sábado, 30 de abril de 2011

Fragmentos filosóficos delirantes XLII*


"Quando nasci veio um anjo safado
O chato dum querubim
E decretou que eu tava predestinado
A ser errado assim
Já de saída a minha estrada entortou
Mas vou até o fim"

"Tem dias que a gente se sente
Como quem partiu ou morreu
A gente estancou de repente
Ou foi o mundo então que cresceu"

"Não sei se você ainda é a mesma
Ou se cortou os cabelos
Rasgou o que é meu
Se ainda tem saudades
E sofre como eu
Ou tudo já passou
Já tem um novo amor
Já me esquece"

"Corro atrás do tempo
Vim de não sei onde
Devagar é que não se vai longe
Eu semeio o vento
Na minha cidade
Vou pra rua e bebo a tempestade"

"Vejo a multidão fechando todos os meus caminhos, mas a realidade é que sou eu o incômodo no caminho da multidão"

*Chico Buarque de Holanda

sexta-feira, 29 de abril de 2011

A vertigem precursora*

“Um símbolo sempre ultrapassa aquele que o usa e o faz dizer na realidade mais do que tem consciência de expressar.”
Albert Camus


Em um mundo onde a versão aceitável é a capacidade de se ajustar, é possível perceber a semelhança entre robôs, plantas e homens. As práticas ideológicas para manutenção da normal-idade estão distribuídas na invisibilidade cotidiana. No ritual bem pensado dos estádios de futebol, escolas, igrejas, hospícios se controla a produção do saber para manutenção do mundo vegetal.

Mesmo assim algo mais se oferece num esboço fora da lei. Interseção por onde se procura uma saída dessa zona de conforto que sufoca. Esse lugar difuso oferece vertigens como porto de partida aos navegantes descobridores.

O desmaio, a sensação de exclusão ou a lágrima, buscam uma entrada de ar para a singularidade desperdiçada. Como versão desclassificada aos códigos reconhecidos, o pré-sujeito assim disposto, além de estar perdido diante das novas verdades, ainda tem de lidar com o temor ao seu redor. Ao buscar alento existencial na velha aldeia, descobre que é normal classificar, para deixar tudo como está.

É comum a essas desestruturas o recurso do auto-exílio. Um lugar indefinido entre ilusão e realidade, onde parece encontrar acolhida enquanto a tempestade passa. Uma retirada para o interior pode conceder tempo hábil para aprender a linguagem dessas margens desconhecidas.

A confusão precursora pode oscilar entre visões, escutas e a sensação de perda de controle. Esse tumulto transita por vários sentidos e pode anunciar derivações a matriz conhecida. Seu aspecto estranho se anuncia num dialeto irreconhecível, fazendo referências a fenômenos que parecem ter vida própria. Não é raro a pessoa sentir isso tudo como ameaça as suas representações.

Entre a aceitação e a recusa dessa fonte de originais, surge a solução psiquiátrica: sua drogaria promete calar as vozes ameaçadoras e restabelecer a ordem das coisas (seja isso o que for!).

Ao restituir artificialmente a lágrima conhecida e o sorriso, busca tratar a nascente caótica para não mais transbordar fora do leito. Eis a coisificação da revolta originária, a partir de então, reconhecida como um tipo de doença incurável.

A pessoa assim disposta, mesmo sem nitidez sobre quem é ou onde se encontra, ainda suspeita estar no centro de um universo. Sobrevive às noites para reencontrar os dias conturbados da sua mudança. Em família, no trabalho e os amigos não lhe reconhecem mais, o que lhe resta é esse agora esquisito cercado de desconfianças.

Os dons excessivos podem assustar e causar insegurança, as novas habilidades aparecem de um momento para outro, muitas vezes incompreensíveis a própria singularidade em transformação. É provável ser a reinvenção um processo solitário, apesar das ofertas de cura para a sua loucura.

Nada mais é como era, o agora veloz se multiplica em dialetos errantes. Os estilhaços do velho espelho mostram outras verdades, repartidas em óticas multifacetadas.

A expressão dessas alegorias intermediárias, além de irreconhecíveis a primeira vista, parece querer dizer algo mais sobre os desdobramentos da estrutura que se tinha para sempre. A estética desses instantes segue incompreendida, mesmo quando eficaz para as aproximações e ajustes com a nova realidade. Como um debate sobre um texto ilegível em uma língua estranha.

Monólogos assim dispostos sugerem uma conversação entre as margens do rio passando. Essas caricaturas ainda sem rosto são tentativas para apropriar territórios inéditos. Mesmo irreconhecíveis aos velhos hábitos, dispõe vislumbres entreabertos pela versão exaltada dos excessos.

A contradição com a indústria da farmácia pode restituir a palavra maldita ao seu autor. Transgredir a dúvida, a suspeita e o preconceito para libertar os reféns do seu olhar. Permitir uma alquimia expressiva ao devir delirante, acolhendo a vertigem e o caos transformador num ambiente seguro e de interseção cuidadora.

*Hélio Strassburger
Filósofo Clínico

quarta-feira, 27 de abril de 2011

Jardins internos

Sandra Veroneze
Filósofa Clínica
Porto Alegre/RS


Uma as imagens mais inspiradoras que guardo na memória, provavelmente fruto de alguma leitura, é de uma bela moça caminhando em seu jardim. O toque poético fica por conta do tempo e espaço. Estamos na Grécia Antiga. E o movimento é de todo especial: caminha firme, suavemente, com aquele magnetismo próprio de quem sabe quem é, de onde veio e pra onde vai.

Freud certamente explicaria. O fato é que esta imagem produz em mim efeito centrífugo. Por mais dispersos e fragmentados que estejam pensamentos e emoções, ao toque dela tudo pára, aquieta. Por uma fração de infinito, ousaria dizer, consigo ouvir aquilo que talvez possa ser chamado de a voz do silêncio.

A relevância desse delírio, devaneio, esforço imaginativo ou qualquer outro nome que se dê, só se justifica nos limites dos meus próprios jardins internos. E não é pouca coisa, se julgarmos que cada ser humano é único, um universo em si mesmo.

Quando me projeto em análises para esta imagem, gosto de pensar em duas coisas. A primeira delas é o simbolismo. Lançar a flecha no alvo, mesmo com toda a tecnologia de um equipamento olímpico, é muito mais saboroso conhecendo-se um pouco sobre a arte da guerra em seu sentido antigo e mais clássico.

A pergunta que fica é o que cada elemento da imagem pode representar e onde, nos confins da minha essência e personalidade, encontra calço para produzir tamanho efeito? Talvez um dia eu chegue a uma resposta satisfatória...

O outro aspecto, em termos práticos, muito importante, é a capacidade que tenho desenvolvido de visitar esse jardim, toda vez que o cotidiano me prova com prazos curtos, stress e outros desconfortos.

Eu sei que este jardim existe, e que para chegar nele existe um caminho, e sei que, quando pisar os pés naquela grama, não importa a intensidade, frequencia ou volume dos desafios, eu encontrarei terra firme, um ponto seguro no tempo e no espaço, onde poderei conectar com o que tenho de mais íntimo, profundo e verdadeiro em mim mesma, como se fosse uma usina de força, energia, coragem e ao mesmo tempo de tranquilidade e aconchego...

É uma bela teoria, ou simples viagem do pensamento. Importa é que, desde que a concebi, vivo melhor, com mais conforto subjetivo, como se estivesse aninhada no colo do universo. É nesse jardim que renovo minha vontade de ser e de estar, de sonhar, de experenciar esse conjunto plástico e mutável que me compõe. E o seu jardim interno, já descobriu como faz para chegar nele?

terça-feira, 26 de abril de 2011

Desvelando a Subjetividade

Miguel Angelo Caruzo
Filósofo Clínico
Juiz de Fora/MG


Quando nos deparamos com uma pessoa, criamos diversos juízos a seu respeito. E, em determinado momento, ou após longo tempo de convivência, costumamos dizer que a pessoa mostrou o que realmente era, que agora revelou sua identidade. No entanto, o foco deste texto não será as pessoas observadas, mas o observador.

Será que as pessoas escondem tanto o que elas são? Será que o mundo é regido por dissimulação e falsidade? Pode a sociedade ser tão corrompida que a melhor forma de sobreviver é corromper a imagem pessoal diante dela? Suspeito que não.

Às vezes somos nós, os observadores, que tendemos a olhar as pessoas com os nossos “pré-juízos”, nossas concepções e generalizações adquiridas ao longo da vida. Daí, no momento em que o reconhecimento atravessa a superficialidade, o véu é rasgado, e deixamos a visão inicial de lado.

Quando aprofundamos nosso conhecimento acerca da pessoa com a qual nos relacionamos, nos demos conta do que a Filosofia Clínica afirma tanto ao quebrar os paradigmas comumente aceitos em nossos “pré-juízos” de cunho generalista e universalizante.

Somos por vezes movidos a espelhar nossas limitações e carências em pessoas que não carecem das mesmas coisas que nós, daí nós a consideramos felizes. Por exemplo, quando somos carentes de bens materiais e isso tem importância capital em nossa vida, o primeiro movimento ao observar uma pessoa abastada, é considerá-la suprida; como se não faltasse nada para que sua felicidade fosse completa.

Mas, as limitações das pessoas superam a nossa visão subjetiva do mundo. Diversos são os motivos que levam as pessoas a se queixarem. As dores e angústias existenciais superam nossa ilha de concepções e possibilidades. O universo do outro é tão complexo quanto o universo que os cientistas buscam conhecer.

Além das crises reconhecidas e vivenciadas, há também as não explícitas. Pessoas que negam vivenciar problemas ou conflitos, mas quando estão em determinadas situações, expressam de modo até bruto suas dificuldades existenciais. Ou até não expresse por, mesmo que existam, não ter relevância subjetiva na vida dessa pessoa.

Compreender a pessoa em sua complexidade é uma meta tão inalcançável quanto querer compreender a totalidade da vida. Quanto mais aprofundamos no reconhecimento de uma “Estrutura de Pensamento”, mais nos damos conta do que resta conhecer. Se chegamos ao ponto de encontrar conflitos entre tópicos da EP, isso já é muita coisa.

segunda-feira, 25 de abril de 2011

Escolher para ter ou ser?*

O futuro é um passado
que ainda não se
realizou.
Clarice Lispector


Os critérios de escolha do papel existencial acompanham a singularidade. Em meio às construções e desconstruções trilham seu caminho rumo às várias possibilidades.

Obstáculos e dúvidas perpassam o caminho da maioria. O sucesso profissional tem muitas vezes, em suas raízes, momentos de incerteza e insegurança.

Nesse sentido encontramos histórias curiosas, desafiadoras, intrigantes e aventureiras. Fruto de estruturações tópicas que determinam o compasso de cada pessoa.

A representação de mundo girando entorno de status e retorno financeiro, são fatores influentes nessa escolha, para algumas pessoas. Buscam uma profissão que responda tal necessidade, pois, para eles, é importante estar bem colocado no mercado e ocupando um lugar de destaque perante a sociedade.

Do outro lado encontramos os peregrinos em seu próprio mundo. Para esses a única certeza é o caminho: estradas, trilhas, desvios. Suas escolhas seguem pela via marginal aos princípios de verdade.

Encontrar e fixar seu “lugar no mundo” não é determinante, o que importa é continuar buscando. Nesse contexto são comuns as cobranças externas. Elas chegam a ser angustiantes para sujeitos ainda despreparados para assumir uma profissão. Sufocam talentos e direcionam mal os indecisos. Podendo ser o inicio de um futuro conturbado.

Outros procuram no teste vocacional alguma dica. Querem acertar, ou pelo menos se aproximar de algo interessante para suas vidas. Buscam uma especialização mais próxima de sua singularidade.

A necessidade de vivenciar outros possíveis acompanha alguns sujeitos. Nem todos escrevem sua história usando um único personagem. A experimentação é útil nesse contexto, podendo ser empírica ou abstrata.

As vivências no mundo sensível são um exercício de plasticidade, pois envolvem algo mais que somente escolhas. Elas se oferecem em sensações e descoberta de habilidades, também na interseção com outras representações de mundo.

Nessa dialética as antíteses podem aparecer na forma de péssimas escolhas. No meio do caminho a pessoa descobre: “Aqui não é meu lugar”, ou “isso não é para mim”. Seguindo em uma nova direção.

Ao olhar externo esse comportamento aparece, muitas vezes, como: instáveis, perdidos ou irresponsáveis e, no entanto é um jeito de ser e estar no mundo.

Na forma ideal esse desconforto pode ser controlado. O sujeito pensa e conduz seu roteiro. Os limites e o tempo são determinados por ele. Aqui qualquer papel existencial pode ser vivido. Essa foi à forma utilizada por uma jovem estudante para conseguir amenizar as dúvidas a respeito de qual caminho escolher.

Trazia consigo alguns elementos que gostaria de vivenciar em seu papel existencial: trabalhar bem vestida e maquiada; profissão na área de humanas; viajar, mas continuar morando na mesma cidade; continuar estudando; ser útil nas dificuldades do outro; bilíngüe; pesquisa; ter o próprio negócio; ser bem sucedida.

Atenta a seu entorno e observando pessoas já colocadas no mercado de trabalho, cada semana escolhia vivenciar, abstratamente, uma profissão. O critério usado era observar se no papel existencial escolhido alguns dos quesitos mencionados estava presente.

Sua primeira experimentação se deu após uma conversa com uma amiga aeromoça. Buscou informações sobre essa profissão e, fazendo roteiros de viagem, se imaginava voando dentro e fora do país. Colocava-se no avião atendendo aos passageiros. Entrava e saia de aeroportos. Conhecia pessoas, cidades e países. Imaginava problemas de vôo, turbulências, riscos e sua volta para casa.

Na semana seguinte sua busca seguia rumo à vida empresarial. Ao passar diante de uma loja que lhe chamou a atenção, resolveu pensar seu próprio negocio. Não deixou passar nenhum detalhe: Decoração, público alvo, mercadorias e lucros. Responsabilidades de empregador, impostos e funcionários.

A cada encontro relatava sua experiência e, como se estivesse fazendo um arquivo, guardava as melhores e descartava as desagradáveis. Assim seguimos e mais uma vez se mostrava a importância de respeitar o tempo e o momento da subjetividade envolvida.

No entanto, talento e aptidão ainda parecem ser os melhores aliados na escolha de uma profissão. Eles podem proporcionar prazer, alegria, satisfação, oferecendo caminhos ao sucesso de cada um.

O papel existencial não é conclusão, pode ser o início de uma caminhada de muitos desvios e descobertas de outras rotas e possibilidades.

*Ana Cristina da Conceição
Filósofa Clínica
Porto Alegre/RS

domingo, 24 de abril de 2011

Fragmentos filosóficos delirantes XLI*


"Pergunto aqui se sou louca
Quem quer saberá dizer
Pergunto mais, se sou sã
E ainda mais, se sou eu

Que uso o viés pra amar
E finjo fingir que finjo
Adorar o fingimento
Fingindo que sou fingida

Pergunto aqui meus senhores
quem é a loura donzela
que se chama Ana Cristina

E que se diz ser alguém
É um fenômeno mor
Ou é um lapso sutil?"


"Tenho uma folha branca
e limpa à minha espera:
mudo convite

tenho uma cama branca
e limpa à minha espera:
mudo convite

tenho uma vida branca
e limpa à minha espera:"

*Ana Cristina Cesar
Poeta carioca - 1952-1983

sábado, 23 de abril de 2011

Fragmentos filosóficos delirantes XL*


""Ora (direis) ouvir estrelas! Certo
Perdeste o senso!" E eu vos direi, no entanto,
Que, para ouvi-las, muitas vezes desperto
E abro as janelas, pálido de espanto...

E conversamos toda a noite, enquanto
A via-láctea, como um pálio aberto,
Cintila. E, ao vir do sol, saudoso e em pranto,
Inda as procuro pelo céu deserto.

Direis agora: "Tresloucado amigo!
Que conversas com elas? Que sentido
Tem o que dizem, quando estão contigo?"

E eu vos direi: "Amai para entendê-las!
Pois só quem ama pode ter ouvido
Capaz de ouvir e de entender estrelas.""



"Em mim também, que descuidado vistes,
Encantado e aumentando o próprio encanto,
Tereis notado que outras cousas canto
Muito diversas das que outrora ouvistes.

Mas amastes, sem dúvida ... Portanto,
Meditai nas tristezas que sentistes:
Que eu, por mim, não conheço cousas tristes,
Que mais aflijam, que torturem tanto.

Quem ama inventa as penas em que vive;
E, em lugar de acalmar as penas, antes
Busca novo pesar com que as avive.

Pois sabei que é por isso que assim ando:
que é dos loucos somente e dos amantes
na maior alegria andar chorando."



"Deixa que o olhar do mundo enfim devasse
Teu grande amor que é teu maior segredo!

Que terias perdido, se, mais cedo,
Todo o afeto que sentes se mostrasse?
Basta de enganos!

Mostra-me sem medo
Aos homens, afrontando-os face a face:
Quero que os homens todos, quando eu passe,
Invejosos, apontem-me com o dedo.

Olha: não posso mais!
Ando tão cheio
Deste amor, que minh'alma se consome
De te exaltar aos olhos do universo...

Ouço em tudo teu nome, em tudo o leio:
E, fatigado de calar teu nome,
Quase o revelo no final de um verso."

* Olavo Bilac

sexta-feira, 22 de abril de 2011

Escorrendo!

Idalina Krause
Filósofa Clínica
Porto Alegre/RS


Por trás da janela coberta de digitais, o pensamento co-cria.
Pingos de chuva mansa correm no fio de luz, teleféricos transparentes, translúcidos, aquosos, frenéticos movimentos.
Por mais que pareça estranho há uma maresia no ar, vida escorrendo, ondas sedutoras, cânticos, prazeres de mar.

quinta-feira, 21 de abril de 2011

Sexualidade, uma questão de consciência

Rosângela Rossi
Psicoterapeuta e Filósofa Clínica
Juiz de Fora/MG


A vida pulsa por todos os poros nos convidando ao encontro. Somos seres pulsantes desejosos do compartilhar corpo e alma. Para os filósofos pré-socráticos o corpo é alma, para os platônicos e cartesianos o corpo é separado da alma.

O foco da sexualidade apenas no corpo e na realização do desejo leva a tornar o corpo e o outro como objeto de uso e de prazer momentâneo, muitas vezes sem vínculo, respeito e pior de tudo, um desprazer no final, um vazio existencial e uma busca compulsiva e ilusória de realização.

O corpo almado, pleno em sua inteireza, vive a sexualidade como uma dança, uma poesia, uma celebração, onde o próprio corpo se entrega, sem medo e sem repressão. O outro é respeitado e cuidado com delicadeza e ternura.

Sexualidade não se resume ao ato genital, é muito mais que isto, é um movimento onde corpo, alma e espírito vivem a realização plena de um encontro.

A sexualidade começa com a liberação das couraças musculares. Um corpo que flui, que dança a vida com alegria e gratidão sente o prazer por todos os poros. Um corpo encouraçado e reprimido finge o orgasmo, ou apenas ejacula sem se entregar ao gozo pleno.

O ser livre, sente o nascer do sol, um copo de água, uma obra de arte ou encontro com o outro com tesão , entusiasmo e alegria. A sexualidade plena não precisa do álcool, da droga, da pornografia, pois prefere o prazer autêntico ao invés de prazer de plástico.

Hoje se fala abertamente de sexo, mas infelizmente, vive-se muito mal a sexualidade. Prioriza-se a quantidade ao invés da qualidade, a performance a profundidade, a aparência ao essencial, o corpo imagem ao ser do compartilhar verdadeiro e pleno.

A carência inverte aquilo que realmente se deseja e muitos se deixam ser objetos para sentirem-se amados e fugir da solidão. Estamos na era do vazio, na era da decepção, onde os valores se prostituíram e o consumismo sobrepõem a qualidade de um encontro onde a sexualidade é celebração da vida.

Não existe receita pronta para se ter orgasmo ou viver um sexo pleno. O que urge são pessoas mais conscientes, que vivem intensamente um encontro, na escuta, no toque presença, no carinho terno, na entrega intensa, no respeito a singularidade e principalmente sem ansiedade de ter que se mostrar algo que não se é. Sexualidade está para lá da idade e do corpo perfeito.

Sexualidade é vida acontecendo para quem é amor. Quem é amor, ama. Quem ama goza. Quem goza constroi um mundo eticamente sustentável.

Sexualidade, enfim é corpoalmado, onde sexo e espírito comungam Deus. Neste momento os sinos tocam, a morte se faz renascimento, a alegria surge depois da tristeza e a vontade determinada emerge trazendo ação e criação.

O ser da sexualidade plena é, pois, ativo, criativo, potente, livre, saudável e amigo. É possível a todo aquele que se aventurar a transformar a cada dia, com consciência e amor.

quarta-feira, 20 de abril de 2011

Controle e surpresa

Sandra Veroneze
Filósofa Clínica
Porto Alegre/RS


Repousa sobre nós uma consciência histórica sobre a relevância do controle, especialmente das nossas vidas. É preciso ter um projeto, saber para qual direção a existência avança. O sentido de quem somos, de onde viemos e para onde vamos é rascunhado por metas, sonhos, rotinas, para que não percamos o horizonte, o propósito, o foco...

Isso tudo me encanta. Adoro bússolas, agendas, relógios... Com esses instrumentos, e tantos outros concebidos na contemporaneidade dos tempos, conseguimos mensurar tempo, espaço, velocidade, direção, frequencia, intensidade. Conseguimos fazer previsões, avaliar consequências, corrigir rotas. Tudo isso é muito rico quando se trata de promover autogenia e valor em nossas vidas.

Navegar, sim, é preciso, como já disse o poeta. Mas viver é impreciso. Por mais que utilizemos instrumentos diversos para mensurar nossos avanços e resultados, sempre existirão os imprevistos. Já reside no inconsciente coletivo, inclusive, uma certa ideia de que o imprevisto é também indesejado, só porque não estava nos planos.

Oras. Aquela chuva durante a madrugada não estava nos planos, mas fez tão bem ao espírito... Aquele gatinho preto abandonado na rua também não estava nos planos, mas hoje não se consegue mais imaginar a casa sem sua presença alegre e urgente. Aquele beijo roubado definitivamente não estava nos planos, mas alegrou a existência e mostrou se estar disponível novamente para o amor.

Imprevistos, quando gostosos, têm o nome de ‘surpresa’. Lembra festa de aniversário, aumento de salário, pedido de casamento, presente fora de hora, meia dúzia de flores na mesa quando se chega ao trabalho, correspondência que vem de longe...

Quem não gosta? Até parece poesia, e por ser poesia é tremendamente real. Ao final das contas, não existe régua capaz de medir felicidade, nem tampouco calculadora que quantifique o quanto se quer, ou o quanto se ama. E que bom que é a vida é assim, inteira, verdadeira e potencialmente livre de indicadores ou conceitos. Ilimitada!

terça-feira, 19 de abril de 2011

Princípio da humildade

Miguel Angelo Caruzo
Filósofo Clínico
Juiz de Fora/MG


O que sei a respeito do partilhante numa consulta? Nada. Como poderei ajudá-lo? Não sei. Quanto tempo levará a clínica? Impossível concluir até que aconteça. O que posso definir a respeito do partilhante então? Nada.

A grande incógnita não necessariamente significa impossibilidade de ação. Também não faz do filósofo clínico um inútil. A partir da abertura ao outro propiciado pelas instruções da Filosofia Clínica, o terapeuta torna-se um estudioso do partilhante e acaba aprendendo mais do que ensinando.

O mistério do ser humano é sempre um desvelar do que sempre se vela. Sabemos muito pouco do muito que não sabemos. A incompreensibilidade da totalidade do que nos aparece é o reconhecimento de que estamos diante de alguém digno de imenso respeito.

Quando os trabalhos iniciam no consultório, pouco se sabe. Quando termina, o pouco tornou-se, muitas vezes, suficiente para ajudar o partilhante no caminho para o livre cursar de sua existência. Sua estrutura de pensamento chegou a uma estruturação que permitiu um alívio de conflitos.

A duração do resultado é incerta. Não há como matematizar os resultados quando se trata de pessoa. A subjetividade é tão imperscrutável quanto é a individualidade ante a totalidade da humanidade. Sempre sabe-se pouco.

Mesmo diante da limitação de reconhecer o sujeito em sua totalidade e profundidade, o filósofo clínico alça-se rumo ao outro numa “recíproca de inversão” tentando olhar o outro com seu modo de enxergá-lo.

A cada passo em direção ao outro, o filósofo clínico reconhece mais caminho para aprofundar. Aprofundando, mais profundidade aparece. Além da limitação de reconhecer o que é e como pensa o outro, ainda tem a “autogenia” que torna o partilhante sempre outro a cada encontro.

Algo fica disso tudo. O que Aristóteles denominou essência, talvez seja o que fica mesmo diante de tanta mudança e nos faz reconhecer o outro apesar de tantas modificações. E é essa essência que o filósofo clínico, que antes de tudo é filósofo, encontra. Uma essência que “re-vela-se” a cada desvelar. Velando e desvelando o filósofo aprende a reconhecer pontos de apoio a fim de trabalhar as questões de seu partilhante.

Trabalho interminável se a meta fosse a busca pelo fundamento absoluto daquele que se apresenta aos cuidados do filósofo clínico. O que acontece de fato é a aproximação e a delimitação de questões que são trabalhadas a partir dos submodos.

Jamais se intenta uma resolução absoluta. Talvez a única verdade absoluta seja que tudo é movimento e incerteza. Resolvendo o que é possível ao filósofo clinico em conformação com o partilhante, o conforto, o bem estar subjetivo, o encontro de um caminho, uma nova perspectiva são vislumbradas.

Deixa o partilhante o acompanhamento com sua autonomia de pensamento estabelecida. Às vezes, nada disso acontece e o partilhante nem sequer lembra do filósofo que o acompanhou. Essas são as possibilidades vividas pelo filosofo clínico no exercício de ser cuidador e reconhecedor de sua limitação, humilde.

segunda-feira, 18 de abril de 2011

Me engana que eu gosto

Jussara Hadadd
Filósofa Clínica e Terapeuta Sexual
Juiz de Fora/MG


O palco era aquela enorme cama king size completamente branca e macia. A peça era a noite de amor de um casal incandescente de desejo e paixão. E a cena principal era com a mulher que, como protagonista, convencia, como ninguém, o seu amado sobre a existência de uma explosão que no universo feminino muito se fala, mas pouco se conhece de verdade. O tema da peça: o orgasmo feminino.

- Ai, meu Deus, você é demais. Assim você me enlouquece. Eu não estou agüentando mais. Ai, ai, ai. Ui, ui, ui, você é maravilhoso. Aiiiii, nossa, fui ao céu e quase não voltei.

É mais ou menos dessa maneira que muitas de nós representa o orgasmo em uma relação sexual. E esta representação se dá quando ele acontece, ou não! Os motivos, bom, dos motivos nós vamos falar agora. Talvez não consigamos nos lembrar de todos, mas dos mais corriqueiros, com certeza. Vamos falar também, além da necessidade de representar esta magnífica sensação, porque, muitas vezes, ela nos é tão inacessível?

Não podemos prescindir aqui de alguns fatores que incidem sobre a nossa vontade. A vontade, em primeiro lugar, seria a mola propulsora para a sensação que tanto almejamos. Muitas mulheres, apesar de terem sua libido em perfeito estado e ordem não conseguem priorizar a vontade de estar em completo envolvimento com o homem em uma relação sexual. Isso se deve à sua enorme preocupação com elementos, como seu corpo, suas roupas, seu cheiro e no que aquela relação vai dar (isso no caso de a relação ainda não estar consolidada).

Na hora do amor, muitas mulheres estão preocupadas em disfarçar e evitar as posições onde sua celulite não apareça, em que suas estrias não sejam notadas e que seus seios pareçam mais firmes do que são. É engraçado, mas elas idealizam posições fora da cama, de frente ao espelho, onde seus corpos assumem uma silhueta mais fotogênica, digamos assim, e querem que durante o sexo seus parceiros a vejam dessa maneira. Se a concentração está voltada para este ponto, como é que ela vai conseguir liberar seu corpo, sua mente e seu coração para sentir algo durante aquela relação? Concentração em sentir, seria um fator de grande relevância.

Cabeça de mulher é um universo indecifrável. Ela pensa tudo ao mesmo tempo. Ora sofre porque quer amar demais e outra porque não quer amar tanto. Sofre porque quer ser liberada e sofre porque tem que atender a conceitos impostos pela família, pela igreja e pela sociedade que a impedem disso. Este seria outro impedimento irrefutável. A mulher desenvolve bloqueios psicológicos que a leva a conflitos existenciais e de relacionamentos, muitas vezes dificílimos de serem resolvidos e que normalmente são refletidos na hora do sexo.

Outro fator intrínseco à dificuldade de a mulher sentir de verdade o orgasmo é a própria cobrança em sentí-lo. Cobrança dela e do parceiro. O orgasmo não é imprescindível. Não pessoal, não é. Aquilo que chamamos de explosão orgástica, na verdade é apenas um milésimo do prazer que podemos ter, que podemos alcançar. Muitas vezes deixamos de sentir todo o prazer que uma relação pode oferecer ao ficarmos obcecados por este instante.

É importante compreender que este clímax que tanto buscamos tem muito mais chance de acontecer quando aprendemos a nos entregar de verdade à relação toda. Se relaxamos e curtimos a companhia do parceiro, a pele, o cheiro, as carícias sem nos importarmos muito se este vai ou não chegar, com certeza este prazer final virá.

Mais um empecilho ao orgasmo da mulher é sem duvida a rapidez com que o homem quer manter uma relação sexual. Para mulher que já aprendeu a "transar por transar", isto não é impedimento nenhum, mas para aquelas que precisam de toda uma história, e isto é regra para a maioria das mulheres, as carícias preliminares, o romance, a preparação, fazem muita falta mesmo.

O que resolveria neste caso, quando o parceiro estiver mais apressadinho, e a mulher não conseguir acompanhar o seu ritmo, e tiver um orgasmo durante o coito, é o pós. O homem atencioso e que quer ver sua mulher satisfeita a ajudará, com carícias, com o sexo oral ou mesmo com novo coito onde ele agora, mais calmo, se dedique mais a ela.

Existe também o fator anatomia onde as diferenças de tamanho dos corpos e dos sexos dos dois não contribuem muito para que o sexo com penetração flua em um orgasmo de qualquer qualidade que seja. Um homem muito corpulento, com uma barriguinha avantajada e uma mulher pequena e o contrário também, um homem de estatura mediana com uma mulher mais gordinha, exigem posições sexuais especiais que contribuem para o prazer. Se o casal não estiver receptivo ou antenado a estas variações e só entender o sexo de uma maneira convencional, dificilmente ele será prazeroso.

Quanto à diferença de tamanho dos sexos, no caso de um pênis muito grande e uma vagina pequena, o cuidado e o carinho na hora da penetração resolvem isto bem. No contrário, onde a vagina é maior que o pênis, um recurso infalível são as contrações vaginais na hora da relação. Uma vagina forte pode ajudar muito a mulher nesta hora e o homem, de quebra, ganha sensações indescritíveis.

O que não pode!
Acreditar na conversa das amigas. Amigas têm a mania de mentir, dizendo que conhecem muito bem o orgasmo, que explodem nos braços dos seus homens e que você é a única no mundo que não sabe o que é isso. Isso deixa muita mulher maluca e elas transam obcecadas nesta sensação. Você é você e pronto. Construa o seu mundo sexual.

Fingir não vale. Fingir gera frustração, culpa, cobrança e desentendimentos irreversíveis na maioria das vezes, porque só se finge quando não se pode falar sobre o assunto e, neste caso, como em tudo na vida, todo problema que não é bem esclarecido só pode dar em confusão. Se o sexo de vocês não anda bem avalie com frieza de onde vem o problema e converse a respeito. Sem orgulho e sem vaidade, regra básica para um bom entendimento.

Não responsabilize totalmente o seu parceiro. Você é capaz de se realizar sexualmente sozinha? Sabe o que gosta de sentir? Onde gosta de ser tocada? Esta pode ser a chave para uma vida sexual plena. Se conheça bem, saiba sinalizar como gosta de sentir prazer e divida isto com ele. Regrinha básica: ninguém é responsável pela nossa felicidade ou infelicidade. Está em nós.

Deixe o mundo lá fora. Por favor, não leve ninguém pra dentro do quarto com vocês. Nem mamãe, nem papai, nem as freiras do colégio onde estudou, nem os santos para quem você reza. Ninguém! Não é todo mundo que tem talento para ser filmado nesta hora, né?

Deixa fluir, tudo que é fácil acontece melhor.

domingo, 17 de abril de 2011

Fragmentos filosóficos delirantes XXXIX*


"Teus olhos são a pátria do relâmpago e da lágrima,
silêncio que fala,
tempestades sem vento, mar sem ondas,
pássaros presos, douradas feras adormecidas,
topázios ímpios como a verdade,
outono numa clareira de bosque onde a luz canta no ombro
duma árvore e são pássaros todas as folhas,
praia que a manhã encontra constelada de olhos,
cesta de frutos de fogo,
mentira que alimenta,
espelhos deste mundo, portas do além,
pulsação tranquila do mar ao meio-dia,
universo que estremece,
paisagem solitária."

"Sou homem: duro pouco
e é enorme a noite.
Mas olho para cima:
as estrelas escrevem.
Sem entender compreendo:
Também sou escritura
e neste mesmo instante
alguém me soletra."

"Assim como do fundo da música
brota uma nota
que enquanto vibra cresce e se adelgaça
até que noutra música emudece,
brota do fundo do silêncio
outro silêncio, aguda torre, espada,
e sobe e cresce e nos suspende
e enquanto sobe caem
recordações, esperanças,
as pequenas mentiras e as grandes,
e queremos gritar e na garganta
o grito se desvanece:
desembocamos no silêncio
onde os silêncios emudecem."

"A metade do poema sobressalta-me sempre um grande desamparo,tudo me abandona, não há nada a meu lado, nem sequer esses olhos que por detrás contemplam o que escrevo, não há atrás nem adiante, a pena se rebela, não há começo nem fim, tampouco muro que saltar, é uma esplanada deserta o poema, o dito não está dito, o não dito é indizível, torres, terraços devastados, babilônias, um mar de sal negro, um reino cego,
Não, deter-me, calar, fechar os olhos até que brote de minhas pálpebras
uma espiga, um repuxo de sóis, e o alfabeto ondule longamente sob o vento do sonho e a maré suba em onda e a onda rompa o dique, esperar até que o papel se cubra de astros e seja o poema um bosque de palavras enlaçadas,
Não, não tenho nada a dizer; ninguém tem nada a dizer, nada nem ninguém exceto o sangue, nada senão este ir e vir do sangue, este escrever sobre o já escrito e repetir a mesma palavra na metade do poema, sílabas de tempo, letras rotas, gotas de tinta, sangue que vai e vem e não diz nada e me leva consigo."


*Octavio Paz

sábado, 16 de abril de 2011

Fragmentos filosóficos delirantes XXXVIII*


"Rosas que já vos fostes, desfolhadas
Por mãos também que Já foram, rosas
Suaves e tristes! Rosas que as amadas,
Mortas também, beijaram suspirosas...
Umas rubras e vãs, outras fanadas,
Mas cheias do calor das amorosas...
Sois aroma de almofadas silenciosas,
Onde dormiram tranças destrançadas.

Umas brancas, da cor das pobres freiras,
Outras cheias de viço de frescura,
Rosas primeiras, rosas derradeiras!
Ai! Quem melhor que vós, se a dor perdura,
Para coroar-me, rosas passageiras,
O sonho que se esvai na desventura?"


"Quando Ismália enlouqueceu,
pôs-se na torre a sonhar...
Viu uma lua no céu,
Viu outra lua no mar.
No sonho em que se perdeu,
Banhou-se toda em luar...
Queria subir ao céu,
queria descer ao mar...
E, no desvario seu,
na torre pôs-se a cantar...
Estava perto do céu,
estava longe do mar...

E como anjo pendeu
as asas para voar...
queria a lua do céu,
queria a lua do mar...
As asas que Deus lhe deu,
rufaram de par em par...
Sua alma subiu ao céu,
seu corpo desceu ao mar..."


"O céu é sempre o mesmo: as nossas almas
É que se mudam, contemplando-o. É certo.
Umas vezes está cheio de palmas;
Outras vezes é só como um deserto.

Quem sabe quando vem as horas calmas?
Quem sabe se a ventura vem bem perto?
Homem de carne infiel, em vão espalmas
As tuas asas pelo céu aberto."


*Alphonsus de Guimaraens

sexta-feira, 15 de abril de 2011

O relativismo subjetivo é universal em Filosofia Clínica?

Pedro de Freitas Junior
Filósofo Clínico
Florianópolis/SC


Quando falamos em relativismo a primeira impressão que podemos ter é pejorativa. Parece que quando “tudo” é relativo as certezas se perdem. Como achar algo que se perde? A Filosofia Clínica responde em uma palavra: singularidade. O se perder no relativismo subjetivo é um dos grandes achados para a Filosofia Clínica. Reconhecer que o intersubjetivo se compõe de subjetivos que não podem ser enquadrados em nenhum universal objetivador da subjetividade.

Objetivar e universalizar a subjetividade se mostra uma tarefa impossível em Filosofia Clínica. Cada subjetividade ou traduzindo para termos filosóficos clínicos cada Estrutura de Pensamento (EP) não pode ser classificada em uma universalidade que tenta deixar o desigual igual, o paralelo em serial.

O relativismo geral passa a ser uma singularidade que se mostra em universo. O universo da Estrutura de Pensamento que é única, singular, mas plural. Este universo, único e plural passa a conversar, se relacionar, se inter-relacionar consigo mesmo em um emaranhado de interseções, muitas vezes não identificáveis ou às vezes falsamente identificáveis ou precariamente identificáveis.

Cada um desses universos singulares e plurais que são as Estruturas de Pensamento (EP) constituídas em malhas intelectivas são fundamentalmente diferentes entre si. Falando em malha intelectiva, ou em rede relacional, pode se constituir em um infinito de conexões, conexões seriais (seqüenciais), paralelas (que acontecem ao mesmo tempo), virtualmente seriais e paralelas simultaneamente.

Cada Estrutura de Pensamento, cada singular pode assim ser um infinito de pontos de interseção consigo mesmo, em seu interior, no infinito que pode ser a sua Estrutura de Pensamento e com os demais objetos e subjetos do mundo.

Lembrando de Schopenhauer, se o mundo é a minha representação, e essa representação é a minha representação (e não a do outro), e eu posso mudar a minha representação de acordo com as circunstâncias em que estou vivendo posso concluir que a rede relacional, que funciona a partir de minhas representações pode ser infinita em minha própria Estrutura de Pensamento e assim o infinito que sou eu pode estabelecer infinitas conexões com o exterior, sejam objetos (in)animados ou sujeitos.

Se a Estrutura de Pensamento (EP) é como dissemos acima um Universo, singular (pessoal e única) e plural (se faz em malha de relações) ao mesmo tempo, que se relaciona consigo mesmo em forma de malha intelectiva, em infinitas conexões entre os tópicos da EP (conhecidos e desconhecidos) e cada tópico se relacionando e interagindo consigo mesmo e com outros tópicos da própria EP estabelece desta interação interna à EP interseções com o ambiente, com as coisas do mundo, com as coisas do pensamento e com as outras pessoas que possuem por sua vez a sua própria Estrutura de Pensamento (singular e plural – seu próprio universo plural) com as suas próprias conexões.

Chegamos assim a um infinito de relações e a um universo intersubjetivo que é por sua vez plural e infinito porém composto de singulares. E agora, como colocaremos ordem neste emaranhado de relações, e inter-relações (em uma palavra: interseções) no interior dos universos (que são as Eps) e entre as diferentes EPs?

O que equilibra essas interseções? Será que elas precisam ser equilibradas? Será que o desequilíbrio não é a dança que faz tudo isso funcionar (?) ou simplesmente girar, ou caminhar. Aqui encontramos outro universal dentro desse relativismo geral. Cada universo (EP) encontra (ou não) as suas próprias maneiras de lidar (ou não) com essas relações (interseções).

Algumas EPs deixam-se levar pela dança do desequilíbrio, pela dança das interseções, outras EPs ainda fecham-se a esse universo de interseções e simplesmente recusam toda tentativa de conexão. São ilhas intelectivas isoladas no mar das malhas externas. Outras EPs ainda agem paralelamente (se relacionando simultaneamente) com diversas outras EPs, objetos e subjetos do mundo a partir de suas próprias mini malhas internas, ou pontos internos. Outras EPs se escondem com a sua(s) malha(s) por detrás de outra EP replicando as malhas dessa outra EP e existindo na sombra dessa.

As variações podem ir ao infinito. Sim, voltamos aqui ao relativismo que falamos no início. Como fugir deste relativismo?

Mas a pergunta que fizemos foi a correta? Ou começamos este texto com a pergunta errada? Será que a pergunta correta deveria ser esta: O absolutismo subjetivo (e porque não, ou objetivo) é universal em Filosofia Clínica? E a resposta a esta questão segue em forma de provocação: Sim. A singularidade de cada Estrutura de Pensamento (EP) é o absoluto e o universal para a Filosofia Clínica.

quarta-feira, 13 de abril de 2011

Discursos da água*

“Tanto no líquido derramado quanto nas folhas levadas pelo vento, a desordem existe só para o observador incauto. Águas e folhas movem-se rigorosamente dentro de leis estabelecidas pela natureza.”
Donaldo Schüler


Uma fonte de matéria-prima se oferece num curso provisório que perdura. Ao ser incapaz de descrever idas e vindas, suas rotas e desvios parecem rumar para lugar nenhum. Um ponto onde tudo começa e se acaba para reiniciar.

Sua transparência se dissolve em rastros de horizontes verticais, aprecia contar sobre suas origens ancestrais na confluência entre hoje e amanhãs. Riachos e córregos deságuam em rios a história plural. A interseção mista com as margens alterna a leveza dos passeios com a força dos tsunamis.

É possível creditar-lhe a inspiração da vida ao seu redor, embora também ela seja refém de origens desconhecidas. Sendo uma versão sempre outra, se institui transgressora aos frascos que tentam lhe aprisionar, assim apodrece para se reinventar e voltar como água nova.

A aptidão de suas químicas se revigora com as mudanças. De tempos em tempos seu fluxo aperfeiçoa velhas combinações, algo sem sentido imediato, mas com significado próprio. Seu equilíbrio não-linear opera em cursos de armadilha conceitual. A sustentação dialética a faz retornar outra ao mesmo leito.

Nessa incessante variação de rumo, as buscas se espraiam em rituais de mistura e combinação. Aqui sua retórica se encontra com as forças da terra, do fogo e do ar, um espaço onde se cogita sobre o silêncio das profundezas em contraste com a agitação das superfícies.

Os mares e rios embalam oferendas de auto-ajuda. Sua interseção com os demais elementos acontece na alternância entre a brisa e os temporais. Ao desdobrar das esteticidades é possível decifrar a linguagem das tormentas, traduzir os deslocamentos por onde as águas apreciam tornar-se.

Sua intencionalidade de aparência fugaz guarda segredos e raridades. Eventos de aspecto estranho sugerem uma fronteira aberta entre as nascentes e o mar. Ao ser vulnerável aos agendamentos da convivência, ensaia mergulhos e sobrevôos para considerar novas vias de acesso ao não-ser das beiradas. Estranha liberdade em contato com as margens, o céu, as neblinas. O precipício da incompreensão discursiva parece esperar um sol que não vem.

Seus trajetos possuem uma correspondência sem ruídos. Sua travessia segue a deixar coisas para trás, embora a sedução das paisagens busque cristalizar a fluência dos percursos. As águas assim dispostas se encaminham para o lugar nenhum de todo lugar. Suas margens podem ser moldura ou contraponto à trama das idas e vindas.

Uma disposição aprendiz parece sentir aquilo ainda sem palavras, um pouco antes do sentido chegando para partir de novo. A insignificância retórica aprecia conter raridades, algo a se mostrar em língua própria nos itinerários recém chegados.

Ao recordar Tales e Heráclito no princípio do movimento, a dinâmica fundadora de todas as coisas se mostra em face fluída. Nos discursos da água é possível vislumbrar um mesmo ‘logos’, diferenciado para cada região. Algo como um devir a multiplicar singularidades. No discorrer sobre seu entorno, a imprecisão explicativa busca acolher as novas versões. Uma dialética a efetivar chãos ao sabor da brisa leve.

Na concepção da lógica dos oceanos, são muitas vertentes a inundar suas vontades. As verdades da correnteza se misturam e já são outras. Os continentes surgem dispostos em seu leito. As terras estrangeiras são banhadas pelas mesmas fontes com outros nomes.

Nesse viés compreensivo a natureza viaja e se pluraliza para regressar inteira. Seus rabiscos, quase invisíveis, se assemelham ao barquinho de papel desmanchando, para ser um.

*Hélio Strassburger
Filósofo Clínico

terça-feira, 12 de abril de 2011

Qualidade dos encontros

Sandra Veroneze
Filósofa Clínica
Porto Alegre/RS


O mundo em que vivemos é um convite explícito para encontros e conexões, seja de forma mais profunda ou superficial, pessoalmente ou por via eletrônica. Todos os dias, esbarramos, encostamos, tocamos e até nos fundimos com outras pessoas. São vozes, rostos, peles, maneiras de pensar e sentir, também de ver a existência, que de alguma forma acabam por integrar o nosso jeito de ser e estar no mundo.

A qualidade das interseções é definida por vários fatores, entre eles a natureza de cada um, sua história, intenção, os objetivos e também o contexto.... Maior ou menor grau de intimidade ou de troca intelectual é estabelecido pelo quanto nos sentimos à vontade com a outra pessoa, o quanto confiamos nela, o quanto nos dispomos à exposição...

Com o passar do tempo, vamos ficando mais ‘espertos’, com a percepção mais refinada, na avaliação daqueles com quem temos contato. Com alguns nos sentimos à vontade, aconchegados, com aquela sensação belíssima de bem-estar. Na presença de outros, é frio, espinhento, invasivo... Também existem interseções que se alternam entre gostosas ou frustrantes, além daquelas que não sabemos definir se são efetivamente boas ou más, ou se esta é uma definição que conquiste tamanho alcance.

É possível escolher?

Pequeno universo que somos em um mundo de aproximadamente sete bilhões de outros universos pessoais da espécie humana, se o indivíduo não puder escolher quem entra, fica ou sai de sua vida, o que lhe resta? Em alguns ambientes, esse grau de escolha é menor. Exemplo disso é o trabalho. Em outros, é bem maior... E o melhor exemplo é nossa vida afetiva.

Mas mesmo quando não é larga a possibilidade de escolha de quem se relaciona conosco, ainda assim podemos escolher o grau e a intensidade do encontro. Um colega de trabalho pode ou não ser também amigo... E de qualquer forma, mesmo que fôssemos o último ser humano a habitar o planeta Terra, ainda assim teríamos um vasto universo de exploração, que é nossa própria intimidade.

Resta, portanto, muito! Pensamentos, sentimentos, impulsos... São tão ricas e variadas as possibilidades de composições, a partir de fatores internos e externos, que se nos detêssemos apenas a observá-las teríamos serviço para um vida inteira e talvez não chegássemos a uma conclusão definitiva. E talvez nisso resida toda beleza da vida, em sua capacidade de surpreender, multiplicar, reformular, recriar, re-significar, ou até mesmo de consolidar, decantar e petrificar.

segunda-feira, 11 de abril de 2011

O que aconteceu em 2009

Lúcio Packter
Pensador da Filosofia Clínica


Talvez cada vez mais podemos dizer cada vez menos de um ponto da história, uma vez que os elementos se combinam e muito do que aparece em uma época pertence a outra. Parece que em 2009 não deu para Aécio Neves, foi Serra, foi Dilma, foi Sarney ao contrário.

Mas em 2010 poderemos saber que nada foi assim e que quem aconteceu de fato em 2009 sequer apareceu. Mas é parte significativa da história comemorar fantasmas. Eles enfeitam, distraem, porém também podem sustentar e erguer os eventos importantes que às vezes necessitam de um fantasma de prefácio.

Como ficou aquele voo 447 da Air France? O apagão? A dinheirama na cueca, nas meias? O que de fato foi mais marcante em 2009? As mulheres iranianas protestando, a China novamente, a recessão acabando, Michael Jackson?

Se depender da subjetividade, Claude Lévi-Strauss, em Filosofia, vem antes. John Updike também partiu, mas nos fios que constroem a história, não sabemos se sua passagem foi mais ou menos importante porque teve como contemporâneos Farrah Fawcett e Ted Kennedy, que também partiram.

Muitos nem viram 2009 passar. Foi rápido, foi difícil, foi 2009, foi. Alguns não tiveram tempo de enfeitar as árvores de Natal, a casa, porque subitamente do início de dezembro já era 23, 24, 25, Ano Novo.

2009 trouxe forte a popularização dos Lap Tops. Os celulares seguem firme. Ensino a distância. Leitura da Folha de S. Paulo da tela. Talvez o grande ano do despertar da Ecologia no mundo tenha sido 2009. Estamos avisados. Algo de fato mudou, mas agora as mudanças são tão rápidas que somente lá por 2013 saberemos melhor como foi 2009.

domingo, 10 de abril de 2011

Fragmentos filosóficos delirantes XXXVII*


"Se não fizesse versos
Enlouqueceria.
Minha saúde mental
Depende da poesia.

Se não fizesse versos
Me suicidaria.
Só na estrofe retorna
A perdida alegria.

Só no poema ultrapasso
O limite do tédio.
Para o poeta, a metáfora
É o único remédio."

"Cansei de amor de brinquedo
Eu quero amor de verdade
Quero sentir que a saudade
Está judiando de mim
Não quero dizer amor com o coração sossegado
Quero pecar sem pecado
E andar sorrindo sozinho
Até que falem de mim
Talvez me chamem de louco
Esta loucura eu desejo
Eu quero amor de verdade
Cansei de amor de brinquedo."

“Toda a página em branco
Merece um poema.
Não devemos viver
Cada minuto da vida?”

“Um dia eu caminharei na paisagem azul
Com a surpresa de nascer de novo.
E se tiver sede na jornada eterna
Beberei orvalho em lírios transparentes”

* Prado Veppo - Médico psiquiatra e poeta santamariense. Querido professor de literatura. Já na década de 70, influenciava algumas gerações de boêmios e sonhadores incorrigíveis.

sábado, 9 de abril de 2011

Fragmentos filosóficos delirantes XXXVI*


"Se se morre de amor! — Não, não se morre,
Quando é fascinação que nos surpreende
De ruidoso sarau entre os festejos;
Quando luzes, calor, orquestra e flores
Assomos de prazer nos raiam n'alma,
Que embelezada e solta em tal ambiente
No que ouve, e no que vê prazer alcança!

(...)

Amar, e não saber, não ter coragem
Para dizer que amor que em nós sentimos;
Temer qu'olhos profanos nos devassem
O templo, onde a melhor porção da vida
Se concentra; onde avaros recatamos
Essa fonte de amor, esses tesouros
Inesgotáveis, d'ilusões floridas;
Sentir, sem que se veja, a quem se adora,
Compr'ender, sem lhe ouvir, seus pensamentos,
Segui-la, sem poder fitar seus olhos,
Amá-la, sem ousar dizer que amamos,
E, temendo roçar os seus vestidos,
Arder por afogá-la em mil abraços:
Isso é amor, e desse amor se morre!"


"E eu amei tanto! — Oh! não! não hão de os homens
Saber que amor, à ingrata, havia eu dado;
Que afetos melindrosos, que em meu peito
Tinha eu guardado para ornar-lhe a fronte!
Oh! — não, — morra comigo o meu segredo;
Rebelde o coração murmure embora.

Que de vezes, pensando a sós comigo,
Não disse eu entre mim: — Anjo formoso,
Da minha vida que farei, se acaso
Faltar-me o teu amor um só instante;
— Eu que só vivo por te amar, que apenas
O que sinto por ti a custo exprimo?
No mundo que farei, como estrangeiro
Pelas vagas cruéis à praia inóspita
Exânime arrojado? — Eu, que isto disse,
Existo e penso — e não morri, — não morro
Do que outrora senti, do que ora sinto,
De pensar nela, de a rever em sonhos,
Do que fui, do que sou e ser podia!

Existo; e ela de mim jaz esquecida!
Esquecida talvez de amor tamanho,
Derramando talvez noutros ouvidos
Frases doces de amor, que dos seus lábios
Tantas vezes ouvi, — que tantas vezes
Em êxtase divino aos céus me alçaram,
— Que dando à terra ingrata o que era terra
Minha alma além das nuvens transportaram.
Existo! como outrora, no meu peito
Férvido o coração pular sentindo,
Todo o fogo da vida derramando
Em queixas mulheris, em moles versos.
E ela!... ela talvez nos braços doutrem
Com sua vida alimenta uma outra vida."

*Gonçalves Dias

sexta-feira, 8 de abril de 2011

Escritura

Idalina Krause
Filósofa Clínica
Porto Alegre/RS

Escrever é desacordar
Uma solidão brutal
Somos "pugilistas"
Socamos hipocrisias
Vitórias momentâneas
Lutas marcadas
E o mundo lá fora
Mas um "cheiro" cai bem
Aquece entranhas
Tempera criações
Tchau!

quinta-feira, 7 de abril de 2011

Por que estudar a Filosofia da Mente ?

Mônica Aiub
Filósofa Clínica
São Paulo/SP


Alguns pensadores defendem que a filosofia da mente é a metafísica contemporânea, ou seja, aquela que se dedica à busca dos fundamentos de nossas formas de vida. Esta é uma pergunta muito comum. Algumas respostas iniciais assemelham-se aos motivos pelos quais estudamos o cérebro.

Mas mente e cérebro são a mesma coisa? O que vem a ser a mente? Não seria esse, um campo da psicologia? Ou seria um estudo próprio da medicina, em especial da psiquiatria? Ou ainda, não seria melhor abordar o problema a partir da neurociência?

Mais precisamente, o problema da filosofia da mente é o problema mente-corpo. John Searle, em Mind, aponta alguns motivos pelos quais os métodos utilizados pela ciência para estudar a natureza são insuficientes para estudar o mental, entre eles: subjetividade, consciência, intencionalidade e causação mental.

Podemos mapear o cérebro com tomografias, ressonâncias e outros exames, mas não temos acesso aos conteúdos do pensamento, exceto pela descrição do próprio sujeito pensante; dizemos que temos consciência mas não conseguimos definir o que é a consciência; sabemos que direcionamos nossa atenção, nossa percepção, nosso pensamento para alguns pontos e não para outros, mas não sabemos por que isto ocorre; observamos as íntimas relações entre nossos estados mentais e nossos estados físicos, mas não sabemos explicar como isto se dá.

O início do problema mente-corpo encontra-se no pensamento cartesiano, que propõe a existência de duas substâncias distintas: a substância corpórea ou res extensa, e a substância pensante ou res cogitans. Ambas substâncias interagem causalmente de modo a formar no humano um amálgama, seu ponto de interseção é a denominada glândula pineal, que seria o correspondente à parte do cérebro que não se apresenta em dois hemisférios.

Observe, leitor, que no pensamento cartesiano, na Modernidade, já temos o indicativo de uma mente imaterial, que não pode ser estudada pelos métodos e critérios da ciência que estuda a natureza e um corpo material, que funciona e pode ser estudado a partir dos métodos e critérios da ciência. O lugar do mental no corpo, apontado como uma parte do cérebro, traz a associação, já feita anteriormente por outros pensadores, entre mente e cérebro.

O que é isto que não pode ser estudado pela ciência, o que é esta substância que não pode ser dividida, não pode ser conhecida pelos métodos que conhecem a natureza? Apesar de termos uma “ciência do mental”, não temos, ainda, resposta à pergunta, o que não torna inócua a investigação, nem dispensável a psicologia.
O problema mente-corpo tal como foi proposto por Descartes, permanece como problema filosófico na atualidade.

1990: década do cérebro

Em 1949, Gilbert Ryle, em O conceito de mente, afirmou ser esse um problema de linguagem, portanto um pseudoproblema. Sua afirmação fez renascer o debate e o século XX foi marcado por vários estudos sobre a temática. Diante de tantos questionamentos, diante de muitos casos de afastamentos no trabalho por transtornos mentais, devido ao aumento significativo dos casos de depressão, a década de 1990 foi declarada, nos Estados Unidos, a década do cérebro, resultando em muitos investimentos em tais pesquisas.

Entre os motivos para estudar o cérebro encontramos: As chamadas doenças da velhice (Alzheimer, Parkinson); o aumento de transtornos psiquiátricos advindos da forma de vida na atual sociedade, gerando muitos afastamentos do trabalho e consequente ônus ao governo; a dependência de drogas controladoras de humor; as pesquisas sobre drogas para desenvolvimento cognitivo, com investimentos altos vindos da indústria farmacêutica.

Descobrimos e continuamos descobrindo muito sobre o funcionamento de nosso cérebro, mas esse conhecimento ainda é insuficiente para nos explicar o que é a mente, como é formado nosso pensamento, como nossos estados mentais (crenças, desejos, sentimentos, sonhos, etc.) surgem e quais as interferências entre eles e os estados físicos.

Por não termos elementos para explicar os estados mentais a partir dos métodos e critérios utilizados pela ciência para conhecer e explicar a natureza e, ao mesmo tempo, por nos parecer essencial ao humano conhecer estados que implicam em sua subjetividade, em seus estados conscientes, em sua intencionalidade e que geram, inclusive, alterações em seus estados físicos; também por acreditarmos que nossos estados mentais revelam aquilo que nos identifica como humanos, aquilo que nos torna o que somos e, principalmente, que são essenciais a nós, alguns pensadores defendem que a filosofia da mente é a metafísica contemporânea, ou seja, aquela que se dedica à busca dos fundamentos de nossas formas de vida.

De outro lado, o exame de nossos processos de pensamento, de construção de conhecimentos, de elaboração e fixação de nossas crenças, denota o caráter *epistemológico dos estudos em filosofia da mente.

Além disso, questões éticas, tais como: devemos modelar nossa mente com medicamentos para nos adaptarmos às formas de vida contemporâneas ou devemos rever nossa organização social e política, buscando formas de vida mais adequadas a nossas necessidades?

Temos liberdade, livre arbítrio, ou simplesmente somos determinados pelo “caldo químico” composto pelos neurotransmissores que provocam os movimentos sinápticos (comunicação entre células nervosas: neurônios) em nossos cérebros? O que se modifica em nós quando incorporamos partes artificiais como próteses, válvulas cardíacas, etc.? O que se modifica em nós pela inclusão de novas tecnologias que atuam através de simulação ou como interfaces? Ocorre uma metamorfose em nossas formas de vida? Em nossos corpos? Em nossas mentes? Lúcia Santaella, em Corpo e Comunicação, diante de tais modificações geradas pela incorporação da tecnologia questiona: seria necessário uma nova **ontologia do humano?

Estes são apenas alguns entre os muitos motivos que temos para estudar filosofia da mente e que a tornam a metafísica contemporânea. Longe de dogmatismos gerados por visões apressadas acerca do mental, a dúvida que coloca nossas certezas em movimento estabelece a interface entre neurociência, medicina, psicologia, inteligência artificial, arte, filosofia e tantas outras áreas do saber que contribuem para a ampliação de nossa compreensão da existência.

*Fil. Ref. ou inerente à epistemologia, à teoria do conhecimento (concepção epistemológica); EPISTÊMIC. iDicionário Aulete

**1. Fil. Parte da filosofia que estuda a natureza dos seres, o ser enquanto ser.iDicionário Aulete

**2. Fil. Doutrina sobre o ser.iDicionário Aulete

Referências Bibliográficas:

DESCARTES, R. Meditações da filosofia primeira. (Col. Os Pensadores). São Paulo: Abril, 1974.
SANTAELLA, L. Corpo e comunicação: sintoma da cultura. São Paulo: Paulus, 2004.
SEARLE, J. Mind. Oxford University Press, 2004.
TEIXEIRA, J. F. Como ler a Filosofia da mente. São Paulo: Paulus, 2009.

quarta-feira, 6 de abril de 2011

Agendamentos

Miguel Angelo Caruzo
Filósofo Clínico
Juiz de Fora – MG

Recebemos ao longo de nossa existência uma série de agendamentos. Entenda-se agendamento como influência recebida por diversos meios e que exercem algum tipo de reação em nós, moldando o que somos. Na sociedade encontramos uma série de influências que são aceitáveis coletivamente por se tratar de conteúdos geralmente expressos por autoridades como a ciência, a psicologia, os meios de comunicação, a religião, etc.

Ao nos depararmos com situações diversas do nosso cotidiano, os que tendem a querer uma explicação plausível, recorrem a essas explicações prontas. Por exemplo, uma pessoa se encontra triste e resolve ficar fechada em seu quarto por um tempo.

Na primeira tentativa de explicar o que está acontecendo com essa pessoa o que comumente pode vir é o diagnóstico de depressão. Pronto! Já sabemos o que nosso amigo, parente, ou nós mesmos temos. Como se tudo fosse tão fácil de definir desse modo.

O erro parece estar em querer aplicar leis gerais ao indivíduo. O que não poderia ser de modo algum aplicado, já que as leis gerais ou definições universais partem do indivíduo e não o contrário. E, no processo de elaboração de universalidades, as particularidades são deixadas de lado. Ou seja, para a compreensão do todo, recorre-se a generalizações. Mas, isso não se aplica quando se pretende compreender o individuo em sua complexidade.

Nos hospitais psiquiátricos os pacientes tendem a ser chamados e a se denominar pelo diagnóstico que tem. Alguns são esquizofrênicos, outros depressivos, etc.

Na sociedade, dita saudável, alguns se denominam bipolares, outros depressivos, outros aplicam teorias freudianas para fundamentar suas particularidades. Alguns afirmam sua conduta como um transtorno assim como diversas teorias apresentam.

Infelizmente, a compreensão do humano nesses casos se reduz a uma estatística. O homem é considerado uma máquina que por um manual pode ser consertado, restando apenas o reconhecimento dos sintomas para que se consulte o “dicionário” que contém as fórmulas e resoluções a serem tomadas.

Já que o processo de esclarecimento das ambigüidades e limitações dos diagnósticos coletivos não é possível ser dirigido às massas, urge que se conscientizem os profissionais que trabalham com o ser humano de que não estão diante de um conjunto de engrenagens pré-definidas.

A concepção de subjetividade deve ser proposta para que se humanizem mais os métodos de cuidado com o indivíduo. Cada caso deve ser considerado único e irrepetível, a experiência não deve ser tomada para a repetição de métodos e diagnósticos a priori, mas sim para aprimorar a prática do cuidado e da abertura ao outro que se apresenta.
Assim é para mim!

terça-feira, 5 de abril de 2011

Papel existencial ou escolha nossa de cada dia

Rosângela Rossi
Psicoterapeuta e Filósofa Clínica
Juiz de Fora/MG


Televisão desligada. Que delícia! Nem novela, nem BBB.
Noite quente com céu estrelado. Janela aberta para o mundo.
Ar entrando no peito e reflexão sobre os papéis existenciais e as escolhas nossas de cada dia.

Em nossa incrível singularidade vamos escolhendo o que fazer e o como fazer num mundo cheio de possibilidades.

A ação nossa de cada dia imprime nossa marca registrada.
Em cada lugar e circunstância fazemos um tipo de escolha.

Somos multiplos e plurais. Capazes de diversificação e papeis diferentes.

Se assim não acontecesse estaríamos engessados atrás de uma persona, máscara.
Porque somos livres, seres da escolha, vamos trocando de papéis e de máscaras.

Ilusoriamente pensamos que temos que apenas ter um só papel existencial em todos os lugares.
Se isto acontecesse... O professor ao invés de ter o papel de pai, ou de marido, ou de amigo, seria em todos lugares , o professor. Já pensou que chatisse para os filhos, amigos e esposa?

O incrível é poder representar em cada momento o papel correspondente. Hora de ser mãe , é hora de ser mãe e não psicóloga ou pedagoga. Hora de ser psicóloga , é hora de ser psicóloga e não ser mãe.

Abertura, flexibilidade,liberdade auxiliam neste exercício de vivermos cada papel existencial com inteireza e sabedoria. Presentes no tempo do agora. Atentos.
Inteligência nada mais é do que a capacidade de transitarmos pelos vários papeis existenciais que a vida nos apresenta. Com certeza a vida nossa de cada dia fica mais rica e menos monótona.
Que papel você está vivendo agora?

Já pensou em se libertar dos rótulos e brincar com as possibilidades infinitas que as novidades do agora nos traz?

Pois, pois....

Afinal somos metamorfoses ambulantes borboleteando aos ventos, dançarinos cósmicos no exercício de ser.

segunda-feira, 4 de abril de 2011

Simples assim

Sandra Veroneze
Filósofa Clínica
Porto Alegre/RS


Mais do que o refrão de uma das mais famosas músicas do Cazuza poeta, ‘ideologia, quero uma pra viver’ parece ter se tornado um mantra sagrado ou grito desesperado de muitas pessoas.

Qual é o sentido da vida? Pra que viver? Qual é o verdadeiro significado de tudo isso? Questões como esta acompanham as pessoas todos os dias, colocando pontos de interrogação em acontecimentos, situações, relacionamentos, coisas...

Algumas pessoas encontram sentido para a própria existência no desenvolvimento profissional. Para outras, a família é o centro de tudo. Algumas ainda orbitam sua existência em volta da satisfação dos sentidos, da busca dos prazeres... As opções são tão numerosas quanto são as pessoas vivas neste planeta.

Algumas pessoas, inclusive, fazem da busca de um sentido para a vida o próprio sentido da vida. E nisso não reside novidade alguma. O que seria da filosofia e da história do pensamento da humanidade, não fossem estas inquietações?

Viver simplesmente, para quem anda às voltas de um sentido, pode ser desesperador. Não raro, junto com o sentido, busca-se o método. Um jeito de fazer as coisas, um jeito de transitar pela vida, um jeito de administrar as dores e alegrias, um jeito, um jeito... Um jeito que será o melhor, o mais correto, o que garantirá melhores resultados...

E a vida pode ficar um pouco engessada. Porque existem acontecimentos que simplesmente não se enquadram em nenhuma das caixinhas que conseguimos construir até então e talvez nunca consigamos... Surpresas, imprevistos, etc, vão rareando...

E o que está por trás disso? Necessidade de controle? Insegurança? Falta de confiança na sabedoria da vida? Mais uma vez, respostas como estas são tão numerosas quanto as pessoas vivas neste planeta.

Em se tratando de sentido pra vida, é muito sábio o ditado de que pra cada cabeça, uma sentença. Ponto para aqueles que, ao se inquietar e encontrar respostas (ou não), o fazem por um desejo íntimo, um ímpeto pessoal e intransferível de compreender, se integrar, até transcender cada acontecimento, sem pautar-se pelas convenções, simplesmente porque são convenções...

Viver é bem diferente de administrar a vida.

domingo, 3 de abril de 2011

Fragmentos filosóficos delirantes XXXV*


"Esperar clarear, para andar no calçadão. Quando me recomendou arejar o juízo andando no calçadão, meu combativo analista me disse: "Você vai fazer uma coisa que vai mudar a sua vida." Como todo mundo, principalmente escritor, quer mudar de vida, topei. De fato mudei, agora fico bestando, esperando clarear para andar no calçadão."

"Recebo uma beijoca de uma senhora encanecida, que se confessa minha fã. Emocionado, fecho os olhos e penso que foi a moça do saiote. Agradeço penhoradamente e sigo em frente glorioso."

"Ao atravessar a avenida para tornar à casa, topo com Zé Rubem Fonseca, barbado e embuçado, que finge que não me vê. Deve ter ingressado na carreira de crítico literário. Ou então deve ter acatado um conselho do analista dele. Deixo-o em paz. Mais tarde telefono e digo a ele que meu computador é maior que o dele. Isso mata o bicho."

"Primeiro o expediente. Dois fax ( faxes ? Pensando bem, esqueçam que perguntei, chega de gozação com a minha condição de acadêmico). Dois esse negócio que chega pelo fio do telefone, ambos do Ministério da Cultura e ambos endereçados a João Ubaldo Ribeiro Filho. Respondo ou não respondo, já que não sou João Ubaldo Ribeiro Filho (e, aliás, prefiro João Ubaldo de Oliveira, já estou mais acostumado)? Opto por não responder, não quero assumir falsa identidade. Além disso, essa coisa de João Ubaldo Ribeiro Filho pode não cair bem com minha mulher. Fax à cesta. Que mais? Diversos convites para trabalhar de graça, como sempre. Convites à cesta. Originais que querem que eu leia. Não leio, mas não tenho coragem de atirá-los à cesta e ponho-os na pilha piramidal que já me entope o gabinete e já me rendeu ameaças de divórcio. Cartas a responder. Respondo depois."

"Trabalhando em mais uma obra-prima. Quanto mais escrevo, mais difícil fica. Talvez deva dar outra andada no calçadão, antes de pegar nisso. Não, não, nada de correr da presa, ao trabalho. Além disso, como tomar um uísque escondido no Diagonal, no fim da manhã, sem muita culpa? Não, senhor, escrever. Que coisa mais besta, esta, o sujeito sentado aqui, escrevendo uma porção de histórias que nunca aconteceram, sobre gente que nunca existiu. Um amigo meu, quando me queixei, me disse que não fui eu quem inventou isso, que, desde que o homem aprendeu a escrever, escreve histórias. Ou até antes de escrever, como no caso de Homero. Portanto, não tem nada de ficar questionando, tem é de sentar aqui em frente ao monitor e mandar ver. Mando ver, saem umas mixariazinhas desconsoladas. Amanhã eu conserto, ou então depois de amanhã. Mas ninguém pode dizer que não trabalhei, Deus é testemunha. Uísque no Diagonal."

"Paranóico sendo, suponho que de nascença (recusava-me a nascer e só fui aparecer — a fórceps — depois de dez meses de gestação), de vez em quando me vêm pesadelos, quase certezas, sobre como seremos legislados para a prática de todos os atos de nossa vida, privada ou não."

"No Brasil, podemos não estar na vanguarda tecnológica. Mas, na legislativa, acho que de vez em quando damos mostras de que temos condição, havendo vontade política, de aspirar a uma posição de destaque. Agora mesmo, leio aqui que se encontra em curso, na Câmara de Deputados, um projeto para a regulamentação da profissão de escritor. Já houve uma tentativa anterior,aliás estranhamente apoiada por alguns escritores profissionais, que não vingou. Mas deve ser uma área atraente demais para ainda não estar regulamentada. Claro, nem todas as atividades, ofícios e profissões estão ainda regulamentadas, mas a dos escritores parece ser importante em excesso, para tão prolongado esquecimento governamental."

"Os sindicatos da categoria, naturalmente, assumirão atribuições formidáveis, com o decorrer do tempo. Ficar contra a maioria, por exemplo, poderá render expulsão e a conseqüente impossibilidade de exercer a profissão. Não está tampouco fora de cogitação que um sindicato muito atuante emita, depois das tradicionais assembléias tumultuadas, palavras de ordem a seus filiados. A política do sindicato, por exemplo, poderia ser não aceitar, sob penas variadas, que se escrevessem romances de amor ou literatura igualmente alienante. Quem escrevesse, além de punido, seria traidor da categoria. Para não falar em greves, obrigando os laboratórios farmacêuticos (pensando bem, talvez eles mereçam) a mandar um representante à casa de cada consumidor, para expor-lhe oralmente o conteúdo da bula e matando de fome heróica os que, como eu, vivem da ingrata pena."

"E, ça va sans dire, chegará o dia dos cursos. A coisa ficará um pouco fora de controle, haverá escritores de carteirinha em demasia, muitos despreparados para o exercício do mister, o descalabro terá que acabar. Para resolver isso, será criada uma comissão de notáveis (falar nisso, onde andam as comissões de notáveis, outrora tão abundantes e comentadas?), que, após dois anos de jetons e denúncias de interesses escusos, recomendará a criação de cursos superiores para escritores. Talvez como especialização, ou pós-graduação, dos atuais cursos de letras. O que vai interessar é o diploma para tirar a carteirinha. Para os veteranos, como novamente eu, talvez se consiga um provisionamento ou se exija um examezinho de habilitação, mas ainda assim a velha guarda será encarada com desprezo pelos novos, por faltar a ela a verdadeira formação profissional."

* João Ubaldo Ribeiro

sábado, 2 de abril de 2011

Fragmentos filosóficos delirantes XXXIV*


"A vida só é possível reinventada.

Anda o sol pelas campinas
e passeia a mão dourada
pelas águas, pelas folhas...
Ah! tudo bolhas
que vem de fundas piscinas
de ilusionismo... — mais nada.

Mas a vida, a vida, a vida,
a vida só é possível reinventada."


"Eu não tinha este rosto de hoje,
assim calmo, assim triste, assim magro,
nem estes olhos tão vazios,
nem o lábio amargo.

Eu não tinha estas mãos sem força,
tão paradas e frias e mortas;
eu não tinha este coração
que nem se mostra.

Eu não dei por esta mudança,
tão simples, tão certa, tão fácil:
— Em que espelho ficou perdida
a minha face?"


"Não te aflijas com a pétala que voa:
também é ser, deixar de ser assim.

Rosas verá, só de cinzas franzidas,
mortas, intactas pelo teu jardim.

Eu deixo aroma até nos meus espinhos
ao longe, o vento vai falando de mim.

E por perder-me é que vão me lembrando,
por desfolhar-me é que não tenho fim."


"Eu canto porque o instante existe
e a minha vida está completa.
Não sou alegre nem sou triste:
sou poeta.

Irmão das coisas fugidias,
não sinto gozo nem tormento.
Atravesso noites e dias
no vento.

Se desmorono ou se edifico,
se permaneço ou me desfaço,
— não sei, não sei.
Não sei se fico ou passo.

Sei que canto. E a canção é tudo.
Tem sangue eterno a asa ritmada.
E um dia sei que estarei mudo:
— mais nada."

*Cecília Meireles