segunda-feira, 25 de abril de 2011

Escolher para ter ou ser?*

O futuro é um passado
que ainda não se
realizou.
Clarice Lispector


Os critérios de escolha do papel existencial acompanham a singularidade. Em meio às construções e desconstruções trilham seu caminho rumo às várias possibilidades.

Obstáculos e dúvidas perpassam o caminho da maioria. O sucesso profissional tem muitas vezes, em suas raízes, momentos de incerteza e insegurança.

Nesse sentido encontramos histórias curiosas, desafiadoras, intrigantes e aventureiras. Fruto de estruturações tópicas que determinam o compasso de cada pessoa.

A representação de mundo girando entorno de status e retorno financeiro, são fatores influentes nessa escolha, para algumas pessoas. Buscam uma profissão que responda tal necessidade, pois, para eles, é importante estar bem colocado no mercado e ocupando um lugar de destaque perante a sociedade.

Do outro lado encontramos os peregrinos em seu próprio mundo. Para esses a única certeza é o caminho: estradas, trilhas, desvios. Suas escolhas seguem pela via marginal aos princípios de verdade.

Encontrar e fixar seu “lugar no mundo” não é determinante, o que importa é continuar buscando. Nesse contexto são comuns as cobranças externas. Elas chegam a ser angustiantes para sujeitos ainda despreparados para assumir uma profissão. Sufocam talentos e direcionam mal os indecisos. Podendo ser o inicio de um futuro conturbado.

Outros procuram no teste vocacional alguma dica. Querem acertar, ou pelo menos se aproximar de algo interessante para suas vidas. Buscam uma especialização mais próxima de sua singularidade.

A necessidade de vivenciar outros possíveis acompanha alguns sujeitos. Nem todos escrevem sua história usando um único personagem. A experimentação é útil nesse contexto, podendo ser empírica ou abstrata.

As vivências no mundo sensível são um exercício de plasticidade, pois envolvem algo mais que somente escolhas. Elas se oferecem em sensações e descoberta de habilidades, também na interseção com outras representações de mundo.

Nessa dialética as antíteses podem aparecer na forma de péssimas escolhas. No meio do caminho a pessoa descobre: “Aqui não é meu lugar”, ou “isso não é para mim”. Seguindo em uma nova direção.

Ao olhar externo esse comportamento aparece, muitas vezes, como: instáveis, perdidos ou irresponsáveis e, no entanto é um jeito de ser e estar no mundo.

Na forma ideal esse desconforto pode ser controlado. O sujeito pensa e conduz seu roteiro. Os limites e o tempo são determinados por ele. Aqui qualquer papel existencial pode ser vivido. Essa foi à forma utilizada por uma jovem estudante para conseguir amenizar as dúvidas a respeito de qual caminho escolher.

Trazia consigo alguns elementos que gostaria de vivenciar em seu papel existencial: trabalhar bem vestida e maquiada; profissão na área de humanas; viajar, mas continuar morando na mesma cidade; continuar estudando; ser útil nas dificuldades do outro; bilíngüe; pesquisa; ter o próprio negócio; ser bem sucedida.

Atenta a seu entorno e observando pessoas já colocadas no mercado de trabalho, cada semana escolhia vivenciar, abstratamente, uma profissão. O critério usado era observar se no papel existencial escolhido alguns dos quesitos mencionados estava presente.

Sua primeira experimentação se deu após uma conversa com uma amiga aeromoça. Buscou informações sobre essa profissão e, fazendo roteiros de viagem, se imaginava voando dentro e fora do país. Colocava-se no avião atendendo aos passageiros. Entrava e saia de aeroportos. Conhecia pessoas, cidades e países. Imaginava problemas de vôo, turbulências, riscos e sua volta para casa.

Na semana seguinte sua busca seguia rumo à vida empresarial. Ao passar diante de uma loja que lhe chamou a atenção, resolveu pensar seu próprio negocio. Não deixou passar nenhum detalhe: Decoração, público alvo, mercadorias e lucros. Responsabilidades de empregador, impostos e funcionários.

A cada encontro relatava sua experiência e, como se estivesse fazendo um arquivo, guardava as melhores e descartava as desagradáveis. Assim seguimos e mais uma vez se mostrava a importância de respeitar o tempo e o momento da subjetividade envolvida.

No entanto, talento e aptidão ainda parecem ser os melhores aliados na escolha de uma profissão. Eles podem proporcionar prazer, alegria, satisfação, oferecendo caminhos ao sucesso de cada um.

O papel existencial não é conclusão, pode ser o início de uma caminhada de muitos desvios e descobertas de outras rotas e possibilidades.

*Ana Cristina da Conceição
Filósofa Clínica
Porto Alegre/RS

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