domingo, 30 de dezembro de 2012

Apontamentos, percepções, reflexões*

Em 2013 gostaria que palavras como: Amor, paz, amizade, solidariedade.. deixassem de ser palavras. Se traduzissem em atitudes. Também, se possível, que tivéssemos menos programas de rádio, tv, textos em revistas, entrevistas em jornais, proclamando verdades, propondo aconselhamentos, agendamentos de como 'viver melhor' e testemunhássemos mais atendimentos em hospitais, clínicas, escolas.

Gostaria de ver, cada vez mais, colegas exercitando seu papel existencial na atividade clínica presencial. Sentindo cheiro de gente nas periferias, subúrbios, hospitais, casas de saúde e onde mais for necessário o cuidado e atenção com a vida. Assim, talvez, se realize a mensagem de humanidade, rara sensibilidade e carinho com a condição humana que a Filosofia Clínica possui.

Um abraço cheio de esperança e fé na vida,

*Hélio Strassburger

sábado, 29 de dezembro de 2012

Lua Desejante*

Ele não tem pressa. Chega em cima da hora. E o tempo sai de cena…
Uma Lua Desejante é simpática. Uma Lua do Diabo, sintomática. Desfaz a impermanência com sua natureza resoluta, que perdura e atravessa.
O Diabo é Velho. E Vivido. Ví_vido pelo tempo. É do tempo, do qual dispõe e domina.

O Diabo combina com seu próprio usufruto. Sela o prazer diante de uma estrutura que crê neste mesmo tempo, crê-se tempo e desfruta das mudanças. No mínimo, prazeroso. O resto é espreita e esperteza.

Essa Lua atualiza nossos desejos e ardências. Já era hora! Não mais um calor só de fora. É dentro que ele vive, compactua assim com um fogo de Reveillon (não literal, por favor!). Dê passagem para trans_formar as outras passagens, e dá pra contar com uma confiança “pós alquímica” da Temperança que acessa um poderoso desejo, imerso de integralidade. Essa intensidade se movimenta bem e poderia ser este Dragão_dragãozinho aprendiz e indicador.

O Diabo é Velho. E vivido. Mas não se preocupa com isso. Ser desejante é seu moto_motor. Uma Lua que empodera com um sentido de voluptuosidade, de força e de revigoração. Cabe saber quais são eles: os nossos desejos. Mesmo que o mais importante seja que aconteçam, essa Lua deseja ir além.

O que ela encontra é uma capacidade de prática grande, de realização e de domínio do dia a dia, dos afazeres e das realidades. Muita coisa? Há combustível para todas essas conquistas, ainda mais com um novo ano numerológico que se inicia. E esse ano soma 6, a carta dos Enamorados, a sombra desse Diabo que sabe se posicionar facilmente. 15 soma 6 também. A dança está proposta. Ela tem o movimento do desejo, da vontade. É gostosa! Delicie-se com seu prazer, ele estará no ambiente. Há percepção disso, já que ocupa um espaço que não se preocupa com o tempo.

Dê-lhe passagem. Essa Lua chegou para empoderar. Comece por acreditar. Depois treine um pouco de descrédito também. Pois o perigo serão paixões dominantes, cegantes e delirantes. Outro aprendizado cai-lhe muito bem. Mas isso só será revelado mais adiante, pois virá de Deus para esse astuto Ser.

Ele Diabo é imprescindível, homem, humano, em sua magnética expressividade. Gosta da sua companhia e reverencia sua própria força, que está impregnada de possibilidades mágicas.

Lua Desejante é Lunar. E ela está sob o signo de Câncer que é regido por este mesmo Luminar. Estará em Leão no primeiro dia do ano, reforçando a necessidade de posicionamento, de responsabilidade e de competência para 2013.

Dê espaço para seus desejos. Eles querem se mostrar em sua alegria e esplêndida auto-estima. Regozige-se.

Desejo os Desejantes!

Que sejam eternos enquanto Desejos!

Uma ardente entrada neste ano marcante que está logo aí!

Alcance esse entusiasmo! Ele permite até mesmo ascese. Faça uma escolha diante da bi_furcação com a ajuda deste perito di_abo! Você chegará em um local que se assemelha à expressão de Jack Nicholson em… muitos dos seus filmes.

Desejo 13! O ímpar que sai do impasse. E que produz um 4 saturnino, regente do ano vindouro, carente de seriedade. Mas o Diabo é Velho. E Vivido. Resta-lhe ser Sábio.

Ó Lua Desejante!

“Hope you guess my name!”

*Renata Bastos
Astróloga profissional, mestre em filosofia, filósofa clínica.
São Paulo/SP

sexta-feira, 28 de dezembro de 2012

Começo, meio e fim*

Quando entrei na escola pensava que escrever era fácil. Tudo o que precisava era começar o texto com letra maiúscula e terminar com um ponto final. No meio colocava as idéias. Mais tarde aprendi que para tirar uma boa nota em redação, esta precisava ter começo, meio e fim. Não sei como, mas este conceito de que as coisas precisam ter um inicio e um encerramento bem definidos têm acompanhado e confundido a vida de muita gente.

“Aos 14 anos de idade fui oficialmente pedida em namoro por um menino. Era uma noite de verão e depois do jantar, enquanto jogava conversa fora com os amigos, o Dudu me chamou num canto e fez o pedido de namoro. Quando voltei pra casa, na hora de dormir, já havia trocado de "status". Ainda não existia o Facebook para que pudesse postar e anunciar para o mundo, mas de um momento pra outro, minha vida mudara, como se estivesse publicamente tomando posse de um cargo e iniciando naquele dia e naquela hora a nova relação. Uma separação muito clara entre o antes e o depois do pedido.”

Enamorar-se de uma pessoa é um processo que vai acontecendo aos poucos. Com o tempo e o convívio, vão surgindo a intimidade, a admiração e o casal, dia após dia, vai se reconhecendo como amigos, confidentes, amantes, cúmplices. Roupas e discos começam a se misturar, precisam urgentemente contar uma coisa para o outro, já não querem mais dormir separados.

Tornar-se namorado ou namorada também deveria ser assim, sem um marco inicial, um pedido formal, um ritual divisor de águas. Espontaneamente descobrir-se envolvido, a ponto de sentir que as duas vidas estão andando juntas e que a parceria está formada.

“Qual a data de nosso casamento? 12 de março, 29 de março, 10 de novembro...Em cada dia de nossos cinco anos de namoro, casamos um pouquinho. O que equivale a dizer que começamos a casar no dia que nos conhecemos.” O amor não tem que ser uma história com princípio, meio e fim. (Fábio Jr.).

O término de um relacionamento também não acontece em uma data fixa. O dia em que o casal separa fisicamente, quase nunca coincide com a separação emocional. Existe uma intimidade que vai além dos corpos e que precisa ser resolvida. É comum acontecer uma separação de corpos, mas não de almas e talvez mais comum ainda, ver que almas já não se encontram enquanto corpos ainda se tocam, em uma tentativa de resgatar o que ficou perdido em algum ponto da jornada, ou apenas para satisfazer uma necessidade física. Os termos do divórcio assinados em cartório são apenas outra formalidade na letra da lei. É muito difícil precisar quando se deixou de gostar, admirar e investir na relação.

Quando o assunto é sentimento, imagino que sempre tenha um começo, mas sem precisão de data. Também acho que tem meio. O fim só existe para quem não percebe a grandeza do meio e o ciclo infinito dos recomeços e aprendizados. O fim de um romance sempre é o começo de uma nova história.

Dizem que a lua crescente aparece todos os meses, em forma de vírgula, para lembrar que não devemos colocar ponto final nas histórias, mas sim uma vírgula. Aliás, perceberam que quando se coloca vários pontos finais seguidos, estes se transformam em reticências?

Ainda hoje escrevo redações. Continuo começando com letra maiúscula, mas não me preocupo mais nem com a métrica nem com a nota. Às vezes, como agora, o final se confunde com o inicio. Não importa, a história é que precisa ser boa e ter conteúdo.

Quando as palavras ficam sem graça, não fazem sentido ou falta inspiração, sempre existe a possibilidade de recomeçar, corrigir e acertar nos próximos parágrafos. Assim vou escrevendo minha vida, sem começo ou final definidos, mas com vontade e esperança de estar no caminho certo.

*Ildo Meyer
Médico, escritor, palestrante, filósofo clínico
Porto Alegre/RS
**Artigo escrito em parceria com Claudia Marques.

quinta-feira, 27 de dezembro de 2012

Presenciando mudanças e reconhecendo genialidades*


Mudei-me de república (moradia compartilhada por estudantes) este ano. E, para minha feliz surpresa, fui morar com pessoas fantásticas com focos na vida e origem das mais diversas. Dentre essas pessoas, gostaria de comentar sobre o que notei em duas, especificamente. Não vou entrar em detalhes e falar diretamente de algumas características para não expô-los demasiada e desnecessariamente.

Falo de dois colegas que hoje posso chamá-los de amigos. A convivência diária e a distância da cidade de origem e da família acabaram por me fazer considerá-los minha família. Dois irmãos (morei e vou morar com mais pessoas na mesma república, mas estou tratando desses dois somente) que obtive graças a caminhos que se cruzaram. Dentre várias metas que temos, partilhamos uma em comum: estudar.

Gostaria de elencar, sem delongas, algumas características sem, contudo, especificar a quem se refere. Um deles é um gênio. Não penso genialidade como oriundo de alguém superior ou de característica inata, mas de alguém que cultivou desde cedo algumas capacidades, ou melhor, habilidades. Conheço-o há pouco mais de um ano. Admiro sua capacidade de lidar com as palavras. Um leitor assíduo e escritor nato tanto de textos acadêmicos quanto de literatura. Escreve contos e poemas ótimos, até para quem (eu) não cultivou o gosto pela leitura poética.

O outro conheço há menos tempo, mas não o conheço menos do que o primeiro. A convivência diária e longas conversas, sobre temas que vão desde o comportamento humano mais banal até as questões do universo, ajudaram nesse processo.

Aliás, muitas dessas conversas tornaram-se motivações para alguns textos deste blog. Uma característica fantástica dessa pessoa, aliada à sua inteligência, está na capacidade de abrir-se a mudanças, a novos pontos de vista, a interagir com perspectivas diversas. Talvez seja característica própria de uma mente inteligente a disponibilidade para mudar.

O poeta/filósofo também me serviu de inspiração quando resolveu mudar hábitos e aparência. Foi muito bacana presenciar a determinação de um jovem de melhorar a saúde. Seu lema hoje é “geração saúde”, acrescido da epígrafe de seu quadro de anotações “faça amor, não faça barba”.

O físico/filósofo com sua capacidade de plasticidade, demonstrou-se em “essência” alguém que heraclitianamente falando, permanece na mudança, não deixando de ser o mesmo. Suas ideias, convicções, afirmações, pontos de vista, estão em constante mudança. Aberto a toda fonte que lhe traga conteúdo a ser refletido, não se fecha nem àquilo do qual antes preferia a distância. Ainda que seja somente para o respeito, toda ideia da qual divirja é ponderada.

Não é somente o interesse comum pela filosofia que nos aproxima. Além também do gosto pela boa conversa e por partilhar uma mesa repleta de petiscos e cerveja e, sobretudo, mulheres, gostamos de escrever. Somos blogueiros. Eu com o Alétheia, Rogério com o Un Quimera e o Davi com Sísifo e o Absurdo.

Esse é um tributo a esses amigos (no vocabulário da nossa república – ao modo dos jogos de linguagem wittgeinsteinianos – o termo homenagem não cabe aqui). Espero que vocês deem uma olhada nesses blogs. Para quem gosta de boas reflexões e conteúdo, não vão se arrepender.

*Miguel Angelo Caruzo
Filósofo Clínico em Juiz de Fora/MG

quarta-feira, 26 de dezembro de 2012

Fragmentos filosóficos delirantes XCXXXVII*


Mundos perdidos

O mundo não acabou outro dia, mas vários mundos acabam todos os dias, sempre que morre um escritor -ou um ator, um sambista, um arquiteto, um cientista, um gari, até mesmo um político. Hierarquias são perigosas, mas a morte de um escritor parece atingir fundo as pessoas, inclusive as que nunca o leram. Supõe a perda de um ou mais mundos organizados, que ainda não foram e não serão cristalizados em palavras.

Pior ainda quando são escritores populares, como Dickens, Zola, Hemingway, Jorge Amado, Saramago --porque muitos de seus contemporâneos sentiam-se parte de tais mundos. É como se a morte deles os privasse de seu chão. Claro que nem sempre é assim, e há escritores cujos mundos têm a profundidade que Nelson Rodrigues lhes atribuía -aquela que uma formiguinha atravessa a pé, com água pelas canelas.

Em 2012, morreram -até agora, e apenas entre os que nos falavam mais de perto- o mexicano Carlos Fuentes, os americanos Gore Vidal, Ray Bradbury, Nora Ephron, o britânico Eric Hobsbawm e os brasileiros Millôr Fernandes, Ivan Lessa, Décio Pignatari, Chico Anysio e Lêdo Ivo. Eles eram romancistas, poetas, ensaístas, críticos, cronistas --Hobsbawm, historiador. Nenhum se limitou ao livro. Todos escreveram em jornais, alguns para teatro, cinema ou TV, e vários eram bons de briga.

Chico ficou famoso pela televisão, mas quase todos eram "performáticos", tinham alma de ator. Na vida real, Chico, Millôr, Décio e Lêdo eram sérios, categóricos, falavam alto. Gore e Ivan eram mais debochados, gostavam de imitar, ridicularizando, o jeito de falar de seus desafetos. Fuentes namorou a atriz Jean Seberg. E nunca estive com Nora e Bradbury, mas deviam se parecer com o Hobsbawm que conheci em Paraty -- coroas boas-praças.

O mundo deles nenhuma formiga atravessa com água pelas canelas.

*Ruy Castro

terça-feira, 25 de dezembro de 2012

A Arte de Ouvir*

Querido leitor, que você esteja bem. Hoje vamos refletir sobre um texto oportuno de Rubem Alves: “Saber Ouvir”.

De todos os sentidos, o mais importante para a aprendizagem do amor, do viver juntos e da cidadania é a audição. Disse o escritor sagrado: “No princípio era o Verbo”. Eu acrescento: “Antes do Verbo era o silêncio.” É do silêncio que nasce o ouvir. Só posso ouvir a palavra se meus ruídos interiores forem silenciados. Só posso ouvir a verdade do outro se eu parar de tagarelar.

Diz Rubem Alves: Quem fala muito não ouve. Sabem disso os poetas, esses seres de fala mínima. Eles falam, sim. Para ouvir as vozes do silêncio.

Não nos sentimos em casa no silêncio. Quando a conversa para, por não haver o que dizer, tratamos logo de falar qualquer coisa, para por um fim no silêncio. Vez por outra tenho vontade de escrever um ensaio sobre a psicologia dos elevadores. Ali estamos, nós dois, fechados naquele cubículo. Um diante do outro. Olhamos nos olhos um do outro? Ou olhamos para o chão? Nada temos a falar. Esse silêncio é como se fosse uma ofensa. Aí falamos sobre o tempo. Mas nós dois bem sabemos que se trata de uma farsa para preencher o tempo até que o elevador pare.

O aprendizado do ouvir não se encontra em nossos currículos. Para Rubem Alves, a prática educativa tradicional se inicia com a palavra do professor. A menininha, Andréa, voltava do seu primeiro dia na creche. “Como é a professora?”, sua mãe lhe perguntou. Ao que ela respondeu: “Ela grita...” Não bastava que a professora falasse. Ela gritava. Não me lembro de que minha primeira professora, Da. Clotilde, tivesse jamais gritado. Mas me lembro dos gritos esganiçados que vinham da sala ao lado. Um único grito enche o espaço de medo. Na escola a violência.

Talvez seja essa a razão porque há tantos cursos de oratória, procurados por políticos e executivos, mas não haja cursos de escutatória. Muita gente quer falar. Poucos querem ouvir.

A maioria quer ser escutada. Talvez, pondera Rubem Alves, antes de se iniciarem as atividades de ensino e aprendizagem, os professores se dedicassem por semanas, de repente meses, a simplesmente ouvir as crianças. No silêncio das crianças há um programa de vida: sonhos. É dos sonhos que nasce a inteligência. A inteligência é a ferramenta que o corpo usa para transformar os sonhos em realidade. É preciso escutar as crianças para que a sua inteligência desabroche.

Para finalizar, Rubem Alves sugere que, ao lado da sua justa preocupação com o falar claro, os professores tenham também uma justa preocupação com o escutar claro. Amamos não a pessoa que fala bonito. É a pessoa que escuta bonito. A escuta bonita é um bom colo para uma criança se assentar...

É assim como o mundo do ouvir se manifesta a Rubem Alves. E você, como ouve o silêncio?

*Beto Colombo
Empresário, filósofo clínico, coordenador da filosofia clinica na UNESC
Criciúma/SC

segunda-feira, 24 de dezembro de 2012

O Pensamento em 3D*

Ao ligar conceito de fé somente a religião, o limitamos a uma margem de grandes equívocos e perdemos mais uma oportunidade de auto conhecimento. Sem poder desvincular a coisa da fé com a coisa da religião o transito sobre a riqueza desta competência humana fica limitada.

É interessante, fazer uma pesquisa por dicionários e constatar que os mais antigos como o Aurélio, tem uma definição de fé ultrapassada e bem comprometida com a coisa da religião e da crença em Deus ou do misticismo e adulação do fantástico. São definições cartesianas e equívocos montados nas bases da escolástica medieval. Já dicionários mais modernos, nos dão folga e espaço, para existir ante ao conceito e permitir que ele seja singular a nossa forma de pensar e ser.

Acredito ser impossível ao ser humano, uma existência desprovida de fé, ela é constitucional,serve como uma espécie de estrutura temporária para alguns movimentos e também para uma certa calmaria curativa. A fé tem , para algumas pessoas o efeito de tamponar parcialmente algumas fendas e lacunas, para que a atenção possa ser redirecionada á eventos e situações de uma forma mais fluida, mais útil a existência.

Isso significa dizer que quando percebemos um defeito , ou uma falha em nossa face diante do espelho, temos a tendência a ficar só olhando pra ela, porque a mente parece nos direcionar sistematicamente para que providenciemos seu concerto, algo como colocar uma lona na casa destelhada em noites de temporal. A fé as vezes aparece como solução preventiva em um movimento interno pró vida.

Ficar atolado nas fenda das duvidas, pode ser muitas vezes fatal. Fazemos investimentos de toda natureza baseados em fé, são emocionais, afetivos, libidinais, financeiros e muito mais. As vezes você calcula e tenta medir os riscos, as probabilidades mas o movimento final continua sendo um ato de fé , daí fica fácil cair nas fórmulas prontas, nas receitas clericais, no misticismo. A fé conforme o dicionário moderno exemplifica, é a condição mínima para o movimento intelectivo e físico em direção a vida , as descobertas e as realizações.

Vivemos em um mundo dentro de nós mesmos, que é tão ou mais misterioso do que o mundo fora de nós e isto em muitos momentos provoca sensação de vazio e de falta de direção, a fé surge para nos dizer “cuide bem de seus filhos que nada de mal ira lhes acontecer; termine sua faculdade que seu futuro será promissor; invista emocionalmente nesta relação; pode sair de casa, com seu carro que você vai chegar e por ai vai ” .Ha algo dentro de nós que nos conduz, a Filosofia Clinica chama isso de Estrutura Do Pensamento,esta abarca competências humanas que fazem composições diversas e revelam-se na singularidade do sujeito.

Tem também a coisa da boa fé, de dar fé, de agir de má fé, esses termos usados comumente pelo judiciário, nos dão uma visão de que as relações de fé permeiam o mundo e acredito que ele seria impraticável sem ela. Como um diretor vai administrar sua empresa se não confiar nos seus funcionários?Como um esposa vai ficar longe do seu marido se ambos não confiarem um no outro?

Nem mesmo as ciências atuariais conseguem construir certezas, tudo é probabilidade, amostra e aproximação. As vezes podemos direcionar a nossa vida baseados em experiências ruins, com resultados que acabam se definindo como a única possibilidade e nos equivocamos ao nos fechar para a revive-las e reinventa-las, por que nossos arquivos e amostragens existências, tem por base de aproximação, algum tipo de declínio.

A espécie humana é de fato tendenciosa e prolifera-se culturalmente na cegueira da massa,sobre o achismo , faz deste um recurso de auto conhecimento. Não coordenamos o pensamento em 3D, apesar de pensarmos em varias dimensões, como as do real, do bio-sensorial e do emocional. Na maioria das vezes somos comandados por um ou dois destes prismas, e por vários motivos acabamos por banalizar a competência dos demais, o que nos remete a bases de botes salva- vidas, no oceano das incertezas.

Acredito que quanto mais formos capazes, de abarcar em nossos movimentos a conjunção de todas essas dimensões do existir e do pensar, mais chegamos ao que muitos chamam de transcendência, confesso que não gosto muito desta palavra prefiro dizer que ascendemos sobre nossa mais plena potência.

Há muitos pontos cegos, o que nos impele a um movimento por aproximação, porém não há muitas certeza e esta poucas vezes irá surgir, nem nas ciências mais exatas, nem nas relações, nem no cosmos , não são as certezas que movem a humanidade e nossos corações .Sobre as duvidas é a fé que nos faz buscar as respostas. Eu dou Fé a fé e você?.

Alba Regina Bonotto
Psicóloga, filósofa clínica
Curitiba/PR

domingo, 23 de dezembro de 2012

Do fim ao recomeço*

Não sei…tem horas que bate umas coisas estranhas no coração. Um medo repentino de que todas as últimas escolhas tenham sido erradas. E se foram? Não dá pra voltar atrás. A vida é feita só de ida. Bate um medo de ficar sozinha, medo de ficar sem amigos. Medo de se perder no trabalho. Medo de se achar sem trabalho. O mercado de alto risco é perigoso. Ou se ganha muito ou se perde em demasia. Não sei se tenho corpo e alma nesse momento pra arriscar tanto assim. Ando com o coração machucado, com algumas feridas ainda por cicatrizar. Mas e se minhas apostas tiverem sido altas demais e o risco que corro for realmente elevado? Só o tempo irá dizer… o tão falado tempo… o temido! E enquanto vejo os minutos, as horas e os dias passarem, aguardando um fechamento para essa angústia, o que fazer com esse medo que insiste em gritar? E se foi tudo em vão? E se eu tivesse falado? E se eu tivesse calado? E se eu não tivesse largado? E se eu não tivesse arriscado? Agora não adianta, as apostas foram feitas, as promessas desfeitas, os vínculos quebrados, a palavra foi dita…. e o silêncio foi colhido, dizendo que a paciência e a sabedoria deveriam vir junto. E quer saber? Se no final tudo der errado que a gente jogue fora o bilhete da aposta, e jogue outro jogo. Que comece tudo de novo, e de novo, e de novo, porque a vida não pode parar. E sempre é tempo pra recomeçar.

*Patrícia Rossi
Advogada, especialista em recursos humanos, psicóloga, filósofa clínica
Juiz de Fora/MG

sábado, 22 de dezembro de 2012

Fragmentos filosóficos delirantes XCXXXVI*

Darwins do amanhã

Se você se deixa levar pela fúria da conexão a cada cinco minutos, a chance de obter êxito na sua atividade diminui bastante.

O escritor Malcolm Gladwell observa que os níveis de êxito obtidos em determinadas áreas estão relacionados com a pura prática deliberada na qual os indivíduos se envolvem dez mil horas pelo menos. Até os gênios, para serem gênios produtivos, têm que se dedicar.

As consequências da hiperconectividade contemporânea começam a ser estudadas. Já sabemos que ela leva as pessoas a uma conexão profusa, mas superficial. Uma superficialidade perversa da qual pouco ainda sabemos. É muito bom precisar de uma informação e obtê-la em dois minutos. Não sei se é tão positivo se "entupir" de notícias, ti-ti-tis, não se aprofundar em nada e não se conectar verdadeiramente com ninguém. Para adolescentes, ajuda a forjar a identidade. Para a humanidade, pode vir a ser perda.

O pensamento, para se desenvolver, precisa de tempo. De quietude e de isolamento para a maioria. Os grandes criadores produziram em anos de investimento as suas obras. O "insight" criativo vem de olhar o nada, do tempo livre, da meditação. Como isso pode acontecer no frenesi da necessidade de "precisar saber tudo o que está acontecendo"?

A hiperconectividade pode passar a inibir o mergulho do ser humano dentro de si mesmo, de sua bagagem e emoções. A pessoa, e não a telinha, é o lugar onde se desenvolvem as grandes relações humanas e os caminhos da genialidade.

No polo oposto, os muitos benefícios da inclusão digital não caberiam neste espaço. É o dilema de Sofia dos nossos tempos. Ou, talvez, serão apontadas, como numa sequência darwiniana, novas formas do pensamento humano produzir.

O paradoxo brasileiro é emblemático. Correspondemos a um quarto do total de pessoas que utilizam o Facebook no mundo -o Brasil é o segundo país com o maior número de usuários nessa rede social. Ao mesmo tempo, o Mapa da Inclusão Digital divulgado nesta semana mostrou que mais de 64% da população não acha a internet necessária ou não sabe utilizá-la.

Se os grandes criadores se fazem no mergulho do seu conhecimento e no silêncio de suas almas, o mundo atual coloca ruído e cria necessidades estapafúrdias nessa solidão.

Conversando com o presidente Sarney, que sempre me surpreende no conhecimento do novo, ele me dizia acreditar que o pensamento das crianças que já usam computador para ler livros funciona de outra forma do que o nosso que lê no papel. Desenvolver-se-iam novas percepções.

Quantos Michelangelos, Darwins e Jorge Amados, de tão entretidos nos seus "brinquedinhos", se perderão na sua contribuição? Ou não. Será tudo diferente.

*Marta Suplicy

sexta-feira, 21 de dezembro de 2012

Fragmentos filosóficos delirantes XCXXXV*

CONVITE À VIAGEM

Existe um país soberbo, um país idílico, dizem, chamado Cocagne que eu sonho visitar com uma velha amiga. País singular, nascido nas brumas de nosso Norte e que poderia se chamar o Oriente do Ocidente, a China da Europa, tanto pela sua calorosa e caprichosa fantasia quanto por ela, paciente e persistentemente ser ilustrada por sábias e delicadas vegetações.

Um verdadeiro país de Cocagne, onde tudo é belo, rico, tranqüilo, honesto; onde o luxo se compraz em se ver em ordem, ou a vida é livre e doce de se respirar; de onde a desordem, a turbulência e o imprevisto são excluídos; onde a bondade está casada com o silêncio; onde a própria cozinha é poética, rica e excitante ao mesmo tempo; onde tudo se parece contigo, meu anjo.

Conheces essa doença febricitante que se apossa de nós nas gélidas misérias, essa nostalgia de um país que ignoramos, essa angústia vinda da curiosidade? É um lugar que se parece contigo, onde tudo é belo, rico, tranqüilo, honesto; onde a fantasia construiu e decorou uma China ocidental, onde a vida é doce de se respirar, onde a felicidade está casada com o silêncio. É lá que se precisa ir viver, é lá que se precisa ir morrer.

Sim, é lá que se precisa ir respirar, sonhar e esticar as horas para o infinito. Um músico escreveu o Convite à Valsa, quem comporá o Convite à friagem, que se possa oferecer à mulher amada ou à irmã preferida?
Sim, é nessa atmosfera que seria bom viver — lá onde as horas mais lentas contêm mais pensamentos, onde os relógios marcam a felicidade com a mais profunda e a mais significativa solenidade.

Sobre as telas brilhantes ou sobre os couros dourados, de sombria riqueza, vivem, discretamente, as pinturas beatas, calmas e profundas como as almas dos arriscas que as criaram, Os sóis poentes que cobrem tão ricamente a sala de jantar ou o sabão são amenizados pelos belos tecidos ou por altas janelas trabalhadas divididas pelas esquadrias de chumbo em numerosos compartimentos, Os móveis são vastos, curiosos, bizarros, armados de fechaduras com segredos, como as almas refinadas. Os metais, os espelhos, os tecidos, a ourivesaria e a faiança tocam para os olhos uma sinfonia muda e misteriosa; e de todas as coisas, de todos os cantos, das frestas das gavetas e das pregas dos tecidos emerge um perfume singular, um retorne de Sumatra, que é como a alma do apartamento.

Um verdadeiro país de Cocagne, digo-te, onde tudo é rico, limpo e luminoso como uma consciência pura, como uma magnífica bateria de cozinha, como urna esplêndida ourivesaria, como uma joalheria multicor! Os tesouros do mundo inteiro afluem, como na casa de um homem trabalhador que bem os merece. País singular, superior aos outros, como a Arte é em relação à Natureza reformada pelo sonho, onde é corrigida, embelezada e refundida.

Que eles procurem, que pesquisem mais, que recuem sem cessar os limites de sua felicidade, estes alquimistas da horticultura! Que proponham o preço de sessenta e de cem florins na solução de seus ambiciosos problemas! Eu encontrei minha tulipa negra e minha dália azul!

Flor incomparável, tulipa reencontrada, dália alegórica, está lá, não é?, nesse belo país tão calmo e tão sonhador que seria preciso ir viver e florescer Não estarias enquadrada em tua analogia e não poderias mirar-te, para falar com os místicos, em tua própria correspondência?

Sonhos! Sempre sonhos! E quanto mais ambiciosa e delicada é a alma, mais os sonhos se afastam do possível. Cada homem leva em si sua dose de ópio natural, incessantemente secretada e renovada, e, do nascimento até a morte, quantas horas temos nós de alegria positiva e de ações bem-sucedidas e decididas? Viveremos nós, por acaso, passaremos nós alguma vez nesse quadro que meu espírito pintou, esse quadro que se parece contigo?

Esses tesouros, esses móveis, esse luxo, essa ordem, esses perfumes, essas flores miraculosas, és tu. Es tu, ainda, esses grandes rios, esses canais tranquilos. Esses enormes navios que os singram carregados de riquezas e de onde provêm os cantos monótonos das manobras, são estes meus pensamentos que dormem ou rolam sobre teu seio. Tu os conduzes docemente em direção ao mar que é infinito, a refletir as profundezas do céu na limpidez de tua bela alma; e quando, fatigados pelas vagas e saciados dos produtos do Oriente, eles retornam ao porto natal, são ainda meus pensamentos enriquecidos que voltam do infinito para ti.

*Charles Baudelaire

quarta-feira, 19 de dezembro de 2012

A Tristeza e os mil tons de azul da Alma*

Chegou o momento de refletirmos sobre a loucura deste mundo que espera que todos sejam lindos, perfeitos, saudáveis e heróis. Uma ansiedade fica solta no ar no constante "tem que". Tem que ser eternamente jovem, eternamente bonito, eternamente magro, eternamente potente, eternamente culto e assim por diante. Todos desejam ser o Zeus ou Afrodite do Olimpo!

Este é o grande problema, que precisa de muita, muita reflexão.

A contemporaneidade é Solar, extrovertida, busca o brilho, o sucesso, o poder e por isto se defronta com tanta frustração e ansiedade. O ego heróico cria asas de cera, como Ícaro, e se derrete ao se aproximar do Sol. Sol demais cega e queima.
Chega a hora que a Alma grita e nos impõe enfrentar a vastidão dos mil tons de azul, da tristeza a depressão. Ninguém está livre desta realidade profunda. Um dia, nos vemos mergulhados nos pantanais da alma, na floresta escura, no mar profundo.

Neste momento, que vai da tristeza a melancolia, a maioria foge a tomar excessos de medicamentos em busca da felicidade. Poucos decidem ir fundo no encontro com a Alma, fazer uma análise profunda, confrontar com o sofrimento. O processo de descoberta da alma é longo e trabalhoso, pois exige atenção e respeito a cada imagem, emoção e pensamento que vão se desvelando.

Precisamos sentir a dor e a vergonha que habitam nossa alma. A tristeza é alma azul. Importante permitir sentir a tristeza em toda sua intensidade, sem se vergonhar, sem se sentir menor, sem fingir ou fugir da realidade.

Quando a tristeza chegar, coloque um blues, recolha na solidão azul de si mesmo, deixe as lágrimas correrem pela face. A tristeza é a vastidão escura da noite. Importante se permitir transitar pelo azul escuro da alma.

Evitar a dor e a tristeza só adiam e substituem um sofrimento por outro. A análise profunda auxilia a trocar o sofrimento neurótico pelo real. "No lugar onde tudo parece perdido, existe o portão da dor, que leva a uma terra situada além do sofrer, um local cheio de serenidade e alegria onde não se negam nem o corpo nem a Terra, onde eles existem e são celebrados" explica da psicoterapeuta junguiana Sukie Colegrave.

Mas, atenção, não falo do masoquismo, vitimação e piedade. Muitas pessoas usam de sua tristeza para controlar outras pessoas. Cuidado! Quando a tristeza torna-se instrumento de poder e controle ela está a serviço não do azul da múltipla alma, mas a serviço do orgulho e da vaidade na máscara da humildade.

A tristeza autêntica não joga, ela é e pronto, ela existe e ponto. A tristeza faz parte da vida. Negá-la é viver pela metade. Precisamos ir fundo na nossa tristeza para vivermos autenticamente as alegrias.

Para além do Sol existe a vastidão do cosmos infinito em seus muitos tons de azul. "Ao negar aos nossos monstros acesso à consciência, impedimos a passagem da energia vital, instintiva e em estado bruto que se encontra dentro deles". Mergulhar e confrontar com os monstros que nos habitam a escuridão é o caminho nobre de viver com dignidade e inteireza.

Enfrentar a vida como ela é, consciente de suas tragicidades nos ensina que há dia e noite, alegrias e tristezas e que se negarmos um dos lados seremos pegos pelo outro. Quanto maior a árvore, maior é a sombra. Diz Jung sabiamente: "O mal que evito me faz mal".

Pense comigo, agora: - O que tem feito quando a tristeza, melancolia ou depressão chegam ? O Lobo poderá lhe indicar o caminho mais curto para resolver seu "dito problema", porém, com certeza, ele estará na casa da vovó lhe esperando de braços bem abertos para lhe comer! Feliz morte lenta!

Se resolver mergulhar nos mil tons de azul, se permitir sentir tudo que a existência tem a oferecer, com certeza você poderá se sentir cem por cento humano! E quem sabe terá o privilégio de encontrar a vovó sabedoria lhe esperando com a coruja Sophia!
Temos nossas feridas e imperfeiçôes. Encarar nosso caráter de frente, saber das pedras em nossa psique, sofrer com nossas dificuldades nos faz lavar a alma e enfrentar o dia a dia com todos os seus tons. "Tudo tem seu tempo certo".

Chega de fazermos o jogo do contente. A mentira tem pernas curtas.
A tristeza existe, está aí a lhe convocar a transitar pelos mil tons de azul da Alma e simplesmente viver!

* Rosângela Rossi
Psicoterapeuta, escritora, filósofa clínica
Juiz de Fora/MG

terça-feira, 18 de dezembro de 2012

Esclarecimento:

Esse espaço artesanal de publicação, estudo, pesquisa, convívio em Filosofia Clínica surgiu da necessidade de democratizar os ensaios existenciais na forma de texto. Tornar acessível a expressividade de colegas, alunos e amigos envolvidos com o sonho da Filosofia Clínica.

Novo paradigma terapêutico iniciado por Lúcio Packter, hoje a Filosofia Clínica encontra-se em um momento diferenciado de sua historicidade. Seu crescimento reivindica novos espaços de atuação, olhares, sentires, qualificação, desenvolvimento. Nosso horizonte se expande, ainda mais, com as novas parcerias, a chegada de colegas talentosos de outras abordagens, qualificação bibliográfica, novos eventos.

Assim, nossa busca continuará acolhendo, registrando, socializando um conhecimento que vinha ficando de lado: a semiose escrita dos novos alunos, profissionais recém formados, veteranos e demais convidados.

Desejamos boas visitas e revisitas!

Um abraço fraterno,

Coordenação


Luz e Sombra*

Queridos leitores, paz! Hoje vamos refletir sobre a luz e a sombra.

Inicio meu comentário com um pensamento que é creditado a Bertold Brecht: “Há homens que lutam um dia, e são bons. Há homens que lutam muitos dias e são muito bons. Mas há homens que lutam a vida inteira, estes são imprescindíveis”.

O intelectual alemão, neste pensamento, provavelmente se referia ao engajamento político, a movimentos paredistas de contestação ao sistema, ao regime. E não há nada de errado nisso, pelo contrário. Mas quero focar este artigo não para o movimento político, mas para a construção individual, para o autoconhecimento, para autotransformação.

Para muitas pessoas, crescer dói e dói medularmente. Não é fácil ser melhor não é? Os apelos são muitos, variados e travestidos de todo tipo de visgo. Essas pessoas precisam lutar um dia, muitos dias, a vida toda. E, provavelmente, será uma jornada difícil, mas recompensadora.

Trago agora o psicólogo Carl Jung. Para ele, “não há despertar de consciência sem dor”. Eu penso que compreendo o que ele quer dizer com “não há despertar sem dor”. Sei que para algumas pessoas, a transformação não ocorre se não na dor, contudo, há as poucas que se transformam pelo amor.

Continua Jung, para evitar a dor, “as pessoas farão de tudo, chegando aos limites do absurdo para evitar enfrentar a sua própria alma”. Aqui, podemos lembrar as drogas, indo das legais como o álcool quanto as ilegais como cocaína e crack. O auto boicote pode ser visto também no alimento descontrolado, na falta de cuidado com o corpo numa demonstração clara de um suicídio velado, branco. Afinal de contas há o suicídio que ceifa a vida de forma abrupta e aquele que faz isso lentamente.

Ao finalizar sua ideia, Carl Jung ainda diz que “ninguém se torna iluminado por imaginar figuras de luz, mas sim, por tornar consciente a escuridão”. Penso que se pode entender por “iluminado” alguém que se conscientizou de determinada questão, movimentou-se ao encontro deste despertar e busca a cada dia alinhar sua prática a sua conclusão. Quando consegue viver isso de forma natural eis a iluminação.

Quando Jung fala de iluminar e acolher a sombra, provavelmente queira dizer que ao invés de negá-la, ao invés de colocar as nossas mazelas embaixo do tapete, devemos assumi-las, pois só assim vamos ressignificá-las e transformá-las.

Então câmera, luz e ação! Um bom caminho rumo a você mesmo.

É assim como o mundo me parece hoje. E você, o que pensa sobre luz e sombra?

*Beto Colombo
Empresário, filósofo clínico, coordenador da filosofia clínica na UNESC
Criciúma/SC

segunda-feira, 17 de dezembro de 2012

Fragmentos filosóficos delirantes XCXXXIV*

Ah! Os Relógios

Amigos, não consultem os relógios
quando um dia eu me for de vossas vidas
em seus fúteis problemas tão perdidas
que até parecem mais uns necrológios...

Porque o tempo é uma invenção da morte:
não o conhece a vida - a verdadeira -
em que basta um momento de poesia
para nos dar a eternidade inteira.

Inteira, sim, porque essa vida eterna
somente por si mesma é dividida:
não cabe, a cada qual, uma porção.

E os Anjos entreolham-se espantados
quando alguém - ao voltar a si da vida -
acaso lhes indaga que horas são...

*Mário Quintana

domingo, 16 de dezembro de 2012

Caminho*

Um caminho para cada lugar
Tinha cheiro de grama
Gosto de festa de riso
Brilho sol no olhar
Tinha gente vestida de gente
Que era gente
Tinha canto pintado de dança
Tinha gente saindo das pedras
Tinha pedras aquecidas e liquidas
Tinha vida de todo lugar
Tinha beijo e doce na boca
Tinha trem e passeio no ar
Tinha ponte pra gente passar
Tinha sábios pra todo lugar
Um caminho no peito que
Inflou feito balão em noites felizes de São João
De todos e de trilhas que levam ao mar
Tinha gente aprendendo a voar
e pássaros aterrizando no ar.
A circunstancia era o caminho
a Filosofia o lugar
E o tempo se fez tão suave e desapercebido
avisou - Ja é hora de voltar!

*Alba Regina Bonotto
Psicóloga, filósofa clínica
Curitiba/PR

sábado, 15 de dezembro de 2012

SINTOMAS*

Depois de escrever “Sinais”, fui desafiado a continuar no assunto e falar agora sobre os “Sintomas” do amor. Ainda não sou especialista no assunto, mas posso dizer que me dedico, e como sou movido a desafios, vou tentar.

Pensei inicialmente em fazer uma divisão didática, semelhante ao que se faz com as patologias em medicina: sintomas leves, medianos e graves de amor. Não deu certo. Amor não é uma doença; paixão talvez seja uma espécie de confusão delirante com exaltação maníaca e por isto acumule tantos sintomas. Quando se trata de amor, este tipo de classificação não funciona. Não dá prá amar um pouquinho ou só de leve ou querer achar um rótulo para classificar. É um amor pobre aquele que se pode medir- Shakespeare. Ou se ama ou não se ama. Lembram do recado do amor? “Não aceitem menos que isto.”

Por outro lado, não podemos confundir, existem várias formas e sintomas de amor. Cada individuo tem uma história de vida, uma personalidade e uma forma de amar próprias, que vão se expressar de maneira singular. Serão seus, e somente seus, aqueles sintomas de amor. Na medida em que um parceiro espera que o outro tenha sintomas semelhantes, está reduzindo-o e tentando torná-lo parecido consigo.

O amor não se manifesta pela razão, nem pela linguagem, a qual cria conceitos comuns e homogeneíza o sentimento. Segundo Clarice Lispector, pensar que somando as compreensões está se amando é um erro. Somando as incompreensões é que se ama verdadeiramente. “Amo-te porque eu sou eu e tu és tu”, explicações são desnecessárias. Amor não se define, sente-se.

Quando um casal se ama, formam-se várias pontes, que serão os sintomas da ligação. “Não posso sentir igual a você, mas espero que esta ponte seja de duas mãos, cada um vindo em direção ao outro, e ambos abertos para a troca de sentimentos. Crescendo e aprendendo juntos.” No final das contas, o amor se transforma em um acesso restrito a apenas duas pessoas, um tem o login e o outro a senha. Sendo assim, qualquer sintoma que eu possa tentar descrever, já nasce desqualificado, em virtude da individualidade tanto pessoal como do casal.

Mesmo assim, vou arriscar. Amar é quando seu primeiro e último pensamento do dia são com a pessoa amada. Amar é quando você deixa de colocar vírgulas no outro e na relação, assume seu amor e ponto final. Quem ama confia, não desiste, não trai, não mente. Amar é acima de tudo, deixar de ficar pensando em teorias e definições para quando lhe perguntarem o que é o amor, responder simplesmente, sem titubear, um nome.

Se isto lhe aconteceu, não tenha dúvidas, você foi contaminado pelo amor, mas não se assuste, pois o sintoma universal é paz, muita paz. E o tratamento paliativo são beijos, abraços, colo, carinho, cafuné e compreensão, pois o amor é crônico e se possível, incurável.

*Ildo Meyer
Médico, escritor, filósofo clínico
Porto Alegre/RS

sexta-feira, 14 de dezembro de 2012

Estamos todos certos*

Surpreende-me a voracidade com que algumas pessoas sentem necessidade de ter suas ideias e opiniões aceitas e compartilhadas. O espaço para troca de ideias, contrapontos e antíteses, para então gerar uma nova síntese, é reduzido a zero. Quando o interlocutor tem o mesmo perfil, a situação se agrava: transforma-se em diálogo surdo a conversa que podia ter sido prenhe de sentidos e pontos de chegada.

Surpreende-me ainda mais quando, durante a discussão, surge a expressão: ‘você está errado’. Oras, tão simples é entender que, em toda e qualquer situação, a julgar pelo íntimo e historicidade de cada um, todos estão certos!

Gerar uma opinião e posição sobre determinado fato nunca é aleatório, por mais que pareça, para decepção daqueles que gostam de apontar a mídia como formadora de rebanhos. Posicionar-se, mesmo que em cima do muro, exige, mesmo que inconscientemente, uma justificativa.

Cada um é único, ímpar, singular, em sua trajetória. Simpatias e antipatias são formadas a partir da vivência. Preferir algo ou outra coisa ativa uma rede de memórias e lembranças, relacionadas a acontecimentos, sensações e informações, no mundo interior de cada um, que precisa ser respeitada, porque, invariavelmente, está certa. Ela se justifica em si mesma.

Isso tudo vale, evidentemente, para quem gosta de catalogar os acontecimentos da vida em certo e errado. Em bom e mau. Em válido ou sem importância. Para quem prefere encarar todo encontro, toda decisão, toda conquista, toda perda, enfim, todo acontecimento cotidiano como uma oportunidade de aprendizado, um outro universo se abre: o da escuta qualificada.

Na escuta qualificada reside toda beleza da vida que se permite analisada, da intelectualidade a serviço do bem-estar subjetivo.

Na escuta qualificada reside o gatilho para o entendimento intuitivo, que não precisa ser explicado.

E então surge espaço para que o ponto de equilíbrio seja buscado e atingido, a partir da verdade construída no íntimo de cada um, compondo uma regra de três com o contexto e o ponto onde se quer chegar.

Este é o momento em que se revela um dos maiores segredos da interlocução, aquele onde tudo pode ser dito, desde que da maneira educada, com a melhor das intenções, e sob medida para o ser humano que esta à frente. Dizer ‘você tem razão’ ou ‘não é nada disso’, sob este critério, tem sabor de liberdade e respeito.

Concorda? Ou melhor: qual sua opinião?

*Sandra Veroneze
Jornalista, escritora, filósofa clínica
Porto Alegre/RS

quinta-feira, 13 de dezembro de 2012

Percepção...*

Sinto-me mais perceptiva, não sei se eu mudei ou foi o mundo que mudou. Olho para o outro e compreendo suas complexidades por mais estranhas que possam parecer à muitos. Talvez esteja compreendendo melhor o meu "Eu" e, de repente, como num susto, o "Eu" do outro é tão meu que não me espanta mais certas atitudes. Talvez esteja me permitindo a dar maior atenção a minha sensibilidade ou talvez esteja passando por um profundo estado de compaixão. Só sei que a vida se torna mais possível quando tentamos compreender os motivos de todas as ações humanas. Por mais que nos pareçam diferentes essas ações há um porquê respeitável para tal.

Ando pela rua e olho ao redor. Pessoas passam, riem, falam, brigam. Sinto-me como uma pessoa num grande teatro, onde cada qual, representa seu papel social. Inclusive eu! Mas, nesse momento, leio os sentimentos escondidos de certas personagens que não me passam desapercebidas e como num jogo aleatório quase sinto o "motivo" de tais papéis. Sinto minha intuíção aflorada e agradeço a oportunidade de deixar que minhas máscaras de pré-juízo caiam.

Julgar é muito fácil e prático, não requer muitos questionamentos. Porém, não julgar e tentar entender verdadeiramente a questão alheia é um trabalho árduo que tenho exercitado ultimamente. Não me sinto uma pessoa melhor nem mais sábia por isso, percebo que cresci de certa forma como pessoa humana e isso sim me faz sentir mais leve e feliz.

Continuo no caminho evolutivo da vida com minhas inúmeras angústias e incertezas, percebo que estou mais sucetível ao novo, entretanto estou aprendendo a dizer não, um não ainda culpado por talvez achar e pensar que seria melhor dizer sim. Difícil transformação! Por conseguinte dizer não também é um grande aprendizado. Doloroso sim, pra mim, talvez para outras estruturas de pensamento seja indolor.

O mais importante é saber que existem certas posturas que não aceito mais e quando se descobre que se é livre para escolher, de fato, como viver e conduzir a própria vida, sente-se uma autonomia indizível, onde ninguém mais poderá ser responsável por nossa infelicidade ou felicidade.
Sartre tinha razão quando dizia que estamos condenados á liberdade. Diria que é uma condenação salutar!

*Vanessa Ribeiro
Matemática, filósofa, atriz, dançarina, estudante de filosofia clínica
Petrópolis/RJ

quarta-feira, 12 de dezembro de 2012

Fragmentos filosóficos delirantes XCXXXIII*

OS HOMENS DESEJAM AS MULHERES QUE NÃO EXISTEM

Está na moda - muitas mulheres ficam em acrobáticas posições ginecológicas para raspar os pêlos pubianos nos salões de beleza. Ficam penduradas em paus-de-arara e, depois, saem felizes com apenas um canteirinho de cabelos, como um jardinzinho estreito, a vereda indicativa de um desejo inofensivo e não mais as agressivas florestas que podem nos assustar. Parecem uns bigodinhos verticais que (oh, céus!...) me fazem pensar em... Hitler.

Silicone, pêlos dourados, bumbuns malhados, tudo para agradar aos consumidores do mercado sexual. Olho as revistas povoadas de mulheres lindas... e sinto uma leve depressão, me sinto mais só, diante de tanta oferta impossível. Vejo que no Brasil o feminismo se vulgarizou numa liberdade de "objetos", produziu mulheres livres como coisas, livres como produtos perfeitos para o prazer.

A concorrência é grande para um mercado com poucos consumidores, pois há muito mais mulher que homens na praça (e-mails indignados virão...) Talvez este artigo seja moralista, talvez as uvas da inveja estejam verdes, mas eu olho as revistas de mulher nua e só vejo paisagens; não vejo pessoas com defeitos, medos. Só vejo meninas oferecendo a doçura total, todas competindo no mercado, em contorções eróticas desesperadas porque não têm mais o que mostrar. Nunca as mulheres foram tão nuas no Brasil; já expuseram o corpo todo, mucosas, vagina, ânus.

O que falta? Órgãos internos? Que querem essas mulheres? Querem acabar com nossos lares? Querem nos humilhar com sua beleza inconquistável? Muitas têm boquinhas tímidas, algumas sugerem um susto de virgens, outras fazem cara de zangadas, ferozes gatas, mas todas nos olham dentro dos olhos como se dissessem: "Venham... eu estou sempre pronta, sempre alegre, sempre excitada, eu independo de carícias, de romance!..."

Sugerem uma mistura de menina com vampira, de doçura com loucura e todas ostentam uma falsa tesão devoradora. Elas querem dinheiro, claro, marido, lugar social, respeito, mas posam como imaginam que os homens as querem.
Ostentam um desejo que não têm e posam como se fossem apenas corpos sem vida interior, de modo a não incomodar com chateações os homens que as consomem.

A pessoa delas não tem mais um corpo; o corpo é que tem uma pessoa, frágil, tênue, morando dentro dele.
Mas, que nos prometem essas mulheres virtuais? Um orgasmo infinito? Elas figuram ser odaliscas de um paraíso de mercado, último andar de uma torre que os homens atingiriam depois de suas Ferraris, seus Armanis, ouros e sucesso; elas são o coroamento de um narcisismo yuppie, são as 11 mil virgens de um paraíso para executivos. E o problema continua: como abordar mulheres que parecem paisagens?

Outro dia vi a modelo Daniela Cicarelli na TV. Vocês já viram essa moça? É a coisa mais linda do mundo, tem uma esfuziante simpatia, risonha, democrática, perfeita, a imensa boca rósea, os "olhos de esmeralda nadando em leite" (quem escreveu isso?), cabelos de ouro seco, seios bíblicos, como uma imensa flor de prazeres. Olho-a de minha solidão e me pergunto: "Onde está a Daniela no meio desses tesouros perfeitos? Onde está ela?" Ela deve ficar perplexa diante da própria beleza, aprisionada em seu destino de sedutora, talvez até com um vago ciúme de seu próprio corpo. Daniela é tão linda que tenho vontade de dizer: "Seja feia..."

Queremos percorrer as mulheres virtuais, visitá-las, mas, como conversar com elas? Com quem? Onde estão elas? Tanta oferta sexual me angustia, me dá a certeza de que nosso sexo é programado por outros, por indústrias masturbatórias, nos provocando desejo para me vender satisfação. É pela dificuldade de realizar esse sonho masculino que essas moças existem, realmente. Elas existem, para além do limbo gráfico das revistas. O contato com elas revela meninas inseguras, ou doces, espertas ou bobas mas, se elas pudessem expressar seus reais desejos, não estariam nas revistas sexy, pois não há mercado para mulheres amando maridos, cozinhando felizes, aspirando por namoros ternos.

Nas revistas, são tão perfeitas que parecem dispensar parceiros, estão tão nuas que parecem namoradas de si mesmas. Mas, na verdade, elas querem amar e ser amadas, embora tenham de ralar nos haréns virtuais inventados pelos machos. Elas têm de fingir que não são reais, pois ninguém quer ser real hoje em dia - foi uma decepção quando a Tiazinha se revelou ótima dona de casa na Casa dos Artistas, limpando tudo numa faxina compulsiva.

Infelizmente, é impossível tê-las, porque, na tecnologia da gostosura, elas se artificializam cada vez mais, como carros de luxo se aperfeiçoando a cada ano. A cada mutação erótica, elas ficam mais inatingíveis no mundo real. Por isso, com a crise econômica, o grande sucesso são as meninas belas e saradas, enchendo os sites eróticos da internet ou nas saunas relax for men, essa réplica moderna dos haréns árabes. Essas lindas mulheres são pagas para não existir, pagas para serem um sonho impalpável, pagas para serem uma ilusão. Vi um anúncio de boneca inflável que sintetizava o desejo impossível do homem de mercado: ter mulheres que não existam... O anúncio tinha o slogan em baixo: "She needs no food nor stupid conversation." Essa é a utopia masculina: satisfação plena sem sofrimento ou realidade.

A democracia de massas, mesclada ao subdesenvolvimento cultural, parece "libertar" as mulheres. Ilusão à toa. A "libertação da mulher" numa sociedade ignorante como a nossa deu nisso: superobjetos se pensando livres, mas aprisionadas numa exterioridade corporal que apenas esconde pobres meninas famintas de amor e dinheiro. A liberdade de mercado produziu um estranho e falso "mercado da liberdade". É isso aí. E ao fechar este texto, me assalta a dúvida: estou sendo hipócrita e com inveja do erotismo do século 21? Será que fui apenas barrado do baile?

*Arnaldo Jabor

terça-feira, 11 de dezembro de 2012

Quando a pior rival é "ELE"*


"Enquanto não atravessarmos a dor de nossa própria solidão, continuaremos a nos buscar em outras metades. Para viver a dois, antes, é necessário ser um...”
Fernando Pessoa.

"Eu quero um homem romântico, sensível e de alma feminina. Que precise de mim e do meu amor. Que me deixe cuidar dele. Que cuide de mim, que me entenda."

Cuidado! Pense antes de esfregar a lâmpada.

As palavras tem poder e o universo pode te mandar algo bem próximo de uma mulherzinha, das mais dengosas e mimadas, na pele de um bebe dengoso e mal criado, produto mal acabado e fruto de uma criação deficiente, capaz de tirar de você toda a sua alegria de viver. Toda a sua vontade de acertar, todas as chances.

Esta é uma armadilha clássica onde mulheres desesperadas por um amor caem e depois para se levantar, é muito complicado. A gente tenta ajudar.

O lobo em manto de cordeiro vem dizendo que nunca foi feliz, que jamais encontrou alguém tão boa quanto você e que tem certeza, que agora será para sempre. E você, a super carente moderna, encarnada em mulher forte e poderosa, se agarra a este engodo não enxerga nada à sua frente e acredita piamente, que poderá acabar uma obra que nem é sua.

Nem mãe você é ainda. Não passou pela experiência de criar e encaminhar seus filhos, não viu resultados em um produto seu virgem original e desafiador para sua maternidade e se acha capaz de formatar um filho deformado por outra?

Porque muitas de nós cometemos este erro? Não cuidamos de nós, não sabemos quem somos de verdade e temos a pretensão de pensar que podemos consertar o outro. Um conselhinho em hora oportuna: Não crie seu menino para que você seja a mulher mais importante da vida dele. Que pecado. Ele pode não encontrar meios de soltar dessa teia.

Este outro, muitas vezes é um maluco, covarde, desonesto, mau caráter, fraco, preguiçoso e negligente. Com um DNA de quinta categoria e tudo mais que dá a ele o grande talento de fazer com que você acredite ser ele um coitadinho e só você, somente você e o seu amor e tudo que você tem de bom para dar, poderá fazê-lo feliz.

E este coitadinho em pouco tempo vai se revelar a pior pessoa que você já conheceu na vida. Se sua carência ultrapassar o nível da sua inteligência, minha amiga, tenho uma péssima notícia. Se prepare para viver os dias mais amargos de sua existência.

As migalhas de amor falso e interesseiro que te foram ofertadas no inicio desse jogo, em pouco tempo lhe serão cobradas e de maneira ferrenha.

Se você não foi inteligente no inicio, entregou seu coração e agora acordou enxergando que a espécie que entrou na sua vida não vale nada e se tem dúvida em sair fora dessa situação por uma questão de valores ou de sentimentos - coisa das mulheres mesmo - cuidado.

Ele vai se transformar na pior de suas rivais e vai usar todas as armas que a mais ardilosa de todas as mulheres jamais ousou usar para provar que você é o problema e justificar todas as maldades que vai colocar em pratica com você.

No final das contas, você passará do posto da salvadora para o de pior inimiga dele. E será mesmo, uma vez que conhece todos os seus defeitos, os defeitos que ele não pode e não quer acreditar que tem. Isso da um trabalhão.

Pessoas assim não tem memória para nada que esteja além dos seus interesses imediatos. O egoísmo e o egocentrismo, sempre falam mais alto e se você é do tipo que espera alguma gratidão, desista. Ele nunca se lembrará de nada de bom que você tenha feito por ele.

O passo a passo dos acontecimentos:

Vocês se apaixonam. Que maravilha.

Os probleminhas de cada um começam aparecer. Os dele mais. Coitadinho, tão bom.

Ele já teve alguns relacionamentos sérios com mulheres que não o mereciam. Pobrezinho.

Ele diz que vai cuidar de você para sempre. Meu herói. Me salvou da solidão.

Você conhece a família dele e todos dizem: Obrigada por fazê-lo feliz. Você se orgulha disso.

Ele reclama de tudo, que nada da certo na vida dele e te pede ajuda. Da pra correr nessa hora.

Você acredita que ele precisa mesmo dessa ajuda e cai na cilada. Acabou!

Em pouco tempo ele está te chamando de chata intrometida e cobradora.

Você se esmera em mostrar que não é. Usa toda sua força, luz e oração. Não depende de você.

Ao mesmo tempo você fica insegura e ciumenta. Ele maldosamente te incita. Coisa de mulher.

Sua vida pessoal e profissional fica para traz. Que pouca inteligência.

Já que não consegue fazer dele um ser melhor, um ser inteiro e integro você o ajuda a ter tudo o que ele nunca teve na vida. Dignidade, respeito, dinheiro.

Ele, em sua loucura, vive da ilusão que conseguiu tudo sozinho e te acusa de usar o que é dele.

Ele começa a te maltratar, te desprezar, te tirar o carinho, a atenção, o sexo e o seu dinheiro.

Na mais profunda solidão, você começa procurar onde errou e se culpa por tudo.

Ele percebe sua ingenuidade e tripudia sobre o seu sofrimento. Você é um demônio!!!

Você finalmente descobre quem ele é e desiste. Não tem coragem de sair, tem pena dele ou está refém de algum ponto da relação. Status, filhos, dinheiro, confusão sentimental.

Ele te odeia ao ver que desistiu e diz que vai mudar, não vai te perder. Você cai novamente.

Você tenta ser mais calma, mais bela, mais paciente, mais desesperada, mais gostosa e ele com a frieza própria de um psicopata te reduz a um abajur dentro de casa.

Ele vai te trair incessantemente para buscar em outras, o que você percebeu que não vale mais a pena ser para ele e ainda vai te responsabilizar por isso. Vai usar com as salvadoras de maridos infelizes de plantão, o mesmo truque que usou para te conquistar e vai fazer de tudo para parecer feliz, para que você saiba e sofra. Covardemente.

Ele vai amar cada uma delas e todas serão sempre melhores que você. Ele não existe sozinho.

E quando encontrar outra que pareça não se interessar pelos defeitos dele – coitada (dela) – ele vai te deixar, covardemente. Ou na pior das hipóteses, meu Deus, ele vai viver este paralelismo, por pensar que você merece este castigo. Covardemente.

Você pode:

Revidar – Bobagem

Definhar – Burrice

Dar a volta por cima e se tornar a melhor pessoa que puder ser para você – Inteligência

O homem egoísta, covarde, mimado, dengoso, filhinho de mamãe, mal criado, mal educado e tudo o que já falei no inicio da nossa conversa – aquele de alma feminina – vai competir com você. Não vai se tratar por ter quem o apoie. E nunca vai te admirar, não vai te valorizar. Isso costuma acontecer entre as mulheres, infelizmente.

Se você for uma mulher forte, vai se vingar de você. Como acontece entre algumas mulheres, infelizmente.

O homem inteligente, independente, autossuficiente e com um bom corte do cordão umbilical – aquele que consegue estar sempre em pé - ao contrario, será capaz de admirar a sua força. E em sua humildade e bondade, somar com você. Ele dará a você até mesmo o direito de ser uma simples mulherzinha, às vezes. Ele terá um sorriso inteligente para ela, a sua mulherzinha. E isso às vezes, é tão bom.

Que beleza não ter agradar um doido o tempo todo, não é?

Tem receita?

Não tem, infelizmente. Talvez uns tombos, talvez olhos e ouvidos mais atentos para as nuances de coisas mais graves do tipo, falta de caráter. Corra se possível.

Mas a química do amor além de cegar, produz uma bomba onde só se salvará quem se mantiver o mais longe possível do detonador.

Coragem e boa sorte. E lembre-se, não se culpe, não depende só de você.

*Jussara Hadadd
Terapeuta sexual, filósofa clínica
Juiz de Fora/MG

domingo, 9 de dezembro de 2012

Fragmentos filosóficos delirantes XCXXXII*

As avós, essas gostosas*

Já disse e repito: cem anos atrás se fazia sexo mais e melhor do que hoje. Talvez a culpa desta minha obsessão pela vida sexual antiga seja das minhas avós.

Minha avó materna casou grávida em mil novecentos e bolinha, trabalhou como uma dessas telefonistas sensuais no começo século 20, e falava de sacanagem até os cem anos de idade, e meu avô foi louco por ela até o fim da vida. A paterna foi a primeira (ou uma das primeiríssimas) sufragistas do Brasil, fazendo um recurso ao Poder Judiciário em 1928 pedindo direito ao voto.

Sendo assim, descendo de uma linhagem direta de avós que fundaram a emancipação feminina no Brasil, naquilo que importa: na cama e na urna.

Há 100 anos se fazia sexo mais e melhor do que hoje. Claro, esta é uma afirmação não científica, aviso aos especialistas em estatísticas comparativas da atividade sexual nos últimos 5.000 anos.

Mas como dizia o personagem do subsolo do "Memórias do Subsolo", de Dostoiévski, acreditar na ciência é uma forma de superstição. Não sofro da superstição de crer em demasia nas ciências humanas.

Mas voltando ao que eu queria dizer mesmo, tampouco sofro de outra superstição: não creio na revolução sexual. Melhor dizendo: creio sim na pílula anticoncepcional e no Viagra. O casal "cor de rosa e azul" que fez pelo mundo muito mais do que 200 anos de marxismo.

Aliás, às vezes, em dias depressivos, sou atormentado pela ideia de que o marxismo nunca vai acabar, e aí tomo outras pílulas essenciais, as que combatem este mal imortal da alma, a melancolia.

Sou um tipo basicamente superficial, acho que a psicofarmacologia é o caminho mais curto para resolver os dramas da alma. Mas, minto: nem por isso deixo de crer que uns 30 anos de análise fazem muito bem.

Antes da pílula, as meninas de classe social mais alta, digamos, as colegas da escola, tinham medo de ficar grávidas, por isso praticavam largamente apenas sexo oral e anal. Uma festa. As pobres sempre fizeram de tudo, mesmo porque, como se dizia, uma barriga de um rapaz rico pode garantir uma vida.

A "questão do sexo anal feminino" só nasceu depois da pílula, porque antes era comum como beber água. Agora, os especialistas discutem se sexo anal é saudável e satisfatório para as mulheres. Antes da pílula esta discussão soaria como se é saudável e satisfatório respirar.

O efeito da pílula criando a "ciência do sexo anal feminino", isto é, fazendo do sexo anal feminino uma "questão", é semelhante ao efeito dos cursos de espanhol no Brasil. Absurda comparação? Nem tanto, vejamos.

Antes desses cursos, ninguém achava espanhol uma "língua estrangeira", na universidade todo professor dava texto em espanhol e nenhum aluno gemia. Agora, depois do Yázigi inventar curso de espanhol, o espanhol virou "língua estrangeira". Depois que a pílula libertou o útero da mulher, sexo anal feminino virou uma "questão".

Para mim, a revolução sexual é isso: alguns fatos concretos que as ciências "duras" criaram, e um monte de blá-blá-blá que surgiu a partir daí.

As avós desfilavam o pudor como acessório de sensualidade, com sua cinta liga, sua combinação e lingerie cotidiana. Hoje, mulheres peladas da cabeça aos pés desfilam sua obviedade nua, gritando que são "livres" e não santas ou putas, esquecendo-se que as santas e as putas é que são as mais gostosas.

Mas a ignorância sobre sexo é típica dos especialistas "fundadores" da moderna ciência do sexo.

Bobagens como as ditas pela antropóloga Margaret Mead acerca da adolescência "sexualmente livre e saudável" da enorme e significativa população de Samoa levaram muita gente a crer que basta deixar a moçada transar muito desde os 11 anos que tudo ficará bem.

Outro exemplo é Alfred Kinsey e sua afirmação de que os constrangimentos impostos à vida sexual são a causa de todo sofrimento humano. Para ele, não deveria existir "fronteiras" para a atividade sexual humana.

Gente assim pensa que o único problema de fazer sexo com galinhas seja o fato de não ser consensual. Risadas?

Que nossas avós nos perdoem por sermos tão ridículos.

Luiz Felipe Pondé

sábado, 8 de dezembro de 2012

Profecias Maias, uma reflexão*

Antes de tudo prefiro questionar sobre o que se esconde no comportamento da humanidade quando o assunto é profecia. O que muitos desejam ver destruir? Por que o medo coletivo frente as profecias? Que há um desejo de mudança não temos dúvidas. Que estamos todos insatisfeitos com o caminho que a humanidade está tomando não duvidamos.

Por que cientistas, mídia, jornais, revistas, livros investem tanto neste impasse? Por que mesmo não acreditando muitos questionam e param para ler e ouvir sobre o tema?

Mais que responder se as profecias poderão se realizar, é fundamental uma reflexão profunda sobre como absorvemos estas informações e o que ela provoca em nós. Não podemos sair de uma profecia que é cruel: - Somos mortais! A qualquer hora nossa vida vai terminar. Esta é uma realidade que evitamos pensar.

Imaginar a morte coletiva, o fim deste mundo, nos incomoda. Como não sabermos como o mundo iniciou, pelo menos temos a fantasia que podemos prever seu fim. A ciência corrobora e as profecias alimentam este imaginário trágico. Como a natureza é trágica e também cruel, como desconhecemos o que está além das estrelas, vamos dissolvendo a angústia existencial quando um fenômeno cosmológico se apresenta.

Para os Maias, vivemos na Quarta era de um Ciclo Solar, que iniciou em 13 de agosto de 3113 a.C. finalizando em 21 de dezembro de 2012, segundo o Calendário de Longa Duração e o Tzolkin, dado pelos seus ancestrais Olmecas.Neste período o sol deverá se alinhar com o centro da galáxia.

Em várias cidades na Guatemala e no México, como a cidade de Palenque, foram construídos templos, pirâmides que deixaram muitos indicadores com informações codificadas, datadas de 500 d.c. No túmulo de Pacal Votan, um dos principais reis do povo maia clássico, foi encontrado material sobre as profecias.

O legado que o povo Maia deixou para todos é que a história da humanidade está modelada por uma radiação luminosa, de energia cíclica.

O centro galático, segundo os Omelcas se encontra na Estrela Polar. Em outras tradições, o centro se encontra no Meio do Céu – zênite. Os Maias reconheciam um terceiro centro galático e previram matematicamente que em 21/12/2012 estes três centros estarão sincronizados. Este fenômeno é conhecido como Precessão dos Equinócios, ciclo da Terra que leva 25.920 anos para se completar. O centro da galáxia se alinha em nosso sistema solar a cada 25.920anos.

Alejandro Oxlaj, presidente do Conselho Nacional dos Anciãos maias, um dos mais importantes líderes espirituais dos Maias na contemporaneidade explica que a terra cruzará o centro de um eixo magnético e ficará mergulhada numa nuvem negra durante 60 a 70 horas. Antes é o tempo de grande oportunidade de transformação para os caminhantes da trilha do espírito.

O alinhamento da Precessão dos Equinócios em 21 de dezembro de 2012 coincide com as profecias Maias. Há 2600 anos isto aconteceu e o mundo não acabou. Então o que desejaram transmitir os Maias?

Que no final do ciclo deles de 5125 um novo tempo para humanidade se abriria trazendo uma consciência mais amplificada.
Assim, cabe a nós entrar nesta frequência de reflexão, pensar o que devemos eliminar para vivermos com mais qualidade. Pensando no Nós. Lembrando que o Eu faz parte “do Nós”. Afinal, somos sementes inteligentes do multiverso. “Nada se perde tudo se transforma” nos ensinou Lavoisier.

Bom lembrar que o que realmente importa é vivermos este estado terreno com consciência de que pode não haver um amanhã. Com ética, responsabilidade e principalmente pensando com o coração.

*Rosângela Rossi
Psicoterapeuta, escritora, filósofa clínica
Juiz de Fora/MG

sexta-feira, 7 de dezembro de 2012

Temperamentos do Tempo*

Outubro inicia com mudança de direção dos ventos, usa o calor pra se fazer anunciar.

Algumas pessoas são mais sensoriais que outras e como os ventos mudam a direção com seus afetos, não sem antes superaquecer para depois vaporizar suas resistências.

Nunca ninguém tentou medicar o tempo, será que não perceberam ainda que ele é quadripolar?
Há Sim, o tempo pode! Esta aquém a qualquer tipologia.

Na verdade, o tempo está aquém do nosso controle, inspirou e ainda inspira muitas reflexões filosóficas.

A espécie humana não aceita as infinitas variações de personalidades em sua natureza, algumas delas são consideradas patológicas e por isso sujeitas a todo tipo de intervenção.

Mas o tempo, não da para controlar, dá?

Com a onda de comportamento sustentável, com expansão da Eco Visão, constata-se que a concentração da manipulação humana junto à natureza, já causou seus estragos e dia a dia nos coloca mais e mais refém dos humores extremos da natureza.

Muito já se fez, como aproveitar o fluxo dos rios para fazer barragens, para então gerar energia, e o mesmo se faz com cataventos que ficam ali a disposição dos humores do vento, e quanto mais violento estiver melhor.

Às vezes penso que instintualmente, nossa espécie escolhe fugir de seus instintos, como uma doença autoimune, ataca e tenta barrar sua própria natureza,seja por vias de leis morais, por concepções éticas, seja por não suportar a consciência fenomênica de sua impotência no fluxo das coisas.

Quando Freud segue as concepções de Schopenhauer e mergulha a fundo e traz a guisa de entendimento o que chamará de mecanismos inconscientes, nos dá também, uma noção mais precisa daquilo que não temos acesso pela qual só recebemos notícias, por sonhos atos falhos e chistes, seriam conteúdos bloqueados, que poucos hackers emocionais teriam acesso e a maioria destes, se perde na volta ou fica apenas na margem ou na sala de espera.

A natureza parece ser tão absolutista que nos vetou este portal e o preço por romper este veto, é perda de contanto, é a mudança de vizinhança de tal ponto que neste abismo você só se avizinharia aos vários desdobramentos do seu próprio eu nu, profano a senso comum e inviável para a cultura de massas. Mas sem duvida sempre uma denuncia ,um alerta que existe este portal e diante de algumas catástrofes internas pode ser o único lugar seguro a se refugiar.

*Alba Regina Bonotto
Psicóloga, filósofa clínica
Curitiba/PR

quinta-feira, 6 de dezembro de 2012

Fragmentos filosóficos delirantes XCXXXI*

Quem seremos no futuro?

Acabo de assistir uma palestra do inventor e futurista Ray Kurzweil, que está passando uns dias na minha universidade nos EUA. Kurzweil ficou famoso por suas várias invenções, desde sintetizadores que podem simular sons de piano e outros instrumentos, até um software para cegos que transforma texto em voz. Escreveu vários best-sellers, onde explora como o avanço exponencial da tecnologia transformará profundamente a sociedade, redefinindo não só o futuro mas a própria noção do que significa ser humano.

Segundo Kurzweil, a revolução não só já começou como avança rapidamente em direção a um ponto final, "a Singularidade", quando máquinas e seres humanos formarão uma aliança que poderá nos tornar seres super-humanos. Ele prevê que chegaremos lá em 2045.

Segundo Kurzweil, em 2020 computadores serão poderosos o suficiente para simular o cérebro humano. Baseando seus argumentos numa lei empírica chamada "Lei dos Retornos Acelerados", em 25 anos o progresso da internet, a velocidade de processamento de dados, o acesso a bancos de dados, criarão tecnologias bilhões de vezes mais poderosas do que as que temos hoje. Por exemplo, os computadores da década de 70 eram um milhão de vezes mais caros e mil vezes menos eficientes do que o que temos hoje em nossos celulares, totalizando um aumento de bilhões de vezes em eficiência de computação por real. Ele prevê que em 2029 teremos entendido o funcionamento do cérebro humano, ao menos o suficiente para simularmos seu funcionamento em computadores que, à esta altura, serão bem mais poderosos do que nossos cérebros.

A singularidade, no caso da física dos buracos negros, de onde Kurzweil tomou sua inspiração, é um ponto além do qual não sabemos o que pode ocorrer. É onde as leis que usamos para descrever as propriedades da matéria, do espaço e do tempo deixam de fazer sentido. Isto não significa que é impossível compreender a singularidade, mas apenas que não temos as ferramentas teóricas para fazê-lo.

Já no caso da inteligência artificial, fica bem mais difícil prever o que poderá ocorrer. Toda tecnologia pode ser usada para o bem ou para o mal. Se, como Kurzweil, somos otimistas e vemos que a humanidade, em média, tem se beneficiado com o avanço tecnológico (vivemos mais e matamos melhor; mas matamos menos), a singularidade trará uma nova era na evolução da inteligência, onde o corpo será supérfluo: o que importará será a informação que nos define. Afinal, somos matéria arranjada segundo um plano, e este plano é uma sequência de instruções, ou seja, um programa.

Se podemos armazenar estas instruções, em princípio podemos recriá-las em qualquer máquina, como numa realidade virtual superavançada. Imagine um personagem do videogame Sims que é tão sofisticado que se considera vivo. Seremos ele. A realidade, tal qual a percebemos, pode ser simulada; basta mais informação, mais detalhes, mais velocidade de processamento. Se é este o nosso futuro, é bom começarmos a pensar nas suas várias consequências. E nos certificar que nossa informação terá um backup que não falhará ou poderá ser destruído por forças malignas.

*Marcelo Gleiser

quarta-feira, 5 de dezembro de 2012

SINAIS*

Durante a cerimônia de casamento do filho de um amigo, tive uma visão. Não têm nada a ver com religiosidade. Enxerguei o amor. Mais do que isto, ele falou comigo. Chorei o tempo todo e quando lembro da cena, ainda choro. Contei o fato para alguns amigos que pensaram em me internar, mas como dizem que em todo amor sempre há um pouco de loucura, estou aqui para contar o fato.

O amor não se mostrou nas palavras do padre, no altar, nas alianças. O amor estava nos olhares, nos toques, no aconchego, na cumplicidade daqueles jovens noivos. Ela tremia, olhava para ele, que interrompia o protocolo para segurar sua mão com delicadeza e beijá-la. Ele falava com voz embargada, inundado pelas lágrimas que ela vertia e manchavam a maquiagem. Parecia que a cada momento, um saía de dentro de si para entrar no outro. Quando ela verbalizou seu amor, olhando por dentro da retina dele, não precisaria ter falado, o amor estava ali estampado, ao vivo, a cores e com toda sua força.

O casamento aconteceu à beira mar e a energia daquele lugar, somada ao som das ondas serviram de cenário para minha conversa com o amor. Acreditem ou não, tenho bem claras as palavras que escutei: “Não aceite menos que isto, é assim, desta forma, que funciona o amor. Guarde estes olhares dos noivos em sua memória, qualquer coisa diferente disto, não é amor.”

Eram três irmãs, todas loiras e solteiras. Duas delas lindíssimas e bem sucedidas profissionalmente, a terceira nascera com uma pequena deficiência mental, sem a beleza das outras, nem tampouco capacidade de crescimento intelectual.

Apesar disto, era bem relacionada, levava uma vida compatível com suas aptidões e namorava um rapaz com deficiência mental em nível similar. Depois de certo tempo de namoro, ela foi comunicar aos pais que desejava casar.

A mãe, preocupada com o futuro da filha, mal teve tempo de observar os olhares e emoções que os “deficientes” trocavam e logo argumentou que o menino tinha certas dificuldades e que ela teria condições de conseguir alguém melhor para marido. Chegou a dizer que a filha “merecia mais”. A resposta da menina foi uma lição de vida.

- Mãe, sei que não sou tão bonita quanto minhas irmãs, não sou médica como a Ana, não sou advogada como a Paula, não sou professora universitária como a senhora, não tenho mestrado como o papai, não sei dançar direito, não sei jogar tênis como vocês, nem dirigir automóvel consigo, mas uma coisa eu sei fazer: Eu sei amar! Nisto sou melhor que vocês todos juntos.

A mãe da menina pensava “ela merece mais”, o amor receitou “não aceite menos”. Em ambas situações o amor se escancarava, só que nem todos puderam enxergá-lo. Muitos estão cegos e perdidos entre os “mais, menos, mas, porém, não sei, tenho dúvidas” e não percebem os sinais. Vários se iludem, desiludem, não tem tempo nem de olhar para si. Alguns buscam ajuda em consultórios psiquiátricos, outros em livros especializados, outros mais em sites de relacionamento.

Enquanto isto, o amor está ai, virando a esquina, atravessando a rua, descendo no elevador, correndo no parque, pendurado num poste, pedindo pra ser encontrado. Não é preciso ter estudo, QI elevado, idade suficiente, anos de namoro, terapia ou qualquer outro pré requisito para entrar nesta sintonia.

Basta apenas estar aberto aos sinais do amor em quase tudo que está a nossa volta. O amor é real, o amor existe, quem o procura não está louco. Voltei a flertar com o amor, mas agora o enxergo e sinto diferente, e tudo isto, por incrível que pareça, traz muita paz. Não mereço nada menos que isto.

* Ildo Meyer
Médico, escritor, filósofo clínico
Porto Alegre/RS

terça-feira, 4 de dezembro de 2012

A cidade das palavras esquecidas*


“É possível que desde Sófocles todos nós sejamos selvagens tatuados. Mas na Arte existe alguma outra coisa além da retidão das linhas e do polido das superfícies. A plástica do estilo não é tão ampla como toda a ideia (...) Temos coisas demais para as formas que possuímos”
Flaubert

Num cotidiano de atividade limite existe uma aproximação com a subjetividade do não-dito. O não-sentido concede vestígios para intervenção do artesão das palavras. Ao rasurar o texto das verdades conhecidas se anuncia uma nova conjugação existencial.

Os manuscritos costumam se insinuar na linguagem própria da mescla de eventos. Ponto de partida as sensações ainda sem nome. A expressividade desses fenômenos, um pouco antes de significar-se no traço do autor, procura um meio para transbordar sua estética sem normalizá-la excessivamente.

É possível dizer que a reinvenção do ser terapeuta acontece em seu cotidiano, num território de intimidade compartilhável na interseção com os outros dele mesmo. O lugar da ressignificação acolhe esses rascunhos da intencionalidade.

Um rol de contradições restaria desprezado, não fora o reconhecimento do discurso delirante a dar voz a esses instantes de não-ser. Deslocamentos por onde o clínico percorre as margens de seus convívios para acessar enredos multifacetados.

A matriz para sua ocupação literária, de onde efetua derivações transgressoras, é o devir do papel existencial cuidador. No entanto, é bom lembrar: é crime identificar partilhantes! Aqui se trata de evidenciar termos agendados, episódios que restariam abandonados não fora a distorção essencial em repensar sua prática.

O lugar da quebra discursiva é um desses refúgios de onde a fala estrangeira se anuncia. Um mestre das narrativas desconsideradas vai desvendando a correspondência desses horizontes por vir. Seu trabalho possui um inacabamento por onde as páginas indecifráveis compõem novas escrituras.

A tez inconclusa dos atendimentos renova a lacuna que se tenta descrever. Reconhecer e dialogar com a provisoriedade das crises é uma das essências do curandeiro escritor. Suas promessas se realizam nas brumas dos jogos de linguagem, quase um refúgio onde texto e contexto se confundem. A escrita rasura a folha em branco para sussurrar crônicas do absurdo. Sua vontade distorcida, ao elaborar dialetos inusitados, se faz poesia.

Nessas idas e vindas pela reciprocidade se realiza uma conversação singularíssima. A natureza permanece devir no esboço libertário da expressividade de consciência alterada. O estranhamento ao seu redor elabora um caráter substitutivo, a partir de onde reposiciona as raridades da condição humana exilada. A pronúncia dessas conversações com as margens descreve o papel do cuidador das palavras com a singularidade fora de si.

Assim é possível à multidão de personagens surgir em meio às poéticas clandestinas. Os achados do inesperado descrevem uma fenomenologia do porvir. Sua natureza transgressora aprecia o êxtase criativo dessas originalidades de tipo novo. A arte de vislumbrar e acolher horizontes desconsiderados elabora enredos de alma nova.

O jeito de ser assim descrito cumpre funções de pluralizar o exercício terapêutico. Existe uma recusa do Filósofo Clínico em se conformar ao mundo de onde brotam suas desleituras, mesmo quando suas visões vão desajustando o mundo conhecido. Ao espírito de autoria cumpre ser retórica de exceção. Sua percepção alterada revela uma estrutura refugiada na cidade das palavras esquecidas.

*Hélio Strassburger

segunda-feira, 3 de dezembro de 2012

Fragmentos filosóficos delirantes XCXXX*


A adúltera de Deus

O Deus de Israel sempre amou as adúlteras. Jesus também dispensou cuidados especiais para com elas, e para com as prostitutas, os ladrões e os desgraçados de todos os tipos. Deus parece não resistir à sinceridade do pecador, assim como a filosofia parece amar a verdade do melancólico.

Na Bíblia hebraica, Raquel, a segunda esposa de Jacó (depois chamado de Israel), por muitos anos uma mulher estéril e idólatra por raiva de Deus, enterrada fora do "cemitério da família" por ter sido uma vergonha para esta mesma família, será escolhida por Deus como consoladora do povo eleito no sofrimento.

Raquel é a "mater misericordiae" do judaísmo. Quando Israel sofre, é o nome dela que deve ser lembrado. Deus ama as infelizes e as elege como suas conselheiras. Qual o segredo da infelicidade?

Não se trata de brincadeiras teológicas "progressistas" que erram achando que ninguém é pecador. A pastoral de hoje, vide as igrejas que crescem por toda parte (o judaísmo não escapa tampouco desse vício), cada vez mais se assemelha a grandes workshops de autoajuda ou treinamentos motivacionais. Nada menos cristão do que um Jesus consultor de sucesso. Ninguém quer ser pecador, só santo.

Mas aí reside o erro para com a teologia cristã mais sofisticada: nela, o grande pecador é o mais próximo do santo. A beleza da antropologia do cristianismo está neste sofisticado e denso vínculo dramatúrgico: quando o corpo se põe de joelhos, pelo peso do pecado, o espírito se ergue. Não se trata de dolorismo, mas, sim, da mais fina psicologia moral.

A santidade reside mais na alma do pecador do que na autoestima do "santinho".

Aliás, devo dizer que minha crítica à religião é diametralmente oposta àquela de tradição epicurista ou marxista. Esta, grosso modo, critica a religião porque ela faz do homem um alienado covarde, e que se vende a Deus para ser um alienado feliz. Eu me alinho mais ao pensamento do teólogo Karl Barth (século 20), para quem a religião torna tudo um mistério maior e traz à tona um sofrimento maior, mas que, por isso mesmo, amplia a consciência de nossa condição humana. Sofro, por isso penso, e logo, existo.

Recuso as religiões institucionais não porque elas fazem do homem um medroso, alienando-o de sua felicidade e autonomia (como creem Epicuro e Marx), mas sim porque as religiões fazem do homem um feliz, alienando-o de sua própria agonia. Quando a religião vira marketing, é melhor caminhar só pelo vale das sombras.

Revi recentemente o maravilhoso "Fim de Caso" (filme de 1999, dirigido por Neil Jordan), com a deusa Julianne Moore e Ralph Fiennes. O filme é uma adaptação do romance de Graham Greene e narra a "sua conversão". Trata-se de um fino tratado de teologia, melhor do que grande parte dos livros que afirmam sê-lo.

No filme, a compreensão da íntima relação entre pecado e graça é avassaladora. Nada mais forte do que a graça para iluminar a agonia do pecador para si mesmo: o santo não é um santinho.

A personagem de Julianne Moore é uma adúltera, que ao longo do filme apresentará traços claros de santidade, chegando a realizar um milagre. A adúltera, infiel ao seu marido, destruidora da fé no casamento e no amor que organiza a vida e a sociedade, o tipo mais vil de mulher, é aquela que mais fundo toca Deus em sua paixão pela agonia humana. No cristianismo, Deus leva a agonia humana tão a sério que resolveu Ele mesmo passar por ela, na figura da Paixão de Cristo.

Um musical a estrear, baseado na obra de Victor Hugo (século 19), "Os Miseráveis", com Hugh Jackman no papel de Jean Valjean, fugitivo da cadeia, e Russell Crowe no papel de seu perseguidor implacável Jabert, traz uma das maiores cenas da teologia cristã já representada na arte. Jean Valjean, após ter roubado os castiçais da casa de um padre, e ser pego pela polícia, é perdoado pelo padre que confirma para a polícia a mentira contada por Valjean: "Sim, eu dei os castiçais para ele".

Este ato transforma Valjean. O encontro entre a misericórdia e o pecador é uma das maiores afirmações do sentido da vida.

*Luiz Felipe Pondé