quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011

Remédios existenciais

Marcelo Osório Costa
Filósofo Clínico
Belo Horizonte/MG

Presenciamos quase todos instantes dores existenciais nas pessoas. Essas dores têm diversas causas, formas de manifestar e maneiras de resolvê-las.

Mas, o que é uma dor existencial? Ela é diferente de uma dor física que pode ser sentida nos próprios órgãos físicos humanos como, por exemplo, uma dor de cabeça, de estômago, uma dor na ponta do pé, etc. Ela também é diferente de uma dor psicológica como uma depressão, uma neurose, uma psicose, etc.

Uma dor existencial, como próprio nome diz, faz parte da existência das pessoas, ou seja, ela pode ter como causa fatores advindos de algo físico, psicológico, social, econômico, familiar, etc. Uma pessoa que está infeliz em seu casamento trazendo um vazio existencial porque não tem mais sentido estar com a pessoa ao lado e tem como busca a separação; uma dor de cabeça que não se sabe a causa e após tomar alguns medicamentos não teve a solução esperada e pode ter como causa questões ligadas à sua vontade de se demitir porque está infeliz no emprego e não sabe como resolvê-lo. Estas e outras questões são existenciais.

Algumas pessoas precisam de vários tipos de remédios para aliviar as dores existenciais. Para compreender melhor o que são remédios existenciais podemos começar por entender que não os enxergamos nas prateleiras das farmácias porque não estão à venda.

Esses remédios são atitudes, palavras, gestos, sentimentos, ou, até mesmo, alguém não fazer nada pode ser um remédio existencial. Por que não fazer nada? Por que algumas pessoas precisam de alguém que não faça alguma coisa ao seu lado, que fique apenas sem ações, sem palavras e sem gestos.

Uma atitude nula pode ser o que uma pessoa pode esperar da outra, e isto pode ser um remédio existencial. Isto significa que a aplicação do remédio existencial depende de como a pessoa está estruturada existencialmente, isto é, o que é bom para ela resolver o problema.

Esta atitude de respeito à sua forma de ser no mundo leva à medicação adequada à pessoa. Adequação aqui não tem a idéia de ajustamento, como se algo estivesse fora do compasso, do ritmo e deveria ser harmonizado a um padrão, a uma referência. Mas, significa que o remédio existencial deve estar de acordo com a forma de a pessoa pensar e resolver problemas. É um respeito à singularidade na existência.

Vamos pensar que há uma pessoa que deseja sair do emprego, mas não toma a decisão de fazê-lo porque prefere esperar um pouco mais devido às suas despesas financeiras, seus planos, quer terminar alguma tarefa ou prefere arrumar outro emprego para ter mais segurança para sair do emprego. Porém, está infeliz, angustiada, nervosa e sem ânimo até para sair de casa devido ao problema. Supondo que vá conversar com um amigo sobre se sai ou não do emprego e, provavelmente, este amigo lhe dirá para sair e ser feliz, que a vida é curta e que não compensa ficar sofrendo em um lugar que a entristece.

Esse conselho não a ajudou em nada porque sua forma de pensar, agir e resolver problemas é calculando e medindo o que é negativo e positivo diante da situação para tomar a decisão no momento certo. O conselho do amigo, então, não foi adequado à sua estrutura existencial. Dizemos que houve uma afronta diante da estrutura de pensamento da pessoa que deseja sair do emprego.

Ao medicar uma pessoa a partir daquilo que conhece dela, a aplicação correta de remédios existenciais pode ser eficaz. Isto acontece porque há uma identidade, um conhecimento verdadeiro da estrutura da pessoa para medicá-la. Imagine se uma pessoa precisa de flexibilidade, de tranqüilidade, de prazer e alguém a medica com regras rígidas a partir de sofrimentos e agressões físicas e psicológicas. É um típico exemplo de afronta, devido à aplicação incorreta de remédios existenciais.

Quando falamos em afronta significa desrespeito à singularidade da pessoa a ser medicada porque há o desconhecimento da estrutura desta pessoa, isto é, não se conhece a forma de ser no mundo. Outra afronta também se dá pela aplicação de remédios existenciais padronizados. Mas, o que é um remédio existencial padronizado? É o mesmo remédio aplicado a todas as pessoas diante de seus problemas singulares. É como se déssemos o mesmo remédio a todas as pessoas que tivessem dor de cabeça.

Os remédios existenciais padronizados são as mesmas propostas de soluções dos problemas como, por exemplo, “seja feliz a qualquer custo”, mas tem gente que não quer ser feliz e têm pessoas que medem o custo; “álcool faz mal”, mas para certas pessoas e situações faz bem; “antes só do que mal acompanhado”, mas para certas pessoas estar mal acompanhada é melhor do que estar só. Estes são alguns exemplos de remédios existenciais padronizados, e que para algumas pessoas passa a ser uma afronta à sua forma de existir no mundo.

A estrutura existencial da pessoa se faz a partir de sua história de vida. O que é a nossa história de vida? É tudo que vivemos, sentimos, pensamos, agimos etc., na verdade é o alicerce para a nossa forma de ser no mundo.

Assim, o remédio existencial padronizado ou a sua aplicação inadequada pode agravar a situação e trazer conseqüências negativas à pessoa por estar inadequado à sua forma de ser. Ele, na verdade, ao invés de se tornar um remédio existencial passa a ser considerado como um veneno existencial. Por que veneno existencial? Porque pode desestruturar a vida de uma pessoa, é como se para ela tivesse que tomar o caminho A e medicássemos para o caminho B; é como se precisasse de algo negativo e medicássemos com algo positivo; é como se medicássemos dizendo para fazer uma viagem para “dar um tempo”, mas ela precisa é de estar do lado do problema, junto à situação para resolvê-la; é como se a pessoa não pudesse ingerir açúcar e medicássemos açúcar a ela.

Note aqui a importância da história de vida da pessoa, pois é nessa história de vida que todos nós nos fazemos existencialmente. É uma história que, se possível, deve ser contada pela própria pessoa, pois assim sabemos qual é a sua forma de pensar, agir e resolver os problemas.

Aqui é importante uma pergunta: qual quantidade e qualidade de remédio existencial a ser dado à pessoa? Como já exposto, não há remédio padronizado, pois a quantidade e a qualidade serão colhidas na história de vida da pessoa contada por ela mesma. Não é porque serviu para mim ou para alguém que servirá para outra pessoa. O respeito à estrutura existencial é fundamental na aplicação dos remédios existenciais.

Termino dizendo que diante da diversidade de medicamentos existenciais é correto adequá-los à estrutura existencial da pessoa, tendo para isto discernimento, sabedoria, atenção, cuidado, e acima de tudo escuta ao que a pessoa relata de sua história de vida. Caso a pessoa queira alcançar algo, então, fique atento e não perca de vista essa busca e proponha soluções a partir dela. Pode ser um bom começo para o respeito à singularidade existencial.

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