quinta-feira, 31 de março de 2011

VOCÊS SÃO RIDÍCULOS*

"Em qualquer tipo de civilização, cada costume, objeto material, idéia ou crença, satisfaz alguma função vital"
B. Malinowski
Antropólogo polonês.

Vou tentar validar esta proposta analisando o casamento. Será que alguns costumes realmente foram criados visando contemplar a função do acasalamento? A virgindade pode servir de exemplo.

Na antiguidade não existia a pílula anticoncepcional, as mulheres mal conheciam seu corpo, não sabiam o que era orgasmo e o resultado de uma noite de sexo tinha grandes chances de terminar em gravidez. A mulher que sonhasse em ter seu príncipe encantado, deveria se manter virgem para evitar filhos indesejados antes do casamento.

Além disso, os homens eram educados para ter uma mulher em casa e quantas quisessem na rua, enquanto as meninas deveriam casar virgens e se manter fiéis e obedientes aos maridos. Quando alguma jovem experimentava transgredir estas regras era expulsa de casa, rotulada de vadia e provavelmente não encontraria marido. Resultado prático e funcional: mulher decente só fazia sexo depois de casar e no mais das vezes, com a função de procriação.

Como os maridos teriam certeza da paternidade dos filhos se naquela época não existiam exames deste tipo? Simples, casavam com uma mulher virgem e a mantinham em casa, sempre grávida, cuidando da prole.

Outro exemplo, o casamento religioso. Desde a época romana, o casamento era visto como uma forma de transmissão sobre propriedades e bens, incluindo nestes “bens” as mulheres, que muitas vezes eram prometidas para os futuros sogros e maridos antes mesmo de nascerem.

Como os contratos envolviam patrimônio (muito mais importante que amor na época) e eram estabelecidos para fortalecer as famílias e durar para sempre, a igreja foi requisitada para abençoar a união e regulamentar os contratos. As exigências eram a pureza familiar, a indissolubilidade do casal e a procriação. Resultado prático e funcional: casamento virou um sacramento, seu rompimento um pecado, propriedades e bens assegurados.

Enquanto as funções vitais de procriação e manutenção patrimonial eram satisfeitas, outras, consideradas menos importantes ou desconhecidas, foram sendo enterradas, tendo como consequencias submissão, infelicidade, depressão, adultério, brigas, assassinatos, suicídios, filhos ilegítimos e outras tantas manifestações de insatisfação com a falsa moralidade imposta por este tipo de casamento.

É claro que em algum momento haveria uma reação. Assim como filhos únicos costumam compensar sua solidão formando famílias numerosas, pais que tiveram infâncias sofridas e pobres exageram nos presentes e regalias para os filhos, cada geração procura corrigir as atitudes e crenças que lhe foram impostas, a seu ver injustamente, por seus antepassados.

Durante séculos a força, o poder e o medo reprimiram estas reações, mas a partir dos anos 60 cada filho passou a desafiar os pais ou educadores de uma maneira diferente, tentando modificar o mundo à sua volta.

Algumas reações foram tímidas, outras superdimensionadas. Justificadas ou descabidas, exitosas ou fracassadas, geraram tumultos, protestos, prisões, greves, excomunhão, dissolução de famílias, crimes. Enfim, as funções vitais passaram a mostrar todas as suas faces.

Sexo não só para procriação, mas também por prazer e por amor, separação e divórcio quando o matrimônio não mais funcionar, virgindade por opção e não por imposição, contratos desvinculando patrimônio dos relacionamentos, casamento não mais como pré-requisito para viver juntos ou ter filhos, casais homossexuais, aborto, afastamento e até negação da religião, reprodução assistida em laboratório, testes de paternidade, vários “casamentos” ao longo da vida ou concomitantes.

Algumas reações são fáceis de explicar e até mesmo de prever, outras ainda precisarão de tempo para mostrar ao que vieram. Alguém sabe explicar o que significa, que sinal de protesto ou qual função vital representa “ficar” com 10 ou 15 garotos ou garotas na mesma noite? O que a geração anterior fez ou está fazendo para tamanha compensação? Ah, ia esquecendo de um ditado importante que há séculos pais escutam de seus filhos: “Vocês não me entendem”, “Vocês não sabem nada”, “Vocês são ridículos”!

*Ildo Meyer
Médico e Filósofo clínico
Porto Alegre/RS

quarta-feira, 30 de março de 2011

Escrever pra quê? Cantar pra quê? Viver pra quê?

Sandra Veroneze
Filósofa Clínica
Porto Alegre/RS


A paixão pela música latino-americana me acompanha já faz algum tempo e uma das vozes que mais aprecio é da argentina Mercedes Sosa.

Nas últimas semanas, tenho me embriagado ao som de “Solo le Pido a Dios”, que me arrepia toda vez que ouço o verso em que pede a Deus para que a morte não a encontre vazia e só, sem ter realizado o suficiente.

É canção para visionários, sonhadores e idealistas, que se soma uma capa dos discos da Mercedes em que ela afirma: “Io no canto por cantar”, sugerindo a existência de um propósito maior em seu trabalho.

Arte engajada é o nome que se dá a este fenômeno e está presente na música, na pintura e, também, na literatura. Existem os artistas que querem mostrar seu trabalho, extravasar e tocar emoções, manifestar seu eu interior, deixar sua veia artística livre e solta, sem classificações, sem amarras, sem causa que não a própria arte, em si.

Existem outros que querem mais. São aqueles que encontram na arte um canal para gerar eco, produzir um efeito coletivo, tocando no íntimo das pessoas e em suas consciências, impelindo à ação para mudar o mundo, nem que seja pela contestação apenas.

Particularmente, acredito que toda forma de arte vale a pena, porque também ela é uma esteira através da qual o ser humano pode conhecer melhor a si mesmo e ao universo que o circunda. Mas vou contar um segredo: aprecio imensamente os artistas que imprimem em seu trabalho um toque idealista, a partir de um propósito firme, nem que seja de tornar mais poético o mundo de seus leitores.

Essa proposta vem de encontro com outra frase que li durante a semana. Ela dizia que o verdadeiro filósofo não fica se perguntando qual o sentido da vida, e sim pergunta o que exatamente fazer para dar sentido à vida.

Escrever pra quê? Cantar pra quê? Viver pra quê?

Com certeza não temos todas as respostas, e talvez nem mesmo as melhores respostas. Mas com certeza já temos as melhores perguntas.

terça-feira, 29 de março de 2011

Cactos

Idalina Krause
Filósofa Clínica
Porto Alegre/RS

Horizontes que não visitei
Arde sol na pele
Terra batida
Passos sonhados
Pajé me espreita nas pedrarias
Cactos replantados
Círculo mágico
Axés de obediência
Gea de cantos e mudas
Chuva fina regando tardes
Apagar de dias
Espera de lua minguante
Ventos de todos os cardeais
Rondam festa de estrelas
Topo do mundo
Varanda encantada...
VIDA

Olympia
Filósofa Clínica
São João del Rei/MG


MENINO NEGRO/FACÃO/MORTE

ADOÇÃO/MÃE BRANCA/ABANDONO

ACOLHIDO/MÃE/ELZA CÓ

JEQUITINHONHA/BARRO/BRINCADEIRA

COTIDIANO/RURAL/URBANO

VOZ/MÚSICA/POESIA

MOVIMENTO/COR/SERENO

OLHAR/DISTANTE/BRILHO

LÉO/BATISTA/ARTISTA

segunda-feira, 28 de março de 2011

Aventuras do olhar*

“O devaneio nos dá o mundo de uma alma, que uma imagem poética testemunha uma alma que descobre o seu mundo, o mundo onde ela gostaria de viver, onde ela é digna de viver.”
Gaston Bachelard


As interseções entre um vislumbre e outro podem mudar a vida. Alterar desfechos tidos como inevitáveis, prenunciar novidades, dialogar com a utopia em frente aos olhos.

Inventar aquilo que se procurava apenas no mundo estabelecido. Compartilhar perspectivas, sensações, devaneios. Acreditar ser possível sonhar e realizar.

Existem circunstâncias a iludir o real com sua atração irresistível. Vontades excessivas e ao alcance da mão. Atenção a se re-voltar para longe do extraordinário agora, em moldes refugiados na própria sombra.

Ao notar que isso também pode ficar em uma zona intermediária, entre ver e não ver, um esboço persegue apontamentos sobre o refém da sua desconsideração. Ao ser possível acessar outras verdades pelo foco das ilusões (de ótica), outras realidades se abrem a investigação aventureira de olhar inconcluso.

Essa menção aprecia contemplar algo pela última vez, sem ter tido a primeira. Contradição de um nada a superar seu não-ser para se oferecer às vistas recém chegadas.

Um olhar para superar a neblina e se encantar com a beleza dentro dela mesma. Perambulando nas entrelinhas da racionalidade aprecia a alma sensível para compartilhar sua estética subversiva.

Por esses roteiros insaciáveis da visão, uma interrogação reflexiva atualiza conversações entre o mundo subjetivo e objetivo. A natureza do filosofar aprecia a cumplicidade da lógica dos excessos, assim poderá vivenciar a insubstituível singularidade, quiçá desvestir a musa de uma estrutura, ao mudar de foco.

Pode se tratar de uma representação em vias de ter sentido. Versão original na curiosidade das novas imagens, um pouco antes de ser educada pela supremacia da razão conhecida. Uma chama alimentada pelas incompletudes persegue focos de incêndio exilados em si mesmos. Preparam vírgulas em disfarces de ponto final.

Através das impermanências que viajam com as ventanias, se pode atualizar um olhar para se perder - de vista -. Como amanhãs sinalizados pela agonia do instante morrendo.

O visar descritivo pode ter um caráter de anúncio aos novos roteiros, onde cada um impulsiona a vasta possibilidade de conflitos e resoluções. Interseção fugaz onde atração e recusa se desencontram.

Ao contemplar os rascunhos da visão desfocada, é possível antecipar eventos e oferecer outras lógicas ao mirante das idéias complexas. Assim as incontáveis verdades podem ser levadas em consideração sob novos pontos de vista.

Podem ter um caráter de observação, anúncio, distorção, reflexão, sedução, seja como: sonhadores, copistas, definidores ou transgressores. Existem os convictos de ter mostrado algo original, quando se sabe, por outros ângulos, tratar-se de lentes vencidas.

Também tem àqueles que vêem sempre as mesmas coisas. Quem desvirtua as imagens em prol dos sonhos ou acontece na preparação de um faz de conta.

Na pluralidade de um piscar de olhos, novos flagrantes se exibem em tempo próprio, a oferecer presentes inesquecíveis. Nem sempre é viável enxergar o que se passa ao redor, no entanto, os fatos inesperados apreciam surgir de um jeito surpreendente ao próprio autor.

Ao fitar ingênuo do espanto inicial os sentidos podem ser descobertos. Talvez a percepção das poéticas esteja na interseção entre a fonte e seu foco. Numa extensão indefinida e sem palavras, as tratativas procuram descrever uma irrealidade em processo de tornar-se.

*Hélio Strassburger
Filósofo Clínico

domingo, 27 de março de 2011

Fragmentos filosóficos delirantes XXXIII*


"Eu amo Aquele que caminha
Antes do meu passo
É Deus e resiste.

Eu amo a minha morada
A Terra triste.
É sofrida e finita
E sobrevive.

Eu amo o Homem-luz
Que há em mim.
É poeira e paixão
E acredita.

E recriaste a Poesia
Na minha Casa."

"Vida da minha alma:
Um dia nossas sombras
Serão lagos, águas
Beirando antiqüíssimos telhados.

De argila e luz
Fosforescentes, magos,
Um tempo no depois
Seremos um só corpo adolescente.

Eu estarei em ti
Transfixiada. Em mim
Teu corpo. Duas almas
Nômades, perenes
Texturadas de mútua sedução."

"Aflição de ser eu e não ser outra.
Aflição de não ser, amor, aquela
Que muitas filhas te deu, casou donzela
E à noite se prepara e se adivinha

Objeto de amor, atenta e bela.
Aflição de não ser a grande ilha
Que te retém e não te desespera.

Aflição de ser água em meio à terra
E ter a face conturbada e móvel.
E a um só tempo múltipla e imóvel

Não saber se se ausenta ou se te espera.
Aflição de te amar, se te comove.
E sendo água, amor, querer ser terra."

* Hilda Hilst

sábado, 26 de março de 2011

Fragmentos filosóficos delirantes XXXII*

TRADUZIR-SE

"Uma parte de mim
é todo mundo:
outra parte é ninguém:
fundo sem fundo.

Uma parte de mim
é multidão:
outra parte estranheza
e solidão.

Uma parte de mim
pesa, pondera:
outra parte
delira.

Uma parte de mim
alomoça e janta:
outra parte
se espanta.

Uma parte de mim
é permanente:
outra parte
se sabe de repente.

Uma parte de mim
é só vertigem:
outra parte,
linguagem.

Traduzir uma parte
na outra parte
_ que é uma questão
de vida ou morte _
será arte?"


SUBVERSIVA

"A poesia
quando chega
não respeita nada.
Nem pai nem mãe.

Quando ela chega
de qualquer de seus abismos
desconhece o Estado e a Sociedade Civil
infringe o Código de Águas

relincha
como puta
nova
em frente ao Palácio da Alvorada.

E só depois
reconsidera: beija
nos olhos os que ganham mal
embala no colo
os que têm sede de felicidade
e de justiça

E promete incendiar o país"

*Ferreira Gullar

sexta-feira, 25 de março de 2011

DAR SENTIDO AO ACORDAR

Ildo Meyer
Médico e Filósofo Clínico
Porto Alegre/RS


Você não dormiu direito. Pode ter sido insônia, um filho doente, uma festa que se prolongou ou um projeto a ser finalizado. O fato é que seu corpo não descansou, o sono não foi reparador e você tem um compromisso agendado. Qual sua estratégia para pular da cama cedo pela manhã e ir trabalhar, estudar ou cuidar da saúde praticando exercícios? O bom e velho despertador ainda é um dos métodos mais utilizados, mas infelizmente é muito primitivo.
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Você já deve ter tido a experiência desagradável de estar deitado, tentando ainda desesperadamente recuperar o sono e de repente aquele susto. Um barulho tão incômodo invadindo seus ouvidos que a freqüência cardíaca aumenta, a respiração fica ofegante e o corpo molhado de suor. Envolto por tal perturbação você instintivamente levanta e desliga aquele som. O dia já iniciou, o calendário mudou, porém você ainda não teve o tempo necessário para sair do ontem.

Mais do que isto, você realmente acordou ou simplesmente tomou um susto que o tirou da cama? Muitas vezes as pessoas se vestem, tomam café e partem para suas jornadas como sonâmbulos, fazendo obrigações automaticamente. Saem da cama às seis horas da manhã, passam o dia dormindo e só vão acordar mesmo lá pelas seis da tarde.

Na tentativa de amenizar o estresse do despertar artificial foram surgindo invenções: rádio relógios musicais, travesseiros programados para iniciarem vibrações suaves, condicionadores de ar que modificam a temperatura ambiente, lâmpadas que aumentam a claridade. Aparelhos que promovem a estimulação dos órgãos dos sentidos, modificando aguda ou lentamente condições ambientais, perturbando o sono e forçando sua interrupção de uma maneira menos danosa ao organismo.
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Seriam estas técnicas realmente menos nocivas ou apenas uma maneira mais agradável de estimular os sentidos, sendo o verdadeiro problema o despertar artificial? Seja como for, parece que uma coisa está clara: se quisermos interromper o sono de alguém, teremos que apelar para as sensações.

A palavra acordar tem sua origem em “cordatus”, que significa juízo aguçado, razão em pleno funcionamento e o termo despertar deriva do espanhol “espertar”, avivar, tornar-se esperto.

Interromper forçadamente o sono e levantar para realizar tarefas é diferente de acordar. O indivíduo vai acordar somente quando estiver pronto para isto. Em relação aos sentimentos e comportamentos não é diferente. Podem transcorrer anos e até mesmo toda uma existência e as emoções permanecerem adormecidas. Uma interpretação poética para acordar pode ser “dar cor para”, ou seja, sair do piloto automático e agir com o coração.

Um homem pode ficar todos os dias saindo da cama para trabalhar às seis horas da manhã e acordar realmente só aos sessenta anos de idade, quando descobre que esteve o tempo todo na profissão errada. Estar de olhos abertos, caminhando, conversando, trabalhando não significa estar desperto. Pode ter sido uma vida absolutamente sem cor, cinzenta e sonolenta.
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Os órgãos dos sentidos são indicadores, marcadores dos sentimentos e emoções que habitam nosso ser. Se ficarem restritos ao corpo físico, perderão uma de suas preciosas funções. Seremos mais zumbis do que despertos. O verdadeiro despertador é a consciência de que vale a pena acordar. Que a vida tem emoções, surpresas, cheiros, gostos e amores esperando para serem coloridos.
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Dormir é bom, importante e saudável; permite relaxar, repousar e sonhar. Acordar e abrir os olhos para a realidade pode até ser doloroso, mas estar presente no momento, ficar em pé fazendo pleno uso do corpo, coração e mente é viver concretamente o sonho

quinta-feira, 24 de março de 2011

COLHEITA E PROCESSAMENTO

Vânia Dantas
Filósofa Clínica
Uberlândia - MG


A historicidade é a base para a análise de dados e compreensão do processo do partilhante e algumas abordagens podem ser utilizadas na sua observação para elucidar a vida que se apresenta, até por meios não-verbais e intuitivos. Na contação da história de vida, cada palavra será importante, assim como a constituição sintática, a relação entre os termos, e a semântica, ou seja, o significado deles.

Agora, como se pode colher uma história de vida? Qual a lucidez necessária para que o partilhante fale do que lhe vai por dentro? Qual é a sua epistemologia? Quais são os instrumentos dos quais o ser se utiliza para conseguir dizer de si, coisa para ele tão difícil, porque muitas vezes ele não se conhece? De quais dados de semiose se vale a pessoa para se dirigir a você?

Na verdade, há agendamentos nos mínimos detalhes envolvidos na clínica, desde o momento em que a pessoa toma contato com o desejo de fazer terapia até o início das sessões, a presença do terapeuta e a influência de todo o entorno. Afinal, o que vai de mim em direção ao partilhante? Tudo agenda? A temperatura do ar, o aroma, a cor da parede, o tato e a pressão no aperto das mãos, a boca seca ou salivante durante a conversa...

No cotidiano, você verá que ela pode usar um gato ou um bebê para lhe falar e na apropriação da doçura desses seres lhe expor o sentimento que ela mesma não conseguiria... ou pode colocá-lo à frente de um filme de ação/violência para que você tome contato com o interior dela... ou pode lhe presentear com uma fichário sobre os mil modos de se preparar churrasco; ou CD’s representativos do mundo dela, não do seu.

E, nesse momento, você pode se perguntar: “Mas o fulano não gosta de mim, ele não me entende, veja o que me deu...” E você poderá perceber que não é o presente material que ele está dando; ele compartilha, está dando de si mesmo, são seus símbolos mais caros, talvez mais íntimos que o carinho e a sexualidade.

Assim, aprendemos a valorizar a expressão do outro a cada emissão de bolhas de sabão que soubermos receber; e esse saber às vezes é mais difícil mesmo que o emitir. Por isso, insistimos que deve ser valorizado, há que haver um estudo, há que suscitar no filósofo um desejo intenso de apreender um mundo novo que se abre, pois que, em nosso meio, cada pessoa tem sua fórmula... e fórmulas mutantes, também.... Ser terapeuta é desafiador, como o é o auto-conhecimento.

Algumas pessoas exporão sua coleção de fotos ou mostrarão letras de música; um estojo de lápis de cor ou de cera e algumas folhas de papel na sala de atendimento podem ser muito produtivas ao partilhante, lembrando sempre que é ele quem significa, ou seja, é ele quem dirá sobre o motivo do risco e da forma. Podemos encontrar aí a expressividade, a esteticidade, a semiose, e também, sem elas, ficaria difícil para alguns se apresentarem, pois talvez não tivessem desenvolvido suficientemente o dado verbal para comunicar-se eficientemente.

Aí pode-se pensar na terapia informal – a terapia de barzinho. Cinco horas de chope para poder dizer a frase necessária.... Ou caminhar pela areia da praia por seis quilômetros até o próximo lugarejo, Santo Antônio de Lisboa, em Florianópolis... ou o passeio no parque, desenvolvendo a similitude do olhar na observação de bichos e plantas.... A inclusão terapêutica no dia-a-dia acalenta nossa sensibilidade para a ação efetiva em clínica.

Mas... o que é falar de si? Falar de si é se ver no outro? é ver o outro como apoio para poder se mostrar, vendo que há algo de semelhante? Conte de seus passos e da circunvolução de sua estrela que receberei sua fala como um presente nas mãos. Os olhos perceberão suas alterações na boca e cílios. O ser captará o ser com o respeito de uma manifestação do Absoluto.

De quantas lágrimas se fez essa história que você tem ou a que te dão a conhecer? A importância do vivido é dada pela pessoa. Não fosse, teríamos noticiário. Conforme Packter, o relato da pessoa é uma interpretação dela sobre o que vivenciou, o que pode ser muito diferente do que deve ter acontecido. A história é dela, assim como todos os conceitos, significados e emoções. A fenomenologia ajuda-nos nessa atinência. E nada mais bonito do que o primado da percepção proposto por Merleau-Ponty em referência ao pintor que se integra com a imagem e como que entra nela para, após o encontro interior, conseguir devolvê-la ao mundo, na tela. Nas palavras de Marilena Chauí, é a experiência em que o Mesmo se faz Outro no interior de si mesmo.

Para Packter, “Merleau-Ponty mostra o corpo como uma atividade expressiva que precisa ser vivida para dar conhecimento a um sentido. Nós vivemos nas coisas e nas idéias; estamos no corpo enquanto tocamos os objetos e os habitamos.” Variável, entretanto, é a forma com cada pessoa experiencia isso.

Outrossim, fatos que te arrasariam não o fizeram a outros.

“É bobagem achar que a pessoa começará a se recordar de coisas horríveis, traumas imensos, dores etc... isso até pode ocorrer, conforme a pessoa se estruturou. Uns consideram as tristezas da vida algo que deve ser deixado longe da luz, outros apreciam revivê-las, outros ainda nem apreciam mas sentem que devem fazê-lo e então o fazem etc, etc, etc. É necessário conhecer intimamente a Estrutura de Pensamento da pessoa para saber se é necessário mexer no que está cicatrizado ou não. A priori eu não sei afirmar nada sobre isso.”(PACKTER, Caderno A)

Cuidado para não agendar justamente o nocivo. Os grandes obstáculos de sua vida não o foram para outros, assim como os grandes acontecimentos: pode não ser o casamento, nem o nascimento do filho, nem a formatura. Lembre-se de que há esterilidade, solteiros a sós tomando o chá fúcsia de hibisco, vidas que prescindem de papéis, sem diplomas ou jornais. Para alguns, o grande momento pode ser um dia ao sol após demorado internamento, o reencontro da energia numa xícara de café antes proibido, o alívio de conseguir a anulação de um casamento pela Igreja, o carinho de um gato que agora se pode ter em casa.

Quem atende pessoas não se assuste com o inusitado, porque é este que vem. Até vidas de gêmeos se fazem diferentes no seu próprio entender, por mais que compartilhem fatos.

Com o preenchimento da linha do tempo com os eventos cotidianos virá uma série de produções da mente, assim como do corpo e do espírito. Contradições aparecerão e você verá à sua frente, por vezes, uma metáfora, como um coração duro para apoiar uma mente que chora.

O conhecimento sobre os entremeios dos fatos trará a Estrutura de Pensamento, como foi para a pessoa e porque foi assim. Porque se pode sorrir com mau gosto e chorar num afago. Porque pode ser múmia em festas e soltar-se na repartição. Porque pode falar do que foi sem nunca ter sido. Porque pode querer demais, pela vida inteira, e nunca realizar. Porque pode amar o próximo e matar a si mesmo. Porque pode dizer com as mãos o que a voz não consegue. Ou porque não pode permitir que o corpo diga mais que a mente.

E o que dizer das questões trazidas à clínica, além de todas as considerações acerca das categorias? Estes são outros temas que podem ser pesquisados na historicidade que se apresenta, e merecem outro momento de estudo.

terça-feira, 22 de março de 2011

O tempo em que se vive

Sandra Veroneze
Filósofa Clínica
Porto Alegre/RS


Houve um tempo, até poucos anos atrás, que eu me olhava no espelho e tinha quase a certeza de ser uma grega ou romana perdida no tempo.

Tudo que se referia ao mundo dos castelos, batalhas e simbolismo religioso me interessava. Estudei as guerras antigas, armas brancas, arquitetura sagrada, códigos de honra das sociedades de guerreiros, paganismo, civilizações desaparecidas, alquimia, mitologia, astrologia, numerologia...

Adotei a filosofia estoica como modo de viver (tanto quanto possível), enrijeci uma disciplina para uma vida verticalizada nos pilares de honra e caráter, defini uma estratégia própria para fazer render meus dias. É desta época minha forte admiração pelo imperador filósofo Marco Aurélio e suas meditações, pelos cavaleiros templários e guerreiros samurais. Prevalecia a premissa do ‘faça o que tem que ser feito, independente do quanto doa’.

Depois me entreguei a uma nova fase, mas ainda ‘perdida’ no tempo.

Surgiu o encanto pela Renascença. Leonardo da Vinci passou a reger meus dias, com disciplina e organização, sim, mas atentando mais para o lado bom e florido das coisas.

Criatividade, inventividade... Ainda estava nos castelos, mas já não ouvia mais tanto os sons dos cavalos, cutelaria, correntes... Ouvia a música dos salões, observava o corte perfeito das roupas, admirava a grandiosidade dos jardins. Havia tempo para os poemas e saraus e concertos, chás ao final da tarde, passeios pelo bosque, para a gastronomia refinada. Para observar a neve se acumulando lá fora, noites longas e dias curtos, crianças correndo pela casa...

E assim, meio que de repente, passei a deixar a contemporaneidade viver mais em mim e não há evidência mais forte do recorte histórico atual nos meus dias do que o uso e abuso das tecnologias disponíveis.

Às vezes penso que não é a gente que vive uma época, mas uma época que vive na gente.

Conheço, por exemplo, um colecionador de objetos cuja alma encontra o maior dos confortos quando está entre suas moedas, documentos, correspondências e especialmente livros antigos. Dimythryus é o nome dele.

É gostoso observar o entusiasmo com que se envereda na busca por colecionáveis. Cada descoberta rara é garantia de ter ganho o dia, a semana... Os dias sem voltar no tempo lhe parecem monótonos, sem sentido... Acho charmoso e reconheço sua importância no resgate histórico, no registro dos tempos... O que as pessoas ‘normais’ chamariam de quinquilharias, para ele são objetos da maior afeição.

Inegável que isso tudo fala muito da personalidade de cada um. Tem uma frase, que a cada dia me parece mais verdade, que diz o seguinte: não nos identificamos com o que não habita em nós, nem por atração e nem por repulsa. Se não existe em nós, nos é indiferente. Penso que, às vezes, estar perdido em outro tempo é a única ou uma das poucas formas de se encontrar.
Grotão

Olympia
Filósofa Clínica
São João del Rei/NG


Nos caminhos do vale

Andando pelos grotões

Vendo o Rio Jequitinhonha

Contemplando o Universo

Vejo uma nuvenzinha

Conversando com as montanhas

Conversa de pé de ouvido

Trocam segredos e carinhos

segunda-feira, 21 de março de 2011

O discurso de cada um

Luana Tavares
Filósofa Clínica
Niterói/RJ


Cada um de nós tem um discurso próprio, uma forma de verbalizar o mundo. Às vezes compreensível, estruturado, coerente, mas tantas outras vezes nem tanto assim. Muitos apenas deixam transparecer o que lhes vai à alma; outros se descabelam de tanta expressão.

Algumas destas expressões são múltiplas e abrangem olhares, toques, sons, paladares e cheiros e também muitos outros sentidos que não podem sequer ser mencionados, tomando a atenção do outro por inteiro. Inúmeras outras expressões, entretanto, se recolhem e se manifestam somente para poucos escolhidos. Muitos mesclam momentos de recolhimento com outros de euforia, nos lembrando que podemos ser imprevisíveis até mesmo dentro de nossa linearidade.

Não há um discurso igual ao outro, como não há necessariamente uma imposição de padrões nos discursos já conhecidos, simplesmente porque estes podem mudar.

Quantas vezes, quando supomos já conhecer nossos partilhantes e fazemos nossos próprios discursos em função desses conhecimentos, que julgamos muito bem fundamentados, lá vêm eles com uma novidade, deixando nossas falas pré-ajuizadas vazias e desconcertadas.

É claro que precisamos basear toda e qualquer análise de todo e qualquer discurso que nos é relatado na investigação de como é a estrutura de pensamento dos nossos partilhantes, através da historicidade e dos exames categoriais; mas é importante, fundamental, lembrar que estamos quase sempre com uma caixinha surpresa à nossa frente.

Até o mais previsível dos partilhantes pode nos surpreender... Assuntos mudam, tempos e lugares também; relações então... é bom nem falar. E todas essas mudanças geram circunstâncias que vão se modificando e se alternando. Parte do nosso trabalho é buscar algum padrão, algo que estabilize essa estrutura que se movimenta e que é bela exatamente por isso.

Mas essa busca não pode e não deve nunca interferir na espontaneidade das revelações que se sucedem. E nem sempre revelam a face de quem as emite, pois mesmo as máscaras de que nos valemos em nosso dia-a-dia, em momentos que escapam ao controle, podem sugerir interpretações equivocadas até por parte de experientes terapeutas. O que compensa é o esforço deste em sua disposição de acolher quem o procura, pois qualquer discurso possui potencialidade para exprimir o que vai à alma, ao coração, ao corpo.

É importante observar que a escolha, construção e evolução do ser terapeuta parte desses infinitos discursos que nos chegam de formas igualmente infinitas. Somos constantemente impulsionados a desafios, exatamente porque desconhecemos os discursos que se apresentam.

Estruturas de pensamento se modificam e sofrem nano autogenias no decorrer do dia, surpreendendo até mesmo seus próprios autores e estas influências acontecem constante e ininterruptamente, ou seja, o ser terapeuta se constrói do momento em que acorda à hora que se deita.

Quer queiramos quer não, não desperdiçamos uma gota de contribuição a esse estado; tudo participa para passarmos adiante na forma de afeto e atenção, dedicação e interesse, os cuidados pela alma que se apresenta. E ainda tem mais: este papel existencial se estende a todos a nossa volta, pois os cuidados não se limitam ao ambiente do consultório e à hora marcada. Arrisco-me a dizer até mesmo que somos todos, quase sem exceção, cuidadores em potencial.

No filme “O discurso do rei”, podemos observar um raro exemplo de uma fala que vai se qualificando conforme a interseção, do próprio e do outro, até dar conta do que realmente tem significado: a exposição de uma historicidade peculiar, que demandou tempo e exigiu que a evolução da cumplicidade se cumprisse.

Nessa história, curiosamente real (aqui com um duplo sentido), um terapeuta dedicado a tratamentos que envolviam a fala se envolve clinicamente com ninguém mais ninguém menos do que um príncipe da corte inglesa. A clínica neste caso se constituiu tarefa não muito fácil, dadas as circunstâncias que a formalidade das condições exigia.

Porém, a dedicação do terapeuta e sua determinação foram essenciais para que a qualidade da interseção e do tratamento evoluísse, com os ajustes necessários e com o exercício, igualmente necessário e fundamental, da paciência e da persistência.

Seu paciente de sangue azul o brindou com sucessivas manifestações de esteticidade bruta, seguidos de intensos momentos emocionais e um extenso pacote de pré-juízos. Mas essa não é obviamente uma prerrogativa real, pois o príncipe, como qualquer um de nós, carecia simplesmente de atenção autêntica para dar conta do (inevitável) encontro com suas dúvidas, dores, alegrias, perdas, aceitações e tantos outros aspectos que o levariam ao cerne do seu suposto assunto imediato.

Enfim, gente como a gente... que erra, se equivoca, provoca, mistura e entorna. Um exemplo de discursos que se modificam conforme circunstâncias, que podem transmitir o que na realidade são apenas facetas de uma realidade muito mais complexa e que podem revelar tantos seres em um só. O terapeuta seria então aquele que se curva à nobreza, ainda que oculta, de cada alma.

A compreensão do outro e a possível clínica, em qualquer circunstância, depende essencialmente de uma natureza voltada ao cuidar, ao cumprimento de um papel existencial com a tranqüilidade e a competência dos que sabem para onde estão indo, para exercer fundamentalmente o que os terapeutas devem ser: amigos das almas de seus partilhantes. Mas será que para isso é preciso ter credenciais?

A resposta toma a complexa via da ética, que exige uma postura que só se adquire com tempo, conhecimento, experiência e alguma sabedoria. Credenciais na verdade são simplesmente o recibo que passamos à formalidade; uma simples ação que autoriza uma função, mas que informa o percurso da estrada percorrida na qual investimos também a nossa alma.

Enfim, para um filósofo clínico estar à altura de seus pressupostos conceituais é preciso, além de sua formação teórica, filosófica e existencial, fundamentalmente ser amigo, praticar afetos, reconhecimentos e humildades e saber que trocas são para ser exercidas. E discursos, para serem revelados ou quem sabe até mesmo, puramente legados à sua própria singularidade.

domingo, 20 de março de 2011

Fragmentos filosóficos delirantes XXXI*

"Vivo no infinito; o momento não conta. Vou lhe revelar um segredo: creio já ter vivido uma vez. Nesta vida também fui brasileiro e me chamava João Guimarães Rosa"

"Às vezes, quase acredito que eu mesmo,
João, seja um conto contado por mim"

"Não gosto de falar em infância. É um tempo de coisas boas, mas sempre com pessoas grandes incomodando a gente, intervindo, estragando os prazeres. Recordando o tempo de criança, vejo por lá excesso de adultos, todos eles, os mais queridos, ao modo de policiais do invasor, em terra ocupada"

"Mas, tempo bom, de verdade, só começou com a conquista de algum isolamento, com a segurança de poder fechar-me num quarto e trancar a porta. Deitar no chão e imaginar estórias, poemas, romances, botando todo mundo conhecido como personagem, misturando as melhores coisas vistas e ouvidas"

"Quando a gente dorme, vira de tudo: vira pedras, vira flor. O que sinto, e esforço em dizer ao senhor, repondo minhas lembranças, não consigo; por tanto é que refiro tudo nestas fantasias. Dormi nos ventos. Quando acordei, não cri: tudo o que é bonito é absurdo - Deus estável. Ouro e prata que Diadorim aparecia ali, a uns dois passos de mim, me vigiava. Sério, quieto, feito ele mesmo, só igual a ele mesmo nesta vida"

*João Guimarães Rosa

sábado, 19 de março de 2011

Fragmentos filosóficos delirantes XXX*


"Não mais trarei justificações
Aos olhos do mundo.
Serei incluído
” Pormenor Esboçado ”
Na grande bruma.
Não serei batizado,
Não serei crismado,
Não estarei doutorado,
Não serei domesticado
Pelos rebanhos
Da terra.
Morrerei inocente
Sem nunca ter
Descoberto
O que há de bem e mal
De falso ou certo
No que vi."

"Se a noite persegue minha vida, deposito monstros no aquário.
Os peixes caminham no asfalto e as mulheres usam gravatas.
Minha alma, meu desejo, minha imobilidade. Apenas eu!
Danço a quimera dos solitários e o presságio dos carecas."

"Dêem-me um anestésico. A vida dói e arde.
Não sei controlar meus impulsos demoníacos.
Não acredito em forças de outro mundo.
Sou eu, meus versos e o perigo das frações."

"Um poema, um segmento refratário. Não sei de mim.
As idéias são espasmos, e as palavras, coisa inútil.
Seria senil e insano se acreditasse no amanhã.
Vivo esse segundo que se arrasta, devorando-me."

"Abandonar tudo. conhecer praias. amores novos.
poesia em cascatas floridas com aranhas
azuladas nas samambaias.
todo trabalhador é escravo. toda autoridade
é cômica. fazer da anarquia um
método & modo de vida. estradas.
bocas perfumadas. cervejas tomadas
nos acampamentos. Sonhar Alto."


*Roberto Piva

sexta-feira, 18 de março de 2011

Estando em meio a criação de uma obra

Rosângela Rossi
Psicoterapeuta e Filósofa Clínica
Juiz de Fora/MG


Isso mesmo.
Em meio as palavras , lá vou, caminhando
Mergulhada até a alma...
Sentindo, chorando e rindo
Escrevendo, criando e fluindo
Pura alma, coração aberto as acontecências
Que o texto traz de surpresa.
Nem mais sei, quem são os personagens ou eu.
Sou todos no exercício da criação
Como diz o poeta Walt:
"sou vasto, contenho multidões".
E multidões de mim, meus vários eus
Vão construíndo a obra e me construindo.
Não sou mais a de antes destas 400 páginas
Que se prepara para o parto na revelação desvelada.
Entregar- me é um também um exercício de coragem
Basta ler o título da obra
Que vem arrepios dos quatro cantos da terra
Na transgressão a tradição.
Fica a curiosidade...
A ansiedade do guardar a hora certa
Faz pulsar os muitos em mim.
Louca ou artista. Não sei definir.
Mas, que tem sido incrível
Não posso negar nesta confissão,
Que sai no intervalo da correção,
No tempo da transpiração.
Quem quiser, que me aguarde,
Pois ela chega, como voo de uma ave
Libertando das minhas entranhas
Aquele que realmente em muito me habitou.
Eis a surpresa.... Vai dar o que falar!
Basta saber esperar

quinta-feira, 17 de março de 2011

Quem é sua família?

Beto Colombo
Filósofo Clínico
Criciúma/SC


Você provavelmente já viu atrás dos automóveis aqueles adesivos representando a família do condutor ou da condutora do veículo, esses adesivos tornaram-se um modismo nas grandes cidades, ou como se diz por aqui, tornaram-se uma febre.

Como fica uma situação em que o homem separa-se da primeira mulher, onde teve uma filha, depois ele se casa novamente com outra mulher e atualmente tem dois filhos nesse segundo casamento? E para complicar um pouco mais, a esposa atual resolve representar sua família com bonequinhos do pai de um lado, a mãe do outro lado e no meio, como que bem protegidos, os dois filhos, excluindo a filha do primeiro casamento? Sobre a ótica da nova esposa está correto, pois para ela a sua família é aquela. E como fica a cabeça da adolescente ao visitar o pai e, no passeio do fim de semana, descobre que foi excluída da nova “família” do pai, representada pelas figuras no adesivo da traseira do seu automóvel da família?

Outro caso. Domingo, num passeio, encontrei um automóvel com um adesivo ainda mais estranho. A família, nesse caso, é representada no lado esquerdo por um homem, uma mulher e uma filha e no lado direito, bem longe, dois meninos. Perguntei ao pai, que dirigia o automóvel, qual o significado e ele me respondeu que se tratava de filhos de outros dois casamentos.

Alguém disse a Jesus: “Olha! Tua mãe e teus irmãos estão aí fora e querem falar contigo”. Jesus perguntou aquele que tinha falado: “Quem é minha mãe e quem são meus irmãos?” E estendendo a mão para os discípulos, Jesus disse: “Aqui estão minha mãe e meus irmãos”.

Quem é sua mãe e quem são seus irmãos? Algumas pessoas têm muito mais relação fraternal com um colega de escola, do trabalho, do que com o irmão de sangue. Não há certo ou errado nisso. Essa convenção que família é somente os parentes de sangue me parece que está se transformando e é preciso prestar atenção nisso, sem oferecer julgamento.

Algumas pessoas são cruéis com elas mesmas tentando forçar uma relação com irmãos de sangue, onde não há interação alguma, fazem isso somente por ser filho do mesmo pai e da mesma mãe.

Algumas pessoas com valores cristãos se condenam por não amar seu pai, sua mãe, seus irmãos, suas irmãs. E como fica o quarto mandamento de Deus? Você já se deu conta que esse mandamento fala de honrar e não de amar, de ter interação? Será que é preciso forçar uma convivência?

Já atendi mãe destruída, desesperada, triste por ter brigado com o filho que foi embora de casa e o estopim causador foi a proibição da partida. “Ele é meu filho e filho não pode abandonar a mãe”, disse-me ela.

Talvez uma das chaves desta relação que causa tanto trauma esteja aqui, no pronome possessivo, no “meu”, no “nosso”. Dizer que os filhos são nossos é o mesmo que o mar afirmar que o rio é de sua propriedade.

Eu sei que como pai, queremos tanto o bem deles, amamos tanto, que muitas vezes atrapalhamos esse fluxo natural do “rio”. Em alguns, esse processo possessivo sufoca-os a ponto de preferirem amigos cibernéticos a amizades com o pai, mãe, irmãos do mesmo teto ou até com colegas próximos.

Kahlil Gibran, filósofo libanês, diz que nossos filhos não são nossos, são sim filhos e filhas dos desejos que a vida tem de si mesma.

Quem é seu pai, quem é sua mãe, quem são seus irmãos, suas irmãs? Quem foram as pessoas que fizeram diferença na estruturação de seu pensamento? E será que essas pessoas que fizeram diferença podem ser chamadas de mãe, de pai, de irmão, de irmã? Quem foram e quem são essas pessoas que fazem diferença na sua vida? Quem é seu pai, quem é sua mãe, quem são suas irmãs, quem são seus irmãos?

quarta-feira, 16 de março de 2011

MULHERES NA INTERNET

Ildo Meyer
Médico e Filósofo Clínico
Porto Alegre/RS


Em seu famoso livro “Homens são de Marte, Mulheres são de Vênus”, John Gray sustenta que o comportamento já vem codificado nos cromossomas: homens se retiram para “suas cavernas” para resolverem problemas, enquanto mulheres “se reúnem e conversam abertamente”.

Homens são diferentes de mulheres. A mulher entra no elevador, aperta o botão do décimo andar e antes de chegar ao destino, já está conversando animadamente com outra mulher e descobrindo um novo restaurante nas redondezas. O homem entra no elevador e fica olhando para o piso ou para o relógio.

Mulheres adoram fazer contatos, se relacionar, perguntar, responder. Mulheres costumam ir ao médico com mais freqüência que homens. Cuidado: nem todas as mulheres são assim, e quando se trata de saúde, 82% das mulheres sentem-se desconfortáveis para discutir o assunto com familiares e amigos. Por motivos variados, também não procuram imediatamente o médico para conversar. Diante da necessidade da troca de informações, surgiu então uma forma alternativa de comunicação, a Internet, oferecendo um canal impessoal e ilimitado de consultas.

O assunto saúde está aumentando a cada dia sua participação na internet, visto que o “Dr Google” atende seus pacientes com uma presteza de dar inveja à qualquer médico. Entretanto, fica devendo no quesito eficiência, pois a maioria dos sites e assuntos postados na internet não possui uma veracidade comprovada dos fatos, nem uma atualização constante, o que constitui um perigo iminente.

Navegar buscando relacionar sintomas com diagnóstico e tratamento é um procedimento que está se tornando usual na web, mas que para leigos em medicina, tem um risco enorme de erro.

Apesar disto, pesquisas recentes demonstram que 49 % das mulheres antes de procurarem o médico procuram a internet para investigar questões de saúde. Faz parte da sua natureza. Precisam estar informadas e preparadas para a consulta médica, pois são elas que compram ou influenciam a aquisição de 80 por cento de todas as mercadorias de consumo. Isto inclui 75 % dos remédios vendidos em farmácias.

As mulheres também influem em 80 % das decisões de cuidados com a saúde.

Imagine agora se os sites fossem seguros, fáceis de navegar, confiáveis e dirigidos às mulheres. Transparentes, mostrando tudo sobre a empresa ou produto, inclusive as falibilidades. Imagine o percentual que atingiriam as vendas.

Mulheres gostam de tudo às claras, querem saber não apenas da marca, mas o que está por trás da marca. O valor do produto ou serviço interessa, mas o posicionamento da empresa também é importante: comportamento ambiental, ética dos administradores, tratamento dispensado aos funcionários, origem e o destino do material utilizado e até mesmo o número de mulheres que ocupam cargos executivos.

A necessidade de conversar sobre saúde e a dependência da web para mulheres realizarem esses contatos é um fato. Estratégias de comunicação podem ser desenvolvidas no sentido de deixá-las tranqüilas sobre o conteúdo, clareza e idoneidade das informações, porém mais importante do que isto, talvez seja a facilidade de acesso e retorno de informações solicitadas bem como uma identificação da empresa com a saúde da mulher e sua atuação na comunidade.

Afinal de contas, junto a uma grande mulher, sempre existe uma ótima oportunidade de sucesso. Enfim, não seja apenas mais uma gota no oceano onde as mulheres navegam, transforme-se nas águas límpidas onde elas vão querer mergulhar.

terça-feira, 15 de março de 2011

Filosofia Clínica ajuda a educar

Mônica Aiub
Filósofa Clínica
São Paulo/SP


É possível adaptar alguns métodos da Filosofia Clínica para melhorar o aprendizado dos alunos na escola. Caminho passa por construir uma pedagogia regional, adaptada às necessidades locais dos estudantes.

Uma análise sobre a história da Educação brasileira demonstra que, desde os jesuítas, importamos modelos educacionais de outras culturas e realidades, tentando adaptá-los a nossas necessidades.

Nossa história demonstra, também, o fracasso de tais modelos, visto não terem sido pensados a partir de nossa realidade e, por isso, não serem, em sua maioria, compatíveis com as necessidades educacionais de nosso país.

Diante do desafio de trabalhar com a diversidade humana, o professor necessita, cada vez mais, ser um pesquisador. Não apenas um pesquisador da área em que atua, mas da realidade em que vive e dos seres humanos com os quais trabalha. O professor precisa saber ler as necessidades de seus educandos a fim de proporcionar-lhes instrumentos para que possam se situar diante da realidade e de seus problemas.

Construir uma pedagogia regional é algo necessário. Isto é, nossos métodos e materiais devem ser escolhidos tendo por base as características e necessidades do público com o qual trabalhamos.
Apresentadas essas ideias, a pergunta que vem em seguida é: como? Como fazer isso diante das imposições dos sistemas e redes nos quais trabalhamos? Como fazer para pesquisar as necessidades específicas dos educandos e de seus contextos?

Há uma análise das estruturas políticas feita por Foucault que ajuda a responder à primeira questão. Ele mostra que muitas vezes se deseja modificar um sistema a partir de sua macroestrutura, pensando que, ao modificá-la, modificam-se as microestruturas nas quais se está inserido.

Como seria isso? Para mudarmos nossa prática educacional, precisaríamos antes alterar toda a estrutura da Educação brasileira e, para isso, toda a estrutura política de nossa sociedade. Considerando as condições reais existentes para isso e nosso poder de atuação sobre essa gigantesca estrutura, imediatamente nos sentimos impotentes, incapazes de provocar qualquer movimento.

Mas, segundo Foucault, as macroestruturas só existem porque são constituídas de microestruturas que as sustentam. Não é a macroestrutura que determina a microestrutura, mas as microestruturas que constituem a macro.

Se desejamos modificar as estruturas vigentes em nossa sociedade, precisamos iniciar esse processo por nós mesmos. Iniciando um processo de alteração das microestruturas, automaticamente estaremos mexendo nas macroestruturas do poder.

Outro ponto importante é que os educadores deveriam estudar a legislação para criar propostas de trabalho regidas por ela - ou ao menos que não a ferissem. Com isso conseguiriam reivindicar a legitimação de seus projetos, uma vez que estariam adequados não apenas às necessidades locais, mas também à legislação vigente.

E, indo além, caso percebessem uma inadequação da lei às necessidades, o caminho seria exercer a cidadania, encaminhando o assunto para os órgãos competentes e exigindo um posicionamento acerca do proposto.

segunda-feira, 14 de março de 2011

Emoções

Marcelo Osório Costa
Filósofo Clínico
Belo Horizonte/MG


Vamos supor que o partilhante relata que gosta muito de trabalhar, que a sua grande paixão é levantar de manhã e ir para o trabalho, conversar com as pessoas e atendê-las como merecem: com respeito e dignidade. O trabalho é mais prazeroso que minha própria família, diz esse partilhante.

A narrativa dessa pessoa diz respeito ao Tópico 4 (Emoções). O que podemos entender pelas Emoções? Lúcio Packter, idealizador da Filosofia Clínica, diz que “É o movimento em partes da Estrutura de Pensamento (EP) que a pessoa vivencia como um estado afetivo qualquer: prazer, dor, alegria, tristeza, amor, ódio, bem-estar, mal-estar, esperança, desejo, saudade, carinho, etc. Assim, engloba o sentimento”.

É possível entender que as emoções têm sua origem através de combinações tópicas. Vamos a um exemplo para elucidar melhor tal possibilidade. Pedro tem como Pré-Juízo (Tópico 5) que todas as mulheres são carinhosas, afetivas e que têm como busca um homem para se casar.

Pedro, além de preencher o Tópico 5 com tais dados, também tem o Tópico 2 (O que Acha de si Mesmo) preenchido com os seguintes dados: ele se considera um homem carinhoso, afetivo e quer se casar, e um homem que gosta de mulheres carinhosas, afetivas, e que ele busca este tipo de mulher para se casar. Pedro, portanto, em um belo dia encontra Maria em condições favoráveis a uma interseção positiva, resultando daí as Emoções.

Para compreender melhor alguns termos específicos em Filosofia Clínica como, por exemplo, pré-juízos e interseção, será necessário explicá-los sinteticamente. O primeiro diz respeito às verdades subjetivas que habitam o partilhante e que o acompanham em suas experiências existenciais. Note que Pedro tem como pré-juízo que todas as mulheres são carinhosas, afetivas e desejam se casar.

A interseção é o conjunto formado a partir de dois conjuntos, o qual é constituído de elementos comuns que existem nos dois conjuntos. Pedro e Maria têm histórias de vidas distintas um do outro, porém o que há de semelhante entre os dois, a princípio, é o carinho, a afetividade e a busca pelo casamento. A interseção não é um conjunto acabado e pronto podendo se desfazer e refazer. Diante disto, ela pode ser entendida como um processo, e não uma etapa conquistada e finalizada em uma relação.

As variações no tópico Emoções vão ao infinito, mas o que isto quer dizer? Como qualquer tópico, o Emoções pode estar em harmonia ou em choque com ele mesmo e, também, com outros tópicos da EP do partilhante. Neste sentido, poderão existir choques intertópicos e/ou intratópicos.

O primeiro diz respeito a choques entre tópicos diferentes como, por exemplo, o Emoções está em choque com o Pré-Juízos; já o segundo se refere a choques internos como, por exemplo, tópico Emoções estando em choque com o próprio tópico Emoções. É possível diagnosticar tais fatos, pelo filósofo clínico, após os Exames Categorias, a montagem da EP com suas Divisões e Enraizamentos, e a Autogenia.

Vamos supor que Pedro – tendo o Tópico 5 (Pré-Juízos) e o Tópico 2 (O que Acha de si Mesmo) preenchidos com os dados elencados acima – casa-se com Maria e a partir de um certo tempo, em seu casamento, ela se apresenta como uma pessoa em desacordo com seus pré-juízos: ela não é carinhosa, nem afetiva, e diz a ele que não era seu desejo se casar. Provavelmente, o Tópico 5 (Emoções) de Maria está em choque com o seu próprio modo existencial de ser e estar.

Pedro, no entanto, se apresenta com choque entre o Tópico 5 (Pré-Juízo) e Tópico 4 (Emoções) porque percebe que seu pré-juízo falhou, ou seja, nem todas as mulheres são carinhosas, afetivas e desejam se casar. Diante disto, Pedro começa a desgostar de Maria e sente uma tristeza profunda em seu peito, preenchendo, com novos dados, os Tópicos 4 (Emoções) e o 5 (Pré-Juízos).

Este próximo exemplo ilustrará choques intratópicos em relação a Emoções com possíveis choques intertópicos. Pedro relata que o amor que sentia por Maria está se transformando em ódio. Note que o tópico Emoções se encontra em choque consigo mesmo e não com outro tópico, ou seja, é um choque proveniente do Emoções com o próprio tópico Emoções.

Ele ainda relata que a partir deste sentimento por Maria está se vendo como uma pessoa mais cética no que se refere aos sentimentos das mulheres. Note que neste relato o Tópico 2 (O que Acha de si Mesmo) também foi alterado em relação aos dados preenchidos anteriormente neste tópico.

É relevante notar e compreender que a EP é plástica e flexível, ou seja, ela não é algo rígido e acabado, portanto, se transformando a todo instante devido às circunstâncias existenciais da história do partilhante.

Em Filosofia Clínica não há a pretensão de reduzir o ser humano às teorias filosóficas, psicológicas, psicanalíticas, psiquiátricas, médicas, etc. Por este motivo, nesta abordagem terapêutica existe a ausência de tipologias e patologias. Não é producente, ao filósofo clínico, acomodar o partilhante em tipos teóricos ou patologias, ao contrário, é ético, ao terapeuta, que a clínica se faça a partir das teorias do próprio partilhante.

Isto significa que o processo clínico terapêutico filosófico se dá tendo como base a historicidade da pessoa que procura pelos serviços do filósofo clínico. As teorias, em clínica filosófica, são dadas pelo partilhante. É claro que há instrumentais terapêuticos, como os fundamentos, metodologias e procedimentos filosóficos clínicos advindos de toda história da filosofia, mas, em primeiro plano há o respeito pela história de vida da pessoa.

A partir disto, é possível afirmar que dentre os trinta tópicos que compõem a EP, alguns podem não aparecer na historicidade do partilhante. O que isto significa? Alguns partilhantes podem não ter dados históricos que preencham o Tópico 4 (Emoções), por exemplo.

Não é obrigatoriedade, ao filósofo clínico, preencher todos os tópicos ao escutar e partilhar a historicidade da pessoa. Existem pessoas, por exemplo, que a sexualidade, a afetividade, a paixão, o amor, a raiva, o ódio, a esperança não são importantes e determinantes em sua estrutura.

Isto significa que essa pessoa não deverá ser representada como “anormal”, ou “incapaz”, ou “diferente”, ou “doente”, ou “louca”. Qual é o problema? A princípio, em Filosofia Clínica, nenhum. Caso haja choques pode ser que no decorrer do processo terapêutico, possivelmente, poderão ser desfeitos na EP, através do relato da história pelo partilhante, e/ou a aplicação de Submodos Informais e Formais. A partir daí, talvez, o Tópico 4 (Emoções) apareça podendo até mesmo ser determinante na estrutura do partilhante.

Será necessário esclarecer três termos próprios em Filosofia Clínica: Submodos, Submodos Informais e Submodos Formais. Os submodos são formas que o partilhante vivencia os dados que estão em sua EP, isto é, são as maneiras como o partilhante expressa os seus comportamentos que são provenientes das informações que preenchem os tópicos em sua estrutura.

São trinta e dois submodos que devem ser combinados, pelo filósofo clínico, às cinco categorias (Assunto Imediato/Último, Circunstância, Lugar, Relação e Tempo) e aos tópicos da EP. Essa relação entre Categorias, Tópicos e Submodos caracteriza a individualidade do partilhante. Devido à plasticidade e flexibilidade da EP, é importante entender que há possibilidade de abertura de novas inclusões tanto de outros tópicos como de outros submodos, desde que estejam em conformidade com a historicidade do partilhante.

O partilhante utiliza, habitualmente, submodos informais em seu cotidiano para superar choques e conflitos, porém, nem sempre ele tem consciência do uso e da nomenclatura do termo. O outro tipo de submodo é o formal quando aplicado pelo filósofo clínico tendo como base o instrumental da Filosofia Clínica, mediante o Exame Categorial, a montagem da EP com suas Divisões e Enraizamentos e Autogenia, ou seja, exige do terapeuta certa intervenção clínica.

Como foi pontuado, as variações tópicas vão ao infinito devido à riqueza estrutural histórica de cada pessoa. Mesmo considerando alguns tópicos, por exemplo, quatro dentre os trinta tópicos, ainda assim não existiria um partilhante igual ao outro, daí mais uma vez a pregação da afirmação referente à singularidade humana. Uma das coisas que mais encanta a maioria das pessoas e terapeutas é a plasticidade existencial de cada estrutura.

domingo, 13 de março de 2011

Fragmentos filosóficos delirantes XXIX*


"Já o ser inquieto não
está em nenhum lugar
porque a inquietação já
é uma forma de não
estar nunca estaR

que se dirá então
do ninguém que mora
em mim por não ter não
onde morar
na terra no ar no maR"


"Não amo o espaço que o meu corpo ocupa
Num jardim público, num estribo de bonde.
Mas o espaço que mora em mim, luz interior.
Um espaço que é meu como uma flor

Que me nasceu por dentro, entre paredes.
Nutrido à custa de secretas sedes.
Que é a forma? Não o simples adorno.
Não o corpo habitando o espaço, mas o espaço"


"Dou-lhe tudo do que como,
e ela me exige o último gomo.

Dou-lhe a roupa com que me visto
e ela me interroga: só isto?

Se ela se fere num espinho,
O meu sangue é que é o seu vinho.

Se ela tem sede eu é que choro,
no deserto, para lhe dar água:

E ela mata a sua sede,
já no copo de minha mágoa

Dou-lhe o meu canto louco; faço
um pouco mais do que ser louco.

E ela me exige bis, "ao palco"!"


*Cassiano Ricardo

sábado, 12 de março de 2011

Fragmentos filosóficos delirantes XXVIII*


"Quer ganhe ou perca, sou verdade e minto.
Se pergunto, a resposta é dos assombros.
No sol a pino finjo a madrugada."

"Não tenho mais canções de amor.
Joguei tudo pela janela.
Em companhia da linguagem
fiquei, e o mundo se elucida."

"Posso agora comunicar-me
e sei que o mundo é muito grande.
Pela mão, levam-me as palavras
a geografias absolutas."

"Sou um homem que perdeu tudo
mas criou a realidade,
fogueira de imagens, depósito
de coisas que jamais explodem."

"Ó mistério do mundo, nenhum cadeado fecha o
portão da noite.
Foi em vão que ao anoitecer pensei em dormir
sozinho
protegido pelo arame farpado que cerca as minhas
terras
e pelos meus cães que sonham de olhos abertos.
À noite, uma simples aragem destrói os muros dos
homens.
Embora o meu portão vá amanhecer fechado
sei que alguém o abriu, no silêncio da noite,
e assistiu no escuro ao meu sono inquieto."

*Lêdo Ivo

sexta-feira, 11 de março de 2011

Ilhas de risco


Luana Tavares
Filósofa Clínica
Niterói/RJ



Desde que nascemos, ou melhor, antes mesmo de sermos concebidos, quando bilhões de metades percorrem longos e vagos impulsos para cumprir metas que sequer têm consciência, perdendo-se e chocando-se contra o desconhecido e contra si mesmos, parece que temos impressa uma característica de risco, de um ‘não sei o que pode acontecer’, tal como um caminhar no vazio, por entre penumbras e sensações desavisadas, sempre expostos ao inusitado ato de sobreviver.

O exercício da vida pode ser traduzido como uma constante respiração suspensa, onde desafios nos remetem a desbravar trilhas sinuosas e realizar escolhas, como se os desdobramentos existenciais futuros dependessem da nossa capacidade intrinsecamente humana de resistir e se sobrepujar aos acontecimentos e devires a que estamos constantemente nos expondo.

Estranho é supor que há risco em qualquer momento, talvez a todo instante, e não importa a que representação de mundo nos remetemos, o fato é que não há como ficarmos imunes a esse estranho controle que nos escapa, sobre o qual na realidade não temos controle algum. Somos como ilhas desgarradas, à mercê de um complexo sistema de mundo do qual somos parte e ao qual estamos sujeitos.

Contribuímos com a pura existência, com o simples ato de existir, para que o todo seja o que é, pois certamente não seria completo se não fizéssemos parte desse movimento que, ao mesmo tempo em que nos conduz ao risco, nos torna inerente a ele.

E assim estamos permanentemente vulneráveis e constantemente impelidos ao caminhar, ao fluxo contínuo, constante, do tempo e do espaço que nos remete a vivências onde nossa matéria se exprime, incapazes de resistir.

Nossa condição humana nos incita a experimentar visões de mundo que se modificam com a velocidade da nossa percepção ou da condição cultural ou existencial. Experimentamos igualmente emoções e infindáveis pré-juízos, que possuem muitas vezes o poder de nos reduzir a meros observadores ou reprodutores de comportamentos preconcebidos, que por sua vez geram novos comportamentos, muitos já envelhecidos.

Mas para muitos é nesse instante, o do olhar ou da inconcebível magnitude da consciência de vida, do estar vivo, de ter representação e legitimidade no espaço e tempo em que estamos inseridos, neste instante ímpar, é que se tem a chance do entendimento da extensão da nossa significância e consequente exercício de um papel existencial profundo, que confere diferença e nos salva do risco constante.

Perpetuar o espanto gerado pela percepção da consciência de si mesmo e pelos desdobramentos desse assombro pode nos permitir a redenção dessa condição quase fatídica de cooperação com esse risco inevitável, ainda que a condição humana da mortalidade continue a nos conferir força e fragilidade através da nossa fugaz realidade, aquela que chamamos de existência.

Somos ilhas e somos universos, desafiando nossa própria dimensão, refletindo sobre ir além, assim como sobre flores e canções, ao mesmo tempo em que nos rendemos às intempéries que o capricho da natureza nos oferece a cada manhã.

quinta-feira, 10 de março de 2011

A Pior das Rivais

Jussara Haddad
Filósofa Clínica
Rio de Janeiro/RJ


É muito frequente a queixa das mulheres sobre o interesse do seu amado por aquela que rouba todas as cenas e os melhores momentos. Que anula aquela escapadinha de domingo à tarde naquela horinha em que as crianças saíram para brincar. Que afasta do casal aqueles instantes da noite, depois do jantar e bem antes do sono incontrolável que reflete o cansaço do trabalho diário, aqueles momentos gostosos, de brincadeiras e caricias que sustentariam a vida de quem quer viver junto, casado, compartilhando.

Aquela que é iluminada, animada e fascinante nas suas cores e sons. Aquela que seduz e conquista a grande maioria dos homens que, materialistas acima de tudo, se encantam com suas propostas indecentes de aquisição de bens de consumo de qualquer natureza.

Aquela que petrifica, hipnotiza e leva ao total estado de alienação. Que produz o prazer do riso e possibilita a libertação da ira e traz com facilidade inigualável o derramar de lágrimas contidas em um cotidiano nunca conversado, impossibilitado em decorrência do envolvimento com esta rival que propõe com suas cenas e imagens provocantes um afastamento sem igual da pessoa que se ama.

Aquela que agride quando ao se levantar de manhã, a mulher fica sabendo que se deitou sozinha, porque seu marido ficou ali, até bem tarde, fazendo amor com a rival, de frente a ela, que na verdade é quadrada e plana em suas formas, gelada em suas sensações e imperativa em suas colocações, em um processo de solidão compartilhada que não precisaria existir.

Não se vence com facilidade uma rival dessa natureza. Em muitas casas ela se deita junto com o casal, permanece no quarto deles, e a mulher engole a seco a sua presença e a postergação das caricias e do amor que, às vezes, chega bem mais tarde em forma de obrigação no contexto daquela rotina.

Ela obscurece qualquer visão que ele possa ter da beleza de sua amada. Não o deixa perceber um corte de cabelo, uma lingerie mais ousada ou mesmo se ela passa pelada. Aniquila qualquer tentativa de entrosamento se no momento ele estiver ali, compenetrado. Adia qualquer possibilidade de crescimento e fortalecimento da relação dos dois no tocante a intimidade, tolhendo qualquer manifestação de romantismo ou de sensualidade.

Ela gosta de futebol, de filmes de ação, de guerra e de terror. Ela partilha documentários sobre os animais e sobre o mercado financeiro. Acompanha com ele todas as noticias deprimentes e violentas, preferencialmente, e em detrimento a uma vida plena de amor, de alegrias e de prazeres. Ela é sórdida e ardilosa. Seduz os filhos do casal, a empregada, os vizinhos, os amigos e parentes que chegam. Monopoliza a atenção de todos.

No ambiente onde ela se instala não se ouve música, não se dança, não se brinca, não se conversa, não se pondera, não se vê nada ao redor dela, não se descobre nada de novo. A vida a dois segue entorpecida e obscurecida por uma imposição estabelecida num simples apertar de um botão. Um silêncio criminoso entre homem e mulher nasce e prospera enquanto a rival fala a revelia sobre qualquer assunto, sobre qualquer questão.

Esta é uma rival sem precedentes e sem comparação. Pra quem ainda não adivinhou, trata-se da _______________ da televisão.

Proponho uma brincadeira: Completem com o adjetivo adequado o espaço em branco e me enviem, ajudando-me assim a classificá-la de forma justa e evitando ofender alguém.

Liguem seus aparelhos no canal amor, por favor.

quarta-feira, 9 de março de 2011

A lógica dos casos perdidos*


“Sabendo que não há causas vitoriosas, gosto das causas perdidas: elas exigem uma alma inteira, tanto na derrota quanto nas vitórias passageiras.”

Albert Camus



É incrível tentar descrever os atendimentos de casos perdidos. Àqueles bem depois da sentença diagnóstica do médico ou da interdição jurídica. Um mundo de recursos pessoais desmerecidos a se encontrar na subjetividade confusa. Algo permanece invisível nas entrevistas da razão.

Uma geografia insinuante e sedutora costuma cegar a pessoa na relação consigo mesma, sob as mais variadas justificativas. Nesses casos é comum a cumplicidade para sustentar suas rotas de colisão.

A atração das axiologias, imperceptíveis quando desejam ofuscar epistemologias, por exemplo, é capaz de desconstruir os raciocínios mais bem postados. Elaborar armadilhas e sustentar paixões dominantes podem se esboçar nalguma forma de dependência, na relação do personagem com os princípios de verdade, recém inventados na teia de sua imaginação. Enquanto o vínculo interno é de prazer e auto-realização, os desdobramentos externos indicam caos e derrocada.

Estranha lógica a oferecer atrativos sedutores à pessoa ao desabrigo de si mesma. Assim flerta, seduz e atrai irresistivelmente suas vítimas, ainda quando elas dizem ter o controle da situação. Nesses casos o lugar que se oferece é o conforto existencial no fundo do poço. Um endereço atraente, se vinculado a cegueira tóxica a contaminar a estrutura subjetiva refém de suas certezas.

Essa ótica dos casos perdidos faz referência ao transbordar pessoal na direção do equívoco, do engano, do auto-extermínio, ainda que sob as mais distintas máscaras existenciais.

A pessoa assim estruturada, ao produzir escândalos, para, na seqüência surgir como salvador da pátria, deixa entrever, ao olhar mais apurado, sua real motivação: chafurdar na miséria para se alimentar. Como um colecionador de adversidades, seu centro de gravidade é um misto de armadilha conceitual e paixão dominante, enredado nas idéias complexas de uma vida desiludida.

Sua estrutura de realismo fantástico costuma ser a ante-sala das crises. O refúgio, nalgum festejo meteórico, desdobra velhos conhecidos na miragem de ser algo mais. Essa penúria exótica e fugidia aprecia surgir satisfeita consigo mesma, ainda quando sugere outras coisas.

Refém do olhar de compaixão admirada dos outros, sua atitude de aparente sofrimento, faz referência aos labirintos do acaso, num complexo manipulador difícil de vislumbrar a olho-nu. Seu recordar sobre o acolhimento da lama, ainda quando refere o contrário, atualiza agendamentos ao fracasso.

Assim os jogos de linguagem elaboram monólogos para justificar as conquistas da decadência. Os personagens, até então imaginários, ganham uma vida que se parece, cada vez mais, com a tapeação do seu autor. Uma espécie de protagonista em enredos de final infeliz.

Num mundo assim estruturado, vencer significa perder, os álibis de causa própria sustentam a sedutora decadência. Sua influência, mesmo em instantes de alegria, se faz lembrar, ao destacar alguma censura em viés de renúncia.

Os padrões de extravio se instituem como uma droga irresistível. Uma singular acrobacia existencial costuma alimentar a lógica dos casos perdidos. Parece focar sua vida em busca de autodestruição. Um ponto de apoio onde o sujeito alastra abismos.

Viciado nas penas auto-impostas mantém distante aquilo que poderia desconstruí-las. Em uma vida ao sabor dos ventos contrários sua expressividade aprecia deixar sinais, um pouco antes de se desrealizar.

A tendência excessiva ao recolhimento interior, sentimento de autocomiseração ou a preferência ao desalento, apreciam a companhia irresistível das drogas, a festejar a iminência da sarjeta.

Quando refere amanhãs é como pressentimento de errância, perdição ou abandono, como uma conversação enredada em si mesma. Assim a estrutura retórica das causas perdidas possui aliados sofisticados: um pessimismo camuflado, a sensação de beco sem saída e a realização nas desilusões cotidianas. À esse contexto, é inacreditável perceber que a sensação de desmoronamento existencial faz bem.

Nesse ponto de vista, os assuntos últimos aparecem travestidos de justificação, fundamento ou vocação. A coerência notável de seu discurso atua como jogo de cena, onde as coincidências se encontram como se fossem itens do acaso. As críticas, aconselhamentos ou súplicas, servem para acentuar a integração entre paixões e armadilhas.

O olhar de nojo ou desmerecimento só faz alimentá-los, no sentido de que se abastecem das distorções ao seu redor. Essa lógica da antítese faz referência à singularidade desconhecida em cada um.

Num mundo assim estruturado as cogitações padecem em um escasso limiar, ainda assim, sua epistemologia se multiplica na contradição com aquilo que tenta excluí-la. O Quixote amordaçado se realiza nas conjecturas de lógica insensata.

Uma mescla de verdades parece rascunhar algo por vir, no entanto, essa pequena brecha não chega a transpor as frágeis suposições. A pessoa congela o que poderia ter sido com o prazer das promessas não cumpridas. Espécie de embriaguez cotidiana para efetivar profecias.

*Hélio Strassburger
Filósofo Clínico

terça-feira, 8 de março de 2011

Neurônios pensam?
O que acontece na relação entre os neurônios na visão da Filosofia Clínica

Lúcio Packter
Pensador da Filosofia Clínica


O que acontece nas relações entre neurônios, no modo como cada um interage com outro e com muitos outros? Podemos imaginar que se associam, que lutam por espaço e energia, que formam grupos que travarão animosidades, ambivalências, lutas com outros grupos? Há neurônios que armam competições, renúncias, que atacam e exterminam neurônios isolados?

Uma resposta plausível a partir da Filosofia Clínica é que sim, isso também acontece. Mas muito provavelmente esta é uma parte entre os eventos, não a principal.
Caso a investigação se aprofunde, temos alguns elementos surpreendentes que chamam e instigam a atenção.

O que podemos conjecturar a respeito de neurônios que aparentemente promovem o suicídio?

Ou de grupos de neurônios que promovem a associação pacífica entre redes neuronais? Haveria talvez uma política democrata de relações neuronais?

Uma opinião sobre o assunto, e a coloco a partir de questões ligadas à Filosofia Clínica, pode trazer aspectos curiosos para esta conversação. Particularmente, penso que em breve chegaremos a algumas considerações vertiginosas, se atendermos somente à linguagem corrente sobre o tema; há órgãos, tecidos, ossos, células que podem mudar comportamento e função conforme as experiências em andamento. Podem alterar a política existencial e o modo de ser no mundo e, neste caso, no corpo humano também.

Em grandes partes da Ciência, o que ocorre no corpo segue um padrão pragmático, faz o estudo parecer a procura de leis, regras que muitas vezes somente existem porque o pesquisador tenta fazer que existam.

É por isso que neurônios não podem ter vida estética, vegetativa, não podem estar de graça nos entroncamentos do organismo. Muitos pesquisadores do assunto precisam que os neurônios se associem, que trabalhem, que compitam, que sejam determinados em seus exércitos.

Não é cientificamente provável que neurônios possam ser às vezes incompreensíveis, que tenham comportamento anômalo para os caminhos neuronais, que vivam sem um programa que lhes sirva de roteiro. Afinal, são neurônios desde que começamos a estudá-los; não fica cientificamente bem descobrirmos ou inventarmos agora que são outra coisa. Não fica bem nem mesmo para eles.

Em Filosofia Clínica, estudamos a historicidade de cada pessoa que atendemos. Algumas historicidades trazem intrigantes variáveis na relação do corpo com ele mesmo, do corpo com outros aspectos tidos como não somáticos, e há substanciais e interessantes amálgamas de pontos que não são corpo, não são mente, não são mais a combinação e deles, às vezes, apenas podemos acusar a presença.

Isso, em diversos casos, é muito. E é dentro desta perspectiva que apontar um comportamento, uma política existencial, um modo de ser para um neurônio, para uma rede de neurônios, é algo dilemático e exigente nos critérios de pesquisa, pois provavelmente as pesquisas apontarão para a presença de neurônios neuróticos (usando o jargão usual); de neurônios que não são neurônios, com comportamento de órgãos; de neurônios mesclados, etc.

Sabemos algumas coisas, a partir de como pesquisamos, sobre o que fazem, onde estão, como vivem os neurônios. Esse saber é um depoimento sobre nossas pesquisas, sobre nossa época, sobre o modo como compreendemos. Os neurônios se tornaram o que são como parte dos nossos pareceres e desejos sobre eles. Será que realmente serão somente assim?

segunda-feira, 7 de março de 2011

Diário de um retorno*

"Eu sou como eu sou
pronome
pessoal intransferível
do homem que iniciei
na medida do possível."
Torquato Neto


Diante de circunstâncias desfavoráveis à busca pré-estabelecida, a expressividade pode se ocultar esperando o momento oportuno para seu regresso.

Aguardando esse instante encontram-se homens e mulheres escondidos em si mesmos, construindo uma historicidade de aparência. O brilho existencial, inerente daqueles que transmitem o bem estar de suas vivências, se confunde com reflexos internos tentando disfarçar suas faces cansadas e sem esperança.

Alguns, de tão afastados de sua originalidade, perderam-se pelo caminho, e as possibilidades de volta não são mais consideradas. Outros, sustentados por suas buscas e valores, seguem confiantes nas possibilidades oriundas da dialética existencial.

Esses desacordos são singulares. Cada história de vida apresentará seu roteiro.
Nas convivências autoritárias é comum se encontrar indivíduos vivendo esse distanciamento. Os motivos variam: podem ter sido obrigados a realizar o que o outro não conseguiu, ou precisaram dar continuidade a um projeto existente: uma carreira profissional, por exemplo.

Essa situação costuma chegar ao consultório sob a queixa inicial de insatisfação. Realizar a vontade de alguém pode gerar êxito profissional, status, um bom patrimônio, no entanto tais coisas não são suficientes.

Para um mundo materialista parece contraditório essa lamúria, no entanto, para alguns, esse tipo de conquista significa o afastamento de seu ser. A realidade vivida se encontrava distante de suas pretensões.

Os sonhos interrompidos ao longo de uma história podem favorecer a utilização de simulacros. As facetas vão surgindo de acordo com as necessidades.

A alternância desses papéis existenciais determina a intensidade dessas aparências. Enquanto ser mãe é um papel leve e sincero, ser filha nem tanto, exigindo um esforço maior para convencer.

A forma como cada um se estrutura costuma ser determinante em algumas situações. Se para uma pessoa casada for importante sua presença na criação dos filhos, mesmo que o amor pelo seu cônjuge tiver chegado ao fim, provavelmente ela continuará nessa relação.

Viverá ilhada sob as próprias máscaras para suportar os inconvenientes de sua circunstância. Meias verdades poderão ser oferecidas na tentativa de ser fiel ao projeto inicial. O fim dessa simulação, em certos casos, tem dia e hora para terminar: a demissão do trabalho, morte ou nascimento de alguém, fim de um relacionamento, novas interseções.

Essas sensações de aprisionamento também podem ser re-significadas com a descoberta de fissuras na estrutura envolvida.Quando próximas da essência singular algumas vivências ou lugares, funcionam como janelas oferecendo momentos de alívio.

Uma viagem pode ser significativa. O distanciamento do lugar comum das convivências pode proporcionar momentos de bem estar a quem andava afastado de si mesmo. A ausência de determinados sujeitos pode mudar a energia da interseção. Torná-lo mais sereno sendo visto pelo olhar de fora como outra pessoa.

São instantes de participação verdadeira. Ensaios de si mesmo a vislumbrar possíveis autogenias. Encontrando sua rota, os movimentos existenciais são quase inevitáveis.

Deixando para traz uma vizinhança contrária a sua subjetividade, aproxima-se de algo aparentemente inédito. As percepções a sinalizar o início da construção de uma nova vida são, na verdade, o retorno a si mesmo.

*Ana Cristina da Conceição
Filósofa Clínica
Porto Alegre/RS

domingo, 6 de março de 2011

Fragmentos filosóficos delirantes XXVII*

"Sempre subindo a ladeira do nada,
Topar em pedras que nada revelam.
Levar às costas o fardo do ser
E ter certeza que não vai ser pago.

Sentir prazeres, dores, sentir medo,
Nada entender, querer saber tudo.
Cantar com voz bonita prá cachorro,
Não ver "PERIGO" e afundar no caos.

Fumar, beber, amar, dormir sem sono,
Observar as horas impiedosas
Que passam carregando um bom pedaço
da vida, sem dar satisfações.

Amar o amargo e sonhar com doçuras
Saber que retornar não é possível
Sentir que um dia vai sentir saudades
Da ladeira, do fardo, das pedradas.

Por fim, de um só salto,
Transpor de vez o paredão."


"Escute, meu chapa: um poeta não se faz com versos. É o risco, é estar sempre a perigo sem medo, é inventar o perigo e estar sempre recriando dificuldades pelo menos maiores, é destruir a linguagem e explodir com ela (…). Quem não se arrisca não pode berrar."

*Torquato Neto
1944-1972

sábado, 5 de março de 2011

Fragmentos filosóficos delirantes XXVI*


"Ninguém é igual a ninguém. Todo ser humano é um estranho ímpar."

"Amor é bicho instruído
Olha: o amor pulou o muro
o amor subiu na árvore
em tempo de se estrepar.
Pronto, o amor se estrepou.
Daqui estou vendo o sangue
que escorre do corpo andrógino.
Essa ferida, meu bem
às vezes não sara nunca
às vezes sara amanhã."

"Cuidado por onde andas, que é sobre os meus sonhos que caminhas."

"O problema não é inventar.
É ser inventado hora após hora
E nunca ficar pronta
Nossa edição convincente."

"A loucura é diagnosticada pelos sãos, que não se submetem a diagnóstico. Há um limite em que a razão deixa de ser razão, e a loucura ainda é razoável. Somos lúcidos na medida em que perdemos a riqueza da imaginação."

"Já não quero dicionários
consultados em vão.
Quero só a palavra
que nunca estará neles
nem se pode inventar.
Que resumiria o mundo
e o substituiria."

"Queria falar dos sonhos
Dizer os meus secretos desejos
Que é largar tudo
Para viver com você
Este inconfesso desejo."

*Carlos Drummond de Andrade

sexta-feira, 4 de março de 2011

A vida não tem Control Z

Sandra Veroneze
Filósofa Clínica
Porto Alegre/RS


Nos programas de computador existe um comando chamado ‘desfazer’. Ele pode ser acionado pressionando-se a tecla Control, seguida da letra Z. Trata-se de um importante recurso para quando cometemos pequenos erros, digitando textos ou preenchendo planilhas, por exemplo. É como pisar numa poça de lama e tirar o pé, sem nos sujarmos.

A vida não tem Control Z. Adequado, ou não, o que está feito está feito. Por mais que às vezes possamos desejar, é impossível voltar no tempo para mudarmos a rota. No máximo nos é dado tentar um conserto, mas nem sempre a emenda resolve (às vezes até piora!).

Por ignorância, descuido, ou impulso, quantas vezes agimos de forma equivocada, sem pensar, sem medir pós e contras, e logo em seguida nos arrependemos? Pequenos deslizes resultam em brigas, preocupações, desentendimentos que poderiam ser evitados, caso fosse viável um Control Z na realidade!

Claro que um mundo sem dor e sofrimento é um sonho, um objetivo louvável. Mas os fins nem sempre justificam os meios. E os meios, utilizando-se o botão Control Z na vida, seria o método da tentativa e erro. Ninguém mais precisaria medir suas palavras e ações, nem ser responsável por seus atos, já que qualquer deslize poderia ser desfeito. Deixaríamos de fazer dos nossos dias uma experiência única de aprendizado, trabalhando mental e espiritualmente para a auto-superação.

Os antigos já diziam que a dor é um importante veículo de consciência. Ou seja, através dela crescemos, nos tornamos mais fortes, mais criativos! Por outro lado, os antigos também diziam que se formos atentos ao mundo que nos cerca, e aos nossos desejos mais íntimos, podemos crescer sem necessidade de dor. Algo como enxergar a poça de lama e desviar dela antes do passo fatídico.

Agir com consciência é melhor do que dispor da opção Control Z, muito embora, metaforicamente, a realidade disponha de um outro recurso do mundo dos computadores: a opção reset. Quando o computador tranca, a gente ‘reseta’ a máquina, ou seja, desliga e começa tudo de novo. Mesmo que o passado nos condene, podemos começar vida nova a qualquer momento.

quinta-feira, 3 de março de 2011

Renascimento

Beto Colombo
Filósofo Clínico
Criciúma/SC


Pablo Neruda, poeta chileno, diz que morre lentamente quem não lê, quem não viaja, quem não houve música, quem não acha graça em si mesmo, quem destrói seu amor próprio, quem não se deixa ajudar... Se você está lendo este artigo, logo você gosta de ler. Meu singelo pedido é que você leia para alguém que não tenha o hábito da leitura, aí então você provavelmente estará ajudando o despertar e colocando em prática o dizer de Pablo Neruda. “Morre lentamente quem não lê, quem não se deixa ajudar...”

O mestre Jesus Cristo diz que “a semente tem que cair na terra, morrer para depois renascer”. Ele estava falando dele mesmo, da sua paixão, de sua morte e, acredito, do nascimento do Cristianismo.

Algumas pessoas são como mortos vivos, apenas respiram, comem e caminham, mas não sabem eles que “estão mortos”. Não sentem mais o gosto da comida, da bebida, não gostam do canto dos pássaros, não percebem a beleza das flores, não sentem o perfume da rosa, da orquídea. A lua, as estrelas, o sol, a noite, o dia, o inverno, o verão não são mais percebidos. Atravessam uma praça de flores e borboletas e não percebem, estão apressados. Apressados para quê?

No que nos transformamos? Estamos morrendo lentamente, como sapos fervidos.

Você gosta de você? Você gosta do que se transformou? Foi isso que sonhou para você? Quem escreveu o roteiro que você está vivendo? Foi sua esposa? Seu pai? Sua mãe? Seu marido? Sua professora? Seu professor? Para algumas pessoas não tem nada de errado nisso, mas se não é o seu caso, lembre-se: quebrar o roteiro não é quebrar a vida. O que precisamos matar em nós para nascer outra pessoa?

E como diz Pablo Neruda: “morre lentamente quem não se deixa ajudar”. É humanamente impossível saber, conhecer tudo, e às vezes nossa arrogância, nosso orgulho, nos impede de buscar ajuda para sair da armadilha social que caímos. Quando tenho problemas com minhas pernas ou joelhos vou ao ortopedista. Se tenho problemas cardíacos, vou num cardiologista e para doenças da alma também tem especialistas.

Lembre-se que não há planta sem a morte da semente, não há borboleta sem a morte da lagarta, o embrião sem o fim do óvulo e do esperma como unidades. A pessoa que você sonhou é esta que você conhece quando está em solitude?

Você não gostou no que se transformou? Não? E o que pretende fazer a respeito?

Lembre-se: Isso é assim para mim.

quarta-feira, 2 de março de 2011

Nas entrelinhas

Rosângela Rossi
Psicoterapeuta e Filósofa Clínica
Juiz de Fora/MG


Um suspiro, nas entre linhas do meu texto.
Olhar vagando a espera da nova idéia.
Entre o consciente e inconsciente,
Eu e minha obra.
Em suspenso o delírio alucinado do porvir.
Talvez um café ou Coca Cola para me despertar.
Segundos a olhar a tecla do laptop.
Tempo fugit no carp diem.
Nem para frente,nem para atrás.
Intervalo da alma a conspirar.
Nem o coração bate igual.
É o mistério querendo se revelar,
Ou desvelar nas tramas invisíveis do meu cordel.
Ponto ou vírgula. Espaço que pode ser um nada.
Relógio parado, luz desligada.
Nas entre linhas um universo pulsante a esperar.

terça-feira, 1 de março de 2011

O orgasmo é meu. E daí?

Jussara Haddad
Filósofa Clínica
Rio de Janeiro/RJ


Para mim e para vários outros especialistas, a qualidade de um orgasmo está diretamente ligada à vontade que cada um tem de senti-lo. É óbvio que fatores externos, como um parceiro inábil pode influenciar na qualidade do prazer, contudo se você estiver a fim mesmo, ninguém te segura. Você diz: pega ali, aperta aqui, não para não e se a pessoa for atenciosa, acaba tudo bem. E esta regra costuma se aplicar bem mais às mulheres que aos homens.

Muitas mulheres entendem o orgasmo ou a forma como ele acontece como um alvo inatingível ou inerente a milhares de condições, tendo, entre elas, a pouca habilidade do parceiro em fazer com que elas cheguem lá. Vibrador com pilha fraca também dificulta o trabalho, mas o orgasmo é seu e só quem pode fazer acontecer de verdade, é você.

O fato é que, hoje em dia, o orgasmo virou uma obrigação moral. Ou imoral, melhor dizendo, que visa atender aos conceitos sem sentido que rondam o mundo do sexo.

Estamos obrigados a transar e obrigados a gozar. A modernidade, toda a sua liberação — bem como a juventude, estendida à meia e à terceira idade — e todo o direito ao prazer que o ser humano de repente se viu merecedor vem ditando que se não transamos e se não gozamos, estamos perdendo tempo na vida e o melhor do que ela teria para nos oferecer.

O orgasmo em si demanda maturidade para ser entendido e sentido. Demanda compreensão e sabedoria para não ser cobrado antes de ser apreciado, porque toda cobrança que o envolve tem muito mais a ver com exercício de poder do que com intenção sincera de ver o outro feliz. Demanda autoconhecimento e capacidade de senti-lo independente da ação do parceiro. Demanda verdade e absoluta sinceridade entre os dois. Demanda tranquilidade, satisfação e envolvimento de boa qualidade, somados a uma boa saúde física e mental. Demanda desprendimento dele próprio.

Isso tem a ver. Sinceramente acredito que a vida deva ser vivida em plenitude, mas o que deve reger a intensidade disso tudo é a escolha de cada um. Se você tem vontade de transar, de viver a sua sexualidade intensamente e nela encontrar todo o prazer e êxtase de que necessita para viver melhor: ótimo, vá em frente. E faça isso da melhor maneira possível e, de preferência, sem infringir nada nem ninguém. Se você é daqueles que prefere ficar mais quietinho, tudo certo também, mas a regra de não infringir o mundo do outro, continua valendo.

Em uma relação saudável e gozadora de um bom entendimento, o orgasmo físico pode até pertencer a um último plano, entretanto muitos outros tipos de orgasmos podem ser percebidos e satisfazer o casal de uma maneira indescritível. Todos os prazeres de um encontro sexual devem ser sentidos e valorizados, para que o seu ápice se torne inesquecível. Todo este caminho deve ser percorrido com muita atenção até para que este ápice seja possível.

As pessoas costumam desprezar todo o caminho que leva ao orgasmo e, focando somente nele, correm o risco de perder o melhor da festa, vendo o seu grand finale acontecer em milésimos de segundos sem graça e sem sentido. Curta o perfume, as cores, os sons, os sussurros, as texturas e todas as sensações possíveis. Não se atenha aos defeitos, aos trejeitos e a pensamentos infundados. Não se preocupe com forma física, com cicatrizes ou com que o outro possa estar pensando a seu respeito. Viva uma entrega sincera e, passo a passo, vá conquistando o seu direito de gozar do amor o que ele tem de melhor.

E se não gozar? Se não gozar, você viveu toda a beleza do caminho e terá história para contar e, em outra ocasião, já experiente da trilha por onde passou, poderá chegar ao fim com o triunfo de um vencedor.

Tenha calma, conheça-se, não se obrigue e não atenda a nada, a ninguém e a nenhum conceito, antes de ter absoluta certeza do que quer sentir, de como e com quem quer sentir, respeitando o seu tempo e a sua vontade. Esteja inteiro no momento que estiver amando alguém, tranque tudo o que não pertencer a este momento, do lado de fora do quarto.

Quem tá na chuva é pra se molhar.