quinta-feira, 30 de junho de 2011

Filosofia Clínica e a afetividade*


A emoção constitui um riquíssimo fenômeno psíquico, examinado com especial atenção pelos estudiosos, sobretudo de perspectivas filosóficas, psicológicas e fisiológicas.
Segundo a definição mais tradicional, emoção é uma forte alteração ou perturbação do estado psíquico, acompanhada de determinadas modificações somáticas – corporais – de caráter transitório, como tremores, suor, rubor ou palidez.
Fonte – Encyclopaedia Britannica.


Entre os exemplos de emoções temos a alegria, a angústia. Mas, na Filosofia Clínica, tais exemplos são apenas formas sem conteúdo. É na historicidade da pessoa que saberemos o que está acontecendo.

Por exemplo, algumas pessoas desenvolveram as emoções ao longo da vida de modo tênue. Algumas pessoas não desenvolveram as emoções como desenvolveram a razão, o raciocínio, as buscas, os pensamentos. Isso não constitui uma patologia ou uma perda.

Em Filosofia Clínica, uma manifestação como esta pode ser condizente com dispositivos necessários e producentes para a pessoa. Por exemplo, uma esposa que venha ao consultório e diga que casou com um homem que parece uma geladeira, cuja afetividade é mínima. É provável que esta seja uma característica do marido, entre outras. Ainda que a questão possa acarretar sérios problemas entre o casal, a questão pode requerer maior pesquisa antes de um direcionamento.

Nem sempre o amor cura a pessoa. Algumas pessoas podem usar o amor como moeda de manipulação. Nem sempre para amar é preciso ter sido amado. Também não podemos afirmar que este é um princípio universal nas relações humanas. O amor não é necessariamente um balcão de negócios.

Alguns amam independente do amor que receberam ou que receberão. Uma pessoa pode afirmar que ama alguém e isso se traduzir não por uma emoção, mas por uma admiração. Por isso, a referência inicial será colocada diante de outros aprofundamentos. Muitos elementos que aparecem inicialmente em uma historicidade podem se revelar inteiramente diferentes com o tempo.

Em alguns casos, somente com o coração podemos ver com clareza. Em outros, é somente com a razão que vemos com clareza. O filósofo clínico não tem mais como se guiar por verdades prontas para o ser humano. Algumas pessoas veem bem com a razão. Outras, não.

As emoções podem sucumbir pelo caminho, podem evoluir até 8 ou 10 anos de idade, podem evoluir indefinidamente, podem apresentar mesclas complexas. Ainda que os termos não sejam exatos as concepções estão corretas. Em Filosofia Clínica, as emoções não são classificadas entre boas e más, certas e erradas. Não existe tal tipo de classificação em Filosofia Clínica.

Nem sempre uma emoção será caracterizada por um nome, por uma nomenclatura, nem sempre é essencial. Às vezes, as emoções se mesclam e não temos um nome para o que se tornam. Há complexidades que podem tornar as emoções difíceis de identificar e de conhecer, como exemplo: uma forte paixão ou uma mágoa profunda.

Não existe aqui uma regra a priori. Algumas pessoas conseguem separar questões emocionais complexas. Outras, relacionam as coisas de tal forma que isso é inviável.

Em Filosofia Clínica é indefensável afirmarmos o desenvolvimento de uma ou de várias emoções. Somente a historicidade da pessoa nos dirá a propriedade do desenvolvimento ou de outra indicação quanto às emoções.

*Bruno Packter
Filósofo Clínico
Florianópolis-SC

quarta-feira, 29 de junho de 2011

O SILÊNCIO QUE ACOLHE

Sueli Vaz Calvet de Magalhães
Filósofa Clínica
Santos-SP


Gostaria de relatar uma ida minha ao Teatro, quando a noite terminou com forte emoção e muitas reflexões. Era uma noite fresca em São Paulo, dia 26 de Fevereiro de 2011, o Teatro Tucarena. A peça, Dueto Para Um, uma adaptação de um dos textos mais conhecidos do inglês Tom Kempinski, inclusive virou filme em 1986 dirigido por Andei Konchalorsky e roteirizado pelo próprio Tom Kempinski, no Brasil foi batizado de Sede de Amar tendo a atriz Julie Andrews no papel do personagem Stephanie.

Texto bem escrito, diálogos fortes, a história verídica conta a trajetória da renomada violoncelista inglesa Jacqueline Dupré, que no auge da sua carreira profissional, vê-se impedida de exercer sua vocação por adquirir uma doença degenerativa. A violoncelista vivia em Londres, concertista de renome internacional, era um dos gênios da arte interpretativa do séc. XX segundo João Carlos Martins. Casada com o pianista e maestro Daniel Baremboim é por ele incentivada a procurar uma ajuda terapêutica para cuidar da depressão que começa a se instalar e da dramática condição física em que se encontra, em cadeira de rodas buscando uma nova maneira de conviver com a doença.

O texto de Tom Kempinski teve a tradução de Ana Saggese, direção de Mika Lins e em cena os atores Bel Kowarick como Stephanie, e Marcos Suchara como Dr. Feldman. A peça transcorre num palco giratório, onde encontram-se o médico e sua paciente em cadeira de rodas. O diálogo acontece num ambiente com pouca luz e direcionada apenas nos atores, a trilha sonora originalmente composta por Marcelo Pellegrini com violino solo e violoncelo, percorre todo o texto e ajuda a compor a beleza e a dramaticidade das falas.

A história de Stephanie é contada em seis sessões de terapia, de um lado a paciente que vive com o marido, está bem financeiramente, profissionalmente faz o que ama, mas abruptamente vê-se impedida de se dedicar à música, de outro, o médico psicanalista buscando razões para os medos de Stephanie, tentando decifrar enigmas de sua história.

Fui levada a escrever sobre esse texto magnífico por ter vivido momentos de profunda angústia ao presenciar naquele diálogo um impedimento claro na questão da escuta na terapia, e pensar sobre a premente necessidade do respeito à fala do outro.

A vida de Stephanie é apresentada pelo Cena Paulistana como: “Para ela está tudo bem. Tem um bom marido, uma boa vida e vai superar tudo. Será tão fácil e simples assim? Nas sessões de terapia Stephanie, sem querer ou sem poder evitar, deixa aparecer seus medos e revela as partes mais sombrias de sua história”. Essa apresentação deverá nortear daqui por diante a reflexão sobre a construção dos diálogos médico-paciente.

Gostaria também de pontuar certas diferenças entre a abordagem terapêutica da Psicanálise e da Filosofia Clínica dentro do contexto das sessões de terapia que aconteceram com Stephanie e o Dr. Feldman, fazendo algumas citações de Gilles Deleuze.

Inicia-se a peça, entra em cena o Dr. Feldman, senta-se em sua cadeira e segura em suas mãos um pequeno caderno e uma caneta. A seguir entra sua paciente Stephanie em uma cadeira de rodas e apesar de um pouco constrangida apresenta-se, fala sobre sua doença e conta que o marido a incentivou a procurar ajuda. Fala da música como sendo sua vida e lembra que apesar de não conseguir tocar, pode fazer outras coisas, como por exemplo, dar aula, ensinar jovens a tocar.

Começa a primeira sessão da terapia com a fala do psiquiatra quase imediata fazendo a indicação de remédios controlados, segundo ele, para que ela melhorasse, explicando a quantidade necessária e quantas vezes deveria tomá-los por dia. A paciente se surpreende, tenta reagir contra a medicação, mas resignada aceita e sai de cena.

Retornando para a segunda consulta Stephanie apresenta-se diferente do dia em que chegou, agora mais lenta nos gestos, no pensar e no falar, a medicação começa a agir no seu organismo de maneira que ela se vê alienada do seu ser. Dr. Feldman revê a medicação e ela é orientada a continuar com a nova medicação.

Na terceira e quarta sessões da terapia, começam as perguntas direcionadas, primeiro sobre o marido da paciente. Stephanie sente-se alterada pela medicação, talvez seja difícil ter pleno domínio sobre seus pensamentos, ela extremamente irritada com as questões colocadas volta-se para o Dr. Feldman e afirma enfurecida “eu vivo bem com meu marido, você não me ouve”. É assustador entender a dor existencial de Stephanie que permanece ali sem nenhuma alternativa a não ser a de estar sendo arguida sobre suas relações com o marido que ama e tem uma vida tranquila.

Seguem as sessões, quinta e sexta, Dr. Feldman tenta encontrar o que perturba Stephanie e com o poder da sua especialidade vai percorrendo outros caminhos, direcionando a clínica, agora arguindo Stephanie sobre questões da sua relação com o seu pai e depois com a sua mãe. A paciente mostra-se perturbada, perdida em suas conclusões, a sessão torna-se tensa.

Dr. Feldman deixa transparecer seu incômodo ao constatar o sofrimento de sua paciente, se empenha arduamente como profissional no intuito de curar esse sofrimento de Stephanie. Mas, o que pode ser sofrimento no entendimento de Stephanie, sobre qual sofrimento estaria o Dr. Feldman lutando para dissipar? Não sabemos, ele não perguntou.

Parece em vão o esforço profissional do Dr. Feldman para que Stephanie consiga reorganizar e viver sua vida apesar da doença. Por mais que tente resolver a questão da sua paciente, o diálogo continua marcado pelo abandono e solidão de Stephanie, ao terminar a encenação da peça a paciente já sem força, comunica ao seu médico psicanalista “você não me ouve”, e a peça termina.

Retomando o primeiro comentário do Cena Paulistana sobre Stephanie: “Para ela está tudo bem. Tem um bom marido, uma boa vida e vai superar tudo. Será tão fácil e simples assim?”. Eu, responderia que depende muito da escolha da abordagem terapêutica que a pessoa vai escolher para trabalhar suas questões.

Não me pareceu que o Dr. Feldman tenha ouvido a fala da sua paciente naquilo que era verdadeiramente seu, pareceu-me sim ter feito escolhas sobre quais seriam suas necessidades, e na clínica esteve lutando para persuadi-la. Para Deleuze a psicanálise não permite que emerjam enunciados próprios da fala da pessoa:

"(...) a psicanálise é uma máquina já pronta, constituída com antecedência para impedir as pessoas de falarem, portanto, de produzirem enunciados que lhes correspondam e que correspondam aos grupos com os quais eles encontram afinidades. Ao se fazer analisar, tem-se a impressão de falar. Porém mesmo que se fale à vontade, toda máquina analítica é feita para suprimir as condições de uma verdadeira enunciação. O que quer que se diga é preso numa espécie de torniquete, de máquina interpretativa, de modo que o paciente nunca poderá ter acesso ao que ele tem realmente a dizer." (Deleuze, 2006, p. 345-346).

Afinal, apesar da doença a paciente do Dr. Feldman chega ao seu consultório com planos, explicando que está impossibilitada de tocar seu violoncelo, mas poderia ensinar os jovens a tocar. Havia nela uma clara determinação, uma busca que a movia para uma alternativa de vida profissional.

Na filosofia clínica a abordagem terapêutica seria outra, várias sessões seriam reservadas para ouvir a pessoa a quem chamamos de partilhante, porque partilha conosco suas questões. Não faríamos indicação medicamentosa, sem antes conhecer todos os dados da estrutura de pensamento do partilhante e para isso precisaríamos abrir várias gavetinhas vazias para preencher com dados encontrados na pessoa, porque não há dados prontos ou receitas de tratamento para oferecer a quem nos procura, não há uma teoria analítica constituída e pronta para ser utilizada.

Essa teoria será construída tendo como suporte, num primeiro momento, apenas o silêncio e o ouvir atento, e será nesse silêncio que acolhe a fala do outro onde haverá espaço para a produção de enunciados verdadeiros, ou seja, que os enunciados produzidos pelo partilhante correspondam a sua fala pessoal. Não deve haver interferência do filósofo clínico na formação de enunciados do seu partilhante, porque o objetivo é que ele esteja sempre na posse e construção da sua fala, do que tem a dizer.

Retomando, agora, o segundo comentário do Cena Paulistana sobre Stephanie: “Nas sessões de terapia Stephanie, sem querer ou sem poder evitar, deixa aparecer seus medos e revela as partes mais sombrias de sua história”.

Com a paciente medicada a organização dos seus pensamentos ficam diferentes de quando não medicada. Começam as questões direcionadas e Stephanie não compreende porque seu psicanalista faz determinadas perguntas sobre sua relação com o marido, ela diz claramente “você não me ouve, eu vivo bem com meu marido”. As sessões se sucedem e o Dr. Feldman continua direcionando suas questões relativas à relação de Stephanie com seu pai e depois com sua mãe na tentativa de encontrar o seu problema, fica assim empenhado em curá-la. O que se vê agora é uma mulher fragilizada, tensa, exaurida em suas forças físicas e psicológicas.

Fica evidente que Stephanie ao iniciar a sua terapia aparece como uma mulher forte e com relativa esperança de refazer sua vida profissional, e vai aos poucos se tornando tensa, assustada, agressiva, confusa, sem controle sobre suas decisões. Arriscaria dizer que Stephanie foi levada no transcorrer das sessões até seus medos e às partes mais sombrias de sua história. Mas, esse não seria exatamente o objetivo da clínica psicanalítica?

Além da intervenção medicamentosa, Stephanie fica a deriva de uma interpretação do médico psicanalista sobre como deveria ser cuidada em suas dores existenciais. A abordagem psicanalítica utiliza como ferramenta um código pré-existente de teorias interpretativas que se compõe por Édipo, castração e família e segundo Deleuze esse código marca a psicoterapia como “uma máquina automática de interpretação” (2006, p.346) de modo que nenhum enunciado do paciente poderá “passar através dessa máquina analítica já pronta” (2006, p. 346).

Para Deleuze, a psicanálise é apontada como a arte de interpretar, porque “faz com que tudo o que o paciente possa dizer seja imediatamente traduzido numa outra linguagem e que tudo o que ele diga seja julgado como querendo dizer outra coisa” (2006, p. 89). O psicanalista carregado desse código pré-existente acaba por significar a fala do seu paciente, foi assim o seu aprendizado, ele não treinou a sua escuta para que livre de código possa ouvir e trabalhar com os enunciados que sejam significativos para o paciente e não para si.

terça-feira, 28 de junho de 2011

Aprendendo

Patrícia Rossi
Filósofa Clínica
Juiz de Fora-MG


Usar filtro solar é apenas uma das tantas coisas que precisamos aprender nessa vida.
Aprender a desaprender.
Aprender a respeitar, o outro e principalmente nós mesmos.

Aprender a deixar de lado a vergonha: se erramos, o que os outros tem com isso? Todo mundo erra, não seremos melhores nem piores do que ninguém se isso acontecer.
Aprender a nos aceitar: é somente quando isso acontece que aprendemos que umas gordurinhas a mais não vão fazer diferença na busca de um amor, no compartilhamento de uma amizade ou no prazer de uma balada com os amigos.

Aprender a se respeitar, por você ser quem você é, e ter um DNA só seu que ninguém mais no mundo compartilha com você, ter orgulho por isso.
Aprender que o amor se constrói com respeito ao outro, e não com imposições. Você nunca achará o par perfeito, simplesmente porque não existem pessoas perfeitas. Se nós mesmos não somos, porque procuramos isso no outro?

Aprender a lidar com nossos defeitos e nossas sombras, e ver que todo mundo tem suas qualidade mas também tem seus defeitos, e isso não é crime, é apenas a belíssima arte de ser SER HUMANOS.
Aprender, que nunca nessa vida deixamos de aprender... mesmo quando estamos ensinando.

Aprender que temos dois ouvidos e uma boca não é a toa. Saber ouvir nos torna mais humanizados e fraternos e nos mostra que todos tem problemas e precisam de um ombro amigo, assim como nós, de vez em quando.
Enfim, aprender... nunca deixe de aprender. Ninguém nasce sabendo.

segunda-feira, 27 de junho de 2011

Doutor, eu ando sobre as águas!*

"Se não fizesse versos
Enlouqueceria.
Minha saúde mental
Depende da poesia.”
Prado Veppo


Assim se inicia uma viagem pelos arredores do recomeço, onde a palavra mais antiga se encontra com seus rituais de anúncio. Interseção entre o esboço dos primeiros traços e os símbolos originados na conversação.

Nessa época as mãos e braços podiam servir para acolher, cuidar, abraçar tudo ao seu redor. Um tempo onde os dias e as noites se encontravam para passear e se alimentar dos diálogos intermináveis, tudo era bem vindo. Os passeios seguiam as madrugadas, ao jardim cabia reinventar amanhãs.

Alimento vigoroso num romance do sereno com a lua. As lágrimas oferecidas pelo céu nutriam o terreno dos brotos. Nesse tempo, se sabia sem pensar: sonho e realidade aconteciam no mesmo lugar. Depois foram chegando outras razões, algumas delas encarceraram e destituíram àquelas de legalidade, jamais da legitimidade sonhadora.

Nesse sentido, o exercício da clínica existencial elabora suas próprias lógicas, muitas vezes, indecifrável ao saber conhecido. A maioria dos eventos aprecia escolher o momento e a melhor companhia para se fazer visível. Nesses raros intervalos, a pessoa permite compartilhar uma ótica diferenciada, mesmo quando o técnico impõe corrigir seu foco.

Uma visita aos contornos desse refúgio existencial, às vezes esquecido pelo próprio sujeito, pode conceder vislumbres sobre sua natureza e alcance. O aprendizado com a dialética dos excessos oferece matéria-prima às futuras intervenções, elaborações da subjetividade em seu devir de rascunho.

Na casa das pessoas interessantes (hospital psiquiátrico), com a incrível filosofia clínica das singularidades, tem sido possível aproximar, interagir e conhecer melhor a linguagem significativa da desrazão. Ao movimento desajustado das escutas e visões, o sujeito em estado nascente, procura um terreno para suas verdades. As miragens oferecem alternativas através das experimentações.

Muitas vezes, os vultos e vozes tentam mostrar, ao próprio partilhante, suas possibilidades desconsideradas. Esse outro, a dizer coisas sem sentido, parece entrever horizontes inexplorados. Talvez sua tradução possa desvelar a interseção entre esse estranho e sua autoria, num vocabulário em busca de superar o meio hostil onde se encontra.

Como se estivesse a proteger recantos, esses traços, cores e sensações costumam reapresentar promessas desmerecidas, atualizadas numa perspectiva errante e de linguagem mal-dita. Ao ser tratado pela farmácia comum, pode ter o dever de utilizar disfarces, quem sabe assim, o projeto recém chegado encontre o tempo necessário para ser viável.

Para esquecer aquilo que precisa ser esquecido, o viés da fantasia pode ser um aliado e provocar uma desconfiança generalizada ao seu redor. Os ensaios existenciais fora de foco possuem uma fenomenologia obtusa, apreciam surgir em linguagem própria e onde menos se espera. Assim, as palavras podem querer dizer algo mais, sobre esse personagem a lhe perseguir.

Alguns exemplos: “Minha cabeça diz coisas que não entendo”, “Os móveis da casa me pedem para mudar”, “Meu espelho fala comigo”, “Eu caminho sobre as águas”, “As paredes e as portas estão se abrindo”, “Estou morrendo”, “Ontem eu vi o futuro”, “Eu sonhei com um barco que afundava”.

Assim é incrível perceber o absurdo desmerecimento dos próprios rituais de libertação e expressividade, mesmo quando sugere outro a conversar consigo mesmo. Na voz das incertezas, sobressaltos e espantos, uma invisibilidade vai deixando rastros ao observador aprendiz. Algo começa a surgir nas conjecturas sobre coisas vividas e não vividas. Tem-se a impressão de um andarilho a preparar sua mochila existencial.

A cultura onde se vive pode significar veneno a pessoa em seus primeiros passos. Dependendo onde se nasce, pode ser melhor passar a vida inteira ao sabor dos ventos da errância, numa liberdade distante do conforto oferecido pelos construtores de grades e muros. É provável levar algum tempo até se achar um lugar adequado para viver, instantes em que um artesão pode surgir de onde menos se espera.

Um dos caminhos é tentar compreender a visão do visionário, as vozes a dizer coisas sem sentido, as retóricas da contradição. Muitas vezes um esforço solitário, para desajustar os agendamentos ao qual foi submetido, para deixar tudo como está. O discurso normal encontra na atitude delirante, um poderoso foco de estética e desconstrução.

Quando a perspectiva marginal se oferece ao centro das atenções, pode ser uma avassaladora fonte de epistemologia. A estrutura assim descrita parece colecionar subterfúgios a uma casa, até então, desconsiderada, como um pré-sujeito a rascunhar novos endereços existenciais.

*Hélio Strassburger
Filósofo Clínico

domingo, 26 de junho de 2011

As vidinhas sob os meus auspícios


Sandra Veroneze
Filósofa Clínica
Porto Alegre-RS


De todas as alegrias que a vida já me deu e continua dando, quero falar de duas que são muito especiais. A primeira delas é o aprendizado da filosofia como algo vivencial e prático e a segunda é a ‘maternidade’ da Miara, da Pipoca e do Peppe, meus gatinhos viralatas lindos.

O ponto de intersecção entre essas duas alegrias foi uma aula em que se estudou sobre a vida ‘nas’ coisas, algo diferente da vida ‘das’ coisas. Faz muito tempo atrás e convidava cada um a entender a vida como uma força superior, suprema, presente em todo o universo e que se manifesta das mais diversas formas: árvores, plantas, animais, riachos, pessoas...

Desde então vejo tudo com outros olhos.

Uma pedra não é apenas uma pedra. É um organismo com zilhões de possibilidades de formas que reuniu determinados elementos que lhe garantem textura, peso e composição únicos. Uma planta não é apenas uma planta. Mais complexa que a pedra, gera flores, frutos, sementes, uma infinidade de formas e cores.

E um ser humano, pelo amor de Deus, é muito mais que um animal pensante. Tem sentimentos, emoções, sonhos, ideais. É capaz de estabelecer relações e interagir e interferir no meio que o circunda.

Tudo que está em nossas mãos tem vida, pulsa e vibra. Inclusive fatos, situações, contextos. Se observarmos com atenção (para ficarmos em um exemplo presente), até mesmo os textos têm vida, expressa no seu ritmo, conjunto de vocábulos, mensagens que passam.

Têm ‘tom’, ‘cor’, do momento em que foi escrito e que por todos esses motivos é capaz de unir escritor e leitor em um mesmo rasgo de sensações no tempo e espaço da composição e leitura.

Para muitas pessoas, isso tudo é muito poético. São os seres humanos sensíveis, atentos ao belo, apaziguados, para quem tudo tem um sentido. São aquelas pessoas que vêem nuances, acreditam na introspecção e que conseguem parar tudo pra admirar e contemplar o pôr-do-sol no horizonte, os pingos de chuva que escorrem pela janela...

Para muitas outras pessoas, essas ideias soarão como ‘viagem’, ‘meras abstrações’. São aquelas pessoas pra quem existe 8 ou 80, preto ou branco, partida e chegada, rotinas e esquemas... São pessoas pra quem tudo precisa ser dito, mostrado, e declarado, e nada apenas sugerido. É uma forma de ler e sentir o mundo.

Como libriana que sou, minha humilde opinião é: nem tanto ao céu, nem tanto à terra. Ver e sentir a poesia cotidiana e a vida que nela existe é lindo, coisa pra almas sutis. Mas administrar bem o cotidiano em suas demandas e necessidades é básico, coisa pra almas práticas.

Fiquei pensando... Na sua opinião, quais dos dois estilos está mais perto de um estado de percepção da vida ‘nas’ coisas e não apenas ‘das’ coisas?

Mas deixemos essas filosofias pra outro momento. Terminemos por aqui. Minhas salsas precisam de água. Fora isso, hoje está fazendo tempo bom e provavelmente logo logo passarinhos vão se empoleirar na sacada vizinha, pra namorarem e provocarem minhas ‘mimis’, pra alegria da ‘mami’ que vai parar tudo pra contemplar o momento.

sábado, 25 de junho de 2011

Dois mundos


Idalina Krause
Filósofa Clínica
Porto Alegre-RS


Ando pirando em dois mundos. Um que escarrado foi, mas que a última gosma ainda gruda, por um fio minúsculo prende e mancha de roxo meu tendão. Outro cheio de vida nova que agarro ferozmente em sonhos e para onde me dirijo.

Meu pensamento andarilho leva meu corpo, entre veredas onde busco prazeres que saciem minha sede. Preciso ir! Fugir do tédio desses dias quentes, madrugadas arrastadas.

Quero usar o tempo e me fartar com novos ares, pés nus, livre pensamento. E nesta fúria alegre, despejar raios ao meu redor. E meu redor é minha casa, meu amor, minhas gatas, meus amigos, as flores que virão.

Lá onde entre os odores, sabores, sons e descobertas haverá tempo de boa solidão prazerosa.
Sorverei de minhas próprias entranhas o energético capaz de limpar definitivamente o repugnante fio.

Pés alados, novas horas, céu imenso... Lá em espírito já estou!

sexta-feira, 24 de junho de 2011

Coisas que ficaram pelo caminho

Lúcio Packter
Pensador da Filosofia Clínica
Porto Alegre-RS


Há aspectos corriqueiros no consultório, eventos que se repetem, que fazem parte dos protocolos e das rotinas da profissão. Um destes elementos diz respeito às coisas que ficaram pelo caminho e que usualmente a pessoa pode entender como terminadas, bem ou mal, acabadas.

Esta impressão se deve muito a fatores como a distância entre os eventos, o tempo que passou, outros acontecimentos que surgiram e que desapareceram depois, entre outros elementos. Quanto a isso, temos caracteres internos, constitutivos de cada questão, que promovem ajustes. Um exemplo: há oito anos, um câncer de mama, debelado após uma extensa ação cirúrgica, causou grande susto.

O tempo passou, nunca mais nas relações desta pessoa, e ela com ela mesma, ninguém retornou ao tema. Tumor extirpado e assunto igualmente morto. Quando, no entanto, em uma noite numa formalidade de formatura na Universidade, o tema é ventilado diante da pessoa, o que acontece? Acontece uma enxurrada de emoções, lembranças, pensamentos e alguma somatização. O assunto não estava ultrapassado, vencido, cicatrizado?

Existem peculiaridades que precisamos citar aqui. Um tema pode renascer, uma questão já vivida pode ser atualizada mediante novos dados ou o que parece uma retomada pode, em verdade, ser um fato inédito. Neste último caso, um fato novo pode conduzir a pessoa a entender que se trata ainda do antigo fato, algo que ela achava ter caducado com o tempo e findado.

A dramaticidade da manifestação deve ser pesquisada. Uma pessoa pode conversar calma e formalmente, sem qualquer traço de afetação ou emoção, sobre um tema que lhe foi imensamente traumático, evidenciar raciocínios complexos e teorizações sobre o que houve, tudo isso propiciando a aparência de que o tema foi de fato morto, sepultado, chegou ao fim. Trata-se de um erro comum, tomar a maneira como a pessoa discorre sobre um assunto, sua placidez, com a efetivação de questões pendentes; erro comum.

Qual a anatomia de fenômenos como este? Alguns dos eventos que ocorriam em nossas vidas, pela relação que estabeleceram com outros, não morrem. Permanecem, podem se modificar, se atenuam ou se agravam, mas dificilmente padecem a ponto de sucumbir e desaparecer. Outros destes eventos ganham endereços e feições novos, mas na essência prosseguem iguais.

Mas há elementos ainda mais profundos e complexos que costumam aparecer por aproximação, referência, citação, quase nunca diretamente. Um destes elementos mostra o que houve nos arredores do evento. Vamos a um exemplo: em certa ocasião fiz atendimentos a uma freira que prestou trabalhos missionários na África. Ao retornar, ela passou a apresentar um quadro atípico de sintomas próximos ao que a Medicina denomina depressão.

Após uma série de consultas ao longo de três meses, algo se precipitou e anunciou o que estava acontecendo: não o trabalho, mas as amizades, as localidades, as relações que ela estabeleceu deixaram uma lacuna com a qual ela não teve como lidar, como encaminhar, como vivenciar em formas usualmente encontradas como a saudade, a esperança, etc. Ou seja, o epicentro de um fenômeno é às vezes o local de menor intensidade das manifestações.

Coisas que ficaram pelo caminho, algumas delas encontraram um canto existencial no acervo da pessoa onde podem viver, estão bem e prósperas entre camadas periféricas da lembrança, dos eventos, da vida; são importantes em sua identidade e constituição de algo que existe como um dispositivo de ter ficado na passagem de outros. Muitos nem sequer podem viver de outra forma. E os cuidados em torno deste entendimento são, às vezes, o destino que estas questões terão.

quinta-feira, 23 de junho de 2011

Deslocamento


Olympia
Filósofa Clínica
São João del Rei-MG


Bicicleta Gulliver
Chinelo de teto
Rabo de cavalo
Vento no rosto
Pele morena
Joelho ralado
Sol a pino
Jarra d'água
Açúcar cristal
Cubos de gelo
Limão rosa
da cor do sol
Liberdade
Saudade...

segunda-feira, 20 de junho de 2011

Filosofia Clínica e os enganos existenciais

Bruno Packter
Filósofo Clínico
Florianópolis-SC


Na Filosofia Clínica, tratamos os enganos existenciais como Termos Equívocos, ou seja, quando a pessoa em determinados contextos da vida apresenta dubiedade, confusão, um significado incerto, gerando aspectos como perplexidade, desorientação falta de compreensão ou dúvida. Equivocidade vem do termo aristotélico que significa dubiedade.

Há pessoas que não permitem que a dúvida, a divisão, a incerteza, não toleram não saber que rumo tomar na vida. Essas pessoas não sabem viver com esse estado de equivocidade. Elas gostam da precisão, da objetividade e jamais vão permitir em sua vida a vivência de termos equívocos.

Na história de vida, muitas vezes, a pessoa quando está em equivocidade ela pode apresentar a queixa de sentir perdida, de estar muito confusa e não saber exatamente o que fazer para solucionar a equivocidade. Algumas pessoas que associam as suas ideias os estados equívocos sentem pavor, medo, pânico, porque pensam que estão perdendo a razão. Para algumas pessoas o raciocínio precisa sempre ser unívoco, ter clareza. Se por algum acontecimento entrarem em equivocidade elas podem ficar apavoradas.

Entretanto, não há nada de errado nisso. Uma situação de cansaço, muito trabalho, problemas, estresse tudo isso pode gerar equivocidade. Ninguém é doente ou louco por estar em equivocidade. Em geral, o estado de equivocidade em muitos contextos da vida tem pouco tempo de duração.

Desde a Revolução Industrial as vivências equívocas tornaram-se extremamente problemáticas. Em sua obra A História da Loucura , Michel Foucault coloca isso de uma forma muito clara. Na obra, as pessoas são cobradas a terem pensamentos maquinizados, padronizados com ideias no cabresto.

Uma pessoa pode entrar em equivocidade emocional em relação a ela mesma. É incrível, mas muitas vezes, estados equivocionais são bons e necessários. Existem pessoas que se permitem ficar assim. Funcionam da seguinte maneira: entram em estados confusionais para tomarem uma decisão, por exemplo. A pessoa se solta em estado de bagunça interna, um estado de gestão interior e não sente incômodo com isso.

Viver em equivocidade pode ser só uma caracterização da pessoa para certas circunstâncias. Se for isso, não há nada de errado. Mas, pode ser um distúrbio neurológico, um problema endócrino, etc. Se o fato for esse, o encaminhamento neste caso será para o acompanhamento de um médico clínico geral.

Existem alguns fatores curiosos. A pessoa pode apresentar clareza ou estar unívoca quanto ao seu raciocínio e equívoca quanto as suas emoções. Por exemplo: a pessoa tem que tomar uma decisão de grande proporção e consequência. Racionalmente sabe exatamente o que é melhor e para isso ela está unívoca. No entanto, quanto a suas emoções está desorientada e confusa.

Racionalmente sabe o que é o certo, mas o coração fica emocionalmente dividido. Quem vence esse embate? A razão ou a emoção? Tudo dependerá da historicidade de vida da pessoa. Dependerá do peso subjetivo maior. Há pessoas que só saem da equivocidade nas relações com outras pessoas. Elas pedem ajuda para um parente, uma pessoa próxima. Existem pessoas que são assim.

Na Filosofia Clínica, buscamos na história de vida da pessoa os fatos que podem estar causando estes estados de equivocidade.

domingo, 19 de junho de 2011

Amantes

Rosângela Rossi
Psicoterapeuta e Filósofa Clínica
Juiz de Fora-MG


Amantes
Somos todos que amamos
Incondicionalmente

Amantes
Somos todos que aceitamos
Os diferentes de nós

Amantes
Somos os que compreendemos
Com coração aberto

Amantes
Somos os que compartilhamos
Os silêncios e as dores

Amantes
Somos nós que escutamos
Sem julgamentos

Amantes
Somos os que aprendemos
Com a singularidade de todos

Amante sou eu
De você
Que prezo o Nós
Seja qual forem as circunstâncias

Amantes
Somos todos que conjugamos
O verbo ação Amar

sábado, 18 de junho de 2011

VINHO E MOINHOS

Vânia Dantas
Filósofa Clínica
Uberlândia – MG

Talvez a comunicação com as pessoas ‘diferentes’ seja mais possível pela emoção. Talvez nessa troca nos entendamos, tendo a razão recolhida. Mas como dizer isso para quem define a melhor forma da vida ser vivida, ou seja, através da racionalidade?

A própria existência nos ensina a ser, na figura das pessoas e situações encontradas. Assim se percebe que há caminhos para uns e para outros. Com essa emoção me lembro dos delírios que observo no mundo, no caos da Terra e no das imagens mentais. Música, vinho e fantasia.

Os moinhos de vento ruflam no meio do mar escuro. Altos, muito altos, construídos de tijolos antigos, querem tirar sal da água, água do sal. Os moinhos se vão com o redemoinho, sobem com o vento como num clipe de Pink Floyd. Esse mar, que é um copo de vinho, vinho amargo pela dor ou prazer adocicado de enjoar.

Esse corpo de vinho que se liquefaz no chão já não se agüenta de saudade e não sabe mais como existir sozinho; se altera com ondas na superfície e se espanta com a multidão de veleiros coloridos, espantalhos de surpresas e desfeitas. Se há esperança? Anseia há muito a calmaria.

Lembro premonições, como o texto distribuído na sala dos professores:

“Construção diferente
Uma nova cor muda um quadro
Uma nova página reescreve uma história
Um novo dia muda uma vida...
Que neste ano você faça parte da construção de um novo projeto:
Viver intensamente!”

Algumas vezes, essa mensagem pode ser muito certeira. Um momento que se instaura para fazer reconstruir toda uma vida, repensar o passado, mudar o futuro. Muda-se o futuro, se ele nem existe? O tempo é uma utopia? Nossas vidas, enteiadas umas às outras, mostram que o livre arbítrio não existe...

Todos quereriam viver intensamente, dez anos a mil. Mas pode haver grande diferença entre discurso e ação. O futuro seria o mesmo, com você sozinho e lutando contra a vontade de manter seus ideais por conta de convenções e limites. Você acha que o futuro já estava marcado? Então é o presente que está errado, não você... (risos)

Mas se ele é presente, foi um pacotinho brilhante, com laço de fita vermelha que, acho, não soubemos bem desembrulhar e ver o que tinha escondido nos cantinhos... lá estava a poeirinha mágica, purpurina dourada pra dizer que é possível – e que, no fim, é tudo sonho. Mas você não a viu.

Voltar pro sonho. Soltar os braços e sentir um redemoinho pronto pra nos levar, pra guiar nossos planos, realizá-los. Caminhar no leito dos córregos da fazenda em busca das cachoeiras. Nadar a favor da correnteza do rio, ser o rio.

Alcançar um corrimão que nos ajude a transpor a ponte de Monet para outra fase da vida. Passar para outra vida, digna de ser vivida. Sentir muito mais coisas no ar do que o corpo poderia participar, sendo ele um elemento a mais e não o principal, como ocorre com a generalidade.

Encontrei os moinhos na usina eólica instalada no alto do morro do Camelinho, ao lado da rodovia Curvelo-Diamantina. Eram figuras isoladas, brancas e bem delicadas pra se dizer que seriam monstros com quem se precisasse guerrear.

sexta-feira, 17 de junho de 2011

Comunicado,

Inscrições para o XIII - Encontro Nacional de Filosofia Clínica Encerradas!
Interessados (as) que ainda desejam inscrever-se para o XIII - ENFIC, a partir de 16-06-2011, deverão encaminhar requerimento ao coordenador geral do evento solicitando liberação para preenchimento de ficha de inscrição e estarão sujeitos a análise e disponibilidade de vagas. Coordenador: Miguel Gomes Filho - E-mail: migomesfi@hotmail.com

Um abraço,

Coordenação.
Talentos desperdiçados

Sandra Veroneze
Filósofa Clínica
Porto Alegre-RS


Outro dia passei horas curtindo um dos maiores poetas que o Brasil já teve. Além das músicas, li e ouvi muita coisa sobre a vida de Cazuza. Conhecido pelo estilo irreverente e provocador, o artista, carioca da zona sul, morreu aos 32 anos, vítima da Aids.

Na minha infância e adolescência, suas letras embalaram as aulas de violão e leituras reclusas. Muito embora ‘Exagerado’ combine melhor com meu tom de voz, tem uma de suas canções que me paralisam: Faz parte do meu show. Alguns dos versos: Faço promessas malucas, tão curtas quanto um sonho bom / Se te escondo a verdade é pra proteger da solidão / Encontro um amigo no peito do meu traidor... Lindíssimos.

Quando observamos a carreira meteórica de Cazuza, a profundidade de seus versos, sua capacidade de retratar toda uma geração crítica, bem-informada, e desesperada por uma razão para viver, é natural que se lamente a perda de um grande talento. É a mesma sensação pela despedida pré-matura de outros grandes artistas, como Cássia Eller e Elis Regina, só para ficarmos no campo da música.

Cazuza dizia que queria o vinho e o pão, ou seja, a fantasia e a realidade (eu também), e que gostaria ser lembrado e julgado pelo seu trabalho. Ao final das contas, acredito que é isso que todos nós queremos: deixar uma marca que justifique nossa passagem por esta vida.

Alguns chamam isso de sonho, outros de projeto de vida... Particularmente, prefiro a palavra ‘ideal’, que engloba não somente o que fazer, mas também a predisposição com a qual nos movemos. O ideal de vida, pra mim, tem a forma de uma chama, que arde no peito, e que nos leva a extrapolar os limites do próprio eu e nos leva a olhar o entorno, suas necessidades, demandas, nos convidando a disponibilizar ao todo o que temos de melhor.

Nesse sentido, é válido querer deixar uma marca no mundo pelo trabalho que desenvolvemos. Penso, porém, que não é só isso. Muita coisa boa se produz e retumbe após gerações, no nosso campo profissional, e algumas áreas são privilegiadas nesse sentido. Mas o que fazemos reflete somente uma parte de nós. De coração, acredito que o universo nos convida a deixar nele uma marca pelo que, verdadeiramente, somos, ou seja, aquilo em que de fato somos insubstituíveis.

Parece surreal, mas vale o exercício do sepultamento. “O que será que falarão de mim na hora da despedida?”. No resumo da ópera, o que fica mesmo é a maneira como usamos nosso talento, nem que seja o de fazer e conservar amigos, de encarar e superar desafios, de harmonizar ambientes, etc. Algo que não pode ser desperdiçado, seja pela morte antecipada ou simplesmente por inércia.

quinta-feira, 16 de junho de 2011

Olá amigos,

Nosso Banquete Filosófico Clínico no Casarão do Belvedere será sábado, dia 18/6, às 17 horas. Desta vez contaremos com a presença de Leo Cavalcanti ( www.leocavalcanti.com.br ), que nos apresentará algumas de suas composições.

Os Banquetes Filosófico Clínicos são conversas informais sobre questões cotidianas, abordadas sob a perspectiva da filosofia clínica, podendo ser apresentadas em diferentes linguagens (poesia, prosa, música, pintura, vídeo, dança, teatro...). Em 2011, a temática central de nossos encontros é a questão da diferença.

Tragam suas questões, suas expressões, sua arte.

Banquete Filosófico Clínico no Casarão do Belvedere
Sábado, 18 de junho
17 horas
Rua Pedroso, 267 - Bela Vista - São Paulo
Programação gratuita

Instituto Interseção
www.institutointersecao.com
(11)3337-0631
Onde tuas asas te levam II*

Letícia Porto Alegre
Jane Difini Kopzinski
Rafael Gabellini Ribas
Filósofos Clínicos
Porto Alegre-RS


Asas que levam a vôos rasantes, altos demais ou em um rumo descoordenado, procuram ajuda para voar no sentido correto de seu próprio vento.

Nas palavras de um ser, dentro da verdade de uma historia contada no momento da terapia ou no hospital psiquiátrico ao filósofo clinico que, diante do partilhante, faz uma escuta sem julgamentos deixando o outro a sua frente se expressar e acolher, captando sua singularidade e principais características das Eps, integrando um momento mágico de interseção.

Desejos, buscas, vontades, todos temos, mas qual o limite entre aquilo que se conhece por loucura, um devaneio, uma simples expectativa?
Conforme a direção do vôo, haverá como saber o que é plausível e verdadeiro para quem é incapaz de acompanhar esse vôo?

Asas que levam a várias direções e autogenias, se mostrando somente no momento da terapia.
Partilhantes que revelam a importância de serem escutados como: a pessoa que num personagem evidencia super poderes, num discurso incompleto, dentro do que acha de si mesmo, como papel existencial, em uma busca nas idéias complexas. Outro que se utiliza da semiose, através de uma boneca para falar de si mesma, para contar sua dor em relação a família que não a compreeende e abandonou.

Aquela que revela em suas palavras o que acha de si mesma com esteticidade bruta, expressividade e emoções, e por isso foi internada. Outro, por usar suas asas e voar através da música, expressa todo o sentido que dá a sua vida, cantando seus temores, buscas, amores e oferecendo autogenias distantes da língua conhecida, por ser escutado e acolhido, sente-se feliz e canta.
Agendamentos feitos ao longo da vida, como o caso do partilhante: como não errar na escolha das palavras, ao tentar dizer o que quer dizer, oferecendo uma interseção mista com o filósofo clínico.

São tantos vôos compartilhados e vislumbres em uma só tarde, num vaivém de padrões existenciais, que nos faz crescer em relação aos outros e aos nós da interseção. Através da singularidade dos encontros, submodos adequados ao partilhante vão sendo remédio e aprendizado, de lado a lado da relação clínica.

*Construção compartilhada dos atendimentos no hospital psiquiátrico, como pré-requisito a formação clínica em filosofia.

quarta-feira, 15 de junho de 2011

INVERNO

Olympia
Filósofa Clínica
São João del Rei-MG

Fogão de lenha
Panela de barro
Colher de pau
Porção de fubá
De moinho de água
Torrado na manteiga
Sal e alho
Couve rasgada
Ovo caipira
Cachaça Mineira
Cheiro de Lar...

terça-feira, 14 de junho de 2011

Saudades

Luana Tavares
Filósofa Clínica
Niterói/RJ


Saudades.
Sentimento estranho e cruel
que arrebata a alma, desafia a dor
e obriga a recomeços,
impondo um novo tempo.
Tempo de dizer adeus
e olhar em frente,
pois a vida continua...
Saudades
do que está longe...
do que não vivi...
de significado e de incondicionalidades.
Saudades existenciais.

segunda-feira, 13 de junho de 2011

Aceitando você como você é

Patrícia Rossi
Filósofa Clínica
Juiz de Fora-MG


Voltando do Café Filosófico hoje, cujo tema foi "Montaigne e a auto estima", me deparei com algumas questões e gostaria de compartilhá-las com vocês.

Montaigne foi um filósofo do fim so séc. 16 e um pouco diferente dos outros. Segundo ele, é preciso superar a vergonha do corpo e da mente e o medo do julgamento alheio para levantar a auto-estima. “A pior desgraça para nós é desenhar aquilo que somos” dizia ele.

Em sua filosofia ele dizia que “temos tantos problemas justamente porque somos racionais, porque pensamos, e isso atrapalha nossa relação com nosso corpo. Ao contrário dos outros animais temos repulsa por nossa corporalidade. Achamos que somos gordos, brutos ou desajeitados demais. Desenvolvemos distúrbios alimentares, complexos sexuais e bloqueios.”

Pensando assim, podemos ver que isso não mudou com o passar dos anos. Percebemos então que a relação com o corpo vem muito antes do massacre do mundo moderno pela perseguição de um corpo ideal, esquelético ou “perfeito” como julgam as passarelas e as propagandas de moda. A relação ser humano e corpo vem desde que o homem passou a tomar consciência justamente da sua singularidade e que não há perfeição e sim seres humanos cada qual com suas qualidade e defeitos.

Voltando a Montaigne, ele pensava que o problema era, já que o corpo não era assunto adequado muitos menos para os livros de filosofia, acabávamos pensando nele como motivo de vergonha. Ele nos persuadia a aceitar nosso inegável lado animal.

Ao observar os animais, Montaigne chegou a uma conclusão interessante: “a sabedoria animal muitas vezes é maior que a nossa, por exemplo, os animais ficam mais a vontade com o corpo deles, não tem os constrangimentos, as vergonhas e os pudores que temos. Sua relação com o corpo é mais natural”.

Abrindo novamente um parênteses, fico me perguntando porque o ser humano tem repulsa de seu próprio corpo e seu funcionamento. Ontem conversando com alguns colegas de faculdade acabei ouvindo uma história de uma namorada que tem nojo de imaginar o namorado defecando, ou da sua própria menstruação, como se aquilo fosse algo nojento ou inatural.

Não seria isso ir contra a natureza de sua própria existência? Talvez viver num mundo plastificado onde as Barbies são modelos de beleza e perfeição seja mais fácil, afinal, elas não precisam fazer necessidades biológicas ou menos pensar nisso, ou qualquer outra coisa que surja no caminho.

Montainge nos compara com os animas alegando que devemos aceitar o corpo que temos assim como ele é, mas com uma pitada de humor, tão naturalmente quanto os animais o fazem. É tão simples. E “uma idéia não precisa ser complexa para ser verdadeira” dizia ele.

Ter um cérebro desenvolvido não é um problema só porque nos leva a ter vergonha dos próprio corpo, mas também nos leva a ser arrogantes e achar que sabemos o que é certo e impor nossa visão aos outros.

Cada sociedade tem seu parâmetro do que é normal, do que são roupas, comidas ou conversas normais. Quem foge desse parâmetro está sujeito a ser alvo de julgamento e preconceito, a ser tachado de “esquisito”, seria alvo de chacota ou coisa pior.

Isso me fez lembrar de um seriado americano chamado Glee(ep. 16), onde uma aluna do ensino médio, gordinha, e, portanto, fora dos padrões, tinha que emagrecer para ser aceita entre as animadoras de torcida do time da escola. Depois de brigar com balança, fazer dietas malucas e ir contra seus princípios e seu próprio corpo ela relata para todos os estudante da escola: “Como a maioria de vocês sabem, ser líder der torcida é ser perfeita e vencedora, ser sexy e popular. Bem, eu acho que deveria ser diferente. Quantos de vocês nesta escola se acham gordos? Quantos acham que talvez não tenham valor? Ou que são feios ou tem muitas espinhas, ou não tem muitos amigos? Bem, as vezes eu sinto isso. E isso não é certo”.

Portanto, que tal dar uma paradinha pra pensar, antes de acusar os outros ou a nós mesmos, afinal, o que é certo e o que é errado quando falamos de seres humanos? Porque a busca pelo corpo perfeito, se nem mesmo sabemos o que seria um corpo perfeito. Onde tudo isso irá nos levar? Com certeza a uma loucura coletiva onde todos os indivíduos são infelizes com o corpo e a vida que tem.
Bom dia,

Informamos que as inscrições ao XIII Encontro Nacional de Filosofia Clínica se encerram no próximo dia 15-06-2011. Confira a programação completa e acesse o site: www.ceficcgde.com.br para garantir sua vaga.

Um abraço,

Coordenação.

domingo, 12 de junho de 2011

Afinal, você está namorando?

Ildo Meyer
Médico, Escritor e Filósofo Clínico
Porto Alegre-RS


A História: O imperador romano Claudio II proibiu casamentos durante as guerras com o argumento de que homens solteiros eram melhores combatentes. Um bispo chamado Valentin rebelou-se contra esta ordem e continuou celebrando casamentos secretamente. Acreditava tanto no amor que foi mais além, casou-se também.

Descoberta a transgressão, Valentim foi preso e condenado à morte. Enquanto aguardava sua execução, sucumbiu novamente ao amor e apaixonou-se pela filha cega de um carcereiro. Comunicavam-se através de bilhetes onde assinava sempre “seu namorado Valentim”. Reza a lenda que milagrosamente a amada recuperou a visão, o que explica como conseguia ler sem enxergar.

Valentine’s day é celebrado como o dia dos namorados no dia 14 de fevereiro na maioria dos países. No Brasil os namorados comemoram em outra data, 12 de junho, véspera do dia de Santo Antônio, conhecido por seus “milagres” casamenteiros.

A Função: o namoro foi criado como uma instituição de relacionamento. Casais de adolescentes encontrariam-se buscando descobrir e criar afinidades, afeto e cumplicidade que um dia lhes possibilitariam assumir uma convivência conjunta no matrimônio. No inicio era um processo muito vigiado, onde uma pessoa, chamada popularmente “chá de pêra”, acompanhava os namorados durante os encontros. Mesmo com os hormônios à flor da pele, relações sexuais entre namorados não eram a regra.

A Adaptação: A partir da revolução sexual dos anos 60, o namoro se transformou em uma entidade mais liberal. A vigilância foi relaxada, namorados passaram a se relacionar mais intimamente e o casamento deixou de ser o objetivo final. Surge a internet permitindo namoros virtuais apesar da distância fisica. Mutações no grau de compromisso e envolvimento afetivo desenvolvem criaturas estranhas: tico-tico no fubá, amizade colorida, transa, paquera, rolo, ficante, peguete...

A Confusão: Você pode ter três pretendentes, dois paqueras, um ficante, quatro rolos e mesmo assim não ter ninguém. Você também pode ter um só namorado e ele valer por dez ao mesmo tempo. Vale tudo. Cada um sabe (ou pensa que sabe) suas carências e expectativas. Somos livres para escolher.

A Escolha: Em tese, a maioria das pessoas sonha ou já sonhou encontrar um príncipe encantado e viver feliz para sempre. Quando acordam geralmente surpreendem-se ao perceber que príncipes e princesas transformaram-se em sapos. A prudência recomendou não sonhar tão alto e cair na real. Independência financeira, senso de humor, sinceridade, educação, nível cultural, romantismo, sensibilidade, companheirismo, cumplicidade. Nem precisa tudo isso, é só não cair na rotina, não se acomodar, não cobrar, não agredir, não mentir, não trair, não entediar.

Mesmo com expectativas menores, desilusões amorosas continuam a acontecer e no intuito de se proteger, alguns optam por não mais sofrer. Preferem ficar paralisados no limbo amoroso e encontram apoio em expressões do tipo “antes só do que mal acompanhado”, “enquanto não encontro a pessoa certa, vou me divertindo com as erradas” ou ainda “casamento é um seguro para os piores anos de sua vida. Para os melhores, você não precisa de marido”.

O Acaso: Você está sozinho(a) no cinema e senta ao seu lado uma pessoa interessante. Conversam amenidades e ao final do filme trocam telefones. No dia seguinte uma ligação e um convite para um novo encontro. Ao mesmo tempo em que tem vontade de aceitar, pensa em todos os sapos que já conheceu. Resolve pagar pra ver.

A cada encontro uma descoberta, um sorriso mais frouxo, um encantamento, uma carícia e quando se dão conta estão flertando. E agora? Você queria uma boa companhia para ir ao cinema de mãos dadas, jantar, dançar, viajar, transar? Encontrou. Pode estacionar e ficar seguro neste programa social agradável, mas também pode correr o risco de tentar algo mais profundo, gostoso e enriquecedor. Pode apostar em um namoro.

A Aposta: Namoro é um teste, um ensaio. Pode até não dar certo, mas não é um simples passatempo. Envolve incertezas, ajustes, química, paciência, dedicação.

Namora-se não apenas para um casamento de papel passado ou um compromisso de estabilidade, mas para que se aprenda junto a arte da entrega e da doação. Não pode haver pressa, subterfúgios, cálculos, premeditação. É preciso deixá-lo acontecer. É importante ter tempo para se tocar a alma, conquistar a confiança, encaixar os corpos e ai sim, construir um casal.

Namorar é sentir saudades do outro, ter um colo pra chorar, um segredo pra revelar, um ouvido pra escutar, uma boca pra elogiar, uma maça pra dividir, um corpo pra esquentar, alguém para amar. Namorar, acima de tudo, é não ter vergonha nem medo de se entregar, e assim fazendo, encontrar eco em seus sentimentos.

O Prêmio: Um dia você se dá conta que pensa no seu namorado(a) quando acorda, toma banho, almoça, caminha na rua, lê o jornal, escuta uma canção. Tem vontade de ligar para contar uma novidade, perguntar algo ou só pra ouvir a sua voz. Conta as horas para ficarem juntos no final de semana. Descobre então, quase sem acreditar, que ganhou na loteria. Está amando. O dia dos namorados é para pessoas como você. Parabéns!

sexta-feira, 10 de junho de 2011

Comunicado urgente,

Informamos que as aulas de Filosofia Clínica com Hélio Strassburger, inicialmente marcadas para os dias 10, 11 e 12-06 em Juiz de Fora-MG e Petrópolis-RJ, estão canceladas. As cinzas do vulcão chileno chegaram ontem à tarde ao sul do país, fechando aeroportos e cancelando todos os voos.

Confirmamos o próximo módulo de estudos para os dias 08, 09 e 10-07-2011.

Agradecemos a compreensão de todos.

Um abraço,

Coordenação.
É de mim que tenho mais saudades

Jussara Hadadd
Terapeuta Sexual e Filósofa Clínica
Juiz de Fora-MG


É muito comum ouvirmos mulheres de todos os tipos queixando-se de suas vidas, principalmente quando estão há muito tempo envolvidas com alguém. Queixam-se de que não dançam mais, que não cantam, que não exercem a sua sensualidade, que estão ficando velhas e secas mais depressa do que imaginavam. Queixam-se da falta de romantismo em que suas vidas se inseriram. Queixam-se dos homens que amam e dos filhos que este amor gerou. Queixam-se de Deus e do mundo ao seu redor. Chegam quase a se arrepender da opção de partilhar a vida com alguém.

Numa relação estável é muito comum que a mulher conste como a parte menos conformada da situação e que logo, com poucos anos de convivência, se sinta anulada e cobrando caro toda a dedicação dispensada ao convívio (ao bom e sereno convívio), entre ambos. Um erro muito frequente está intrínseco ao fato de a mulher fantasiar demais antes de se relacionar intimamente e estavelmente com um homem. Além disso, ela tem uma enorme tendência a se responsabilizar por toda a felicidade que o casal possa ter e mais tarde, cansada de assumir sozinha todos os sonhos e as ilusões de romance eterno entre os dois, ela passa de fada encantadora a bruxa cobradora.

Não que os homens não tenham sua parcela de responsabilidade na monotonia e falta de graça que circunda a vida do casal, é claro que tem. Eles poderiam ao menos prestar atenção ao que é manifestado pela sua mulher como fator de contentamento dentro do relacionamento. Sair para dançar com ela uma vez por mês, elogiar sua postura e aparência de vez em quando, isso não mata ninguém, convenhamos. Acontece que, com sua natureza hermética, o que é uma característica de grande parte dos homens, não participa dos planos da parceira para uma vida cercada de emoções e contribui sobremaneira para a falência de todo e qualquer projeto de comporem um casal diferente.

A mulher, que sonha alto demais e tem uma enorme dificuldade em se adaptar a uma vida a dois mais serena e quase isenta dos suspiros dos contos de fada, sofre verdadeiramente. Frustra-se, entristece e se revolta.

No sexo não é muito diferente. O comportamento sexual é inerente ao sucesso da relação. Não existe bom relacionamento conjugal sem bom sexo e não existe bom sexo sem um bom relacionamento conjugal. O que às vezes abala esta estrutura é o fato de um dos dois, e muito mais as mulheres, acharem que em toda vez que o sexo acontecer, ter que ser algo perfeito e cercado de sentimentos, emoções, fantasias, pétalas de rosas, velas e todo o tipo de aparato que deve sim ser usado o máximo possível, mas que às vezes é perfeitamente dispensável. E no caso deles... Precisa mesmo falar?

São normalmente nestes momentos que a saudade bate forte na mulher. É muito nesta hora também que ela tende a se sentir usada, termo muito comum para explicar o descontentamento feminino perante o sexo com o parceiro. Se sente usada como um objeto de prazer sem que haja com ela a mínima observação, o mínimo elogio ao seu corpo bem tratado, a maciez da sua pele cultivada com a intenção de sempre agradar, com o perfume na medida certa, com os esforços para se revelar a cada dia uma amante indescritível.

A saudade vem como um grito de socorro e desejo de se ver novamente cortejada, seduzida e conquistada pelo homem que ela ama. E ela se remete a um tempo em que até uma simples cruzada de pernas era objeto de fascínio para ele. A um tempo onde ela podia até se dar ao luxo de dizer "não", "fica quieto", "agora não é hora disso", entre risinhos mal intencionados. A saudade vem da incompreensão ao comportamento masculino que denota claramente que após conquistar a sua presa, faz com ela um sexo com cara de simples masturbação, desprezando todo seu empenho para manter o relacionamento em alto nível de desejo e satisfação. Elegância e cavalheirismo podem resolver isto.

Lembrei-me agora de um fato interessantíssimo. É publico que, hoje em dia, as mulheres casadas, maduras, mães de família, estabilizadas profissionalmente, estão usando todo tipo de artifícios que as equiparem às profissionais do sexo para manterem fieis os seus maridos. E elas são campeãs, porque fazem isto por adivinhação tendo em vista a dificuldade do homem em manifestar para as parceiras fixas, as suas mais secretas fantasias eróticas. "Não se fala dessas coisas com a mulher da gente". Andam ávidas por produtos de sex shops. Espartilhos, algemas, chicotes, cremes que esquentam, cremes que gelam, calcinhas com sabor, ufa. Uma parafernália, capaz de montar um cenário de filme pornô. E nem sempre dá certo, isto é o pior. São classificadas como ridículas.

Segurança, autenticidade no comportamento diário, cuidado básico com o corpo e a saúde, equilíbrio e contentamento com ela própria, pode ser a chave para uma relação plena a dois. Bom senso costuma também ser a solução certa para evitar conflitos de toda natureza. Pode ser o tiro certeiro.

O homem que também espera que sua parceira seja sempre aquela tigresa voraz que o fazia sentir-se como o único na face da terra, tem que dar um desconto aos períodos onde ela se volta mais para a família, para os filhos, para o crescimento profissional, ou onde a TPM impera e reina como déspota. Nestas horas é bom usar a razão e a ponderação para acalmar os seus ânimos e não sair por aí fazendo besteiras que coloquem em risco um amor que tinha tudo para dar certo. Paradoxalmente, a saudade dele bate exatamente no tempo em que ela fazia de tudo para que a vida deles fosse um turbilhão de emoções, mas na maioria das vezes ele nem sabe explicar isto.

O remédio, como sempre, é manter a cabeça fria e não se entregar a impulsos que levem a atitudes inconseqüentes e capazes de causar muito sofrimento. Cada um tem a sua receita e a sua medida, basta usar.

Sexo, amor, paixão e coerência, é possível! Talvez machuque menos.

quinta-feira, 9 de junho de 2011

Ser feliz é muito fácil

Sandra Veroneze
Filósofa Clínica
Porto Alegre-RS


Vivemos uma época em que, para ser feliz, é muito fácil.

Partindo da premissa de que existem momentos e episódios pontuais na vida de cada um que podem ser uma usina de alegria (promoção no trabalho, casamento, nascimento do filho, viagem, etc), e que existem situações mais ‘permanentes’ (como trabalhar naquilo que gosta, ter uma renda compatível para o estilo de vida que se aprecia, um relacionamento afetivo conforme sua própria natureza e recíproco...) podemos dar uma atenção especial, no caso das anteriores ainda estarem em processo de construção, aos pequenos prazeres cotidianos.

Para quem gosta de música, por exemplo, é muito fácil: liga o rádio, escolhe um cd, puxa um arquivo específico no mp3, e tantas outras possibilidades, como os vídeos no youtube. Até não muitas décadas atrás, se alguém quisesse ouvir música (e como faz bem pra alma), precisava pegar uma viola e tocar e cantar, sem a facilidade de não invadir o espaço do vizinho, hoje ofertada pelos fones de ouvido.

Se você gosta de passear, também é muito fácil: quem tiver carro ou moto ou bicicleta, basta erguer-se e sair. Quem não dispõe dessas facilidades, pode usar o telefone e chamar um táxi, ou pegar uma lotação, ou pegar um ônibus, ou até mesmo sair a pé. Antigamente, ver a namorada, ir para o trabalho, dependendo do trajeto, se fazia no lombo de um cavalo ou de uma carroça!

Quem aprecia comer, muito fácil: se quiser algo rápido pode descongelar algo comprado pré pronto, ou chamar uma tele entrega, ou ainda ir até a lancheria ou o restaurante da esquina. Já pensou na época em que todo processo ficava na sua mão? Matar o bichinho (me perdoem os vegetarianos), plantar o milho, pescar e limpar o peixe, etc, etc, etc?

Estudar, que é outra fonte de prazer e felicidade pra tanta gente, está a um toque da mão. Para cursos formais existem centenas de opções para todos os níveis de aprofundamento, e pra quem prefere a via autodidata basta ligar o computador e ir navegando...

Já experimentou digitar no “Santo Google de todo dia’ a expressão ‘curso online gratuito’? É um enormidade de opções que aparece... É muito fácil estudar hoje em dia. Até pouco tempo atrás era opção pra quem tinha muito dinheiro ou se dispusesse a se internar em colégio de freiras ou de padres...

Os exemplos são diversos e existem centenas ou milhares de opções que são pequenas fontes diárias de prazer e satisfação. Conhecer-se um pouquinho e ter um mínimo de boa vontade e desprendimento é chave.

quarta-feira, 8 de junho de 2011

Convite,

Café Filosófico:

Quando o que utilizamos como um BEM (ético) é usado de volta contra nós.

O café filosófico é um acontecimento com periodização mensal com temas variados, realizado sempre aos domingos das 18h30 às 20h, envolvendo o instrumental da Filosofia Clínica ou não, e coordenado por Filósofos Clínicos e outros convidados.

O Coordenador do dia faz uma exposição por aproximadamente uns 40 minutos e posteriormente, abre para questionamentos e manifestações do público presente.

Próximo Café: DATA: 12/06/2011 - Horário: 18h30min.

Explicação – Suponha um sacerdote que utiliza o amor e a compreensão como instrumento de ensino e encontre pessoa, ou pessoas, que usem precisamente este amor e esta compreensão com arma para manipular o sacerdote. Quais os caminhos, quais as orientações?

Coordenador do Dia: Prof. Dr. Lúcio Packter – Fundador da Filosofia Clínica

Local: Auditório da Paulus Livraria, sito à Avenida Calógeras, 2405 Campo Grande-MS (entre Marechal Rondon e Dom Aquino) – Entrada pelo portão de estacionamento!

Observação: O café filosófico é aberto ao público em geral e não é cobrada nenhuma taxa para participação.

Um abraço,

Coordenação.

terça-feira, 7 de junho de 2011

O viajante de amanhãs*

“O filósofo é uma das maneiras pela qual se manifesta a oficina da natureza – o filósofo e o artista falam dos segredos da atividade da natureza.”
Friedrich Nietzsche


O espírito aventureiro impróprio a cristalização do saber, se refaz nas escaramuças de um território movido a movimento. Seu viés de intimidade precursora se alimenta das ruas, estradas, subúrbios desmerecidos. É incomum ser facilmente compartilhável, esses eventos anteriores ao engessamento conceitual.

A irregularidade narrativa como propósito sem propósito, se reveste de uma quase poesia, para tentar dizer algo sobre os eventos irreconciliáveis com a ótica dos limites bem definidos. Essa lógica de singularidades flutuantes se aplica as coisas irreconhecíveis ao vocabulário sabido.

Seu desprezo pelas fronteiras, objetivadas pelos acordos e leis, é capaz de antecipar amanhãs no agora irrecusável. Num caráter de existencia marginal entre o cotidiano e a miragem das lonjuras, parece querer se estruturar nas dialéticas do acaso.

Uma espécie de não-lugar se institui numa percepção visionária das coisas e eventos ao seu redor. Os refúgios existenciais descritos na provisoriedade dos apelidos, querem fazer referência a multiplicação dos exílios, onde se possa apreciar o projeto pessoal em rotas de um recomeço caótico.

Num hoje destituído de formas definíveis e na quimera dessas errâncias do talvez, cada vez mais, parece se antever inéditos amanhãs. Por essa indefinição característica dos anúncios, muita coisa se desdobra, na subjetividade incapaz de viver sempre o mesmo foco. Assim o instante desordenado, deixando de ser apenas uma coisa ou outra, se institui numa conversação entre eu e não-eu.

Por essas expressividades sem palavra surgem inúmeras possibilidades desconstrutivas, reconstrutivas, buscas. Conteúdos ainda sem um chão discursivo legível para se dizer. Uma aptidão de mistura parece estabelecer interseção com as novas verdades, recém chegadas do lugar desconhecido na própria estrutura.

Assim uma correspondência se estabelece, onde a diversidade busca divulgar-se como fonte de originalidades. Como um aventureiro a contrariar insinuações de que a vida acontece num só lugar, o viajante precursor parece se especializar em um saber itinerante.

Nesse cotidiano estranho que não cessa de chegar, se institui algo indefinível ou apressadamente enquadrado, pelos outros interessados em classificar seu viés de anúncio. Numa lógica assim disposta, a única garantia é não haver garantias.

Não é tão simples reconhecer a extraordinária matéria-prima desse devir existencial. Muitas vezes se apresenta como ameaça ao olhar focado numa só direção. Sua erudição de aspecto nômade se apresenta em poéticas de contradição com o mundo satisfeito consigo mesmo. Para quem já se tinha como acabado ou visto tudo, apenas o vislumbre dessa perspectiva, por si só, já pode propagar autogenias.

É interessante notar seu renascimento em desacordo com o passado, o qual nega para melhorar. Uma espécie de Dioniso das idas e vindas se estabelece na alma inquieta e cansada do mesmo lugar. O instinto mutante se abastece das impermanências e redescobre, a partir de si, as forças com as quais terá de se ver, em busca de outras significações.

A epistemologia desses percursos pelo amanhã costuma enamorar a crise e o caos num só sujeito, o qual, na maioria das vezes, se acha despreparado para lidar com a versão de alma nova que vai chegando. Suas estéticas da incompletude seguem por entremeios de indefinição, talvez aí resida o medo e a insegurança do mundo normal, o qual teme perder o território já conquistado por suas certezas.

O aspecto de imaterialidade integrante desses percursos de redescoberta, concede uma linguagem própria a cada pessoa. Para saber mais é impreciso sair de sua zona de conforto, realizando uma reciprocidade com os outros lados da interseção.

Depois de algum tempo, a partir da superação da insegurança do viés normal, pode ser possível alguma fluência com esses deslizes existenciais. Quando se atualiza a perspectiva de onde se partiu, é incrível dar-se conta da distância insignificante entre uma margem e outra. Para se aproximar desse viés da pessoa que passa, pode ser necessário pensar menos e sentir mais.

*Hélio Strassburger
Filósofo Clínico

segunda-feira, 6 de junho de 2011

Pressão

Miguel Angelo Caruzo
Filósofo Clínico
Juiz de Fora/MG

Esses dias, ouvindo alguns estudantes de medicina, aprendi que o corpo que apresenta problemas de pressão arterial alta, num primeiro momento deve esperar ver se o próprio organismo se regula sem intervenção farmacológica.

Isso também acontece com as questões psicológicas. As dores existenciais são expressas em certos momentos até em “esteticidade bruta”, ou seja, por ações ou expressões fortes como choro, gritos, ações agressivas, xingamentos, etc.

Interessante foi perceber que esses mesmos estudantes logo depois acreditavam na possibilidade de recorrer a remédios para sanar suas dificuldades psicológicas. Mesmo sabendo que receitar remédios para um paciente só deve ser feito quando necessário, eles já se auto creditaram o diagnóstico de necessitados de remédio para sanar seus conflitos existenciais.

Se o corpo apresenta determinados problemas em seu funcionamento, as causas podem ser resolvidas assim que descobertas. Uma dor de cabeça pode ser causada por um problema no fígado, ou uma dor na perna pode ser oriunda de uma lesão na coluna. Nesses casos não são tratando os problemas imediatos que resolverá suas causas.

Do mesmo modo como o corpo dá sinais de seu mal funcionamento, assim a mente apresenta seus conflitos. E do mesmo modo como as causas devem ser priorizadas no corpo, quando se trata de questões da alma o mesmo deve ser feito.

Os remédios podem até ser importantes num primeiro momento a fim de regular alguns problemas químicos da mente. No entanto, só valer-se de remédios pode acarretar num inibidor dos efeitos sem, contudo, sanar as causas.

Talvez o único caminho para se chegar ao cerne dos conflitos existenciais sejam os efeitos. E nesses casos, se o remédio intervier pode se formar um ciclo vicioso sempre havendo um paliativo inibidor dos problemas.

Há certamente, pessoas para as quais somente inibindo por via farmacológica seus conflitos já sejam suficientes para o bom encaminhamento de suas vidas. Em outros casos a própria “Estrutura de Pensamento” se encaminha para criar outros artifícios que se tornam mais relevantes, diminuindo a relevância de outras na malha intelectiva.

Para outros ainda, com o remédio se consegue um alívio momentâneo capaz de criar um ambiente mental propício para trabalhar e aliviar os conflitos que antes tanto incomodavam. E assim, seguem-se os casos tantos quantos são as pessoas.

Assim como funciona o corpo para a pressão arterial, pode ser visto quando se trata da pressão na “Estrutura de Pensamento”. Os casos são diversos seguindo da mesma forma as aplicações de modos de resolução. Cada pessoa com sua particularidade. Cabe aos cuidadores tanto os do corpo quanto os da alma, atentarem para a complexidade do sujeito que o procura.

domingo, 5 de junho de 2011

COMO ACABAR COM A CONCORRÊNCIA

Ildo Meyer
Médico e Filósofo Clínico
Porto Alegre-RS


Todo palestrante precisa saber que em algum momento de sua carreira vai enfrentar situações constrangedoras. Uma pergunta de cunho pessoal, um microfone que não funciona, um branco na memória, uma imagem trocada na tela...Com o tempo, a experiência vai ensinando a contornar com leveza e humor estes contratempos.

Nem sempre. Certa ocasião, minutos antes de iniciar uma palestra de Marketing para Médicos no interior de São Paulo, recebi o telefonema de um ginecologista local perguntando se havia a possibilidade de recebê-lo antes da apresentação. Combinamos um breve encontro e ele foi direto ao assunto:

- Quanto o senhor está cobrando por esta palestra? Pago o dobro para que o senhor não se apresente, vá embora da cidade e não ensine nada de marketing para meus colegas. Quero uma aula particular, assim vou ganhar a concorrência.

Fiquei tão espantado com a proposta que quase perdi a voz. Não sabia direito como responder, mas tinha muito claro que não poderia frustrar a platéia que me aguardava. Sugeri que assistisse à palestra e ao final teríamos uma conversa reservada sobre seus objetivos profissionais. Lembro até hoje dele contrariado, sentado na última fileira do salão com o rosto preocupado a cada dica que era fornecida aos “concorrentes”.

Transcorridos vinte minutos da apresentação, perguntei à platéia quantos eram ginecologistas. Aproximadamente 30 levantaram o braço. Comentei então que as estratégias ali ensinadas permitiriam um salto de qualidade na gestão de suas clinicas, bem como um aumento na captação e manutenção de pacientes. Os ginecologistas que, por um motivo ou outro, não estavam assistindo à palestra, seriam privados destes conhecimentos e ficariam em desvantagem no mercado, porém entre os presentes, a competição continuaria existindo.

Se todas as informações e projetos fornecidos fossem levados ao pé da letra e implantados como um manual de marketing, o resultado final seriam serviços e produtos similares, com qualidade semelhante, secretarias padronizadas e resultados muito próximos, cada qual buscando melhorar sua lucratividade através da redução de custos e superação dos concorrentes em algum detalhe.

Quem sabe não seria mais proveitoso cada médico contratar um profissional de marketing exclusivo para auxiliá-lo a superar a concorrência e atrair só para si as preferências dos pacientes? Deixando de lado a hipocrisia, não é o sonho de todo o profissional eliminar de vez seus oponentes?

Silêncio na platéia. Sorriso na face do Dr. Carlos (nome fictício do médico que queria me persuadir a cancelar a palestra). Meu objetivo com esta pergunta não era divulgar nem oferecer serviços de marketing, queria mesmo era provocar a audiência, estimular o espírito competitivo. Aproveitei a oportunidade e lancei outra pergunta: Existe concorrência justa e leal?

Não existem duas pessoas iguais. Serviços também diferem. Como falar em competição justa se os adversários não são iguais? Um será melhor em determinado aspecto, outro terá mais qualificações, um terceiro será mais experiente. Colocam-se as regras da disputa, lança-se o desafio, e que vença o melhor. Em tese, o melhor leva vantagem na competição. A pergunta é: - Como saber quem é o melhor?

A resposta veio rapidamente da platéia: - Aquele que vencer a disputa será o melhor.

Será mesmo? Quem vence uma partida “é” o melhor ou “está” melhor naquele momento?

Entre diferentes acontecem alternâncias de superioridade e a balança pode oscilar de um lado para o outro. Nem sempre o favorito sai vencedor. Se a “zebra” estiver melhor naquele momento, pode aproveitar a vantagem e alcançar a vitória. Esta é a graça das disputas: o inusitado. A única competição verdadeiramente justa e igual é consigo mesmo.

Em nossa vida pessoal e profissional, competimos conosco ou contra outros? Quem são eles? Quem é o juiz desta batalha? Quais são as regras?

As regras do jogo mudaram. Competição não é mais o colega ginecologista tentando captar seus potenciais pacientes, nem é o vizinho tentando lhe ultrapassar numa corrida. “Competição hoje é quando alguém vem de uma direção qualquer, bate no seu carro e lhe tira da pista” – Tony Wheeler.

Floriculturas amargaram prejuízo no dia de finados, pois não contavam com a concorrência desleal de ambulantes nos cemitérios. Pacientes com problemas cardíacos na Alemanha, Canadá, Estados Unidos pegam um avião e vão se operar na Índia, pois os preços lá praticados podem chegar a 10% do valor cobrado em seus países.

A estratégia de vigiar o concorrente, fazer visitas, utilizar cliente espião, entrar em guerra de preços, tem uma relação custo benefício muito alta, enfraquece toda a categoria e já não tem a mesma eficácia. Consome-se muita energia olhando para o lado, deixando que o oponente determine qual deve ser nosso próximo desafio. Sempre haverá um “colega” trabalhando por menos, um comprador de serviços oferecendo menos ainda e um concorrente inusitado se atravessando no caminho.

Concorrência não é produto de um mercado capitalista. Existe na natureza, em qualquer eco sistema, em todos os sistemas econômicos e não vai desaparecer tão cedo. Funciona como o engodo da economia, estabelecendo e equilibrando preços de todos os recursos produtivos, desde os medicamentos utilizados até os honorários médicos. O problema não é a quantidade da concorrência, mas a forma como é praticada: destrutiva ou construtivamente.

Ginecologistas são colegas de profissão e de especialidade, e não devem agir como concorrentes. Os clientes que freqüentam seus consultórios e pelos quais equivocadamente disputam a preferência, correspondem à demanda já existente e representam apenas 10% do mercado. Esta é uma concorrência destrutiva, pois termina com a riqueza.

A concorrência que assume formas produtivas é aquela que cria a riqueza. Restam ainda escondidos e inexplorados todos os não clientes, que correspondem a mais de 90% de possíveis novos pacientes. A economia moderna funciona tanto num sistema de concorrência como de cooperação e o segredo deste equilíbrio é criar demanda ao invés de disputá-la.

Desculpem o trocadilho, mas hoje “con-correr” significa muito mais “correr com” do que “correr contra”. Isoladamente teremos menos força, apoio e recursos para criar, conquistar e manter novos clientes. Melhor nos unirmos que nos destruirmos. Gostaria de encerrar com uma pergunta e um desafio: Onde estão os clientes em potencial? Como disse Charles Darwin, “não é a espécie mais forte que sobrevive, nem a mais inteligente, mas aquela que responde mais rápido às mudanças”.

O que aconteceu com Dr. Carlos? Nunca mais tive noticias dele até ontem, quando recebi a seguinte correspondência: “Dr. Ildo, é com muita honra que gostaria de lhe comunicar a fundação da Cooperativa de Ginecologistas de nossa cidade, entidade da qual sou o primeiro presidente. Aproveito a oportunidade para convidá-lo a palestrar novamente, desta vez deixando de lado a concorrência e nos respondendo à sua última e talvez mais importante interrogação: - Onde estão os clientes?

sábado, 4 de junho de 2011

Onde tuas asas te levam?

Leticia Porto Alegre
Jane Difini Kopzinski
Rafael Gabellini Ribas
Filosofos Clinicos
Porto Alegre-RS


Ao caminhar pelo jardim do hospital psiquiátrico, em verdes campos, flores, com o som da água ao fundo caindo pelas pedras e tomando um rumo desconhecido, observamos pássaros indo ao encontro de suas necessidades singulares. Alguns voam para longe, outros buscam as árvores e gramas, e outros que lá pousam levados pelo vento em uma direção descoordenada do seu real pouso.

Os pássaros, assim como os partilhantes, possuem em sua natureza o processo de construção de seu próprio vôo.

A linguagem singular do partilhante usada na consulta, na maioria dos casos, sem o tempo suficiente de se coletar uma historicidade completa que permita elaborar sua EP, apenas apresenta algumas características dos tópicos dominantes permitidas pelas circunstancias.

O filosofo clínico, nas consultas com os partilhantes internados, acaba por ter que se arriscar em suas intervenções. Sem ter uma freqüência de consultas regular e com tempo limitado. No entanto, faz o possível para proporcionar um bem estar subjetivo.

Ouvir o assunto imediato que o partilhante traz, e o conforto que vai se apresentando durante a consulta pelo fato do filosofo clinico não julgar, respeitar e considerar o tempo subjetivo do partilhante em construir uma interseção positiva, possibilita ao filosofo clinico descobrir a historicidade até o momento.

Partilhantes singulares que dividem um espaço em busca de conforto à dor, singular e real a cada ser como, o poeta preso dentro de si, a tentativa de demonstrar como realmente é sua alma, a reação de demonstrar aos outros a vaidade, o rancor, a saudade, a sua raiva, seus mais íntimos sentimentos, as verdades criadas em seu próprio mundo interno são alguns motivos de internação.

Dentro da complexidade do ser quanto aos tópicos: esteticidade, o papel existencial, a busca, o que acha de si mesmo, agendamentos, pré juízos emoção, dentre outros, a Filosofia Clínica usa, também, o método fenomenológico, onde investiga e analisa os históricos trazidos pela pessoa de forma literal, ajuda o partilhante no seu mundo existencial com submodos a realizar autogenia.

Regras impostas para uma convivência com o mundo impedem de pessoas que não se adaptam a essas, serem julgadas e rotuladas por um DSM IV da medicina moderna, estes não são considerados, se escaparem daquilo que já foi pré determinado.

Alguns não se apresentam mais nem pelo nome, mas sim pelo rótulo dado, e quantos se apresentam tão diferentes uns dos outros com o mesmo rótulo. Almas presas, que ao tentarem se revelar são rotuladas. Pássaros em vôos com destinos singulares.

sexta-feira, 3 de junho de 2011

Navegação

Idalina Krause
Filósofa Clínica
Porto Alegre-RS


Nau conduzida em sonhos
Mares, marés, maresias
Sal nos lábios
Palpitações
verde beira
calcária casca
ovo do mar
Circe espreita
círculo mitológico
Sexta-feira corre
olhar antropofágico
recomeço ou danação

quinta-feira, 2 de junho de 2011

Sob meu próprio sol

Luana Tavares
Filósofa Clínica
Niterói/RJ

Quanto tempo nos entretemos a procurar o sol?

Na verdade, o tempo não importa. Porque encontrar o próprio sol é para muitos uma meta, um fim a ser alcançado, ainda que não necessariamente saboreado. Continua valendo o prazer do percurso, mesmo que muitas vezes extenuante. Alguns ousam desistir, mas aí... haja coragem para fechar as cortinas. Outros apenas permitem uma fresta de luz penetrando, vislumbrando poeiras e aparições.

E o sol... o sol que nos ilumina o espírito é o mesmo sol que aquece nosso íntimo; o mesmo que incendeia o corpo e a alma em momentos fugazes e o mesmo que produz as sombras que nos escapam. Desejar o sol é uma potência que nos credita sentido, que nos redime da ilusão que ronda nosso cotidiano, que nos lembra da necessidade premente de respirar e de seguir adiante.

Há um lugar onde o sol acontece e na percepção do espaço, do lugar que nos pertence, intuímos o que dá sentido ao espetáculo que se anuncia, permitindo que os ventos continuem se deslocando, se desenhando e se transformando.... indefinidamente, incansavelmente, indelevelmente.

Perdas e dores contam, ressentimentos e saudades também... mas as tentativas constantes de reconstruir, de garimpar aberturas e fertilizar recomeços, se fortalecem sob o sol, seja ele reluzente ou impregnado de nuvens... afinal, é o sol de cada um.

Cada ponto de luz ou de escuridão resulta das curvas que brincam a revelar caminhos e partilhar desejos, que podem ou não se realizar.

E dos amores, perdidos e achados, deixemos aos mesmos ventos que os façam acontecer... pois, se não os procurarmos, eles se revelarão. E caso se findem ou não desabrochem, é porque não nos pertenciam... devem procurar seu destino e seu próprio sol.

E o sol permanece, como um farol, um desejo que talvez aconteça. Mas apenas talvez... pois tal como o girassol se inclina e se escancara ao céu, nossos sentidos também se abrem e descortinam anseios que prometem... mas nem sempre se cumprem.

quarta-feira, 1 de junho de 2011

Sfumato

Sandra Veroneze
Filósofa Clínica
Porto Alegre-RS


Iniciei o ano tocando pandeiro. Melhor: tentando aprender, sob a orientação de amigos que se revezavam no violão, no microfone do videokê e na coreografia. Tamanho o talento das pessoas, em minutos já tínhamos nos arranjado para formar uma banda que até nome já tem: Inimigos do Ritmo.

Mas não estou escrevendo para divulgar o novo grupo musical, cujo repertório contempla, a julgar pelo primeiro ensaio, estilos como gauchesco, pagode, MPB, música latino-americana, bossa nova e jovem guarda, com possibilidade ainda de expandir para o samba e axé. Isso tudo sem considerar a grande chance de o grupo criar seu próprio estilo musical, para desespero principalmente dos vizinhos.

Estou escrevendo para falar sobre sfumato. A palavra, em italiano, significa exatamente ‘esfumaçado’. Um dos maiores gênios da humanidade, Leonardo da Vinci, a adotou como um dos eixos de sua filosofia de vida. Acreditava, o artista e cientista, que saber lidar com a nebulosidade e a incerteza constituía um dos pilares da vida inteligente.

Concordo. Viver pressupõe uma dose de aventura, compreendida como um espaço aberto para a ocorrência de imprevistos e surpresas, sejam elas boas ou nem tanto. Algumas pessoas apresentam grande dificuldade em lidar com acontecimentos fora do planejado, enquanto outras simplesmente não conseguem planejar. São dois extremos desaconselhados: o ideal é o caminho do meio.

Evidentemente, viver o sfumato pressupõe algumas premissas. Uma delas é estar disponível para vivenciar experiências novas e diferentes, nem que seja tocar pandeiro no réveillon, considerando que toda sua escola musical é clássica e voltada para instrumentos de corda e considerando que samba, pagode, axé e afins não são definitivamente sua praia.

Parece algo simples, mas não é. Basta observar nosso estilo de vida: todos os dias tendemos a acordar na mesma hora e seguir a mesma sequência de compromissos, desesperados para maximizar o tempo.

Essa corrida louca contra o relógio nos impede de apreciar a beleza da vida, que, segundo Leonardo da Vinci, é outro pilar da vida inteligente. E ele ainda dá uma dica: aguce os seus sentidos, ouvindo boa música (desconsidere por enquanto nossa banda), a boa gastronomia, as belas obras e paisagens...

Sfumato é uma forma de se reinventar, de se fazer novo, a cada dia que passa. Experimente colocar na sua agenda.