sábado, 31 de março de 2012

Gramática da vida

Pe. Flávio Sobreiro
Poeta, Filósofo Clínico
Cambuí/MG


No plural da vida
sou o singular de minha história
nos pontos finais
insisto em ser reticências de esperança
conjugo o verbo do meu viver
no presente dos sonhos
escrevo nas linhas da vida
com a cor das possibilidades
no imperfeito que sou
aprendo com erros de tristes interpretações
com as vírgulas das experiências
separo o que de mim não pertence
interrogo a indiferença
e exclamo de surpresa diante dos mistérios divinos
abro as aspas da alma
para citar o amor de outros verbos
no sujeito simples que sou
me encontro com o composto, o indeterminado
e o oculto que ainda busca se encontrar
nos parênteses da vida
sou a gramática de meus sentimentos


sexta-feira, 30 de março de 2012

O sonho das palavras*


“Quem se entrega com entusiasmo ao pensamento racional pode se desinteressar das fumaças e brumas através das quais os irracionalistas tentam colocar suas dúvidas (...).”
Gaston Bachelard


Um enredo malabarista se insinua em rasuras de quase traço. O sonhar das palavras rascunha vontades, antecipa delirando aquilo desconsiderado pela razão conhecida.

Seus apontamentos dizem mais do que consegue traduzir. Não-ser acontecendo nalgum ponto entre realidade e ficção.

Essa sensação do fenômeno ter alguma sobrevida nos termos agendados no intelecto, possui rasgos de transcendência inevitável. Parece reverenciar o lugar instante onde a exceção, o acaso, se desdobram no agora continuado.

É possível ao verso irreal conter mensagens ilegíveis. Sua referência ao texto repleto de incompletudes parece querer dizer, ao leitor atento, sobre as alternativas de reescrever-se com sua leitura.

Como se fora um rascunho a silenciar sobre a linguagem da natureza da linguagem. Desvendar aspectos de renúncia em se descrever por inteiro, registrar aparecimentos, desaparecimentos diante do mesmo com vestígios do outro.

A folha em branco a espera do traço, rememora o que se cala nas afirmações. O sujeito assim descrito esboça, no chão de suas vertigens, uma estética dos excessivos roteiros. Interseção onde temor e tremor transbordam expressividades de anúncio.

Sua errância descreve peripécias ilegíveis ao dado literal, sua sobrevida acontece nos contornos e margens do mundo conhecível. Ao cogitar uma ideia insinua a embriaguez de ser nada, se faz entrelinhas na quimera, na lenda.

O inédito percurso da ideia ou sensação, antes de ser palavra, transita pela irrealidade das zonas intermediárias, possui viés de prefácio inacabado, sedução dos devaneios da luz do dia pelas fantasias da noite. Um texto assim busca sua essência na sobrevida das desconsiderações. Realiza-se na utopia, ressoa em vozes da distância e da proximidade.

Território misto a contemplar movimentos de abertura e fechamento, oferece uma redação precária, no ser provisório dos relatos. Nesse sentido, um discurso ensimesmado desconsidera o mundo ao seu redor, para, em seguida, ser poética discursiva e se encontrar com as alquimias do cotidiano. Os jogos de linguagem assim descritos renunciam a percepção especialista, preferem a ingenuidade do olhar.

Um viés de retórica maldita oferece laços com a realidade da qual se afasta. As questões essenciais nem sempre podem ser encontradas no cotidiano. Para se aproximar com as evidências dessa matéria-prima, os significantes oferecidos reivindicam um papel existencial também investigativo.

A palavra mais que perfeita sugere uma multidão de personagens. Sua articulação reflete um manuscrito de silhuetas, franjas, dobras a descobrir-se nas releituras. Na frase começada existem outros roteiros possíveis.

Ao esboçar esse desconhecido na própria voz, sugere algo mais sobre as recusas do verbo definitivo. Eis um lugar para o indizível ter um nome, quase sempre impróprio, num chão que não lhe pertence por inteiro.

*Hélio Strassburger
Filósofo Clínico

quinta-feira, 29 de março de 2012

A diferença singular estrangeira e o espaço entre nós e os outros

Josy Panão
Filosofa Clínica
São Paulo/SP


(...) A cada peça de roupa e a cada objeto meu que organizava, a sensação era de que, por mais identitárias que essas coisas fossem, eu me despojava de uma zona de conforto, de um lugar onde minha identidade exercia seu legítimo direito de existir.

Essa sensação era algo difuso num ambiente onde era grande o impacto de viver um projeto novo e completamente diferente de tudo que já havia vivido antes. E por isso mesmo, perceber o que acontecia por dentro só podia realmente se dar num outro momento: num momento em que a conexão com essa nova experiência que se abria para mim encontrasse um plano de fundo totalmente diferente.

Partia levando minhas malas e todas as minhas expectativas. Seguia rumo ao desconhecido, ao encontro como o outro; partia com o corpo todo preenchido por uma sensação inexplicável: uma sensação intensa, frágil, delicada, desnorteante, vital.

Viver esse momento de preparação tinha um quê de simbólico, pois, quase sem perceber, sentia (porque não entendia, não sabia e não saberei jamais explicar) que um panorama de diferença (aquela diferença pura, por ela mesma, sem subterfúgios de paradigmas identitários – princípios de identidade; contradição; síntese, etc...) se mostraria e exigiria que esta experiência fosse vivida. Eu estava inocentemente preparada para embarcar nesta viagem que me levaria para viver o conceito de diferença nela mesma.

(...) O adeus e o momento da partida – deixar o estável e habitar o instável, o campo vasto das possibilidades (desconhecidas?)
Havia alvoroço, medo, alegria, êxtase, melancolia, expectativas, saudades, esses e outros sentimentos, que se misturavam à sensação da diferença que me invadia, antes mesmo de deixar o lugar onde passei a vida toda, com todos seus planos fixos, estáveis e confortáveis.

Seria difícil me desgarrar dos amigos, da família, dos laços herdados de minha história pessoal, mas iria de qualquer maneira, isso era certo. Não havia outra coisa a ser vencida a não ser a paura de se desprender do que me fazia igual e de me encontrar com o diferente.


(...) Embarquei e, enfim, deixei minha zona de conforto para trás. Literalmente, não havia mais chão para voltar. Inebriada pela sensação que me tomava desde minha preparação para a partida, também não tinha vontade de regressar; queria antes viver a experiência de um lugar entre mim e os outros: o espaço da diferença.
Escuro, frio, chuva e eu estava no ar, completamente em suspensão e disposta a viver a experiência de estar no espaço entre, onde não conseguiria mais me identificar, ou me reconhecer como antes.

A chegada num lugar quase completamente diferente, quase completamente igual:
Chegar na Cidade do México foi uma sensação extremamente forte. Me senti aberta, frágil, vulnerável, sem nenhuma referência.
Estava completamente entregue a um fluxo que me tomava e me fazia flutuar sobre algo que realmente desconhecia. Minha identidade fora deixada para trás, já não mais a encontrava da forma como estava acostumada no Brasil.

Não tinha medo, mas sentia que, desde meus primeiros momentos nesta cidade, estava encontrando alguns limites. Alguns até que jamais poderia reconhecer se estivesse envolta pelas seduções das zonas de conforto.
Por mais óbvio que pudesse parecer, o primeiro limite foi o idioma espanhol e sua melodia totalmente diferente, que faz com que palavras iguais nas duas línguas (português e espanhol) se tornem irreconhecíveis.

Afastar-se de sua língua materna é algo que te coloca completamente em xeque; você se destitui de uma tal maneira do que te localiza num espaço e tempo que tudo o que já se fabulou sobre o conceito de desterritorialização ganha proporções muito mais concretas e extremamente “claras e distintas” (o velho e bom Descartes!).
Cheguei num país que nunca antes havia visitado e desconhecia quase por completo seu idioma, mas pensava que, pelas similaridades entre o português e o espanhol, estaria apta a passar confortavelmente por essas duas realidades (que são distintas e não adianta negar!). Ledo e bom engano, pois senti mais vivamente a deriva de estar num mar de diferenças disfarçadas por similitudes.

Ver e compreender esses limites não foi fácil e, sim, uma experiência muito forte. Me senti muitas vezes desnorteada. Fui forte diante de alguns limites, desabei diante de outros, troquei os pés pelas mãos, fui ao extremo daquilo que me identificava dentro de minha zona de conforto, amparo e refúgio afetivo.
Diante destas situações e entre um limite e outro, chorei; sorri; fiquei eufórica; me decepcionei; me arrependi; gritei; calei; falei, disse até coisas que não sabia que conseguiria algum dia dizer. Me senti encorajada a elaborar tudo simultaneamente na medida em que as coisas aconteciam, pois o contexto de referências prévias deixava de ser um solo firme para meus pés. Encontrava força no silêncio. Fazia, e tenho feito, tudo para não deixar vãos, tudo para não deixar as coisa escaparem de minhas mãos.

Entre o que eu trazia e sabia sobre mim e aquilo que passava a assimilar do outro, encontrei um espaço que abriga uma diferença singular, uma diferença nela mesma. Na medida em que o eu e o outro assumem posições cambiantes, vou me refazendo a cada instante. Sinto dores latejantes pelo crescimento que essa experiência tem me proporcionado.
Pelos olhos indígenas rasgados que não tenho, pela primeira vez me vi diferente, me vi realmente estrangeira, não só porque não sou do México, mas porque consegui uma fresta para enxergar que as diferenças se expandem para além do que os olhos podem ver. Caiu-me as lentes da identidade e fui capaz de pensar que a diferença elabora e permite muito mais criar caminhos para as possibilidades que nos cercam.

Isso pode em alguns momentos assustar, mas que bom que assim é, porque provoca choque, provoca ação, reação e, sobretudo, movimento, que nos coloca em pé de igualdade (ou diferença!) com a vida. Acho que me redescobri, que me re-inventei e que me re-articulei entre o espaço que tinha no Brasil e o espaço que tenho no México.

O trabalho com a curadoria – o espaço entre nós e os outros:
Vim ao México para acompanhar o processo de montagem da exposição Lucas Bambozzi – o espaço entre nós e os outros. Eu tinha como missão lançar na rede, através do blog da curadoria, fotos, vídeos, informações, depoimentos, textos, enfim, todo o material disponível sobre o andamento de cada detalhe, sempre através da minúcia e da tentativa de contato com o público.

Quando Christine Mello, a curadora da mostra que reúne 20 obras do artista Lucas Bambozzi, estabelece suas articulações, ela elabora também uma curadoria de processo, que pretende ampliar o espaço de recepção dos trabalhos, levando a cabo oficinas, palestras, conferências, o desvelamento de todas as etapas da montagem e a escuta sensível do espaço expositivo, do espaço de troca com o outro.

Desnudar esse processo, estar afinada com ele, foi o modo mais evidente de me colocar em contato com as diferenças culturais dentro do âmbito do trabalho e das relações que estabelecemos no cotidiano. Precisei me adequar ao ritmo local, me colocar em situações tensas com leveza, isso fez com que a visão da diferença se desse ainda de maneira mais intensa.

Já ambientada na diferença, carregava também uma dimensão maior do que o eu e sentia no corpo essa passagem: a transformação do eu em nós. E estar ali diante da montagem dos trabalhos de Lucas, que, através de sua poética, busca colocar em evidência um espaço entre (seja entre ele como artista e o público, seja entre diferentes culturas, seja entre diferentes contextos, seja como for...), fazia com que, embora sutis, as nuances desses enlaces, que acontecem nos espaços de meio, elaborassem de forma orgânica o contato com o outro, que agora deixa de ser um outro universal e passa a respeitar as diferenças singulares e estrangeiras de cada um.

Senti, pela primeira vez, que fazia parte de uma coletividade chamada nós (que representa brasileiros) e que estava em contato com uma coletividade chamada outros (que representa mexicanos). Esse espaço entre uma coisa e outra se mostrou cheio de diferenças, que não se podem aclarar como na velha forma tradicional, através de submissões racionais e explicativas, mas, sim, pela real dimensão do vivido.

Participar da montagem e ajustes finais dos trabalhos de Lucas expostos no Laboratório Arte Alameda, na Cidade do México, me permitiu perceber essa potência cambiante que acontece no espaço entre, pois ora o nós podia se tornar o outro, e ora o outro podia se tornar nós.

Poder registrar essas nuances de um processo expositivo através de seus registros, sejam eles imagéticos ou meramente relatados, como agora, talvez possa tornar sensível a experiência de estar diante dessa poética de expansão da diferença nela mesma, que, portanto, não exige muita coisa além de vivenciá-la.

A curadoria de processo permitiu que os trabalhos do Lucas não estivessem somente no espaço físico do museu, e tão pouco os encarcerou em produtos prontos; ela permitiu o desnudamento de processos sutis e de relações cotidianas, abriu a possibilidade para sensibilizar a diferença através do espaço entre nós e os outros.

E esse tem sido o meu trabalho por aqui: participar ativamente desse processo poético e compartilhar impressões e registros através da rede. O processo está aberto para a diferença singular estrangeira através do espaço entre nós e os outros.

quarta-feira, 28 de março de 2012

Desejos

Patrícia Rossi
Advogada, Gestora em RH, Filosofa Clínica
Juiz de Fora/MG


Hoje eu resolvi “não fazer nada”, que no final acabou sendo um “fazer tudo”. Um tudo diferente… uma faxina… faxina da alma. É tempo de catarse, momentos de reflexão, solidão, pensamentos, desejos, pedidos… amanhã será outro ano.

Meu ano de verdade só começa depois que faço aniversário. Meu calendário é diferente, é só meu. Vai de acordo com meu nascimento. Começa e termina comigo. E é comigo que preciso conversar e trocar figurinhas hoje.

Falar com a pessoa que encontro desde a hora que acordo até a hora, o minuto e o segundo que vou dormir. Essa pessoa que vejo todos os dias no espelho e que se mostra com mil facetas pra mim: tem dias que está bonita, maquiada, arrumada, e tem dias que está horrível, de cabelo em pé, olheiras, toca no cabelo ou com um pijama que só o espelho e a cama conhecem. Pessoa mais íntima pra mim impossível. E apesar de toda convivência ainda continua sendo um mistério, uma incógnita indecifrável. Essa pessoa multifacetada, com uma felicidade e uma tristeza que só eu confidencio.

Por isso hoje resolvi dar atenção especial pra esse alguém que aparece em todas as minhas fotografias e estará fazendo mais uma ano de vida. E olhando pra trás vejo anos vividos com intensidade… sorrisos, abraços, choro, tristeza, viagens, amores, amigos, família… “haja hoje para tanto ontem!”.

Então eu digo pra esse alguém que os dias dessa vida sejam doces lembranças… sempre doces… e que te façam seguir mais forte e confiante. Que o mundo dê voltas e coloque tudo que você precisar no seu devido lugar, mas que você jamais fique esperando as coisas acontecerem… sempre corra atrás dos seus sonhos e objetivos, sempre!

Que você continue se doando e se entregando de corpo e alma aos que você ama, mesmo que isso pareça cafona, retro e completamente anos 20 (aproveite que Vintage está na moda). Jamais perca sua doçura e ingenuidade de menina – mesmo que você se machuque pelo caminho – e não deixe seu coração endurecer diante das amarguras.

Ok? Estamos entendidas? Desejo tudo isso pra você, pra mim… e que você jamais esqueça que pode contar comigo sempre… e espero poder contar com você também. Meu lado bom e meu lado mal, num equilíbrio que só a gente conhece.

Feliz Você! Feliz Eu! Feliz aniversário!!!!

terça-feira, 27 de março de 2012

O que permanece quando muda?

Miguel Angelo Caruzo
Filósofo Clínico
Juiz de Fora/MG


Gosto de algumas afirmações heraclitianas, sobretudo a ideia de movimento. Plutarco (46 a 126 d. C) apontando concepção de Heráclito (535 a 475 a. C.) diz:

“Em rio não se pode entrar duas vezes no mesmo, segundo Heráclito, nem substância mortal tocar duas vezes na mesma condição; mas pela intensidade e rapidez da mudança dispersa e de novo reúne (ou melhor, nem mesmo de novo nem depois, mas ao mesmo tempo) compõe-se e desiste, aproxima-se e afasta-se” (Plutarco, Coroliano, 18 p. 392 B.).

A proposta de mudança pensada por esse pré-socrático pude vivenciá-la ao longo do que a vida me concedeu experimentar até agora. Eu mudei, a realidade à minha volta mudou, as pessoas mudaram. E talvez uma das mudanças mais claras e necessárias que experimentei foi a aproximação de algumas pessoas e o afastamento de outras.

Aprendi que na medida em que mudamos, não mudamos o modo de ser das pessoas ao nosso redor, pelo menos na grande maioria dos casos. O que mudam são as pessoas que nos cercavam. Mudam-se as crenças, os pontos de vista, o modo de vivência social, a profissão, os lugares frequentados, e com tais mudanças as pessoas são outras, os assuntos discutidos são outros, a vida é outra.

Às vezes as mudanças causam medos e acabamos por nos agarrar ao que já não faz parte do que somos agora. Prender-se ao que não é de nosso universo ou estado atual impede que o novo seja bem recebido. O novo exige espaço novo, olhos novos, receptividade de algo disposto a ser renovado. Afinal, jogar água limpa em recipiente sujo não muda o ambiente do recipiente qualitativamente. Medo e mudança, nesse caso, são antagônicos. Mas, podem conviver como opostos heraclitianos numa dialética em vista de denominador comum ou no vencer de um dos pólos. E que vença o que nos fizer melhor.

Tudo muda o tempo todo e mesmo a tentativa de permanecer o mesmo não impede a mudança. Ainda que as buscas sejam as mesmas, os pontos de chegada determinarão outros pontos a serem alcançados. Ainda que queiramos lidar com as pessoas como fazíamos antes, tudo o que nos foi acrescentado ao longo da jornada nos tornou diferentes.

O convívio já muda as coisas. Por mais que quiséssemos conviver com as mesmas pessoas nos mesmos ambientes, ainda assim essas pessoas adquiririam outros modos de lidar conosco, e já não seriam as mesmas pessoas e nem seríamos os mesmos com a ação delas sobre nós.

E o que fica diante disso? Heráclito dirá: a mudança. Esta pode causar medo às vezes. Por vários momentos nos deparamos com horizontes obscuros à frente. Não seguir em frente, ainda que não vislumbremos onde iremos chegar, já é uma escolha, dirá Sartre e Heidegger.

E na visão heraclitiana, a mudança permanecerá acontecendo. Pois diante da ausência de ação no vislumbre do horizonte, o horizonte e a ausência de ação mudarão. Decisão já é uma mudança ao mesmo tempo em que o horizonte também muda, sendo ou não percebido por nós.

Ler esse texto já mudará alguma coisa no leitor, assim como está mudando meu modo de ver a vida, mesmo que eu esteja descrevendo uma constatação de minha vida e não me propondo mudança alguma.

Nas primeiras linhas éramos um e agora somos outros: tanto eu enquanto escrevo quanto você enquanto lê. Percebemos uma mudança senão no comportamento, pelo menos nas críticas observadas ou nas reflexões suscitadas. Negar o conteúdo do que foi lido, já constitui uma mudança, pois já terá visto outro ponto de vista e saberá que todos os parecidos com estes são suscetíveis de serem negados.

segunda-feira, 26 de março de 2012

Sobre a Lua

Luana Tavares
Filosofa Clínica
Niterói/RJ


A Lua sempre me encantou, mas não por algo em especial e sim por puro fascínio. Na verdade, não saberia explicar exatamente o porquê, talvez simplesmente a entenda como se fosse um espelho da própria singularidade humana. A Lua é inteira, é metade, se oculta e transparece no seu próprio tempo, mas também reflete, provoca, inspira, desvanece.

Seu movimento preenche expectativas, controla colheitas, determina processos e desperta poesias... sem justificar ou se explicar, apenas concentrando a vida em suas fases e não se importando com as distâncias e as temporalidades.

Desde que seu brilho não seja ofuscado pelo vácuo insondável da simplória existência, ela se manifesta a quem puder senti-la e apreciá-la. Também partilha momentos de intimidade e introspecção, assim como aqueles de euforia e perdição.

Já presenciou dores e alegrias, discursos vãos e profundas falas de rua. Das sombras à plenitude, cumpriu seu destino de manter equilíbrio e instigar desafios, fluindo pelas transformações crescentes e cheias de significado. Mas também minguou e se renovou na aposta dos violeiros.

Na dança das marés, homens se debruçam em silêncio respeitoso à sua vontade, como se dela dependesse o destino dos mortais, na roda da fortuna governada por sua soberania e através de seu poder. Esta é a Lua que domina, que se impõem e não perdoa.

Mas a Lua, como a vida, sabe ser bela, onipresente, misteriosa... e permanece lá, da forma como a intuímos, envolta na névoa confusa da imaginação e da realidade fatídica que se manifesta. Suas rotações permitem eclipses e o depósito de nossas (in)completudes e nossos devires.

É a Lua... à disposição para olhares apaixonados, apreensivos, enigmáticos. E para os pulsares invisíveis da sintonia humana.

domingo, 25 de março de 2012

Fragmentos filosóficos delirantes XCI*


"As letras que compõem uma palavra, embora sendo cada uma racionalmente insignificante, buscam em nosso espírito, incessantemente, sua liberdade, a liberdade de significar outra coisa."

"Dionísio é um deus complexo, dialético; é ao mesmo tempo um deus infernal e da renovação; é o próprio deus desta contradição."

"É necessário lembrar que a classificação das vozes humanas - como toda classificação elaborada por uma sociedade - nunca é inocente."

"(...) constato, mais uma vez, como é difícil falar daquilo que se ama."

"O estatuto do canto romântico é, por natureza, incerto (...) como arte extrema, se exprime através de um ser singular, intempestivo, marginal, louco se, em um último gesto de elegância, não recusasse a máscara gloriosa da loucura."

"A voz humana é, na verdade, o espaço privilegiado (eidético) da diferença: espaço que escapa a todas as ciências, pois nenhuma ciência (fisiologia, história, estética, psicanálise) é capaz de esgotar a voz: classifiquem, comentem historicamente, sociologicamente, esteticamente, tecnicamente a música, restará sempre algo, um suplemento, um lapso, um som dito que se designa a si próprio: a voz."

"(...) o sentido obtuso leva ao infinito da linguagem (...). Indiferente as categorias morais ou estéticas, enquadra-se na categoria carnaval."

"(...) a assemia passa por uma polissemia exuberante, desvairada: o nome não pára no lugar."

"Mudar o nível de percepção: trata-se de um choque que abala o mundo classificado, o mundo nomeado (mundo reconhecido), libera uma verdadeira energia alucinatória."

"(...) o sentido depende do nível em que o leitor se coloca."

*Roland Barthes

sábado, 24 de março de 2012

RETIRANTE DE SI*

Vânia Dantas
Filosofa Clínica
Uberlândia/MG


Vou-me embora[1] pro meu exílio[2]. A exilada procura semelhanças e não se encontra. Mora no escritório, trabalha no quarto. Às vezes procura a sorte como Macabéa[3] e teme seu fim, como acontece ao consultor de cartomante[4]. Mas seu futuro estava ali, está acontecendo tudo como foi visto. E digo mais, como foi escrito.

Especializou-se em compor mitos sobre os quais funda sua esquizo-análise[5]; escreve antes o que vai viver. Conhece o personagem de Jack Nicholson[6], nega que também tenha uma coleção de rituais para se sentir melhor e... por favor, pare de escrever e viva – mas está assim na vida, perdida!

Da percepção de Lya[7], destaco a solidão na praia. O cinza presente em tudo, como nas nuvens deste final de ano; tudo se decompõe porque ela assim se faz. Vê a dor dos outros porque também sente uma – várias: da infância, da falta, da adolescência, da idade adulta, da madureza, da velhice. Não termina feliz, mais esse mito. Mas veja, ela não construiu um mito de felicidade – coisa que ainda posso fazer por mim.

Depois de tantos simulacros que vivo, alguns dos quais estou me tentando livrar, pretendo fazer uma despedida – tive a idéia de despedida agora – purgar o que ainda há a resolver e partir para desafios, realmente, para o teste dos limites, agora que encontrei os caminhos.

Retirei-me de meus hábitos, de minha cidade, de minha vida. Com essa alergia recorrente, pareço retirar-me de mim, dolorosamente arrancada das facilidades que tinha. Ainda sei que luto muito; às vezes, por emoção se fraqueja, mas que é coisa passageira, pois não há alguém por nós. Em minutos levanto e faço o que preciso; me aguardo no hospital, faço-me comida. Caio aos pedaços em tontura com a inalação; deixo-me dormir em meu colo, em minhas mãos, mais estonteada com os remédios.

Vários sonhos já se realizaram. Preciso de metas maiores, algumas das quais estou imaginando por estes dias. Quero construir um mito saudável que vai virar filosofia. Talvez até esse trecho seja parte do artigo de novembro da FC, que você pode me ajudar a escrever.

Um “coração tropical coberto de neve”[8]; onde será seu lugar? Para não atormenta-lo, passo a escrever sob todas as regras, sejam conceituais, lógicas, éticas, gramaticais, filológicas e juro não incorrer mais em neologismos nem cair no “idiomofagia”; afinal, esse é o pacto de convivência entre os homens, o respeito aos espaços e às áreas demarcadas de terra e de conhecimento. Entretanto, ainda faço um texto informal.[9]

Agora vão as pistas, mas mais necessário do que ler com um dicionário do lado é ter um home theatre[10] completo e uma biblioteca à disposição[11] pra me encontrar ao todo.

Atenderei, com todo o meu esforço, ao imperativo categórico do dever[12], mas atendendo-o forçosamente já não estarei cumprindo fielmente o mandamento, pois que se deve agir prontamente por vontade própria, sem que passe pela cabeça a foice da coerção; a sua coerção é o afastamento.

E jurar não se jura, pois de pronto já se está imaginando como burlar o jurado e mesmo a infringi-lo. Os malabarismos do raciocínio têm exigido imenso esforço de acompanhamento lógico nas sessões. A mente do consultor filosófico vira uma mesa de engenheiro ou de desenhista de quadrinhos.

Você, como se fosse minha própria consciência, mostra minhas palavras, das quais tinha me esquecido, para exigir que eu seja eu mesma. Escondido nos textos o segredo dos escritores. É preciso entender de lógica[13] para ser sofista, mas nem lógica nem moral seguram a paixão[14].

Mulher, rainha da fantasia. Precisa ser ser do ar, pluma esquecida de sua natureza densa. Com palavras, sonha carinhos. Para o outro, que vai levar? Um conteúdo de paixão, talvez por si mesma, adornada de bolhas de sabão. Uma surpresa que vai embora, sem nem começo. A espera eterna de novo tem que fechar a janela. Uma saudade insone que respira longo, estirada feito gato, indolente nesse calor de forno. Qualquer coisa na TV, esse atrativo fatal; só vê os pensamentos passarem; sua história é mais linda porque a sente.

“Aquela poeira estava sempre ali. Cobria o chão, os móveis, as roupas, os cabelos e a pele. Turvava o olhar, mas isso já não conseguíamos perceber. A tarefa de remove-la, limpar tudo, era repetida ao longo do dia, e lá estava ela vindo não se sabe de onde. Às vezes uma revolta contra ela, outra vez resignação. A primeira tornando-se mais rara; esta última cada vez mais freqüente. (...) A poeira se levanta e facilmente pode turvar tudo, gradativamente. E podemos passar a viver por... poeira. Trocamos os fins pelos meios. Ao se remover a poeira, enxerga-se a cor verdadeira, sente-se a textura, percebe-se as formas exatas. (...) A poeira será recorrente, mas o nosso foco e a nossa atividade intencional também o serão.”[15]

Escrevo em primeira pessoa, como em algumas pós-graduações do Brasil é permitido, pois faço uma inversão e não deixo que a crônica/poesia em verso mais uma vez apareça apenas com fragmentos da fala do outro, numa mistura de recíproca de inversão que, creiam, traz muito mais de mim do que imagino.

E muitos dos que se aproximarem desse escrito lembrarão da régua metodológica[16]. Alguns serão a própria, o bicho científico, que desafia o procurador de emoções, de sensorial, de reciprocidade e de tantos outros tópicos e escava submodos para conseguir dizer se ele também é um ser humano, porque o pobre consultor avalia o outro pelo que ele é e a diferença assusta. E nada de partículas apassivadoras, vamos direto ao ponto, nomear os personagens, exceto quando ele falar de si para si mesmo, no movimento de retorno à fonte.

Enquanto o ouço, penso (o quanto consigo diminuir de meu pensamento), penso: “Puxa, com um salto desse, um desenvolvimento de raciocínio maçarocado, como ele mesmo diz, e depois com uma epistemologia e uma lógica perfeitas, pra depois voltar ao assunto imediato e jogar lances do jogo atual, o que é que eu vou dizer agora?”

O tempo todo me vigio e vigio minhas palavras. Meus sinais de pontuação. Meus rabiscos, riscos, sinais. Passo a ser lacônica nas provas para não afetar o outro, mas insisto em apresentar considerações. A falta delas é um lapso, uma perda de oportunidade para apontar/escolher caminhos. O professor é um agendamento massivo. Localizam-me nos espaços públicos; agora faço maior diferença.

E caminhos, como escolher acertadamente? Pra qual estado ir, o que será do amanhã? Como ter certeza de poder terminar os projetos antes da próxima transferência? Como deixar de ter conflitos consigo mesmo ou de ficar entre “dois rios”[17], o Paranaíba e o Grande, ou entre o Negro e o Solimões?

Voltando a Lya, o mais impressionante nela escritora é a crueza da expressão do sofrimento; e ela muito escreve sobre família – a raiz de tantos pesares por aí, é verdade. Às vezes escapa da gente um pré-juízo nesse sentido, mas é que marcou muito.

E eu estava bem crente que toda essa aventura fosse passageira como uma viagem de férias, agora não há data marcada para voltar. Nem sei se há volta; talvez eu siga pra frente, como o caminheiro que nos pede um real para continuar, mochila às costas. É isso aí.

Em julho fez frio, frio seco que penetra pela malha de fios grossos. Por esses tempos, um clima que me esvazia de minha naturalidade e de minha hidratação. Não há morros; vejo até perto os pastos do gado. Moro na parte mais plana da cidade que não tem tantos declives; coisas leves, mal dá pra fazer um teste de embreagem.

E quem me vem visitar? As bananas que trago do supermercado. Tudo tem dependido de minhas mãos, de minha decidida atitude. E não me identifico com a cidade. Não me vejo em partes dela; talvez nalgum enfeite de jardim, mas não encontro meu canto. Quebro a cabeça para saber como refletir no apartamento o que sou, para me ver direito, sentir algo familiar nesse ambiente tão diverso, de paredes brancas, de cultura e de negócios tão diferentes dos meus interesses e no qual não sei se sirvo como poderia.

Não me identifico pelas ruas, não vejo minha história nos ladrilhos e nas falhas dos passeios; raramente respiro história numa casa mais idosa que ficou, com canteiros de couve misturados a plantas de jardim intrometidas; casas baixas, sem forro, de vermelhão. Têm tempo, têm mais vida, têm história.

Penso em oferecer préstimos, quem sabe? Planejar, o eterno plano de realização; o que mais funciona em mim – atingir metas. Procuro metas, talvez crie necessidades em clientes, quanto a uma formação conteudista.

Bye bye Brasil[18]. Imagino você longe e longe é a palavra. Nem é tempo que tem tanta importância mais, é distância. Luto pra não me lembrar da verdade: estou sozinha de novo. Colecionar todos esses pensamentos que compartilhamos, os planos, a troca de motivação é que nos vai ajudar a viver. Minhas energias hora se elevam, hora estão em baixa; tenho me exigido demais, os outros também. De manhã, o clima ficou lindo, embora abafado, com nuvens misteriosas para combinar com as minhas músicas[19].

E eu trabalho. Que trabalho difícil esse, sobre mim. Fazes que retorne para o meu estudo, para aceitar que esse corpo ainda existe e perguntar porque ele se cala. A possibilidade de cultivar tudo isso de que gosto, para o que eu ainda não havia reservado espaço, me surpreende. E fico parada ouvindo essas letras, transportada para outros locais, mapas rodoviários, nuvens. Nostalgia pra que? Nasci pra isso.

Vou importando peças decorativas de Uberlândia. Como serão os próximos meses? O que vou fazer pra suportar? As pedras imóveis[20] se esfarelam à beira da estrada. Fica difícil ficar quieta aqui. Como minha mente tem que ir pra longe! O que seria eu sem a memória? Suspiro para um canto de sala vazio. Não estou aqui.

*(em homenagem a Lya Luft)

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[1] Manuel Bandeira. Vou-me embora pra Pasárgada. In: Antologia de poetas brasileiros.

[2] Gonçalves Dias, Canção do exílio.

[3] Clarice Lispector. A hora da estrela.

[4] Machado de Assis. A cartomante e outros contos.

[5] Félix Guattari. O inconsciente maquínico: ensaios de esquizo-análise.

[6] Filme: Melhor impossível.

[7] Lya Luft, O exílio.

[8] João Bosco. Corsário.

[9] Ainda ouso ocultar local, editora, data, volume e outros dados.

[10] Sistema completo de reprodução de som e vídeo.

[11] Bibliotecas do Sistema S, de Universidades e corporativas.

[12] Kant, Fundamentação da metafísica dos costumes.

[13] Aristóteles, Organon.

[14] Vide Abelardo e Heloísa.

[15] Carlos Pereira de Moraes, Tal qual poeira.

[16] Joaquim Severino. Metodologia científica.

[17] Skank. Dois rios.

[18] Chico Buarque, Bye bye Brasil.

[19] Seleção de Chico, Jobim, Milton, Gonzaguinha, Elis e Caetano.

[20] Raul Seixas, Medo da chuva.

sexta-feira, 23 de março de 2012

Primeiros outonos

Pe. Flávio Sobreiro
Poeta, Filósofo Clínico
Cambuí/MG


Aprendizados nascem de experiências
de antigos passados e novas esperanças
sempre assim

uma lágrima que brota da dor
e muitas saudades sem nome
de despedidas que anunciam

o regresso daquilo que em nós
sempre esteve guardado
nos jardins de nossa alma

saudade é flor que desabrochou
e se perdeu em outras tantas
no mistério que somos

o singular dos múltiplos plurais
que habitam meu ser
perdem-se em mundos
de outras dores

e em sorrisos de novos tempos
viver talvez seja isso
fazer de cada outono
a despedida de processos
que cumpriram seu papel

e esperam as possibilidades
de novas estações que anunciam
as alegrias de sementes
que serão frutos
de um novo tempo que vai chegar

quinta-feira, 22 de março de 2012

Coisas simples encantam a alma

Rosângela Rossi
Psicoterapeuta, Escritora, Filosofa Clínica
Juiz de Fora/MG


Estou convidando você a parar um pouquinho.
Olhar seu entorno
E ver...sentir...perceber.

Há vida pulsando em tudo. Átomos em movimento.
Coração, em sístole e diástole, no ritmo da terra,
Tocando seu tambor.

Na complexidade existencial a simplicidade no foco.
Instante de suprema atenção.
Figura no fundo vasto e intenso.

Ponto de encontro.
Um ponto apenas.
A diferença.
Entrega.
Rendiçåo - rendenção.

Para quem vê e ouve nesta pausa.
A revelação.
As coisas simples encantam a alma.
Músicas e cores dançam a celebrar a vida.

A poética do existir perpassa todo o corpo.
O nada se faz tudo.
Benção dos deuses.
Sem bem, sem mal.
O que é apenas é no vir-a-ser.

A razão pura, intuição, faz brotar
O lótus da criatividade suprema.
Inspiração. Respiração.
É vida!

quarta-feira, 21 de março de 2012

Em cima da hora!

Um super abraço aos colegas que embarcaram ontem a tarde de São Paulo em direção à Universidade Hebraica em Israel.

Terão pela frente uma jornada de estudos, celebração de parcerias, confraternização com a cultura local.

Que os bons ventos ofereçam saber, sabor e harmonia ao querido grupo de Filósofos Clínicos, coordenados por Lúcio Packter.

Coordenação.

terça-feira, 20 de março de 2012

Alfin, o fantasma

Lúcio Packter
Pensador da Filosofia Clínica


Alfin notou que Samary o chamava eventualmente de Velles quando muitos meses depois de se conhecerem ela o chamou de “... não diga assim, Velles” – em frente a um amigo em comum. O amigo em comum conhecera Velles, ex marido de Samary, e comentou, com ar afetadamente informal com Alfin enquanto Samary atendia a uma breve chamada no celular.

Alfin achou curioso e passou a reparar na frequência com que Samary o chamava de Velles. Estes reparos se somaram a outras observações como “... tu nunca me ouves” – logo ele que se caracterizava entre as pessoas por ser um compadecido ouvinte. E “... tu sempre me colocas para baixo, nunca me apoias”, expressões sinônimas de “...estás sempre me criticando”.

Alfin começou um processo de perguntas a Samary. As respostas de Samary eram somente confirmações para as perguntas.

- Samary, eu sempre te critico?

- Sempre... ontem quando comprei aquele sapatinho baixo me perguntaste porque precisava custar duzentos reais.

- É verdade, eu disse. Mas em tantas vezes eu nunca comentei nada.

- Não comentar não significa não pensar, V... Alfin.

O tempo passou e Alfin percebeu outros eventos que lhe deixaram perplexo, nos primeiros meses; triste, nos segundos meses; nos meses a partir de então ele quis compreender o que se passava.

Por exemplo: ao referir-se à mãe de Alfin, Samary inúmeras vezes a chamou pelo nome da mãe de Velles; ao providenciar um almoço surpresa, Samary chorava porque achava que Velles, aliás, Alfin, traria amigos – mas que ele nunca fez isso, como costumeiramente Velles fazia. Quando jantavam fora com amigos, Samary acusava perturbações como a irritação a partir de qualquer coisa, acusava Alfin de se exibir, de a menosprezar diante dos outros, de preferir os amigos a ela.

Foi então que Alfin teve um sonho. Era uma noite quente, verão, e no sonho os amigos, Samary, outras pessoas estavam em uma aldeia, beira mar, saboreando sucos, no início da noite. Alfin falava para as pessoas, mas elas não respondiam para ele; ele perguntava ou pedia, ninguém parecia sequer lhe ver. Colocou-se diante de uma senhora e ela, serenamente, passou pelo meio dele. Alfin tomou um susto. Sentou-se. Pegou um copo de água, mas os dedos atravessaram feitos nuvens o copo, a água, a mesa.

Samary, olhando para a cadeira onde ele estava sentado, mas sem o ver, falou em tom baixo, mais para ela mesma ouvir:

- Por que Alfin não veio?

Alfin veio, mas era um fantasma. Somente poderia ser visto e tido como fantasma, não como pessoa. Ao acordar, ele estava calmo, suave, ainda com vontade de seguir dormindo. Na cama comentou com Samary o sonho.

Ela disse que aquilo era uma bobagem, que fantasmas não existem, que fantasmas não escolhiam o canto da cama no qual gostam de dormir, como ele sempre fazia. E, aliás, como ele nunca, nunca, fez...

segunda-feira, 19 de março de 2012

Singularidade

Beto Colombo
Empresário, Filósofo Clínico, Coordenador da Filosofia Clínica na UNESC
Criciúma/SC


Recebi um e-mail de um amigo empresário depois da aula sobre Filosofia Clínica nas Organizações. Nessa aula, estudamos Schopenhauer, principalmente na parte de seus escritos, quando ele nos diz que o mundo é a nossa representação: “O mundo é a minha representação (...) tudo que existe, existe para o pensamento, isto é, o universo inteiro apenas é objeto em relação a um sujeito, percepção apenas, em relação a um espírito que percebe numa palavra, é a representação”.

Sendo assim, existem tantas representações de mundo quanto pessoas existem sobre a Terra.

“Como vou me posicionar diante de um ponto problemático como esse em minha empresa?” – perguntou o empresário.

Veja só, disse-me ele: “Eu tenho uma visão de mundo que não é a mesma visão de meu diretor, que por sua vez tem uma visão diferente de seus subordinados, que por sua vez tem visões diferentes entre si, sendo às vezes impossível estabelecer uma única representação de mundo até mesmo num pequeno departamento em nossas empresas.

Em Filosofia Clínica se aprende a respeitar a representação do outro, o que não significa aceitá-la, vivenciá-la, mas compreender que o outro pode não ver o mundo da mesma maneira que eu vejo ou outra pessoa qualquer vê, que ninguém deve ter o monopólio da palavra e muito menos da verdade, que as pessoas não têm sempre as respostas e que a resposta provavelmente estará ligada ao seu acervo, a seus aprendizados durante sua história de vida. Em Filosofia Clínica, não há conceito de normalidade, anormalidade, rótulos, teorias.

Para nós, Filósofos Clínicos, o ser humano é plástico, flexível e está inserido num contexto muito específico que é o seu contexto. Ele é único e sem a sua historicidade não é possível compreendê-lo.

Assim, a Filosofia Clínica molda-se ao indivíduo através de uma relação dialógica, de um a posteriori, fornecido pela historicidade. Antes disso, nada sabemos diante do ser que se encontra diante de nós.

Se mais pessoas soubessem disso, muitos conselhos, agendamentos, dicas que fazem tanto estrago na malha intelectiva poderiam ser evitados.

É assim como o mundo me parece hoje. E você, o que pensa sobre singularidade?

domingo, 18 de março de 2012

Divagações I

Miguel Angelo Caruzo
Filósofo Clínico
Juiz de Fora/MG


O mito, tanto quanto qualquer construção referencial humana pode ser desfeito, destruído ou reelaborado pelo homem que o criou. Nenhum constructo humano cuja finalidade é compreender ou dar sentido à natureza ou ao cosmos, pode ser considerado absoluto. A experiência e os fatos demonstram que toda afirmação humana elevada à absolutização, tomando caráter dogmático – não somente no sentido religioso, mas político, social, cultural, etc. – acabou por tornar-se opressiva, agressiva ou punitiva para os que não comungaram da afirmação proposta. Os inovadores tenderam a ser massacrados pela massa que já haviam aceitado, por convenção, afirmações que um dia foram novas e agora tornaram-se “verdades”.

Tudo o que o homem tem como referencial a partir do qual todas as suas ideias são desenvolvidas vem por meio dos sentidos. No primeiro momento, os sentidos fornecem as primeiras impressões e, com o tempo, desde as primeiras abstrações, novas ideias vão surgindo, prescindindo por vezes, de voltar aos sentidos para confirmá-los ou validá-los. Os sentidos fornecem informações oriundas de algum lugar. Esse lugar não é visto em si, já que ele é reconhecido a partir do contato sensível com o homem que o conhece. Portanto, as coisas em si não são passíveis de serem conhecidas. Tudo o que o homem tem é o fruto daquilo que os sentidos o imprime.

Há ainda outros elementos que inibem a possibilidade de afirmar o conhecimento da coisa em si. Aspectos psicológicos, culturais, sociais, as limitações dos próprios sentidos, o modo como a intencionalidade foi forjada antes que um sujeito se deparasse com o objeto são alguns desses elementos. Um elemento imprescindível para o reconhecimento de que chegamos à coisa em si, é a própria subjetividade. Todos os dados externos ou objetivados pelo homem, possuem certa convenção, que passa a impressão de que todas as pessoas conhecerão ou compreenderão da mesma forma a referência externa comum.

No dia a dia da sociedade, é observável como a diferença entre os homens é clara. Na escola os alunos têm aula com o mesmo professor e a compreensão de cada aluno é diferente, como se pode notar nas avaliações. Gêmeos nascem juntos, tem a mesma criação, e ainda é possível ver desde a tenra infância, as diferenças entre eles. Poderia haver alguma objeção por afirmar que os gêmeos, por exemplo, poderiam ter recebido algum tratamento diferente, o que foi gradativamente modificando o jeito de ser deles. E uma objeção dessa forma corrobora com a subjetividade adquirida. Há ainda outro elemento, que é a imensurabilidade da particularidade interna do homem. No cotidiano, pode-se notar que alguns enxergam, ouvem, sentem, etc., mais do que outros. Os povos de países gelados percebem mais tonalidades no gelo do que quem visita a terra gelada oriundo de outro lugar.

Agora é tanto a percepção quanto a circunstância que também permitem diferenciações. Indo mais profundamente essas diferenças aumentam, pois como saber que um desenho ou palavras colocadas no papel e comumente compreendidas por todos, tem a mesma significação interna? Haja vista que por experiência, sabemos que nem sempre conseguimos expressar o que pensamos, sentimos ou experienciamos, e quando o fazemos, tende a ficar como uma exposição falha, limitada.

O que de mais objetivo se pode ter é a natureza, cujas interpretações são passíveis de serem mudadas. Todo fenômeno – a relação da coisa que se mostra e o homem que a percebe – é um fenômeno para alguém. Toda construção de mundo é paralela ao mundo e não ele em si mesmo. Tudo o que pronunciamos do mundo é atribuído por nós. Tudo o que o mundo é em si, não é apreensível. Seus acréscimos subjetivos (fruto das percepções ou oriundos delas) e derivados, (linguagem, cultura, circunstâncias, etc.), são limitados e mutáveis.

Voltando ao enunciado do primeiro parágrafo, os mitos – e aqui abrangendo toda construção epistemológica humana – são criações humanas, fruto de sua busca por compreender a realidade, o todo, a natureza, as coisas ou o sentido que elas tem na vida. E como toda criação humana, o conhecimento mitológico, filosófico, científico, é passível de reelaboração ou destruição. Tudo isso não desqualifica a busca humana, mas a enobrece. Toda busca, entretanto, deve ser pautada pela humildade de quem encontra algo e reconhece que sua afirmação acerca desse algo é sujeita a mudanças.

Como desfecho, vale lembrar a sabedoria dos pensadores que ao longo da história souberam lembrar que a relação com a realidade que nos cerca deve ser retomada voltando um passo atrás. As coisas se tornam novas, tal como o é para uma criança, cada vez que ela é tomada como se estivesse sendo vista pela primeira vez.

A filosofia – assim como toda área epistemológica humana – deve nascer do espanto que até as coisas mais simples e banais podem suscitar àquele que a nota como se fosse algo novo. E a cada tentativa de apreender a coisa como conhecida, novamente pode-se dar um passo atrás e espantar-se com a riqueza ainda não percebida.

sábado, 17 de março de 2012

Fragmentos filosóficos delirantes XC*


"Não-coisa

O que o poeta quer dizer
no discurso não cabe
e se o diz é pra saber
o que ainda não sabe.

Uma fruta uma flor
um odor que relume...
Como dizer o sabor,
seu clarão seu perfume?

Como enfim traduzir
na lógica do ouvido
o que na coisa é coisa
e que não tem sentido?

A linguagem dispõe
de conceitos, de nomes
mas o gosto da fruta
só o sabes se a comes

só o sabes no corpo
o sabor que assimilas
e que na boca é festa

de saliva e papilas
invadindo-te inteiro
tal do mar o marulho
e que a fala submerge
e reduz a um barulho,

um tumulto de vozes
de gozos, de espasmos,
vertiginoso e pleno
como são os orgasmos

No entanto, o poeta
desafia o impossível
e tenta no poema
dizer o indizível:

subverte a sintaxe
implode a fala, ousa
incutir na linguagem
densidade de coisa
sem permitir, porém,
que perca a transparência
já que a coisa ë fechada
à humana consciência.

O que o poeta faz
mais do que mencioná-la
é torná-la aparência
pura — e iluminá-la.

Toda coisa tem peso:
uma noite em seu centro.
O poema é uma coisa
que não tem nada dentro,

a não ser o ressoar
de uma imprecisa voz
que não quer se apagar
— essa voz somos nós."

*Ferreira Gullar

sexta-feira, 16 de março de 2012

PARECE FICÇÃO CIENTÍFICA, MAS NÃO É. INFELIZMENTE.


Ildo Meyer
Médico, Filósofo Clínico, Escritor
Porto Alegre/RS


Dizem que médicos não são bons administradores. Sabem tratar de pacientes e doenças, mas quando precisam negociar honorários, tabelas, vencimentos, pacotes hospitalares deixam muito a desejar. Existem exceções, mas em regra, médicos preocupam-se muito mais com a saúde dos pacientes do que com os custos para mantê-la. O risco deste comportamento é que a gestão da saúde, se não for muito bem controlada, pode ser deficitária. A profissionalização da administração, com o intuito de viabilizar o sistema, foi uma exigência quase que formal, porém esbarrou em um problema de sensibilidade.

Produtos podem ser gerenciados de maneira fria e matemática, pacientes não. Médicos não conseguem e não podem trabalhar sem envolvimento emocional, compaixão pelo sofrimento e obstinação pela cura. Imagine como seria se algumas manobras comerciais realizadas por empresários e absorvidas passivamente pelos consumidores, fossem utilizadas também a nível médico-paciente.

Precisei comprar um refrigerador novo. Fui a uma loja, escolhi o modelo e no momento de efetivar a compra, o vendedor ofereceu uma extensão da garantia do produto contra defeitos de fabricação. Por um pequeno valor a ser adicionado, ao invés de um ano de garantia, a loja me ofereceria mais 12 meses de tranqüilidade e segurança.

Reflexão: Se o fabricante oferece apenas um ano de garantia para um aparelho que fica encostado em um canto com função exclusiva de resfriar alimentos e bebidas, quanto tempo um cirurgião pode oferecer de garantia pelo seu serviço a um paciente que tem pensamento e atitudes próprias? O fato da cirurgia (serviço realizado pelo cirurgião) ter sido um sucesso, não é garantia de ótimo resultado.

Morbidades podem surgir se o paciente fumar, realizar esforços físicos exagerados, não obedecer instruções médicas ou até mesmo devido a reações inesperadas do organismo. Ainda assim o cirurgião sente-se responsável pelo resultado e mantêm seus cuidados até solucionar o problema. Eletrodomésticos têm garantia somente para defeitos de fabricação, mau uso não está coberto pelo seguro. Descuidar da saúde também pode ser considerado mau uso do organismo?

Comprei um automóvel novo. Dentre as muitas recomendações ao proprietário, uma destacava-se, frisada em negrito. A revisão dos 10, 20 e 30 mil kilometros deve ser realizada nas concessionárias sob pena de perda da garantia do veículo.

Reflexão: Se o fabricante de automóveis oferece garantia de seu produto condicionada a revisões periódicas por empresas credenciadas, por que o plano de saúde não pode oferecer cobertura apenas se o contribuinte realizar exames preventivos de rotina, solicitados de acordo com o sexo, idade, profissão, patologias prévias?

Antes de sair da loja, o vendedor ofereceu um seguro contra roubo e acidentes. Por um valor equivalente a dez por cento do valor do automóvel, tanto meu carro como o de terceiros teriam ressarcimento em caso de alguma eventualidade. Danos pessoais também teriam coberturas específicas. Haveria um desconto progressivo no valor a ser cobrado, de acordo com os cuidados anti-roubo instalados no veículo e também a não ocorrência de acidentes durante o período segurado – bom motorista.

Reflexão: Planos de saúde, à semelhança de seguradoras de automóveis, oferecem cobertura para eventualidades médicas. Por que acidentes automobilísticos onde o segurado comprovadamente conduzir o veículo alcoolizado (mau motorista), não podem cancelar automaticamente os seguros do carro e médico-hospitalar, sem direito à indenização?

Pacientes não podem ser confundidos com objetos ou números. Uma visão empresarial, focada no lucro e em metas admite propostas isentas de envolvimento humano, porém médicos não foram treinados e não conseguem trabalhar desta maneira. Algo vai mal.

Na medida em que a medicina segue o caminho inevitável da socialização, médicos gradativamente perdem seu poder decisório e auditores passam a determinar número e intervalo de consultas mensais, período de internação, material a ser utilizado nos procedimentos, exames complementares necessários ou supérfluos e até mesmo indicação de cirurgias.

A gestão das contas encontra-se em situação estável e em saúde perfeita. Médicos disputam empregos, executam protocolos e retiram seus salários no final do mês. Enquanto isto, a saúde dos pacientes...Parece ficção científica, mas não é. Infelizmente.

quinta-feira, 15 de março de 2012

De que tamanho somos?*


De olhos vendados mergulhamos
Sem noção de porvires
Sem absolutamente nada a respaldar o horizonte
Nada que se defina, nada que transpareça
Só a linha que se desdobra incansavelmente
A nos esperar e a resguardar o infinito
Que se retrai indeciso
Rumo ao vazio distante e desafiador da imensidão à frente
Luana Tavares


Ainda que vislumbrássemos o infinito, interna e externamente, qual seria o sentido de tudo? Onde poderíamos estar ou até onde chegaríamos? Quais seriam as probabilidades de reconhecermos o que realmente somos? E qual a dimensão racional que nos conduziria de volta?

A probabilidade de haver respostas é mínima, não haveria como dar conta da dança que continuamente nos embala, no sono da imprevisibilidade, e que nos conduz ao eterno, não importando a forma como este seja concebido.

Será que entenderíamos a dimensão do improvável? Ou será que alcançá-la não pertence à realidade, mas somente aos sonhos? Talvez apenas não sejamos solitários o suficiente para deixar que a correnteza nos leve, ou fortes o bastante para soltarmos as raízes que nos alimentam.

Quanto ao eterno, este pode ser o etéreo distante para o qual alguns se curvam ou simplesmente a porta contígua que se abre a um simples e suave toque... depende da intencionalidade ou da conexão com o outro lado que também faz parte do que somos. Depende de nossos desejo, de como realmente nos sentimos, do que transparecemos ao olhar divino que nos observa. E para acessar a eternidade precisa-se apenas da permissão reversa da que a realidade concede... não é preciso tempo, mas sensibilidade.

Ao vislumbrar o infinito não entenderíamos, talvez, os extremos a que estamos submetidos tanto na imensidão dos vazios que nos envolvem quanto nas conexões a que estamos sujeitos. O todo, que apenas imaginamos, pode estar em tantos lugares: tão perto que não conseguimos enxergar ou tão longe que não conseguimos alcançar.. ou ainda em nenhum outro.

Mas, afinal, de que tamanho somos? Qual a ideia que fazemos sobre nós mesmos e o que é possível apreender desse todo inimaginável? A imagem da física que nos compõem é tão assustadoramente tênue e sem nexo, que talvez pudéssemos nos perder nos vácuos que permeiam nossa essência peculiar e nos perguntarmos qual o sentido da existência; qual, afinal, o teor de tudo o que fazemos, pensamos, criamos, cuidamos, qual o teor do nosso ser que se manifesta em movimentos sutis, abruptos e surpreendentes?

E será que importa saber?

Alguns ficariam cegos ou loucos se pudessem encontrar-se; outros passariam despercebidos de si mesmos, como se sombras circulassem ao seu redor e esvaziassem sua verdadeira essência. Em meio à música das esferas que bailam à nossa volta, contribuímos para o espetáculo, tecendo a teia que conecta e jogando a rede que captura, mesmo que desnudando crises e revelando abismos.

O que nos resgata é que há poesia até mesmo quando dissecamos singularidades e extraímos flores de sistemas improváveis, perpetuando a beleza da simbiose existencial que, generosamente, nos provê o sentido de permanência, de mudança, de transitoriedade, de coerências múltiplas, ainda que dissonantes... e que também nos possibilitam renovação e permanência, atentas à infinitude e ao profundo sentido do que realmente somos ou seremos... ou do que nunca será.

*Luana Tavares
Filosofa Clínica
Niterói/RJ

quarta-feira, 14 de março de 2012

Sobre o amor

Pe Flavio Sobreiro
Filósofo Clínico, Poeta
Cambuí/MG

Quem poderá explicar a sua origem? Filósofos, teólogos, psicólogos e curiosos tentam dar uma razão ao sentido dele existir. Poetas da alma procuram respostas. Alguns dizem que ele vem sem esperar. Outros que ele nasce aos poucos. Uns dizem que ele surge de um lindo olhar. Outros que falam que o conheceram através de um sorriso.

Buscar razões para a sua existência talvez seja percorrer uma estrada sem fim. Onde cada curva revela-nos os mais belos horizontes ainda não conhecidos. Ele é assim: uma surpresa a cada novo momento. Semelhante as flores que desabrocham e exalam o seu mais suave perfume. Mario Quintana sabia que se morresse deste mal ainda continuaria vivendo: “Tão bom morrer de amor e continuar vivendo”

O amor é como uma noite de estrelas iluminando a infinitude de nossa alma. Compreende-lo é romper com o mistério que o torna único. Suas razões são tão variadas como as flores de um jardim. Porém de uma coisa sabemos: é preciso cultivá-lo. Amor que não é cultivado é como uma planta que vai se secando por falta de água.

Antoine de Saint-Exupéry compreendia em seu coração a direção que o amor seguia: “Amar não é olhar um para o outro, é olhar juntos na mesma direção”. Sim, seguir os mesmos passos. Andar juntos. Porém sem atropelar o outro. Olhar com a mesma alegria, como o sol nos olha todas as manhãs. Iluminar cada tristeza com a presença de quem descobriu o sentido de viver.

Quem disse que os filósofos não amam? Até mesmo os mestres da razão têm suas razões emocionais que a própria razão desconhece. Albert Camus concebia o amor como uma presença até o fim da existência: “Amar uma pessoa significa querer envelhecer com ela”. Muitos, assim como Camus, sonham com está experiência de amar até que a morte os separe. Quem irá condená-lo? Eu não me arriscaria!

Tantos livros sobre o amor. Tantas explicações e teses. Busca-se compreender o que existe para ser vivenciado. Drummond sabia muito bem desta verdade: “Se você sabe explicar o que sente, não ama, pois o amor foge de todas as explicações possíveis”. Como explicar o que é impossível?

Amor talvez seja colher flores nos jardins que habitam nossa alma. Regar logo de manhã para que cresçam no transcorrer do dia. Arrancar as ervas daninhas que insistem em crescer. Curar feridas que o tempo não cicatrizou. Construir colchas com os retalhos de uma vida.

Explicar o amor é vã ilusão. Fugir do amor e fugir de si mesmo. Pois ele brota no coração. Nasce devagar, às vezes incomoda, causa dores e alegrias. Viver talvez seja fazermos a mais bela experiência de amar. Charles Chaplin pode confirmar o que hoje lhes confesso: “O homem não morre quando deixa de viver, mas sim quando deixa de amar”.

Quer morrer antes do tempo? Deixe de amar. Deixe de sonhar e ter esperanças. Assim conseguirá chegar mais rápido aonde quase ninguém deseja ir.

Partilhar as dores e alegrias desta existência está implícito no ato de amar. Mudar, dar lugar, peregrinar para outras existências que entram em nossa história. Mario Quintana deve ter feito está linda experiência em sua vida. Pois ele profetizou este sentimento do eterno peregrinar: “Amar é mudar a alma de casa”.

Ontem voltando para minha casa vinha pensando nestas questões. Antes de chegar até minha casa percorro carinhosamente o jardim que cultivo com imenso amor. Olhando para uma das rosas mais lindas daquele recanto amoroso, pude ouvi-la dizer-me uma sábia frase de William Shakespeare: “O amor não se vê com os olhos mas com o coração”.

terça-feira, 13 de março de 2012

2012, seja bem vindo, finalmente!

Patrícia Rossi
Advogada, Psicoterapeuta, Filosofa Clínica
Juiz de Fora/MG


Hoje é dia de viver o luto. Mas se engana quem pensa que viver o luto é ruim.. não! Pelo contrário. Ele faz parte do crescimento, amadurecimento, transformação.

Mas luto de quê? Luto de tudo que vivemos no passado e que precisa ser mudado, precisa seguir adiante. Luto de 2011, de velhas metas não realizadas… luto de carnaval, de samba, de viagens, de praia, amigos, pôr do sol.. de juntar os amigos em uma tarde ou noite sem se preocupar com o trabalho ou o estudo no dia seguinte.

Mas o luto é renovador.

O ano finalmente começa e com ele o renascer. Agora é hora de parar, respirar, olhar pra dentro de você e realmente colocar em práticas todos aqueles objetivos traçados no reveillon. Tirar eles do papel e concretizar. Que venham os estudos que prometemos serem em dobro, o trabalho que decidimos empenhar com mais garra… as dietas, a ginástica… novos amores, novos amigos, novas músicas, novos poemas.

Que venham os momentos de estar só – bem diferente de momentos de solidão. Estar só apenas com você, onde você consiga escutar seus pensamentos, coração e mente, e faça com que eles dialoguem hamoniozamente pra te levar ao melhor caminho, melhor escolha, melhor resposta, ou quem sabe melhor pergunta.

Chegou a hora de mergulhar de cabeça em você e nos seus projetos.

Mas e o samba, as viagens, a praia, os amigos e o pôr do sol? Ah, esses a gente não abandona nunca, apenas a intensidade muda, diminui, desacelera… e os laços deixam de ser nós… e o ano finamente começa.

segunda-feira, 12 de março de 2012

Escócia

Lúcio Packter
Pensador da Filosofia Clínica


Em uma acolhedora cafeteria de uma pequena cidade do centro-oeste, onde faço as clínicas didáticas com os alunos, por entre os vidros e letras pastel escritas neles, observo que faz uma tarde muito bonita, o sol se inclina suavemente. A pequena cidade é arborizada em suas ruas longas e retas.

Hoje pela manhã, caminhei pelo centro e agora que meu café chegou, inicio cartas semanais que escreverei por meses a colegas, alunos e leitores que viajarão comigo para a Escócia no segundo semestre. A cada ano, reúno pessoas que desejam viver uma jornada de estudos, conversas, vinhos e caminhadas por algum belo recanto do mundo.

Em 2011 iremos à Escócia, um país que me é familiar e com o qual eu tenho uma afeição antiga. A Escócia começa por muitos lugares, pela Royal Mile, em Edimburgo; pelos castelos em todas as partes; por suas colinas e campinas; por seus vales e highlanders; suas comidas e bebidas; suas tradições, lendas e história; sua linda música com suas gaitas de fole; o kilt; as aldeias; as estradinhas de sonho; as pousadas; os mares; o sotaque carregado e os dialetos; o povo; as fadas e duendes; as enseadas... E então não termina mais. Reunindo estes elementos e outros, temos um dos mais belos e impressionistas cantos deste planeta.

A Escócia é um recanto no qual os elementos se combinam em poesia; acostumei-me a pensar que as highlanders, os caminhos que sobem até Inverness, iniciam- se por um estado de espírito, que já é um lugar.

Nossa jornada de estudos por terras do empirismo, da analítica de linguagem, terá seu ocaso a cada dia em um pub com jazz ou músicas folk. Esta se revelou uma forma de filosofar com possibilidades outras para além da academia, dos textos, das palavras. Vamos então aos ventos e caminhos, quando o outono chegar, ao norte da Europa.

domingo, 11 de março de 2012

Fragmentos filosóficos delirantes LXXXIX*


"A vida imita a arte muito mais do que a arte imita a vida. Os gregos adivinharam esta verdade com aquele maravilhoso instinto artístico que tinham, e colocavam no quarto da noiva as estátuas de Hermes ou de Apolo, para que ela parisse filhos tão lindos quanto as obras de arte que podia ver nos momentos de êxtase e nos momentos de angústia."

"O caminho do paradoxo é o caminho da verdade. Para pôr à prova a realidade é preciso vê-la andar na orda bamba. Só quando as verdades tornam-se acrobatas podemos julgar o valor delas."

"Aquela dama estava usando arrebique demais, ontem à noite, e roupa de menos. Isto sempre é sinal de desespero numa mulher."

"O artista ignora as simpatias éticas. Para o artista uma predileção ética representa uma imperdoável falta de estilo."

"Quanto a acreditar, estou pronto a acreditar em tudo aquilo que é inacreditável."

"Os amantes fiéis só conhecem o lado trivial do amor, as tragédias do amor são privilégios dos amantes infiéis."

"Há maridos que são como uma lista de promessas que as mulheres se cansam de ler."

"Viver é a coisa mais rara do mundo. Muitas pessoas existem, só isto."

"Todos nós estamos na lama, mas alguns sabem ver as estrelas."

"Os homens sempre desejam ser o primeiro amor de uma mulher; este é um efeito da sua insensata vaidade. As mulheres têm um instinto mais sutil. Elas desejam ser o último amor de um homem."

"Podemos resistir a tudo exceto às tentações."

"A sociedade pode até perdoar ao delinquente, mas nunca perdoa ao sonhador."

"Nunca somos tão sinceros como quando somos incoerentes."

"O verdadeiro artista não dá a menor importância ao público. Para ele, o público não existe."

*Oscar Wilde

segunda-feira, 5 de março de 2012

Entre o Sagrado e o Profano não sobra lugar para promiscuidade.

Jussara Haddad
Terapeuta sexual, Filosofa Clínica
Juiz de Fora/Rio de Janeiro


Em tempos onde a Filosofia e a busca por sabedoria estão em alta, onde as religiões começam a ser respeitadas ou conscientemente desprezadas em seus pontos de vista, ouve-se muito falar de questões mais elevadas que envolvem a sexualidade humana. Muitas dúvidas sobre o comportamento sexual estão latentes e buscam esclarecimento para o que pode ou não comprometer nossa dignidade e nossa evolução moral, intelectual e espiritual.

Bom isso não é? Elevação através de uma preocupação com o que se faz com o corpo e com a alma perante a necessidade carnal e energética de fazer sexo? Preocupação e lembrança de sermos bem mais que animaizinhos seguidores de seus instintos o que em uma visão muito errônea se baseiam algumas pessoas para praticarem sexo sem “pé e nem cabeça”. Os animaizinhos ainda são melhores que nós neste sentido.

Pois é, finalmente o homem, depois de muitas voltas retornou a este ponto. Ainda não podemos afirmar que esta é uma questão comum, discutida em rodinhas de amigos, mas já é bem expressivo o posicionamento de algumas pessoas de meio mais elevado, no tangente às maneiras de encarar o comportamento sexual do ser humano.

Intrínseco à fertilidade e ao prazer, o sexo pode ser um impulso para a evolução da alma. O importante é dominar este poderoso instinto de vida e conseguir canalizar a energia para você e para este fim. Sexo e espiritualidade, conforme nos conta a história, compartilharam os redutos da alcova de forma complicada. Ao mesmo tempo em que compunha ritos sexuais de algumas religiões, noutros procuravam suprimi-la, tolhendo sua expressão. Ainda hoje muitas religiões pregam a sublimação das necessidades sexuais ou sua canalização para formas socialmente admitidas, como o matrimônio.

Contradizendo este conceito de inserir a alma aos preceitos da igreja e o corpo à cama, o sexo sagrado é um caminho que propõe a experimentação da união da sexualidade com a divindade. A sexualidade sagrada intensifica o crescimento da alma trilhando caminhos através da mudança comportamental de cada indivíduo concebida por uma nova consciência sexual.

Os rituais de sexo sagrado foram uma prática comum em diversos povos por quase um milênio e exaltavam as Deusas personificadas pelas prostitutas ou sacerdotisas do templo que emprestavam seus corpos aos homens para quem elas deveriam dançar sensualmente, se perfumar, e deitar com seu amante no leito, onde manteriam relações sexuais até atingirem o êxtase amoroso, a verdadeira porta para encontrar o divino.

Na tradição tântrica da Índia antiga, a energia sexual era vista como uma ferramenta para o desenvolvimento humano e elegemos a visão do tantra para tratar desse assunto aqui com vocês por compor uma filosofia que muito nos alegra e da qual detemos um bom conhecimento. Existem outros aspectos, é claro. Poderíamos citar o Taoísmo que também cuida do assunto com a maior delicadeza, mas sigamos através do Tantra que é belíssimo.

No Tantrismo, Shiva (o homem), “não copula com uma vagina, mas se une a um ser integral, à mulher psíquica, física e cósmica, ou seja, à encarnação da Deusa Shakti”. A energia sexual flui dos órgãos sexuais e caminha por todo o corpo, cada célula deve vibrar e, assim, despertar a energia Kundalinî que dorme enrolada na base da nossa coluna vertebral (representada por uma serpente).

Para os hinduístas, Kundalinî é a energia criativa que está na nossa consciência. Quando estamos impregnados desta energia criativa, então estamos vivendo plenamente nosso potencial. Este é o princípio do Tantra Yoga. Não admira que o êxtase sexual seja considerado um estado alterado de consciência! O sexo é uma meditação a dois e qualquer ato sexual, um acontecimento sagrado.

Sexualidade e espiritualidade são inseparáveis no hinduísmo. Entoar mantras para uma deidade será algo sagrado? E o ato sexual, o Maithuna, será algo profano? O que é Profano e o que é Sagrado? Para os hinduístas é muito mais profano realizar um ritual mecânico, diante de uma imagem que adorar a Shakti na comunhão dos corpos.

Os conhecimentos acerca da sexualidade sempre participaram da cultura e da educação do povo da Índia antiga, que lamentavelmente sofreu grande impacto por causa da influência ocidental ao ser influenciado pelo rigor moral cristão (e acho que Cristo nunca disse nada disso e nem dessa maneira), onde o sexo era visto como obra do demônio, e a mulher uma feiticeira sujeita à fogueira, no mesmo fogo que acende o desejo nos homens. É fato que a abordagem e o parâmetro da orientação sexual da Índia hinduísta está muito além daquilo que o limitado Ocidente vê.

Quando Vatsyayana recitou os sagrados Sutras, passando os ensinamentos dos Sastras, através do Kama Sutra, ele deu amplo enfoque filosófico, bem como respeitou os costumes sociais vigentes, além de apresentar, na prática, um tratado de psicologia. Infelizmente, não podemos negar que os ensinamentos destas filosofias milenares foram muito deturpados e seus textos preciosos reduzidos a manuais de posturas sexuais.

Que pena, muito embora esta fantástica Arte do Sexo venha sendo praticada há milênios não apenas na Índia, mas na China e no Tibet, aqui no Ocidente ela é vista somente como um fetiche sexual capaz de magicamente proporcionar mega orgasmos, fim ultimo de todo envolvimento íntimo de quem não se interessa por nada além do exatamente palpável.

O tantrismo autêntico nos oferece um panorama de possibilidades que não encontram equivalentes na nossa sociedade secular moderna. O tantrismo, ou tantra, mostra que o desejo sexual não pode simplesmente ser situado no orgasmo nem sublimado na filosofia e na arte, e pode ser transmutado até chegar a um ponto em que toda mente corpórea fica ao mesmo tempo erotizada e transcendida. Feuerstein, Georg – A Sexualidade Sagrada – Ed. Siciliano – Pag. 166

Sob esta ótica podemos afirmar que, mesmo que profano, mas cercado de boas intenções onde o prazer se mistura à possibilidade de uma felicidade a dois, não importa se para sempre ou não, esta energia ainda pode ser aproveitada no contato sexual. Profano no sentido de rotineiro, obrigatório, sem propósito maior, feito porque tem que ser feito. Sexo Profano no sentido da não consciência do que possa ser Sagrado. Mas, Deus recebe em seus braços as crianças, os pobres e os ignorantes.

Entretanto, no sexo irresponsável, aquele que transgride o próprio homem no que ele concebe como certo e errado, aquele que violenta sonhos, que destrói esperanças, que quebra ilusões, que fere almas, que dilacera corpos, que petrifica corações, que balança os valores perenes, este que consideramos promíscuo, ao contrario do que se pensa, não canaliza de forma alguma energias positivas, muito pelo contrário, compromete grandemente o fluxo enérgico em quem o pratica, acelerando a perda do fluido vital e levando estes seres à imbecilidade, à velhice e a morte física precoce com sérios comprometimentos em sua evolução espiritual.

É uma visão, pode ser apreciada ou não, apoiada ou não, admitida ou não.

sábado, 3 de março de 2012

Amar sempre amar

Rosângela Rossi
Psicoterapeuta, Filosofa Clínica, Escritora
Juiz de Fora/MG



Falar de amor em tempo de mutação e transição é um convite a imaginar com o coração,onde a poética do existir nos leva a um "fazer a alma", um cuidar do outro.

A alma é múltipla e plural, politeísta, pois representa o Olimpo inteiro em nós. Alma é nossa totalidade psíquica. Logo, alma é amor, amor é alma. A alma transita por nossa existência abrindo às possibilidades infinitas.

Sem alma o amor não circula, sem amor a alma fica nos pantanais.

Falar de amor talvez seja fácil, mas viver o amor é difícil. Pois, para viver o amor precisamos encontrar nossa alma e dialogar com os deuses em nós.

Até o amor chegar.... Que haja caminhar pelo enamorar, pelas paixões alegres e no vencer as paixões tristes.

A surpreendente arte de amar se faz no exercício diário, nas mínimas coisas, através dos encontros e desencontros e fundamentalmente no pensar bem.

Quem pensa bem, vive bem e ama melhor ainda.

Amar sempre amar pode ser a solução para quem quer a inteireza de uma vida consciente e um conviver enriquecedor.

Ai que delícia ! É possível compartilhar sempre. Afinal, somos humanos com coração aberto a escutar e alma vasta a Amar.

sexta-feira, 2 de março de 2012

Sociedade dos perfeitos

Pe. Flávio Sobreiro
Filósofo Clínico, Poeta
Cambuí/MG


Na sociedade dos perfeitos, ser imperfeito está fora de moda. Ao ligarmos a televisão ou acessarmos a internet encontramos protótipos de pessoas perfeitas. Seres humanos imperfeitos maquiados com aparência sagrada.

Uma forte tendência dos tempos atuais é a exigência de que o outro seja perfeito. Está marca de nossa época vem disfarçada com o nome de “falta de paciência”: “Não tenho paciência com as pessoas de minha família”, “Sou extremamente impaciente com meus colegas de trabalho”, “Meus pais não são do jeito que eu quero”... Frases como estas são mais comuns do que ousamos imaginar.

Exige-se a perfeição do outro a qualquer custo. Pessoas perfeitas exigem que seus irmãos e irmãs também o sejam. Caso isto não ocorra, às brigas e decepções acontecem em níveis agressivos.

No tempo de Jesus não era diferente. Os fariseus, escribas e mestres da Lei, responsáveis pelo cuidado do templo e consequentemente da formação religiosa do povo, consideravam-se perfeitos. Tinham atingido um grau de plenitude que se achavam no direito de catalogar as impurezas do povo de acordo com normas e critérios religiosos que oprimiam o ser humano.

Jesus percebeu a hipocrisia contida nos gestos e atitudes destes pretensos perfeitos. Estes exigiam que os fiéis carregassem pesados fardos e cumprissem normas que beneficiava apenas a eles próprios.

Aqueles que exigem perfeição dos outros se esquecem de que também são imperfeitos. Muitas vezes exigem algo que nem eles próprios conseguem cumprir. Ocupam inconscientemente o lugar de Deus. Tornam-se juízes: julgam, condenam e decretam a sentença. O outro raras vezes tem a chance de defesa, tendo em vista que na maioria dos casos o julgamento vem embrulhado em presentes perfeitos.

Quando falamos de imperfeição entramos em contato com nossas próprias imperfeições. Esbarramos em nossos próprios limites e falhas. Uma atitude farisaica descarta a imperfeição e se reconhece canonizado. Os grandes santos nunca se consideraram santos em vida. O que os tornou santos foi a humildade com que se revestiram.

Reconciliados com sua própria humanidade, estes homens e mulheres que hoje são venerados nos altares, transformaram as imperfeições em degraus para a santidade. No pecado que estava impresso em seu DNA humano, eles se revestiram da força de Cristo. Viram no Mestre o caminho para a humildade, o serviço e a doação ao próximo.

Respeitar o processo de caminhada de cada pessoa é fundamental para quem deseja construir hoje seu caminho de santidade. Quem não aprendeu a respeitar as imperfeições do outro, dificilmente irá conhecer o caminho da humildade que o guiará a paz interior.

Jesus compreendia as imperfeições humanas. Ele sabia que a natureza que nos reveste precisava ser purificada não por rituais de exclusão, mas sim, por rituais de inclusão. Jesus incluía no seu amor os excluídos do amor dos outros.

Somente quem compreendeu que tão imperfeito quanto o outro é ele mesmo, descobriu o caminho para o amor e a santidade manifestada no cotidiano dos sentimentos.

quinta-feira, 1 de março de 2012

Significados

Beto Colombo
Empresário, Filósofo Clínico, Coordenador da Filosofia Clínica na UNESC
Criciúma/SC


Aquela água da torneira clorificada torna-se benta se colocada num cântaro no altar da gruta, assim como a flor pode ser uma confissão de amor, ou até uma afirmação de saudade se jogada sobre uma sepultura. O fogo torna-se símbolo sagrado nas velas dos altares e nas piras olímpicas.

Rubem Alves, no livro O Que é Religião, com sabedoria diz que há coisas que significam outras, são as coisas/símbolos. “Uma aliança significa casamento; uma cédula significa um valor; uma afirmação significa um estado de coisas além dela mesma.”

E se alguém simplesmente usar uma aliança na mão esquerda sem ser casado? Uma cédula pode ser falsa. Uma afirmação pode ser uma mentira. Por isso, quando nos defrontamos com as coisas que significam outras coisas é inevitável que levantemos perguntas acerca de sua verdade ou falsidade.

Aquela fonte no morro, que era apenas uma bica d’água, tornou-se um lugar de peregrinação porque aquela gruta construída deu um novo significado e a água que brota dela agora é benta e cura gastrite, reumatismo e faz milagres.

Fui à casa de um bom amigo e encontrei um antigo altar da igreja de Santo Agostinho que outrora era a mesa de celebração da Eucaristia nas missas dos domingos, onde o vinho transformava-se em sangue de Cristo e o pão no corpo de Cristo, e agora é apenas uma mesa de jantar de sua família.

Quando um artista pinta um quadro, ele está dando o seu significado àquela pintura. Outra pessoa que nada sabe sobre aquele artista dará a sua interpretação conforme o acervo agendado no seu intelecto, na sua estrutura de pensamento.

Um beijo dado por Maria em Jesus Cristo provavelmente é amor e carinho, agora um beijo dado por Judas significa outra coisa.

Algumas vezes nos deparamos com palavras de alguém que fala e o interpretamos dando o nosso significado àquela situação sem dar a chance dele colocar “a sua verdade”, apenas julgamos e condenamos como se fôssemos juízes: isso é verdade, isso é mentira. Verdade pra quem? E mentira pra quem? Aquela verdade pode ser a interpretação da minha verdade.

Algumas vezes, antes mesmo de ouvir o outro, antes de prestar atenção naquilo que ele está dizendo, apenas estamos ouvindo nossos pensamentos para formularmos o que vamos dizer em seguida. Será que estamos ouvindo o que o outro fala ou apenas o que estamos sentindo e significando conforme nossa estrutura de pensamento? Às vezes nós transformamos o que o outro está falando conforme nosso significado em objeto de concordância ou discordância.

Tenho aprendido que é preciso manter-se a literalidade do falante, limpando a mente de todos os ruídos e interferências durante a fala alheia. Exercitar o ouvido atento, ouvir o outro sem oferecer julgamento, sem significar, apenas entregar-se ao outro e diluir-se nele. No início da minha prática como terapeuta em consultório esse foi um grande desafio, não foi fácil, mas hoje sei que é necessário e possível.

É assim como o mundo me parece hoje. E você, tem exercitado o ouvido atento?