciente e a família. Assim, a conduta adequada seria a de simplesmente escutar o gracejo e deixar para respondê-lo mais adiante, se for o caso.

Após a apresentação usual, parte-se para a colheita da anamnese. De preferência com o próprio paciente, e o bom senso vai indicar se é necessária a solicitação da retirada de familiares e amigos do local. O paciente deve sentir-se confortável e à vontade para falar.

Pensei muito em como iniciar uma anamnese, de modo que pudesse deixar o paciente livre para expressar suas angústias e não simplesmente dirigir a entrevista para a área clinico-anestésica. A pergunta que me pareceu mais apropriada para iniciar o diálogo foi: “Qual é o seu problema?”

Tinha um pré-juizo formado de que a resposta óbvia seria a necessidade da realização de uma cirurgia não desejada. Para minha surpresa, este não foi o “problema” relatado pela grande maioria. Situações tais como: não tenho com quem deixar meu gatinho, não posso deixar a loja por muito tempo, não quero entrar sem roupa na sala de cirurgia, precisaria falar com meu filho que está viajando antes da cirurgia, não quero tirar minha prótese dentária, etc. predominaram como resposta.

Os medos clássicos conhecidos pelos anestesiologistas tais como acordar durante o procedimento, sentir dor, náuseas, etc. também foram relatados, porém, o problema, ou a angústia dos pacientes eram as situações do dia a dia que foram interrompidas e não a cirurgia per si.

Em algumas situações, após a pergunta inicial, o paciente iniciava uma crise de choro. O que fazer? Deixar chorar. É uma forma de esteticidade bruta, que tem uma duração limitada e por vezes se faz necessária. Atenção é o que o paciente está solicitando, e o médico deve empenhar-se no sentido de fazer o paciente perceber que seu trabalho naquele momento é escutá-lo e auxiliá-lo. A prudência recomenda aguardar que cesse a crise, quando o paciente deve recomeçar a falar.

Uma segunda pergunta pode ser necessária nesta situação: “Em que posso lhe ajudar?”, seguida de uma breve explicação da função do anestesiologista. “Vou acompanhar seu procedimento cirúrgico e ficar ao seu lado durante todo o tempo da anestesia (importante frisar isto), providenciar para que não sinta dor no período pós operatório e que possamos passar por esta situação da melhor maneira possível e obter os melhores resultados possíveis.” Notem a semelhança de propósitos deste discurso com o que propõe um filósofo clinico, um psicólogo ou um psiquiatra a seus pacientes em consultório.

Antes de estudar filosofia clinica, ainda complementava este discurso com a seguinte frase: “e que o sr(a) possa voltar para casa o mais breve possível e retomar suas atividades. Quem pode saber se é isto que o paciente deseja? Esta simples frase, colocada sem conhecer a história do paciente, pode colocar em risco todo um relacionamento médico-paciente.

Uma boa maneira de iniciar a colheita da história clinica é perguntando a respeito de cirurgias e anestesias prévias. O ideal seria deixar o paciente relatar sua experiência em cada um dos procedimentos realizados. Assim, sem grandes interferências, o paciente vai mostrando dados de sua personalidade. Observa-se a estruturação de raciocínio, as emoções, a postura, o linguajar, etc.

Alguns pacientes são muito questionadores (argumentação derivada em filosofia clinica), alguns pesam os prós e contras da cirurgia (esquema resolutivo em FC), alguns já pesquisaram tudo na internet (buscas em FC), alguns querem a descrição exata do que vai acontecer (roteirizar em FC), alguns sugerem condutas ao médico (atalhos em FC), alguns colocam tudo nas mãos do médico e não querem saber detalhes (em direção ao desfecho em FC), alguns tem idéias pré concebidas a respeito da anestesia (pré-juizos em FC), etc.

As rotulações mencionadas são meramente didáticas e muito superficiais, mas servem para dar uma idéia de como pode ser colhida a Estrutura de Pensamento de um paciente através de uma anamnese em que não se direcione nem se apresse a conversa. E a partir do reconhecimento, mesmo que superficial, de como funciona a personalidade do paciente, pode-se tentar auxilia-lo com alguns procedimentos específicos.

Cabe ressaltar dois pontos importantes: a) um agendamento ou uma intervenção mal realizada pode ser tão fatal emocionalmente ao paciente quanto um descuido técnico anestésico; b) teóricamente, e na prática nem sempre, o tempo médio de uma consulta é de 45 minutos, práticamente inviabilizando o desafio de uma abordagem emocional mais profunda, mesmo que o anestesiologista possua treinamento para realizá-la.

Mas vamos adiante, e quem sabe consigamos alguma luz até o final da explanação.

Dependendo da situação, pode-se lançar mão de um procedimento clinico chamado “Reconstrução”. A partir de um único dado colhido na anamnese, procura-se descobrir dados adjacentes da história do paciente que ajudem a reconstruir a história de uma outra maneira. É preciso que o paciente seja suscetível a este tipo de reconstrução. Exemplificando: o paciente relata que na última anestesia teve uma sensação muito ruim, pois vomitou demais no pós-operatório.

A reconstrução se basearia na consulta de dados adjacentes ao procedimento anestésico, onde se buscassem situações agradáveis a serem inseridas no contexto daquela anestesia. A anestesia foi uma cesareana? Com quantos Kg nasceu seu filho? Mamou logo que nasceu? Como foi o primeiro banho? Sentiu muita dor? Filmaram o procedimento? Seu companheiro assistiu o parto?

A preocupação do médico seria inserir elementos positivos naquela anestesia, reconstruindo de uma maneira agradável aquela experiência. O cuidado extremo na realização deste procedimento é que uma inserção mal feita pode resultar em uma reconstrução num sentido mais desagradável ainda.

Pacientes costumam relatar medo da anestesia, e, pode ser tentada a técnica de faze-los “percepcionar” este medo. Busca-se detalhes deste medo através da montagem de uma cena onde o mesmo possa ser palpado, percepcionado. Uma cena virtual, porém de preferência tridimensional, com cheiros, luzes, etc. Ao nos aprofundarmos na questão, podemos descobrir que o medo se refere à escuridão, barulhos, tamanho da injeção, etc. De posse destes dados, pode-se então introduzir elementos que darão mais segurança ao paciente no sentido de enfrentar os medos agora percepcionados.

O paciente, uma vez hospitalizado, é afastado de seu convívio familiar, social e profissional e passa a conviver com situações novas. É neste momento que o mesmo passa a ser dependente de um profissional que possa cuidá-lo e ao mesmo tempo ser um elo de ligação entre as novas rotinas e o mundo do qual foi afastado.

Em breve, teremos computadores sofisticados, precisos e eficazes, capazes de calcular doses anestésicas de acordo com sua farmacocinética e adequando-as baseado na monitorização minimamente invasiva dos sinais vitais. Todo este avanço tecnológico e científico pode se tornar inócuo, pois estes mesmos aparelhos serão impessoais e assustadores para os pacientes. Frios, surdos e mudos.

A quem caberá o papel humanizador? Quem será o elo de ligação? O anestesiologista, à enfermagem, psicólogos, filósofos clínicos? Quem fará a diferença neste processo?

*Adaptação de palestra realizada no IX Encontro Nacional
de Filosofia Clinica – São Paulo – Univ. São Camilo - 2007

domingo, 17 de outubro de 2010

Ser Filósofo Clínico*

"Então me senti como um observador dos céus. Quando um novo planeta desliza para o seu campo de vista; ou como o resoluto Cortês, quando com olhos de águia, contemplou o Pacífico e todos os seus homens entreolharam-se com um alucinado presságio (...)."
John Keats


O exercício clínico do Filósofo acontece em contextos de imprecisão e descoberta. Inexistem fórmulas prontas, verdades, aconselhamentos, receitas, testes ou orientações pré-determinadas. As dinâmicas de acolhimento e atenção com a vida desdobram-se no mundo como representação da pessoa. Um processo inicial de abertura anuncia a terapia. Ponto de encontro aos desdobramentos do papel existencial cuidador.

A fundamentação teórica é conseqüência aproximada de 2.500 anos de Filosofia. A fundamentação prática descortina-se nos eventos de consultório. Propor uma leitura direta dos clássicos e tentar encontrar ali Filosofia Clínica, pode ser tarefa árdua. Esse trabalho foi feito por outro médico-pensador: Lúcio Packter.

Sua trajetória existencial: idéias, pensamentos, estudos e pesquisas constituem um pré-requisito para saber mais sobre o tema. Seu aparato metodológico situa-se na pós-modernidade da história das terapias.

Talvez a questão de maior destaque sobre a natureza dos atendimentos diga respeito ao que faz de um terapeuta um bom terapeuta. Chama atenção um ingrediente, considerado como defeito por outras abordagens: as carências e fragilidades do clínico. No referencial metodológico da Filosofia Clínica, esse componente pode ser aliado imprescindível ao ser cuidador!

No exercício do papel existencial, esse aspecto, quando bem elaborado, vincula-se poderosamente a uma excepcional manifestação de humanidade. Aptidão que anuncia a natureza das interseções e costuma acompanhar a pessoa bem depois da alta compartilhada. Pode significar força e dedicação incomuns à pluralidade do fenômeno humano.

Algo mais se oferece em nomenclaturas desse papel existencial: acessar intencionalidades entremeios de narrativa, reconhecer o endereço, a forma e o tempo próprio pelo qual as problemáticas se estruturam e identificar venenos e antídotos na generosa farmácia das subjetividades, integra a magia do ser Filósofo Clínico.

Na expressividade do consultório, é possível descobrir nomes, versões e signos aptos à tradução compartilhada desses inéditos. Descortina-se em território próprio ao revisitar o velho álbum das suas recordações.

As considerações narrativas atualizam imagens que pareciam perdidas no tempo. Os refúgios entremeios da linguagem podem desvendar a farmácia onde os remédios se encontram. Há de se reescrever mapas e reconhecer divisas, tratados e limites territoriais da estrutura de pensamento.

A terapia como inspiração, acolhe, tenta qualificar interseção e busca entender os tropeços iniciais, para antever escutas e vislumbrar sons de raridade inadequados às palavras. Em cada pessoa, uma obra aberta persegue-se na impermanência das crises. Dialetos de aparência estrangeira denunciam a realidade contaminada pela fugaz poesia dos delírios.

Os roteiros e significados possuem uma forma peculiar de se dizer. Conversação entrevista na interseção do sujeito com seu cotidiano. Ser Filósofo Clínico é compartilhar silêncios e ressonâncias, sem descuidar das perspectivas do outro. A plasticidade e um planejamento dinâmico (que pode incluir um não-planejamento) referem-se aos instantes onde o terapeuta tenha de refazer, objetivamente, aquilo para o qual estava preparado.

Quando o estudante consegue integrar, de maneira eficaz, sua historicidade e vivências aos estudos, a formação poderá ter um alcance maior. Transitar e dialogar com a estrutura das surpresas, fazer e refazer percursos, acrescentar percepções e não desmerecer intuições, bem assim investigar sua própria estrutura enquanto acolhe e transita por mundos alheios, constitui fatos determinantes a preparação desse médico de almas.

Encontrar um refúgio capaz de devolver o Filósofo Clínico ao seu eixo estrutural é imprescindível. Acostumar-se ao espírito aprendiz, num referencial de obra aberta para acolher o outro, suas dúvidas e contradições, no esboço descontinuado para decifrar sua linguagem.

O gerenciamento das atitudes de não-expectativa antes, durante e depois das sessões pode conceder eficácia à investigação preliminar, antes das intervenções mais adequadas à singularidade.

Percorrer em reciprocidade os recantos da subjetividade partilhante, identificando sensações e percepções pode significar uma leitura mais apropriada para compreender suas verdades. A investigação reflexiva na prática clínica descobre a vida para além da trama bem arrumada dos conceitos.

Nos ensaios desconstrutivos do consultório, uma pluralidade de hipóteses, experimentações, simulacros e outros roteiros, desdobram-se na continuidade de um compartilhar. Para bem depois das queixas iniciais, o Filósofo Clínico trabalha para qualificar a circunstância narrativa, por onde os registros históricos se atualizam e ganham sentido na versão muito íntima das singularidades. Contradição com o enredo bem guardado a sugerir outras vivências, no devir imprevisível das vontades.

A interseção entre os integrantes dessa realidade pode inventar conexões de apoio aos ensaios de vida nova. Sob muitos aspectos, o exercício da clínica revela-se como um poderoso aliado aos sonhos por transformar o mundo.

Outro dia escutava um colega dizer: "ser terapeuta em tempos de fartura e bonança é fácil, quero ver quem realmente consegue utilizar o que aprendeu em tempos difíceis". O papel existencial cuidador aparece vinculado às caóticas e decadentes crises das pessoas.

Um aspecto importante, após decifrar a trama conceitual contida na fundamentação teórica e qualificar a fundamentação prática, é buscar diálogos entre as vivências de aprendiz e o quanto essas convivências podem melhorar o estilo do ser terapeuta. Bem assim, não descartar as quedas e tropeços existenciais nos quais se pode encontrar um ponto de apoio à formação continuada.

Uma boa interseção, as descobertas, os riscos e concepções pessoais possuem papel significativo na estrutura dos atendimentos. O terapeuta vai se acostumando a interagir com as adversidades, quase ao mesmo tempo de seus exercícios em território próprio. Com maior intimidade e domínio dos procedimentos adequados à subjetividade em atendimento, é possível descobrir o alcance da medicação.

A etapa desestruturante para autonomia da pessoa aprecia a sedução desses imensos horizontes de incógnita. Até o tempo resignifica sua condição, entremeios de incertezas e dúvidas. Na fala viva dessa incompletude, um referencial de tipo novo supera as anteriores versões. Insinuação para além do texto bem arrumado dos compêndios.

Secretas vontades interagem com pretextos de re-significação. Interseção onde o humano experimenta-se na provisoriedade dos novos papéis. Assim, a clínica se faz laboratório aos experimentos de múltiplas faces.

Talvez uma pergunta sem resposta possa marcar o início sem-fim dessas explorações compartilhadas. Conexão com a natureza difusa das subjetividades. A recuperação da expressividade interdita pelos diagnósticos, se oferece entrelinhas nos espaços de aparente vazio. Aprecia o disfarce de inexistência no refúgio sagrado das abstrações.

Nessas idas e vindas das sessões, o terapeuta oferece partes importantes de si na relação com o outro-partilhante. Ingrediente imprescindível à qualificação dos atendimentos. Assim, também ele pode sentir necessidade de refugiar-se para atualizar sua estrutura.

Estéticas da alteridade relacionam-se com a (quase) indescritível beleza da expressividade dessa metodologia. Ressonância dos encontros para bem depois das altas compartilhadas. Escutas, olhares e intuições desdobram-se na inconclusão das certezas.

No entanto, de qualquer coisa assim, avistam-se territórios de absurdo casual. Acolhida sem julgar ou classificar para essas impossibilidades do contar, também ele a dizer coisas sobre esse outro que o legitima.

*Hélio Strassburger
Filósofo Clínico. Professor em Minas Gerais, Rio de Janeiro e Porto Alegre. Coordena a Filosofia Clínica na Casa de Saúde Esperança em Juiz de Fora/MG, Secretaria Municipal de Saúde Mental e ONG HI-VITA em São João del Rei/MG. Diretor do Instituto Packter em Porto Alegre/RS.

sábado, 16 de outubro de 2010

Filosofia... Terapias...
Filosofia Clínica!

Ana Maria Frota
Filósofa Clínica
Teresina/PI

“Quem é capaz de ver o todo é filósofo; quem não, não”.
(Platão)

A filosofia visa a ampliar constantemente a compreensão da realidade, objetivando apreendê-la na sua inteireza, portanto, filosofar implica em raciocinar, meditar, discutir argumentar questões diversas relacionadas às vivências e aos comportamentos do homem.

Pois, a maneira como o homem se comporta, age, tem a ver com um grupo de fatores internos e externos que lhe são inerentes, tais como: sua visão de mundo, sua razão, suas emoções, suas verdades, seus valores, suas experiências, seus hábitos e etc., ou seja, conforme sua filosofia de vida.

“A alma nos ordena conhecer aquele que nos adverte: ‘Conhece-te a ti mesmo’.” (Sócrates)
Para Sócrates o homem é a sua alma. Ele entendia a alma como a consciência – atributo pelo qual o homem pode conhecer e julgar sua própria realidade, daí, a sua celebre máxima “conhece-te a ti mesmo”.

Portanto, se o homem é a sua alma, a virtude do homem está na cura da alma. Logo, assim como a doença e a dor física são desordem do corpo, a saúde da almaé a ordem da alma, e essa ordem espiritual ou harmonia interior é a felicidade. Sócrates acreditava que a felicidade estava em se levar uma boa vida.

Sua grande questão é: Entretanto, o que é bom e o que é ruim? Para Sócrates, “A cura da alma se dá no diálogo (dialética), através da ironia-refutação para purificar a alma do falso saber e da maiêutica para fazer emergir, mediante perguntas e respostas, a verdade que está em cada um de nós.” (Reale; Antiseri, 2003:108). Sócrates parece ter sido terapeuta de si mesmo.

Sócrates identifica a cura da alma com a suprema missão moral do homem. Platão conserva o pensamento socrático, entretanto, põe um significado místico e esclarece que cura da alma significa “purificação da alma”. Isso se dá à proporção que a alma ultrapassa os sentidos, e conquista o mundo do inteligível e do espiritual.

O processo do conhecimento racional também representa para Platão, um processo de “conversão” moral. Pois, à proporção que o processo do conhecimento nos leva do sensível para o supra-sensível e nos conduz de um mundo para o outro, também nos conduz da falsa para a verdadeira dimensão do ser.

Consequentemente, é “conhecendo” que a alma cura a si mesma, realiza a própria purificação, se converte e se eleva. Aqui se encontra a verdadeira virtude. Platão considerava que o trabalho do filósofo era abrir os olhos das pessoas e ajudá-las a procurar a perfeição. A sua grande questão era: Existirá um mundo perfeito?

Os Epicuristas e os Estóicos tinham raízes na busca de Sócrates: como levar uma vida boa? Mas, enquanto para os epicuristas a filosofia se distingue como uma terapia da alma, da qual sua fundamentação e argumentos traziam como objetivo diminuir as dores existenciais do ser humano, para os estóicos, a filosofia dizia respeito a uma ciência que ensinaria a arte de viver bem, que consistia em não se deixar governar pelos sentimentos, e só querer aquilo que podiam ter, assim, não se frustrariam.

Tão antigo é o caminhar do homem a procura da cura para os males da alma. E tão recente parece esse caminhar – pois ele é de ontem, mas, também é de hoje. Portanto, tem se perpetuado esse caminhar, comprovando o poder terapêutico da filosofia para aliviar as aflições das pessoas.

A terapêutica como parte da medicina, estuda e põe em prática os meios e os métodos adequados para aliviar, minimizar ou curar pessoas ‘doentes’.

A psicanálise – criação freudiana, durante muito tempo predominou como forma de tratamento através da fala – método usado comumente pelas outras áreas terapêuticas, hoje, no entanto, a psicanálise parece não responder as grandes questões existenciais do homem, deixando um misto de descrédito pelo padrão adotado para significação do sofrimento mental, e por não ter nenhuma base científica que a sustente, assim diz o neurocientista Ivan Izquierdo, à revista Superinteressante de outubro de 2002.

Outrossim, a psicologia é um ramo da ciência médica que estuda a mente e os processos mentais do ser humano buscando autoconhecimento, e portanto, propõe terapias para melhorar a vida das pessoas.

Tantas são as terapias fundamentadas em ideologias sem capacidades, seja pelos seus métodos ou por seus fundamentos, que não conseguem dar resposta satisfatória às questões apresentadas pelo ser humano na sua dor existencial.

A filosofia com Lou Marinoff em Mais Platão, Menos Prozac e Pergunte a Platão desenvolve uma forma terapêutica a partir de pressupostos filosóficos, realizando assim a filosofia prática, cujo objetivo, é clarear as idéias e fazer um resgate do homem que está imerso no seu submundo em total desprovimento de razão, motivo pelo qual se encontra em estado de inação racional, consigo, e também com o mundo que o cerca.

A filosofia prática nesse contexto vem possibilitar a reconstrução da vida do ser humano de forma concreta capacitando-o a enfrentamentos com os vários desafios que a realidade do mudo pode lhe oferecer. Portanto, Marinoff, canadense, criador do movimento de aconselhamento filosófico nos EUA, traz como proposta a retirada da Filosofia do discurso acadêmico para levá-la ao cotidiano das pessoas.

“A Filosofia Clínica não é toda a resposta, ela é uma das respostas”. ( Packter)

Tão criança ainda é a Filosofia Clínica, bem brasileira, portanto, nossa. Surgiu na década de 80 com as pesquisas e estudos do filósofo gaúcho, Lúcio Packter. Ela é a mais nova maneira de se fazer terapia.

Sua fundamentação teórica tem raízes na Grécia antiga desde os pré-socráticos. Podemos dizer que a Filosofia Clínica é a Filosofia Acadêmica direcionada à clínica, e, portanto, é a transformação da teoria em prática, ou seja, é o conhecimento filosófico usado com método e fundamentação para trabalhar as questões existenciais da pessoa, tais como: angústias, depressão, medo, insegurança, ansiedade, perdas, enfim, e umas tantas outras questões.

A Filosofia Clínica traz como ferramenta de trabalho a historicidade da pessoa, desde a sua infância até os dias atuais. A história de vida da pessoa está permeada de fatos, acontecimentos, vivências que são únicas, portanto, a soma de tudo isso é que formará a Estrutura de Pensamento – o modo ser da pessoa no mundo, com sua visão de mundo, com suas idéias, suas sensações, emoções, valores, pré-juízos, e tudo o mais que faz dela uma pessoa única, singular.

É todo esse complexo de coisas, que formam a Estrutura de Pensamento da pessoa, e que ela traz ao consultório para compartilhar com o filósofo clínico. Daí, a expressão partilhante para todo aquele que busca pelos serviços filosófico/clínico.

Partilhante, por partilhar as suas vivências, por mostrar que em meio a elas, informalmente ele pode ter maneiras de lidar com os enfrentamentos do seu cotidiano, ou então, precisa descobrir ou construir maneiras que lhe permitam resolver tais questões.

E, a essa maneira informal de lidar com suas questões, chamamos de submodos, os quais também os denominamos de procedimentos clínicos – quando identificados e utilizados pelo filósofo clínico, para desconstruir e amenizar os possíveis choques presentes na Estrutura de Pensamento da pessoa.

A Filosofia Clínica é plástica, portanto, se apresenta como uma possibilidade de interagir e conhecer o ser que se nos apresenta, com suas vivências e peculiaridades. Portanto, busca compreendê-lo a partir do seu existir, numa relação compartilhada de empatia e alteridade.

sexta-feira, 15 de outubro de 2010

O corpo fala?

Lúcio Packter
Pensador da Filosofia Clínica


Em uma palestra que realizei na Faculdade de Goiatuba, em Goiás, para professores e alunos de Enfermagem, tratamos de alguns aspectos sobre o corpo, tal qual o entendemos pelas dimensões médicas; cabeça, tronco, membros.

O corpo, em seus ritmos, desejos, necessidades, propensões, e uma série de elementos, pode estar ligado preponderantemente à sociedade dos homens. Neste caso, pode ter como espelho o que esta sociedade lhe diz para ser e estar.

Alguns corpos aprenderam as regras sociais e coerentemente mostram o que a sociedade quer que mostre. O corpo pede, adoece, envelhece e morre muitas vezes programado por um relógio social ao qual segue com a sabedoria da obediência. Em tais casos, desentendimentos entre o que o corpo vive e as emoções, as buscas, os valores da pessoa costumam ocorrer.

Mas há corpos cujos vínculos profundos dizem respeito aos pensamentos, muito mais do que elementos sociais que lhes possam afetar. As coincidências podem ocorrer quando, por exemplo, o pensamento é paralelo à sociedade. Há pessoas que quando pensam elementos agradáveis a elas o corpo imediatamente acusa um bem estar similar.

Além de sociedade e de pensamentos, quando no consultório me deparo com questões que têm como orientação e base o corpo, é frequente chegar a outras relações. Há corpos cujas interseções determinantes ocorrem com as emoções, com as aprendizagens, com espiritualidade e assim por diante.

De templo a lata de lixo, de servo a senhor, de mesclas indistintas a exatidões cartoriais, o corpo pode tornar-se desde celestial até rochoso. E nestas variâncias é oportuno que consideremos as propriedades rochosas dos elementos celestiais.

Se vamos trabalhar em áreas como medicina, enfermagem fisioterapia, e outras, imagino que pode ser de grande relevância estudarmos estes aspectos. Para muitas pessoas o corpo é um elemento importante. Pesquisar o que ele é na pessoa, suas funções, relações, existência pode nos auxiliar a descobrir maneiras de tratar, de lidar, de viver com e no corpo.

O corpo fala? Em algumas ocasiões ele nem sequer sabe o que se passa, em algumas ocasiões ele discute, foge, briga, contesta, aceita; em algumas, não existe. Mesmo quando fala, ele pode estar enganado, pode interpretar erroneamente um dado. E há casos curiosamente peculiares, como quando o corpo se comporta como alma ou se transforma em outra coisa que não é corpo.

quinta-feira, 14 de outubro de 2010

Ócios necessários

Idalina Krause
Filósofa Clínica
Porto Alegre/RS


Para depois de amanhã:
Rever os planos
Acabar de cicatrizar feridas
Ver o que sobrou da tempestade

Dos cacos fazer um mosaico
Colados com lágrimas - expiação
Sete cores disponho
Uma lua entre estrelas

Um mapa
Navego novo mar
Ondas de criação
Corpo dolorido

Uma gargalhada
Ventos equatoriais
Claridade
Sem exatidão

quarta-feira, 13 de outubro de 2010

Amigo da sabedoria, amigo do partilhante.

Miguel Angelo Caruzo
Filósofo Clínico
Teresópolis-RJ

“[...] a relação filósofo-partilhante é uma relação essencialmente de amizade. Cabe ao filósofo ter os cuidados de somente aceitar como partilhante alguém que em sua existência ocuparia de certo modo um tal lugar, reservado à amizade.” (Lúcio Packter, Caderno A, p. 4-5).


Há 2500 anos foram denominados filósofos os que buscavam compreender o mundo, o homem, a vida, a existência, o ser, o todo, e tantas outras questões comuns à investigação humana. Mas, estes não foram considerados os “sábios”. Sábio, em sentido lato, é aquele compreendido como quem conhece, quem está a par do necessário a ser conhecido.

Filósofo é o “amigo da sabedoria”. Ser amigo é admirar, conviver, pensar, gostar, mas não abarcá-lo em sua totalidade. Portanto, o filósofo é aquele que tem ciência de sua limitação em relação ao objeto de sua busca e que, mesmo assim, se lança na pesquisa.

Lúcio Packter postula uma atitude do filósofo clínico em relação ao partilhante como uma amizade. É claro que o caráter profissional não deve ser deixado de lado. Não se trata de uma amizade tal qual se dá com nossos amigos íntimos escolhidos – se é que amizade é fruto de alguma escolha deliberada. O que o pensador da Filosofia Clínica parece pedir é uma atitude filosófica diante da pessoa que o busca no consultório.

Se o filósofo não tivesse interesse em sua busca, o anseio pelo saber não se daria e nenhum progresso seria possível. Do mesmo modo o filósofo clínico, se não tiver um interesse em conhecer o partilhante, jamais conseguirá estabelecer uma recíproca de inversão suficiente para compreender o que lhe é apresentado.

Deste modo, tanto o filósofo quanto o filósofo clínico devem estabelecer a mesma postura diante do que está buscando: o primeiro diante da compreensão de algo que lhe afeta, e o segundo diante do partilhante. Em ambos, o que buscam jamais será totalmente desvelado.

Tantos séculos de pensamento mostram um devir constante, mudança de modos de pensar e do que é pensado. Não há certo nem errado, há pensamento e o que é se desvelando de acordo com o pensador.

O filósofo clínico não apresentará postura diferente. Diante do partilhante não há verdade a ser descoberta. O trabalho de “amizade” consiste em receber o que lhe é apresentado. O partilhante e seu desvelar. Não se propõe a pretensão de compreendê-lo em sua totalidade.

Apreende-se o máximo do relato e dos diversos modos de expressão do partilhante. Suas angústias aparecerão. Algo dos conflitos da estrutura de pensamento é encontrado. O filósofo utiliza seu aprendizado para encontrar o melhor modo possível para aliviar esses conflitos na EP do partilhante. Este vai embora agradecido. Houve uma relação de amizade, no sentido filosófico.

Tanto o filósofo quanto o filósofo clínico somente chegarão ao desvelar do que lhe foi apresentado. Nem se adquire a sabedoria do que buscava, nem o diagnóstico completo do que é o partilhante.

A beleza da vida talvez se suceda aí. Não há certezas, somente aproximações. E estas são suficientes para que o processo reinicie a cada novo desafio na clínica e na vida. Tudo é novo o tempo todo. Inclusive na amizade.

Há, portanto, o amigo da sabedoria e não sábio; amigo do partilhante e não seu sabedor.

terça-feira, 12 de outubro de 2010

Há um caminho

Rosângela Rossi
Psicoterapeuta e Filósofa Clínica
Juiz de Fora/RS


Há um caminho
Processo
E ele precisa de um coração
Pulsação
Cada passo tem seu compasso
De vida viva
Instante sagrado

Há um caminho
Escolha
Somos livres para caminhar
Por onde quisermos
Conscientes
Independentemente
No agora-Aqui

Há um caminhante
Eu e Tu
Não importa a meta
Peregrinos a decifrar
Os enigmas do grande mistério
Que é viver

Cada minuto é sagrado
Por isto é bom não esquecer
Que não podemos complicar

Pois o tempo passa e passa e passa
Rápido
E um caminho é apenas
O caminho.

segunda-feira, 11 de outubro de 2010

Convite:

Palestra com o Filósofo Clínico e Professor Bruno Packter dia 14/10/2010.

Tema: “Filosofia Clínica: corpo e mente”

O evento acontece nesta quinta-feira (dia 14), às 19h30 nas Livrarias Catarinense.

Entrada gratuita.

Local: Livrarias Catarinense no Beiramar Shopping (Piso Joaquina, lojas 247 e 248)
Endereço: Rua Bocaiúva nº. 2468 – Centro – Florianópolis
Informações e inscrições pelo fone: (48) 3271-6030

Atenciosamente,

Coordenação
Filosofia Clinica e Medicina

Ildo Meyer
Médico e Filósofo Clínico
Porto Alegre/RS


Quando uma pessoa apresenta determinado sintoma (dor abdominal, tontura, enxaqueca, febre, etc), geralmente é submetida a uma investigação composta de história clínica, exame físico e, quando necessário, exames laboratoriais. Em determinadas situações, nada de concreto é encontrado, a não ser a queixa do paciente. Prossegue-se então na busca de alguma patologia, passando-se a uma nova etapa: realização de exames mais sofisticados(ressonância magnética, cintilografia, endoscopia, cateterismo cardíaco, etc).

Duas situações podem se apresentar após investigações exaustivas: encontra-se a causa da sintomatologia apresentada e parte-se para o tratamento, ou os exames continuam dentro da normalidade ou levemente alterados sem apresentarem relação direta com as queixas do paciente.

O que fazer nestas situações? Alguns médicos partem para uma nova bateria de exames ainda mais sofisticados, outros passam a tratar paliativamente o sintoma e, em determinadas ocasiões, o paciente cansado de tantos exames, procura outro médico ou até mesmo abandona o processo de investigação e tratamento, resignando-se a conviver com seu problema/queixa. Do ponto de vista estritamente físico, o diagnóstico deste paciente é de normalidade, assim sendo, eventualmente encaminha-se o mesmo para um tratamento psicológico, com suspeita de somatização.

A evolução da medicina, através da ampliação do conhecimento e do avanço tecnológico, permitiu que fossem captadas imagens do interior do corpo humano com facilidade e nitidez nunca dantes imaginadas. Assim, uma ressonância magnética cerebral, aliada a um eletroencefalograma e, quem sabe, um exame de liquor, podem dar muito mais acuidade e segurança a um diagnóstico do que a coleta da história clínica e testes neurológicos realizados pelo médico em seu consultório.

A situação que se coloca aos médicos de nossa sociedade tecnológica é a cobrança de diagnósticos com rapidez e precisão, atendimento de muitos pacientes em uma jornada de trabalho para garantia de sua sobrevivência e comprovação documentada do atendimento, visando proteção contra possíveis ações judiciais por erro médico.

Muito embora seja enfatizado inúmeras vezes na formação de um médico que a história clinica e o exame físico são soberanos aos exames laboratoriais complementares, submetido a estas pressões, às vezes fica mais fácil ao médico, realizar um rápido exame clínico e solicitar de imediato os exames complementares, talvez descuidando um pouco ou até mesmo comprometendo a relação médico-paciente em troca de uma agilidade, segurança e precisão tecnológicas.

De qualquer maneira, vemos que o diagnóstico de saúde física geralmente é firmado quando um paciente assintomático, após a realização da história clínica e exame físico, não apresenta padrões alterados da normalidade nos exames realizados. Mesmo com a evolução da medicina, que deixou de ser apenas curativa para se preocupar também em prevenir doenças, os exames clínicos e laboratoriais é que determinarão se o paciente encontra-se saudável ou com doença.

A Organização Mundial de Saúde (OMS), em 1948, já definiu o que é saúde: “Estado de total bem estar físico, mental e social, e não somente a ausência de doença ou enfermidade”.

Por esta definição, três entre quatro pessoas estariam “doentes”, ou não gozariam de saúde.A medicina, nos seus primórdios, provavelmente não tinha condições de reconhecer e tratar os transtornos mentais. Os pacientes desajustados socialmente, popularmente conhecidos como “loucos”, eram trancafiados em locais que mais tarde passaram a se chamar sanatórios, isolando-os do convívio social e familiar.

Mais tarde, surgiu a especialidade que se dedicaria ao estudo e tratamento dos problemas da mente: a psiquiatria, que, sendo um ramo da medicina, passou a ter uma nomenclatura específica para cada desordem ou transtorno mental apresentado pelo paciente. Estas entidades estão catalogadas no Diagnostic and Statistical Manual of Mental Disorders – Fourth Edition (DSM-IV), publicado pela American Psychiatric Association em 1994 e revisado em 2000.

Em psiquiatria, se eventualmente um paciente não for enquadrado em nenhuma categoria da DSM-IV, talvez receba o rótulo de normalidade mental e social. Segundo a OMS, este título atinge 25% das pessoas.

Estariam os 75% restantes das pessoas com desajustes mentais e sociais? Quais os exames para a detecção de bem estar mental e social? O que fazer?A experiência de consultório tem demonstrado aos médicos das mais variadas especialidades, principalmente na área de ginecologia e obstetrícia, que um grande número de pacientes vai ao consultório por um determinado sintoma, mas termina falando e se queixando de seus relacionamentos e problemas conjugais, obrigando muitas vezes os médicos a atuarem em uma área para a qual não foram treinados especificamente.

Médicos que trabalham em Unidades de Tratamento Intensivo atendem pacientes em estado grave, muitas vezes comatosos que aparentemente não se comunicam, outras vezes à beira da morte. Estes médicos relatam suas dificuldades em amparar toda uma gama de familiares e amigos, que podem precisar de apoio nestas horas, pelas mais variadas razões (indisponibilidade de tempo, treinamento insuficiente na área de relações humanas, dificuldades de relacionamento inerentes ao próprio médico, etc.).Outros médicos relatam suas experiências ao comunicar um diagnóstico de câncer.

Alguns pacientes desabam, outros negam, questionam, agridem, têm sua visão obscurecida, outro grupo toma atitudes positivas, apela para a fé, esperança, etc. Cada paciente vai reagir psicologicamente a sua maneira, que pode ser prevista através de um acompanhamento especializado prévio à comunicação do diagnóstico, atenuando ou até mesmo estimulando as reações emocionais que se apresentem.

Nestas e em outras situações é que a filosofia clínica pode ser útil à Medicina e à população em geral. Partindo do princípio que o trabalho de um filósofo clinico é promover o bem estar, auxiliando cada indivíduo a entender, ou pelo menos conviver com seus dilemas existenciais, servindo como um amigo que estará ao seu lado na jornada que se apresenta como difícil, e quem sabe sofrida, já temos um caminho.Não necessariamente um caminho de cura, nem de diagnósticos. Saúde não é apenas um diagnóstico, mas uma postura de bem viver. Não é o corpo que está doente, mas todo o ser.

A preocupação maior no tratamento não é eliminar a doença e sim dar condições ao paciente de expressar suas dores e conviver com seus males existenciais da melhor forma possível.

Com o auxilio de procedimentos clínicos, tais como tradução, retroação, atalho, percepção, roteirizar, informação dirigida, busca, direcionamento ao desfecho, às emoções, etc, planejados para cada situação em particular, o filósofo clinico pode auxiliar um paciente com diagnóstico de tumor cerebral e sua família a enfrentar a doença e suportar o sofrimento, fazer uma pessoa entender o motivo de suas enxaquecas e cansaço, demonstrar à equipe médica que a sintomatologia apresentada pelo paciente pode ser um dado de semiose não verbal (assim como os sonhos podem refletir os problemas da mente, o corpo pode mostrar através dos sintomas, situações conflituosas), identificar um dado de semiose não verbal num paciente comatoso, mostrar a uma pessoa enlutada que o sofrimento com a perda não precisa ser combatido por ser algo desagradável, encorajar ou encontrar uma maneira que torne possível um paciente claustrofóbico realizar uma ressonância magnética, acompanhar um paciente que tentou o suicídio ao sofrer uma desilusão amorosa.

Quando um paciente passa a necessitar doses maiores de insulina para controlar sua diabetes, quando a pressão arterial começa a se elevar, o simples aumento na dose das medicações seria o tratamento ou apenas alivio dos sintomas? Estes desequilíbrios hormonais não poderiam ser resultados de conflitos emocionais?

O tempo exíguo de uma consulta, a perda da qualidade na relação médico-paciente e o treinamento em tratar doenças físicas, fazem com que o médico, mesmo atento aos efeitos emocionais na saúde física, porém sem condições de ir mais fundo por este caminho, possa eventualmente prescrever a estes pacientes um sedativo ou um anti-depressivo como medicação complementar.

Baseados nos ensinamentos filosóficos sobre sofrimento, dor, amor, buscas, preconceitos, liberdade, religiosidade, emoções, etc, surgiu a filosofia clínica, que através de metodologia específica para entendimento da estrutura de pensamento de cada indivíduo, sem rótulos ou preconceitos limitadores, visa contornar justamente estes mal estares e até “desajustes” de vivência social que estão incorporados ao dia a dia moderno.

O filósofo clínico não está autorizado a prescrever medicamentos. Sua função seria recompor no paciente a figura de sua singularidade existencial, vindo a suprir, quem sabe, a lacuna deixada pelos médicos de uma relação mais humana e direcionada aos problemas, por assim dizer, da alma. Um trabalho a ser realizado em parceria com médicos, psiquiatras, assistentes sociais e demais membros de uma equipe multidisciplinar de saúde.

A filosofia clínica surge como uma alternativa a ser somada à medicina, seja na profilaxia de várias doenças, onde o bem estar mental e social podem fazer o indivíduo perceber seu papel existencial e sua função na preservação de sua saúde e dos que o cercam, seja na compreensão por parte da equipe médica, de que o paciente, através de sua representação do mundo, de seu entendimento das coisas, é quem vai dar a medida do que é doença e saúde e do que é normal e anormal. Parafraseando Winnicott : “Ausência de doença pode ser saúde, mas não é vida”.