sexta-feira, 17 de dezembro de 2010

Abertura à subjetividade

Miguel Angelo Caruzo
Filósofo Clínico
Teresópolis-RJ

Nossos dias estão cheios de receitas, conselhos, fórmulas, dicas, sobre como viver. “Pare de sofrer! Tenha metas na vida! Não se abale por qualquer coisa! Saia de dentro de casa! Não estude tanto! Você precisa aproveitar mais a vida! Você é muito jovem para casar! Já é tempo de começar a agir como um adulto!”

E tantos outros conselhos mais aparecem no dia a dia, como se a vida já viesse com um manual de instruções. Como se os que aconselham soubessem de um manual de como viver, e o conhecessem em todos os seus detalhes.

No entanto, o mundo não é feito de experiências semelhantes. Mesmo no caso de gêmeos, um sairia primeiro do que o outro, e daí já começaria uma série de pequenas diferenças de vivências que acarretaria no fim, numa enorme estrutura de pensamento de distância.

Respeitar as diferenças. Um ensinamento proposto pela Filosofia Clínica. Não há modelos a serem seguidos. Não há diagnósticos a serem encontrados. Há subjetividade.

E no consultório o partilhante apresenta seu pedido de ajuda para resolver algo que dificulta sua existência.
Não haverá pré-juizos a respeito dos procedimentos para ajudar quem busca o filósofo clínico.

Este, primeiramente, vai buscar colher tudo o que lhe for apresentado pelo sujeito que o procura. Dá-se, aí, a experiência da recíproca de inversão. O filósofo vai ao mundo do partilhante, tanto quanto é possível, e vislumbra outra maneira de ver o mundo.

Somente reconhecendo o modo como o partilhante vivencia sua existência, reconhecendo sua Estrutura de Pensamento, é que o filósofo começará a arriscar alguns procedimentos. Estes, chamados de submodos, serão aplicados a fim de ajudar o partilhante a seguir sua existência com seu conflito resolvido.

Não há, portanto, cura. Não há doença ou qualquer tipo de anomalia ou diagnóstico a priori. O que se observa é uma pessoa, única e irrepetível, solicitando um auxílio para suas questões. Cabe ao filósofo clínico reconhecer como essa pessoa vive e, partindo de sua própria individualidade, propor alguns caminhos. Caminhos estes anteriormente apresentados pelo próprio partilhante durante as consultas.

O trabalho da filosofia clinica está baseado nos princípios filosóficos. Mas, não como receitas, e sim como métodos de avaliação da historicidade do partilhante. Trata-se de um sistema aberto, cuja prática exigirá do filósofo um exercício de escuta e observação única com cada partilhante que se apresenta. Cada momento é ímpar.

Sem doença, fórmulas, receitas, manuais. Somente o filósofo clínico, com sua experiência e preparo filosófico e metodológico buscando a melhor qualidade de interseção possível com o partilhante, para que a recíproca de inversão seja frutuosa.

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