sexta-feira, 7 de janeiro de 2011

Espírito aprendiz*

Na verdade, o inacabamento do
Ser ou sua inconclusão é próprio
Da experiência vital. Onde há
Vida há inacabamento.
Paulo Freire

As palavras a seguir procuram traduzir as reflexões compartilhadas no ano de 2010 pelo grupo de estudos de filosofia clínica. Encontros semanais realizados no Instituto Packter em Porto Alegre/RS.

As percepções consideradas pelos participantes seguem em direção a idéia de continuidade. A alma que almeja o saber busca constantemente descobrir e aperfeiçoar talentos.

Diante de novos fenômenos há uma tendência natural de se remeter a conceitos já elaborados na tentativa de compreendê-los. No entanto o entendimento de um novo paradigma se faz pelo caminho dos estudos.

A empolgação inicial desperta curiosidades levando a indagações críticas e reflexivas. O ambiente da sala de aula é um lugar estimulante. Professores e alunos compartilhando idéias, que variam desde curiosidades ingênuas a espantos mais elaborados.

Valorizando a autonomia aprendiz a interseção professor/aluno segue o caminho da singularidade. Alguns elementos se destacam nesse processo: tempo, interesse, assimilação, material disponível, dedicação. Os espaços informais aparecem como prolongamento da sala de aula.

A leitura solitária da literatura específica e de outros autores nos fornece substratos valiosos. Ler, reler, confrontar conceitos, questionar, elaborar juízos. Achados de maior exatidão vão completando os espaços outrora confusos.

O estudo em grupo é uma atividade enriquecedora. A condição informal desses encontros proporciona uma naturalidade para se enraizar e colocar em discussão os entendimentos, dúvidas e posições sobre questões diversas.

Momentos que ensinam a ouvir. O que é importante para mim pode não ser para o outro, e o encontro desses valores enriquece o espírito em construção.

A atividade intelectual não precisa ser cansativa, laboriosa. A leveza de alma é um fator positivo nesse processo. Ela abre as portas para a criatividade tornando o novo cada vez mais interessante e instigante. Aprender se divertindo: assistir filmes, ler bons livros, ouvir música, ir ao teatro, ‘jogar conversa fora’. Momentos de prazer como fonte de sabedoria.

A participação em encontros nacionais ou regionais tem seu valor nesse caminho. Um espaço formal, mas rico em troca de experiências. O convívio social e as novidades apresentadas descortinam horizontes e sinaliza novas possibilidades.

Depois da parte teórica, em filosofia clínica, segue-se o pré-estágio e a supervisão. Primeiros momentos de contato com a prática terapêutica. Tempo de fazer e pensar sobre o fazer.

A titulação não deve significar o fim dos estudos. Por mais conhecimento que se tenha adquirido na jornada constitutiva de um saber, deve-se conservar o espírito aprendiz. Qualificada a interseção, o fenômeno com seus desdobramentos confirmam a importância e necessidade de prosseguimento nessa busca.

Trabalhando com o conceito de singularidade, essa continuidade a favor do crescimento intelectual é capaz de qualificar as intervenções terapêuticas.

A manutenção do papel existencial filósofo clínico, ultrapassa as fronteiras do consultório. Encontra-se na sua dialética existencial, nas interseções e vida intelectual. Sua vizinhança deve ser uma adição de coisas, pessoas, buscas, relações e lugares que proporcionem o bem estar subjetivo.

O conhecimento tem seu valor tanto na formação pessoal como na construção do ser terapeuta. Para a clínica filosófica a formação continuada deve ser um caminho.

* Ademir Porto Alegre; Ana Simioni; Isolda Bacchi Menezes e Ana Cristina da Conceição.

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