sábado, 31 de dezembro de 2011

Fragmentos filosóficos delirantes LXXVIII*


"O futuro da loucura é o seu fim, a sua transformação numa criatividade universal que é o lugar perdido donde veio em primeiro lugar"

"A loucura é a revolução permanente na vida de uma pessoa"

"A loucura é a desestruturação das estruturas alienadas de uma existência e a reestruturação de um modo de ser menos alienado"

"Desestruturar/reestruturar segue uma racionalidade dialética, uma racionalidade de superação. É esta a lógica de toda a forma de atividade criadora, e também a lógica da loucura e a linguagem da loucura"

"Não-psiquiatria significa que o comportamento profundamente perturbador, incompreensível e 'louco' deve ser contido, incorporado na sociedade global e nela disseminado como uma fonte subversiva de criatividade, espontaneidade, não-doença"

"O novo fator revolucionário é que as pessoas começam a fazer amor em vez de se limitarem a foder para procriar para os patrões"

"Razão e desrazão são ambas maneiras de conhecer. A loucura é uma maneira de conhecer, outro modo de exploração empírica dos mundos tanto interior como exterior"

*David Cooper

sexta-feira, 30 de dezembro de 2011

Simplicidade

Beto Colombo
Empresário, Filósofo Clínico, Coordenador da Filosofia Clínica na UNESC
Criciúma/SC


Querido leitor, que você esteja bem. Nosso tema hoje é discorrer sobre simplicidade. Você já reparou que o que está dando certo hoje são as coisas simples?

O sistema de produção mais usado nos últimos tempos é o chamado Teoria das Restrições, Produção Puxada ou Teoria dos Gargalos, algo extremamente simples de ser compreendido e utilizado. O aparelho de celular mais desejado é o Ifone, exatamente o mais simples de operar, e assim por diante.

Poucos aguentam as empresas sofisticadas, complicadas, metidas, arrogantes. Pessoas com comportamento simples, empresas simples, fáceis, terão boas chances de serem as vencedoras. Se o chique é ser simples, então, para que complicar?

Pesquisas mostram que o principal atributo de profissionais que são os melhores colegas de trabalho é a simplicidade. E pessoas simples fazem uma empresa simples. E boa parte das pessoas tem pavor de empresas complicadas.

Conheço empresa que consegue complicar tudo: uma simples emissão de nota fiscal ou um pedido de informação vira uma novela. Dias desses, precisei devolver um produto com defeito e desisti, pois estava virando uma sindicância.

A empresa ideal, no meu ponto de vista como cliente, é a empresa fácil, simples e ágil. Para o cliente, a meu ver, tudo deve ser simplificado. Para os colegas de trabalho, para os fornecedores, a tendência do momento é ser simples. A cidade adora relacionar-se com empresas simples.

O grande desafio nos dias de hoje é ser simples. No entanto, vemos ainda muitos produtos complicados, empresas complicadas. Até parece que o mais fácil é complicar. É mais fácil desconfiar das pessoas do que confiar nelas. Às vezes vejo atendentes dizendo: “isso não é comigo”, ao invés de se dispor a buscar soluções.

Tenho visto que empresas autoritárias e centralizadoras são as mais complicadas. Pense na sua empresa, ou até mesmo na sua vida: ela é simples ou complicada? É fácil relacionar-se com ela? É fácil comprar, receber, pagar? Quanto tempo se leva para emitir uma nota fiscal? Quanto tempo se gasta entre o pedido do cliente e o momento de lhe entregar o que comprou?

É fácil trocar uma mercadoria ou não se aceita devolução? É fácil ao interessado obter informações sobre os produtos? É fácil falar com o presidente, com os diretores e gerentes? Ou é preciso seguir o maldito procedimento que ninguém sabe o que é?

Estou bem convencido: empresas chiques são as empresas simples. Empresas bacanas são as ágeis, fáceis, simples.

É assim como o mundo me parece hoje. E você, o que pensa sobre simplicidade?

quinta-feira, 29 de dezembro de 2011

Certas loucuras*

Luana Tavares
Filosofa Clínica
Niterói/RJ


A loucura por um amor!
Quase inexplicável...
Aliás, talvez seja melhor nem tentar.

Pois como explicar o que se sente?
Como entender o que se pensa?
E, pior, como resistir? Ou melhor, para que resistir?
Amores possíveis, alguns nem tanto...
Amores sofridos, amores alucinados, amores inebriantes.

Sentidos arrastados para tudo que invoca;
Sensações tão intensas que até incomodam
E muitas vezes confirmam incoerências.

Qualquer som, cor, cheiro, toque ou sabor, qualquer outro sexto sentido;
Qualquer trilha que a ele conduza,
Através de tantos sentidos... até mesmo os incompreendidos.
Amores que se vão, que nunca existiram, que se intui, que revolta e que extravasa
Amor que transborda.

Que confere magia,
Que identifica,
Que transforma.
E até amor que paralisa... que não segue em frente, pois não se realiza.

Amores que se perdem ou que se deixam perder,
Que se efetivam a distância ou em ínfimos momentos...
Momentos que ainda assim se tornam tão especiais.

Amores que se fundem, que se completam, insubstituíveis e incondicionais,
Traduzindo vontades que transmutam outras vontades.
Mas também amores distantes, cruéis, tardios, descompassados...
E aqueles vazios e vãos, solitários na multidão dos que desejam amar, Carentes do que mais exalam.
Amores enfim, nada mais.

E o que é amor para aqueles que amam?
Talvez tão somente uma dor necessária ou uma marca impressa com o fogo que expurga,
Ou talvez a suavidade da brisa que se anuncia... e que se consolida no âmago de ser... de ser o que realmente se é.

Pois amor pode ser a identificação do seu eu, dos seus sonhos, do tempo, do espaço vazio entre os que amam.
Amor é encontro e perda... é vida.
É a sobrevivência dos sonhos e o alimento da alma.
Pode ser tudo ou nada!
Pode completar ou esvaziar, pode ser até mesmo uma louca alucinação sublimada.
Mas há quem se resgate exatamente por ser completamente louca por você!

*(Inspirado no livro “Louca por você”, de Fernanda Belém)

quarta-feira, 28 de dezembro de 2011

QUEBRANDO O PARADIGMA*

Ildo Meyer
Médico, filósofo clínico, escritor
Porto Alegre/RS

Quando iniciei minha residência médica em anestesiologia, excitado com a possibilidade de controlar a dor perioperatória e suas conseqüências, dei vazão a meu lado filosófico e descrevi assim minhas expectativas em relação ao conhecimento por adquirir: “Tomei uma decisão, vou me preparar com o objetivo de fazer com que as pessoas não mais sofram, nem que para isso tenha que fazê-las dormir”.

Eram palavras espirituosas, mas refletiam um sentido mais amplo para a anestesia. Além de aliviar a dor, fazer dormir e acordar, queria tratar, e se possível eliminar o sofrimento emocional decorrente do adoecer. Estava iniciando meu treinamento, não tinha a menor idéia de como lidar com emoções, mas imaginava que associado a outras alternativas, o sono poderia servir como um bálsamo para o sofrimento humano.


Sofredores das mais variadas estirpes descobriram isto bem antes de mim e utilizam-se do sono medicamentoso como um escape da “vida dura”. O problema é que “conflitos afetivos” não desaparecem quando se dorme, são tão somente anestesiados e o alivio é temporário. Quando acordam, os problemas ainda estão no mesmo lugar. Por isto mesmo é que dormir não deve ser a primeira opção para tratamento da infelicidade. Pão e circo também funcionam como ópio para o povo, atenuando as dores sem contudo curá-las.

Não era este o tipo de anestesia com que sonhava. Pensava em uma anestesia física e emocional. De um lado o ato técnico-científico, removendo a dor cirúrgica do corpo, e de outro, um apoio para a alma que sempre se debilita quando o indivíduo adoece. Dormir física e acordar psicologicamente.

Antes da cirurgia, o contato com o anestesiologista costuma ser de curta duração, porém intenso em emoções. Carente, fragilizado e ansioso pela doença, o paciente procura um vinculo de confiança para poder se entregar. Sabe que enquanto estiver inconsciente ou sedado, sua pele será cortada, seu corpo invadido, talvez retirem um pedaço e quando acordar, será presenteado com uma cicatriz.

Além disto, será afastado de seu convívio familiar, social e profissional, passando a conviver com situações novas. Precisa acreditar que será bem cuidado e terá toda a atenção e recursos disponíveis nesta sua jornada. Quem lhe dará esta segurança? Quem será o elo de ligação entre as novas rotinas e o mundo do qual foi afastado?

O cirurgião precisa ficar concentrado na anatomia, no bisturi, no sangramento, e nesta hora, encontra-se totalmente focado no campo operatório, não tendo condições de cuidar do paciente como um todo. Esta vigilância precisou ser terceirizada para o anestesiologista, que durante muito tempo não soube entender o significado e a grandiosidade de seu trabalho. Restringia-se a conhecer o paciente na sala de cirurgia e anestesiá-lo. Incógnito, nos bastidores, tratado como um auxiliar técnico, sequer apresentado pelo nome, aguardava o paciente acordar e dava por encerrada sua missão.

Manter o paciente sonolento, imobilizado e sem dor, satisfazia cirurgiões, pacientes e familiares. Nunca me conformei com este respaldo técnico, ambicionava ir além. Queria oferecer antes de tudo, segurança. Física e emocional. Pacientes e cirurgiões precisariam estar tranqüilos e confiantes de que um especialista assumiria provisoriamente o controle do estado de consciência, reflexos e sinais vitais, enviando todos seus esforços e conhecimentos para restabelecê-los integralmente ao final da cirurgia. Imaginava uma maneira de deixar o paciente seguro e minimizar sua ansiedade, de preferência sem uso de medicação. Como fazer?

A oportunidade de quebrar o paradigma, sair do anonimato e mostrar-se como um médico depositário da confiança acontece com o paciente desperto. É neste momento de vulnerabilidade e dependência que a demonstração de conhecimento, experiência, respeito, atenção e empatia com o sofrimento alheio começam a construção da autêntica relação médico-paciente.

Para ser valorizado como médico é preciso agir e posicionar-se como tal. Por vezes será necessário desenvolver habilidades de psicólogo, assistente social, enfermeiro, juiz de direito. Outras vezes atuará como cardiologista, intensivista, pediatra, mas acima de tudo, a arte de anestesiar está em fazer com que percebam a genuína intenção e o tamanho da responsabilidade de um médico especialista ao assumir a posição de guardião da vida, depositário da confiança e elo de ligação entre paciente, cirurgião e familiares.

Evoluímos como especialidade nestes últimos 50 anos. Anestesiar é muito mais do que fazer dormir e acordar sem dor. Certamente avançaremos em direção ao lado emocional da doença física. Espero que as novas gerações consigam transformar em realidade aquele meu velho sonho e possam aliviar também aquelas dores que o fazer dormir não consegue curar, as dores da alma.

*Artigo dedicado a meu filho Leonardo, que se formou em medicina e inicia agora sua especialização em anestesia.

terça-feira, 27 de dezembro de 2011

Felicidade

Rosângela Rossi
Psicoterapeuta, Filosofa Clínica
Juiz de Fora/MG


Que nossa natureza é felicidade
Podem ter certeza.
Ela é nossa alma
Independe do ter,
Ela é e pronto.

Acontece...
Que, na maioria das vezes,
A buscamos nas coisas.
Ai...ficamos a chupar o dedo.
Frustração.

Não porque ficamos infelizes,
Ficamos tristes pela falta de
Realização dos nossos desejos.
Tristeza e alegria
São um estar.
Felicidade é ser.

Casa bonita, viagens fabulosas,
Carros e príncipes e princesas,
Estão na lista desejosa...
Que podem trazer alegrias
Momentâneas.
Nas faltas sentimos tristeza.

Na alma mora no que não esperamos,
Gratuidade natural.
Felicidade por nada,
Pois o nada é tudo no sentir.

E infelicidade o que é?
Pode ser um vazio
De tanto correr em busca
Do ter e não ser.

Somos felizes.
Que tal lembrarmos sempre disto?
Como?
Encontrar a alma, que está dentro
E também fora, no mundo.

domingo, 25 de dezembro de 2011

Fragmentos filosóficos delirantes LXXVII*


"Há uma espécie de loucura da visão que faz com que, ao mesmo tempo, eu caminhe por ela em direção ao próprio mundo e, entretanto, com toda a evidência, as partes desse mundo não coexistam sem mim."

"O outro é o titular desconhecido dessa zona não minha."

"Um mistério familiar e inexplicado, de uma luz que, aclarando o resto, conserva sua origem na obscuridade."

"A certeza de que as coisas tem outro sentido além daquele que estamos em condições de reconhecer."

"Nossa vida possui, no sentido astronômico da palavra, uma atmosfera."

"Aparentemente, essa maneira de introduzir o outro como incógnita é a única que considera sua alteridade e a explica."

"Esse mundo que não sou eu, e ao qual me apego tão intensamente como a mim mesmo, não passa, em certo sentido, do prolongamento de meu corpo; tenho razões para dizer que eu sou o mundo."

"O espetáculo tinha sentido para mim antes que eu me descobrisse como aquele que lhe dá sentido."

"O segredo do mundo que procuramos é preciso, necessariamente, que esteja contido em meu contato com ele."

*Merleau-Ponty
O visível e o invisível

sábado, 24 de dezembro de 2011

Fragmentos filosóficos delirantes LXXVI*

"Pois afinal de contas tudo está fora, tudo até nós mesmos: fora, no mundo, entre os outros. Não é em sabe-se lá qual retraimento que nos descobriremos: é na estrada, na cidade, no meio da multidão, coisas entre as coisas, homem entre os homens."

"Para compreender as palavras, para dar um sentido aos parágrafos, é preciso primeiro que eu adote seu ponto de vista, que eu seja o coro complacente. Essa consciência só existe por meu intermédio; sem mim haveria apenas borrões negros sobre folhas brancas."

"A medicina chama esses sonhadores acordados de esquizofrênicos, cuja particularidade, como se sabe, é a de não poder adaptar-se ao real."

"O ponto de partida é o fato de que o homem nasce da terra: ele é 'engendrado pela lama'. (...) ele é o produto de uma das inumeráveis combinações possíveis dos elementos naturais."

"Para rasgar os véus e trocar a quietude opaca do saber pelo espanto do não-saber é preciso um 'holocausto das palavras', esse holocausto que a poesia realiza de saída."

"É que o silêncio, como disse Heidegger, é o modo autêntico da fala. Só se cala quem pode falar. Camus fala muito - em O mito de Sísifo chega a tagarelar -, e no entanto confia-nos seu amor pelo silêncio."

*Jean-Paul Sartre

sexta-feira, 23 de dezembro de 2011

A essência das brisas*

Hoje amanheceu sol outra vez,
A tarde ficou escuro e choveu,
De noite o céu já oferecia estrelas,

Amanhã ainda não sei,
Pode chover_sol, depois anoitecer,
Talvez uma inédita desordem,
Instantes num tempo qualquer,

Parece sempre existir algo mais,
Depois que tudo acontece,
As aparências vigiam paradoxos,
Para sustentar ilusões,

Entre nada e tudo,
O presente está num e outro:
Nada pode ser tudo, tudo pode ser nada,
A brisa é suspeita por ser livre,

Pra se saber quanto tempo resta,
É só sentir se o coração ainda dispara,
Entusiasma a si mesmo e indaga:
Para saber se ainda lhe fica bem a vida,

*Anônimo,

quinta-feira, 22 de dezembro de 2011

PONTO DE VISTA*

Will Goya
Filósofo Clínico, Poeta
Goiânia/GO


Conseguir no querer prédio intensamente, sem sentido.
Quase palavras, nada mudo. Não deixa dizer!
Imensidão mais forte alto.
Va-ga-ro-sa-men-te. Para!
... Pera pira pora, puríssima.

Do que mesmo você não se lembra?
Sobre o que você não quer falar?
Pensa que sou cozinheira já pensando o tempero...
A bebida e o marido?

Eu não sei. É... Talvez, hã? É... Hã?
Eu não sei.
Por que tudo eu, logo eu, sempre eu?
Limão, navio... E adoro geleia!
O carro é azul.

– Silêncio, vou limpar o ouvido!
O cotonete?

Época de vestibular...
Não imaginam que talvez eu seja feliz, desse jeito
Em algum lugar entre lá e aqui.
E me chamam de louco! Acha que isso não exige coragem?

Nessa vida, quem não rala não faz pamonha.
Eu me pergunto:
De quem deve ser a compreensão, a compreensão?
Há compreensão?

*Apaixonado por Filosofia e Psicologia, perguntei-me sobre o que faz de
alguém “louco” ou “normal”. A resposta é um poema: um ponto de vista.

quarta-feira, 21 de dezembro de 2011

Farol da Vida

Pe. Flávio Sobreiro
Filósofo Clínico,Poeta
Cambuí/MG


Na antiguidade, quando os faróis ainda não existiam, acendia-se uma grande fogueira no alto de uma torre para que os barcos que se encontravam em alto mar pudessem se orientar. Ver a luz da fogueira à distância era sinal de que a tripulação do barco não se encontrava mais perdida em alto mar. Com a luz da fogueira o barco poderia chegar com segurança em terra firme.

Com o surgimento dos faróis, o trabalho ficou mais fácil, porém a utilidade dos mesmos até hoje continua sendo a mesma da antiguidade: orientar o barco de maneira segura. O farol tem sua utilidade principal quando é noite. Mesmo a grandes distâncias no escuro da noite ou no meio de uma tempestade o farol cumpre a sua função: indicar por meio da luz o caminho certo a seguir.

Na escuridão o farol é guia seguro para quem se perdeu em alto mar, e sozinho não é capaz de regressar à terra firme.

Muitas vezes nos encontramos como um barco perdido em alto mar. Não sabemos qual o caminho certo a seguir. As trevas de uma noite sem fim ou as tempestades dos problemas da vida impedem que sigamos seguros em meio ao mar tempestuoso de nossa história.

As ondas do oceano de nossos problemas parecem que irão afundar as nossas esperanças e sonhos. Perdemos-nos de nós mesmos e começamos a nos afogar nas ondas gigantes das dificuldades.

São em momentos como este que buscamos a luz de um farol que possa orientar o barco de nossa vida por um caminho seguro. Jesus é o Farol da Vida. Ele ilumina as trevas das noites tempestuosas de nossa vida. A Luz de Cristo indica qual caminho é mais seguro para chegarmos com tranquilidade às terras firmes de um novo tempo de paz.

Os navegantes que se encontram em alto mar precisam confiar nas orientações luminosas dos faróis. A dúvida pode causar sérios problemas. O comandante do navio que se encontra perdido em alto mar e não segue as orientações luminosas de um farol pode acabar se perdendo ainda mais no oceano. Confiar é tão necessário quanto ver à luz a distância. Quem vê a luz de um farol e não acredita na segurança que o farol transmite se perde em seus próprios medos.

Quando o mar estava agitado e o barco parecia que iria afundar os discípulos se perderam em seus próprios temores. Esqueceram-se que a Luz da Vida estava com eles. O medo os afugentou da luz que poderia orientá-los durante a tempestade da falta de fé.

No meio da confusão e do temor que os dominava, o Farol da Vida surge com a Luz da Paz e devolve aos tripulantes já inundados pelo medo, a segurança da confiança que haviam perdido. O próprio Cristo se fez Luz diante da falta de fé de seus discípulos. Se o medo deles fosse maior do que a confiança, o barco da esperança teria se afundado no oceano da insegurança de suas próprias incertezas.

Nem sempre é fácil vermos o Farol da Vida iluminando o barco de nossa vida que se encontra perdido em meios às ondas das dificuldades que insistem em afundar nossa fé. Assim como os navegantes confiam na luz do farol que os indica o caminho correto para chegarem sãos e salvos as praias da vida, precisamos também confiar na Luz de Cristo que nos indica o caminho que devemos seguir nas noites escuras de nossos tempestades espirituais.

Diante do medo de não atravessarmos o grande oceano das dificuldades da vida, Cristo ilumina as noites de nossa falta de fé com a esperança de novos tempos e conduz o barco de nossa vida para as águas calmas do seu amor.

terça-feira, 20 de dezembro de 2011

Luz-cidez

Rosângela Rossi
Psicoterapeuta, Filosofa Clínica, Escritora
Juiz de Fora/MG


Não sou minha profissão
Sou minha alma
Não preciso dos titulos para me apresentar
Sou o que sou
Sem máscaras e disfarces.

Consegui minha carta de alforria
Apenas vivo com coração pensante
Por vezes apaixonada, fogo intenso
Em outra hora, lago amoroso pura poesia

Vento nos voo da borboleta, ar sutil
Sou terra com pés caminhantes
Peregrina no agora

Cansei de estar sucumbida pela sedução
Joguete das multimidias
Objeto a ser consumido

Não preciso me submeter a mediocridade
Estar escrava das ilusōes da maioria
Posso escolher trilhar a liberdade

Sou hoje tudo que construi
Ninguém me tira a dignidade de ser
Por inteiro

Abro a janela
Mesmo sem sol lá fora
O aqui de dentro brilha

segunda-feira, 19 de dezembro de 2011

Exercícios de Liberdade

Jussara Hadadd
Terapeuta Sexual, Filosofa Clínica
Juiz de Fora/MG


Não existe tempo na história do homem para definir o início do seu tempo de liberdade. As pessoas confundem liberdade com vários outros aspectos da vida. Talvez sem censura, talvez sem limites, talvez segura, talvez indiferente, talvez sozinha, talvez congruente, onde um mais um é um. Talvez imaturo ou maduro demais, ou ainda talvez, representando ser um ou outro. Ou então, ainda fingindo não ser nada nem ninguém.

A verdade, para mim, é que o tempo de liberdade, hoje, é aquele em que conto os minutos para deixar de vez, de lado e para trás, qualquer incomodo, mazela, arrependimento, tristeza, mágoa, rancor, ciúmes, inveja, medo, principalmente o medo. Deixar para trás o medo de ser livre e feliz. Deixar para trás, toda minha incapacidade de amar, todo o meu medo de me doar por inteiro, sem esperar nada em troca.

Para muitos não é fácil, mas certamente é alvo. Talvez inatingível em um primeiro momento, talvez tangível, aparentemente, mas confuso.

No amor, ser livre pode significar uma grande confusão. No amor, ser livre pode significar traição, solidão, desatenção. No amor, ser livre, pode significar uma grande tensão perante os padrões de convivência conjugal, socialmente estabelecidos. Pode significar sofrimento, por incompreensão.

No amor, liberdade, pode sugerir abandono ou descaso.

Mas, quando se aprende a ser livre no amor e a gozar os benefícios desta delícia que é amar sem amarras, exceto as que o próprio desejo impõe? As cordas, as teias os laços e os fluidos que criamos e que voluntariamente usamos? Quando aprendemos que queremos ser amarrados, ficar amarrados e não amarrar?

Quando aprendemos a não fazer da paixão uma doença que aprisiona? Que nos aprisiona, que aprisiona o outro, que enrijece, algema, engessa? Quando ter a certeza que não precisamos mais de respostas e de retornos? Quando a gratidão será para nós, apenas a alegria de estar ao lado do ser amado? Apenas de ver seu sorriso, apenas de sentir sua alegria e com humildade receber os sinais de seu gozo, sem suspeitar ou reivindicar o direito de participação em tão grata atitude?

Quando na vida, aprendemos a deixar ir sem o pavor de não nos retornar? E se ele não retornar? E se lá for melhor que aqui? Quando, em que tempo da vida, deixaremos de premeditar a felicidade do outro, antes da nossa? Quando, em que estágio, seremos capazes de dar todo o amor que temos, sem esperar nada em troca?

Quando não teremos mais que nos anular em troca de uma falsa liberdade. Quando não teremos mais que omitir ou que mentir, para vivermos em paz ou para vivermos com a companhia de qualquer alguém. Quando teremos olhos para enxergar que não precisamos de alguém a qualquer custo?

No amor, a liberdade pode ser transmutada em bom sexo e o bom sexo em expressão suave e prazerosa do amor. Quando saber definir, que não há amor? Talvez, quando o sexo não tiver mais sabor.

No sexo, a liberdade pode sugerir desprezo e rejeição.

Neste caso, sabemos que a liberdade que não é aproveitada para manifestar o desejo sincero, o amor verdadeiro e gostoso que se tem pelo outro, mostra que o dito amor, anda pelo viés do desprezo e da rejeição. Mais que isso, anda pelo viés do desamor. No sexo, o amor é o sexo que é o amor. Quando saber que estão nos negando o que nós é de direito no amor? Quando vamos parar de justificar o desamor do outro?

As pessoas estão brincando de amar. E isto é notório quando analisamos e concluímos que em casamentos ou outro tipo qualquer de relação estável, em que as pessoas afirmam que estão juntas porque se amam, o primeiro a ser deixado de lado, o primeiro a ser feito com outra pessoa paralelamente, é o sexo. As pessoas estão brincando de amar e se ferindo muito. Permanecem juntas, presas e sem liberdade em nome de algo que chamam de amor. Contudo, o que gostariam de sentir em nome do amor, vão buscar em braços alheios.

Nem mesmo os amantes clandestinos estão satisfeitos. Ainda neles, se vê a cobrança por um rótulo ou título que fidelize a relação. Mesmo que ficticiamente.

Mas quando enfim, saberei que sou livre e que posso ser feliz?

Talvez quando não precisar mais, depositar no outro, todas as suas necessidades. Nem mesmo a de amar. Talvez, quando entender que você é um conjunto que se move em direção à felicidade independente do outro.

Que seu corpo necessita do corpo do outro, porque o ama e não apenas porque o necessita. Que seu prazer, vem de você e da sua capacidade de senti-lo, não responsabilizando o seu amado pelos limites de seus sentidos e sensações. Que estar junto do corpo dele, te dá mais alegria que prazer.

Para exercitar a sua liberdade, encontre prazer em estar com você, se torne pleno, seguro, sorridente, amável. O exercício da liberdade, pode vir muito tarde em sua vida, mas isto não é um problema. Pode ser que todo sofrimento e angústia gerados pela sua pouca maturidade, sirvam agora de alicerce para um novo tempo e você deve ter olhos e ouvidos para isto, percepção para aproveitar toda a sua experiência de vida e assim valorizar e saber usar a liberdade para ser e fazer feliz.

O exercício da liberdade no amor e no sexo, requer que nos despojemos de toda a culpa que sentimos por tudo que causamos a nós mesmos e aos outros. É errando que se aprende.

Para ser livre, não é necessário estar sozinho, não é necessário negar o amor, não é preciso negar nosso desejo de unir nosso corpo ao corpo de alguém. Para ser livre, talvez seja necessário apenas compreender melhor o que sentimos e deixar o coração ir, monitorado pela nossa razão, mas apenas na medida do inteligível, da compreensão do que possa nos fazer sofrer, além de nós.

Que jamais, em tempo algum na sua vida, você se proíba o direito de ser livre e feliz. Não tem um tempo, não tem idade, não tem regras, e é muito bom quando acontece.

São meus votos de boas festas.

De um bom Natal e de um ano novo maravilhoso.

domingo, 18 de dezembro de 2011

Janelas e ventos*

Existem janelas a espera de ventos,
Onde nunca será cedo ou tarde,
Ventos em busca de janelas,
Lugar a sugerir vazios,

Rastros invisíveis, pegadas sem pé,
Embala procuras, esconderijos,
Um agora oratório, confessionário,
Anuncia anjos decaídos,

O inesperado amanhã,
Intui desejos inconfessáveis,
Alvoroço de asa sem voo,
Imensidão de vontades sem lei,

A janela persegue ficar,
O vento sugere partir,
Um e outro são instantes,
Rascunho aproximado, lonjuras,

*Anônimo

sábado, 17 de dezembro de 2011

Fragmentos filosóficos delirantes LXXV*


"Há em cada pessoa, uma pluralidade, uma coexistência de léxicos; o número e a identidade desses léxicos formam o idioleto de cada um."

"O sentido obtuso parece desdobrar suas asas fora da cultura, do saber, da informação; analiticamente tem algo de irrisório; porque leva ao infinito da linguagem, poderá parecer limitado à observação da razão analítica; pertence a classe dos trocadilhos, das pilhérias, das despesas inúteis; indiferente às categorias morais ou estéticas, enquadra-se na categoria do carnaval."

"O fílmico é o que, no filme, não pode ser descrito, é a representação que não pode ser representada. O fílmico nasce exatamente onde cessam a linguagem e a metalinguagem articulada."

"Dionísio é um deus complexo, dialético; é a mesmo tempo um deus infernal e da renovação; é o próprio deus desta contradição."

"É necessário lembrar que a classificação das vozes humanas - como toda classificação elaborada por uma sociedade - nunca é inocente."

*Roland Barthes
O óbvio e o obtuso

quinta-feira, 15 de dezembro de 2011

Sons da alma

Luana Tavares
Filósofa Clínica
Niterói/RJ


Existem sons que vem de algum lugar que não distinguimos. Até conseguimos ouvi-los, mas eles nos surpreendem como se fossem brumas sonoras a se espalhar pelo ar...
Essas ondas se espalham, penetram os sentidos e invadem expectativas, preenchendo entranhas e formando novos sonhos.

Às vezes, formam delírios e transportam a outros mundos. Outras vezes, recordam instantes de êxtase que se propagam como impulsos a invadir destinos. Mas podem também massacrar como ferros, rasgando e ferindo, sepultando lembranças.

E há os sonhos que cristalizam o momento, não permitindo que o tempo caminhe... ou talvez apenas o torne lento para que seus passos sejam marcados pelo deleite de um clímax anunciado.

Esses momentos são como pérolas resgatadas que reverberam a concha que as abriga. Esses acordes iluminam os corações em sua mais íntima vibração, mas em segredo, de forma quase imperceptível, num ímpeto que ninguém consegue perceber e que não pode sequer ser expresso... talvez apenas a lágrima solitária, e nem sempre visível, os denuncie.

Mas são mesmo para serem velados esses momentos, pois não há o que verbalizar, a não ser pela emoção, pelo sentir oculto no sorriso e no olhar perdido, que ainda tenta captar e capturar o instante.

Os sons da alma são os sons do mundo sensível aos que se dispõe a ouvi-los... quem sabe por aqueles que se apaixonam, pois que é preciso silenciar o corpo e entreabrir algumas portas secretas para deixar entrar o que vibra somente em ressonância com sentimentos mais sutis ou mais sublimes; ou podem ser sentimentos fortes e dotados de um poder tamanho que seriam capazes de mudar cursos... da história, dos destinos singelos ou daqueles que intencionam mudar o mundo.

Que importa? Pois que não há absolutamente quase nada que substitua o incomensurável prazer de sentir a alma vibrar pela nota singularmente vital do supremo instante de beleza condensada na canção dotada de sentido.

quarta-feira, 14 de dezembro de 2011

Freios existenciais

Lúcio Packter
Pensador da Filosofia Clínica


Quando você for à bela cidade de Dourados, interior do Mato Grosso do Sul, observe que ela não possui subidas e descidas. Tudo é plano, tudo é povoado de planícies, poucos prédios, bicicletas por todo lado, árvores.

Caso comprasse algum patinete para transitar pela região, provavelmente não seria necessário que tivesse um daqueles freios de mão. Para quê? Em lugares assim, a gravidade é o melhor e o mais suave freio ao embalo macio que traciona as rodinhas delicadas do patinete.

No entanto, há modelos importados que já trazem o freio, modulado por um cabo, que naturalmente faz parecer necessária esta peça acoplada ao veículo. Acredito que alguns ficariam surpresos se soubessem que um patinete não precisa de freios. Talvez não comprassem, talvez devolvessem achando que tivesse um defeito.

Lembro disso quando encontro seguidamente no consultório pessoas cujas construções semânticas, sintáticas, gramaticais trazem freios embutidos que não são necessários por aquilo que elas estão a viver.

Exemplo: há pessoas que colocam a proposição “eu quero estar bem” seguida de uma vírgula, que serve para respirar, e então acoplam um freio como “mas, porém, todavia, no entanto eu sei que isso é difícil, é árduo, é distante, é demorado, etc.”.

Neste exemplo, o freio pouco tem a ver com o que se passa na vida da pessoa. Ele está ali porque veio com o patinete e porque levou a pessoa a acreditar que necessita usá-lo, afinal, ele é parte do que ocorre. Não sabe que não precisa dele.

Curiosamente, é o próprio desejar estar bem que leva imediatamente no seio o antagonismo de si mesmo. Ao querer, a pessoa já leva embutido o que lhe faz sofrer, desistir, perder, este querer.

Os freios lingüísticos encontram parentesco em outros freios, como os freios sensoriais, afetivos, epistemológicos, éticos. Há inúmeras semelhanças entre eles.

Imagine um guri que aos 6 anos estava brincando com uma menina. Ele examinava com interesse a parte de cima das pernas dela. A mãe dele avista a brincadeira lá de onde estende a roupa no varal; apanha uma varinha de marmelo, aplica uma varada no gurizinho e o manda para dentro de casa.

A malha intelectiva de uma pessoa, se estiver várias vezes em situações como esta, pode tomar como lição, já que não houve explicação a respeito do motivo do castigo, que é errado sentir vontades ligadas ao prazer.

É assim que, aos 20 anos de idade, quando uma garota convidar o rapaz para dançar, ele pode aceitar com alegria e imediatamente vivenciar algo desagradável como uma dor de cabeça ou medo.

Esse tipo de freio sensorial é muito comum.

terça-feira, 13 de dezembro de 2011

Alegoria da Matrix

Pedro de Freitas Jr.
Filósofo Clínico
Florianópolis/SC


Quando Platão escreveu a “Alegoria da Caverna”, ele provavelmente não previu que seria adaptada a qualquer outra forma de mídia. No entanto, o filme Matrix conseguiu trazer a metáfora de Platão, ao século 21. Para começarmos a entender esta comparação vamos a um trecho da Alegoria:

Imagina a maneira como segue o estado da nossa natureza relativamente à instrução e à ignorância. Imagina homens numa morada subterrânea, em forma de caverna, com uma entrada aberta à luz; esses homens estão aí desde a infância, de pernas e pescoço acorrentados, de modo que não podem mexer-se nem ver senão o que está diante deles, pois as correntes os impedem de voltar a cabeça; a luz chega-lhes de uma fogueira acesa numa colina que se ergue por detrás deles; entre o fogo e os prisioneiros passa uma estrada ascendente.

Imagina que ao longo dessa estrada está construído um pequeno muro, semelhante às divisórias que os apresentadores de títeres armam diante de si e por cima das quais exibem as suas maravilhas.(..) Imagina agora, ao longo desse pequeno muro, homens que transportam objetos de toda espécie, que o transpõem: estatuetas de homens e animais, de pedra, madeira e loba espécie de matéria; naturalmente, entre esses transportadores, uns falam e outros seguem em silêncio. (1)

Tanto na República quanto em Matrix temos exemplos de seres humanos que quebraram essas correntes e avançaram para a verdade da vida, para ajudar aos outros a alcançar o mesmo fim. Platão apresenta um indivíduo da busca da verdade através de um desejo de conhecimento, enquanto que Matrix dá-nos um “messias” ou um herói para fazer-nos livres.

Lançado em 1999 Matrix nos apresenta uma história interessante que faz-nos supor ter bebido de diferentes teorias filosóficas. Primeiramente podemos ver óbvias semelhanças com a Alegoria da Caverna de Platão.

Neo durante toda a sua vida tinha uma lancinante dúvida de que o mundo em torno dele, de algum modo, não é certo. Ele vem em contato com Morfeu, que confirma suas dúvidas. Num futuro distante as máquinas (inteligência artificial) assumiram o controle, e utilizam os seres humanos não mais do que como fontes de energia, distraindo-os, alimentando uma realidade virtual, uma simulação computacional (Matrix), através de uma sonda diretamente no cérebro. Neo é resgatado (desconectado) por Morpheus, e levado em uma nave que viaja abaixo da superfície da Terra – um planeta morto agora, governado por um computador inteligente que mantêm o ser humano resignado ao mundo da realidade virtual , o “Matrix”, que é alimentado em seus cérebros.

De acordo com Platão, nosso mundo não é senão as sombras, as formas de manifestações imperfeitas. Os presos da caverna de Platão são cegos da verdadeira realidade como são as pessoas dentro da Matrix.

A Matrix é uma simulação que cria um mundo imaginário onde as pessoas são prisioneiras da realidade, muito mais como a Caverna de Platão onde as sombras ou imagens que os presos veem no muro são tudo que os presos sabem do mundo fora da caverna. Projeções de objetos que não são reais, mas parecem reais porque eles nunca viram o mundo real. Pessoas na Matrix só veem o que mostram as máquinas, tornando difícil acordar de um sonho contínuo, estão aprisionados em um mundo ilusório e incapazes de se libertar.

No entanto, se um dos presos na caverna torna-se livre, e consegue olhar para o fogo, e alguém disser a ele que o que ele sabia do mundo até agora foi uma ilusão e apenas metade da realidade, ao tentar sair da caverna ele seria agredido pela forte luz do sol, e ficaria intrigado e poderia pensar que o que ele viu antes era mais verdadeiro do que aquilo que foi mostrado a ele agora.

Na verdade, a verdade dói, literalmente, neste caso, porque confinado na escuridão, desde o início, quando se voltou para a luz, seus olhos não se ajustariam tão rapidamente ao brilho. Na Matrix Neo também enfrenta as mesmas dificuldades, seus olhos e membros estão doloridos e quando ele pergunta a Morfeu o porquê, a resposta é “você nunca as usou antes”. (Os humanos são utilizados como fontes de energia, como pilhas, pelas máquinas. Um corpo humano é preservado em uma cuba com múltiplos fios ligados à Matrix.)

Para deixar bem claro nas palavras de Sócrates: “E se o forçarem a fixar a luz, os seus olhos não ficarão magoados? Não o desviará a vista para voltar às coisas que pode fitar e não acreditará que estas são realmente mais distintas do que as que se lhe mostram?”. (1)

Se alguém arrastar um prisioneiro da caverna rumo à luz do sol ele primeiramente ficaria ofuscado e não seria capaz de ver com clareza tudo de uma vez. Ele iria começar por olhar para as sombras, as imagens e, em seguida, os objetos reais, e por último o próprio sol e assim através da razão e do conhecimento do real.

Na Matrix, quando Morfeu mostra a Neo “o deserto do real” e explica a realidade do ano 2199 ele gritou “deixa-me sair deixe-me sair, eu quero sair”. Mas quando Neo supera o seu desconhecimento e se dá conta de que tudo que ele vê é ilusão, manipulações realizadas por um computador, ele percebe, o seu potencial.

Mas todas as pessoas estão prontas para serem desconectadas? Nem todo mundo está preparado para aceitar a realidade facilmente, o prisioneiro na caverna liberado de suas correntes, sentia que era preferível manter-se em um ambiente familiar do que ir à procura da verdade em um território desconhecido. Igualmente na Matrix Cypher sentiu que Morfeu enganou-o trazendo-o para a realidade, ele está farto de ter negada a simples possibilidade de comida decente. Torna-se então o traidor, na esperança de voltar a Matrix, para o mundo que ele estava familiarizado. Na Matrix, é duvidoso que o mundo real seja melhor do que a simulação computacional. Porque a Matrix pode realmente parecer uma escolha melhor.

O principal tema da Alegoria da Caverna de Platão é nos alertar de nossa ignorância, e aquilo que você vê não é real, expresso pelas Matrixes.

A Matrix é em grande parte paralelo à alegoria da caverna onde iluminação, liberdade, etc. são ideias subjacentes de ambos.


Bibliografia:
(1) PLATÃO – Os Pensadores, A Republica, livro VII (pag. 225-226), São Paulo, Nova Cultural 1997

Ficha Técnica do Filme:
Título Original: The Matrix
Gênero: Ficção Científica
Tempo de Duração: 136 minutos
Ano de Lançamento (EUA): 1999

segunda-feira, 12 de dezembro de 2011

Poentes do que ficou

Pe. Flávio Sobreiro
Filósofo Clínico, Poeta
Cambuí/MG

Saudade é a palavra que se foi, o abraço que não se despediu, o olhar que se eternizou, a lágrima que ainda não rolou. Talvez uma das palavras mais complexas de se definir seja a saudade. O que não se pode explicar o silêncio eterniza. Saudade eternizada é aquela tarde que ainda vive nas estações da alma. É a chuva que ainda caí nas manhãs de inverno da alma.

O que fica da saudade é uma cicatriz silenciosa. Após a vida cumprir seu processo de cicatrizar a dor do que se foi, o silêncio não consegue verbalizar o que ainda vive. A vida que ainda cumpre seu ritmo nas esquinas das lembranças faz-nos deparar com aquilo que ficou estacionado no semáforo das emoções.

Andamos por ladeiras e navegamos em oceanos tempestuosos de sentimentos que não conseguimos expressar. Será a saudade um lugar perdido nas montanhas de nossa alma? Ou será que a tendo encontrado não conseguimos mais abandoná-la e lhe juramos fidelidade eterna?

O que se foi ainda tem o dom de ser presente. No poente das tardes de nossa alma ela chega de mansinho. Ela está viva na brisa serena que nos recorda um tempo que já não mais existe, mas que é tão vivo quanto o que sentimos. Verbalizar a saudade é tentar timidamente definir aquilo que não tem nome. O silêncio da palavra ressuscita a vida adormecida que insiste em ser possibilidade de um tempo que já se foi.

O que o tempo reconciliou o silêncio pode acordar. Nas possibilidades da vida que reaparecem nas tardes da saudade, o que foi sepultado renasce em tons de primavera... ou de inverno. O som da poesia silenciada ressurge em belas manhãs de um poente que se foi. O que ficou foi apenas a saudade e a cicatriz de feridas reabertas pelos poentes que em mim habitam e ganham as tonalidades das estações de minha alma.

domingo, 11 de dezembro de 2011

Diálogo Anormal

Beto Colombo
Filósofo Clínico, Empresário, Coordenador da Filosofia Clínica na UNESC
Criciúma/SC


Querido leitor, que você esteja bem. Hoje vamos fazer um diálogo anormal.

Dias desses, atendi um novo partilhante que entrou no consultório e, de pronto, me disse: “Eu não consigo me adaptar nesse mundo. Será que eu sou anormal?” Confesso que a frase me pegou de chofre e me fez refletir alguns segundos, enquanto ele se ajeitava na poltrona. Perguntei-me silenciosamente naquela fração de segundos: O que é ser normal?

Minha resposta, naquele momento, foi mais ou menos assim: Bem-vindo querido amigo! Normal, como o nome já diz, é todo aquele cidadão que está de acordo com a norma, com um padrão pré-estabelecido. Mais do que isso: é parecido com todo mundo nas ações, que é como todo mundo é, pensa parecido como todo mundo pensa, vive como todos vivem, sente como todo mundo sente.

- Então eu não sou normal. - Afirmou meu partilhante.

Meus pensamentos teimavam em verbalizar, mas consegui me conter e não soltar a seguinte frase: Ainda bem que você não é normal.

Naquele diálogo intenso, ele teimava em me perguntar:

- Você já tratou de pessoa como eu, assim fora do normal?

No meu diálogo mental, sem falar, respondi: “Muitas pessoas ditas como normais se bem examinadas podemos dizer que não o são”. Lembrei-me naquela ocasião de Machado de Assis e seu livro o Alienista. Provavelmente muitos de nós estaríamos cativos na Casa Verde.

A única fala que fiz para meu partilhante foi: “O que você acha?” Mas minha resposta “muda” foi somente “aquieta teu coração amigo, você não está sozinho”. Sorrindo disse a ele: “Já , já vamos verificar o que está acontecendo com você”.

- “Mas Beto, por eu não ser normal eu sou discriminado na minha família. Meus pais já me excluíram até das festas de final de ano, sou motivo de piada nos ambientes em que tento frequentar, sinto que todo mundo me olha quando entro. A sociedade não me aceita como eu sou, eu não consigo me adaptar”. Falou longamente meu partilhante em lágrimas.

O que fazer? Cada caso é um caso e sem a historicidade nada podemos sugerir, nada. E muito menos, concluir alguma coisa.

Depois dos exames de categoriais, de ouvir a história de vida e descobrir como meu partilhante funcionava, juntos convencionamos que no caso dele, a melhor solução seria a mudança da circunstância, ou seja, daquilo que o circunda. Geralmente, em casos como desse partilhante, a saída é encontrar um grupo social no qual ele é aceito e o meu papel como terapeuta é auxiliá-lo a encontrar o grupo daquela natureza, ou seja, auxiliá-lo a trilhar seu próprio caminho.

Querido leitor, eu posso ressaltar a você que há sim espaço nesse mundo para aqueles que não se submetem a pressão das normas, para aqueles que não agem como se espera, para aqueles que buscam saídas criativas e fora do normal.

O que é ser normal? Albert Einstein era normal? Grambel era normal? Beethoven, Thomas Edson, Steve Jobs eram normais?

E você já saiu do normal?

É assim como o mundo me parece hoje. E você, o que pensa de ser normal?

sábado, 10 de dezembro de 2011

Fragmentos filosóficos delirantes LXXIV*

A Mulher Madura


O rosto da mulher madura entrou na moldura de meus olhos.
De repente, a surpreendo num banco olhando de soslaio, aguardando sua vez no balcão. Outras vezes ela passa por mim na rua entre os camelôs. Vezes outras a entrevejo no espelho de uma joalheria.

A mulher madura, com seu rosto denso esculpido como o de uma atriz grega, tem qualquer coisa de Melina Mercouri ou de Anouke Aimé.

Há uma serenidade nos seus gestos, longe dos desperdícios da adolescência, quando se esbanjam pernas, braços e bocas ruidosamente. A adolescente não sabe ainda os limites de seu corpo e vai florescendo estabanada. É como um nadador principiante, faz muito barulho, joga muita água para os lados. Enfim, desborda.

A mulher madura nada no tempo e flui com a serenidade de um peixe. O silêncio em torno de seus gestos tem algo do repouso da garça sobre o lago. Seu olhar sobre os objetos não é de gula ou de concupiscência. Seus olhos não violam as coisas, mas as envolvem ternamente. Sabem a distância entre seu corpo e o mundo.

A mulher madura é assim: tem algo de orquídea que brota exclusiva de um tronco, inteira. Não é um canteiro de margaridas jovens tagarelando nas manhãs.
A adolescente, com o brilho de seus cabelos, com essa irradiação que vem dos dentes e dos olhos, nos extasia. Mas a mulher madura tem um som de adágio em suas formas. E até no gozo ela soa com a profundidade de um violoncelo e a sutileza de um oboé sobre a campina do leito.

A boca da mulher madura tem uma indizível sabedoria. Ela chorou na madrugada e abriu-se em opaco espanto. Ela conheceu a traição e ela mesma saiu sozinha para se deixar invadir pela dimensão de outros corpos. Por isto as suas mãos são líricas no drama e repõem no seu corpo um aprendizado da macia paina de setembro e abril.

O corpo da mulher madura é um corpo que já tem história. Inscrições se fizeram em sua superfície. Seu corpo não é como na adolescência uma pura e agreste possibilidade. Ela conhece seus mecanismos, apalpa suas mensagens, decodifica as ameaças numa intimidade respeitosa.

Sei que falo de uma certa mulher madura localizada numa classe social, e os mais politizados têm que ter condescendência e me entender. A maturidade também vem à mulher pobre, mas vem com tal violência que o verde se perverte e sobre os casebres e corpos tudo se reveste de uma marrom tristeza.

Na verdade, talvez a mulher madura não se saiba assim inteira ante seu olho interior. Talvez a sua aura se inscreva melhor no olho exterior, que a maturidade é também algo que o outro nos confere, complementarmente. Maturidade é essa coisa dupla: um jogo de espelhos revelador.

Cada idade tem seu esplendor. É um equívoco pensá-lo apenas como um relâmpago de juventude, um brilho de raquetes e pernas sobre as praias do tempo. Cada idade tem seu brilho e é preciso que cada um descubra o fulgor do próprio corpo.
A mulher madura está pronta para algo definitivo.

Merece, por exemplo, sentar-se naquela praça de Siena à tarde acompanhando com o complacente olhar o vôo das andorinhas e as crianças a brincar. A mulher madura tem esse ar de que, enfim, está pronta para ir à Grécia. Descolou-se da superfície das coisas. Merece profundidades. Por isto, pode-se dizer que a mulher madura não ostenta jóias. As jóias brotaram de seu tronco, incorporaram-se naturalmente ao seu rosto, como se fossem prendas do tempo.

A mulher madura é um ser luminoso é repousante às quatro horas da tarde, quando as sereias se banham e saem discretamente perfumadas com seus filhos pelos parques do dia. Pena que seu marido não note, perdido que está nos escritórios e mesquinhas ações nos múltiplos mercados dos gestos. Ele não sabe, mas deveria voltar para casa tão maduro quanto Yves Montand e Paul Newman, quando nos seus filmes.

Sobretudo, o primeiro namorado ou o primeiro marido não sabem o que perderam em não esperá-la madurar. Ali está uma mulher madura, mais que nunca pronta para quem a souber amar.

*Affonso Romano de Sant'Anna
Escritor, poeta mineiro

sexta-feira, 9 de dezembro de 2011

Sexo e Desejo

Rosângela Rossi
Psicoterapeuta e Filosofa Clínica
Juiz de Fora/MG


Corpo quente e ardente de tanto querer. Alma saindo pelo coração de tanta paixão. Humanos sedentos de encontro e tesão.

Tudo seria lindo e perfeito se compreendessemos nosso corpo do desejo. Com certeza o sexo seria poesia e a alma agradeceria.
Mas, somos humanos, demasiadamente humanos com todas as imperfeições que temos direito. Aprendizes, se humildes.

O desejo nasce da falta. O que nos falta? Nos falta o outro. Assim nosso corpo deseja a fusão para sentirmos, por um só momento, plenos.
Somos todos seres incompletos na falta. Desejosos do gozo, do nirvana , do morrer e do nascer no encontro.

Por que então o sexo não tem cumprido sua função transcendente?
No tempo que a imagem se faz mais importante, o foco não é mais o encontro, porém o desejo narcisista de se mostrar para seduzir e competir.

Busca-se o corpo ideal renascentista, sempre jovem. E como a maioria não serve para capa de revista, a frustração impera.
Com o desgosto da imperfeição o sexo fica debaixo do tapete a espera de um milagre. Ou de fantasias solitárias regadas por viagras.

Neste triste estado da realidade contemporânea o desejo do corpo gera paixões platônicas que invade bares e esquinas. O desejo e a falta se disfarçam na última moda dos manequins que vendem ilusões. O consumo dos cosméticos se alastram enriquecendo as multinacionais.

E nós os simples mortais, onde colocamos nosso desejo autêntico de um sexo pleno, que relaxa e dá prazer verdadeiro?
Não temos receitas prontas, só nos resta fazer pensar na qualidade da nossa vida sexual.

Aceitamos nosso corpo como ele vai se transformando com o tempo?
Aceitamos nossas imperfeições como parte da natureza humana?
Valorizamos o carinho delicado num gesto de ternura?
Colocamos os desejos sexuais na lista das prioridades com consciênca de sua real importânca em nossa vida?
Temos paciência e serenidade para viver um sexo com inteireza?

Pois, falar de nossos desejos para o parceiro, expressar nossas dificuldades sexuais francamente, é um dos passos essenciais para qualificar nossa sexualidade.
Mentir, fingir, reprimir, evitar o sexo só vai promover angústias.

Sexo é natureza. Sexo está para além do simples gozo. Sexo é encontro de corpos almados.
Sexualidade é poética das sensações que transitam por nosso corpo a escrever os mais delicados desejos.

Desejamos, sim, o que nos falta e o que nos falta é o encontro autêntico e pleno com o outro.
Então, desejo a todos vocês neste final de ano , um bom e pleno sexo. Com certeza a alma agradecerá e o corpo celebrará.

quinta-feira, 8 de dezembro de 2011

Debaixo de sol e chuva

Luana Tavares
Filosofa Clínica
Niterói/RJ


Nos nasceres e ocasos, percebemos o tempo, o vento, o cotidiano e tudo o que nos aquece ou nos esfria. Percebemos o mundo girar e caminhar em direção ao que não importa, pois ninguém nos pergunta se queremos ir ou não.

Tal como o olhar do pescador que se perde no horizonte e cumpre seu destino desvendando o improvável – apenas pelo sentir da serena brisa na face ou pelo tremular da onda que vem ao longe – também somos impelidos aos dias e noites, como marionetes que indagam e que se encantam, sem saber exatamente pelo que. E assim, da mesma forma que o pescador pressente as respostas, mas não interfere, apenas observamos e executamos nossa parte, na rede quase eterna que mal começamos a vislumbrar.

Vivemos num mundo e numa época de extremos, onde o que é percebido nem sempre coincide com a realidade. Na estreita faixa atmosférica na qual organizamos nossa realidade, nem sempre chove ou faz sol; na verdade, nem mesmo conseguimos justificar a extensa camada de opções a que estamos sensorialmente vulneráveis.

Conta observar que o que importa não é tão somente entender que a vida na redoma tem suas regras, suas preferências, seus destinos, mas perceber que essa dinâmica também nos impele a continuar e mantém abertas as portas do paralelo, daquilo que não é concebido ou mesmo compreendido.

A adversidade, a surpresa e a dúvida são partes da nossa condição de existir. Não sobreviveríamos sem elas, aliás, foi exatamente assim que alcançamos o atual estágio, ainda que de seres que continuam a rastejar em busca de dignidade. Tais condições demandam, entretanto, outra preocupação que não compete apenas com a perpetuação da sobrevivência, mas que implica diretamente em tudo o que nos dispomos para essencialmente continuar navegando.

Deveria haver uma percepção de que estamos expostos, mais do que podemos entender, ao ciclo involuntário do processo existencial, àquele que não se preocupa se vamos dar respostas, mas que simplesmente se acomoda a toda e qualquer realidade que se apresente. Não importa as perguntas que façamos, parece existir uma continuidade, uma insistência, para que os movimentos prossigam.

Logo, os efeitos da simultânea simplória e complexa ação antropogênica talvez não tenham tanta validade assim, pois que há um ciclo a se cumprir. Há uma demanda por algo que ainda não se cumpriu. O mundo continua a girar, as placas continuam a se mover, os ventos a soprar, os oceanos a compensar gradientes térmicos e as raízes a crescer... enquanto houver um ínfimo de impulso próprio que os alimente.

É a natureza na sua linguagem peculiar, que nos responde em seus caprichos e se exercita pela dimensão da beleza e da crueldade. E esta fala levará tanto tempo a se calar que até a eternidade talvez a ela se renda.

Então prosseguimos, inexoravelmente, mesmo que não muito cientes da nossa cumplicidade, mesmo que hesitantes diante da nossa perspectiva que ainda circula em proporções densas e bruscas. O que consola é tão somente a rendição ao universo etéreo e sensível de tudo o que toca o coração, de tudo o que vibra a alma e de tudo o que importa, seja qual for a história da subjetividade de cada um.

quarta-feira, 7 de dezembro de 2011

CONJUGAÇÕES NO TEMPO DE AMAR

Will Goya
Filósofo Clínico, Poeta.
Goiânia/GO



Caminhava à janela por um instante de vida, para vê-la.
Ela sorriu pra mim. O que dizer?
Meus pensamentos tinham perfume, cheiro de céu azul.

As palavras de tão leves desapareciam-me como folhas de arco-íris ao vento...
Sem corpo, sem licença, eu me abandonei a ela
Como quem se abandona à cama, ao sabor do sono,
Com desejos de sonhar.

Ainda que estivéssemos no inverno,
A aurora, que doura todas as coisas, queimava
Emoções de baunilha em toda parte.

O vento morno da primavera lhe arrancava pedaços
De um fino e discreto cheiro gostoso de mulher,
Que em mim se deitava à pele.

Sua honestidade silenciosa de apenas me olhar e me sorrir
Ardia-me um desejo de ter direito a uma ternura
Inesperadamente minha,
Que não era outra coisa se não vida.

Nos corredores da faculdade em que eu lecionava, as portas das salasde-aula tinham pequenas janelas de vidro. Então imaginei com os meus
sentimentos o que eu gostaria de ver se tivesse uma janela mágica, numa
outra porta, só minha, aberta para os segredos do meu coração. Senti um
perfume... e um poema chegando.

Ainda em pé, no corredor, entre alunos
indo e vindo, busquei rapidamente um papel, tomei uma caneta e um
pedaço de tempo, antes de voltar ao trabalho. Mais um poema.
Eu deveria parar e terminar a saudade de olhá-la.

O atraso da memória dava-me o tempo de outra vida, juntos.
Violência de amor que acalmava meus passos,
Sonhos da excessiva teimosia de herói em me demorar à janela.
Vê-la às vezes me fazia perder os sentidos,
Impor-me sua lembrança aos olhos.

Não se pode ao mesmo tempo ser verdadeiro e parecer verdadeiro,
quando se ama.
A saudade é o melhor vidro de perfume que se pode conservar.

Quando ao longe se advinha o amor, devo sair...
Encontrando em meu ser contente a recompensa
E depois voltar a calma a tudo.

terça-feira, 6 de dezembro de 2011

Fragmentos filosóficos delirantes LXXIII*


"Ele perde tudo - até a si mesmo. É só tocar o fundo de um inferno sem Deus, que a identidade desaparece."

"Ele não diz quem é porque não sabe. Seu nome é uma mentira, e com essa mentira desaparece a realidade de seu mundo."

"Pedir vida as palavras é arriscar-se a ser esmagado por elas."

"A obra que desperta nosso senso de literatura, que nos dá um novo sentimento do que a literatura pode ser, é a obra que muda nossa vida. Muitas vezes, parece improvável, como se surgisse do nada, e por estar tão implacavelmente fora da norma, não temos escolha a não ser criar um novo lugar para ela."

"O indizível gera uma poesia que ameaça continuamente ultrapassar os limites do dizível."

"O poeta como errante solitário, como um homem na multidão, como um escriba sem rosto. A poesia como uma arte da solidão."

"Poesia é exílio e uma forma de chegar a um acordo com o exílio que, de alguma forma, para o bem ou para o mal, consegue deixar a condição de exílio intacta."

"Eu queria derrubar a fronteira entre a minha vida e literatura o máximo possível."

"O equilibrismo na corda bamba não pode ser realmente ensinado: é algo que se aprende sozinho. É certamente um livro será o último lugar a que se recorrerá caso se queira realmente aprendê-lo."

"A perpétua novidade de sua obra deriva do fato de que pintar não é algo que ele pratique e depois separe de si, mas uma luta necessária para controlar sua própria vida e para se situar no mundo."

*Paul Auster

segunda-feira, 5 de dezembro de 2011

Alquimias*

Arquétipos, milagres, feitiços,
Muambas, mucambos, tendas,
Atabaques, rituais, senzalas,
Danças, molejos, desenvoltura,

Cor, sabor, agridoce,
Suor, calor, frescor,
Banho de mar, de lua, de sol,
Território de promessa,

Miscelânea de ilusões, paixões, ressacas,
Saudades, ruas desertas, um talvez,
Viagens, utopias, poesia,
Sereias, elfos, fada,

Tachos, riachos, sonhos,
Miragens, vadiagens, orgasmos,
Pinturas, texturas, aromas,
Interseção supernatural, filosofia,

*Anônimo,

sábado, 3 de dezembro de 2011

Fragmentos filosóficos delirantes LXXII*


"Para compreender o delírio devemos fazer um salto de um mundo vital para outro, no qual todos nós temos uma obscura aptidão, não pelo fato de termos delirado, mas porque podemos fazê-lo"

"Quando a vida se torna invivível, deve-se inventar uma vida nova"

"No decorrer da existência, cada indivíduo experimenta, então, diferentes versões de si mesmo, que incluem trechos não traduzidos na linguagem das camadas seguintes"

"O sujeito delirante é incoerente e absurdo somente em relação ao mundo compartilhado, porque é muito coerente e razoável na ótica do mundo 'substituto'"

"O delírio dilacera o cenário opaco do mundo da vida, dado por todos como pressuposto, e o coloca em discussão abertamente. Onde nada é óbvio, tudo deixa de ser familiar, tudo é submetido a um exame cuidadoso e a uma revisão radical"

"Mais do que um defeito ou uma ausência, encontra-se no delírio uma plenitude excessiva, um transbordamento"

"Justamente por ser a verdade, com certa frequência, inverossímil, os poetas e todos que, com audácia, recorrem ao auxílio da imaginação estão, às vezes, em condição de colhê-la antes e melhor do que os cientistas, sempre vinculados a imperativos de cautela, observantes de procedimentos e saberes que exigem o reconhecimento oficial e, às vezes, preocupados em não arriscar seu nome respeitado"

*Remo Bodei
Pensador italiano

sexta-feira, 2 de dezembro de 2011

Um copo de leite e duas vidas

Pe. Flávio Sobreiro
Filósofo Clínico, Poeta
Cambuí/MG



Há histórias que podem mudar nossa maneira de pensar e olhar para a vida. Não sei se a história que vou lhes contar é verdadeira ou não. Mas de uma coisa eu sei: ela pode modificar seu modo de ver o mundo. Ela pode tornar você uma pessoa mais agradecida.

Havia um menino muito pobre. Vendia doces para ajudar a família. Muitas pessoas fingiam que ele não existia. De fato, milhões são os invisíveis de nossa sociedade. Você se lembra de alguém que fingiu não existir?

Certa manhã fria, este mesmo menino bateu à porta de uma casa, na qual morava uma moça muito pobre, porém o coração da mesma era de uma solidariedade imensa. Ao se deparar com aquele menino de olhar triste e trajes humildes, seu coração foi tocado de uma ternura e compaixão sem limites. Ela disse a ele que não possuía um centavo naquele dia, o que de fato era verdade.

No entanto ela o convidou para adentrar em sua humilde casa e lhe ofereceu um copo de leite quente. Aquele menino bebeu o copo de leite agradecido e foi embora.
Os anos passaram... Esta jovem moça envelheceu e um dia seu coração começou a apresentar sérias complicações. Um dia já quase sem vida foi levada ao hospital. Uma cirurgia de emergência se fazia necessária e urgente.

Quando o médico que iria fazer a cirurgia chegou e viu aquela senhora agonizante e já quase sem vida a reconheceu. Era a mesma moça que uma vez lhe havia oferecido um copo de leite quente.

Após a cirurgia e já no quarto, aquela senhora acordou e viu um envelope branco em cima da mesinha ao lado de sua cama. Pensou ela que seria a conta. Abriu o envelope, e lá estava escrito: “Não se preocupe com a conta da cirurgia, ela já foi paga há muito tempo com um copo de leite quente”.

Esta simples e profunda história nos recorda a gratuidade que devemos ter em nossa vida. Ser agradecido é muito mais que uma necessidade humana, é um dom. Vivemos em um mundo em que as pessoas acabam se esquecendo das pequenas gentilezas. Quantas vezes somos mal agradecidos. Muitos recebem tanto e agradecem tão pouco...
Olhar para o outro como pessoa é uma dádiva de amor. O bem que fazemos ao próximo, é o bem que fazemos a nós mesmos.

Está foi a história de um menino, uma moça e um copo de leite. E qual é a sua história?

quinta-feira, 1 de dezembro de 2011

Porque nada está pronto*

“Mire veja: o mais importante e bonito, do mundo, é isto: que as pessoas não estão sempre iguais, ainda não foram terminadas – mas que elas vão sempre mudando. Afinam ou desafinam” (João Guimarães Rosa)


Em nenhum lugar está escrito que a vida seria um mar de rosas em tempo integral. O mais provável é que os caminhos sejam, para a grande maioria dos seres mortais, de desafios que alternam as estruturas e surpreendem até a si mesmos, sem prévio aviso e regado com profusão de ritmos.

Mas parece que de alguma forma acreditamos nesta possibilidade. Nesta esperança que impulsiona sentires em direção a algo no qual acreditamos.
Todo amanhecer pressupõe renovação, até mesmo quando nada se manifesta. É como uma flecha se encaminhando de forma precisa para onde supomos não haver nada.

Quantos vazios se escondem na multidão... quantos temores vãos se reconhecem e se proliferam, na tentativa de ganhar espaço nas veias abertas das dores e dos dissabores... quantos enigmas nos perpassam e nos convidam a refletir e penetrar zonas desconhecidas de nossos limites próprios... quantas fronteiras ainda a explorar.

E nossos instintos nos pedem apenas que sobrevivamos. Mas insistimos em ir além, simplesmente porque é impossível parar. Não estamos perscrutando os movimentos internos de nossa natureza apenas para existir, mas igualmente porque é preciso nos recriar a cada instante, como se não houvesse reconhecimento cada vez que nos olhamos. Sempre será preciso mais; é quase inerente.

É como se lançássemos o coração... só para depois ir ao encontro dele.

Esse encontro pode se traduzir como uma necessidade perene ou feroz, muitas vezes não concretizada, de estar apaixonada, de estar inteira na vida, no âmbito das relações que fazem sentido a cada um.

A questão dramática é que isto impede a realização até mesmo de ambições simples, muitas vezes abatendo emocionalmente.

Pode ser um cotidiano mal resolvido que insiste em colocar tudo a perder; pode ser o grande sonho que ainda não se definiu; pode ser uma dualidade que não percebe o caminho do meio ou que ainda não esticou as pernas o suficiente para se entregar aos dois destinos. Não há como saber... o que fica é um vazio, uma tristeza, um sentimento de perda de algo precioso.

Mas ainda que a vida esteja em compasso de espera, instiga uma tentação quase irresistível de ir ao encontro dela, como se fossemos impelidos ao abismo.

E não adianta resistir ao abismo; é quase inútil. O abismo da existência vai te sugar e te conferir plenitude, mesmo que não seja o momento de ser pleno. E plenitude é relativa! Então, que cada um que a saboreie no seu tempo. O que importa é vencer as ilusões que as amarras temporais entravam e clarear as névoas da percepção, mas com o máximo de cuidado, para não ofuscar o próprio brilho.

Sublimar momentaneamente pode ser um pequeno alívio, um descanso para a alma suspirar. Porque a respiração é imprescindível e sublimar é, num certo sentido, lidar racionalmente com situações muitas vezes limite para evitar dor ou mesmo uma desnecessária exposição.

Apenas é bom lembrar que tudo na vida tem seu preço e mesmo um gerenciamento eficiente vai um dia pedir as contas... só que também cabe lembrar que há contas que valem a pena ser pagas.

*Luana Tavares
Filosofa Clínica
Niterói/RJ