segunda-feira, 25 de outubro de 2010

Qual o lugar da Filosofia Clínica num mundo em veloz mudança?


Célia Costa Ferreira
Filósofa Clínica
Teresina/PI


Faço da janela, junto a qual estou sentada, a moldura para a paisagem que se organiza aos meus olhos, com palmeiras diversas, carregadas de frutos, ciprestes, quaresmeiras e arbustos com flores amarelas, alaranjadas; faveiras. Tudo isto tendo como fundo algumas montanhas de Petrópolis, para onde vim, fugindo da folia destes dias carnavalescos.

Aqui o verde predomina e o silencio é quebrado pelo chilrear dos pássaros ao longe. Bem no alto, nuvens brancas se deslocam no anil do céu. Um pássaro pousa no galho seco de uma árvore, viva, em renovação.

Este é um lugar da Filosofia no mundo em veloz mudança?

Tudo parece parado. Aparentemente está, entretanto apenas a velocidade do movimento da vida está reduzida, permitindo-nos usufruir do momento para refletir. Fazendo uma análise mais acurada vamos verificar que a velocidade no microcosmo deste ecossistema é igual ou maior ao que vi no vídeo (FISCH, Karl; 2007) que ilustra o tema a ser trabalhado.

Temos conta dos dados estatísticos sobre a população da China, da India, entre outros, todavia desconhecemos o número de formigas, saúvas, minhocas, abelhas e outros insetos que vivem e trabalham neste pequeno espaço, contribuindo para mantê-lo verdejante. Impossível mensurar o pólen e as sementes conduzidas nas patas e bicos dos insetos e aves. Este é um trabalho para Deus.

Que importância tem a velocidade das mudanças no mundo neste lugar onde me encontro agora? Outros que aqui estão, como eu, provavelmente, vieram para desacelerar a mente e o corpo. Curtir o tempo com mais vagarosidade, nem tanto quanto o cágado, mas nem tanto quanto a Internet, que os cientistas querem tornar mais rápida do que o cérebro humano. Ainda não basta o que o homem alcançou em termos de comunicação global? Homo, gratias!

Em contrapartida à velocidade de dados e de êxitos no campo do conhecimento, que se duplicará a cada três dias em 2012, conforme o vídeo (FISCH, Karl; 2007), o mesmo não ocorre no campo da produção de alimentos, de bens de serviços como a saúde, educação, transporte, enfim , básicos para a sobrevivência.

Muito se discute e promete, entretanto, povos estão sendo dizimados pela fome e doenças; a água já é motivo de conflitos; multidões dormem ao relento; doentes crônicos mendigam nas ruas, expondo suas ostomias cancerígenas; homens e mulheres deixam a pátria e família em busca de falsas promessas de empregos em lugares desconhecidos; outros são escravizados no próprio país.
Portanto, qual o lugar da Filosofia no mundo em veloz mudança?

Pergunto para mim mesma, se o mais importante é a mudança veloz ou a qualidade da mudança aliada à velocidade exigida pelo homem nos tempos atuais. E aí vislumbro o espaço a ser retomado pela Filosofia, para trazer o equilíbrio perdido, quando a visão tecnológica afastou o homem de sua postura reflexiva e o tornou refém do açodamento, necessário às tomadas de decisões do chamado mundo capitalista.

Tudo é urgente, como se não haja tempo a perder, pois tempo é dinheiro. Entretanto, as soluções nem sempre são satisfatórias para as maiorias desprovidas. Reuniões de cúpula são feitas, tratados escritos e nem sempre cumpridos na íntegra, porque falta aos dirigentes o compromisso ideológico, a diretriz filosófica, para respaldar, direcionar e dar sustentação aos projetos. Para mim, tudo fica no meio do caminho.

Mesmo que a China e a Índia tenham uma população com cifras assustadoras, estes números jamais serão maiores que as miríades que iluminam o firmamento ou maiores do que a população de seres visíveis e microscópicos que executam seu trabalho em silêncio sem competição desleal para ocuparem um primeiro lugar no mundo animal. Eles cumprem seu ciclo vital sem alterar seu ritmo, mantendo a harmonia da natureza, abalada, tão somente pela interferência do homem.

Como nos mostra o vídeo, a China tem mais gênios do que a América do Sul e do Norte juntas. Mas ele não mostra quantas pessoas vivem na condição de pobreza, não mostra a condição feminina, o analfabetismo, para que estes privilegiados alcancem o pódio da genialidade. Quantos gênios estão sendo desperdiçados por não terem a oportunidade de ingressarem numa escola?

Então, sem nenhum sentimento derrotista, como vislumbrar alguma vantagem nestas cifras, senão, a confirmação de que o Oriente vencerá o Ocidente” Vencerá em números ou também com e pela forca física, militar, ou pela genialidade, a serviço do bem? Sem Esquecer o predomínio já existente no campo comercial.

Como o bem é um valor relativo, havemos de esperar para ver a tendência do pêndulo. Hoje, 13 de fevereiro de 2010, o povo chinês comemora o início do ano do tigre, animal silencioso, astuto e ágil, que bem representa o comportamento deste povo, que permaneceu isolado no seu território durante milênios e, ao mostrar-se para o mundo o fez de um salto, incomodando as potencias mundiais. Política, Filosofia, ou ambas?

Mas há de se compreender que a China queira recuperar o tempo em que esteve reclusa entre suas muralhas, vivendo num compasso moderato sem utilizar o potencial humano a favor do desenvolvimento econômico e social, sob a ótica do Ocidente.

Suponho que tenha havido uma mudança nas bases filosóficas dos pensadores chineses, que motivou as mudanças que ocorreram naquele País, nas últimas décadas. Porque a Filosofia envolve aspectos do conhecimento, da ideologia, da ética, que estão na base da formação da pessoa e da coletividade, numa ampliação. Sob o comando de um governo comunista, afastadas as reações de uma minoria, controlada pela força, foi possível ao governo chinês, ordenar as mudanças planejadas, sem laissez-fair.

Talvez seja mais difícil obter os mesmos resultados num governo democrático, no qual a Filosofia não permeie os ideais dos diferentes grupos políticos, produzindo divergências que tornam menos velozes as mudanças e decisões a serem tomadas. “Cada cabeça é uma sentença”, significa dizer que a individualidade das pessoas que compõem um grupo partidário precisa ser lapidada até atingir um meio termo ideal. Existe ainda a oposição.

E neste jogo, os interesses funcionam como as marés. Então, o povo tem que esperar, e quando este povo é analfabeto político, sem a consciência de seus direitos, a amplitude da velocidade nos ganhos, nos avanços, aumenta sem consideração.

O quê e como fazer para corrigir as falhas no sistema e adequar a Filosofia à veloz mudança que ocorre no mundo?

Insisto que existem modelos no mundo, os quais podem ser aplicados ao Brasil; um deles é o controle de natalidade. Imaginem se a China não o adotasse, quantos chineses a mais estariam aumentando a população? Imagine se o Brasil seguisse esse modelo, pelo menos por um período, até que se equilibrasse economicamente e atendesse às políticas públicas de forma mais abrangente.

Certamente teríamos menos violência, menos drogados, menos mendicância; mais segurança, mais escolas, melhores salários, melhor qualificação no ensino, de professores e técnicos; mais pesquisas; ruas e estradas asfaltadas e seguras, saneamento básico ampliado.

É utópico? Ao contrário, uma grande parcela da população exulta com a Copa e as Olimpíadas. E como fica São Paulo com as enchentes? O Rio de Janeiro, com as favelas e o tráfico de drogas? O contrabando atravessando as fronteiras? As cidades do Sul expostas às intempéries? Porque a natureza dá mostras também que está em veloz mudança, por conta dos desvarios do homem e isto é também espaço para a Filosofia.

Portanto, se existe uma urgência para o atendimento de tudo isto, a Filosofia precisa acampar nos espaços políticos, sociais, educacionais para ocupar o lugar do qual foi retirada, cujos reflexos se fazem visíveis na atualidade.

Então, a Filosofia deve fazer uso dos recursos tecnológicos disponíveis, como a Internet sem deixar de se fazer presente, através dos seus seguidores para estar junto à pessoas, em quaisquer lugar que elas se encontrem, seja nas comunidades interioranas, seja nas rodas de intelectuais.

Sim porque, algumas vezes, somos surpreendidos pela fala de um semi analfabeto nos falando de coisas do seu conhecimento, contidas no seu mundo existencial, que nunca podíamos pensar que fosse saber.

Ela deve fazer parte do contexto familiar, onde tem origem as raízes da moral e da ética, em relação ao mundo externo, sobretudo, e do amor filial, fraternal, conjugal que deve alimentar as relações interpesssoais dos componentes de um núcleo familiar.

Numa sequencia, o estudo da Filosofia no ensino fundamental, como já acontece em algumas escolas e daí, até o nível superior, como disciplina fundamental na formação dos profissionais e técnicos.

Os efeitos desta mudança não serão tão velozes como se faz necessário, face a expectativa que temos de ver uma sociedade mais estável, entretanto, é preciso um início e um tempo, sem pressa, para usufruirmos os efeitos positivos.

Fonte de inspiração: FISCH, Karl. Vídeo Did you Know? Trad. y adaptacion: Carlos – Brasil: Lo sabias?... Los câmbios vienen ahi... Derechos Reservados 2007.

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