segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011

Mar

Idalina Krause
Filósofa Clínica
Porto Alegre/RS


Ó mar! Misteriosas águas
O tempero de tuas ondas
Fazem pensar em delícias
Vazão de sensações
Repuxo, volúpia aquosa
Mergulhos quentes

Ó mar! Tão enigmático
Como eu mesma
Um ser de enseadas
E gigantescas ondas

Nossas ressacas
Invadindo praias
Marolas surfadas
Véus ilusórios

Batidas em pedras
Rochas acariciadas
Mar morto
Oceano Pacífico

Ó quantas gotas cabem em ti?
Quanta sujeira depositaram em nós!
Extrema-unção dos enfermiços
Desconcertantes bailados
Que nos mantém indo e vindo
Ao sabor da marés

domingo, 27 de fevereiro de 2011

Fragmentos filosóficos delirantes XXV*

"Ao olhar delirante a realidade se reapresenta como um espetáculo sempre novo. Incontáveis dialetos ultrapassam as fronteiras do verso bem alinhado. Parece querer dizer algo mais, nos simulacros de ser indizível."

"Fenômeno complexo e de difícil entendimento, se distanciado das representações de cada um. A estrutura delirante, ao surgir camuflada, insinua poéticas de refúgio."

"A pluralidade subjetiva internada em uma só pessoa aprecia o caos para ensaiar releituras existenciais."

"O Filósofo Clínico, ao acessar, com autorização da pessoa, a vastidão de sua subjetividade, vivencia discursos e verdades muito íntimas. Entremeios das múltiplas mensagens as estranhas arquiteturas incompletam segredos, enquanto aguardam a interseção capaz de desvendá-los."

"O sujeito refugiado em si mesmo depara-se com novos aliados para tentar algum sentido às mirabolantes contradições. Na reclusão dos delírios, elabora diários forasteiros, num faz de conta a viver das sobras daquilo que busca superar."

"Ao inenarrável prefácio das impossibilidades, surge a multidão dos esquecidos. Rostos esculpidos pela incompreensão de uma vida inteira."

*Hélio Strassburger

sábado, 26 de fevereiro de 2011

Fragmentos filosóficos delirantes XXIV*


moinho de versos
movido a vento
em noites de boemia

vai vir o dia
quando tudo que eu diga
seja poesia

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o barro
toma a forma
que você quiser

você nem sabe
estar fazendo apenas
o que o barro quer

__________________________________


tudo em mim
anda a mil
tudo assim
tudo por um fio
tudo feito
tudo estivesse no cio
tudo pisando macio
tudo psiu

tudo em minha volta
anda às tontas
como se as coisas
fossem todas
afinal de contas

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isso de querer
ser exatamente aquilo
que a gente é
ainda vai
nos levar além

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no fundo, no fundo,
bem lá no fundo,
a gente gostaria
de ver nosso problemas
resolvidos por decreto

a partir desta data,
aquela mágoa sem remédio
é considerada nula
e sobre ela -- silêncio perpétuo

extinto por lei todo o remorso,
maldito seja quem olhar pra trás,
lá pra trás não há nada,
e nada mais

mas problemas não se resolvem,
problemas têm família grande,
e aos domingos saem todos passear
o problema, sua senhora
e outros pequenos probleminhas

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um bom poema
leva anos
cinco jogando bola,
mais cinco estudando sânscrito,
seis carregando pedra,
nove namorando a vizinha,
sete levando porrada,
quatro andando sozinho,
três mudando de cidade,
dez trocando de assunto,
uma eternidade, eu e você,
caminhando junto

* Paulo Leminski

sexta-feira, 25 de fevereiro de 2011

O que acha de si mesmo

Marcelo Osório Costa
Filósofo Clínico
Belo Horizonte/MG


Suponha que uma pessoa diz o seguinte: “Eu sou uma pessoa muito curiosa, me sinto inferior, não me valorizo nos momentos que são necessários me valorizar... É como se eu me perdesse com as pessoas. Sou uma pessoa que tenho vergonha de meu corpo, e quando eu fico assim nem a minha voz sai de minha boca. Mas, mesmo assim eu sou muito feliz”.

Este relato preenche o Tópico nº 2 da Estrutura de Pensamento (EP), em Filosofia Clínica, que também denominado de T2.

Este tópico traz aquilo que o partilhante expressa dele mesmo. O T1 (Como o Mundo Parece Fenomenologicamente) apresenta informações acerca do mundo externo à pessoa, já o T2 (O que acha de si mesmo) descreve dados sobre aspectos internos do partilhante. No momento que a pessoa expressa algo a respeito de si mesma o filósofo clínico terá indícios sobre informações referentes ao T2.

A pessoa ao falar dela mesma expressa o que vai à sua Estrutura de Pensamento, também poderá expressar a forma que sua EP usa para vivenciar em forma de ação, comportamento, atuação; este último aspecto é chamado de Submodos. O partilhante, no entanto, não só traduz sobre ele mesmo, mas também o que imagina, sente, intui ou reflete, ou melhor, o que ele expressa de si mesmo naquilo que ele entende ser.

Existem pessoas que não vêem problemas em falar sobre si mesmas, outras já podem encontrar verdadeiros obstáculos para falar delas. Como, então, fará o terapeuta ao estar em frente a um partilhante que tenha uma forte e enraizada idéia sobre ele mesmo, porém, ele guarda para si mesmo tal representação?

Imagine que essa pessoa tem como T5 (Pré-Juízo) que todas as pessoas, ao ter fortes idéias sobre si mesmas, devem guardá-las sob sete chaves. Poderá, possivelmente, ser o T2 (O que acha de si mesmo) o tópico determinante na EP desse partilhante, mas os dados estão enclausurados em um baú em sua malha intelectiva. O filósofo, portanto, não tem acesso a tais informações e nada constataria sobre, talvez, algo muito importante na EP da pessoa.

Para que o filósofo clínico tenha conhecimento das informações que estão internamente na pessoa, é fundamental profunda atenção à interseção entre filósofo clínico e partilhante. É relevante não deixar de lado que várias horas de encontros terapêuticos; muitos processos divisórios; e, enraizamentos de termos equívocos são necessários para a elaboração da Estrutura de Pensamento. Isto é substancial para aproximar da representação da pessoa sobre si mesma.

Provavelmente, o que a pessoa acha dela mesma poderá não aparecer nos tópicos, ao fazer o Exame Categorial, mas poderá aparecer em outros momentos clínicos como, por exemplo, na Autogenia, na Interseção entre Estruturas de Pensamento, nas Divisões, nas relações tópicas com os submodos, no Planejamento Clínico, etc.

Em relação a estes fatores, nada adiantaria ao filósofo clínico, para o sucesso do trabalho terapêutico, se não tiver intimidade junto à EP do partilhante através da interseção. Essa familiaridade faz com que os processos relacionais tópicos, que podem parecer intrincados, complexos e obscuros na estruturação de pensamento do partilhante, se tornem conhecidos pelo terapeuta.

Para que se alcance tal intimidade e familiaridade, será ético e producente compreender que o tempo e a pesquisa são métodos epistemológicos fundamentais no trabalho filosófico clínico.
Imagine que o filósofo clínico diga ao partilhante que este deve saber quem ele é, expressar sua forma de ser fundamentando melhor suas idéias acerca de si mesmo.

Essa pessoa pode viver bem em suas complexas existências; sua estrutura mental funcionar bem; e o seu bem estar subjetivo é proveniente da opinião que tem sobre si mesmo vivendo sem jamais pensar sobre si.

O filósofo, então, infringiu os mais elementares ensinamentos filosóficos clínicos: o respeito à forma singular de ser do partilhante alcançado através da interseção. Caso o terapeuta tivesse conhecimentos sobre a estruturação da pessoa, via interseção, possivelmente tal tragédia seria evitada.

Pesquisar e respeitar como a pessoa representa o seu mundo existencial, isto é, ser como ela é, origina a compreensão que infinitas combinações tópicas e submodais sobre si mesma podem aparecer.

Como se pode perceber será necessário ao terapeuta pesquisar como o partilhante mensura e representa – baseando-se, respectivamente, em Protágoras e Schopenhauer –, sua forma de ser no mundo, de modo que se tenha a representação da representação da pessoa através da interseção, porque é possível afirmar que “a priori” nada se sabe sobre o que a pessoa acha de si mesma.

quinta-feira, 24 de fevereiro de 2011

Eremitas urbanos

Sandra Veroneze
Filósofa Clínica
Porto Alegre/RS


Vira e mexe soa um sinal dentro de mim. É o toque de recolher. Uma força muito grande, intuitiva, toma conta da minha consciência, do meu coração. Só há uma coisa a ser feita: ir para o deserto.

O deserto pode ser meu quarto, um banco de praça, a mesa de um café, uma estradinha de terra em meio ao mato de acácia ou eucalipto. Pode ser também um parque no final de tarde, a areia da praia cedo de manhã, ou então o aconchego de uma pousada na serra.

O deserto pode ocupar minutos, horas, ou até dias do meu tempo. Nele as outras pessoas inexistem. Fico sozinha, mesmo com gente por perto. Mato toda saudade de mim e a única interação permitida é com meus livros, com minhas canções preferidas e com ele, o silêncio...

Nem todos entendem. Alguns chegam a ficar chateados se não atendo ao telefone, se não respondo e-mail, ou se não conecto o msn. Nessas ocasiões, por breves momentos, chego a pensar que, como diria o filósofo, o problema são os outros.

É muito interessante ir para o deserto. Observo melhor meus sentimentos. Presto atenção nos pensamentos que circundam minha mente. Atento para as reivindicações do meu corpo. Reviso meus sonhos, minhas expectativas, ambições e realizações. Toco minhas emoções com carinho, me pego no colo. Dou-me todo afago de um colo de mãe. E faço descobertas incríveis.

O lado bom é que me olho no espelho, frente a frente. Não raro, me encanto com o que vejo, e que o corre-corre do dia-a-dia se encarrega de deixar escondido atrás de agendas apertadas, compromissos inadiáveis, escassez de tempo... Vejo qualidades, virtudes...

O lado menos bom é quando a saudade já está satisfeita e começa a prevalecer a rotina do deserto. É nesse momento que começo a me decepcionar com o que vejo. Os defeitos saltam aos olhos, me deparo com fantasmas horríveis. Que angústia! Tanto a melhorar, tanto a ser feito!

Este exame de consciência sempre prenuncia algumas mudanças em minha rotina. É um exercício de extrema valia. Saio do deserto muito melhor preparada pra enfrentar as agruras do cotidiano, e cheia de saudade dos outros! Afinal de contas, o problema não são eles, não. O problema sou eu! Tem uma máxima que ilustra isso: ‘não é a altura da montanha que incomoda, mas sim a pedra dentro do sapato”.

terça-feira, 22 de fevereiro de 2011

O discurso do rei

Rosângela Rossi
Psicoterapeuta e Filósofa Clínica
Juiz de Fora/MG


"No trabalho psicoterápico, o segredo do polichinelo é que, por mais que suspendamos diplomas em nossas salas de espera, somos todos leigos e aventureiros. Não sei se existem cursos ou estágios que ensinem a ouvir o que Longue ouve e entende do desejo escondido do duque de York". Escreveu Contardo Calligaris.

O filme "O discurso do Rei" é um verdadeiro tratado terapêutico, que me fez pensar muito sobre o ser terapeuta no exercício de escutar e fazer refletir no encontro com o outro.

Mais que técnica o encontro terapêutico se faz no compartilhar amoroso. De um lado chega aquele que se propõe a transformação e do outro um coração aberto em compaixão disposto a caminhar ao lado.

O terapeuta que pensa tudo saber está com ego inflado na ilusão de um poder saber que na realidade é uma máscara para esconder sua fragilidade e insegurança.

O terapeuta vai aprendendo com o Outro, com o que o ser do Outro vai revelando a cada encontro. Esta é a beleza do compartilhar. A escuta livre, sem agendamentos e prejuízos, por parte do terapeuta é o grande trunfo para o sucesso do encontro.

Os submodos, técnicas utilizadas depois que se conhece o partilhante são instrumentos singulares que irão auxiliar a jornada de transformação e cura. No filme fica bem claro isto, quando Longue utiliza da Bioenergia, exercícios de percepcionar e desbloqueio das couraças, para o Rei se soltar.

O mais importante de tudo foi a relação de amizade e amor que se estabeleceu entre os dois, que durou uma vida toda.

O distanciamento frio e burro que muitas teorias pregam, desumanizam a relação terapêutica. Lembro do mestre e amado Gaiarsa, que nos deixou no final do ano passado, ele dizia:- Quem não se envolve não transforma. E me vem o desenho de um professor querido de Filosofia Clínica que nos recebia com braços abertos e se fez nosso amigo eterno.

Mais que técnica o trabalho do ser terapeuta é um trabalho de amor e entrega.
Vale a pena assistir o filme e aprender a se entregar, tanto como buscador como terapeuta.

Este filme é um tratado de Filosofia Clínica.
Assisti, recomendo e assistirei muitas vezes este belo trabalho do diretor Tom Hopper.

Termino com o texto final do artigo de Calligaris:
"Os piores se identificam com sua máscara. Acreditar nas máscaras que vestimos é delírio que nos torna perigosos. Não há diferença entre o rei que acreditasse ser rei, o terapeuta que acreditasse ser terapeuta e o anjo exterminador que saísse atirando e matando,perfeitamente convencido de ser uma figura do Apocalipse. Os três teriam isto em comum: acreditariam ser a máscara que eles vestem. Enfim, que Deus nos guarde de todos os que não enxergam sua própria nudez".

segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011

Anotações sobre a estética das travessias*


“Uma pessoa que, há semanas, me repetia sempre as mesmas coisas, executa algo na cena da análise que transforma todas as suas coordenadas, suas referências e engendra novas linhas de possível.”

Felix Guattari


Existe uma região de face indeterminada, mutante e de aparente sem nexo, por onde transitam eventos de epistemologia desajustada. Sua agitação refere moldes sem sentido. Muitas vezes, sequer tem oportunidade de se estabelecer como algo traduzível, enquanto sobrevoa hipóteses.

Uma ação assim descrita se assemelha a um compêndio das ventanias. Esses conteúdos de alma nova apreciam o instante caótico para insinuar derivações. Seu existir fugaz surge na intimidade com os rascunhos do exagero.

Os enunciados de aspecto delirante protegem outras razões. Espécie clandestina a transgredir limites, parece sem direcionamento para compartilhar a nova configuração estrutural. Seu viés de associação marginal possui dificuldade em conversar adequadamente com o mundo lá fora, no entanto, evidencia habilidades para transitar internamente.

Assim surge a expressividade desatinada e sem papel existencial definido. Ao mostrar um irreconhecível diante do espelho, a crise pessoal pode ser um ensaio noutras direções existenciais. Isso costuma se traduzir na emancipação das vastas e desconhecidas regiões da própria estrutura de pensamento.

A desestrutura assim descrita possui fonte de inspiração e matéria-prima. Sua historicidade e modos de existir vão oferecendo vestígios sobre o que está por vir. Na expressividade caótica a esteticidade pode ser precursora de novos caminhos.

Os desdobramentos costumam oferecer ao sujeito, além da incrível dificuldade em lidar com seu caos pessoal, ter de administrar o medo e as inseguranças das pessoas ao seu redor. Um processo de reinvenção se esboça na versão exaltada de si mesma.

Diante da propedêutica das crises um indizível atua em linguagem própria. Nesse sentido, é possível desenvolver uma arte de silenciar atenta e investigativa. Atualizar padrões, vislumbrar fraturas existenciais, os gestos e sons de sentido próprio, numa reciprocidade com os desatinos da mudança.

A desordem criativa parece querer dizer algo ainda sem palavras. Sua face ilegível se oferece em busca de tradução ao próprio autor. Esses eventos de aspecto insensato costumam interromper algo bruscamente. Seus episódios de barata voando apreciam surgir como caricatura.

Uma província desconhecida parece surgir a partir da periferia da própria estrutura. Jeitos de ser até então desconsiderados deixam entrever seu espírito de multidão. Assim uma estética das travessias aprecia se mostrar, como uma intermediária a dialogar com a simbologia das crises.

É importante saber que os gestos e atitudes de aspecto brusco possuem historicidade. Interagir com a matéria-prima de viés delirante significa bem mais que classificar e medicar o fenômeno recém chegado.

A singularidade em instante de caos, por um lado, na ótica de sua anterioridade, possui uma expressividade decadente, e, por outro, refere sinais de vida nova. São momentos de deslocamento de uma realidade à outra. Nem sempre é possível compartilhar essa sensação de não pertencer a lugar nenhum.

Sua visibilidade acontece nalgum ponto entre real e irreal, numa perspectiva fugaz e insólita a vida conhecida, como se fora contradição a sugerir algo indizível. Seu viés avassalador aprecia a semiose sem palavras para comunicar eventos explosivos. Esses episódios controversos possuem uma epistemologia de anúncio, entremeios do próprio tema que a conduz.

Numa interseção reflexiva com a natureza precursora do desassossego, pode ser possível compreender os ímpetos dessa estética das travessias. Um aprendizado sobre o novo constructo estrutural e sua aptidão dialética.

Sendo a crise um lugar, por excelência, de mal-entendidos, veja-se o caso da psiquiatria, a esteticidade seletiva tem se mostrado um procedimento eficaz. Através de um percepcionar, roteirizado por traços, pinturas ou rabiscos, pode ser possível focar a crise, até se conseguir entender o que ela oferece.

A estrutura caótica desses momentos parece recriar espaços vazios em busca de preenchimentos. Sua característica de inquietude aprecia influenciar e modificar seu entorno existencial. A expressividade hostil as anterioridades modela a excitação e a magia dos viajantes sem rumo.

Na vertigem do instante transformador o excepcional atalho segue incompreendido. Uma espécie de ritual de passagem entre o antes e o depois de qualquer coisa. Suas problemáticas se referem mais a intensidade e força do que a continuidade.

Ao filósofo clínico interessado no estudo dessas essências, também é significativo visar à abertura quase imperceptível, em meio á cortina de fumaça dos jogos de cena. Os fenômenos assim descritos são capazes de simular eventos e, a partir deles, se reinventar em caóticos anúncios discursivos. Uma lógica de náufrago aprendendo a nadar, em meio à tempestade.

*Hélio Strassburger
Filósofo Clínico

domingo, 20 de fevereiro de 2011

Fragmentos filosóficos delirantes XXIII*


Ninguém sonha duas vezes o mesmo sonho
Ninguém se banha duas vezes no mesmo rio
Nem ama duas vezes a mesma mulher.
Deus de onde tudo deriva
E a circulação e o movimento infinito.
Ainda não estamos habituados com o mundo
Nascer é muito comprido.

Adivinho nos planos da consciência
dois arcanjos lutando com esferas e pensamentos
mundo de planetas em fogo
vertigem
desequilíbrio de forças,
matéria em convulsão ardendo pra se definir.

Ó alma que não conhece todas as suas possibilidades,
o mundo ainda é pequeno pra te encher.
Abala as colunas da realidade,
desperta os ritmos que estão dormindo.
À guerra! Olha os arcanjos se esfacelando!
____________________________

Transformar-se ou não, eis o problema.
Durar na zona limite da memória,
Nos limbos da vontade,
Ou submeter a pedra, cumprir o ofício rude,
Aprender do lavrador e do soldado.

Qual a forma do poeta? Qual seu rito?
Qual sua arquitetura?

Mudo, entre capitéis e cactos
Subsiste o oráculo.
A manhã doura a pedra e vagos nomes,
Agrigento me contempla, e vou-me.
___________________________

O poeta futuro já se encontra no meio de vós,
Ele nasceu da terra
Preparada por gerações de sensuais e de místicos:
Surgiu do universo em crise, do massacre entre irmãos,
Encerrando no espírito épocas superpostas.

O homem sereno, a síntese de todas as raças, o portador da vida
Sai de tanta luta e negação, e do sangue espremido.

O poeta futuro já vive no meio de vós
E não o pressentis.
Ele manifesta o equilíbrio de múltiplas direções
E não permitirá que logo se perca,
Não acabará de apagar o pavio que ainda fumega,
Transformando o aço da sua espada
Em penas que escreverão poemas consoladores.

O poeta futuro apontará o inferno
Aos geradores de guerra,
Aos que asfixiam órfãos e operários.
____________________________

Ninguém ampara o cavaleiro do mundo delirante,
Que anda, voa, está em toda a parte
E não consegue pousar em ponto algum.
Observai sua armadura de penas
E ouvi seu grito eletrônico.

*Murilo Mendes

sábado, 19 de fevereiro de 2011

Fragmentos filosóficos delirantes XXII*


A vida é o dever que nós trouxemos para fazer em casa.
Quando se vê, já são seis horas!
Quando se vê, já é sexta-feira!
Quando se vê, já é natal...
Quando se vê, já terminou o ano...
Quando se vê perdemos o amor da nossa vida.
Quando se vê passaram 50 anos!
Agora é tarde demais para ser reprovado...
Se me fosse dado um dia, outra oportunidade, eu nem olhava o relógio.
Seguiria sempre em frente e iria jogando pelo caminho a casca dourada e inútil das horas...
Seguraria o amor que está a minha frente e diria que eu o amo...
E tem mais: não deixe de fazer algo de que gosta devido à falta de tempo.
Não deixe de ter pessoas ao seu lado por puro medo de ser feliz.
A única falta que terá será a desse tempo que, infelizmente, nunca mais voltará.
____________________


Os poemas são pássaros que chegam
não se sabe de onde e pousam
no livro que lês.
Quando fechas o livro, eles alçam vôo
como de um alçapão.
Eles não têm pouso
nem porto;
alimentam-se um instante em cada
par de mãos e partem.
E olhas, então, essas tuas mãos vazias,
no maravilhado espanto de saberes
que o alimento deles já estava em ti...
__________________


Tão bom viver dia a dia...
A vida assim, jamais cansa...

Viver tão só de momentos
Como estas nuvens no céu...

E só ganhar, toda a vida,
Inexperiência... esperança...

E a rosa louca dos ventos
Presa à copa do chapéu.

Nunca dês um nome a um rio:
Sempre é outro rio a passar.

Nada jamais continua,
Tudo vai recomeçar!

E sem nenhuma lembrança
Das outras vezes perdidas,
Atiro a rosa do sonho
Nas tuas mãos distraídas...

*Mário Quintana

sexta-feira, 18 de fevereiro de 2011

Jairo, o homem conceitual

Lúcio Packter
Pensador da Filosofia Clínica


A cada consulta Jairo retornava ao assunto com novo ânimo. Parecia que das vezes anteriores algo fora dito a mais, algo deixara de ser dito, alguma coisa agora pedia reparo.

Para ele, muitos homens formulam idéias, armam planos, projetam caminhos com a mente que funciona semelhante a uma fundição de minério de ferro. Cadinho, rampas e cubas, temperaturas alta, peso. Gente que tem na cabeça coisas como calcinações do carvão mineral, coque metalúrgico. Abstrações de cutelaria, cultura que avança pelo corte do aço, batidas repetidas, marretadas de prensas mecânicas. Aço forjado em martelos-pilões. Máquinas de esmerilar. E mais temperaturas altas, acima de mil graus.

Enquanto a mente e a vida de gente como Jairo são esquadrinhadas por desenhos sem esquadros, por formas sem peso, densidade zero, várias combinações possíveis, calor e frio juntos, raiz quadrada negativa de um limão, e nada é tanto que necessite fazer um sentido.

O sujeito da metalurgia não compreende como se pode polir uma superfície sem esforço e o homem conceitual não se motiva a um esforço mecânico que tenha por conseqüência uma superfície espelhada.

Jairo já foi José, seu segundo nome, nome do meio, quando trabalhava em uma oficina, arrumava peças, fabricava algumas peças cilíndricas sulcadas em hélices, discos dentados nas bordas, aqueles que transferiam força a outros por meio do movimento. Mas José foi internado, foi pego devaneando sobre o uso de força motriz a pressão de água, enquanto os clientes aguardavam no balcão.

No hospital, Jairo nasceu. Olhando o movimento suave, pendular, das cortinas, descobriu que poderia viver conceitualmente, que isso era possível, que é de certo modo óbvio, mas ainda um tanto cedo, talvez.

Ele sabe que passar de uma existência movida por várias roldanas presas a uma moldura, uma vida de cadernal, estrutura piramidal de levantamento de pesos, para a brisa leve dos conceitos não significa trocar roldanas e cordas de tração por botões digitais. Significa ir dos botões digitais para um plano no qual a própria idéia virou botão. Jairo acredita que podemos conseguir isso por caminhos melhores que o dele, um caminho que o levou a um hospital, a choques, ao lítio.

quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011

Muitos passos em falso são dados ficando-se parado*

Ildo Meyer
Médico e Filósofo Clínico
Porto Alegre


Depois que os seres humanos conseguiram ficar eretos e andar sobre duas pernas, o mundo passou a ser visto de outra forma. No inicio, em sinal de respeito, os homens curvavam-se somente para os Deuses, que os protegiam. Mais tarde passaram a se curvar também para tiranos, que se julgando semi-deuses, impunham o respeito e a veneração pela força.

O tempo foi passando e novas alterações posturais surgiram. Músculos, ossos, articulações tiveram que se adaptar à evolução do intelecto. Os homens inventaram a cadeira e então sentaram. Depois veio a roda e passaram a andar sentados. Confortavelmente em uma poltrona, hoje pode-se voar, conversar via internet e até mesmo governar. O homem busca constantemente seu bem estar e uma melhor qualidade de vida.

O habitat humano, sendo essencialmente social, vai exigir relacionamentos, que podem variar da completa rigidez à total flexibilidade. Endurecidos ou flácidos também ficam os músculos, quando reagem à determinadas exigências sociais.

Nossos ancestrais foram forçados a se curvar para tiranos anti-éticos. Hoje, nossa coluna curva-se ao ver desigualdade, corrupção, impunidade, injustiça. Curva-se mais ainda com resignação, impotência, alienação. O corpo vai absorvendo as pressões sociais, os músculos vão retraindo e surgem as escolioses, deformidades, artroses e dores na coluna.

Postura e ética tem tudo a ver. Ética é uma postura de vida que pode moldar a postura corporal, mas em contra-partida, a postura fisica também pode sugerir a visão de mundo de um indivíduo. Rígida em princípios e valores e flexível na forma de analisar e sentir o outro, a ética pode ser metafóricamente comparada a um músculo.

Quando um princípio ético é forçado a ser relaxado, corpo e mente são afetados e passam a gastar mais energia. A pele, que é a nossa primeira roupagem e barreira para o exterior fica tensa, os músculos se contraem e a harmonia postural se desequilibra.

Da mesma forma, quando uma relação se torna rigida, seja com o próprio indivíduo em primeiro plano ou mais adiante com os outros, o sistema imunológico afrouxa as defesas do organismo, facilitando o surgimento de doenças.

Ética relaxada, músculos contraídos. Relacionamento rígido, imunidade frouxa. Crônica ou agudamente, ocorre uma transferência de atitudes ou da falta delas para dentro do organismo e a partir daí, músculos se contraem ou relaxam, hormônios são liberados ou reprimidos. Vale lembrar que o coração também é um músculo. Curvar-se para as exigências sociais, sentir dor, contrair doenças vale a pena? É válido utilizar, mesmo que inconscientemente o corpo como escudo ou reflexo do sofrimento da alma?

Um corpo encouraçado, inflexível, sem oxigênio circulante, não deixa o cérebro pensar, estabelecendo então um ciclo vicioso. O conforto fisico também afeta a capacidade de analisar, sentir, julgar e de ser ético.

Cada ser humano é único em seu corpo e forma de pensar e agir. Não existe corpo nem postura perfeitas. O caminho e o modo de andar são escolhas individuais, porém muitos passos em falso são dados ficando-se parado.

*Artigo escrito com colaboração de Luciana Fioravanti - fisioterapeuta, morfoanalista.

quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011

Eu amo spam

Sandra Veroneze
Filósofa Clínica
Porto Alegre/RS

Minha relação com a internet é íntima, constante, fiel. Não passo muito tempo sem trocar e-mails, pesquisar sites e conversar através do MSN. Existem informações, inclusive, que prefiro acessar na tela de um computador, bem distante da papelada que se acumula pelas prateleiras e da tinta que mancha os meus dedos e as portas de casa.

Posso dizer com garantia que sou quase viciada na rede mundial de computadores, não fosse um pequeno detalhe: quem é viciado deixa de curtir os amigos, dançar, praticar esporte, namorar e outras atividades, pra ficar navegando por horas e horas. E eu, definitivamente, não dispenso um belo passeio, um chimarrão no parque, ou uma sessão de cinema, pra ficar em frente à tela do Sam (é o nome carinhoso do monitor do meu micro).

O mundo eletrônico é repleto de maravilhas. O tráfego de informações e produção de conhecimento que ele proporciona eram inimagináveis até alguns anos atrás. Que outro suporte é capaz de conectar pessoas de todo o mundo e fornecer subsídio para pesquisas ou leituras descompromissadas com tamanha facilidade e rapidez?

Mas confesso: de todas as maravilhas proporcionadas pelas infovias da internet, tem uma que leva o meu apreço especial: o spam. Sou apaixonada por spam. Leio todas as mensagens eletrônicas não solicitadas e não autorizadas que recebo (esta é a definição oficial).

Hoje mesmo chegaram alguns e-mails interessantes. Um deles enaltecia as qualidades de uma empresa de reforma e pintura de casas. Outro informava sobre um manual sobre técnicas de produção de trufas. Recebi também as propagandas de uma pousada, de um fabricante de comida pra cachorro, e de uma ervateira, se não me engano. Aliás, o fabricante de um aparelho pra aumentar o pênis deve ter quebrado, porque não recebi mais seus e-mails.

A bem da verdade, nenhum desses produtos e serviços me interessa no momento. E mesmo que me interessasse, dificilmente eu compraria (sou, nesse aspecto, uma legítima gaúcha, já que as pesquisas indicam que o Rio Grande do Sul ainda apresenta resistência a compras online).

Mas não vejo mal algum em receber essas informações. Não perdi mais de alguns segundos entre o recebimento, rápida leitura e o envio da mensagem pra lixeira. E, analisando pelo prisma empresarial, pude ainda fazer algumas observações: as empresas estão inovando, cresce o reconhecimento da internet como ferramenta de marketing, e aumenta o mercado para profissionais ligados à comunicação e desenvolvimento de estratégias online.

Se algum empresário da indústria, comércio, serviços ou ainda terceiro setor estiver lendo esta crônica e quiser apresentar-me sua empresa, produtos e diferenciais, pode ter certeza que lerei sua mensagem. Mas somente amanhã, porque agora vou assistir A Diarista, um programa que teria tudo pra ser não desejado e não autorizado em minha vida, já que não tenho muita paciência pra televisão. Mas que acabou se tornando uma surpresa agradável, regado a muitas gargalhadas.

Isso me faz pensar que, tal qual nossa caixa de e-mails, a vida também é feita de muitos acontecimentos que não desejamos e que, se pudéssemos, jamais autorizaríamos. E de outros que inicialmente não desejamos, mas que num momento posterior se tornam únicos, como o tal programa da televisão. Que atire a primeira pedra quem nunca passou a amar algo que inicialmente lhe parecia indiferente, indesejável, não autorizável. Com um agravante, ou paliativo: fora do universo virtual, nem sempre é possível bloquear o remetente.

terça-feira, 15 de fevereiro de 2011

Existências que se tocam

Luana Tavares
Filósofa Clínica
Niterói/RJ


Há pessoas que não conseguem ser esquecidas.
Por mais que se esforcem não conseguem.

São como diamantes raros, belos e multifacetados que concentram em si o sentido da eternidade na qual interferem e transferem ao outro o dom de possuir algo que não deveria nunca ser explicado.

Há pessoas que seduzem e impregnam o outro como se fluidos fossem, sem permissão, deixando muitas vezes um legado que se aproxima da perplexidade.

Há pessoas que conferem autonomia, poder, reconhecimento pela simples ação da existência, traduzidas pela palavra que se insinua, pela fugaz troca de olhar, pelos sentires intensos.

Pessoas assim existem e isso basta! Não há como explicar.

E para que explicar o que não se entende? Para que entender o que não se explica? Para que formalizar o que o coração não suporta?

Essas pessoas que por serem tão vastas, permanecem um mistério, onde o amor e a admiração muitas vezes se confundem e se fundem em incondicionalidades.

Mas o que é incondicional é o que traz em si a intenção de ser para sempre, pois nem o tempo deveria ser obstáculo ao que não tem regras, ao que é puro e repleto de ternura.

A beleza do que evocam justifica o risco do que se supõem inadequado.

Na verdade, somos andarilhos ávidos por novas compreensões e penetramos o destino sem avaliar o porvir, porque somos ingênuos também e talvez um tanto imprudentes.

A dança de insinuações - que não consegue evitar a batida forte, a respiração suspensa, o desejo que pulsa, forte e repleto de fantasias... para depois se recolher, impotente e obstruído diante da realidade... cruel, porém inevitável – também gera distâncias.

Fica uma dor ao longe, uma dor que não se cansa de doer, porque lá no fundo acreditava em algo maior.

Com o tempo, essa dor vem acompanhada da aceitação e da entrega de si mesma aos registros da memória, onde o coração evita acessar; onde só a razão tenta interceder.

Ele (o coração), avariado e confuso, tem dificuldade em compreender as perdas que se seguem à indiferença. E, por ser coração, às vezes não consegue compreender nada e se recusa ao óbvio.

Os espaços criados agora são saudades, onde diálogos possíveis e que se desdobraram em infinitas possibilidades, agora resultam vazios, carentes de seu mais precioso sentido: aquele que é simplesmente o de ser e compartilhar o que há de mais sublime nas existências que se tocaram. A amizade deveria ser mais forte e não se deixar levar pela surrealidade da nossa pequena humanidade.

Pessoas assim podem até dar adeus, mas não se extinguem jamais.
Não podem ser esquecidas, simplesmente não conseguem.
E permanecem envoltas no maior carinho possível: aquele que não depende do outro para existir.

segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011

Cativar

Beto Colombo
Filósofo Clínico
Criciúma/SC


O Príncipe encontrou-se com um bichinho em um distante mundo, bichinho esse que ele nunca havia encontrado antes, uma raposa. A raposa lhe disse:

- Você quer me cativar?

- O que é isso? – Perguntou o menino.

- Cativar é assim. – Disse a raposa: - Eu me assento aqui, você se assenta lá, bem longe. Amanhã a gente se assenta mais perto e assim aos poucos, cada vez mais perto...

O tempo passou, o Principezinho cativou a raposa e chegou a hora de partir.

- Eu vou chorar. – Disse a raposa.

- Não é minha culpa. – Desculpou-se a criança. – Eu lhe disse, eu não queria cativá-lo. Não valeu a pena, você percebe? Agora você vai chorar!

- Valeu a pena sim. – Respondeu a raposa – Quer saber por quê? Sou uma raposa, não como trigo, só como galinha. O trigo não significa absolutamente nada para mim, mas você me cativou. Seu cabelo é louro e agora, na sua ausência, quando o vento fizer balançar o campo de trigo eu ficarei feliz pensando em você.

(Texto retirado do livro O Pequeno Príncipe, de Antoine de Saint-Exupéry, jornalista e piloto francês.)

Com esse texto batemos aquele papo gostoso na sexta-feira à tarde na Feira do Livro na Praça Nereu Ramos.

Algumas pessoas não estão satisfeitas com o rumo que levou sua vida, reclamam que ficou monótona, que virou rotina, o livro O Pequeno Príncipe também trata desse assunto, quando a raposa se queixa da sua vida. “Eu caço galinhas e os homens me caçam. Todas as galinhas se parecem e todos os homens se parecem também e por isso fico aborrecida, mas se tu me cativas, minha vida será como que cheia de sol”.

Quando o Príncipe disse que não tinha mais tempo para cativar-lhe, a raposa diz:

- Os homens não têm mais tempo para conhecer coisa alguma. Compram tudo prontinho nas lojas, como não existem lojas de amigos, os homens não têm mais amigos.

E a dica de como cativar está nesse livro escrito em 1943 e observem que na época a televisão e os meios que enclausuram os homens ainda não existiam do jeito de hoje.

- Tu queres ser meu amigo, cativa-me.

- Que é preciso fazer? – Perguntou a criança.

- É preciso ser paciente (paz-ciência). – Respondeu a raposa.

E assim, mesmo ausente em cada balançar dos trigos, o Príncipe se fazia presente para a raposa naquele distante planeta.

- Cada vez que ofereço a outra face, cada vez que amo o próximo, Cristo se faz presente.

- Cada vez que quero mudar o mundo do outro sem mudar a mim mesmo, Gandhi se faz presente.

- Cada vez que fico em paz fazendo o bem, trago de volta Victor Hugo. “O bem que se faz purifica a alma” e de novo ele volta quando vejo uma dedicada professora pacientemente ensinando uma criança, quando ele diz: “Cada criança que se ensina é um homem que se conquista”.

Algumas pessoas estão esquecendo o encantamento do cativar. Algumas pessoas estão se fechando em seus quartos, em seus mundos com suas televisões, seus telefones celulares, internet... e perdendo o sabor do encontro, do bate-papo, da troca de experiência, de informação, do conhecimento e deixam de sentir a magia do cativar.

E você, o que tem feito para cativar?

Isso é assim para mim.

domingo, 13 de fevereiro de 2011

Fragmentos filosóficos delirantes XXI*

"O estilo é o modo de formar, pessoal, irrepetível, característico; a marca reconhecível que a pessoa deixa de si na obra; e coincide com o modo como a obra é formada. A pessoa forma-se, portanto, na obra: compreender a obra é possuir a pessoa do criador feita objeto físico."

"Para aquém da ciência está a atitude do primitivo, para quem as distinções não existem e o mundo é um 'continuum' de eventos associados de forma mágica."

"(...) na experiência da beleza a alma humana tem a sensação daquilo que a supera, o apelo tangível do além, e na melancolia que sobrevém o testemunho de uma natureza exilada no imperfeito, aspirando ao infinito apenas revelado."

"(...) enquanto o alegorismo clássico apresentava para cada figura um referente absolutamente preciso, o simbolismo é simbolismo 'aberto', justamente porque quer ser, antes do mais, comunicação do indefinido ou do ambíguo, do polivalente."

"Quando Miguel Ângelo dizia que a estátua já estava no bloco de mármore, queria simplesmente dizer que fazer a estátua não consistia apenas em dar marteladas na pedra, mas em compreender as possibilidades contidas no material."

"(...) estava a despontar uma nova idéia de arte; deixando entender que a arte se situa para além destas transformações históricas e morre continuamente para assumir novas formas."

* Umberto Eco

sábado, 12 de fevereiro de 2011

Fragmentos filosóficos delirantes XX*

"Não há linha reta, nem nas coisas nem na linguagem. A sintaxe é o conjunto dos desvios necessários criados a cada vez para revelar a vida nas coisas."

"A saúde como literatura, como escrita, consiste em inventar um povo que falta."

"Nesse sentido as coisas são mais perigosas que os seres humanos: eu não as percebo sem que elas me percebam; toda percepção como tal é percepção de percepção."

"É como se alguns caminhos virtuais se colassem ao caminho real, que assim recebe deles novos traçados, novas trajetórias. Um mapa de virtualidades, traçado pela arte, se superpõe ao mapa real cujos percursos ela transforma."

"Félix Guattari definiu bem, a esse respeito, uma esquizoanálise que se opõe à psicanálise: 'Os lapsos, os atos falhos, os sintomas são como pássaros que batem com o bico na janela. Não se trata de interpretá-los. Trata-se antes de detectar sua trajetória para ver se podem servir de indicadores de novos universos de referência suscetíveis de adquirirem uma consciência suficiente para revirar uma situação'".

Gilles Deleuze*

sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011

Saudações!

Trago em nome do EMCANTAR boas notícias quanto ao nosso projeto, Palavras que Brincam, que já começou a ser executado em Uberlândia propagando música e literatura nas escolas.

Fomos calorosamente recebidos pelas instituições durante as apresentações e pretendemos publicar em nosso site todos os principais acontecimentos relativos às atividades. Por isso, a cada atualização, notificaremos todos por este grupo de e-mails para que possam acompanhar também.

Por enquanto, duas notícias já estão no ar. Confiram:

Projeto "Palavras que Brincam" é apresentado nas escolas
Música e literatura na escola é a base da iniciativa, que se consolidou como Ponto de Cultura.
Para ler: http://emcantar.org

Começam as oficinas do "Palavras que Brincam"
Bate-papo, dinâmicas e reflexões alimentaram as expectativas para o projeto em 2011.
Para ler: http://emcantar.org

Outras informações tanto sobre o Palavras que Brincam como também sobre outros projetos do EMCANTAR estão sendo enviadas diariamente pelo nosso twitter: @emcantar

Coordenação EMCANTAR
Vida Poesia – Inspiração

Rosângela Rossi
Psicoterapeuta e Filósofa Clínica
Juiz de Fora/MG


Nossa! Fiquei emocionada com o texto de José Castelo, no Prosa & Verso do jornal 'O Globo': O poeta do nada.

Respirei fundo ao ler:
“O poema é mensagem que o poeta envia a si mesmo a respeito de algo que desconhece. Ele lacra em um envelope- o poema. Quando chega ao leitor, a mensagem também continua indecifrável; por mais que tente, ele não consegue abri-la. Tudo o que lhe resta são palavras. Ler um poema é tentar rasgar um envelope inviolável.
Os poemas escrevem no escuro, mas alguns, além disso, escrevem de olhos vendados. Lacrados em si mesmos, recusam-se a ver. A escrita se torna, então, a luta para inventar um sexto sentido, que substitua a visão mutilada. Eis o que chamam de poesia”

Meu lado muitas vezes poeta, então, desliza:

O desconhecido em mim,
São os gritos da alma
Ou da sombra, que
Esperam ser ouvidos do outro lado,
Nas outras sombras e nas outras almas.
O poema guarda segredos a serem
Desvelados para além de mim.
Lacrado nas interrogações e mil interpretações
Ri e chora, silencia.
Abrir o poema é dessacralizar o mistério.
Resta-nos degustá-lo devagarzinho,
Palavra por palavra, respiração por respiração,
O eu e o outro nos tornamos um só, no indecifrável.
A inspiração penetra e se mistura alquimicamente,
No tempo certo.
Na escuridão onde brilham as estrelas,
O poema como cometa,
Rasga o céu da nossa interioridade.
Deixa no ar um encantamento
Mágica que se faz,
No entre linhas da nossa vida.

quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011

Remédios existenciais

Marcelo Osório Costa
Filósofo Clínico
Belo Horizonte/MG

Presenciamos quase todos instantes dores existenciais nas pessoas. Essas dores têm diversas causas, formas de manifestar e maneiras de resolvê-las.

Mas, o que é uma dor existencial? Ela é diferente de uma dor física que pode ser sentida nos próprios órgãos físicos humanos como, por exemplo, uma dor de cabeça, de estômago, uma dor na ponta do pé, etc. Ela também é diferente de uma dor psicológica como uma depressão, uma neurose, uma psicose, etc.

Uma dor existencial, como próprio nome diz, faz parte da existência das pessoas, ou seja, ela pode ter como causa fatores advindos de algo físico, psicológico, social, econômico, familiar, etc. Uma pessoa que está infeliz em seu casamento trazendo um vazio existencial porque não tem mais sentido estar com a pessoa ao lado e tem como busca a separação; uma dor de cabeça que não se sabe a causa e após tomar alguns medicamentos não teve a solução esperada e pode ter como causa questões ligadas à sua vontade de se demitir porque está infeliz no emprego e não sabe como resolvê-lo. Estas e outras questões são existenciais.

Algumas pessoas precisam de vários tipos de remédios para aliviar as dores existenciais. Para compreender melhor o que são remédios existenciais podemos começar por entender que não os enxergamos nas prateleiras das farmácias porque não estão à venda.

Esses remédios são atitudes, palavras, gestos, sentimentos, ou, até mesmo, alguém não fazer nada pode ser um remédio existencial. Por que não fazer nada? Por que algumas pessoas precisam de alguém que não faça alguma coisa ao seu lado, que fique apenas sem ações, sem palavras e sem gestos.

Uma atitude nula pode ser o que uma pessoa pode esperar da outra, e isto pode ser um remédio existencial. Isto significa que a aplicação do remédio existencial depende de como a pessoa está estruturada existencialmente, isto é, o que é bom para ela resolver o problema.

Esta atitude de respeito à sua forma de ser no mundo leva à medicação adequada à pessoa. Adequação aqui não tem a idéia de ajustamento, como se algo estivesse fora do compasso, do ritmo e deveria ser harmonizado a um padrão, a uma referência. Mas, significa que o remédio existencial deve estar de acordo com a forma de a pessoa pensar e resolver problemas. É um respeito à singularidade na existência.

Vamos pensar que há uma pessoa que deseja sair do emprego, mas não toma a decisão de fazê-lo porque prefere esperar um pouco mais devido às suas despesas financeiras, seus planos, quer terminar alguma tarefa ou prefere arrumar outro emprego para ter mais segurança para sair do emprego. Porém, está infeliz, angustiada, nervosa e sem ânimo até para sair de casa devido ao problema. Supondo que vá conversar com um amigo sobre se sai ou não do emprego e, provavelmente, este amigo lhe dirá para sair e ser feliz, que a vida é curta e que não compensa ficar sofrendo em um lugar que a entristece.

Esse conselho não a ajudou em nada porque sua forma de pensar, agir e resolver problemas é calculando e medindo o que é negativo e positivo diante da situação para tomar a decisão no momento certo. O conselho do amigo, então, não foi adequado à sua estrutura existencial. Dizemos que houve uma afronta diante da estrutura de pensamento da pessoa que deseja sair do emprego.

Ao medicar uma pessoa a partir daquilo que conhece dela, a aplicação correta de remédios existenciais pode ser eficaz. Isto acontece porque há uma identidade, um conhecimento verdadeiro da estrutura da pessoa para medicá-la. Imagine se uma pessoa precisa de flexibilidade, de tranqüilidade, de prazer e alguém a medica com regras rígidas a partir de sofrimentos e agressões físicas e psicológicas. É um típico exemplo de afronta, devido à aplicação incorreta de remédios existenciais.

Quando falamos em afronta significa desrespeito à singularidade da pessoa a ser medicada porque há o desconhecimento da estrutura desta pessoa, isto é, não se conhece a forma de ser no mundo. Outra afronta também se dá pela aplicação de remédios existenciais padronizados. Mas, o que é um remédio existencial padronizado? É o mesmo remédio aplicado a todas as pessoas diante de seus problemas singulares. É como se déssemos o mesmo remédio a todas as pessoas que tivessem dor de cabeça.

Os remédios existenciais padronizados são as mesmas propostas de soluções dos problemas como, por exemplo, “seja feliz a qualquer custo”, mas tem gente que não quer ser feliz e têm pessoas que medem o custo; “álcool faz mal”, mas para certas pessoas e situações faz bem; “antes só do que mal acompanhado”, mas para certas pessoas estar mal acompanhada é melhor do que estar só. Estes são alguns exemplos de remédios existenciais padronizados, e que para algumas pessoas passa a ser uma afronta à sua forma de existir no mundo.

A estrutura existencial da pessoa se faz a partir de sua história de vida. O que é a nossa história de vida? É tudo que vivemos, sentimos, pensamos, agimos etc., na verdade é o alicerce para a nossa forma de ser no mundo.

Assim, o remédio existencial padronizado ou a sua aplicação inadequada pode agravar a situação e trazer conseqüências negativas à pessoa por estar inadequado à sua forma de ser. Ele, na verdade, ao invés de se tornar um remédio existencial passa a ser considerado como um veneno existencial. Por que veneno existencial? Porque pode desestruturar a vida de uma pessoa, é como se para ela tivesse que tomar o caminho A e medicássemos para o caminho B; é como se precisasse de algo negativo e medicássemos com algo positivo; é como se medicássemos dizendo para fazer uma viagem para “dar um tempo”, mas ela precisa é de estar do lado do problema, junto à situação para resolvê-la; é como se a pessoa não pudesse ingerir açúcar e medicássemos açúcar a ela.

Note aqui a importância da história de vida da pessoa, pois é nessa história de vida que todos nós nos fazemos existencialmente. É uma história que, se possível, deve ser contada pela própria pessoa, pois assim sabemos qual é a sua forma de pensar, agir e resolver os problemas.

Aqui é importante uma pergunta: qual quantidade e qualidade de remédio existencial a ser dado à pessoa? Como já exposto, não há remédio padronizado, pois a quantidade e a qualidade serão colhidas na história de vida da pessoa contada por ela mesma. Não é porque serviu para mim ou para alguém que servirá para outra pessoa. O respeito à estrutura existencial é fundamental na aplicação dos remédios existenciais.

Termino dizendo que diante da diversidade de medicamentos existenciais é correto adequá-los à estrutura existencial da pessoa, tendo para isto discernimento, sabedoria, atenção, cuidado, e acima de tudo escuta ao que a pessoa relata de sua história de vida. Caso a pessoa queira alcançar algo, então, fique atento e não perca de vista essa busca e proponha soluções a partir dela. Pode ser um bom começo para o respeito à singularidade existencial.

quarta-feira, 9 de fevereiro de 2011

Interconexões e universos particulares

Sandra Veroneze
Filósofa Clínica
Porto Alegre/RS


Cada pessoa é um universo em particular, com seu conjunto de qualidades, defeitos, talentos, manias, perspectivas, sonhos. Quando conhecemos alguém, temos em nossa frente o ‘produto acabado’ de suas escolhas do passado, e que portanto podem torná-la, em nossa vida, de fato um ‘presente’ ou um grande transtorno, até mesmo algo indiferente ou então apropriado somente para momentos muito específicos.

Algumas pessoas parecem viver no futuro. Estão o tempo todo planejando, organizando novas ações, investimentos, atividades, geralmente se resguardando para uma vida melhor lá na frente. Outras vivem intensamente o presente, o aqui e agora, porque não sabem como será o amanhã e portanto o que importa é aproveitar enquanto há tempo. Outras pessoas, ainda, vivem no passado. Revivem com frequencia, em suas lembranças, fatos felizes de outra fase da vida. Às vezes, nem tão felizes. O fato é que os anos que passaram ainda vivem dentro delas, dando um tom específico para os dias que correm.

Nada disso é certo ou errado. É apenas singular. Tem sua tonalidade, seu cheiro, sua textura próprias. Viver no passado, no presente ou no futuro é uma escolha pessoal, que pode levar o indivíduo a viver melhor ou pior, e isso só faz sentido a partir de sua ótica pessoal. Temos a tendência de achar que o que é bom pra nós o é também para os demais, e assim vamos produzindo o caos e os pequenos infernos particulares em nossas vidas – porque as outras pessoas também acham que o que é bom pra elas é também para nós, tentando, na medida do possível, nos influenciar e ‘chamar à vida’.

A boa notícia é que o ‘produto acabado’ que nos tornamos, a partir da história que escrevemos pelas nossas escolhas, não é tão acabado assim. Estamos em constante mudança, a exemplo das células do corpo, que a cada três meses renovam integralmente nosso organismo. Isso faz, portanto, que a mudança seja algo muito natural, mesmo que o movimento seja de retorno ao passado.

Importa, neste contexto, que vamos construindo nossa trajetória, que até o momento presente já está escrita e que guarda, daqui pra frente, um campo imenso de possibilidades. O caminho que trilhamos até agora, muito mais do que uma visão pejorativa de passado, é nossa história, que nos dá pistas preciosíssimas de como podemos seguir rumo ao futuro. O ditado de que para saber do que uma pessoa é capaz no futuro basta olhar para o passado é verdadeiro, mas não único, uma vez que podemos sempre fazer diferente.

Também nós somos um universo particular, com nosso conjunto de qualidades, defeitos, talentos, manias, perspectivas, sonhos. E também nós, quando conhecemos alguém, somos, pra este indivíduo, o ‘produto acabado’ de nossas escolhas, que pode nos tornar um presente, ou um transtorno, ou algo indiferente ou feliz em suas vidas.

Clichê, mas verdadeiro: ninguém é uma ilha.

terça-feira, 8 de fevereiro de 2011

Estrutura de Pensamento

Miguel Angelo Caruzo
Filósofo Clínico
Teresópolis-RJ

Aproximando-se do primeiro ano desde o início dos estudos em Filosofia Clínica, posso afirmar que não sou mais o mesmo.

A AUTOGENIA produzida ao longo desses meses em minha ESTRUTURA DE PENSAMENTO marcou profundamente o modo como O MUNDO ME PARECE. O que ACHO DE MIM MESMO foi mais esclarecido, e acabei adquirindo um autoconhecimento maior.

Minha INTERSEÇÃO com as pessoas passou a ser melhor. Os PRINCÍPIOS DE VERDADE que carregava, e carrego, dentro de mim, não foi mais empecilho para aceitar ou pelo menos procurar entender os PRÉ-JUIZOS das pessoas com as quais me relaciono.

Passei a compreender as pessoas mais voltadas para o SENSORIAL e passei a não mais cobrar o aspecto ABSTRATO de quem não as tem como características pessoais determinantes. Aceitei mais as EMOÇÕES em seus vários modos de SEMIOSE, por compreender que nem todas as pessoas funcionam baseadas na EPISTEMOLOGIA.

Pude ver que pessoas não são “duas caras”, mas apenas cumprem um PAPEL EXISTENCIAL em cada ambiente, como modo de melhor exercer sua EXPRESSIVIDADE. Que as pessoas são influenciadas por TERMOS AGENDADOS NO INTELECTO ao longo da vida, e que muitas vezes apresentam uma ESTRUTURAÇÃO DE RACIOCÍNIO confusa em determinados momentos.

Conheci e aceitei melhor as pessoas que vivem a ESPACIALIDADE de modos diversos. Algumas na INVERSÃO, como alguns filósofos. Outros em RECÍPROCA DE INVERSÃO, no caso de pessoas que vivem na prática terapêutica. Alguns ainda que usam o DESLOCAMENTO CURTO para se livrar de pensamentos incômodos e outros que rumam para o DESLOCAMENTO LONGO para buscar a melhor explicação para o que está acontecendo consigo mesmo.

Aprendi que não podemos apenas julgar os atos, pois alguns COMPORTAMENTOS possuem uma FUNÇÃO na malha intelectiva das pessoas. E que alguns comportamentos são motivados por PAIXÕES DOMINANTES ou por BUSCAS de diversas naturezas.

Observei que nem todos os DISCURSOS COMPLETOS são UNÍVOCOS, e que nem todos os DISCURSOS INCOMPLETOS são EQUÍVOCOS como, por exemplo, diante da relação de um casal apaixonado; relação na qual o SIGNIFICADO pode ser diverso do que uma pessoa de fora pode inferir.

Notei também que um PADRÃO ou ARMADILHA CONCEITUAL em conflito na EP, pode ser solucionado em mentes que a consideram uma AÇÃO e aplicam uma HIPÓTESE seguida de uma EXPERIMENTAÇÃO de alternativas primeiramente na teoria e depois na prática.

Passei a não mais julgar características ou dons difíceis de definir, considerando-a agora como um TÓPICO DE SINGULARIDADE EXISTENCIAL. E que por meio da ANÁLISE DE ESTRUTURA eu poderei ajudar certos casos a se encaminharem para o fim de eventuais conflitos que possam surgir como, por exemplo, a AXIOLOGIA de um cristão apresentando características típicas de quem segue o espiritismo.

Habituei-me a utilizar com mais precisão os TERMOS: UNIVERSAL, PARTICULAR E SINGULAR, não generalizando tudo, nem pensando que tudo é relativo e único. Pois, em cada caso podemos nos valer de termos apropriados.

Aprendi, por fim, que diante de tanto conteúdo recebido, e a se receber, os DADOS DA MATEMÁTICA SIMBÓLICA deve ser a última coisa a ser estudada. Primeiro porque são muitos os tópicos, e também por ele vir a ser um recurso muito útil aos demais diante de determinados casos, mas somente após os anteriores serem bem dominados pelo filósofo clínico

domingo, 6 de fevereiro de 2011

Fragmentos filosóficos delirantes XIX*


"Engano pensar que a arte afaga:/ ela me puxa pelos cabelos,/ me lança no olho/ da ventania."

"Se me quiseres amar,/ terá de ser hoje:/ amanhã estarei mudada."

"Não sou áspera nem amena:/ estou na vida como o jardineiro/ se entrega em cada rosa:/ corte, sangue, dor e aroma,/ para que a beleza fique na memória/ quando a flor passa."

"Opto pela loucura, com um grão/ de realidade:/ meu ímpeto explode o ponto,/ arqueia a linha, traça contornos/ para os romper."

"Não se enganem comigo:/ se digo sul pode ser norte,/ chego mas fico ausente,/ o triste é também o belo,/ procuro o que não se perde/ nem se pode encontrar."


* Lya Luft

sábado, 5 de fevereiro de 2011

Fragmentos filosóficos delirantes XVIII*

"Quanto maior o pintor, mais nos faz trabalhar. A obra que ele nos propõe sugere mais do que especifica. Desafia nossa visão, obriga-nos a completar os traços, a preencher cores. Está aberta; muda enquanto estamos olhando."

"O indefinível era melhor do que o específico, ainda que exótico. Buñel, além disso, sonhava em introduzir sorrateiramente algumas informações falsas em todos os seus filmes, como que para minar e desviar ligeiramente o rumo da história e da geografia; a verdade fiel o aborrecia tanto quanto um espartilho apertado."

"Por ter muito para ver, nossos olhos, com freqüência, não conseguem ver mais coisa alguma."

"O autor é duplo, triplo, às vezes múltiplo. Em vez de separar e compartimentalizar, está fundindo diferentes níveis. Ele é ao mesmo tempo consciência e inconsciência, determinação e aleatoriedade. Ele é um movimento incessante, que pode até parecer anormal e gratuito, é uma busca."

"É por isso que a realidade não é suficiente. O imaginário precisa introduzir-se na realidade, desfigurá-la, intensificá-la."

*Jean-Claude Carrière

quinta-feira, 3 de fevereiro de 2011

Quer tomar um café comigo?

Rosângela Rossi
Filósofa Clínica e Psicoterapeuta
Juiz de Fora/JF


Lá fora o sol se põe pintando o céu de múltiplos matizes róseos lilázes.
Nenhuma nuvem aparece, pois os ventos a levaram para as montanhas.
O momento convida a quietude. Pausa para o cafezinho da tarde.

Neste momento sublime gostaria de ter muitos comigo.
Entre eles você que compartilha desta mesma viagem pelos livros, filmes, meditações, poesia e sobretudo do amor pelo humano.

Então, quer tomar café comigo e ler os poemas de Fernando Pessoa?
Quer assistir o filme vietinamita " O cheiro do papaia verde", de Tran Anh Hung?
Admirar as obras de Botticelli , " O Nascimento da Vênus" ?
Ou simplesmente sentar no jardim e admirar o entardecer em silêncio, sentido a poesia deste momento e o cheiro bom do café que preenche o ar de carinho?

Deixamos passar os bons momentos, pois a agitação dos 'tem que' deste mundo superconsumista vai deixando de lado o que está a nossa frente, disponível amorosamente ao nosso deleite.
Urge apenas darmos uma pausa. Ouvir o sax ao longe. Ver com os olhos de artista. Entregar-se de corpo e alma ao agora.

Já reparou o formato da xícara?
As formas estão pulsando a espera de nosso olhar e admiração.
Em tudo há um convite de parar, sentir e admirar.

Nos livros as palavras chamam a compreensão. Na terra as plantas clamam a sua exaltação.
Á mesa as delícias seduzem o olfato e o paladar. E o outro espera nosso amar.
Outro gole gostoso. Êta vida boa, mesmo na suas dores. Êta cafezinho bom!
A janela aberta deixa ver os pássaros que nem bola dão para os carros lá em baixo.
Lembro-me de Fernão Capelo Gaivota.

Quer voar comigo nos entre estes goles de café? Ou mergulhar comigo nas reflexões nietzschianas?
Ou apenas fazer uma pausa, suspirar e dizer: valeu!
Está convidado. E este convite vale para qualquer momento que se queira estar presente.

quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011

Bem-vindo, Kairós

Sandra Veroneze
Filósofa Clínica
Porto Alegre/RS

De todos os deuses, há um que desperta em mim uma curiosidade especial. É Kairós, o deus da oportunidade. Ele tem asas nos pés e cabelo longo somente na parte frontal da cabeça. A mensagem, embora simbólica, é muito objetiva: se você quiser agarrar uma oportunidade, que seja de frente, porque a chance pode ser única, rápida e rara.

Quando pensamos em oportunidade, a tendência é buscarmos na lembrança ou nas expectativas algo de grandes proporções. Entendemos como oportunidade algo gigante, capaz de empreender extraordinárias mudanças na nossa vida. É uma super promoção em se tratando de trabalho, é um grande amor em se tratando de vida afetiva.

Outra tendência é imaginarmos que oportunidade é um presente que nos é dado pelo destino, independente de nossas ações. Algo que vem de fora, como se fôssemos sorteados pela grande roda da vida para recebermos aquele benefício.

Particularmente, sou um tanto cética quanto à benevolência e generosidade do acaso. Por que, entre as seis bilhões de pessoas que habitam o planeta Terra, seria justamente eu a escolhida por um deus para receber a grande e amada salve salve oportunidade?

Também acredito que, se existe um deus para a oportunidade, o mínimo que se espera é que ele trabalhe. E muito, garantindo satisfação tanto em termos de quantidade como em qualidade. E foi pensando nisso que, outro dia, fiquei cogitando a possibilidade de inverter a lógica da história. Em vez de esperar o Kairós, fui eu em busca dele.

Comecei a observar o cotidiano em casa, no trabalho, nas rodas sociais. E não é que me surpreendi, positivamente, com a presença constante dele? Kairós é chiclete! Tudo bem que não conquistei um cliente para a empresa a cada esquina, nem saí arrebentando corações. Mas e quem disse que era isso que eu queria, ou precisava?

Encontrei, sim, outras oportunidades. Com amigos, por exemplo, encontrei várias oportunidades de ser gentil, de fazer favores, de espalhar sorrisos... No trabalho, encontrei oportunidades de fazer melhor determinada tarefa, de me desafiar em funções para as quais não me sinto muito hábil...

Se pararmos para pensar, as oportunidades são inúmeras e estão ao nosso lado o tempo todo. Esperando as grandes, acabamos por esquecer das pequenas, que talvez estejam aí simplesmente pra abrir o caminho. É confortante pensar que essas pequenas oportunidades podem funcionar como tochas sinalizadoras para atrair as grandes, que podem vir na forma de ideias, iniciativas e projetos que só estão esperando alguém que as coloquem em prática.

É como se Kairós estivesse de visita na cidade esperando que alguém lhe ofereça acolhida, cuidando de pequenos detalhes/oportunidades para que ele se instale. Quem se habilita?
Programação do cineclubeuai para fevereiro de 2011:

Macunaíma - dia 06 de fevereiro
1969/ RJ / Ficção / 105 min
Direção:Joaquim Andrade

Barravento - dia 13 de fevereiro
1961/ BA / Ficção / 80 min
Direção:Glauber Rocha

Deus e o Diabo na terra do sol - dia 20 de fevereiro
1964 / RJ / Ficção / 125 min
Direção:Glauber Rocha

Duas aldeias, um caminho - dia 27 de fevereiro
2008 / Guarani-Mbya / 63 min
Direção:Germano Beñites; A. Ortega; J. Morinico

Mariana Fernandes
Filósofa Clínica e Coordenadora
São Tiago/MG

terça-feira, 1 de fevereiro de 2011

Como encontrar o verdadeiro amor

Ildo Meyer
Médico e Filósofo Clínico
Porto Alegre/RS

Era uma vez uma jovem empresária que queria alcançar o sucesso. Trabalhava duro, não tinha tempo para perder. Participava de cursos, fazia parte de diretorias, precisava ler muitos livros, prestar atenção nos concorrentes, olhar os lançamentos.

Um belo dia se deu conta de que na ânsia de atingir o sucesso, deixou para trás o amor. Aquele amor que assistia nos filmes e novelas, em que casais depois de vários impedimentos conseguem ficar juntos e felizes para sempre. Aquele amor que faz escutar musica melosa, esperar uma mensagem pelo celular, percorrer vários quilômetros, ficar madrugadas acordada...

Já havia passado por vários relacionamentos, até mesmo dois casamentos e nunca sentira nada que chegasse perto do que imaginava ser um amor com "A" maíusculo. Uma frase lida em um almanaque havia marcado sua memória. “O amor verdadeiro é como um fantasma. Todos falam dele, mas poucos o viram de verdade”.

Sequer registrou quem era o autor, mas a partir daquele dia, assumira como um desafio encontrar este fantasma e encará-lo.. Perguntava-se se o medo de encarar o amor era o que fazia muitos boicotarem a experiência do mergulho no desconhecido sentimento. Assustaria tanto quanto um fantasma? Incrédula, questionava-se enquanto buscava coragem para partir em busca do verdadeiro amor.

Já havia compreendido que filmes eram ficção ou apenas fragmentos da vida real, nem sempre mostrando todas as facetas do amor. Percebeu também que quando se aproximava e colocava lentes de aumento sobre casais que aparentavam se amar, começava a ver pequenas e até mesmo grandes distorções que a faziam duvidar se aquelas atitudes eram compatíveis com o amor. Antes que desacreditasse no sentimento que pretendia conhecer, procurou um psicólogo. Intuiu que a visão masculina do amor poderia lhe ser útil.

O terapeuta lhe explicou que por se tratar de uma mulher bela e sedutora, não tinha dificuldades em fazer homens se apaixonarem e declararem seu amor, porém depois da conquista, a moça não sabia mais como agir e por alguma razão, ainda desconhecida, terminava por se frustrar e boicotar a relação. Talvez o problema estivesse nela, pois as pessoas não se apaixonam quando encontram a pessoa ideal, mas sim quando decidem se entregar.

E por já conhecer as características da paciente, terminou com uma provocação: “Você foi amada muitas vezes, mas só isto não justifica o amor. A graça e o prazer estão em amar. Amar é muito melhor do que ser amada”. Foi o suficiente para insuflar seu ego e colocar como projeto de vida ser uma pessoa mais evoluída, sem medo do amor e com capacidade de amar.

Partiu para a teoria e começou a ler tudo que os filósofos escreveram sobre o amor. Quais eram os medos? Perder a identidade, a liberdade? Medo que o amor termine? Medo de ser rejeitada, abandonada, traída, enganada? Medo de perder o amor e despertar do sonho bom? Seria um medo legítimo ou uma angústia irracional? Amar é desejar o melhor para a pessoa amada, mesmo que ela seja feliz longe de nós? Amar é dar ou receber? Amamos uma pessoa ou o sentimento que ela nos evoca? Podemos amar várias vezes ao longo da vida? A paixão é algo mais intenso que o amor?

Quanto mais lia, mais se confundia, pois depois de tanta pesquisa, descobriu que a maioria dos filósofos e mestres espirituais que transcenderam dedicou pouco, ou nenhum tempo à prática do amor. Compreensível, pois havia questões existenciais mais importantes a serem discutidas e não seria possível lançar a luz da racionalidade sobre o existencialismo se estivessem preocupados em amar e entender o amor. Daí o resultado de um acervo literário filosófico sem consenso sobre o amor, quase tudo fora escrito timidamente, baseado mais na teoria que na prática.

Partiu então para a leitura dos poetas. Estes eram boêmios, amantes, sofredores, conquistadores e tinham grandes probabilidades de terem de fato experimentado o amor. Descobriu que o amor é uma experiência perigosa e atraente, às vezes dolorosa, mas sensorialmente encantadora. Ficou confusa mais uma vez ao saber que poetas ao tentar exprimir sentimentos em palavras, muitas vezes terminam por maximizar ou distorcê-los. Pode o amor ser imortal, posto que é chama, e ao mesmo tempo infinito enquanto dure? Não entendeu mais nada, nem mesmo se já havia amado alguma vez na vida.

Diante da dúvida, procurou um psiquiatra. Desta vez apelou para o lado mulher e escolheu uma terapeuta, que a tranquilizou com o fato de que já ter sido mãe a colocava no grupo das que sabiam amar. Ponderou que aquele sentimento da mulher grávida, a sensação de serem duas pessoas em uma só, a preocupação com o bem estar do outro, a doação, o cuidado, isto era o amor e quando ela sentisse algo parecido por outra pessoa, as chances de estar amando seriam grandes.

Outro sinal sugestivo seria o desejo de envelhecer ao lado desta pessoa. Deveria apenas ter cuidado porque duas pessoas não podem se tornar uma só e o perigo está justamente em se estabelecer uma luta pelo poder, onde a individualidade e a fusão do casal vão precisar de muito amor para encontrar um meio termo.

Não satisfeita com as explicações quis saber ainda por que motivo amava seu filho. Seria por carregar sua carga genética? Por ser parecido com ela? Por ampará-lo desde o nascimento? Por representar sua perpetuação? Por sentir-se útil e importante para o filho? Nada disso, respondeu-lhe a terapeuta, ou melhor, tudo isto. O amor simplesmente acontece, não tem explicação nem motivos. Se você sabe explicar o que sente, não ama, pois o amor foge de todas as explicações possíveis. Mais ainda, a melhor definição de amor, não vale um beijo da pessoa enamorada.

Mais tranquila, sabendo agora como reconhecer o amor, foi relaxar num retiro de neurolinguística. Acontece que o tema desenvolvido era a escolha do parceiro ideal. Justo o que ela estava precisando: primeiro encontrar o príncipe encantado para depois se jogar sem freios ao amor verdadeiro.

Sugeriram que escolhesse cinco ou dez características de um parceiro que impossibilitariam um relacionamento: agressivo, mentiroso, desempregado, obeso, fumante, falta de higiene, baixo nível intelectual, exibicionista, mulherengo, vulgar... Descartadas essas hipóteses, o resto seria administrável. Saiu de lá decepcionada, pois sua opção era pelo amor e não pela lista

Conversou com uma amiga de Natal que lhe disse ter tido um só amor na vida, e que não era o seu marido atual. Outra amiga de Belém lhe confessou estar amando três homens ao mesmo tempo. Escutou Caetano Veloso cantar “qualquer maneira de amor vale a pena, qualquer maneira de amor vale amar...”

Onde mais ela poderia buscar ajuda? Sites de relacionamento, igreja, academia de ginástica, clubes, parques, cafés, shopping, danceterias... Lembrou então de uma outra frase que havia lhe encantado. Desta vez sabia até quem era o autor, Mario Quintana. “O segredo é não correr atrás das borboletas. é cuidar do jardim para que elas venham até você”. Havia caído na roda viva de perseguir e encontrar o amor verdadeiro. Estava cansada, desanimada, frustrada. Decidiu pular fora e cuidar de si.

Quando o amor chegasse, ela sentiria e se entregaria. Tornou-se mais realista. Aceitou o risco de desfrutar da montanha russa chamada “Prazer e Segurança”. Desistiu de andar no carrossel da individualidade. Começou a praticar pequenas renúncias e desapegos materiais.

Entendeu finalmente que o amor é feito na medida de quem ama, construído a partir das vivências íntimas de duas personalidades distintas e por isto nunca dois amores serão iguais. Não existia um manual ou receita pronta para amar. Seu amor teria que ser único, exclusivo, customizado.

Preparou seu corpo e sua alma para se encaixar no amor quando o encontrasse. Devagar, com sintonia, sem precisar se violentar e sem ferir ninguém. Aprendeu que o amor é a magia de dois seres se unindo, parecendo um só. Alguns acham que isso é um fantasma, outros pensam que é uma borboleta.