terça-feira, 31 de maio de 2011

Drogas

Lúcio Packter
Filósofo Clínico


As melhores propagandas a favor das drogas talvez venham das pessoas que as atacam.Reprimir, tornar ilegal, desacreditar, exibir efeitos pejorativos, oferecer como contrapartida nossos preceitos sociais, isso é como combater o diabo mostrando o que ele tem de melhor.

E, mais ou menos assim, surgem textos inspirados como On the Road, de Jack Kerouac.

Uma das evidências que estatísticas do Ministério da Saúde reúnem aponta que muitas pessoas estão se entupindo com cocaína, chocolate, anestésicos, soníferos, perfumes, tinturas, bebidas e provavelmente o fazem, entre outras coisas, porque as drogas podem ser socialmente necessárias, como socialmente necessária pode ser a mania persecutória contra elas; esta razoável contradição torna as drogas muitas vezes o fascínio e o medicamento, sua prescrição indicada. Lembro que quando li El Horla, de Guy de Maupassant, pensei no quanto as drogas amenizaram suas terríveis vivências e se em tal caso não seriam elas quase uma indicação.

Quando faço palestras para médicos, como houve recentemente no Hospital Psiquiátrico, em Goiás, e me perguntam sobre o combate às drogas logo me recordo de Aldous Huxley, em seu livro de 1954, The Doors of Perception, e daquelas descrições de quando utilizou mescalina. Mais de uma vez fica grotesco uma sociedade, distante abismos e estrelas da coerência, da humanidade, da verdade e dos princípios que persegue com leis e recompensas; mais de uma vez é estranho que esta droga pareça desmerecer outras como ela. Seria bastante mais sensato, considerando a ordem geral das coisas, que hospitais e escolas atendessem e servissem drogas conforme cada caso e suas especificidades.

Ao comprar sabonete,cafeína, maquilagem a pessoa teria acesso a recomendações, advertências, explicações existenciais.

A sociedade sobreviveria sem necessitar de policiais estourando bancas de drogas ilícitas, sem muitos dos que vivem desta indústria de seqüestros e metralhadoras, sem muitas destas pessoas que procuram apagar incêndios fazendo fogueiras.

Provavelmente teríamos excessos e episódios a lamentar, mas isso seria melhor do que o que estamos presenciando no momento.

O modo como a droga vem sendo combatida é tão nocivo quanto o que se afirma dela. Causa estragos que tentamos evitar. Gera desconfiança, corrompe indiretamente as éticas, fecha portas que ao menos destravadas poderiam estar. E os resultados são evidentes.

William Burroughs é um exemplo destas contradições reunidas e vivenciadas nas diferentes opiniões. Primeiro em Junkie: Confessions of na Unredeemed Drug Addict, de 1953; depois do atendimento clínico, seis anos mais tarde surge Naked Lunch. Uma obra é a negação da outra.

Acredito que se contextualizarmos as drogas, da sociedade à subjetividade de quem as usa, certos padecimentos existenciais não precisam necessariamente ser tão dilemáticos e sofridos quanto tenho constatado em minha clínica.

segunda-feira, 30 de maio de 2011

Mas o que é a Filosofia Clínica?

Gustavo Bertoche
Filósofo Clínico
Rio de Janeiro-RJ


Quando um terapeuta se apresenta como filósofo clínico, muitas vezes ouve a pergunta que dá título a este texto. Essa pergunta é de se esperar, pois a Filosofia Clínica é uma abordagem relativamente nova – embora seja também, de certo ponto de vista, bastante antiga.

As idéias fundamentais da Filosofia Clínica foram concebidas por Lúcio Packter, médico gaúcho, a partir dos anos 80. A Filosofia Clínica ganhou sua forma próxima à atual no início dos anos 90, quando um círculo de filósofos – alunos e professores – reuniu-se em torno de Lúcio com o objetivo de desenvolver a metodologia dessa nova abordagem terapêutica.

A Filosofia Clínica tem como ponto de partida a tradição de 2.500 anos da filosofia. Uma das vertentes mais importantes da filosofia ocidental constitui-se como a tentativa de responder às perguntas: como devo agir?, o que é a felicidade?, qual o sentido da vida?.

Essa vertente, que pode ser chamada “filosofia moral”, deu inúmeras respostas a cada uma dessas perguntas. Essas respostas podem efetivamente contribuir para a orientação da vida de uma pessoa. O problema é que cada resposta faz sentido e pode ser o remédio para algumas pessoas, e não para outras.

Como decidir o remédio certo? E como fazer quando é preciso combinar vários remédios diferentes?

A Filosofia Clínica existe para ajudar a descobrir e a utilizar os remédios adequados a cada pessoa. Como isso acontece? É preciso saber filosofia para fazer essa terapia? O filósofo clínico vai sugerir a leitura de livros?

Não é preciso saber filosofia quando se procura um filósofo clínico. E na maioria das vezes o filósofo clínico não sugere livros às pessoas.

O trabalho do filósofo clínico é estudar a história de vida do partilhante para entender como ele é e, a partir do seu modo de ser, lhe ensinar a usar os remédios filosóficos mais adequados para resolver as questões que o próprio partilhante indica.

Afinal, cada pessoa é diferente; não faria sentido aplicar o mesmo remédio a todos. Cada pessoa tem a sua forma de viver; cada pessoa tem suas próprias questões, e cada pessoa tem seus próprios remédios filosóficos.

domingo, 29 de maio de 2011

Fragmentos filosóficos delirantes LI*


"A vida começa todos os dias.

Precisamos dar um sentido humano às nossas construções. E, quando o amor ao dinheiro, ao sucesso nos estiver deixando cegos, saibamos fazer pausas para olhar os lírios do campo e as aves do céu.

Quando os ventos de mudança sopram, umas pessoas levantam barreiras, outras constroem moinhos de vento.

Na minha opinião existem dois tipos de viajantes: os que viajam para fugir e os que viajam para buscar.

Felicidade é a certeza de que a nossa vida não está se passando inutilmente.

Ninguém é o que parece, nem Deus."


*Érico Veríssimo

sábado, 28 de maio de 2011

Fragmentos filosóficos delirantes L*


"Sou o que sabe não ser menos vão
Que o vão observador que frente ao mudo
Vidro do espelho segue o mais agudo
Reflexo ou o corpo do irmão.
Sou, tácitos amigos, o que sabe
Que a única vingança ou o perdão
É o esquecimento. Um deus quis dar então
Ao ódio humano essa curiosa chave.
Sou o que, apesar de tão ilustres modos
De errar, não decifrou o labirinto
Singular e plural, árduo e distinto,
Do tempo, que é de um só e é de todos.
Sou o que é ninguém, o que não foi a espada
Na guerra. Um esquecimento, um eco, um nada."


"Não sei qual é a face que me mira
quando miro essa face que há no espelho;
e desconheço no reflexo o velho
que o escruta, com silente e exausta ira.
Lento na sombra, com a mão exploro
meus traços invisíveis. Um lampejo
me alcança. O seu cabelo, que entrevejo,
é todo cinza ou é ainda de ouro.
Repito que perdi unicamente
a superfície vã das simples coisas.
Meu consolo é de Milton e é valente,
porém penso nas letras e nas rosas.
Penso que se pudesse ver meu rosto
saberia quem sou neste sol-posto."


"A tarde bruscamente se aclarou,
porque já cai a chuva minuciosa.
Cai e caiu. A chuva é só uma coisa
que o passado por certo freqüentou.
Quem a escuta cair já recobrou
o tempo em que a fortuna venturosa
uma flor lhe mostrou chamada rosa
e a cor bizarra do que cor tomou.
Esta chuva que treme sobre os vidros
alegrará nuns arrabaldes idos
as negras uvas de uma parra em horto
que não existe mais. A umedecida
tarde me traz a voz, a voz querida
de meu pai que retorna e não é morto."


"A bengala, as moedas, o chaveiro,
A dócil fechadura, as tardias
Notas que não lerão os poucos dias
Que me restam, os naipes e o tabuleiro,
Um livro e em suas páginas a ofendida
Violeta, monumento de uma tarde,
De certo inesquecível e já esquecida,
O rubro espelho ocidental em que arde
Uma ilusória aurora. Quantas coisas,
Limas, umbrais, atlas e taças, cravos,
Nos servem como tácitos escravos,
Cegas e estranhamente sigilosas!
Durarão muito além de nosso olvido:
E nunca saberão que havemos ido."

*Jorge Luis Borges

sexta-feira, 27 de maio de 2011

Nosso, sempre nós

Rosângela Rossi
Psicoterapeuta e Filósofa Clínica
Juiz de Fora-MG


Sair do "eu" dos "meus" e mergulhar nos "nós" dos "nossos" pode parecer pura brincadeira linguística, porém é muito mais que uma reflexão, é ação efetiva de gente que sabe amar generosamente.

O ego, o eu do egoísmo, sempre espera ser amado. Deseja sempre poder controlar, dominar, explorar e tirar vantagens. A alma, espaço do nós, nada espera, ama por amar. Compartilha. Respeita as singularidades. Escuta. Doa-se livremente.

Nada me pertence porque tudo é do nosso mundo. Somos pertencentes nesta jornada infinita de ser e não ser tudo e nada. Quando consigo sair do "meu" e entrar no "nosso", há o encontro sublime nesta existência tal qual se apresenta.
Dissolvo e me enrosco na ternura, como bicho amante, anjo divino.
Acolho e sou acolhida. Êta vida! E tudo fica mais simples...

Caminhamos de mãos entrelaçadas, coração aberto na experimentação.
Haja dor ou alegria a compartilhar. Risos ou lágrimas a dividir. No "nosso" encontro palavras se transformam em poesia deixando fluir a compaixão, o cooperar, a generosidade, os mil verbos no exercício do amar.

"Imagine"... Todas as pessoas numa só voz, transformando as utopias em realidade!
E a luz da consciência expandindo por todo cosmos num único Amém!

quarta-feira, 25 de maio de 2011

Vontade dirigida

Sandra Veroneze
Filósofa Clínica
Porto Alegre-RS

Outro dia estava em uma roda de bar, com amigos. O fato de optar sistematicamente por água mineral enquanto todos consumiam cerveja e chopp levou à discussão sobre o hábito de beber.

Eu não tomo cerveja e chopp porque ficam uma semana fermentando no meu estômago e não consumo as bebidas destiladas porque me dão sono. Fora esses argumentos, confesso que o único estado de consciência alterado que me agrada é o da meditação – o que, evidentemente, não me torna aquelas quase abstêmias radicais que só faltam fazer o sinal da cruz quando passam na frente de um bar.

Em determinado momento da conversa, perguntei a uma amiga se ela conseguiria ficar sem beber e sem fumar durante os nove meses de gestação de um bebezinho, desejo que é ponto pacífico nela. Não houve titubeio. A resposta foi imediata: lógico!

Acredito que esse recorte dos acontecimentos da noite permite várias interpretações, mas vou me ater a um: o poder da vontade dirigida. Eu acredito sinceramente que minha amiga ficará sem beber e sem fumar enquanto gera uma nova vida. Mas não acredito que da noite para o dia ela pararia de beber e fumar pura e simplesmente porque não se tratam exatamente dos hábitos mais saudáveis que alguém pode ter.

Isso me faz pensar o quanto nós, pobres seres humanos mortais, somos poderosos, quando floresce em nosso coração algo que é maior que nós mesmos, ou que nos conecta com algo que é maior que nós mesmos.

Gerar uma nova vida é sem dúvida um dos gestos mais nobres que um ser humano pode ter, e que por si só merece todo cuidado, todo zelo, toda uma energia canalizada para que venha saudável e potente para ser feliz e realizada. Por esses motivos, e por tantos outros mais, minha amiga não tem dúvida de que conseguiria parar de fumar e beber. E mais: faria questão. Para ela, não importa o próprio prazer. Ela o sacrifica, em nome de algo que entende merecedor.

Eu acredito que a vida, vira e mexe, nos convida a rever nossos conceitos e hábitos. Uma pessoa pode parar de beber e fumar como forma de zelar e honrar por uma nova vida que chega. Outra pessoa poderá fazer o mesmo por outras razões. Quantas vezes, por exemplo, ouvimos relatos de pessoas que o fizeram durante uma promessa e pedido pela salvação da vida de alguém? Muitas vezes o despertar espiritual leva ao mesmo caminho.

O que mais me encanta, nessas histórias todas, é o altruísmo. Por outro, nos superamos. Pelo outro, somos capazes de extrapolar nossas limitações e nos colocar a serviço. E assim renovo minha crença no ser humano. O mundo tem jeito!

terça-feira, 24 de maio de 2011

A versão dos rascunhos*

“(...) As relações internas que o tornam belo para quem o vê precisam ser descobertas e, de certa forma, atribuídas pelo admirador.”
Jacob Bronowski


Um diálogo eficaz com a expressividade das transições é incapaz de se sustentar sem a participação da esteticidade. Os contornos dessa aventura pioneira se oferecem numa lingua estranha. Suas palavras são outras palavras e indicam origens diversas numa arquitetura de aspecto caótico.

Ao tentar acessar a conversação entre a subjetividade e seu entorno (agora contraditório), é possível descobrir-se um único exemplar da espécie, um projeto irrepetível e desordenado ao olhar das conferências exorbitantes ao seu redor.

Para se iniciar um processo de decifração desses discursos fora de propósito é importante qualificar a interseção entre o olhar e a escuta. Assim esse movimento interior repleto de imagens pode ser visitado com alguma eficácia, revelando circunstâncias inéditas e dons extraordinários.

É comum esses conteúdos da experiência delirante se mostrar como algo assustador, já que se trata de uma realidade desconhecida. No caso dos termos assim agendados, o dizer refere coisas inacreditáveis. Suas tentativas de descrever o que vê e sente, raras vezes encontra reciprocidade na ciência normal.

Ao visar assim descrito o fenômeno da loucura parece ser a tentativa de compartilhar eventos numa semiose ainda sem tradução. Seus incríveis episódios contém feitos irreconhecíveis ao passado recente.

Em um sujeito fora de foco podem ser verdades camufladas numa epistemologia avassaladora. Embora suas anterioridades continuem a existir, elas não se reconhecem mais na mesma estória. Suas aberturas vão sendo redesenhadas numa pintura até então desconsiderada.

As novíssimas expressões costumam surgir em contextos inesperados. Contraditórias ao mundo normal, valorizam uma retórica avessa ao uso comum. Nalgum ponto entre o traço atual e o que busca superar, a lógica dos excessos aparece em linguagem marginal e desfocada. Esses instantes de crise da transição pessoal costumam ser contidos a golpes pela farmácia alienista.

A palavra da pessoa assim descrita é desvalorizada em detrimento de outro saber, a partir de agora irreconhecível. Sua confusão se agiganta na relação com o saber especialista. Esse a institui como algum tipo conhecido de doença para depois convertê-la. Assim as possibilidades contidas nesse rascunho são desprezadas e reconduzidas ao seu lugar de origem. Aí se tem a matriz das tipologias incuráveis.

Ao vislumbrar uma interseção entre semelhanças e diferenças, o mundo estabelecido balança e tenta conter o avanço das incertezas. De súbito aparece um agora estranho, num sujeito em processo de tornar-se, onde seus rascunhos apontam um amanhã inesperado.

Em uma rua onde perduram as ilusões, a realidade que passa corre riscos de permanecer. Ao inspecionar a estrutura dos acordos, aproximações e distanciamentos, o teor das expressividades parece anunciar o território virgem dentro de cada um.

Os desdobramentos dessa novidade são preliminares ao instante envolvido com os outros de si mesmo. Sua presença pode significar mudança, alegria, tristeza, até se aprender o dialeto desses personagens na mesma estrutura. Como vidas a encontrar um sentido até então impensável.

A presença da imaginação delirante atiça um vocabulário para dialogar com os aspectos visíveis e invisíveis da realidade. Esse lugar nenhum de todo lugar, oferece vislumbres sobre o aparecimento fugaz das formas inadequadas.

Ao viver entremeios de ficção a pessoa atualiza seu discurso. A extraordinária singularidade refaz seu mapa interno e tenta compartilhá-lo numa estética dos rascunhos. Nêle as vozes sussurram e as visões sugerem outras possibilidades ao cotidiano em desconstrução.

*Hélio Strassburger
Filósofo Clínico

segunda-feira, 23 de maio de 2011

APESAR DO VEXAME, AINDA TE AMO

Ildo Meyer
Médico e Filósofo Clínico
Porto Alegre-RS


Sei que a maioria dos meus leitores são mulheres. Sei também que mulheres não são tão fanáticas por futebol quanto homens. Apesar disto, vou falar de futebol, porque minha intenção é ajudá-las a confortar seus amados. Quando chegar aquele dia em que seu amor estiver desconsolado porque seu time deu o maior vexame, mostre este artigo para ele. Quem sabe ajuda?

Dizem que futebol é uma paixão nacional. Tenho minhas dúvidas. Pode ser uma paixão para muitos, mas certamente não é unanimidade. Alguns homens têm paixão pelo traseiro feminino, outros pelo assento de seus carros... Além disso, se levarmos a sério, a definição de paixão não tem nada a ver com futebol.

Paixão, do latim “patior”, significa sofrer ou suportar uma situação dificil. Até aqui ainda está razoável, afinal de contas tem tanto “timinho” ruim fazendo maldade com seus torcedores. A continuação é quem esclarece: O acometido de paixão fantasia a realidade em função do fascínio que o outro exerce sobre ele. Com o passar do tempo, suas expectativas idealizadas não se realizam, iniciando-se então o processo de despertar, onde o ex apaixonado passa a enxergar o outro como realmente é. Apesar de intensa e arrebatadora, a paixão é um sentimento passageiro, com duração máxima de quatro anos.

Como explicar então seu time levar goleada, cair pra segunda divisão, vender o craque, trocar de técnico três vezes por ano e você continuar a vida inteira torcendo por ele? Não importa sofrimento, flauta do arquiinimigo, juras de nunca mais voltar a campo, chuva, frio, preço do ingresso, dia das mães, muito em breve você estará mais uma vez acreditando que seu time agora vai pra frente. Nada o convence do contrário. Isto está muito mais pra amor que pra paixão.

Este é o amor que toda mulher sempre sonhou receber. Incondicional, eterno, apaixonado. E por mais que se tente, fica difícil entender o que realmente os homens adoram, idolatram e amam no futebol. Uma das muitas teorias diz que através da escolha de ídolos que os representem, extravasam seus instintos básicos de luta e sobrevivência, permanecendo assim, sempre jovens.

A indignação aparece quando estes ídolos são jogadores que um dia beijam a camiseta do clube e no outro vão embora em troca de melhores salários. Transferindo esta situação para a vida afetiva, seria parecido com amar uma prostituta.

Algo me diz que devo trocar a linha de pensamento, senão vou logo arranjar confusão. Melhor partir para outra teoria, não sem antes deixar o alerta de que em toda forma de amor sempre existe um pouco de loucura, e que em toda a loucura também existe amor, em carência ou excesso.

Talvez o segredo do fanatismo e do amor apaixonado e imortal não esteja nas alegrias que o time possa oferecer, pelo contrário, está na dor e sofrimento causados e na nostalgia das glórias alcançadas. Cada humilhação, vexame, fiasco vai gerando um descontentamento no torcedor, que toma a dor para si e resgata aquela agressividade terceirizada para os jogadores falidos.

A partir daí, a luta agora é dele, que braveja, vaia, queima a bandeira, incita a revolta. A frustração vai se alastrando, unindo ruidosamente a torcida, até o momento em que a pressão por mudanças se torna insustentável. O técnico acaba sendo demitido, um jogador comprado, um dirigente afastado...

Forma-se uma nova equipe, voltam a esperança e a promessa de grandes vitórias. Quatro anos mais de paixão validada. A torcida comemora, lança foguetes, dança, abraça, vibra, beija até a próxima desilusão. Repete-se a revolta, variam as mudanças, mas uma coisa é certa, o torcedor não vai trocar de clube.

A paixão futebolística, contrariando a definição do dicionário, é eterna. Alguns pedem até para ser enterrados enrolados na bandeira do clube. A certeza da mudança em momentos críticos é a cola que mantém torcida e clube unidos com a mesma identidade, e a força que promove este movimento chama-se cumplicidade.

Diz um antigo ditado popular que aquele que tem azar no jogo, terá sorte no amor, e vice versa. No futebol, o clube sempre vai estar sempre ali, ganhando ou perdendo, esperando pelo torcedor. Na paixão isto não acontece, às vezes um vai embora e não volta mais. No futebol se ganha, se perde ou se empata, quem vencer mais vezes é o campeão. No amor não é assim, quando um ganha, os dois perdem. Amor não é competição, é cumplicidade

Quando o jogo do amor estiver mal e o casal prestes a ser eliminado, vale a mesma técnica do futebol. Ainda existe a cumplicidade? Queremos ficar juntos? Amamos-nos de verdade? Vamos realmente promover uma mudança radical para sairmos vencedores? Você me ajuda e eu te ajudo?

Aproveite a lição do futebol e experimente então se apaixonar pela mesma pessoa várias vezes e por toda a vida. É simples, basta terem vontade de mudar juntos, quando preciso for. Com sorte, vocês descobrem que o abraço de quem se ama pode consolar e consertar com folga um coração partido pelo futebol.

domingo, 22 de maio de 2011

Fragmentos filosóficos delirantes XLIX*


"Só, incessante, um som de flauta chora,
viúva, grácil, na escuridão tranqüila,
— Perdida voz que de entre as mais se exila,
— Festões de som dissimulando a hora

Na orgia, ao longe, que em clarões scintila
E os lábios, branca, do carmim desflora...
Só, incessante, um som de flauta chora,
Viúva, grácil, na escuridão tranqüila.

E a orchestra? E os beijos? Tudo a noite, fora,
Cauta, detém. Só modulada trila
A flauta flébil... quem há-de remil-a?
Quem sabe a dor que sem razão deplora?

Só, incessante, um som de flauta chora..."


"Quando a vejo, de tarde, na alameda,
Arrastando com ar de antiga fada,
Pela rama da murta despontada,
A saia transparente de alva seda,

E medito no gozo que promete
A sua boca fresca, pequenina,
E o seio mergulhado em renda fina,
Sob a curva ligeira do corpete;

Pela mente me passa em nuvem densa
Um tropel infinito de desejos:
Quero, às vezes, sorvê-la, em grandes beijos,
Da luxúria febril na chama intensa..."


"Ao longo da viola morosa
Vai adormecendo a parlenda
Sem que amadornado eu atenda
A lenga-lenga fastidiosa.

Sem que o meu coração se prenda,
Enquanto nasal, minuciosa,
Ao longo da viola morosa,
Vai adormecendo a parlenda.

Mas que cicatriz melindrosa
Há nele que essa viola ofenda
E faz que as asitas distenda
Numa agitação dolorosa?

Ao longo da viola, morosa..."

*Camilo Pessanha

sábado, 21 de maio de 2011

Fragmentos filosóficos delirantes XLVIII*


"Ó Pai
Não deixes que façam de mim
O que da pedra tu fizestes
E que a fria luz da razão
Não cale o azul da aura que me vestes
Dá-me leveza nas mãos
Faze de mim um nobre domador
Laçando acordes e versos
Dispersos no tempo
Pro templo do amor
Que se eu tiver que ficar nu
Hei de envolver-me em pura poesia
E dela farei minha casa, minha asa
Loucura de cada dia
Dá-me o silêncio da noite
Pra ouvir o sapo namorar a lua
Dá-me direito ao açoite
Ao ócio, ao cio
À vadiagem pela rua
Deixa-me perder a hora
Pra ter tempo de encontrar a rima
Ver o mundo de dentro pra fora
E a beleza que aflora de baixo pra cima
Ó meu Pai, dá-me o direito
De dizer coisas sem sentido
De não ter que ser perfeito
Pretérito, sujeito, artigo definido
De me apaixonar todo dia
De ser mais jovem que meu filho
E ir aprendendo com ele
A magia de nunca perder o brilho
Virar os dados do destino
De me contradizer, de não ter meta
Me reinventar, ser meu próprio Deus
Viver menino, morrer poeta."

*Vander Lee

sexta-feira, 20 de maio de 2011

Navegação


Idalina Krause
Filósofa Clínica
Porto Alegre-RS


Nau conduzida em sonhos
Mares, marés, maresias
Sal nos lábios
Palpitações
verde beira
calcária casca
ovo do mar
Circe espreita
círculo mitológico
Sexta-feira corre
olhar antropofágico
recomeço ou danação

quinta-feira, 19 de maio de 2011

Algumas considerações sobre as terapias

Lúcio Packter
Pensador da Filosofia Clínica


A revista SUPERINTERESSANTE, edição 254, trouxe como matéria de capa: Terapia Funciona?

Dei um longo depoimento, depois troquei alguns e-mails com a jornalista responsável pela matéria, onde aparece uma citação minha e algumas linhas esperançosas sobre o meu trabalho.

Segundo a jornalista Denize Guedes, que assina a matéria, as neuroimagens de pesquisas, como a realizada na Universidade de Leeds, Inglaterra, apontam para um parecer: talvez “a psicoterapia não funcione pelo motivo que os terapeutas apontam”. O que faria com que a psicoterapia funcionasse na opinião de muitos especialistas é o efeito placebo, a convicção da pessoa de estar sendo auxiliada, da sugestão, da vontade da pessoa em sair do conflito.

Existe algum endereçamento na Filosofia Clínica sobre isso?

Primeiro, algumas vezes a psicoterapia funciona pelos motivos nomeados pelos terapeutas. Exemplo: às vezes impulsos reprimidos, o trabalho direto com os conflitos, a identificação de crenças entortadas fazem com que a pessoa lide de outra maneira com o que a atormentava.

Sengundo, às vezes de fato o efeito placebo viceja. Neste caso, é freqüente que o carisma do terapeuta e determinados vetores de sugestão possam tornar diferentes as questões subjetivas da pessoa.

Terceiro, não é raro que a vontade da pessoa impere de tal modo que a técnica utilizada e o carisma do terapeuta lhe são indiferentes. Ela busca mudar, consegue mudar elementos problemáticos, mesmo que a terapia seja ainda mais um empecilho em sua luta.

Quarto, provavelmente se considerarmos uma pessoa que procure Psicodrama, Análise Transacional, Gestalt, Terapia Cognitiva, Filosofia Clínica tendo como foco a depressão não é desarrazoado supormos que semelhanças surgirão. Assim como há muitos modos de se chegar à Amazonia, há muitas maneiras de se debelar algo que se considere nocivo feito uma depressão, desde a medicação até a tiros. Se a questão se restringir unicamente a debelar algo tido como um mal, a depressão, podemos então aventar caminhos mais eficazes do que a terapia. Neste caso, a terapia se tornaria dos mais longos, onerosos, difíceis e discutíveis caminhos. Por que a utilizaríamos?

Quinto, outros cuidados se impõem. Uma indagação: não seria freqüente que uma terapia se torne pior do que a “doença” que se propôs a combater? Pode combater uma depressão que legitimamente foi um dos meios possíveis e, pela maneira como a pessoa está estruturada, um meio recomendável, para lidar com um nó existencial que exasperava a existência da pessoa. Ao combater a depressão, um fenômeno que amparava e respondia a demandas últimas da pessoa, a terapia tornou-se o mal. Assim sendo, a pessoa deveria ser medicada com a terapia, deveria cuidadosamente afastar a terapia de sua vida.

Sexto, a propriedade e a natureza das pesquisas. Como os estudiosos em Filosofia sabem, a Epistemologia mostra determinados vícios do conhecimento. Uma pesquisa que aponte para onde a matéria da revista citada olha, tal pesquisa pode facilmente levar a interpretações nas quais tudo parece próximo de ser igual: as terapias seriam todas iguais quanto aos resultados. Falso, claro. Como eu poderia dizer, por exemplo, que uma disciplina como a Filosofia Clínica, que não busca a cura (porque inexiste nela os critérios de patologia X normalidade), que não se ocupa do bem-estar, equilíbrio, hedonismos existenciais, que não usa tipologias, procedimentos clínicos a priori chegaria a resultados semelhantes a uma disciplina que tem como objetivo a cura, o bem-estar, a adequação do homem à sociedade? Talvez pudesse dizer quando existisse coincidências nos resultados. Talvez.

Sétimo, quando uma necessidade de ajuda não se faz acompanhar de ajuda psicoterápica. Muitas vezes o tempo e as contingências existenciais colocam em outras bases os dilemas; outras vezes, os próprios dilemas se tornam parte da construção e são essenciais para o que se segue, semelhante a dor e as contrações de um parto.

quarta-feira, 18 de maio de 2011

Filosofia Clínica e valores: uma reflexão a respeito do que nos importa na vida

Bruno Packter
Filósofo Clínico
Florianópolis-SC


Desde a Antiguidade a palavra valor foi usada para indicar a utilidade ou o preço dos bens materiais e a dignidade ou o mérito das pessoas.

Para o filósofo inglês Thomas Hobbes, por exemplo, “… o valor ou a importância de um homem é, como para qualquer outro objeto, seu preço, isto é, o que se daria para dispor de seu poder.” (Leviatã)

As concepções de valores, que provavelmente encontraremos na nossa vida diária, tratam do ter poder, ter propriedades, ter beleza, ser jovem, ter um papel existencial sublime e outras mais.

Mas, na clínica filosófica, axiologia tem outra concepção.

Na Filosofia Clínica, denominamos o que é axiologia para a pessoa, a partir de algum dado que ela relacione a um valor, como: o trabalho, a vida, por exemplo. A axiologia em filosofia clínica se refere ao valor subjetivo que os objetos ou as coisas têm para a pessoa.

Neste caso, partimos do sujeito, de sua história de vida para o entendimento da ocorrência desta movimentação e variações.

É possível aprender dados valorativos e, talvez possamos aprender a valorar determinadas coisas, dependendo dos fatores. Através de uma trajetória histórica aprendemos, em muitos casos, a valorar as coisas, conforme o contexto, conforme os reconhecimentos nossos, conforme as ofertas do meio, conforme os desejos, a disponibilidade e muitas outras questões. Às vezes, ligados a fatores emocionais, espirituais, materiais e assim por diante.

Para as pessoas que se guiam pela axiologia na vida, elas irão fazer o que é importante a elas mesmas. E, o que não for, elas descartam em muitos casos.

Será que sabemos valorar as coisas?

Às vezes, algo ou alguém que amamos muito não é valorado como tal.

Uma pessoa que tem os dados axiológicos determinantes e uma questão forte recai exatamente sobre esta questão, causando forte abalo, o que pode muito provavelmente ocorrer? A pessoa pode não se importar mais com as coisas. Existem casos que uma pessoa pode continuar amando muito alguém, mas ela não ser mais importante. Ela não sabe mais valorar esta pesssoa. O que não quer dizer que ela não saiba comprendê-la, respeitá-la e outras coisas.

Por exemplo, algumas pessoas não conseguem valorar as coisas quando estão próximas do sujeito ou do objeto. Na história destas pessoas costumam aparecer falas do tipo: “… agora que perdi minha esposa é que sei o valor que ela tinha!”

Outras, somente conseguem valorar alguém pela ausência deste alguém. É como se a proximidade não desse condições de uma avaliação de valor.

Os valores podem oscilar ao longo da vida, às vezes, podem se transformar também.

Muitas situações acontecem aqui. Em certos casos, os dados axiológicos nunca se modificaram, às vezes, são os mesmos valores dos 06 anos de idade. Outras vezes, são diferentes; outras, não existem mais.

Para algumas pessoas, a construção dos valores se dá pela adoção do que é importante ao ambiente, ou seja, é a sociedade que dita seus valores.

Mas, a verificação, de como é para cada pessoa, parte fundamentalmente da historicidade, das suas vivências.

Se a Axiologia – os valores - não for determinante na vida da pessoa, ou seja, não tratam das suas orientações subjetivas, provavelmente a vida desta pessoa não estará ligada em valores.

Por outro lado, para uma pessoa que se guia por valores e, que atribui critérios rígidos a estes valores, cada situação nas suas vivências terá maior ou menor importância.

segunda-feira, 16 de maio de 2011

DEZ COISAS A SEREM APRENDIDAS COM O JAPÃO


Rosangela Rossi
Psicoterapeuta e Filósofa Clínica
Juiz de Fora-MG


Apesar das tragédias que vieram passando, o Japão é exemplo que deve ser seguido.


1 – A CALMA
Nenhuma imagem de gente se lamentando, gritando e reclamando que “havia perdido tudo”. A tristeza por si só já bastava.

2 – A DIGNIDADE
Filas disciplinadas para água e comida. Nenhuma palavra dura e nenhum gesto de desagravo.

3 – A HABILIDADE
Arquitetos fantásticos, por exemplo. Os prédios balançaram, mas não caíram.

4 – A SOLIDARIEDADE
As pessoas compravam somente o que realmente necessitavam no momento. Assim todos poderiam comprar alguma coisa.

5 – A ORDEM
Nenhum saque a lojas. Sem buzinaço e tráfego pesado nas estradas. Apenas compreensão.

6 – O SACRIFÍCIO
Cinquenta trabalhadores ficaram para bombear água do mar para os reatores da usina de Fukushima. Como poderão ser recompensados?

7 – A TERNURA
Os restaurantes cortaram pela metade seus preços. Caixas eletrônicos deixados sem qualquer tipo de vigilância. Os fortes cuidavam dos fracos.

8 – O TREINAMENTO
Velhos e jovens, todos sabiam o que fazer e fizeram exatamente o que lhes foi ensinado.

9 – A IMPRENSA
Mostraram enorme discrição nos boletins de notícias. Nada de reportagens sensacionalistas com repórteres imbecis. Apenas calmas reportagens dos fatos.

10 – A CONSCIÊNCIA
Quando a energia acabava em uma loja, as pessoas recolocavam as mercadorias nas prateleiras e saiam calmamente.

NENHUM ARRASTÃO, CONTRA O POVO ou PARA ROUBAR O COMÉRCIO

domingo, 15 de maio de 2011

Fragmentos filosoficos delirantes XLVII*


"Encontrei um verso fraturado,
caído na esquina da rua do lado,
Tinha se perdido de um coração saudoso
que passava por ali, desiludido.

Coloquei-o de pé,
emendei seus pedaços,
refiz suas linhas,
retoquei seus traços.

Afaguei suas dores como se fossem minhas.
Agora, novamente estruturado,
espero que ele não olhe para trás
e não misture sonhos
com amargas falências do passado;
que saiba enfeitar a estrela lá na frente
com fartos laços de rima colorida.

(...) pois é para o futuro que caminham
todos os passos apressados desta vida.
Acima de tudo, que se mantenha a fé."


"(...)Muito pior do que passar por isso
é sonegar emoção,
evitar o risco e o compromisso,
esconder-se atrás das grades da razão.

Quem hoje por amor está sofrendo,
Só por amar, já merece estar vivendo."

*Flora Figueiredo

sábado, 14 de maio de 2011

Fragmentos filosoficos delirantes XLVI*


"Nada saber de Geografia
ignorando, assim, a semelhança
entre a ilha perdida no oceano
e o sozinho em meio à multidão."

"Não ter qualquer noção de Geometria,
de ângulos, triângulos, polígonos;
não entender de círculos e retas,
porque só é feliz quem nada sabe,
nem percebe que o Sonho e a Realidade
fazem jornada em ruas paralelas."


"A Vida é uma vitrina de tecidos.
A gente, por instantes,
fica de olhos perdidos
na beleza das telas deslumbrantes.

Depois, entra na loja e vai comprar.
Caixeirinha gentil, a Ilusão
vem vender ao balcão
e não se cansa de mostrar,
não se cansa
de exibir delicados,
rendilhados,
leves panos de Sonho e de Esperança.

As mãos tocam de leve
na leveza das telas.
Não vá o gesto, por mais breve,
esgarçar uma delas!
Todas tão lindas! Mas a que fascina
não está ali na grande confusão
das peças espalhadas no balcão.
E a gente diz,
num ar feliz:

Levo daquela rósea, muito fina,
exposta na vitrina.
Logo o Destino vem (da loja é o dono)
e fala sobranceiro, com entono:
É artigo raro.
Marca, padrão e cor: - Felicidade.
É um artigo de alta qualidade
o mais caro
de todos os tecidos.
São cortes especiais...e estão vendidos!
E a gente vai comprar do áspero pano
que se encontra na seção do Desengano."

*Graciette Salmon
Poetisa paranaense

sexta-feira, 13 de maio de 2011

O que podia ter sido

Sandra Veroneze
Filosofa Clinica
Porto Alegre-RS


Sempre considerei a nostalgia um tanto charmosa e são muitos os momentos em que a observo e inclusive a ela me entrego. Talvez seja um pouco influência desse nosso clima sulino, que em boa parte do ano empresta à paisagem cerração, neblina, chuva fina ou torrencial e frio, às vezes muito frio.

Tudo isso convida às comidas e bebidas quentes, ao recolhimento e as visitas ao subjetivo... Pingos escorrendo pela janela e o vapor da água saindo da cuia de chimarrão ou do café quente parecem funcionar como senhas ou portais ao universo particular de cada um, onde lembranças e sonhos encontram terreno fértil.

De alguma forma, é um convite ao exercício da imaginação, que não raras vezes resulta em produção artística: literatura, pintura, escultura, às vezes triste, às vezes feliz...
Existe uma espécie de nostalogia, porém, que me incomoda muito. É a nostalgia do que ‘podia ter sido’.

São muito comuns frases como ‘se eu tivesse estudado, hoje teria um emprego melhor’, ‘se eu não tivesse casado com ele, hoje seria uma mulher livre e independente’, ‘se eu tivesse filhos, hoje me sentiria um homem mais completo’, ‘se eu...’, ‘se eu...’, ‘se eu...’. A imagem que construo, com frases assim, é de pessoas velhas (e isso independe de idade), com o olhar vago ao longe, corpo inerte...

Incomoda porque brota de um sentimento de frustração, de limitação, e em muitas vezes da sensação de derrota. Penso que o ser humano, por excelência, não precisa carregar, como punição, sentimentos assim ao longo da vida, e nem como justificativas para não fazer diferente.

A filosofia do ‘podia ter sido’ parece carregar consigo a premissa de que não é mais possível, não tem mais como mexer na realidade, como uma sentença, uma condenação, ao ostracismo, fim de linha. E, curioso, algumas pessoas parecem viver bem neste mundo e, aliás, têm todo o direito.
O comportamento contrário também é irritante.

Para algumas pessoas, o pensamento positivo parece bastar a si mesmo. ‘Não está bom, mas vai melhorar’ é otimismo; mas ‘A vida é maravilhosa’ da boca pra fora e ‘Que porcaria de vida’ quando deita a cabeça no travesseiro todas as noites, por sua vez, pode ser reflexo de uma vida de aparências.

Metaforicamente, a nostalgia pode parecer um marco zero, numa linha vertical. Ela tanto pode levar o indivíduo a pensamentos e sentimentos no quadrante negativo, onde prevalecerá a sensação de derrota, frustração; como pode levar o indivíduo ao quadrante positivo, onde a visita ao subjetivo resultará em melhor compreensão de si, de revitalização de sonhos e também produção, não só artística.

Em essência, a nostalgia, como exercício de fantasia ou imaginação, faz prevalecer o ‘se’. O ‘se’ é o campo de todas as possibilidades, onde é possível fazer escolhas e, de certa forma, dirigir o destino. Considero válido, especialmente porque é estratégica no evitar, contornar, ou pelo menos minimizar os riscos de uma vida vivida somente no ‘podia ter sido’.

quinta-feira, 12 de maio de 2011

Clímax*

“Clímax, orgasmo... instante de plenitude,
De singularidade sensitiva,
Entrega fugaz,
Próximo do fim.
Lugar onde...
Extravasamos no corpo o que a alma não dá conta,
Movemos instintos sem noção e sem piedade,
Transpomos afetos,
Inventamos pretextos para penetrar dores e fluidos,
Capturamos sentidos a explodir num momento único e quase eterno,
E depois... aquietamos em silêncio,
Para apenas sentir a calma da saciedade”.

*Luana Tavares
Filósofa Clínica
Niterói/RJ

quarta-feira, 11 de maio de 2011

O Continente Obscuro

Jussara Hadadd
Terapeuta Sexual e Filósofa Clínica
Juiz de Fora/MG


O apetite sexual é nato em cada um de nós, fazendo parte da característica de nossa personalidade, podendo ser desenvolvido ou reprimido dependendo do ambiente de criação.

Na relação sexual, chegar ao orgasmo ainda é muito difícil para boa parte das mulheres. A Secretaria de Saúde do Estado de São Paulo mostra que 18,2% das brasileiras são diagnosticadas anorgásmicas (ausência de orgasmo) e 5,2% tem algum tipo de inibição sexual, que aponta para problemas de excitação durante as relações sexuais

Por que chegar ao clímax é assim tão difícil? O Psicológico é considerado o fator preponderante. A grande maioria dos diagnósticos de distúrbios sexuais é de natureza psicológica, social ou cultural. Somente 13% das pacientes têm problemas de natureza orgânica, como alterações hormonais ou distúrbios originados por alguma doença.

O orgasmo é uma experiência ao mesmo tempo psicológica e orgânica que dura entre 2 a 10 segundos dependendo da qualidade da relação e variando de mulher para mulher. Durante um orgasmo a respiração fica mais rápida percebendo-se ainda um aumento dos batimentos cardíacos, possível aumento da pressão arterial e perda dos sentidos.

Em Freud, vimos que o orgasmo clitoriano categorizava a mulher imatura, e o vaginal a elevava à plenitude feminina. Se antes a mulher desconhecia a possibilidade do orgasmo, não tê-lo agora significava problema.

Enquanto Freud se concentrava nos estudos do orgasmo, ponderando os méritos do gozo através do clitóris contra o vaginal, quantas anônimas não estariam chegando ao clímax, sem em nada pensar, simplesmente porque a fisiologia feminina e o cérebro, o núcleo do orgasmo de ambos os modos, funciona de forma muito singular? A mulher e seu corpo há muito desmentem versões estereotipadas sobre a sexualidade e contradizem as regras ditadas por estudiosos sobre o assunto.

Finalmente, há cerca de vinte anos pesquisadores têm confirmado que a estimulação sexual feminina pode ter várias vertentes. E, acompanhada ou sozinha, a mulher pode incrementar sua vida sexual permitindo que as sensações de seu corpo a guiem em direção a esses caminhos que levam ao prazer e, consequentemente ao orgasmo. Ela fantasia e vibra com muita intensidade.

Simplificando, a verdade é que o instrumento importa pouco. Se a mulher não estiver a fim... Nada feito. O homem pode morder, pode lamber, pode bater e penetrar até morrer, que nada a fará se “desmanchar” perante ele. Na maioria das vezes, ela não chega ao orgasmo porque não tem vontade alguma de fazer sexo.

A mulher que gosta de sexo pensa em sexo e está sempre pronta para ele. O Prioriza e cuida para que ele aconteça. É aquela mulher que está sempre buscando maneiras de se agradar e agradar o parceiro. “Só pensa naquilo.” Mas tem mulher assim? Claro e muitas. Algumas assumidas, outras não. As não assumidas, lotam os consultórios especializados.

O que distingue o orgasmo feminino do masculino? A mulher com sua capacidade de ter vários orgasmos vivem-os de forma mais interessante. O homem vive a sua sexualidade de um modo mais linear, rápido, como se atingir o orgasmo fosse o prêmio de consolação. Os mais curiosos e interessados em expandir esta deliciosa experiência, transcendem e buscam em outras culturas maneiras de sair da mesmice ocidental.

A mulher orgástica não depende de um parceiro para se realizar sexualmente, mas é obvio que se encontrar alguém de qualidade para dividir com ela esses momentos, ele será muito apreciado e até exaltado. Será bem cuidado, amado e ela não abrirá mão dele facilmente.

A mulher bem resolvida conhece como ninguém a expressão popular que diz: “uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa”, e na maioria das vezes, sabe distinguir sexo de amor. Assim como a maioria dos homens, ela não se entrega diante da impossibilidade de compartilhar em sexo com alguém e não permite que suas energias se esvaneçam em meio à procura pelo parceiro ideal.

A apreciação da mulher pelo próprio corpo, sua busca pelas sensações, as auto carícias e a masturbação são excelentes recursos para que ela se conheça e numa relação a dois, possa sinalizar para ele como gosta de ser tocada, beijada, penetrada e assim, diminuir a clássica ansiedade que a maioria dos homens tem em ver suas amantes gozarem, iludidos em serem os únicos responsáveis pelo seu clímax. Nada como um bom e experiente amante, isto é inegável, porém está implícita ao bom amante a delicadeza em descobrir o que mais agrada o outro na cama. A regra, neste caso, serve para ambos.

Para os homens que se sentem totalmente responsáveis pelo prazer de sua mulher, uma dica importante: Nem sempre as mulheres manifestam o orgasmo com gritos, grunhidos e unhadas ou qualquer tipo de representação mais exacerbada. Existem mulheres que sentem prazer extremo e extenso e preferem expressa-lo suavemente. Sabemos de mulheres que atingem orgasmos múltiplos e não promovem tipo algum de escândalo. Algumas se satisfazem com um orgasmo leve ou intenso e todo o prazer que a relação proporciona. Outras são capazes de somarem meia dúzia deles em um único encontro.

Somos únicos e o que o parceiro, ele ou ela, pode fazer para viver melhor a relação é dar-se ao trabalho de conhecer um pouquinho das preferências e das reações do outro. Isso de achar que é o “Rei da cocada branca” e que vai levar à loucura todas as mulheres que passarem pelas suas mãos pode ser uma grande cilada para o garanhão mal antenado. Muitas mulheres fingem o ápice do prazer e fazem isto artisticamente. Um homem atento conhece os verdadeiros sinais, os quais estão muito longe de qualquer manifestação histérica.

Misturando um pouquinho os assuntos para não perder a oportunidade, é importante dizer que ninguém é ruim de cama. Quem nasce sabendo? Não sabemos nem de nós, quem dirá das preferências do outro. Comunicação e calma podem ajudar bastante nessa hora e parceiros cuja química não explodiu no primeiro encontro na cama, podem se revelar amantes invencíveis mais tarde. Somos plásticos, singulares, únicos e se desejamos compartilhar, nada melhor que conhecer o universo existencial do nosso partilhante.

Muitas mulheres preferem chegar ao orgasmo através de estimulação clitoriana fazendo isto sozinha. Tem as que gostam de fazer com o parceiro olhando. Tem aquelas que preferem que o parceiro faça com a boca ou com a mão dele. Umas gostam com força e outras preferem ser tocadas bem de levezinho. Muitas vezes, ela aprendeu tudo isso, muito cedo, sozinha e se for liberada, na relação a dois saberá dizer para o parceiro, o que fazer.

Ainda tem aquelas que adoram sexo com penetração e só se sentem completas assim. Se forem bem resolvidas, não ficam à espera de um parceiro e adquirem vibradores e pênis artificiais que resolvem suas carências sexuais. Mas, se derem a sorte de encontrar alguém especial, transformam este instante em algo mágico. Se tiver amor então...

Umas são tão capazes sexualmente, que mesmo diante de um parceiro com dificuldade de ereção, mas carinhoso, habilidoso e disposto a ver sua parceira satisfeita, conseguem, através das carícias oferecidas por ele, imaginar o sexo com penetração, do jeitinho que ela gosta e... Chega lá.

Tem as mais completas, que gostam de tudo em uma relação. Do simples “papai e mamãe” (com competência é claro), ao sexo anal, passando pelo oral e se possível em todas as posições sugeridas pelo Kama Sutra, conseguindo orgasmos em qualquer brincadeira.

O que conta muito, mas muito mesmo, é a predisposição a vontade de curtir as delícias do sexo. Porque motivo você vai para cama com alguém? Para tentar superar seus complexos, se autoafirmar, aparentar ser liberada, desafiar seu sistema de criação, se vingar de alguém através da traição?

Não vai gozar mesmo! Esqueça.

Dicas para atingir o orgasmo com mais facilidade:

Não responsabilize o seu parceiro pelo seu orgasmo
Converse com o seu parceiro
Não se prenda só ao orgasmo, aproveite as preliminares
Toque seu próprio corpo, saiba do que gosta
Fale o que você deseja na hora do sexo
Esqueça os problemas e viva o momento
Não se preocupe tanto com o que não gosta em seu corpo
Adquira o hábito de contrair a vagina

Como reconhecer que você teve um orgasmo:

Podem acontecer contrações involuntárias do canal vaginal
O clitóris fica ereto e sensível ao toque
Os lábios vaginais ficam inchados e podem ficar mais escuros
A respiração, a pressão sanguínea e os batimentos cardíacos aumentam
Perde-se o controle muscular voluntário, podendo ocorrer diversas contrações de músculos do rosto, braços e pernas
Depois do orgasmo, pode aparecer uma sensação de relaxamento e tranqüilidade.

terça-feira, 10 de maio de 2011

Isso é assim para o outro!

Rosemiro A. Sefstrom
Filósofo Clínico
Criciúma/SC


Nos textos que escrevi até o momento, a base do discurso é perceber que o outro é um ser diferente, entender que quando estou em relação com outra pessoa preciso me despir das minhas verdades e assumir que o outro só pode ser entendido a partir dele mesmo.

Mas, segundo algumas pessoas, isso não é assim tão fácil no dia-a-dia, uma vez que não temos tempo para conhecer cada pessoa. Até certo ponto é verdade, o cotidiano de contatos superficiais deixa de fora muito do que a pessoa é. No entanto, se estivermos falando de nossa família, quantas mães entendem que seu filho pensa, sente, intui, etc., diferente dela? Quantos pais entendem que o filho, mesmo tendo a mesma educação dos irmãos pensa diferente?

Não serão poucos os pais que dizem saber que é assim mesmo e que precisamos compartilhar das ideias com os filhos para sabermos como eles vêem o mundo. Mas esquecem que quando chegarem ao mundo do filho, suas ideias, sentimentos, crenças, precisam entrar como visitantes.

Parece estranho dizer desta maneira, mas quando entramos na casa de alguém limpamos os pés à porta e pedimos licença. Quando vamos ao mundo de pessoas próximas, marido, esposa, filhos, amigos, pedimos licença, ou entramos de qualquer jeito, mexemos em tudo sem pedir permissão? Por estarmos próximos, sermos pessoas que compartilham do mesmo sangue não temos o direito de entrar e bagunçar a casa do outro. Agora já ficou um pouco mais complicado, pois preciso entender o outro a partir dele e ainda esperar pelo convite para visitar seu mundo existencial.

Mas como vou saber como é o mundo do outro? Como saber se ele quer me receber em seu mundo existencial? Conhecer o mundo do outro pelos olhos dele é simples, basta ouvir o que o outro diz a respeito do que estiverem falando e aí estará seu mundo. Quando ouço uma jovem aluna falando que casamento é algo ruim, traz sofrimento e faz da mulher uma escrava, não posso dizer que ela está errada, no mundo dela, da forma como ela viu o mundo até o momento é assim para ela.

Quantos concordarão com ela e quantos discordarão? Muitos de um lado e outros tantos de outro, mas quantos serão os que irão perguntar como ela chegou a essa conclusão? Esses sim, serão poucos, tantos quanto os dedos de uma mão. Estes não estão interessados em provar erros e acertos, mas irão ao mundo dessa menina para saber como ela chegou até ali.

Para saber se ela quer me receber em seu mundo existencial basta continuar a conversa e provavelmente se ela assim o quiser já estarão no mundo dela. Quando o outro me recebe e estou de olhos abertos para ver o que ele tem a me mostrar é como uma viagem a um lugar novo. Vou aprender o idioma, os costumes e tudo o que fizer parte desse novo mundo, ou outro. É provável que saberei respeitar, vendo os avisos de não ultrapasse e esperando o outro me abrir as portas para continuar a caminhada pelo seu mundo.

segunda-feira, 9 de maio de 2011

Domingo

Olympia
Filósofa Clínica
São João del Rei/MG


Acordamos cedinho
No embornal broa de fubá
Cantil com café
Canequinha de latinha
Rumo à cidade vamos
Temos o sol como companhia
O sino chama os fiéis
A missa vai começar
Fiéis confessam lá na sacristia
O Padre celebra a missa
Recebemos o corpo de Cristo
Indo para casa
Sentamos debaixo da árvore frondosa
Mamãe nos dá
Naco de broa com café

Semana boa!

domingo, 8 de maio de 2011

Fragmentos filosóficos delirantes XLV*


"As Águias imortais da Fantasia
Deram-te as asas e a serenidade
Para galgar, subir à Imensidade
Onde o clarão de tantos sóis radia."


"Lá, nas celestes regiões distantes,
No fundo melancólico da Esfera,
Nos caminhos da eterna Primavera
Do amor, eis as estrelas palpitantes.

Quantos mistérios andarão errantes,
Quantas almas em busca de Quimera,
Lá, das estrelas nessa paz austera
Soluçarão, nos altos céus radiantes.

Finas flores de pérolas e prata,
Das estrelas serenas se desata
Toda a caudal das ilusões insanas.

Quem sabe, pelos tempos esquecidos,
Se as estrelas não são os ais perdidos
Das primitivas legiões humanas?!"


* Cruz e Souza

sábado, 7 de maio de 2011

Fragmentos filosóficos delirantes XLIV*


"A missão de um cantador
é de andar pelas estradas,
levando a sua função
nas rimas improvisadas.
um menestrel dos abismos,
das regiões assombradas,
contra a forca negativa
que arrasta a quem quer cair.
um rei começa a rugir
contra essa besta nociva,
que habita em carne viva
dentro de nós com furor,
mas existe um defensor
para defender o crente.
some o leão com a semente
e tens o destruidor

prá falar de um cantador
não bastam só teorias,
nem medos nem fantasias
exprimem o seu valor.
ele não é um doutor,
e nem mesmo tem posição.
mas em qualquer reunião,
quando canta o seu repente,
o povo fica contente
com a sua disposição.

diz ele tantas histórias,
que prende com seu carisma
um povo que nunca cisma
com sua lutas inglórias,
e tendo essas memórias,
porteiras por desvendar,
um pouco vai concentrar
nas celas do seu juízo,
e o fogo do improviso
começa logo a queimar."

"Não há muito o que falar a respeito dessa linhas, a não ser o seu conteúdo musical e matemático mais do que científico e profano, ao nível de se arvorarem nas ignorâncias que se desafiam em suas margens e misteriosos limites de invasões, transas e progressos que socorrem o risco de se arderem no fogo místico do coletivo consumo. No mais é exercício. Vontade de tocar e cantar alguns sinais que prosseguem na sua determinação mecânica e já não mui-desconhecida... Alguns deles estraçalham-se pelos espaços incontidos e dedos nervosos naquela intuição que se move sob o carbono progressivo dos seus traços e avanços.

não adianta fechar minha boca, meus olhos falam e meu cabelo grita.

é inútil taparem meus olhos,
minha mão vê
e minha pele recita

impossível selar meus ouvidos, minhas pernas ouvem
e minha coluna insista.

debalde virem bloquear meu nariz cotovelos expiram
e a respiração lhe excita

tempo perdido matar um segredo o corpo renasce
e portanto reflita"


* Zé Ramalho

sexta-feira, 6 de maio de 2011

A viagem e as conexões - A bagagem Sou eu!


Rosângela Rossi
Psicoterapeuta e Filósofa Clínica
Juiz de Fora/MG


Onde coloquei minhas loucuras? Se é que um dia as tive. Nunca gostei de ser normal, estar na moda e ser cópia xerox. E este mundo seduz o tempo a sermos rebanho, no seguir a maioria. Ai... Olha o trem...
Sempre tentei fugir da perfeiçāo e muitas vezes me vejo perseguindo a trilha da normopatia. Bendito Jung que dizia: O mal que eu evito me faz mal. Entāo me permito assim, a contra gosto, experimentar a ilusäo de cinderela.
Tenho pensado muito , ultimamente, em romper com os modelos que fui colando em meu ego. Sinto uma vontade que vem da alma de pegar a bagagem do que Sou, simplificá- la e me permitir sair por estradas a conectar com as acontecências na alegria de acolher as imperfeições, no gozo das experimentaçōes no agora, sem planos, nem projetos, apenas Zendo.
Sem máscaras vou me libertando dos pronomes possessivos. Afogando os "meus", pescando os "nossos". Coraçâo aberto ao acolhimento a curtir a generosidade, simplesmente vou. Nem sei para onde quero ir. Apenas vou indo... Respirando, brincando, sorrindo, chorando...lá vou eu Zendo euzinha, luluzinha, moniquinha, rosinha...
A viagem já começou no aqui e agora, neste instante. Sem relógio, sem "ter que", no tempo desta madrugada outonal de sábado.
De volta as minhas loucuras me sinto livre para ser o que Sou. Posso criar, inventar sem expectativa de agradar e ser reconhecida. Nossa! Que prazer em ser livre no exercício de escolher!
Quem quiser que venha caminhar comigo, vai ser um prazer compartilhar as "nossas" loucuras geniais.
A vida está ai para ser sentida, pensada, vivida do jeito que a gente sente, pensa e vive.
Sou, somos! Isto nos basta! Ai... Olha o trem....

quinta-feira, 5 de maio de 2011

Autogenia

Miguel Angelo Caruzo
Filósofo Clínico
Juiz de Fora/MG


Nada melhor que a mudança de lugar para contribuição de um processo autogênico. Entenda-se “autogenia” como mudança de “Estrutura de Pensamento” e relação entre os tópicos desta. Quando mudamos de lugar, os hábitos têm a possibilidade de mudar. A visão de mundo tende modificar. “O que acha de si mesmo” começa a se reformular.

Mas, este é o caso de alguém que está disposto a mudar e suas condições da Estrutura de Pensamento contribuem para tal acontecimento.

A quebra de paradigmas é fruto do confronto com a realidade. Muitos agendamentos são feitos ao longo do desenvolvimento e resultam em “pré-juizos” que podem gerar uma série de incômodos ao serem confrontados com a realidade.

Situações novas, pessoas com as quais não convivíamos, primeiras impressões que são reconhecidas como grandes erros de interpretação. Deparando-se com o mundo novo, a Estrutura de Pensamento não consegue ser mais a mesma.

Novas aventuras iniciam nesse processo. Um novo mundo começa a ser vislumbrado. Uma nova visão, atitudes novas surgem. Atos inéditos de quem já viveu a mesmice começam a aflorar. Autogenia intensiva e extensiva diante do “devir” da vida.

Se como diz Heráclito “Nada é permanente, salvo a mudança”, a Estrutura de Pensamento tende a modificar. Se há mudança em tudo o tempo todo, com a intenção e condições de possibilidade favoráveis, toda mudança pode tornar-se mais fácil.

O resultado do processo autogênico é difícil de ser previsto. Mas, é um caminho sem volta. Pode-se voltar ao lugar em que o papel existencial era praticado com facilidade ou por força de costume, entretanto, jamais será o mesmo de antes.

Novos caminhos, novos rumos, processos de mudança, aventura de Ser-aí (Dasein). Abertura ao intenso presente, o único tempo para se agir.

quarta-feira, 4 de maio de 2011

Crônica para os que morrem de amor

Sandra Veroneze
Filósofa Clínica
Porto Alegre/RS


Se por ventura, um dia desses, encontrar a minha professora de literatura da sétima série na rua, chamarei para uma conversa bastante séria. Onde já se viu tamanha irresponsabilidade: ensinar o romantismo de maneira tão empolgada a adolescentes, que estão formando seu ideal de amor...

Aprendemos que é bonito sofrer, entregar a alma ao outro, até morrer pelo outro, no melhor estilo Augusto dos Anjos. E aí se formam pessoas como eu, defasadas pelo menos 200 anos no modo de se relacionar.

Brincadeiras e exageros à parte, o assunto é da maior relevância. Assim como não recebemos manual de como viver quando nascemos, também não somos educados para a vida emocional e tanto menos afetiva/amorosa. Pode ser problema da minha geração, que não dispunha de tantas ferramentas e profissionais para análises e tratamentos, mas talvez não seja.

E como desconfio que nos últimos dois mil anos a humanidade não tenha dado tão grandes passos rumo a uma melhor consciência de si, de vida e de mundo, as gerações atuais devem estar tão maduras (ou imaturas) quanto a minha e as anteriores. Nesse sentido, desconfio que as mudanças foram somente, ou muito mais, externas, afetando estruturas familiares, a duração dos relacionamentos e os argumentos que aproximam e separam duas pessoas, mas não necessariamente a capacidade que temos de amar e sermos amados.

O que fazer? Minha mais nova conclusão é de que romantismo tem limite. Mais precisamente: os poemas e cartas de amor, a inspiração para programas a dois, a sensação de que tudo é maravilhosamente lindo. Porque, na prática, é preciso exercitar sobremaneira outras virtudes, como paciência, capacidade de compreensão e expressão, no melhor estilo ‘realismo diplomático’. E aqui talvez esteja a chave para compreensão de que o romantismo literatura, quando transpassado para o cotidiano, se transforma em romantismo ingênuo. Ou seja, algo nada a ver em plena era 2000!

Agora são novos tempos, de amores fluidos, de muito beijo na boca e pouco envolvimento, de encontros relâmpagos, de cada um na sua, aproveitando quantidade e qualidade tanto quanto possível... Sexo, sexo, e apenas sexo. Certo? Hummm. Nem tanto ao céu, nem tanto à terra. Amar, sim, com envolvimento, entrega, mas também plena preservação de tudo que temos de individual e apenas nosso...

Sim, esta é uma crônica para os que morrem de amor – ou melhor, para os que morriam de amor!

terça-feira, 3 de maio de 2011

NÃO SOU NEM QUERO SER O SEU DONO

Ildo Meyer
Médico e Filósofo Clínico
Porto Alegre/RS


História contada por um amigo. Ao chegar ao bar da moda, uma mulher logo chamou sua atenção. Aproximou-se, pediu licença para sentar ao lado dela e iniciaram uma animada conversa. Passados alguns minutos, surge um homem bastante irritado e lhe pede para se afastar, pois aquela mulher era “dele”.

Sem demonstrar nervosismo, meu amigo pediu desculpas argumentando que a mulher não havia lhe dito que tinha dono, mas gostaria de saber onde fora comprada, o preço pago, quantos anos de garantia... Acredite se quiser.

Contei essa história para ilustrar o sentimento de posse que, em maior ou menor intensidade, costuma aparecer nos relacionamentos. Será que o fato de carinhosamente se chamarem de meu amor, minha querida, meu namorado, minha esposa, meu fofo, vai lentamente incutindo a sensação de que “o outro é meu”?

Depois de um tempo juntos, o esperado é que amantes conquistem reciprocamente o amor um do outro. Até aqui tudo perfeito. É muito bom conquistar o coração do amado(a) e sentir-se depositário único deste amor. O problema começa quando o casal passa a guardar este amor como um troféu em algum lugar do imaginário, se esquece de lustrá-lo e confunde o amor construído com o sentimento de posse.

A vida vai acontecendo até que de repente uma situação qualquer de afastamento ou desatenção do amado(a) dá o sinal de alerta: aquele amor que se imaginava tão tranquilo, não está se comportando assim na pratica. A falsa sensação de segurança veiculada através da posse imaginária começa a cair por terra e no intuito de proteger sua “propriedade”, alguns machucam e outros saem feridos. Certas pessoas ficam tão perdidas, que para elas parece certo fazer tudo errado.

No filme "Encaixotando Helena", um renomado cirurgião cria um acidente para que a vítima, por quem era obcecado, seja levada para sua casa. Cada vez que pensa na possibilidade dela ir embora, vai mutilando-a até deixá-la presa, sem os membros, dentro de um caixote.

Não pensava mais no amor, na beleza, nos momentos felizes; sua vida resumiu-se a alimentá-la, prendê-la e ter a sua posse. Esta história extrema mostra como o sentimento de posse é destrutivo e não condiz com o relacionamento amoroso. A partir do momento em que se apossou da amada, esta perdeu o sentido de viver e passou a definhar, perder brilho, murchar.

É preciso reconhecer uma legitimidade no temor da perda de quem se ama, e, até certo ponto, da proteção e manutenção daquilo que nos é importante. Agir como dono da vida do outro pode ser tentador para quem ama, mas pode ser fatal num relacionamento. Será assim tão difícil conciliar amar com não se sentir um pouco proprietário ou propriedade do outro?

Um escritor, um pintor, quando consegue fixar numa página ou num quadro a essência do seu sentimento, perpetua aquele momento. O amor, a dor, a raiva tornam-se visíveis, palpáveis, tangíveis e passam a pertencer ao acervo do artista, que abre mão desta posse para que a obra seja apreciada, valorizada, reconhecida. É assim que ambos crescem e ganham o mundo.

Fernando Pessoa em seu “Livro do Desassossego” já dizia: “quando se trata de amor, possuir é perder. Sentir sem possuir é guardar, porque é extrair de uma coisa a sua essência”. Na medida em que os amantes conseguem sentir o prazer de estar juntos, trocar afetos, desejarem-se, o casal se pertence e não existe mais necessidade de ninguém ser proprietário de ninguém.

Quando esta essência de amor inexiste, é pura perda de tempo tentar se apropriar do outro. Possuir é perder. Possuir é prender. Libertar é amar. A verdadeira felicidade de um casal provém do sentimento de ter sem jamais precisar possuir, ou como dizia Dalai Lama: “Dê a quem você ama asas para voar, raízes para voltar e motivos para ficar”.

domingo, 1 de maio de 2011

Fragmentos filosóficos delirantes XLIII*


"O fogo é uma noz que não se quebra com as mãos.
A voz vem do fogo, que somente cresce se arremessado.
Não há como recuar depois de arder alto.
Fui lançado cedo demais às cinzas"

"Fazer as coisas pela metade
é minha maneira de terminá-las"

"A queda atalha a subida,
o homem permanece
uma pronúncia inacabada (..)
Tantas vezes caí
em teu lugar,
que descobri o inferno"

"Ser inteiro custa caro.
Endividei-me por não me dividir.
Atrás da aparência, há uma reserva de indigência,
a volúpia dos restos.

Parto em expedição às provas de que vivi.
E escavo boletins, cartas e álbuns
- o retrocesso da minha letra ao garrancho.

O passado tem sentido se permanecer desorganizado.
A verdade ordenada é uma mentira.

O musgo envaidece as relíquias. Os dedos retiram as teias,
assisto à revoada de insetos das ciladas.
Fujo da claridade, refulge a poeira.
O par de joelhos na imobilidade de um rochedo.

Reviso o testamento, alisando a textura
como um gramático da seda.
Desvendo o que presta pelo som do corte.

O que ansiava achar não acho
e esbarro em objetos despossuídos de lógica
que me encontram antes de qualquer pretensão.

O que fiz cabe numa caixa de sapatos.

Colecionava talhos de madeira, bonecos
adornados com a ponta miúda do canivete.
Lá estava um dos sobreviventes, desfocado,
vizinho das medalhas escolares
e dos parafusos condoídos de ferrugem.

Um auto-retrato não seria tão fidedigno.
Eu era aquela frincha de chão florido, casca e húmus.

Quantas foram as miudezas que não combinavam
com o conjunto e, na falta de harmonia,
abandonei no depósito da infância?

E se faltou confiança para restaurá-las ao convívio,
faltou coragem para excluí-las em definitivo.

Somos o desperdício do que estocamos.
Não aprendemos a desaprender.
Não doamos nada, nem a palavra passamos adiante.

O porão tem vida própria e respira
o que jogamos fora.
O que refugamos na ceia volta a nos mastigar.

Tudo pode fermentar: o forro, os passos, o odor do braço.
Tudo pode nascer sem o mérito do grito,
como um murmúrio ou estalar de um abraço.
Tudo pode nascer, ainda que abafado."

"Fabrício Carpinejar