terça-feira, 31 de janeiro de 2012

O que faz da Filosofia Clínica, filosofia?

Miguel Angelo Caruzo
Filósofo Clínico
Juiz de Fora/MG


Em diversos lugares é possível ler a seguinte afirmação: “A Filosofia Clínica é a filosofia acadêmica aplicada à clínica” ou “Filosofia Clínica é filosofia porque é baseada em 2500 anos de filosofia” ou “A Filosofia Clínica tem seu fundamento no pensamento dos filósofos, só que adaptados à clínica”, só para citar alguns.

Entretanto, essas afirmações dão ao senso comum ou a alguns filósofos, que ficam de “plantão” em busca de algo para criticar sem fundamentos, uma compreensão mal concebida. A impressão inicial parece ser que se toma a filosofia ou o pensamento dos filósofos e se aplica a clínica, e a única modificação parece ser a finalidade. Pois, os filósofos pretendiam um fim para seu pensamento e a Filosofia Clínica busca trabalhar questões existenciais de seus partilhantes.

A questão a ser tratada nesse texto não é fundamentalmente voltada para os filósofos clínicos, mas para os que têm uma compreensão errada que uma apresentação limitada pode oferecer em relação ao entendimento do que seja a Filosofia Clínica.

O que faz de Heidegger um filósofo e de seu pensamento uma filosofia? Seria a fenomenologia husserliana? As questões ontológicas suscitadas por Aristóteles? Seria a influência de Rickert? A resposta é: não! Não foi de onde nasceram certas questões que Heidegger desenvolveu em seu trabalho, que fizeram de seu pensamento uma filosofia. O pensamento de Heidegger, assim como dos demais filósofos, é filosofia porque tratou de questões, ou as suscitou e buscou meios de resolução dessas questões mediante métodos.

Assim como Husserl pensou uma fenomenologia para elevar a filosofia a uma ciência rigorosa e Kant tratou da razão pura em vista de reconhecer os limites da razão, Heidegger pensou uma fenomenologia e uma hermenêutica, em uma gama complexa de pensamento, em vista de tratar a questão do ser.

Toda fonte que Heidegger consultou, serviu de apoio, já que na filosofia um diálogo com a tradição ajuda a reconhecer respostas ou perguntas dos que precederam temporalmente, e talvez já tenha sido resolvida. E para compreender o pensamento heideggeriano, deve-se estudar o próprio Heidegger primeiro. Daí se houver interesse em suas influências ou no modo como foi sendo desenvolvidas certas concepções, torna-se relevante o estudo dos filósofos dos quais ele partiu para pensar seu próprio caminho.

Voltando a questão da Filosofia Clínica, é relevante pensar que o que a torna uma filosofia não são as fontes que serviram de inspiração para sua formulação. Hoje se sabe que Freud teve influências de Nietzsche e Schopenhauer e a psicologia surgiu da própria análise filosófica e depois passou a buscar métodos mais científicos no sentido mais contemporâneo do termo. E nem por isso a psicanálise e a psicologia são filosofias. Portanto, o que faz da Filosofia Clínica uma filosofia, é seu método.

Rompendo com pressupostos de algumas terapias que se pretendem científicas, a clínica filosófica baseia-se em um método no qual não há pressupostos nem arquétipos para o terapeuta “enquadrar” seu partilhante. O que o filósofo clínico tem é um caminho a partir do qual ele pode aproximar-se ao máximo da forma como funciona a Estrutura de Pensamento do partilhante a fim de que juntos, filósofo e partilhante encontrem um alívio para conflitos existenciais apresentados.

Lúcio Packter pode ser considerado um filósofo por sua elaboração de um método cuja finalidade é tratar questões existenciais. A Filosofia Clínica pode ser considerada uma filosofia porque ela em si mesma é um constructo filosófico cujo fim é encontrar conflitos na Estrutura de Pensamento do partilhante e com submodos, trabalhar esses conflitos.

A fundamentação, ou as fontes consultadas por Packter, tem o mesmo valor que Husserl e Aristóteles têm para o pensamento de Heidegger, ou seja, servem de reconhecimento das influências de seu pensamento. Mas, da mesma forma que a filosofia de Heidegger é diferente da de Husserl, a de Packter é diferente da de Wittgenstein, embora haja em ambas claras influencias de concepções.

Diante disso, quando a Filosofia Clínica for questionada em relação ao que faz dela uma filosofia, não é tão claro falar que é pela sua base de fundamentação. É mais razoável – tem uma lógica racional – dizer que ela é um método filosófico quanto qualquer outro e que tem uma finalidade própria quanto qualquer outra possui.

segunda-feira, 30 de janeiro de 2012

Fragmentos filosóficos delirantes LXXXIII*


"Se conseguires conquistar a confiança destes palácios, estes te contarão de bom grado e bondosamente a história de sua existência na linguagem magnífica, rítmica de seus pátios internos"

"Saibam, pois, que a arte é: um caminho para a liberdade. Todos nós nascemos acorrentados. Um ou outro esquece os seus grilhões, revestindo-os de prata ou de ouro. Mas nós queremos quebrá-los. Não com violência torpe e selvagem, queremos nos desvencilhar crescendo, até que eles não nos caibam mais"

"A criação do artista é uma insígnia: a partir de seu íntimo ele exterioriza todas as coisas pequenas e efêmeras: seu sofrimento solitário, seus desejos vagos, seus sonhos angustiados e aquelas alegrias que perdem o viço. Aí sua alma se engrandece e torna-se festiva, e ele criou o lar digno para si mesmo"

"O criador é o homem póstero, aquele para além do qual se encontra o futuro (...) O artista é a eternidade que se projeta sobre o presente"

"Cada um de nós recria o mundo ao nascer, porque cada um de nós é o mundo"

"Fato é que cada um cresce em direção a si mesmo"

"Não podendo a arte ser nacional em seus momentos de apogeu, segue-se que todo artista, na verdade, nasce em terra estrangeira. Sua pátria não está em lugar algum, situando-se apenas em seu próprio íntimo. E as obras nas quais traduz a linguagem desta terra são as suas mais genuínas"

"Comete-se uma injustiça em relação a determinada obra de arte, a partir do momento em que ela é julgada em comparação com outras"

"O homem que não necessita de títulos, porque ele, com o seu trabalho, é portador de todas as honrarias(...)"

"Ele permanece pobre, porque é incapaz de revelar a um confidente a existência dos seus tesouros, e segue solitário por não conseguir edificar uma ponte que conduza do seu íntimo para o meio exterior que o circunda"

*Rainer Maria Rilke

domingo, 29 de janeiro de 2012

Uma terapia aprendiz

Hélio Strassburger
Filósofo Clínico

Em um lugar itinerante a realidade_ficção, de vocabulário desconhecido, transita numa interseção a transgredir limites. Suas andanças apreciam a retórica das incompletudes. Nessa dialética incomum os percursos de saber eremita revelam cenários de novidade.

Uma instável harmonia acontece na aproximação com a estética dos anúncios. Considerações ilegíveis não fora a percepção fugidia de um talvez. Ao discurso dessas irregularidades criativas, as múltiplas versões apreciam o exílio na palavra sem nome. Sugerem colagens ao roteirista de ficção, oferecendo internações na liberdade das ruas.

Essa verdade de caráter difuso também pode se encontrar na razão desmerecida. Seu viés de caricatura persegue horizontes por vir. Na perspectiva caótica das crises, a busca pelas origens, tradução e relação com esse devir meteórico, reivindica uma abordagem de terapia aprendiz, pois a verdade desconsiderada fica visível por brevíssimos instantes.

Não seria pouca coisa se alimentassem o cotidiano com seu devaneio, peripécias de andar sobre as águas, ultrapassar muros e levitar por sobre as cidades. Achados na alquimia da raridade precursora, onde o agora inesperado esparrama vestígios de uma vida sem censura.

Seu caráter de barquinho solitário em águas desconhecidas é visionário, inventa territórios, linguagens, divulga absurdidades ao seu redor. Ao mencionar coisas sem sentido, se debate em tratativas com línguas diferenciadas.

Uma aproximação com a lógica desses contextos aprecia uma terra de ninguém onde alguém se aventura transitar. A vastidão dessa região inexplorada, virgem e sem fronteiras, reverencia a magia dos desassossegos, a desalojar certezas, profetizar novos signos.Sua aptidão criativa desconstrói cercas, reinventa aquilo que se tinha como fim. Em meio à tempestade, seu viés de retórica mal formulada, divulga sensações de terra à vista.

Na pessoa fora de si, o deslumbramento precursor antevê reflexos estranhos diante do espelho. A esse apreciador das atitudes ensimesmadas, onde a natureza exercita seus códigos sagrados, a mensagem desconhecida aparece suspeita. Seu dialeto reinventa discursos e se faz ameaça ao mundo conhecido.

A natureza aprecia brincar na desconstrução das convicções mais sagradas. Sua feição de aspecto improvável refere uma arquitetura_esconderijo a proteger raridades. Seus rituais preferem o êxtase fugaz da loucura das origens.

Na pessoa assim estruturada é comum a sensação de ser protagonista em uma história que não lhe pertence. Texturas de um íntimo labirinto onde acontecem enfrentamentos entre o antigo e o novo eu. Sendo algo nunca visto, esse fenômeno permitiria múltiplos pretextos, não fora o sentido original de seu autor.

Nuance de epistemologia marginal a se desdobrar num íntimo labirinto. Lugar onde o sujeito rascunha ângulos inéditos, escrituras sobre zonas inesperadas, afastadas da percepção usual. O convívio com essas fontes da singularidade reinventa o ser do terapeuta.

Os manuscritos exilados na estrutura do olhar podem servir para decifrar a transição: pessoa_não pessoa_pessoa. Os jogos de linguagem assim dispostos costumam ser a medicação refugiada na própria crise, vivência contraditória e ainda sem noção de si mesma.

As tormentas apreciam encontrar esse estrangeiro na própria casa. Uma residência provisória a entrever fendas, por onde a transgressão se insinua. A reescrita desses eventos desconhecidos oferece ensaios horizontais, verticais, transversais. Associa realidades extraordinárias numa estética excessiva, a espera do filósofo clínico aprendiz.

sábado, 28 de janeiro de 2012

Poderes *

Luana Tavares
Filosofa Clínica
Niterói/RJ


Há muitas formas de poderes: de ser, viver, transformar, canalizar, desistir, decidir, desafiar, mudar. Tão múltiplos e heterogêneos que se confundem na singular universalidade de cada um. Alguns o exercem magistralmente. Outros, apenas observam, e há aqueles que se resignam e esperam o despertar do que ainda não lhes foi revelado.

Poderes fortes, que invadem, dominam e destroçam subjetividades como se fossem insetos. Os mesmos insetos dotados de um poder inimaginavelmente grande, que poderia reverter em força e intensidade e dizimar seus aparentes opressores. Não se deve subestimar o poder daqueles que se unem. Um dia eles cairão em si.

Poderes sutis, que se infiltram como águas, escorrendo por entre brechas, penetrando onde quase nada nem ninguém mais alcança, onde o improvável se faz sentir, onde nem mesmo a vida se reconhece.

Poderes escandalosamente belos, que se emanam como raios através de prismas, pulverizando cor e beleza. São belos, mas dependentes da percepção ampliada de olhares atentos e dispostos a perceber sutilezas e forças ocultas.

Poderes que se espalham como pragas e alcançam extensões desconhecidas e não permitidas, semeando intenções inteiramente diversas daquelas a que se propõem. Estes nem mesmo sabem mais porque estão ali, seja porque se autoexercem ou porque se proclamam e perdem força com a mesma voracidade de suas investidas. O caminho inevitável é que se adaptem e se transformem, gerando, entretanto, novos poderes, novas perspectivas.

Poderes que não podem ser vistos, pois não são facilmente perceptíveis, não se entregam facilmente. Necessitam de tempo e maturidade de alma. Às vezes, as crianças os veem com tranquilidade, embora não compreendam a absurda cegueira que acompanha nossa cultuada normalidade adulta. Talvez vejam com outros olhos, talvez enxerguem poderes na claridade da inocência.

Poderes podem ser irreverentes, incômodos, inebriantes, inatingíveis, podem ser necessários ou dispensáveis. Mas todos, eventualmente, serão fundamentais, sob pena de sermos subjugados a poderes ainda mais desconhecidos. Vivenciá-los ou não faz parte da nossa condição humana, qualquer que seja o grau.

Poder de vida, de criação, de existência ou não... poder até mesmo de não querer mais, de alterar direções e sentidos e se arriscar em outras frequências, em outras paragens. É o poder de poder.

O fato é que não nos consolidamos nas circunstâncias da vida sem dilemas de exercícios de poderes intra ou extrínsecos, que funcionam como velhos e sutis confrontos, na peculiaridade ou universalidade que nos desafia a reavaliar e assentar novos paradigmas pessoais. Desafiamos o poder de ser continuamente, embora ainda pareçamos perdidos na bruma que nos envolve e na forma como nos efetivamos.

*Poderes, ou o que preferir: valores, referência, emoções, sentidos, enfim, tudo o que for válido substituir.

sexta-feira, 27 de janeiro de 2012

O jardim secreto

Pe. Flávio Sobreiro
Filósofo Clínico, Poeta
Cambuí/MG


Conta-se que num reino distante havia um rei que todas as manhãs caminhava pelos jardins do castelo onde morava. Nenhum súdito ousava interromper a caminhada matinal do rei. Certa manhã, enquanto caminhava pelo jardim, uma criança, filho de um camponês passou despercebido pelos guardas e ficou olhando ao longe o rei que caminhava tranquilamente. Curioso, o menino aproximou-se do rei e perguntou: “O que o senhor pensa ao caminhar por entre este jardim?”

Assustado com a criança que havia invadido o seu jardim, o rei chamou os guardas e mandou retirar aquele pequeno intruso imediatamente de sua presença. Ao longe, o rei pode ouvir o menino que dizia: “Não precisa me responder! Eu já sei o que o senhor pensa! O senhor não é capaz de dividir a beleza que seus olhos contemplam e por isso caminha sozinho pela vida”.

Muitos caminham pela vida sozinhos. Fazem de seus dias uma solidão sem fim. Acostumaram-se com a solidão. Muitos colocaram limites à presença de outras pessoas em sua vida. São arquétipos do rei que caminhava sozinho pelos jardins da vida.

O rei e a criança da história nos ensinam lições importantes para nossa jornada existencial! Muitos se tornam reis de seus próprios desejos e vontades. Criam belos jardins existenciais, mas são incapazes de dividir a beleza do que aprenderam na vida com outras pessoas. Contemplam seus aprendizados e ficam fechados em seus próprios jardins.

A criança que invade o jardim do rei é o próprio Deus que invade nossa alma. Ele adentra em nossos castelos que a princípio parecem impenetráveis. Passa despercebido pelos guardas que vigiam nossos jardins secretos e nos revela a verdade que escondemos de nós mesmos. Deus invade nossa solidão egoísta e convidá-nos a dividirmos as flores que perfumam nossas experiências.

Por vezes criamos castelos cujo único morador somos nós mesmos e impedimos que as pessoas se aproximem de nós, com medo de que descubram nossas imperfeições. Preferimos andar solitários pela vida contemplando as flores de uma existência sem sentido. Perdemos-nos em nossos próprios jardins da alma e impedimos que outros contemplem os dons que trazemos guardados em nosso coração.

Deus chega de mansinho, e nos mostra a verdade. Nosso segredo é revelado no olhar simples de uma criança inocente que fala sem medo às verdades que não queremos ouvir.

Na vida podemos ser reis de nossos próprios castelos de solidão e medo. Mas sempre haverá uma criança que invadirá nossos jardins e nos dirá que a vida só tem sentido quando todos puderem olhar em nossos olhos e contemplarem as belezas que trazemos plantadas em nossos canteiros do coração. Não importa se as flores são bonitas ou feias, o que realmente importa e podermos contar com o apoio e carinho das pessoas que desejam caminhar conosco pelos nossos jardins da alma.

Nos olhos que contemplam as flores da vida, Deus é a criança que nos mostra as flores do amor partilhado. O verdadeiro rei é aquele que consegue dividir suas fraquezas e alegrias com os que estão pelo caminho da vida.

quarta-feira, 25 de janeiro de 2012

Sobre como andar de elevador

Will Goya
Filósofo Clínico
Goiânia/GO


Silêncio de elevador, ao lado de estranhos.
Por dentro não sei o quê,
Todos os pensamentos substituídos pela contagem dos andares,
Alívio que me impede ter que olhar outros olhos e dizer alguma coisa.

Dizer o quê?
Um relógio de números, sem ponteiros, sem palavras,
E o tempo sem envelhecer.
Tudo paralisado, menos o elevador.

Nos elevadores a vida tem segundos.
Mas o que são vinte segundos de vida, a pensar?
Sei olhar as horas, mas não sei o que é o tempo.

Os que têm relógio controlam o tempo?
Se vivesse minha existência num elevador...
Eu teria a vida de um filósofo.

Tudo é mais fácil quando há espelhos sem testemunhas.
Vaidades de camarim.
Vontade de não mexer os braços...
E se por acaso eu me encostasse em alguém?
O que eu teria que pensar? O que sentir numa hora dessas?
– Meu Deus!!

São muito engraçados o congelamento e o constrangimento existenciais
das pessoas durante uma “viagem” de elevador. É incrível como as pessoas
geralmente têm medo de tocar e de serem tocadas com gentileza.

Perdida a infância, é grande a dificuldade de se ser naturalmente humano.
Estrangeiro para mim mesmo,
Meu corpo se acumula em volumes de vazio e silêncio.

Entrar no elevador é como meditar, mas sem paz.
Pensar em como não pensar em nada.
[Emoções de contenção]

E penso: seria um ótimo ouvinte ou apenas falo pouco? Enfim...
O elevador para e a porta se abre ao mundo exterior.
Décimo andar. Volto a existir.

Quem pode deter um momento para além dele?
Então, todas as dúvidas desaparecem.
Dou um passo como quem sempre existiu...
Recupero os pensamentos, o corpo, e com eles uma certeza:
Triste é um homem viver sem TV, celular ou internet.
- Ai dos filósofos!

terça-feira, 24 de janeiro de 2012

A depressão de Gilma

Lúcio Packter
Pensador da Filosofia Clínica


Uma sugestão às farmácias: vender depressivos, angustiantes, hesitantes.

Prestei atendimentos, certa ocasião, a uma mulher que durante anos padeceu de um marido distante e de um trabalho no qual se sentia humilhada. Procurou terapia, exercícios respiratórios e passou a praticar uma curiosa meditação na qual inspirava e expirava proferindo obscenidades. Isso a auxiliou a manter a infelicidade em dia. Foi quando uma “depressão”, conforme ela chamava o que houve, lhe deu a oportunidade de romper com o marido e com o trabalho simultaneamente.

A depressão foi o melhor evento em sua vida por muitos anos. No consultório, Gilma dizia que indicava expressamente a depressão como um modo maravilhoso de lidar com muitas questões.

Em princípio, a depressão poderia auxiliar a colocar fim a relacionamentos desastrosos, poderia precipitar desempregos que mais tarde seriam insuportáveis, poderia ser um freio a uma sociedade que às vezes trata pessoas como uma frota de fusquinhas saída dos fornos das fábricas.

Gilma perguntou-me se eu poderia lhe prescrever um depressivo de vez em quando.

Bem, na medida em que são possíveis as coisas, talvez um depressivo seja tão bem recomendado quanto um antidepressivo, assim como ambos muitas vezes nem precisariam existir.

Quantos se tornariam filósofos ao ingerir um angustiante, medicamento por inserção endovenosa. A própria seringa já movimenta alguma angústia. Um angustiante, quem sabe, levaria a psicologia a se tornar filosofia. A posologia da medicação teria conseqüências tais como tornar alguém levemente existencialista.

Filósofos que se medicassem com hesitantes poderiam moderar seus apetites marxistas até chegarem a uma social democracia que alguns países de direita professam.

Por motivos como estes é que decididamente médicos e farmacêuticos não devem prescrever drogas medicamentosas sem a anuência de um filósofo clínico.

O medicamento pode mascarar uma questão existencial legitima, pode perpetuar estados de escravatura existencial. Imaginemos como exemplo um sujeito que necessita de sua ansiedade para poder desenhar e criar anúncios em publicidade. Ora, ao ingerir um ansiolítico com propriedade de desmantelar o estertor atenuando a vasca, o homem encontrará obstáculos em sua atividade. Talvez nem mais consiga executá-la.

Surpreende que a indústria farmacêutica tenha negligenciado fármacos como alienantes, convulsivos, frustrantes. Por que não existe um remédio contra a potência? O homem pediria ao farmacêutico um impotente, 20mg, em gotas. Algumas pessoas têm a impressão de controle sobre o medicamento quando o tomam em gotas, ao invés de comprimidos. Aparentemente é mais exato gotejar do que partir aqueles tijolinhos brancos que acabam se esfarelando sob a barriga da colher.

Muitas mulheres dariam aos noivos gotas de impotentes até o casamento, quando então o caminho usual das coisas cuidaria do resto.

De certo modo, não necessitamos de muitos argumentos para mostrar que a tristeza, a amargura, o medo, o tédio são essencialmente indicados em diversas experiências da vida. É um fundamento clássico que o tango argentino requer alguma tristeza melancólica como embasamento para o romantismo. E provavelmente o nosso samba não existiria sem alguma preguiça diurna.

Se algumas pessoas ingerissem uma cápsula pela manhã de um persecutório de boa qualidade, e por se tratar disso o remédio somente seria oferecido em gotas, elas teriam outra postura diante do Senado, da CPMF, desta história fictícia de que estamos entre as 10 economias do mundo.

- “Imagine então como estão as outras...” – diria quem tomou um persecutório, 30 mg, já demonstrando os primeiros efeitos.

Quantas mulheres não temperariam as saladas dos maridos aspergindo enciumantes? Multidões de maridos deixariam de consumir qualquer salada borrifada.

As farmácias realmente surpreendem e perdem mercados tão amplos como os que possuem agora. Estão explorando apenas 50% desta depuração de minérios.

Em Filosofia Clínica há muitos elementos que indicam se os procedimentos no consultórios serão norteados para extirparmos um sentimento como o medo crônico, para mantermos, para o associarmos a outros fatores, para o ignorarmos, para o compreendermos ou outra tomada de posição.

Os medicamentos podem auxiliar nestes movimentos.

segunda-feira, 23 de janeiro de 2012

Somos outros a cada doze anos

Beto Colombo
Empresário, Filósofo Clínico, Coordenador da Filosofia Clínica na UNESC
Criciuma/SC


Como é sábia a natureza. Na verdade, é perfeita, é natural! E como, no geral, somos irracionais em relação a mudanças? Poderíamos aprender também isso com ela.

Mesmo tendo consciência que a mudança é necessária, a maioria das pessoas resiste e luta para manter seu status quo, sua rotina, e quando não consegue, fica irritada, aborrecida e muitas vezes adoece.

Algumas pessoas sabem que a novidade reduz o tédio, mas no íntimo preferem o passado. Estão acostumadas, custam a deixar a zona de conforto e vivem num eterno tédio.

Mudar, teórica ou superficialmente, muitos falam. Mas a mudança que transforma hábitos e rotinas é profundamente perturbadora. Afinal de contas, uma coisa é mudar, outra é transformar; aquela provavelmente fica somente na mente, e esta passa por toda a estrutura do ser, inclusive pelo coração e transforma-se em ação.

O ser humano transforma-se da ponta da unha a ponta do cabelo a cada 12 anos. Às vezes sabemos ser necessária a mudança, porém relutamos tanto em nos transformarmos em quem realmente precisamos ser e preferimos seguir num script, numa expectativa talvez que outros têm da gente?

Diz a sabedoria popular que o gato, criatura de hábitos, adora o conforto do que lhe é familiar. Altere as suas rotinas, perturbe o seu espaço e ele ficará intratável e psicótico. Acalme-o respeitando seu ritual. Se a mudança for necessária, engane-o mantendo vivo o cheiro do passado, coloque o objeto com que ele esteja familiarizado em locais estratégicos.

Tenho aprendido que transformar-se dá um trabalho danado e resistimos a isso porque somos preguiçosos. Falta-nos vontade, só inteligência não basta. Agora, se você concluiu que precisa mudar, mas não está conseguindo, lembre-se que ninguém chega a um resultado diferente fazendo as coisas do mesmo jeito.

É assim como o mundo me parece hoje. E você, o que pensa sobre transformação?

sábado, 21 de janeiro de 2012

Podemos mudar de ideia

Rosângela Rossi
Psicoterapeuta, Filosofa Clínica, Escritora
Juiz de Fora/MG


Quem pensa muda de idéia.
Quem escuta aprende e se recicla.

Não somos donos da verdade.
Vida é mutação.
A cada encontro uma nova possibilidade.
Vastos horizontes.

Vir-a-ser.
Liberdade de escolher novos caminhos.
Desapegos e experimentos.

Penso no que você me disse.
Duvido. Reflito. Pondero...
Êta vida !

Ficar preso as máscaras me escraviza.
Fechar num só pensamento limita.
Há pluralidade.
Há multiplicidade.

Há um mundo lá fora acontecendo.
Há um mundo lá fora ensinando.
Basta abrir os olhos e coração,
Para transformar sempre.

sexta-feira, 20 de janeiro de 2012

Fragmentos filosóficos delirantes LXXXII*


"Acho que alguns versos (...) não ocorrem senão em momentos muito raros, quando a musa é generosa"

"Quando penso em amigos meus tão caros como Dom Quixote, o sr. Pickwick, o sr. Sherlock Holmes, o dr. Watson (...) (não estou certo se tenho muito mais amigos), sinto que as pessoas que escreveram suas histórias estavam 'contando história', mas que as aventuras elaboradas eram espelhos, adjetivos ou atributos daquelas pessoas"

"Há versos é claro, que são belos e sem sentido. Porém ainda assim têm um sentido - não para a razão, mas para a imaginação"

"O crítico austríaco Hanslick escreveu que a música é o idioma que podemos usar, que podemos entender, mas que somos incapazes de traduzir"

"Os homens buscaram parentesco com os derrotados troianos, e não com os vitoriosos gregos. Isso talvez porque haja uma dignidade na derrota que dificilmente faz parte da vitória"

"O filósofo chinês Chuan Tzu sonhou que era uma borboleta e, ao acordar, não sabia se era um homem que sonhara ser uma borboleta ou uma borboleta que agora sonhava ser um homem"

"(...) gostaria de dizer que cometemos um erro bastante comum em pensar que ignoramos algo por sermos incapazes de defini-lo"

"Creio que Emerson escreveu em algum lugar que uma biblioteca é um tipo de caverna mágica cheia de mortos. E aqueles mortos podem ser ressuscitados, podem ser trazidos de volta à vida quando se abrem as suas páginas"

"O bispo Berkeley escreveu que o gosto da maçã não estava nem na própria maçã - a maçã não pode ter gosto por si mesma - nem na boca de quem come. É preciso ter um contato entre elas"

"Passamos à poesia; passamos à vida. E a vida, tenho certeza, é feita de poesia. A poesia não é alheia - a poesia, como veremos, está logo ali, à espreita. Pode saltar sobre nós a qualquer instante"

*Jorges Luis Borges
1899 - 1986

quinta-feira, 19 de janeiro de 2012

Fragmentos filosóficos delirantes LXXXI*


"A leitura da obra desenvolve-se, pois, numa oscilação contínua, pela qual se vai da obra a descoberta dos códigos de origem que ela sugere"

"(...) nos grandes autores as soluções retóricas, mesmo correspondendo aos critérios estabelecidos por uma retórica como técnica gerativa, afiguram-se novas e inusitadas: a tal ponto que é preciso um esforço para identificá-las no seio de um discurso de aspecto livre e inovador"

"A compreensão da mensagem estética também se baseia numa dialética entre aceitação e repúdio dos códigos e léxicos do remetente - de um lado - e introdução e repulsa e códigos e léxicos pessoais, de outro"

"A obscuridade das criações artísticas que se apresentam pela primeira vez a um público ainda não adestrado"

"De repente um autor, para descrever-nos algo que talvez já vimos e conhecemos de longa data, emprega as palavras de modo diferente, e nossa primeira reação se traduz numa sensação de expatriamento"

"A semiologia e uma estética de fundamentação semiológica podem sempre dizer-nos o que uma obra poderá tornar-se, nunca o que se tornou. Quando muito no-lo poderá dizer a crítica, à guisa de relato de uma experiência de leitura"

"A experiência de decodificação torna-se aberta, processual, e nossa primeira reação é acreditar que tudo quanto fazemos convergir para a mensagem está de fato nela contido"

"A mensagem pode pôr em jogo vários níveis de realidade"

*Umberto Eco

quarta-feira, 18 de janeiro de 2012

DNA da santidade

Pe. Flávio Sobreiro
Filósofo Clínico, Poeta
Cambuí/MG


São Francisco de Assis, Santo Afonso Maria de Ligório, Santa Teresa de Jesus, São João da Cruz, Santa Teresinha do Menino Jesus, Santa Rita de Cássia... Santos canonizados. Reconhecidos oficialmente através da Igreja pelas virtudes que iluminaram seus caminhos rumo ao coração de Deus.

O caminho da santidade é construído no cotidiano da nossa vida. Os santos e santas nos ensinam está verdade: santo é quem faz da sua vida um altar do amor. Eles só atingiram a santidade porque viveram a vida com todas as consequências da caminhada: erros e acertos; alegrias e tristezas; luzes e trevas.

O que é ser santo? Ser santo não é ser perfeito! Se fossemos perfeitos não era preciso buscar a santidade, pois já seríamos santos de fato. Os grandes santos nos ensinam que viver reconciliados com nossa humanidade é fundamental para quem se propõe a buscar a santidade. São Francisco de Assis reconciliou seu lado humano com o mistério da morte a tal ponto de chamá-la de irmã morte. Santa Terezinha do Menino Jesus trilhou seu caminho de santidade na obediência.

Hoje vivemos um tempo em que a busca da santidade está em alta. Tal atitude não é errada. E devemos sim buscar a santidade. Porém, muitos têm buscado a santidade sem se reconciliar com seu lado humano. E quando descobrem que enquanto não forem humanos não conseguirão chegar à santidade entram em complexas crises de identidade.

O caminho da santidade passa essencialmente pelos territórios humanos que compõe o nosso ser. Buscar a santidade e esquecer-se de se reconciliar com o humano é fonte de problemas psicológicos sérios. Muitos têm trilhado este caminho perigoso. Olham para os santos como se estes nunca tivessem pecado na vida.

Os santos só conseguiram chegar à santidade porque foi através de suas próprias imperfeições que eles buscaram a cada dia serem melhores. O caminho da santidade começa a ser trilhado quando o presente se torna um lugar de reconstrução. O passado nos ensina o erro cometido, o presente é lugar por excelência de recomeçar e o futuro é morada da esperança.

Muitos querem ser santos mais ainda não aprenderam a serem humanos. Desejariam serem robôs programados para fazerem somente o bem, mas a realidade é permeada de imperfeições. Acordam com o olhar no ideal perfeito de uma vida sem erros, mas adentram a noite perdidos nas trevas do erro. Buscam a perfeição e esquecem-se de se reconciliarem com o que ainda está em construção. Andam pelas margens da estrada da vida e se desviam das pedras necessárias para o amadurecimento. As pedras que se encontram no meio da estrada só serão prejudiciais se nada aprendermos com elas.

O primeiro passo para sermos santos é identificarmos as nossas imperfeições. É ainda preciso ter consciência que nunca seremos 100% perfeitos. Nem mesmo São Francisco de Assis o foi. Ele só foi santo porque buscava a cada refazer a sua história. Nos erros da vida São Francisco de Assis descobria em cada nova manhã a chance de recomeçar.

O segundo passo para o caminho da santidade é fazermos de cada novo dia uma oportunidade de recomeçar. Quem nunca encara os seus pecados dificilmente conseguirá encontrar meios para vencê-los. É mais fácil maquiarmos o erro do que olhar no espelho de nossa alma e reconhecermos o seu verdadeiro rosto. Às vezes é mais fácil e bonito vivermos com um ideal de santidade do que nos esforçarmos para mudarmos atitudes que não contribuem em nada com nosso crescimento humano e cristão. Ser santo não é fácil, mas também não é impossível.

O terceiro passo é buscarmos a santidade no cotidiano da nossa vida. Amar mais aqueles que vivem ao nosso lado. Exercitar a paciência quando estamos a ponto de descarregar nossa raiva em quem não tem culpa dos nossos fracassos. Ser solidário quando todos pensam apenas em si mesmos.

Ser santo é fazer a diferença no mundo! Cristão é aquele que transforma a realidade onde vive com gestos de amor e fraternidade. Deus não quis robôs. Eles nos fez humanos para que descobríssemos a felicidade escondida nos mistérios mais simples e bonitos da vida. Seremos santos à medida que a santidade não for um peso ou uma imposição, mas sim um estilo de vida.

terça-feira, 17 de janeiro de 2012

A carta de amor não escrita*

Bom dia Sr. Ildo,

Desde que assisti a sua palestra em Salvador, passei a ler seu site. Gosto do seu jeito de encarar a vida e também do seu jeito de escrever. Estou com um problema e gostaria de pedir sua ajuda.

Minha noiva foi fazer uma pós graduação em São Paulo e vai ficar por lá seis meses. Gostaria de escrever uma carta apaixonada, mostrando todo meu amor e saudade, mas não sou bom em escrever. Será que o senhor poderia me quebrar este galho e escrever uma carta de amor para ela? Diga quanto o senhor cobra.


Prezado Carlos,

Obrigado por seus elogios. Poderia começar a escrever a sua carta de diversas maneiras:

Querida,


É difícil dizer numa carta a saudade que esse nosso amor me causa. Conto nos dedos os dias que faltam para você voltar...

Olho para a sua fotografia e sinto que você também está olhando para mim. Meu coração se ilumina mas, ao mesmo tempo, vem a tristeza de lembrar o quanto ainda vai demorar para sentirmos o gosto de nosso beijo...

Sei que você está longe...Os e-mails trocados, os telefonemas, às vezes me fazem sentir que estamos muito perto...

Em se tratando de uma carta de amor, preciso fazer algumas considerações. Amor não pode ser explicado, justificado ou externado através de terceiros. Cada casal constrói sua fórmula própria de gostar e usufruir deste sentimento. Tampouco adianta o cérebro listar uma série de qualidades, afinidades, bons momentos e tentar se convencer de que aquilo é amor. Precisa haver uma química que envolva tudo isto. Cérebro demais pode até atrapalhar o amor. “Quem pensa muito não casa”, lembra desta velha e sábia frase?

Amor precisa ser sentido, mas também não é com o coração que se reconhece o amor. Isto é uma bobagem romântica que inventaram. Amor é sentido com o corpo inteiro. Vou fazer uma analogia bem simples. Assim como sentimos dor, calor, frio, fome, da mesma forma, o amor é sentido. Não existe dúvida quando ele aparece: ou o amor se faz presente ou ele não existe. Começando a amar, amor fraco, um pouco de amor, também são desculpas de quem não ama. Não adianta procurar um amor onde ele não existe, assim como também não tem sentido querer esconder o amor, quando este já chegou, fincou sua bandeira e se estabeleceu.

Algumas pessoas têm dificuldades em identificar o que sentem, não sabem se é amor, paixão, amizade colorida, gostar bastante, tesão...Que diferença faz o nome do sentimento? O que vale é o conteúdo e não o rótulo. Perdem tempo procurando provas, fazendo terapia, testes, trocando parceiros, aguardando o dia em que finalmente possam ter certeza não só de seus sentimentos, mas também os do companheiro.

Ficam no limbo esperando respostas. A maioria acaba se perdendo nesta busca e falando mal do amor ou do parceiro. Se o que vocês sentem entre si é uma vontade de estar, sentir, tocar, conversar, penetrar, cuidar, ajudar o outro, esqueçam nomes e aproveitem a sorte grande. Deixem que estas vontades guiem seus atos e eternizem cada momento mágico deste sentimento inominado.

Mande um pijama seu, uma foto da cama onde dormiam, um frasco do perfume que você usa, aquele vaso com pimentas amarelas que está na sua cozinha, um rabisco qualquer num papel...Não se preocupe, se o sentimento for autêntico, vai resistir ao tempo, a distância e até mesmo a sua dificuldade em redigir.

Apesar disto, se você ainda quiser encomendar uma carta de amor, vou lhe prevenir: meu preço não é barato. È mais caro que uma passagem de avião.

Boa sorte!

*Ildo Meyer
Médico, Filósofo Clínico
Porto Alegre/RS

domingo, 15 de janeiro de 2012

Os caminhos existenciais

Lúcio Packter
Pensador da Filosofia Clínica


No paralelo 28, no extremo sul do Brasil, um rio de água verde-esmeralda tem sua foz no oceano. Quando era guri, durante os meses quentes de férias veraneávamos há poucas centenas de metros de sua desembocadura. Meu pai era cirurgião em um pequeno hospital nas redondezas e o local era adequado caso fosse chamado para alguma emergência, o que não raro acontecia.

Nossa casa ficava em frente ao mar, cercada por restinga com aquela feitura arenosa, porosa como esponja. As gramíneas cresciam por toda a parte; eu e meus irmãos brincávamos com nossos soldados e toda a cavalaria entre aqueles cipós de flores que encordoavam as dunas maiores. No início da vida achei que bromélias, cactos e samambaias fossem tão abundantes no mundo quanto aqueles caranguejos amarelos dos areais, besourinho-da-praia, viúva-negra, gafanhoto-grande, coruja-buraqueira, perereca.

Com seis anos eu achava que o mundo não poderia ser muito maior do que a restinga. Meus argumentos eram consistentes diante da variedade que descobria a cada dia, como sumarés, aperta-goela, açucena, cactos, aroeirinha, jurema. Admitia então que o mundo seria apenas uma parte maior de praia, de Morro dos Conventos.

Algumas notícias me causavam encanto. Nunca mais considerei da mesma maneira as dunas que se estendiam poucas jardas depois do fundo de minha casa quando soube que elas vinham se formando há cinco mil anos. Na realidade eu não entendia direito o que seriam cinco mil anos, entendia que era algo importante, e sabia que se multiplicasse indefinidamente o tempo que durava uma aula em dia de chuva as coisas se equivaleriam.

As dunas eram ocasião para caminhadas à tardinha, nunca com o sol alto. Serviam para todo o tipo de coisa, desde esconde-esconde até refúgio para momentos difíceis. Um vizinho nosso costumava fugir para lá colocando os poucos moradores da aldeia em missão de socorro. Com o tempo, ninguém se preocupava com isso; ele fugia pela manhã e antes do anoitecer estava de volta. Uma parte das dunas descia até a base do costão rochoso. Esse costão era um grupo de falésias com oitenta metros de altura, rochas com cerca de duzentos milhões de anos. Não sei porque, mas, para mim, as dunas brancas pareciam sempre mais antigas. Numa lógica difícil de explicar, entendia que primeiro veio o rio, depois as dunas e, por último, muito depois, os rochedos. As plantas e pequenos animais pareciam recentes e deveriam regular em idade comigo, já então com oito anos.

Era raro conter o entusiasmo ao saber que as primeiras civilizações locais abrigavam-se dos inimigos nas furnas e que havia tesouros escondidos lá. Não sei de nenhum amigo que não tenha procurado pelos tesouros em buscas que planejávamos com diligência. Tínhamos objetivos nobres e sabíamos o que faríamos com os tesouros, a começar pela compra da sorveteria.

Cada parte da aldeia tinha suas lendas. Não era tarefa simples separar as crendices dos fatos históricos. Minha mãe, imbuída de judaísmo, me ajudava quando eu me perdia.

Era um fato que depois de 1580 os índios passaram a ser caçados na bacia do rio Araranguá em seus aldeamentos indígenas. Era fato a estrada que foi aberta em 1730 unindo a embocadura do rio até o planalto serrano para a passagem das tropas, do gado, das mulas carregadas. Seria fato ou invencionice a origem do nome do povoado, Morro dos Conventos? Os jesuítas podem ter originado o nome quando estiveram no lugarejo.

Mas o provável é que navegadores, observando os rochedos torcidos do alto mar, tenham achado as falésias um agrupamento similar a um convento. É curioso. Já avistei as penhas elevadas da balsa do rio, de pequenos barcos pesqueiros em mar alto, e não sei como chegaram a imaginar conventos olhando para aqueles penedos escarpados. Nem isso às vezes eles parecem; parecem mais fragas soltas que lembram ilhas. Mas na época, assim como hoje, não tinha a visão de um navegador. O que sei do mar é o que descobri dele nos areais da restinga da beira-mar. E, sendo assim, Morro dos Conventos é algo possível.

Na parte mais íngreme e sobranceira dos penhascos, o farol da marinha lança um poderoso facho de luz por cerca de trinta milhas marítimas; do cimo onde ele foi construído avistávamos baleias francas e seus bebês, adivinhávamos os arrozais que cobrem milhares de hectares, as comunidades de pescadores com suas confecções de esteiras, cestas, leques, tarrafas – construídas com a palha de butiá, junco, palha de milho e outros materiais.

Os índios carijós viviam ao sul; depois chegaram europeus e africanos.

Ao norte, existe um sítio pré-cerâmico, uma espécie de jazigo mortuário provavelmente do século quatro. Usavam cremação, coisa que nenhum de nós sabia ao certo o que era, mas que despertava nossa criatividade para todo o tipo de história.

Minha amizade com o rio era profunda quando comecei a ver seus contornos do cume dos rochedos.

Um fato é que comecei a considerar os caminhos da vida acompanhando as evoluções do rio Araranguá, mas isso somente constatei muito tempo depois. Na época, eram pensamentos bonitos e soltos na brisa.

Um fato, mas que muitos consideram dito invencioneiro, é que sua água pode mudar as cores diversas vezes em um dia, passando do azul-marinho para o verde-esmeralda, para um amarronzado. Passei muitos dias na margem sul para saber que é assim.

E um fato é que este escrito começou a ser construído a partir das lições de vida, dos caminhos existenciais, que surgiram com a amizade de um jovem com um rio.

As primeiras lições eram elementares.

Com o balseiro aprendi as tenuidades que as rotinas podem requerer; e acuidade dos sentidos. Diversas vezes atravessei os cento e cinqüenta metros nadando, ao lado da balsa, conhecendo então ensinamentos que não tinha quando desfrutava o translado comodamente sobre suas madeiras.

O assoalho arenoso ou argiloso do rio trouxe a suavidade dos limites.

A barra móvel do rio, que oscila centenas de metros, mostrou um vínculo com o mar que varia da animosidade ao sôfrego; que varia de modo a chegar, mais de uma vez, a uma mescla indefinida de algo sequioso e abundante. Isso ocorria quando ilhotas surgiam e desapareciam furtivamente em questão de horas. As ilhas recebiam nomes de acordo com as formas: ilha da canoa, ilha do barril, ilha da mama da vaca, ilha do careca.

Meu amigo rio causou-me medo em algumas ocasiões. Apenas seus motivos me acalmavam, mas nunca me abrandaram a tristeza.

Quando a maior parte de sua mata ciliar foi seriamente magoada, seus peixes mais habituais, como a tainha e o cará, diminuíram as aparições; quando os restos peritosos do carvão contristaram as cores de suas águas, os tóxicos do plantio do arroz assorearam suas calhas, quando seu manguezal – um dos últimos limites austrais da América do Sul – foi açodado, e quando as encostas foram desmatadas, o rio passou a ter acessos de fúria. De vez em quando, inunda a rodovia, traz impetuosamente, de rastos, casas; alui pequenas aldeias, assola plantações inteiras. Nesses momentos entristeço.

Nadei em suas águas quentes quando o mar esteve friíssimo; passei tardes e pedaços de noite em suas margens mansas; acompanhei suas peles douradas pelo amanhecer e adormeci muitas vezes com a candura de seus sons.

Ao começar a escrever um livro, fui caminhar pelas margens do rio; hoje, ele está mudado, mas ainda repleto de muito do que me propiciou.O balseiro não existe mais e em seu lugar uma balsa a diesel leva e traz automóveis. Tirei muitas fotos para ilustrar estas páginas. Banhei-me, ouvi os sons, acompanhei os ventos. Perguntei em silêncio se fora invencionice ou fato a vez que nadei à noite com os botos que entram pelo canal da barra, que ainda hoje enfileiram os pescadores e suas tarrafas. E ele me perguntou se foi invencionice ou fato a vez que caminhei sobre suas águas.

Reflexões,experiências, desdobramentos aconteceram desde que nossa amizade começou. Aprendi novas lições, arrependi-me de outras, e descobri outros caminhos a partir daqueles.

sábado, 14 de janeiro de 2012

A TUDO CEDE, TUDO VENCE

Will Goya
Filósofo Clínico, Poeta, Professor
Goiânia/GO


Errado pensar que o amor sempre vence e tudo pode.
Com o amor a gente aprende a perder.

Naturalmente,
Controlar tudo é perder o controle.
E perde quem não está disposto a perder,
Pois o orgulho destrói não a culpa, mas o coração do culpado.

Amar não é desejar o próximo como a si mesmo,
É fazer do amado o primeiro e de si mesmo o próximo.

O amor não é fraco nem forte, muito ou pouco,
É apenas inteiro,
Ainda que por uma fração de segundos
Nos instantes mais belos da vida.
Só o que é simples é completamente inteiro.

Pura entrega, o amor é leve.
Quem ama caminha em nuvens,
Pois seu coração alcançou o reino dos céus.

Sempre me comovi com o amor santo dos grandes cristãos da antiguidade e
com a difícil beleza do “dar a outra face”. Mas como dar-se ao inimigo, à morte
e a tudo o que nos traz ódio e medo? Um dia me dei conta de uma estranha
sabedoria: amor não é poder, não é a arte da guerra, não é “conquistar” alguém.

Então uma colega professora faleceu, e não sabia o que dizer a sua mãe,
querida amiga.
Quis fazer uma prece, e nasceu o poema:

O amor brilha a pele de invisível ternura
Quando o corpo se reveste da alma.
Ninguém vê a fluidez da água mansa, o sopro macio e perfumado da brisa,
Nem jamais tocou o céu com as mãos...

Mas quem não sabe de onde vem o flutuante azul da vida
Que a vestiu da alegria de ser a beleza do mundo?
Vem do sonho de Deus quando o homem nele ainda dorme
Um desejo inconsciente de amar,
Que se chama solidão.

Segredo por Deus a ele revelado
Quando nele esse sonho o acordou melhor.
A grande melancolia do destino é que a morte existe
E o amor não pode evitá-lo.

Mas a garra de recomeçar é uma fé
Que, talvez, nenhuma outra vida mais próxima da verdade saberá
O mistério que o dia deita ao sol de cada nova manhã.
Dorme quem gosta. Ama quem sonha.|

sexta-feira, 13 de janeiro de 2012

Quem precisa de um amante?

Jussara Haddad
Terapeuta sexual, Filósofa Clínica
Juiz de Fora/MG


Você acreditou que todo aquele tesão que ele sentia era por você? Ficou imaginando, como um “coroa” mal cuidado e completamente fora de forma podia ter tanta virilidade quando o seu marido, que é bem mais novo, não consegue mais corresponder às suas expectativas na cama? Nem por um momento pensou na possibilidade de o lobão estar ali, por estar sendo relegado pela mulher que não o deseja mais, por ele ser um doido dentro de casa, porque ele é um homem relaxado com sua aparência, porque pra ela, ele mostra todos os seus odores, calores e horrores.

Nunca parou para pensar que este gavião de bico afiado estivesse mentindo até a última pena quando te disse que estava separado, que seu casamento havia acabado? Nunca desconfiou que o pobre coitado estivesse ali com você, entupido de drogas para manter a ereção, te usando para se auto-afirmar e garantir uma imagem de homem poderoso, apesar de as aparências denotarem o contrário? Você é cega? Você estava “precisadinha” mesmo hein? Tava “jogadinha” fora também? Ou precisa, eventualmente, reabastecer o ego, a vaidade? Já sei! Deu muita bobeira no casamento, ficou um tempão estudando ou cuidado dos bebês, deixou o maridão de lado, engordou e hoje ele te despreza? E agora, apareceu um bobo, largado também, o único que olhou pra você e... Você está se achando, não é?

E você, acreditou que arrancou mesmo dela, todos aqueles gemidos, grunhidos e suspiros que caracterizam um orgasmo louco e extasiante o qual o marido dela não é e nem nunca foi capaz de proporcionar? Acreditou mesmo quando ela te chamou de garanhão, maravilhoso, gostoso e quando ela disse que jamais sentiu algo assim? Que você é doce, romântico, cheiroso, carinhoso e sensível. Não se sentiu mal ao ouvir dela que o marido é um grosso, que só pensa em futebol, que come como um animal, que está sempre nervoso e impaciente e que você é um encanto?

Nem por um momento, suspeitou que ela em casa seja uma mulher chata, implicante e desanimada para o sexo com o marido e que esteja te dando sexo somente para aproveitar uns momentos de ilusão ao seu lado? Ou que espera que você sacuda a varinha de condão e mude para sempre a vida dela? Para ouvir de você o que não ouve do companheiro a muito tempo? Já parou para pensar se em casa ela não é uma maluca que grita com as crianças? Que compete o tempo todo em o quanto é uma super profissional, bem melhor que o marido? Sabe-se lá o quanto é difícil a vida econômica e financeira que ela leva ao lado dele e que viu em você - homem de classe, bem sucedido, “o cara” - uma oportunidade de viver uma vida de rainha?

Não é de sexo que vocês precisam? Vocês são “gente de verdade”? Vocês são pessoas maravilhosas, honestas e infelizes em suas vidas atuais e Deus vai abençoar este encontro para sempre? Não? Não é nada disso? Vão só dar uma fugidinha e como são muito espertos, vão enganar seus companheiros e viver momentos lindos e agradáveis nos braços um do outro. Ai que saudade de beijar na boca, não é? Você cuida da sua boca para o seu parceiro? Chupa um chicletinho sempre que está perto dele também? Faz charminho, fala baixinho, é elegante? Com o outro, você nem tem necessidades fisiológicas básicas, não é mesmo?

Mas que conversa fiada é esta afinal? Porque que é que as pessoas chegam a precisar de um amante? Porque as pessoas precisam buscar, fora do mundo delas, e fora delas, “certezas” que as fortalecerão, que as farão sorrir e sonhar, por um átimo de tempo, que são pessoas especiais para alguém? A ilusão dos amantes é algo patético às vezes. O ser humano é muito engraçado. Porque precisamos viver fantasiosamente, escondendo nossas fraquezas, fazendo-nos de fortes e especiais, para outros seres humanos que não sabem nada de nós? É aí que está a graça? Porque não podemos ser felizes dentro de uma verdade? Porque o agora, o verdadeiro, não pode ser gostoso e leve?

Porque a minha pessoa não está me querendo mais? Porque tanto atrito? Pode ser que ela seja apenas volúvel e sem retidão. Porque não?

As pessoas precisam de amantes por vários motivos. E ter um amante, não é algo tão ruim quanto pareceu no discurso acima. Um amante, quando escolhido com cuidado, quando cultivado com responsabilidade, pode trazer muitas alegrias a alguém que luta pela felicidade própria e pela felicidade da vida conjugal e que, por mais que se esmere, não consegue fazer com que o parceiro, participe da empreitada de viver feliz dentro do casamento. E quando o motivo é este, pode apostar, vai dar certo. Caso contrário, atendendo apenas a uma leviandade, vai acabar tão rápido quanto começou.

Mas ter um amante, não é em si, o grande problema. O grande problema está em como viver esta circunstancia. É preciso, acima de tudo e principalmente, ser inteligente. Pense comigo. Está certo, você já ter tantos problemas, decepções e desilusões dentro da sua relação e por desespero, se envolver com uma pessoa qualquer? Com um idiota qualquer? E falar de amor então, com alguém que nem ao menos, assim como você, conseguiu manter o amor na sua relação oficial? Falar de amor com alguém que é somente uma válvula de escape para a droga de vida em que se deixou chegar? Isso é demais.

Quem busca um amante, na grande maioria das vezes, não deseja se separar da pessoa com quem vive. Por vários motivos. E, não será possível citar todos aqui, mas um muito forte e preponderante – pasme - é o amor que ainda se sente pelo parceiro da vida inteira, mas que não se pode admitir naquele momento. A vida está desgastada, os dois estão cansados, se estranhando, enjoados um do outro, um evoluiu e o outro não. Estão distantes, a crianças interferindo demais, quase que separados mesmo, mas lá no fundo, lá no fundinho mesmo, não queriam que nada disso estivesse acontecendo.

Não acredita que possa ser assim? Isto é clássico entre os casais que, como pobres seres humanos, não analisam suas fraquezas e necessidades, misturam tudo, fazem uma grande confusão, não lutam por uma vida melhor e imediatistas que são, partem para as aventuras que os farão acreditar que não precisam atender a nenhuma solicitação, que não necessitam trabalhar, que tem alguém capaz de amá-los incondicionalmente sem pedir nenhuma mudança, nenhum tipo de comportamento que o sacrifique. Alguém que seja sempre alegre, descontraído, quente e principalmente, calado.

Ter um amante pode ser necessário, mas é imprescindível que as situações sejam separadas. Um amante vem para suprir um ponto dentro da sua vida. Caso contrário, você se separaria corajosamente do seu parceiro e recomeçaria com outra pessoa. Podemos pensar assim?

Se o ponto for sexo, que tal tomar cuidado para não se apaixonar e sair por aí como uma mariposa enlouquecida e infantil, que atende a impulsos e se acha no direito de invadir a vida doméstica da pessoa que entrou nessa com você, telefonando a qualquer hora, enviando “torpedinhos românticos” a qualquer momento do dia ou da noite, como se o seu “caso” já fosse uma propriedade sua. Que petulância.

Se o seu problema for de afetividade, se você fez e aconteceu dentro do seu casamento e perdeu o carinho, a amizade, a atenção e o respeito do seu companheiro, se ele neste momento, de tanto que você aprontou, não o deseja mais, se está com antipatia de você, por favor, ao optar por um amante, se controle e não fique igual a um demente, se achando o espertalhão do momento, escondendo celular, usando perfumes, roupas intimas melhorzinhas, se depilando, malhando, fazendo coisas que há muito não faz pela pessoa que vive com você. Demonstrando o quanto está feliz e não precisa do parceiro. Não fique dando bandeira. Afinal o que você quer, viver sua aventura ou chamar a atenção, da forma mais errada que pode existir, para que ele volte a te amar?

Há outros fatores pelos quais se busca um amante, mas são óbvios demais e eu não quis mesmo trazer aqui dessa vez. Falta de caráter, é o mais anunciado e discutido, mas não é o caso agora.

Então está bem. Você precisa mesmo de um amante! Não tem como se desvencilhar do casamento. Não ama mais mesmo, aquela pessoa. Optaram por um casamento de fachada. Tem os filhos, o patrimônio... Ou, ninguém optou por nada, mas o casamento morreu ninguém saiu dali, todo mundo se fazendo de sonso... Tudo bem! Você precisa mesmo de um amante? Por favor, seja inteligente, seja caridoso, seja cuidadoso e tenha certeza de uma coisa: Se você não é livre, se tem uma família, alguém vai sofrer por causa da sua opção.

Sendo assim, se você precisa mesmo ter um amante, escolha com cuidado uma pessoa que tenha as mesmas necessidades que as suas, que seja maduro, discreto, que se preocupe em não ferir e que não seja possessivo. Que seja EQUILIBRADO e essencialmente educado. Abrir porta de carro e puxar a cadeira para as damas são apenas artifícios para impressionar.

É possível, muito possível, relações paralelas se manterem por uma vida inteira e proporcionar as pessoas que sofrem e que são aprisionadas a circunstâncias de toda ordem, momentos de muita alegria, relaxamento, prazer e amizade. Neste caso, são verdadeiros elixires para suportar as dificuldades domésticas e conjugais.

Amantes devem ser cúmplices e muito honestos entre eles. Amantes devem estabelecer os critérios e os motivos para manterem sua opção. Devem ter sempre em mente, que não estão fazendo a coisa mais certa do mundo e que arcarão com o ônus de suas fraquezas, não podendo compartilhar em tempo integral, tendo de suportar a saudade e a enorme vontade que às vezes sentem de estarem juntos, porém, com responsabilidade é possível, já que o preferível não foi.

É só mais um ponto de vista. Mande o seu, vamos compartilhar.

quinta-feira, 12 de janeiro de 2012

Fronteiras

Luana Tavares
Filósofa Clínica
Niterói/RJ


À margem do que somos, os caminhos são percorridos e nos perpassam, como alternativas fugazes que se desdobram em transitoriedades.

Eles nos induzem a direções múltiplas e nos indicam possibilidades tão infinitas quanto as estrelas a nos instigar o devaneio... sempre aguardando que nos esqueçamos de uma fugacidade para adentrar outra... sempre nos lembrando da nossa frágil constituição ou da nossa perversa humanidade.

O bater de asas das borboletas questiona para onde vamos, porque retornamos, ou o que existe do outro lado.

Qual lado? Não sei, não importa. Ou importa somente a quem se arrisca ou a quem se aventura ou a quem decide romper as amarras. A quem vislumbra além da próxima esquina.

Podem ser todos os possíveis lados; todos os prováveis mundos a que estamos sujeitos; todos os infindáveis futuros a que nossas pequenas ações nos possibilitam.

A magia está em perceber qual trilha penetrar, qual palavra exprimir, qual sentimento ou pensamento valorizar.

E mesmo que as escolhas pareçam válidas, ou contextualmente verossímeis, acontece de um olhar se voltar e intuir que tudo poderia ser diferente, tudo poderia estar em outras frequências.

Quem sabe se o tempo passa, ou se somos nós que passamos por ele.

Quem sabe sobre o paralelismo a que estamos sujeitos ou em quantas singularidades poderíamos vivenciar, até mesmo simultaneamente. Experimentamos sensações, vibrações, impulsos... e tantos outros sentires que nos impelem, como marionetes vivas, a provarmos o gosto efêmero do limiar entre os dois extremos.

E quantas indizíveis expressividades pautamos na vida?

Ao nos percebermos conscientes, nem sempre nos damos conta da dimensão do que isto significa, nem sempre alcançamos a exata percepção do instante. E este pode ser desmesuradamente absurdo em seus devires, em tudo o que especulativamente se possibilita.

Determinar o que será depende da sensibilidade (ou não) do momento, da consciência do papel existencial, do domínio de talentos e das infindáveis escolhas.

Depois, o que acontece é somente uma espera, para realizarmos outras escolhas, prepararmos novos devires, rompermos novos horizontes.

Porque somos talhados para desbravar fronteiras, quaisquer que sejam elas, pois que cada um tem seu limiar a atravessar e este pode ser o mais pessoal atributo de uma alma.

E estas fronteiras são também infinitas... como uma espiral que nunca acaba, que nunca cessa, mas que se abre em intensidades inebriantes e talvez até mesmo insuportáveis.

quarta-feira, 11 de janeiro de 2012

Até se chegar ao amor

Rosângela Rossi
Psicoterapeuta, Filósofa Clínica
Juiz de Fora/MG


A jornada de encontro com o amor, que é nossa natureza, é longa e requer um trabalho consciente. Pensamos que amor surge assim, de repente, e toma conta da gente! Seria bem bom se fosse mesmo assim. Mas, para deixar fluir o amor que habita nossa alma, haja trabalho!

Assustado com esta minha fala? Pois é... Aprendemos bem diferente disto e vamos nos iludindo esperando o milagre do amor romântico. Que por não chegar vai nos frustrando. O caminho é longo até abrir a porta do Castelo da Alma e encontrar o bendito amor. Quando no caminho encontramos alguém que nos encanta, não acontece amor a primeira vista, mas Enamoramento.

Enamorar é ver de vislumbre a projeção da nossa propria alma. O outro, por ter algumas coisas igual a mim, se torna espelho. Incrível! O outro nos fascina. Vemos nele tudo de bom, bonito e perfeito. Nesta hora, não temos olhos para mais nada. O mundo fica cor de rosa. Os sinos tocam, as estrelas e a lua se transformam em poesia. E nos Apaixonamos! Paixão Alegre. Desejo de possuir o outro. Vem os carinhos doces, o sexo gostoso, o paraíso na terra. Tudo fica vermelho como fogo que aquece o corpo e a alma. Ficamos cegos.

Depois de um bom tempo de muito prazer surge uma encruzilhada nesta jornada de vida compartilhada. Por um lado a estrada curta da Paixão Triste. Por outro a estrada longa que leva ao Amor. Chapeuzinho vermelho se viu nesta condição de escolher. Na estrada da paixão triste o outro vira lobo mau. O ciúme, a desconfiança, o medo de perder o outro, a insegurança, o controle, a possessividade tomam conta. E feliz morte lenta do que foi tão bom! Caminho curto para apagar um sonho encantado. Lágrimas, sofrimento e dor.

Muitos ,então dizem, que amor é dor. A longa estrada que leva ao lago sereno do Amor tem como guia a velha vovó sábia e a coruja Sophia. Aprendemos que o outro é o outro. Que temos qualidades e defeitos. Não esperamos nada do outro. Ele é como é. Compartilhamos nossas alegrias e tristezas. A compreensão é a lei. Aprendemos que o amor se renova a cada amanhecer.

Chegar até o lindo lago do amor requer reflexão e um pensar bem, pensar com coração. Como perceberam, até chegar ao amor... Haja caminhar! Engano pensar que tudo são flores nesta jornada de herói. Muito trabalho consciente é preciso. Só depois somos presenteados com o amor autêntico, que nada tem de romântico.

Nesta hora, sim, podemos viver um belo romance, criar a poesia sublime e descansar ao lado do outro tão diferente de nós. O lago do Castelo da Alma, em sua serenidade, convida ao amor e amar em sua tripla possibilidade: amor erótico, amor philia e amor ágape. Aos amantes, Afrodite dá a mão a Dioniso e leva ao jardim do amor erótico. Aos amigos, Mercúrio convida à biblioteca da vida e ensina o segredo da convivência e amor amigo. Aos espiritualistas, Héstia acende a lareira, propõe a meditação e a vivência do amor ágape. Até o amor chegar nos resta apenas sair das ilusões e se deixar levar pelis caminhos que a vida dá.

terça-feira, 10 de janeiro de 2012

O tempo da vida

Pe. Flávio Sobreiro
Filósofo Clínico, Poeta
Cambuí/MG

"Se um arco-íris dura mais do que quinze minutos, não o olhamos mais."
(Goethe)


Informações nos chegam na velocidade da luz... Há tempos atrás aguardávamos ansiosos a chegada da carta que nos traria as notícias de quem morava longe de nós. Com o advento da internet as cartas foram substituídas pelo e-mail. Tudo se tornou mais ágil e fácil.

Os meios de comunicação virtual evoluíram e entraram em cena as redes sociais, que agilizaram ainda mais a comunicação. O e-mail foi substituído. Hoje o Facebook agrega todos os outros sistemas de comunicação em um local somente. Podemos conversar on line com quem mora em distantes regiões da nossa. Enviamos e recebemos mensagens sem precisar fazer uso do "antigo" e-mail. O futuro já chegou e o presente confunde nossa consciência.

Lembro-me das máquinas fotográficas que usavam os filmes que depois seriam revelados. O "click" tinha que ser certeiro. Não teria como apagar uma imagem que já estava gravada no filme da máquina. A expectativa pela revelação das fotos era importante. Sem saber como haviam ficado as fotografias era necessário nos reconciliarmos com o tempo da espera até que o filme fosse revelado.

Mas com o tempo, as empresas fotográficas ofereciam a revelação do filme em uma hora. A espera já não era tão angustiante como antes. Com a chegada das máquinas digitais tudo foi transformado. Uma foto que não ficou boa pode ser deletada e se refaz novamente a cena como se nada antes tivesse acontecido. Hoje não se revelam mais as fotos. Elas são postadas em álbuns nas redes sociais. Com o tempo ficam esquecidas nas gavetas virtuais de nossos arquivos digitais.

Não cheguei a utilizar a máquina de escrever. Apenas tive precários contatos com algumas. Mas imagino que deva ter sido uma revolução para quem deixou o lápis de lado. Os computadores susbituíram as máquinas de escrever. Os erros podem agora ser apagados com uma simples deletada. O corretor ortográfico (que na maioria das vezes precisa ser corrigido) facilita a vida de quem tem certa dificuldade com a gramática.

Os computadores robustos e pesados foram substituídos pelos notebook's. O que antes não podia sair de casa pelo peso e tamanho tornou-se objeto móvel que agora pode ser levado na mochila ou na mala de viagens. Na era do compacto e moderno os tablet's chegaram para ficar. Leves e fáceis tornaram-se o objeto de desejo de muitos que buscam a facilidade e leveza da modernidade digital.

Ah... Os discos de vinil... Muitos tem saudades daquele bolachão com um ruído peculiar! Eles deram lugar aos cd's. Os cd's deram lugar ao mp3, mp4, mp5... e afins. Hoje não precisamos mais comprar um cd que está sendo lançado no mercado fonográfico.

Se você desejar e seu senso moral permitir pode baixar gratuitamente um cd pirateado em questão de poucos minutos se seu provedor de internet for tão veloz como os tempos modernos. Mas para aqueles que não concordam com a pirataria, há sites que oferecem a possibilidade de você ouvir os cd's lançados recentemente sem pagar nada por isso.

Hoje nossas informações virtuais: músicas, arquivos, fotos e afins podem ser armazenados em "nuvens" em um banco de dados virtuais. Não sei se no Brasil há serviços gratuitos disponíveis para tal arquivamento. Mas acredito que em breve você poderá ter a sua "nuvem" gratuitamente.

Até onde mais a tecnologia irá evoluir? Talvez daqui a alguns anos este artigo tenha muitos outros itens para serem acrescentados. O que será que hoje utilizamos e amanhã serão apenas lembranças de um passado recente?

O tempo da vida corre veloz e desaprendemos a olhar a vida com paciência. As informações chegam rápidas demais. Isto tem sua vantagem em uma época que os sistemas tecnológicos facilitam a comunicação com o mundo. Mas o lado negativo é que não temos tempo para parar e refletir sobre o que chega até nós. Muita informação não pode ser assimilada por um sistema cerebral que precisa refletir e fazer memória daquilo que foi refletido. As informações chegam e saem da mesma maneira que vieram até nós: extremamente velozes.

No tempo em que tudo precisa ser para ontem, não conseguimos mais parar e ver um arco-íris mais de quinze minutos. Perdemos o sentido da contemplação da vida. A Filosofia surgiu da surpresa e do assombro diante das questões existências da vida.

Não sabemos mais saborear os alimentos porque o dia tem somente vinte e quatro horas. Qual a qualidade de nosso tempo num mundo que vive em alta velocidade? Qual o sentido de se contemplar um lindo amanhecer quando todos estão armazenando suas vidas em "nuvens" virtuais?

segunda-feira, 9 de janeiro de 2012

O Poder das Palavras

Beto Colombo
Empresário, Filósofo Clínico, Coordenador da Filosofia Clínica na UNESC
Criciúma/SC


Recebi recentemente um e-mail do amigo Tate Rosso que me fez parar e refletir mais e melhor sobre ele. O tema central da mensagem, em forma de vídeo, era o poder das palavras. Como a palavra tem poder!

Imagine alguém chegar pra mim, pra você, e elogiar, só falar coisas boas. Ou imagine o contrário, só recebermos críticas, ponderações negativas. E imagine que isso não seja só um dia, mas uma vida? Mas, como disse, as palavras têm poder: as pensadas, as faladas e até as escritas. Até mesmo a minha experiência como escritor restringia-se aos livros, depois veio o jornal e agora a rádio. É impressionante o poder que estes meios têm. E a palavra não fica fora disso.

Mas voltemos ao e-mail recebido. De acordo com o vídeo de um minuto e trinta segundos, um senhor cego pede esmola numa praça movimentada, destas de um grande centro onde as pessoas correm de um lado para outro, sem se aperceberem do que se passa ao seu lado. Esfarrapado e maltrapilho, o homem cego tinha escrito numa caixa de papelão aberta a sua frente: “Sou cego. Por favor, me ajude".

A cena segue com o senhor cego na escuridão do belo dia, virando o rosto de um lado para outro, provavelmente para aguçar outro sentido, o da audição. Ouvia o serpentear das pessoas na praça e volta e meia sentia que uma moeda caía na latinha que guardava com muita atenção.

Todas as pessoas passaram, menos uma, uma jovem de meia idade que parou na frente daquele senhor e leu: “Sou cego. Por favor, ajude”. Por uns instantes, percebe-se que ela refletia sobre os dizeres, enquanto isso, o senhor conseguiu apalpar os sapatos daquela jovem que se abaixa, tira uma caneta da sua bolsa e reescreve o cartaz. E sai. O senhor cego se espanta com o número de doações que recebe, a ponto de encher sua latinha, encher outra e outras. A alegria e satisfação tomam conta daquele mendigo. Horas mais tarde, ele sente que a jovem retorna e pergunta o que ela escreveu. Ela respondeu: "É um lindo dia e eu não posso vê-lo! O mesmo que você, de outro jeito".

Observemos a diferença da postura e do poder das palavras: “Sou cego. Por favor, me ajude” é uma forma de se comunicar, mas “É um lindo dia e eu não posso vê-lo” é outra forma, demonstrando que as palavras têm poder, tanto para o bem quanto para o mal. Quantos aborrecimentos evitaríamos se, ao invés de apenas dizer, pensamos em como dizer. Às vezes é isso: não é o que se diz, mas como se diz.

É assim como o mundo me parece hoje. E você, o que pensa sobre o poder das palavras?

domingo, 8 de janeiro de 2012

Fragmentos filosóficos delirantes LXXX*


"Ora há duas espécies de loucura: uma nascida das enfermidades humanas e a outra provocada por um impulso divino que nos leva a abandonar os costumes habituais"

"(...) mas na realidade os maiores bens vêm-nos por intermédio da loucura, que é sem dúvida um dom divino"

"(...) começar por descrever a alma com toda a exatidão e por fazer ver se por natureza ela constitui uma coisa una e homogênea ou se, à maneira do corpo, é multiforme. Eis o que chamamos mostrar a natureza de uma coisa"

"De fato, é no estado de loucura que a profetisa de Delfos e as sacerdotisas de Dodona têm proporcionado à Hélade inúmeros benefícios, tanto de ordem privada como pública, enquanto, no bom senso, a coisa de pouca monta ou nada se reduz o que fazem"

"Outro gênero de possessão divina e de loucura provém das Musas; quando encontra uma alma delicada e pura, desperta-a e arrebata-a, levando-a a exprimir-se em odes e outras formas de poesia, embeleza as inúmeras empresas dos antigos e educa os vindouros"

"Além de venerar aquele que possui a beleza, nele encontra o único médico para os seus graves sofrimentos. E a este estado de espírito, ó belo jovem a quem se dirige o meu discurso, chamam os homens: Amor"

"O homem, quando vê a beleza de cá e se recorda da verdadeira beleza, é provido de asas e, munido delas, arde no desejo de voar; sem forças bastantes, no entanto, olha para cima à maneira de uma ave, descura os assuntos terrenos e recebe então a acusação de se encontrar em estado de loucura"

"(...) compreender a natureza da alma pelo mesmo método e encontrar para cada uma a forma de discurso apropriada, dispô-lo e ordená-lo em conformidade, de modo a oferecer à alma complexa uma oração complexa e elaborada, e discursos simples à alma simples"

"(...) os melhores desses discursos constituem um meio de suscitar a recordação em quem já sabe"

"Uma vez escrito, cada discurso rola por todos os lugares, apresentando-se sempre do mesmo modo, tanto a quem o deseja ouvir como ainda a quem não mostra interesse algum. Não sabe, por outro lado, a quem deve falar e a quem não deve. Maltratado e insultado injustamente, necessita sempre da ajuda do seu autor, uma vez que não é capaz de se defender e socorrer a si mesmo"


*Platão
Fedro
Ano 387 a.C

sábado, 7 de janeiro de 2012

Fragmentos filosóficos delirantes LXXIX*


"A própria vida, aos olhos do intelectual, é suspeita, pois nunca se dobra a uma ordem abstrata"

"Ao se nomear, com excessiva precisão, aquilo que se apreende, mata-se aquilo que é nomeado. Os poetas nos tornaram atentos a tal processo"

"Do momento em que há vida, há labilidade, dinamismo. A vida não se deixa enclausurar. Quando muito é possível captar-lhe os contornos, descrever-lhe a forma, levantar suas características essenciais"

"O próprio do acontecimento é que ele se dá de maneira inesperada, o que torna bem difícil sua percepção por uma lógica linear, a partir de um causalismo unívoco"

"(...) aquilo que introduz a um pensamento acariciante, que pouco se importa com a ilusão da verdade, que não propõe um sentido definitivo das coisas e das pessoas, mas que se empenha sempre em manter-se a caminho"

"O instituinte, aquilo que periodicamente (re)nasce, nunca está em perfeita adequação com o instituído, com as instituições, sejam elas quais forem, que sempre são algo mortíferas"

"Num momento em que as sociedades estão fragmentadas, em que é bem delicado circunscrever seus contornos com exatidão, numa época em que as instituições estáveis e os sistemas de interpretação fazem água por todo lado, talvez não seja inútil utilizar os procedimentos alegóricos ou metafóricos"

"(...) admirável fórmula de Fernando Pessoa: 'Uns governam o mundo, outros são o mundo'. São, sem dúvida, aqueles que são o mundo que nos interessam"

*Michel Maffesoli

quinta-feira, 5 de janeiro de 2012

As interseções cruzadas

Lúcio Packter
Pensador da Filosofia Clínica


Pedro descobriu que estudou matemática, biologia, história desde os 8 anos de idade. Aos 35 sabia quase nada sobre matemática, biologia, história. O que ele mais aprendeu em seus anos de escola é que muito pouco ele aprendeu na escola.

Antônia descobriu Pedro e achou que com ele poderia ter o que mais amava desde os 18 anos, ano em que perdeu o pai em um acidente de trem: uma família. Antônia amava tanto ter uma família que não se importava em casar e ter filhos para conseguir isso. Com Pedro ela construiu uma linda família, teve dois filhos. O casamento nunca foi bom, mas a família era uma beleza.

Tânia, prima irmã de Antônia, “nunca se achou na vida”, conforme dizia a tia Dornelles, pessoa muito entendida na vida dos outros.

Tânia precisava muito manter os vínculos com pessoas importantes que passassem em sua vida. A questão era manter necessariamente os vínculos, independente na natureza dos atilhos. Quando adveio o divórcio, o ex-marido de Tânia casou novamente, mudou de bairro, de amigos, de clube e de parte dos hábitos, como ler no jardim.

Ela foi viver com o instrutor de ginástica, teve mais um filho, mudou o corte de cabelo de tal modo que remoçou dez anos e então seu nome passou a ser Taninha. Ela mudou completamente de vida, mas continuou casada com o ex-marido; onde antes os liames eram em feixes de pano de afago delicado e desvelo, agora as amarras de couro uniam por mágoa, ressentimento. Taninha contou à tia Dornelles que nunca esteve tão próxima do ex-marido como agora que nem mesmo sabia ao certo onde ele estaria. Foi assim que tia Dornelles concluiu que ela “nunca se achou na vida”.

Pedro, por fim, quase gostava de tia Dornelles, mas não era bem isso. No fundo, ninguém sabia direito o que sentir por tia Dornelles.

quarta-feira, 4 de janeiro de 2012

E a vida continua....

Rosângela Rossi
Psicoterapeuta, Filosofa Clínica
Juiz de Fora/MG


Terminar um ano é uma graça.
Crescemos e aprendemos.
Amamos e sofremos.
Realizamos e frustramos.
Dormimos e acordamos.
Colhemos tudo que plantamos.

Agora na passagem do tempo
Os sonhos são desenhados na alma
Renovam os desejos.

O reiniciar dá força, revigora.
Se não tivesse novos inícios
a rotina das mesmices nos embotaria.

Os rituais de final de ano agem em nossa psique
Pois, pensar é criar.
Somos o que pensamos e escolhemos.

O grande segredo é só um:
Vontade determinada consciente.
Colocar nossa alma na frente, nos guiando.

A alma é soberana.
Tudo sem exagero, com alegria
Caminho do meio, do bem senso.
Bom escutar nossa voz interior.

As regras vindo de fora podem não ter bom eco.
Filosofar auxilia a reflexão.
E a cada amanhecer agradecer.
E a cada anoitecer celebrar.
E a vida continua...
Na exata dimensão das nossas escolhas.
Feliz 2012! A felicidade a gente faz!

terça-feira, 3 de janeiro de 2012

AMOR-PERFEITO

Will Goya
Filósofo Clínico, Poeta
Goiânia/GO


Não há nada entre o corpo e a alma, nada entre nós.
Nada entre a porta e a outra metade. Somos todos janelas...
O que nos separam são apenas pálpebras, que nos protegem.
Segundos de ilusões a se repetirem eternamente.

Tudo o que vejo no mundo é derramado em mim. Vejo-te,
E o que carrego de desconhecido em ti é o que me alivia o peso de tantos.
Todo o mundo não pesa mais que desenhos de nuvens sobre o telhado.
O amor é uma janela que se abre, a beleza é transbordamento,
Um poder de aproximação entre segredos.

Quando a paixão se liberta do medo de não ser amada,
A liberdade goza euforias de uma entrega sem defesas.
Pedaços de música o ano inteiro
E silêncios complexos como doce derretido à boca...

Senti que era oportuno um novo sentimento, e aproveitei a ocasião para
imaginar uma emoção diferente, de um amor sublime, nobre, doador.
É assim que todo amante, creio, deveria despedir-se de sua antiga amada.

Pensando a melhor maneira para terminar um relacionamento, reinventei
emoções e aprendi o que a poesia soube me ensinar. É fascinante o que
pode a arte: interpreto sentimentos que não vivi para justamente aprender
a experimentá-los.

Poesia me ensina a viver.

Vejo te
Quando te arrumavas para ir a um sonho, num desejo inquieto de perfeição.
Desde que te conheço, desde que te amo
Repouso tua ausência em cada distração,
Consentindo à vida um meio de completar a si mesma.

Tua falta põe em tudo um mistério suficiente,
Uma saudade de Deus, do desejo inacabado de nascer.
Ternura que me alivia o delírio da separação.
Embalsamo as lembranças... seguindo meu caminho.

E porque a distância mais aproxima os que vivem muito juntos,
Toma a minha própria loucura pelo nome –
A generosidade que antecipa o pensamento,
E te permitas ir... Eu próprio não te deixaria.

Colheria todas as idades, todos os anos e o último descanso
A debruçar em meu rosto,
Mas não arrancaria do céu tuas cores preferidas.

Imita-te quando ainda te vias sorrindo,
Que a dançar com invisíveis sentimentos – corpo e alma apenas,
E o mundo tão breve como um só,
Haverá tudo entre nós.

segunda-feira, 2 de janeiro de 2012

OS RISCOS DE UM NOVO ANO

Ildo Meyer
Médico, Filósofo Clínico
Porto Alegre/RS


Você gosta de correr riscos? Jogar em cassino, fazer sexo casual sem preservativo, dirigir alcoolizado, conversar com estranhos, aplicar dinheiro no mercado de ações, fumar, não realizar exames médicos de rotina...

Algumas pessoas têm aversão a riscos, outras adoram, apostando até o limite da delinqüência. A maioria, entretanto, prefere ser cautelosa, sacrificando possíveis ganhos em troca de tranqüilidade. Por que alguns se protegem e outros se expõem? Talvez pelo grau de sensibilidade individual em relação a riscos e recompensas.

Parece simples dividir as pessoas em dois grupos, os que jogam e os que não arriscam. Na prática não é tão fácil assim. Mesmo os mais conservadores, aqueles que avaliam todas informações disponíveis, calculam custos, benefícios e tomam decisões depois de avaliar meticulosamente as probabilidades, podem não resistir e eventualmente cair na tentação de jogar com a sorte. Estudos demonstram que quanto mais a recompensa torna-se palpável e imediata, maior o prejuízo na capacidade de avaliar riscos e maior a chance de arriscar para tentar ganhá-la.

Tomemos o exemplo hipotético de uma loteria em que a probabilidade de ganhar é de dez por cento e o prêmio é cinco vezes maior que a aposta. Se o individuo jogar um grande número de vezes, a proporção de ganhar é uma em dez e o prêmio recebido cinco vezes a aposta, ou seja, o ganho será metade da despesa total. Assim, quanto mais vezes jogar, mais dinheiro vai perder, pois os jogos de azar calculam os prêmios em função das probabilidades e o objetivo é depenar o jogador. Apesar de saber disto, cada vez que alguém ganha, a recompensa torna-se palpável e o foco dos jogadores é desviado da probabilidade para a possibilidade.

Qualquer coisa é possível, até mesmo o que raramente acontece. Ganhar na loteria jogando apenas uma vez é um exemplo de possibilidade. Probabilidade já é algo diferente, envolve cálculos, estimativas, experiências de uso comum ou técnico, e fornece graduações desde a mínima possibilidade até probabilidades de graus menores, médios e maiores. As probabilidades lotéricas indicam que se o individuo jogar regularmente, o ganho nunca compensará o dinheiro investido.

Nosso cauteloso viajante vai passar as férias em Las Vegas, visita um cassino e sabe de antemão que a banca nunca perde. Observa atentamente o jogo de roleta. Escuta os gritos de felicidade de um jogador qualquer ganhar o premio máximo na mesa ao lado. Ao ver a alegria, a montanha de fichas empilhadas, os comentários das pessoas, seu estado de espírito se altera, experimenta um sentimento de empolgação e, sem se dar conta, suas emoções passam a sobrepujar a lógica das probabilidades.

Acredita que seus números, combinações mágicas e orações têm a possibilidade de passar por cima das probabilidades. Compra então, sem pensar, por um preço não muito caro, a esperança de ficar rico. Perde todo seu dinheiro e reservas em minutos.

Isto não acontece apenas com jogos de azar. Muitas de nossas decisões mais importantes derivam de uma avaliação subconsciente dos riscos, onde reações emocionais perturbam a lógica e podem levar a decisões ou julgamentos falhos.

Na festa de final de ano, uma funcionária tentadora seduz o gerente casado. As insinuações visuais e sensoriais são tão intensas que despertam o desejo carnal. Não se trata de um gerente ousado. Jamais tivera uma relação extraconjugal, sabe muito bem os riscos da destruição do casamento, da possibilidade de adquirir doenças ou de engravidar a parceira. Embriagado pelo calor do momento, torna-se incapaz de avaliar com precisão os riscos, esquece a família, esquece de utilizar preservativo e transforma-se em um libertino inconseqüente.

A questão aqui não é aprovar ou justificar determinado tipo de comportamento. Os exemplos citados servem para mostrar que hipocrisia e moralidade, amor e luxúria, honestidade e embuste, defeito e virtude podem coexistir numa mesma pessoa. Todos têm o potencial para mentir, trair, roubar e pecar, independente da magnitude de seu caráter e podem, sob determinadas circunstâncias, agir contraditoriamente ao que acreditam, pregam e exercitam em suas vidas. Atire a primeira pedra quem não se enquadrar neste conceito.

Não é de hoje o costume de fazer promessas e superstições para mudar de vida ao final do ano. Depois de comer lentilhas, pular sete ondinhas, usar calcinha ou cueca nova, guardar sementes de romã na carteira, beber champagne, abraçar parentes e amigos, promessas e previsões são proclamadas interna ou externamente. Neste momento de empolgação, o mesmo princípio que faz o homem sério jogar no cassino ou trair a esposa, faz com que o indivíduo confunda possibilidade com probabilidade.

A entrada de um novo ano faz vislumbrar a imagem de uma porta se abrindo, repleta de possibilidades. Nesta hora, alguns se entusiasmam e a probabilidade de efetivar promessas é substituída pela possibilidade casual de serem cumpridas, e por conta desta confusão, irrompem promessas inadvertidas. Geralmente as mesmas que não foram cumpridas no ano anterior, retornam recauchutadas para serem esquecidas depois do carnaval, quando realmente começa o ano. Pessoas sérias, virtuosas, caráter ilibado, sendo demagógicas consigo mesmas logo no primeiro dia do ano. São os riscos de viver.

Quando se trata de comida o perigo aumenta. Viradas de ano são um convite à promessas de emagrecimento, academia, dieta saudável. Prometer impulsivamente sair da zona de excessos e conforto do ano que passou, sonhando com uma mudança para os próximos 365 dias é um risco. Uma fatia de torta de chocolate com calda de morango é capaz de abalar suas convicções?

Boas festas, prometa com moderação, se beber não dirija.

Em 2012 a gente conversa e confere.

domingo, 1 de janeiro de 2012

O que será novo no ano novo?

Pe. Flávio Sobreiro
Filósofo Clínico, Poeta
Cambuí/MG


Será novo o ano em que mudarmos nosso olhar sobre a vida e sobre os problemas. Ao longo de nossa caminhada aprendemos a triste lição de ficarmos presos a somente um ponto de vista. Aprendemos a olhar a vida de maneira míope. O que será novo em nós começa a nascer de novos olhares que em nós se escondem. A luz de um novo tempo brilha silenciosamente nos jardins secretos que em nós habitam.

Talvez o poeta consiga enxergar o que muitos desejariam. Ele contempla o silêncio das palavras e nelas descobre a essência das palavras ainda não escritas. Ele dá vida a sementes que silenciosamente dormem nos canteiros da alma. Palavras germinam como as sementes: silenciosamente. No solo em que foram sepultadas as palavras brotam sob olhares de novas possibilidades.

Cada flor que nasce do silêncio é um olhar totalmente novo diante da vida. Cada esquina da alma revela o que antes nunca tínhamos visto. Caminhar entre os nossos sonhos nas campinas verdes da esperança é fazer do cotidiano a mais bela experiência de ser humano.

Olhar a vida com os olhos da bondade é acreditar que o mundo pode ser diferente se mudarmos o nosso olhar em relação a ele. A mudança não começa no outro, ela nasce em nós primeiro. O mundo quem em nós careregamos só começará a mudar quando mudarmos a nós mesmos. A mudança começa a cada nova manhã que se despede das trevas de uma noite que se tornou passado. Experiências de ressurreição nascem do que foi sepultado nas noites que não mais serão as mesmas.

Nem sempre é fácil mudar o olhar. É preciso que antes nasça o desejo em nosso coração. Muitos olham e não enxergam. Muitos enxergam e não conseguem olhar. Olhar é ir além do que vemos. É atravessar pontes e descobrir novos territórios em terras antigas.

A ponte que une é mais bonita que o muro que separa. O sertão que em nós habita pode ser tão bonito quanto o oásis que um dia sonhamos. Nos poentes da vida nosso olhar contemplará uma linda manhã que está para chegar.