sábado, 6 de novembro de 2010

Um olhar estrangeiro*

A expressividade do ser louco atualiza a interrogação reflexiva à vida conformada e bem ajustada. Buscas pela interseção de cuidado podem constituir elos de compreensão com essas estruturas do indizível. Eventos intraduzíveis à pessoa apreciam esparramar focos desestruturantes por entre deslizes da sua rotina.

Um mundo significativo pode se descortinar na relação do sujeito com ele mesmo e nos encontros com seu Filósofo Clínico. A loucura aprecia desvestir as lógicas do bom senso. Seu mundo como apresentação traz equívocos próprios dos horizontes inéditos. Desarticulam-se com as anterioridades e podem surgir irreconhecíveis.

Multiplicam-se os desdobramentos de paradoxo com a vida, até então, conhecida. Variadas formas de desatino apreciam o abrigo confortável da manifestação artística. Alternativa para rabiscar o impronunciável de sua condição. Ponto de partida a desvendar epistemologias de outras verdades.

Ao olhar do terapeuta da tradição, uma fonte de extraordinária aptidão segue irreconhecível. A semiose cifrada possui estranhas manifestações. Os sentidos desses ensaios da interdição possuem trama significativa e vocabulário próprio. É impreciso investigar na perspectiva delirante, as palavras, sonhos e devaneios.

Um devir inconstante e fora de rota elabora diálogos diferenciados. Entremeios de lógica incrível a pessoa veicula seus exageros.

Ainda assim, uma perspectiva de maior integridade costuma proteger recônditos de ser irreconhecível. As drogas, fantasias, máscaras e desajustes somáticos contribuem com a solenidade dos espetáculos.

A sintaxe desse vocabulário reinventa fronteiras. Na indiscrição dos roteiros, diversifica a arte do sonhar. O agora da utopia é a alma da pessoa em desdobramentos de não-ser. A expressividade da loucura é uma espécie de laboratório aos conteúdos sem vocabulário conhecido. Representações desajustadas podem conter a diversidade figurativa de cada um. As verdades inacreditáveis são provisórias, como o mundo ao seu redor.

Caleidoscópio de impressões, sensações e questionamentos a propor rumos inéditos ao fenômeno da vida. A palavra se mostra estapafúrdia e incompreensível, quase interminável no devir refugiado nas simbologias distantes dos consensos.

A linguagem da loucura existe em lógica própria, ainda quando indecifrável. O espanto a-diagnóstico pode contribuir com o desvendar, até então indizível, desses caminhos por onde a crise se esboça. Em sua concepção mágica do mundo, anuncia ditos de originalidade. Um olhar retrospectivo pode recompor trajetórias, entender motivos e compartilhar re-significações. As extravagâncias do louco descrevem com agilidade e disposição, as raridades irrespondíveis pela anamnese.

No caos precursor a pessoa desvirtua sua anormalidade. Antecipa, muitas vezes na primeira sessão, o rastro das incógnitas ainda sem tradução. Realidade nem sempre dizível, vai mostrando padrões e regularidades no tempo e lugar onde a interseção acontece. Inexplicável a se mostrar na distorção com suas elaborações passadas. Superlativa metamorfose a emancipar-se na desintegração pessoal.

A diversidade também aprecia refúgios entremeios de incompletude. Intimidade dos processos onde o fenômeno da ilusão se realiza. Mundo sem fronteiras a denunciar vastas regiões, até então inexploradas. Um apelo por liberdade é calado na clausura involuntária dos tratamentos distantes da singularidade.

Vestígios de existir diferenciado a constituir uma fonte de aprendizados. Diálogos com a incerteza do instante descrevem rascunhos onde os dialetos se deixam traduzir na linguagem aproximada dos convívios. Aprecia reinventar-se no esboço extraordinário das múltiplas vidências.

À primeira vista, a loucura está sempre do outro lado da interseção. Um 'logos' de harmonia divergente atualiza o passeio pelos arredores de si mesmo. A magia da vontade procura estabelecer elos com a 'arché' constitutiva das versões desencontradas. Conversação com o espetáculo plural, ainda quando os percursos permanecem inauditos.

As poéticas do delírio compartilham seus devaneios, até então contidos na perspectiva inacabada e incomunicável da internação. Assim a pessoa pode se manifestar na transição por seus conflitos e alegrias interiores. Uma trama semiótica contém indícios de ser excepcional. Estranha lucidez onde o irrealizável aprecia se esconder.

No lugar sagrado, onde as paisagens constituem seu início sem-fim, outras possibilidades desenham o surreal e anunciam façanhas incríveis, num ponto distante das sensações objetivas. Os jogos de linguagem tentam descrever a estrutura desses achados.

O louco, mesmo quando tratado pela medicina da tradição, parece querer dizer: "Eu sei que você é incapaz de me entender. Gosto de você mesmo assim, inclusive experimento suas drogas: haldóis e diazepans, choques de indiferença e segregação, até seu medo de contágio eu acho divertido! Sem esquecer da satisfação que tenho ao vê-lo feliz com nossos progressos, em razão de sua medicina. "

Na polifonia de múltiplas texturas a singularidade também se estrutura desordenada e contraditória. As dinâmicas do caos podem ser cúmplices para compartilhar os ditos indecifráveis da pessoa. Prefácio inconcluso dessas feições inesperadas da desconstrução.

Um rosto desfigura-se na ruptura transgressora em desconcerto com as anterioridades. A polivalência dos desatinos inaugura combinações absurdas na multiplicação dos pontos de vista. As traduções da esteticidade podem desvendar um ser impensável, no esboço marginal e de aspecto inviável.

Na modificação do real as assimetrias engendram matérias-primas. A beleza fugidia contida no instante alterna-se em ditos de aparente sem sentido. Na brevidade impulsiva das incompletudes, os pensamentos podem extraviar suas razões. Surpresa em contornos de imprecisão. O mundo fantástico pode ficar inacessível aos consensos. Os monólogos da psiquiatria ideologizada são incapazes de compreender e transitar pela realidade alterada das gramáticas da loucura.

A natureza possui fonte diversificada de sobrepor matizes até então irreconhecíveis. Um saber peregrino estabelece residência temporária em ânimos de ser caótico. Descreve coisas e sensações num vocabulário recém inventado. Os mundos da exceção descontinuam-se nos percursos de imprevisibilidade.

O ser desajustado se traduz em desrazão ao não encontrar meios para significar sua existência. A realidade com seu jeito, também inspira controvérsias. Os recantos desmerecidos procuram continuas com sua influência escondida. Interseção onde as interferências recíprocas descrevem as peripécias, um pouco antes de se adequar nalguma forma de normalidade.

As adições da crise colocam ênfase na emergência surreal de uma epistemologia descontinuada. Espécie de ficção em território próprio. Ímpetos de mudança desdobram-se na indeterminação das autonomias recém descobertas.

A aptidão de modificar a paisagem ao seu redor é uma das expressividades incompreendidas. Só fazem algum sentido, quando encontram um terapeuta inserido em aprendizagem com aspectos exilados de si mesmo. Para os desatinos do acaso e seus padrões fragmentados o futuro pode ser improvável.

Um desdobrar fugaz e irreconhecível ao estar fora de si. Intencionalidades se exercitam nos arcaicos presentes. Ao visar da razão indiferente, o existir difuso se anuncia em lógicas de incompreensão. Polissemia a ultrapassar ontem num hoje sem amanhã.

Os personagens da loucura protegem suas origens de maior intimidade. Circunstância onde a pessoa pode viver sem endereço definido. Referências marginais no excepcional mosaico das conexões de imprecisão aos devaneios.

Ao desvendar a matéria-prima do enlouquecimento, seus contrastes evidenciam coreografias de subversão ao descrever múltiplos estados de alma refugiados ano indizível da linguagem. A loucura permanece poesia maldita na invisibilidade de um (parênteses) existencial.

* Hélio Strassburger
Filósofo Clínico. Diretor Geral do Instituto Packter em Porto Alegre/RS. Coordena a Filosofia Clínica na Casa de Saúde Esperança em Juiz de Fora/MG, Secretaria Municipal de Saúde Mental e ONG HI-VITA em São João del Rei/MG. Professor no Rio de Janeiro, Minas Gerais e Rio Grande do Sul.

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