quarta-feira, 31 de agosto de 2011

Vida nova

Sandra Veroneze
Jornalista e Filósofa Clínica
Porto Alegre/RS


Os primeiros dias da primavera estão aí e com eles um clima todo especial de renovação, vida nova.

São as flores que nascem, os ventos que se espalham e pra mim, que faço aniversário em outubro, o convite é duplo para que de fato se inicie um novo ciclo. Setembro, portanto, costuma ser um mês diferenciado, por um lado com energia pulsante, direcionada para a vontade de empreender e realizar.

Os sonhos gestados ao longo do último ciclo começam a tomar forma numa planilha de planejamento, programação, e os cenários que se desenham também desenham o sorriso nos lábios. Por outro lado, setembro é portanto e igualmente um mês de limpar gavetas, mente e coração. Jogam-se fora objetos, emoções, sentimentos e planos mortos. Às vezes até pessoas cujo prazo de validade já venceu, por mais duro que isso possa parecer.

Humanos que somos, precisamos desses ritos de passagem, e como é bom respeitá-los, vivê-los. É uma pena que o estilo de vida adotado especialmente nas grandes cidades prejudique a observação de ciclos como noite e dia, estações do ano, fases da vida, cada um nos sinalizando para o que é mais adequado e apropriado de se viver.

Naturalmente, a noite seria para o descanso, o inverno para o recolhimento, a adolescência para florescer, mas vemos pessoas dormindo pouco, crianças tendo vivências mais apropriadas para a fase adulta, e assim por diante.

E não adianta culpar a sociedade por isso. Todos nós temos condições de criar nosso próprio oásis de bem estar. Costumo brincar, metaforicamente, que todos os dias, passo por passo, vou construindo o jardim da minha vida, onde é necessário se cuidar do que tem de mais sólido (chão, piso, colunas, construções) e o que tem de mais sutil e delicado (as flores, os objetos de decoração), conjugando objetivo e subjetivo, yin e yang, para que seja de fato um espaço para se celebrar o quanto a vida é boa.

No cotidiano, seria algo como alimentação adequada, exercícios físicos regulares, dormir tanto quanto se precisa, trabalhar com amor e afinco, relacionar-se com verdade e se permitir ser melhor a cada dia que passa, buscando emoções, sentimentos e pensamentos saudáveis.

Enfim, já é primavera e hora de voltar com mais frequência aos parques, colocar o pé na grama, sentir a poesia que está no ar, experimentando o renovar de cargas das baterias para este novo período. Até a próxima primavera temos a possibilidade de caminhar, engatinhar e/ou correr atrás dos nossos sonhos, não importando que caiamos mil vezes, desde que nos ergamos mil e uma!



terça-feira, 30 de agosto de 2011

Quem não gosta de Sexo?

Rosangela Rossi
Psicoterapeuta e Filósofa Clínica
Juiz de Fora/MG


Esta é uma pergunta que não se faz. Pois, por incrível que possa parecer tem muita gente que preferiria que sexo não existisse. Isto mesmo. Cada vez mais tem gente que confessa não gostar, nem querer sentir o prazer da vida sexual.

Qual o motivo disso, se sexo é sinônimo de vida plena? Acontece que por desconhecimento, por idéias equivocadas, por experiências mal vividas, o sexo foi colocado na gaveta da alma e trancado a sete chaves no armário do coração.

Muita gente finge que sabe muito sobre sexo, mas na realidade, sexo ainda é tabu, em plena era da dita liberação. O sexo continua sendo um enigma a ser desvendado.
A repressão e a liberação, fora do tempo certo, são as primeiras causas do desprazer.

De tanto ouvir: - Cuidado, não sinta, não toque, não goze, é pecado..... O corpo foi encouraçando, fechando, travando, negando a vida. E este corpo da culpa e do medo rejeita o instinto natural. A frigidez, a impotência e muitos desvios se instalam e o desprazer sexual domina.

Não só isto. As primeiras experiências mal vividas, antecipadas, sem afeto e com muita ansiedade travam o corpo do prazer.

Relacionamentos buscam o apenas "ficar", por uma só vez, e depois, cada um é desconhecido para o outro. O sexo "objeto" vai aos poucos minando o desejo e prazer sexual pleno. E haja ejaculação precoce, e haja frigidez! Até que o prazer sexual acaba de vez por todas. E tem muita gente frustrada e carente buscando pornografias pensando estar buscando sexo e prazer autêntico.

Engano pensar que a fixação sexual é gostar de sexo. Ao contrário, é apenas liberação de tensão, alívio da ansiedade. Sexo saudável vai muito mais além, não faz parte do mundo patológico. É sexo dionisíaco, afrodisíaco. É sexo vida de gente plena.

É o sexo que surge lentamente da afetividade. O corpo é tocado com carinhos e ternura. O desejo vai brotando da admiraçåo e respeito mútuo. Os vínculos profundos estabelecem laços do querer sempre mais a presença um do outro. Cada um vai se desvelando, se descobrindo. E o corpo " almado" quer sempre mais o encontro com quem proporcionou prazer autêntico e amoroso. Assim é nosso cérebro, quer repetir o que é bom.

O gosto por sexo saudável é poesia do corpo livre. O gosto por sexo transcende a banalidade de um gozo rápido da liberaçao da tensão. Sexo pleno é gozo da alma em festa. Do tocar, ao beijar, do sentir ao gozar há vibração intensa e duradoura, que deixa o prazer por longo tempo.

O verdadeiro gostar de sexo perpassa pelo afeto, pelo amor e principalmente pela consciência da sacralidade do tesouro mais precioso que dá origem a nossa vida. Por isto, no oriente, se ensina o sexo tântrico.

Sexo sacralizado, dança mística de corpos que sabe que o caminho de Deus está em cada gesto de ternura e prazer.

Sexo é dança e música das esferas. Sexo é a pausa, um respirar profundo, uma entrega por inteiro. Morrer e renascer. Celebração.

Sexo é vida, mistério encantado de sábios aprendizes.
Enfim, quem não gosta de sexo é quem não aprendeu a arte de amar e se entregar.

segunda-feira, 29 de agosto de 2011

O Eterno Recomeço

Beto Colombo
Filósofo Clínico, Coordenador da Filosofia Clínica na UNESC
Criciúma/SC


De 11 a 18 de junho fiz uma aventura que gostaria de ter feito há anos: o caminho de volta a ilha de Santa Catarina. Juntamente com mais 19 peregrinos, iniciei na praça XV, em Florianópolis, exatamente embaixo da centenária figueira, e retornei no mesmo ponto, oito dias depois.

Antes de retornar à figueira, caminhei 182 quilômetros percorridos em ruas asfaltadas, ruelas apertadas e até trilhas milenares estreitas. A cada passo uma surpresa, a cada morro um deslumbre, a cada subida uma expectativa, a cada descida um encontro.

Durante estes oito dias, me embrenhei nas matas quase que intocadas da ilha, conheci regiões inóspitas que sequer têm energia elétrica. Existem cantos da ilha que parece que o mundo não parou, mas ainda anda lentamente, num ritmo natural.

Mas em meu artigo de hoje, quero me ater a grande e bonita metáfora da partida e da chegada. Sim, pois na caminhada, tanto uma, a partida, quanto a outra, a chegada, ocorreu no mesmo lugar físico da ilha, no caso, a praça XV, um dos pontos mais visitados de Floripa.

Em nossa existência, quantas vezes saímos de um ponto e retornamos a ele, às vezes dias, meses e até anos depois? São padrões de relacionamento, de trabalho, enfim, forma de ser e de se posicionar, sem que transcendemos. Ficamos ali, remoendo, como um cachorro que corre atrás da cola.

Na ilha de Shikoku, no Japão, há um caminho de 88 Templos, onde os peregrinos saem do Templo 1, percorrem 1.400 quilômetros e chegam no templo 88, templo este que fica ao lodo do primeiro. De visão budista, este caminho milenar busca levar as pessoas a meditar sobre a impermanência da vida, ou seja, tudo está em movimento o tempo todo.

Fisicamente, cheguei exatamente no mesmo local em que deixei a figueira há 8 dias atrás. Mas aquele Beto Colombo que saiu não era o mesmo que chegou. Era outro, e bem diferente. Afinal de contas, como ser o mesmo se tive experiências fantásticas durante a caminhada? Como dizer que aquele peregrino que entrou na caminhada saiu o mesmo lá no final? Impossível!

Para mim, não temos como passar pelo caminho e o caminho não passar pela gente. Por isso, talvez seja importante estarmos atentos em nossa jornada diária, seja em casa, na sociedade, no trabalho. Aqui, geralmente nos apegamos a valores, a padrões, a forma de pensar que já não nos fazem sentido, pois os deixamos lá atrás na “figueira”.

É assim como o mundo me parece hoje. E você, o que pensa sobre o eterno recomeço?

domingo, 28 de agosto de 2011

GENTE ajudando GENTE

Jane Difini Kopzinski
Fisioterapeuta, Quiropraxista, Filósofa Clínica
Porto Alegre/RS


"¨É possível creditar-lhe a inspiração da vida ao seu redor, embora também ela seja refém de origens desconhecidas. Sendo uma versão sempre outra, se institui transgressora aos frascos que tentam lhe aprisionar, assim apodrece para se reinventar e voltar como água nova."
Hélio Strassburger


Como pode alguém rotular GENTE , singular e particular em suas experiências de vida?
Momentos de observações vividas, no Hospital Psiquiátrico em Porto alegre, com os partilhantes e o filosofo clinico, são de uma experiência que, em termos de aprendizado e reflexão sobre o ser, nos fazem refletir.

A particularidade do mundo criado por cada partilhante , onde a verdade é de quem a cria.

Quantas realidades em apenas um só ser. A capacidade de autogenia.

Alguns deixam transparecer suas principais EPs no momento, já outros, pela sua linguagem, assustados com a dor que permanece em um mundo interior, tão particular, onde a liberdade de ser e viver para encontrar-se, ainda estão obscuros em busca de si, não nos permitindo ver claramente.

Na mesmo teor, um novo olhar. O mágico momento da alma de apresentar-se ao seu ser.
Momentos tão singulares de almas presas a um corpo. Segundos, minutos de interseções,que se fazem de maneira tão singular, para um despir de alma, que ao mesmo tempo se veste de uma maneira tão frágil e restauradora.

O mergulhar de minha observação ,durante esse mágico instante , sob o filósofo que se desprende de sua própria realidade para entrar no mundo do outro e dele extrair a gritante singularidade, respeitando sua realidade intrínseca e retornar novamente para que haja uma interseção e um olhar apenas para a historicidade apresentada no momento.

Filosofo clinico, adaptando-se a cada partilhante, uma transformação singular e harmoniosa de respeito ao outro. Em cada um, o mais intimo e particular momento de doação ao outro, para uma ajuda mútua do encontro de si mesmo.

O retorno dos partilhantes demonstrando, autogenia e agradecimento, por terem sido respeitados em sua singularidade, com quem compartilhou o que se passa na alma.

O respeito, a interseção, o compartilhamento da vida, o mundo existencial do outro, sem deixar de ser ele mesmo é um exercício que estou aprendendo no dia a dia com GENTE ajudando GENTE.


sexta-feira, 26 de agosto de 2011

Introdução ao Vice-Conceito

Bruno Packter
Filósofo Clínico
Florianópolis/SC


Vice Conceito, segundo Lúcio Packter, é um procedimento clínico que diz respeito aos conceitos que se substituem. Na Filosofia Clínica, Vice Conceito é a mediação dos símbolos na malha intelectiva por construção, derivação e associação, de maneira que a pessoa possa lidar com aspectos de sua vida.

Na obra A Filosofia das Formas Simbólicas, o filósofo Ernst Cassirer tem como objetivo mostrar como o homem constrói um mundo sobre o qual se destacam objetos e nexos entre esses objetos. Nesse sentido, sua busca se dá pelos modos da “função simbólica”, ou seja, com tudo aquilo por meio do que o homem se destaca da diversidade das aparências sensíveis para enchê-la de sentido através de um ponto de vista unificador – a linguagem, o mito, a percepção e o conceito.

Para Cassirer, portanto, de fato o homem é um ser simbólico, pois suas relações podem ser pontuadas por símbolos.

Mas, na concepção da clínica filosófica não encontramos o mesmo respaldo, pois através do estudo da historicidade, verificamos que algumas pessoas não necessitam de mediações de símbolos. Essa relação da coisa em si com o símbolo é muito curiosa e ocorre de maneira subjetiva.

Na Filosofia Clínica, por exemplo, encontramos situações em que o símbolo construído não tem a menor ingerência sobre as vivências de um a pessoa. Mas, em outros casos, contextos diferentes, não.

Na historicidade, o filósofo vai encontrar pessoas, cuja vivência com determinadas questões é profundamente simbólica.

Como o filósofo clínico irá reconhecer na estrutura do pensamento da pessoa indícios do uso deste procedimento clínico vice-conceito? São pessoas que geralmente se manifestam através de linguagens metafóricas, de imagens e, que diante de um fenômeno, de um fato, de um evento, elas utilizam ou como maneira descritiva, ou como maneira de entendimento, símbolos, construções mentais, imagens e etc.

A maioria das pessoas usa símbolos. Quando esses símbolos são arraigados, são profundos, eles têm alicerces na malha intelectiva da pessoa, têm conformações muito próprias, muito densas que inclusive podem fazer com que a pessoa viva em si determinada coisa que de outra maneira ela não poderia.

Por exemplo, uma pessoa fortemente enferma, foi informada que precisa se submeter a uma grave cirurgia. Um crucifixo como símbolo, pesquisado na historicidade da pessoa, poderá servir de mediação entre ela e a experiência que se aproxima. Esse encaminhamento se dará muitas vezes pela interseção do filósofo clínico com o partilhante.

Quando os símbolos estão arraigados, são profundos, eles têm alicerces na malha intelectiva da pessoa, têm conformações muito próprias, muito densas que inclusive podem fazer com que a pessoa viva em si determinada coisa que de outra maneira ela não poderia.

Algumas demandas na vida são tão cruéis, tão insuportáveis a priori que se a pessoa tiver que lidar com elas sem a mediação de um símbolo, um Vice Conceito essa pessoa poderá se fragmentar.

Às vezes, um Vice Conceito – um símbolo – pode ser utilizado a posteriori, depois que a pessoa passou por um evento muito traumático, para que possa compreender mais tarde o que ocorreu. Um Vice Conceito em alguns casos pode estar associado aos termos do conhecimento, da aprendizagem.

O Vice Conceito, às vezes, é estruturado antes da experiência e, que pode ser utilizado como profilaxia, algo que a pessoa poderá usar para a vida dela, para as coisas complexas que surgem. Por exemplo: a crença, a fé. Conforme o juízo prévio, prova-velmente será assim.

Existem pessoas que vivem por conta dos símbolos e são eles que as mantém vivas. Se o símbolo for retirado da vida delas, provavelmente teremos sérios problemas. Essas pessoas terão dificuldades em respirar, em viver, não saberão o que fazer e pra onde ir nesse mundo. Por esses motivos, o filósofo clínico precisa ter um profundo respeito pelos símbolos que habitam na pessoa.

Pessoas extremamente simbólicas derivam símbolos de símbolos. São pessoas que tendem às abstrações, suas derivações. Criam símbolos, amarram símbolos entre si e vão muito longe nessas construções simbólicas, ou seja, vão Em direção às Ideias Complexas.

Podemos trabalhar os signos que habitam no intelecto da pessoa e formatá-los na forma de um símbolo. Por exemplo, uma criança com medo de dormir no escuro. Neste caso, a mãe pode deixar a luz acesa no corredor, pois assim o “fantasma” não entrará no quarto. No exemplo, a mãe cria o símbolo e rompe com o anterior. Aqui, trabalhamos a troca de símbolos e das construções em torno deles e como eles interagem com a pessoa.

Identificamos na clínica filosófica que o Vice Conceito não é bom, nem ruim, depende, muitas vezes, das construções em torno dele e como ele interage com a pessoa.


quinta-feira, 25 de agosto de 2011

Espelhos

Rosemiro A. Sefstrom
Filósofo Clínico
Criciúma/SC


Vamos comentar acerca de uma das perguntas mais fáceis de serem feitas, mas nem tão fáceis de serem respondidas. Pergunte-se a você mesmo: Quem sou eu? Independente da resposta que você elaborar, você estará trabalhando o princípio de identidade, ou seja, o que identifica e diferencia você de outras pessoas.

Mas para que você possa se identificar e se diferenciar das outras pessoas é necessário um caractere de identidade. Esse caractere pode ser chamado de espelho, ou seja, um conjunto de condições que permite que você se veja e possa se identificar em meio às outras pessoas. E agora, qual seria o espelho no qual você se olha?

Para ilustrar a situação, imagine uma menina com uns quinze anos de idade que usa como espelho os outros. Neste caso, ela será para ela mesma o que os outros disserem dela. Se os outros disserem que ela é feia, burra e pobre, muito provavelmente é assim que ela se verá. Pessoas como esta menina, se tiverem esse princípio muito forte, ficarão reféns da opinião alheia, buscando seguir o que os outros dizem para ser alguém como os outros dizem que ela deve ser.

Nem sempre o espelho que uma pessoa usa para identificar a si própria é o melhor ou é verdadeiro. Algumas vezes a pessoa se mira em um espelho defeituoso e tem uma imagem distorcida de si mesma, como o caso da menina. Essa opinião tanto pode ser ruim a respeito de si própria, como pode ser boa.

O interessante é que algumas pessoas usam espelhos como ferramentas, tendo uma imagem de si mesma de acordo com o que querem ver e não como realmente são. Existem ainda pessoas que usam diversos espelhos ao mesmo tempo para montar a opinião a respeito de si, mirando no mundo, na religião, nos pais, no marido.

Estas pessoas terão como medida um conjunto dos vários conteúdos que refletem aquilo que ela é. Quando estes conteúdos forem unívocos, ou seja, transmitirem a mesma mensagem, todo bem. Mas nem sempre é assim e uma pessoa que se acha muito boa, caridosa, pode ao mesmo tempo se achar má e avarenta. Isso não é bom, mau, certo ou errado, mas será conforme os espelhos que ela escolher para se refletir.

Com base nestas informações pergunto: O que o outro pensa de você? Como dito anteriormente, para algumas pessoas isto tem um peso muito grande, sendo inclusive linha de condução para a vida. Mas, para que a vida seja melhor, é válido lembrar que cada pessoa que você conhece e se relaciona no dia a dia está entrando em contato com apenas uma parte de você.

Assim, se lá no seu trabalho acham você uma pessoa chata, sem sal e muito mal humorada, não há nada de errado nisso. Justamente porque o que eles acham de você lá, se resume aquele local e aquelas pessoas, pois elas entram em contato com você naquele contexto.

Você pode pensar em pessoas que convivem consigo mais tempo por dia, como a esposa, o marido, os filhos, colegas de quarto e assim por diante. Mesmo nestes casos convivem apenas com uma parte de você, não com o todo, pois dependendo das pessoas com as quais você entra em contato, apenas alguns conteúdos são compartilhados.

E você, o que acha de você mesmo? No início deste artigo os espelhos foram colocados como critério de identidade. Quais seriam os espelhos que você usa? O que se pode recomendar é o uso de vários espelhos a fim de se montar uma imagem multifacetada, ou seja, com vários critérios de identidade.

Desta maneira será possível formar um EU que tenha por base conteúdos sólidos e descartar os que não têm conteúdo. Ao usar somente um espelho, a pessoa pode viver como um cavalo que usa antolhos, instrumento que limita a visão do animal. A liberdade de se mirar em diversos espelhos pode lhe mostrar alguém que ainda não conhece: você.



quarta-feira, 24 de agosto de 2011

Realidade ou Sonho?

Letícia Porto Alegre
Psicoterapeuta e Filósofa Clínica
Porto Alegre/RS

Você já parou para olhar ao redor?
O que vê é sonho ou realidade?
Realidade!!! Tem certeza?

E se fosse um sonho?
Você já parou para pensar se as situações que passou ao dormir eram só simples sonhos?
Talvez dirá que é obvio que é só sonho afinal nunca existiu, mas ao acordar, alguma vez, com certeza, você deve ter sentido como se realmente tivesse passado por aquela situação e achou que o sonho fosse real!

Mas afinal o que é e qual é a realidade?
Algo material que podemos ver e sentir e sempre existira?
Quer uma dica?

Nada é permanente! Lá no interior, nos prótons e elétrons de tudo, há uma constante mudança.
O chão que você pisa não é mais o mesmo de antes. Olhe, ele mudou de novo, mais uma vez, incrível!

Se o chão de agora não é mais o mesmo do qual era quando eu comecei a escrever então ele sumiu? Não é mais real?
Mas você sentiu ao pisa-lo!

O real está dentro de nós, no nosso consciente. Somos igualmente humanos e interpretamos as energias ao nosso redor igualmente. Mas os animais possuem uma codificação das coisas diferente de nós. Sendo assim, o que é real, o que nós vemos ou o que eles vêem?

Quer minha opinião?
Somos etes! Brincadeira!
Mas e os etes, eles existem?
Talvez um dia descobriremos, por enquanto basta inventarmos.
Como diz Shakespeare: “Existe muito mais entre o céu e a terra do que sonha nossa vã filosofia”.

terça-feira, 23 de agosto de 2011

AUTO-AJUDA:INDICAÇÕES E EFEITOS COLATERAIS

Ildo Meyer
Médico e Filósofo Clínico
Porto Alegre/RS


Auto-ajuda funciona mais ou menos assim: ou você ama ou odeia. De um lado os que mantêm na cabeceira pilhas de livros de auto-ajuda, de outro os céticos, crucificando sua leitura e as considerando obras de menor valor. Entre esses, os enrustidos, que lêem, mas não assumem.

Apesar da discriminação, preconceituosa ou realista, o fato é que a cada ano mais de 3,5 milhões de livros de auto-ajuda são colocados no mercado. Além da explosão de vendas, surgiram “gurus” da auto-ajuda, lotando auditórios com suas palestras e participando de vários programas na mídia.

Será que temos mais problemas que nossas bisavós e nos tornamos mais dependentes dos ensinamentos da auto-ajuda? Provavelmente não, nossas expectativas é que se tornaram irrealistas e procuramos desesperadamente atalhos para alcançá-las.

Criamos uma sociedade onde temos que matar um leão por dia. Queremos a ascensão cultural, social e financeira. Precisamos ser perfeitos, bem sucedidos no trabalho, na família, nos esportes, na cama. Temos que ser os melhores, corpos sarados, sempre jovens, felizes, deixando bem claro para todos, que o fracasso mora ao lado.

Escondemos nossos medos, imperfeições e vulnerabilidades. Não pedimos ajuda para ninguém, pois não queremos que suspeitem de nossas fraquezas. A pressão, o estresse e a sobrecarga do dia a dia funcionam como uma esteira rolante, empurrando-nos continuamente para frente, sem que tenhamos tempo de avaliar o bom senso nos relacionamentos. Muitas vezes perdemos o rumo.

Num país onde a qualidade de ensino nem sempre é das melhores, uma parcela das pessoas encontrou nos livros de auto-ajuda uma alternativa dissimulada de preencher suas lacunas de formação e dúvidas existenciais.

Com uma linguagem fácil e acessível, o gênero da auto-ajuda fundamenta-se em aplicar princípios psicológicos cientificamente validados em situações cotidianas. Teorias complexas são simplificadas, colocadas em forma de metáforas, histórias de vida e até mesmo fórmulas para alcançar objetivos e sonhos individuais. Ensina-se a emagrecer, melhorar condicionamento físico, aumentar saldo bancário, desenvolver carreiras, relacionar-se com Deus, aprimorar vida sexual, afastar medos...

Qual o problema de um cidadão comprar um livro para auto ajudar-se? Carlos vai passear no shopping. Olha as vitrines e de repente um livro de capa colorida, intitulado “Parabéns a Você”, chama sua atenção. Fica curioso, entra na livraria, folheia algumas páginas, interessa-se pelo assunto. Felicidade e ética são temas que lhe agradam. Quando se dá conta que o livro está na secção de auto-ajuda, coloca-o novamente na prateleira e desiste da leitura. O que pode haver de tão perigoso ou maléfico em um livro de auto-ajuda?

Sócrates e Platão já praticavam auto-ajuda ao discutirem o que era uma existência feliz. Como em todos os gêneros literários, existem bons e maus autores, com propostas e estilos diferentes. Aproveitando a carência cultural e emocional, a auto-ajuda transformou-se em uma indústria milionária, onde “gurus” de toda a espécie lançam teorias e afirmações nem sempre comprovadas cientificamente apresentando soluções fáceis para problemas pessoais complicados.

Como os livros são dirigidos para grupos de pessoas com problemas semelhantes, as soluções são sempre generalistas, superficiais, muitas vezes confundindo os leitores ao invés de proporcionar-lhes conforto. Outra grande critica é o oferecimento de fórmulas para atingir metas bastando acreditar apenas em si mesmo. Riqueza ou saúde, por exemplo, dependem de muitas variáveis, e se o leitor não atingir o objetivo proposto, pode relacionar o fracasso com sua incapacidade, tornando-se infeliz.

Alguns dos danos causados por esse tipo de leitura acontecem também pelo fato de que esses livros, por sua linguagem simples e direta, são lidos rapidamente ou sequer lidos, ficando os apressados apenas com os chavões da capa ou abertura dos capítulos. Para alguns isto já é suficiente, pois provoca um reforço positivo nas crenças já existentes.

Talvez a principal oposição ao discurso da auto-ajuda resida nas técnicas de encorajamento para um desenvolvimento pessoal e superficial, priorizando um narcisismo exacerbado em detrimento de movimentos mais aprofundados para dentro de si mesmo, ou rumo a uma integração mais saudável com o meio social.

Enquanto a leitura da auto-ajuda é questionável, o processo de escrever indiscutivelmente é uma forma de auto-ajuda. Antes das palavras se juntarem para formar um livro, mil dúvidas povoam a cabeça do autor, que ao utilizar a escrita como ferramenta, sistematiza as idéias e progride com o pensamento. Ao escrever, muitos autores beneficiam-se aprendendo mais que ensinando, porém uma obra literária obrigatoriamente só se completa, quando é lida, interpretada e entendida pelo leitor.

Por isto mesmo, quando escrevo, procuro não passar fórmulas ou sugestões diretas do tipo “Antes de comprar um livro de auto-ajuda, analise bem o autor, as referências bibliográficas e as evidências científicas” ou “Livros de auto-ajuda devem ser vistos com muito critério”. Considero cada leitor uma fonte única de subjetividades. Coloco minha opinião, prós e contras de determinado assunto e deixo os leitores chegarem a suas próprias conclusões. Ainda assim, sou considerado um escritor de auto-ajuda. Tudo bem.

Ficção, não ficção, auto-ajuda, esoterismo, histórias em quadrinhos, revista de fofocas...qualquer gênero literário pode ser benéfico ou danoso. Mais importante que julgar o que as pessoas estão lendo, seria a criação de um hábito da leitura. Quando se fala em cultura, não existe o certo e o errado, o importante são as conseqüências.

segunda-feira, 22 de agosto de 2011

domingo, 7 de agosto de 2011

Sim ou não?

Sandra Veroneze
Filósofa Clínica
Porto Alegre/RS


Não sei se as pessoas ficaram mais espertas ou se os programas de televisão que perderam a graça. O fato é que há um tempo atrás era mais fácil se divertir em frente à telinha. Década de 80, mais precisamente.

Um quadro exibido no programa do Sílvio Santos, aos domingos à tarde, era insuperável. Não lembro do nome do jogo, mas as regras eram simples: o participante ficava trancado em uma cabine e podia responder somente sim ou não. Detalhe: sem ouvir a pergunta.

Sílvio Santos perguntava: “Você troca um par de chinelos por uma bicicleta?”. E a vítima respondia: ‘simmmm”. Sílvio Santos retornava: “Você troca a bicicleta por um fusca?”. A resposta: “nãooooooo”. Era hilário. Ao final da bateria de perguntas, o participante ficava com o prêmio que ele próprio havia escolhido.

Evidentemente, a posição mais confortável nessa brincadeira era a do apresentador, que definia as perguntas, a ordem delas e o prêmio que o participante poderia receber. Era o senhor da situação.

Para a plateia também era muito bom: se divertia horrores com o mico alheio, da mesma forma que o telespectador. Tudo bem que o participante poderia ficar com o prêmio e a fama, mas ser motivo de chacota sem garantia nenhuma de que seria bem remunerado é um tanto estranho.

Às vezes tenho a impressão de que na vida reproduzimos este jogo. Gostaríamos muito de ser o senhor da situação, definindo rumos e destinos, ou então ficar de fora, a tudo observando e se divertindo, sem se comprometer. Mas acabamos por assumir o papel da vítima/protagonista.

A pessoas, propostas e situações precisamos dizer sim ou não, mas nem sempre ouvimos a pergunta, ou conseguimos interpretá-la apropriadamente. De tudo temos uma visão parcial, fragmentada, e nesse contexto fazer escolhas dói.

Essa dor tem nome. É angústia. Sobre ela os pensadores existencialistas se debruçaram à exaustão. Sartre, por exemplo, fala com desenvoltura sobre a necessidade do ser humano se posicionar, como preço a ser pago pelo livre-arbítrio.

Viver, segundo ele, é fazer escolhas, e o próprio fato de não escolher já é uma escolha. Um fardo, na melhor das hipóteses, tanto que os pensadores existencialistas eram bem simpáticos ao suicídio.

Outro grande personagem da história que se dedicou ao tema foi o italiano Leonardo da Vinci. Porém, com muito mais entusiasmo. Ele treinava cotidianamente uma ferramenta que chamou de ‘esfumato’, literalmente esfumaçado.

Segundo da Vinci, um gênio sem dúvida, era fator de inteligência saber lidar com as incertezas – e então se posicionar. Uma grande aventura, tanto que fez da sua vida um brinde à arte e à inventividade.

Ou seja, um mesmo fato (a incerteza, a visão parcial, a necessidade de fazer escolhas, se posicionar) para uns é um peso, um fardo a ser administrado, e pra outros são impulso pra se superar, fazer melhor.

Nesse novo ano que inicia, em que o balanço de 2010 já está quase concluído e que a listinha de coisas a serem feitas em 2011 já se desenha, é bom ficar esperto e ver pra que lado nossas escolhas estão apontando, já que nessa história só nos cabe um papel: o de protagonista.

Em tempo: sob pena de também a vida perder a graça!

sexta-feira, 5 de agosto de 2011

Somatizar é viver

Luana Tavares
Filósofa Clínica
Niterói/RJ


No decorrer da vida nos deparamos com incontáveis conflitos existenciais. Em muitas das vezes não nos damos conta do impacto que a existência, em múltiplos níveis, exerce sobre nós mesmos e sobre a forma como conduzimos nossos sentimentos, nosso trabalho, nossas relações, nossos pensamentos e toda a carga existencial que tudo isso envolve.

Em tantos momentos a vida transborda e, então, com o copo cheio, fica confuso seguir adiante. Quando esta carga se torna pesada demais, seja porque entendemos o que acontece, ou seja porque não entendemos, talvez aconteça de haver uma projeção em nosso corpo daquilo que nos perturba a alma. As conseqüências são diversas e, dependendo do tipo de manifestação, este pode ser o momento de buscar ajuda terapêutica.

É claro que essa busca implica na percepção de que somos seres dotados, em nossa estrutura, de uma totalidade estrutural, composta obrigatoriamente de mente, corpo e emoção, que caminham juntos, indissolúveis, ainda que determinado aspecto de um ou outro não seja determinante.

A compreensão da constituição de tal totalidade pode contribuir para um autoconhecimento, para minimizar ou solucionar sintomas psíquicos indesejáveis, ou ainda para a simples aceitação de uma realidade que venha a conferir o equilíbrio necessário ao gerenciamento da vida. Os sintomas psíquicos, entretanto, podem ou não ser o resultado de uma impressão somática, e costumam afetar a qualidade de vida de quem os esteja vivenciando, mesmo que não necessariamente de forma negativa ou desagradável.

Algumas estruturas conseguem conviver pacificamente até mesmo com suas possíveis enfermidades intencionais, seja elas suportáveis ou não, e criar vínculos comportamentais necessários que propiciam tal gerenciamento.

Reveses existenciais, profundos ou não, impactantes ou não, podem até ser sinalizados somaticamente, entretanto, dependendo da estrutura psíquica, podem ser devidamente assimilados ou bem conduzidos, o que nos conduz à ideia de que uma enfermidade não é necessariamente o resultado obrigatório de sistemas emocionais, mentais ou espirituais, sendo essa concepção até um modelo simplista, sob o ponto de vista de sua intencionalidade.

Porém, salvo causas factuais, tais sintomas físicos externados podem sim causar dores que não se tornam suportáveis e é neste momento que o ser terapeuta deve entrar em ação, contribuindo e compartilhando o aquário existencial de quem sofre, para que as verdadeiras intenções se revelem.

Ocorre, porém, que alguns modelos de atendimento costumam ser tão engessados que sugerem processos de encouraçamento nas próprias atitudes clínicas e, consequentemente, não reconhecem a totalidade da estrutura de pensamento, da emoção ou da corporalidade, e nem mesmo de suas partes.

O que se perde aqui, além da magia da construção compartilhada com vistas a um bem maior, é o propósito clínico essencial, ou seja, o processo do cuidar, que deve ser entendido, orientado e atento e, se possível, aberto a novos paradigmas terapêuticos. Para tanto se faz necessária uma revisão de princípios, onde o caráter cuidador e a persistência, apesar das interseções negativas, confusas ou indefinidas, devem prevalecer.

As motivações para quaisquer condições de propósito existencial, ainda que projetadas em seus limites, implicam em estados subjetivos infinitos, onde o olhar e a escuta atentos daquele que acolhe procura alcançar o propósito do chamado terapêutico, para só então estabelecer um diálogo, um compartilhamento a partir das inúmeras trocas que serão estabelecidas.

No caso de uma somatização, ou do possível efeito resultante de transtornos ou sofrimentos psicológicos, que implica numa conseqüência física de uma provável causa emocional, há que se levar em conta as sérias considerações sobre o estado geral do partilhante e os possíveis desdobramentos que são gerados a partir do mesmo.

Em sintomas somáticos, é importante que se tenha um cuidado extremo em reconhecer, para além das aparências sensitivas, qual o papel que cumpre cada dor ou incômodo. Porque somatizações também são expressões de vida, são falas do corpo, ainda que estas falas se utilizem de linguagens conflitantes.

Não se deve demover um sintoma ou uma dor, pelo menos não sem uma atenciosa verificação da condição do possível bem-estar (ou alteração deste) daquele que somatiza, simplesmente porque a lógica do terapeuta assim demanda.

É necessário exercer a escuta e o respeito pela singularidade, atentando para o verdadeiro papel que a somatização exerce em dada indivíduo e perscrutar a real necessidade de cura de um sintoma ou mesmo enfermidade, ainda que inconscientemente surjam conflitos que indiquem o contrário. Terapia é exercício de paciência e de alteridade. E somatizar também é um exercício de vida.

quarta-feira, 3 de agosto de 2011

Meu encontro com Dra. Nise da Silveira

Rosângela Rossi
Psicoterapeuta e Filósofa Clínica
Juiz de Fora/MG

Tem momentos da vida da gente que são inésquecíveis,
Um deles foi aquela noite, no Rio de Janeiro.
Eu havia terminado minha pós graduação em
Psicologia Junguiana no IBMR.

A psicologia profunda de Jung sempre me instigou a pesquisa.
Sabendo da existência da psiquiatra rebelde,
que questionou os métodos desumanos da psiquiatria,
e criou novas formas de tratar os portadores de transtornos mentais,
que esteve presa com Olga Benário por ser comunista,
foi discípula de Carl Gustav Jung,
aventurei-me a conhecê-la pessoalmente.

Na época ela estava bem velha, mas muito lúcida.
Liguei para sua casa e marquei o encontro.
Ela não colocou nenhum impecillho,
mesmo sendo eu uma simples psicóloga desconhecida dela.
Imaginem minha ansiedade para este encontro marcado!

A rua estava escura e o local de seu apartamento bem ermo.
Bati a companhia e sua assistente me recebeu.
Ela pediu que eu a esperasse na saleta.
Foi então que passei um dos maiores apertos de minha vida.

Foram chegando vários gatos angorás, enormes.
Eles me rodearam e um deles sentou-se em meu colo.
Fiquei inerte, em pânico, pois sempre tive medo dos gatos,
Apesar deles gostarem de mim.

O tempo tornou-se eterno naquela uma hora de espera.
- Pode entrar, dra Nise a espera.

Vim a saber mais tarde, que o tempo com os gatos,
era uma forma de avaliação para ser recebida por ela.

Dra Nise carinhosamente me acolheu.
Serena e muito solícita respondeu minhas perguntas,
E por um longo tempo conversams sobre tudo.

Meu interesse principal era saber sobre o filósofo Spinoza,
Que influenciou bastante seu trabalho.
Conversamos sobre mandalas na pintura dos esquisofrênicos,
E sobre a Casa das Palmeiras, instituiçao criada por ela,
que não segue padrões convencionais.

A lição que ela me deixou naquele encontro foi que
eu não devia me prender a uma teoria,
mas, escutar a pessoa que me procurava.

Ela me convidou a seguir o coração e não ter medo de lutar
Por meus ideiais revolucionários de servir.
Amei aquela velha mulher jovem a minha frente,
Com seus óculos redondos de lentes grossas.

Ela me aconselhou a ler com carinho o livro:
Psicologia e Alquimia, de Jung.
Dra Nise me disse, que por ter um espírito combatente,
Foi muito boicotada e perseguida.

Seus gatos, co-terapeutas, foram envenenados.
Senti sua tristesa e fiquei calada.
Aliás, eu só quis ouvir a Velha sábia a minha frente.

Convidou-me a participar do Grupo de Estudos C. G. Jung,
que qualquer pessoa podia frequentar.
Só estive lá uma vez, pois minhas obrigações de mãe e profissional,
morando em Minas Gerais, não me facilitavam.

Agradeço eternamente estes encontros com ela,
foi a partir deles que decidi, em muitas vezes,
ter a coragem de levar meus projetos a frente,
mesmo quando as circunstâncias colocaram dificuldades.

Quanto aos gatos, ainda não tive coragem de ter um,
mas, o gato branco, angorá, de minha vizinha,
dorme na porta de minha casa.

*(do meu livro: Eterna aprendiz , que se encontra no prelo)

terça-feira, 2 de agosto de 2011

Fragmentos filosóficos delirantes LVIII*

Coração

"Dizem que se ama uma só vez na vida...
O amor, no entanto, para mim, parece
Taça espumante que, uma vez bebida,
Se outra vez se beber, mais apetece.

O coração é uma árvore florida,
Que dentro em nós, sem o querermos, cresce,
E que, sempre a dar flores, à medida
Que os botões se lhe arrancam, mais floresce.

A mão do Tempo essa árvore maltrata.
Mas, qual planta podada, dia a dia,
Mais em ramos e flores se desata:

Que era nos turvos séculos remotos
Que o coração,para dar flor, possuía
A indolência romântica do lotus..."

*Humberto de Campos
Poeta brasileiro
Produção de 1904-1931

segunda-feira, 1 de agosto de 2011

Fragmentos filosóficos delirantes LVII*

"Quantas vezes, amor, te amei sem ver-te e talvez
sem lembrança,
sem reconhecer teu olhar, sem fitar-te, centaura,
em regiões contrárias, num meio-dia queimante:
era só o aroma dos cereais que amo.

Talvez te vi, te supus ao passar levantando uma taça
em Angola, à luz da lua de junho,
ou eras tu a cintura daquela guitarra
que toquei nas trevas e ressoou como o mar desmedido.

Te amei sem que eu o soubesse, e busquei tua memória.
Nas casas vazias entrei com lanterna a roubar teu retrato.
Mas eu já não sabia como eras. De repente

enquanto ias comigo te toquei e se deteve minha vida:
diante de meus olhos estavas, regendo-me, e reinas.
Como fogueira nos bosques o fogo é teu reino."

*Pablo Neruda
Poeta chileno
1904-1973