segunda-feira, 14 de março de 2011

Emoções

Marcelo Osório Costa
Filósofo Clínico
Belo Horizonte/MG


Vamos supor que o partilhante relata que gosta muito de trabalhar, que a sua grande paixão é levantar de manhã e ir para o trabalho, conversar com as pessoas e atendê-las como merecem: com respeito e dignidade. O trabalho é mais prazeroso que minha própria família, diz esse partilhante.

A narrativa dessa pessoa diz respeito ao Tópico 4 (Emoções). O que podemos entender pelas Emoções? Lúcio Packter, idealizador da Filosofia Clínica, diz que “É o movimento em partes da Estrutura de Pensamento (EP) que a pessoa vivencia como um estado afetivo qualquer: prazer, dor, alegria, tristeza, amor, ódio, bem-estar, mal-estar, esperança, desejo, saudade, carinho, etc. Assim, engloba o sentimento”.

É possível entender que as emoções têm sua origem através de combinações tópicas. Vamos a um exemplo para elucidar melhor tal possibilidade. Pedro tem como Pré-Juízo (Tópico 5) que todas as mulheres são carinhosas, afetivas e que têm como busca um homem para se casar.

Pedro, além de preencher o Tópico 5 com tais dados, também tem o Tópico 2 (O que Acha de si Mesmo) preenchido com os seguintes dados: ele se considera um homem carinhoso, afetivo e quer se casar, e um homem que gosta de mulheres carinhosas, afetivas, e que ele busca este tipo de mulher para se casar. Pedro, portanto, em um belo dia encontra Maria em condições favoráveis a uma interseção positiva, resultando daí as Emoções.

Para compreender melhor alguns termos específicos em Filosofia Clínica como, por exemplo, pré-juízos e interseção, será necessário explicá-los sinteticamente. O primeiro diz respeito às verdades subjetivas que habitam o partilhante e que o acompanham em suas experiências existenciais. Note que Pedro tem como pré-juízo que todas as mulheres são carinhosas, afetivas e desejam se casar.

A interseção é o conjunto formado a partir de dois conjuntos, o qual é constituído de elementos comuns que existem nos dois conjuntos. Pedro e Maria têm histórias de vidas distintas um do outro, porém o que há de semelhante entre os dois, a princípio, é o carinho, a afetividade e a busca pelo casamento. A interseção não é um conjunto acabado e pronto podendo se desfazer e refazer. Diante disto, ela pode ser entendida como um processo, e não uma etapa conquistada e finalizada em uma relação.

As variações no tópico Emoções vão ao infinito, mas o que isto quer dizer? Como qualquer tópico, o Emoções pode estar em harmonia ou em choque com ele mesmo e, também, com outros tópicos da EP do partilhante. Neste sentido, poderão existir choques intertópicos e/ou intratópicos.

O primeiro diz respeito a choques entre tópicos diferentes como, por exemplo, o Emoções está em choque com o Pré-Juízos; já o segundo se refere a choques internos como, por exemplo, tópico Emoções estando em choque com o próprio tópico Emoções. É possível diagnosticar tais fatos, pelo filósofo clínico, após os Exames Categorias, a montagem da EP com suas Divisões e Enraizamentos, e a Autogenia.

Vamos supor que Pedro – tendo o Tópico 5 (Pré-Juízos) e o Tópico 2 (O que Acha de si Mesmo) preenchidos com os dados elencados acima – casa-se com Maria e a partir de um certo tempo, em seu casamento, ela se apresenta como uma pessoa em desacordo com seus pré-juízos: ela não é carinhosa, nem afetiva, e diz a ele que não era seu desejo se casar. Provavelmente, o Tópico 5 (Emoções) de Maria está em choque com o seu próprio modo existencial de ser e estar.

Pedro, no entanto, se apresenta com choque entre o Tópico 5 (Pré-Juízo) e Tópico 4 (Emoções) porque percebe que seu pré-juízo falhou, ou seja, nem todas as mulheres são carinhosas, afetivas e desejam se casar. Diante disto, Pedro começa a desgostar de Maria e sente uma tristeza profunda em seu peito, preenchendo, com novos dados, os Tópicos 4 (Emoções) e o 5 (Pré-Juízos).

Este próximo exemplo ilustrará choques intratópicos em relação a Emoções com possíveis choques intertópicos. Pedro relata que o amor que sentia por Maria está se transformando em ódio. Note que o tópico Emoções se encontra em choque consigo mesmo e não com outro tópico, ou seja, é um choque proveniente do Emoções com o próprio tópico Emoções.

Ele ainda relata que a partir deste sentimento por Maria está se vendo como uma pessoa mais cética no que se refere aos sentimentos das mulheres. Note que neste relato o Tópico 2 (O que Acha de si Mesmo) também foi alterado em relação aos dados preenchidos anteriormente neste tópico.

É relevante notar e compreender que a EP é plástica e flexível, ou seja, ela não é algo rígido e acabado, portanto, se transformando a todo instante devido às circunstâncias existenciais da história do partilhante.

Em Filosofia Clínica não há a pretensão de reduzir o ser humano às teorias filosóficas, psicológicas, psicanalíticas, psiquiátricas, médicas, etc. Por este motivo, nesta abordagem terapêutica existe a ausência de tipologias e patologias. Não é producente, ao filósofo clínico, acomodar o partilhante em tipos teóricos ou patologias, ao contrário, é ético, ao terapeuta, que a clínica se faça a partir das teorias do próprio partilhante.

Isto significa que o processo clínico terapêutico filosófico se dá tendo como base a historicidade da pessoa que procura pelos serviços do filósofo clínico. As teorias, em clínica filosófica, são dadas pelo partilhante. É claro que há instrumentais terapêuticos, como os fundamentos, metodologias e procedimentos filosóficos clínicos advindos de toda história da filosofia, mas, em primeiro plano há o respeito pela história de vida da pessoa.

A partir disto, é possível afirmar que dentre os trinta tópicos que compõem a EP, alguns podem não aparecer na historicidade do partilhante. O que isto significa? Alguns partilhantes podem não ter dados históricos que preencham o Tópico 4 (Emoções), por exemplo.

Não é obrigatoriedade, ao filósofo clínico, preencher todos os tópicos ao escutar e partilhar a historicidade da pessoa. Existem pessoas, por exemplo, que a sexualidade, a afetividade, a paixão, o amor, a raiva, o ódio, a esperança não são importantes e determinantes em sua estrutura.

Isto significa que essa pessoa não deverá ser representada como “anormal”, ou “incapaz”, ou “diferente”, ou “doente”, ou “louca”. Qual é o problema? A princípio, em Filosofia Clínica, nenhum. Caso haja choques pode ser que no decorrer do processo terapêutico, possivelmente, poderão ser desfeitos na EP, através do relato da história pelo partilhante, e/ou a aplicação de Submodos Informais e Formais. A partir daí, talvez, o Tópico 4 (Emoções) apareça podendo até mesmo ser determinante na estrutura do partilhante.

Será necessário esclarecer três termos próprios em Filosofia Clínica: Submodos, Submodos Informais e Submodos Formais. Os submodos são formas que o partilhante vivencia os dados que estão em sua EP, isto é, são as maneiras como o partilhante expressa os seus comportamentos que são provenientes das informações que preenchem os tópicos em sua estrutura.

São trinta e dois submodos que devem ser combinados, pelo filósofo clínico, às cinco categorias (Assunto Imediato/Último, Circunstância, Lugar, Relação e Tempo) e aos tópicos da EP. Essa relação entre Categorias, Tópicos e Submodos caracteriza a individualidade do partilhante. Devido à plasticidade e flexibilidade da EP, é importante entender que há possibilidade de abertura de novas inclusões tanto de outros tópicos como de outros submodos, desde que estejam em conformidade com a historicidade do partilhante.

O partilhante utiliza, habitualmente, submodos informais em seu cotidiano para superar choques e conflitos, porém, nem sempre ele tem consciência do uso e da nomenclatura do termo. O outro tipo de submodo é o formal quando aplicado pelo filósofo clínico tendo como base o instrumental da Filosofia Clínica, mediante o Exame Categorial, a montagem da EP com suas Divisões e Enraizamentos e Autogenia, ou seja, exige do terapeuta certa intervenção clínica.

Como foi pontuado, as variações tópicas vão ao infinito devido à riqueza estrutural histórica de cada pessoa. Mesmo considerando alguns tópicos, por exemplo, quatro dentre os trinta tópicos, ainda assim não existiria um partilhante igual ao outro, daí mais uma vez a pregação da afirmação referente à singularidade humana. Uma das coisas que mais encanta a maioria das pessoas e terapeutas é a plasticidade existencial de cada estrutura.

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