domingo, 29 de abril de 2012

Fragmentos filosóficos delirantes XCVI*


"O encantamento é sempre o efeito de uma representação, pictural ou escultural, capturando, cativando a forma do outro, sobretudo em seu rosto, na sua face, fala e olhar, boca e olho, nariz e orelhas: vultus"

"A cura pelo lógos, o exorcismo, a catarse anularão pois o excedente. Mas esta anulação, sendo de natureza terapêutica, deve apelar àquilo mesmo que ela expulsa e ao excesso que ela põe fora. É preciso que a operação farmacêutica exclua-se de si mesma"

"A filosofia opõe, pois, ao seu outro, essa transmutação da droga em remédio, do veneno em contraveneno"

"Sócrates mostra que o todo do corpo só pode ser curado na fonte - a alma - de todos os seus bens e males"

"O contra-encantamento, o exorcismo, o antídoto é a dialética"

"Eros, que não é nem rico, nem belo, nem delicado, passa sua vida filosofando; é um temível feiticeiro, mágico (...) indivíduo que nenhuma lógica pode reter numa definição não-contraditória, indivíduo da espécie demoníaca, nem deus nem homem, nem imortal nem mortal, nem vivo nem morto (...) tem por virtude dar livre curso, tanto à adivinhação completa quanto à arte dos sacerdotes, no que concerne aos sacrifícios, iniciações, assim como às encantações, vaticinação em geral e magia"

"O lógos, ser vivo e animado, é também um organismo engendrado"

"Descrevendo o lógos como um zôon, Platão segue alguns retóricos e sofistas que, antes dele, opuseram à rigidez cadavérica da escritura a fala viva, regulando-se infalivelmente sobre as necessidades da situação atual, es expectativas e demanda dos interlocutores presentes, farejando os lugares onde ela deve se produzir, fingindo curvar-se no momento em que ela se apresenta ao mesmo tempo persuasiva e constrangedora"

"Um texto só é um texto se ele oculta ao primeiro olhar, ao primeiro encontro, a lei de sua composição e a regra de seu jogo. Um texto permanece, aliás, sempre imperceptível. A lei e a regra (...) nunca se entregam, no presente (...)"

*Jacques Derrida
A farmácia de Platão

sábado, 28 de abril de 2012

Uma resenha*

Strassburger, Hélio. Editora E-papers. Rio de Janeiro/RJ. 2009. Filosofia Clínica, diálogos com a lógica dos excessos

*Por prof. Dr. José Mauricio de Carvalho
Chefe do Departamento de Filosofia da UFSJ


O livro de Hélio Strassburger apresenta um olhar sobre o fenômeno da loucura nascido de sua experiência de trabalho em clínicas psiquiátricas. Não se trata propriamente de uma descrição detalhada do fenômeno da loucura, mas de um enquadramento poético que baliza uma futura descrição. Vamos esclarecer: o método usado é o fenomenológico, mas o procedimento metodológico para tratar a linguagem delirante é a poética. Para o autor tal linguagem revela mais adequadamente os meandros da loucura.

A linguagem delirante, ele lembra, não é lógico-discursiva. Os delírios e alucinações traduzem um modo singular de expressão, própria de um mundo desestruturado. Afirma: “No saber desajustado dos delírios, algo se anuncia entrevista de tradução” (p. 7). A chamada loucura corresponde à desestruturação de pensamento e é examinada na Filosofia Clínica no tópico dez da EP conhecido por estruturação de pensamento. Loucura representa um nível tal de desestruturação que o filósofo clínico atende o caso a pedido da família e paralelamente ao atendimento médico. O livro traz a experiência do autor no atendimento a pacientes internados e é, simultaneamente, uma crítica a um tipo de atendimento médico isolado de outros profissionais. A crítica alcança toda forma de atendimento terapêutico pouco atento à singularidade existencial do louco.

Hélio Strassburger encontra algum encanto no que descreve como sendo a língua marginal que expressa o mundo das ideias delirantes. Este mundo é um território novo e sem vocabulário conhecido “que esparrama vestígios de multidão” (p. 8). Ao principiar a descrição fenomenológica emprega o que denomina “lógica das diferenças” (p. 8), alternativa às classificações feitas “com base no DSM-IV (Manual Psiquiátrico Americano)” (p. 9). Tendo como pressuposto a compreensão fenomenológica de que cada pessoa é um mundo singular, Hélio Strassburger defende que cada um pode se expressar de um modo próprio, inclusive “como incompletude” (p. 12). Ele esclarece que as lógicas delirantes demandam uma análise que fuja aos procedimentos tradicionais, se quiser trazer algo de novo sobre este assunto.

A linguagem da diferença é, na avaliação do autor, uma tentativa do louco se expressar e de se deixar conhecer, mas apenas a quem consegue compreendê-lo. Afirma: “Para além desse jogo de cena, o louco escolhe quem vai merecer sua tradução das coisas que vê, escuta e sente” (p. 13). A melhor forma de compreender tal mundo é mergulhar no dicionário íntimo de cada um que “pode oferecer algum esboço para fora de si” (p. 14). A lógica da diferença é, portanto, estratégia de inclusão, pois “ao sujeito chancelado com alguma patologia, é comum a segregação do seu meio social” (p. 16). De alguma forma a chancela de louco contribui para a sua segregação e preconceitos de parte da sociedade.

O livro traz também uma crítica ao chamado bio-poder. Os psicólogos de inspiração fenomenológica rejeitam o uso de fármacos para enfrentar o vazio existencial, a insegurança, sentimento de tragédia e as dores da existência que nos acompanham a todos. As dores da alma não são para serem tratadas com medicamentos. Hélio Strassburger estende tal crítica ao tratamento de parte dos denominados loucos, pois afirma que os fármacos e seus derivados afetam “a expressividade do louco deslizando para a reincidência daquilo que finge evitar” (p. 18). Logo adiante explica melhor o que quer dizer afirmando que algumas vezes a medicação pode favorecer a expressividade. Ele diz: “A prática médica reconhecida, sem saber, favorece a euforia criativa ao alargar horizontes improváveis da pessoa com suas drogas” (p. 22). Ao criticar o uso dos fármacos como controle genérico da chamada loucura, o autor não tem a ilusão de que será fácil o contato com a pessoa desestruturada. Ele diz que “nem sempre é possível conversar com a subjetividade delirante. Seus rituais de intimidade costumam estar protegidos aos acessos da versão normal” (p. 23). É claro que a crítica ao uso de medicamento não se estende a todo tipo de transtorno genericamente denominado loucura, mas nenhuma redução no uso de medicamentos agradaria a indústria farmacêutica, avalia: “É claro que a indústria farmacêutica não aprovaria essa ideia. Algo relacionado com lucros na venda de suas drogas” (p. 101). Assim, o modelo de tratar genericamente os loucos com fármacos se generaliza e amplia.

A descrição da loucura mostra que a aparente incompreensão do fenômeno vem da tentativa de classificá-lo com parâmetros lógicos. A linguagem simbólica usada pelo louco permanece incompreensível para tal linguagem. Ao autor parece inadequado continuar a tratar a loucura com procedimentos tradicionais dos hospitais psiquiátricos. Falham os procedimentos que “estruturam verdades, rituais de contenção e legalizam tratamentos na presunção de sanar desvios” (p. 33). O que mais importa é a qualidade da interseção que o terapeuta estabelece com o chamado louco. Se for bem sucedido conseguirá entender melhor o seu mundo e ajudá-lo “a suportar a travessia entre fenômenos de aparente sem nexo” (p. 37). Neste aspecto, o desafio é compreendê-lo e não explicar ou interpretar seus delírios. Ao compreender o outro, o filósofo clínico vive um papel existencial próprio do curador. Como tal ele é um companheiro de destino e divide com o partilhante a condição humana.

A expressividade delirante é um desvio do modo como as pessoas compartilham sua visão de mundo. Este fato decorre da trajetória singular do mundo delirante, seu “ensimesmar-se está em desacordo com o mundo ao seu redor” (p. 46). As formas que o louco percebe são inéditas estratégias de contato e é difícil identificar os contextos em que seus sinais se expressam, mas é para lá que o clínico precisa se dirigir, para o lugar “onde a pessoa desloca-se em seu singular desassossego” (p. 47).

O delírio é uma forma de expressividade de um mundo singular. A maneira como este mundo é percebido tem aspectos fantásticos e camuflados, algumas vezes as coisas ao redor parecem mais brilhantes e intensas que para as demais pessoas ou então ocorre o oposto, o mundo parece não ter cor nem a vida que os normais relatam. A tarefa do clínico é “desvendar ou ocultar o milagre da singularidade, nem sempre expresso na forma da lógica formal” (p. 52). Ninguém será compreendido se não forem desvendados seus sinais, sua linguagem, seus símbolos. Para esta tarefa pouco vale fazer os diagnósticos conforme o DSM –IV, pois o diagnóstico é na grande maioria das vezes uma forma de reduzir o sujeito à lógica social. Pior é se a descrição ali contida for entendida como um padrão uniforme que padroniza o fenômeno descrito como loucura. O sujeito delirante desconfia desta lógica, pois nela “nada lhe parece grande o suficiente para dizer dos seus amores, saudades, alegrias ou tristezas. Tudo parece fora da órbita normal das coisas” (p. 56). A expressividade singular do louco se manifesta em atividades sociais dos hospitais psiquiátricos como “o baile semanal, a rádio comunitária, o teatro, as igrejas, oficinas de desenho, pintura e criação, também a dança e o fenômeno carnaval” (p. 57). Todos estes eventos ajudam a pessoa a se expressar e mostrar aos normais sua realidade.

A lógica usada no diagnóstico psiquiátrico é denominada de lógica da exclusão. Parece ao autor que ela é um procedimento usado por quem não consegue lidar com os paradoxos da loucura. A linguagem da loucura tem uma organização própria. Aos olhos da forma tradicional de pensar “os sonhos e realidade se confundem ao transfigurar evidências em lógicas inimagináveis” (p. 64). O delírio é, para o filósofo clínico, espaço de expressão das ideias complexas, o que faz com que muitas vezes pareçam hermeticamente fechados e incompreensíveis. Sonhos relatados podem ajudar na compreensão dos delírios, mas isto não é uma regra. O que a lógica da diferença ou prática clínica pretendida espera é “desarticular a sensação da insegurança e medo, proporcionados pela descoberta das novas geografias” (p. 73). O filósofo clínico está aberto a novas abordagens da loucura. Ele buscará compreender o que se passa no mundo da pessoa, mesmo sabendo que “é incomum a busca para alguma tradução da linguagem da loucura” (p. 76) e que “nem sempre é possível realizar alguma forma de conversação com a subjetividade delirante” (p. 77). Fechada em si, a subjetividade delirante vive contradições profundas ao procurar desconstruir os personagens e histórias que cria. Assim, a epistemologia, que na Filosofia Clínica é o modo como se conhece o mundo pode ser “um refúgio, remédio ou veneno” (p. 85) para o louco, conforme a pessoa consiga lidar ou não com suas idéias e percepções.

O autor usa uma estratégia investigativa consagrada por Sigmund Freud para entender o fenômeno psíquico, isto é, reconhece que o mito consegue expressar lógicas improváveis, ele é “ponto de encontro dos discursos da insensatez. Diálogos sem palavras acolhem a exceção no devir dos encontros” (p. 92), diz o autor. A expressividade incomum do louco é uma forma de indagação da loucura a outras formas de viver mais conformadas e ajustadas, mas frequentemente incongruentes e sofredoras. Para acompanhar a lógica da loucura é preciso o talento do detetive e através da interseção positiva e “na reciprocidade dos encontros, traçar os roteiros para evidenciar aldeias antes inatingíveis” (p. 102).

Isto significa que o autor nutre a confiança de penetrar e decodificar a linguagem delirante, por mais difícil que seja a tarefa. “As dinâmicas de acolhimento e atenção com a vida desdobram-se no mundo como representação da pessoa” (p. 106). Assim se esclarece a prática do Filósofo Clínico, cujo domínio da técnica lhe propicia “compartilhar silêncios e ressonâncias, sem descuidar das perspectivas do outro” (p. 107).

A Filosofia Clínica criada por Lúcio Packter é um instrumento alternativo à prática psiquiátrica, quando estas de resumem ao diagnóstico e uso dos medicamentos. A técnica ajuda aqueles que não se sentem compreendidos pela família, amigos e colegas, e são internados por não se enquadrarem bem no ambiente social. Sentirem-se acolhidos e respeitados na sua singularidade existencial parece básico ao nosso autor. A internação algumas vezes é desejada pela própria pessoa, mas a internação só se justifica em situações muito especiais, pois “é improvável que a verdade delirante se estruture em um lugar onde as experiências concretas não exerçam influência” (p. 120). Em outras palavras, se os desdobramentos existenciais não forem vividos e compreendidos “as rotas de fuga e esconderijos que possuem autogenia imprecisa e altíssima velocidade” (p. 121), seriam ainda mais usadas. A loucura fechada em si mesma é um fenômeno truncado que se esconde mais quando não encontra formas de expressão.

Este livro de Hélio Strassburger é a porta de entrada da Filosofia Clínica no mundo das consciências desestruturadas. Trata-se, portanto, de mudança no movimento clínico inicialmente voltado para o tratamento de pessoas que não tinham tal desestruturação. O trabalho descrito abre as portas para as pesquisas que os filósofos clínicos deverão fazer com pessoas diferentes da consciência comum. Estas pessoas continuam a ser um sujeito humano completo, um mundo absolutamente singular que o filósofo clínico passa a acompanhar e procurará compreender. O que o clínico pesquisará é o tamanho de desorganização da estrutura de pensamento, saber quais os nexos existentes entre os tópicos, como eles se formaram, que tipo de autogenia encontramos, enfim, quais conflitos aparecem na malha intelectiva do partilhante.

Os nomes: louco, loucura e normais não são os melhores para descrever a desestruturação ou estruturação de pensamento segundo a Filosofia Clínica, mas foram preservados pelo uso comum e para tornar o texto mais claro.

José Mauricio de Carvalho
Departamento de Filosofia da UFSJ
Mauricio@ufsj.edu.br

sexta-feira, 27 de abril de 2012

Uma metafísica dos refúgios*

“Deram-me um corpo, só um! Para suportar calado, tantas almas desunidas, que esbarram umas nas outras.”
Murilo Mendes


Um íntimo estranhamento chega á superfície na forma do dizer desencontrado. O gesto inseguro, a voz trêmula, a lágrima bailarina no canto dos olhos, parecem querer falar da indefinição em curso dentro de si. Assim, em nuanças de antigas vivências, a linguagem faz voltar o que parecia esquecido.

Ao descrever invisibilidades seu olhar insinua uma tradução para as mil mensagens interditas. A contenção física não fora capaz de desarrumar o caos precursor, aliás, amarrar o corpo serviu para liberar a alma.

O espanto inicial multiplica os acessos a uma nascente, através das miragens, franjas, detalhes quase imperceptíveis, na sutileza de parágrafo maldito. O movimento especulativo se disfarça de realidade aparente, insinua segredos, se esquiva na pluralidade dos labirintos de si mesmo. Um sonho acordando-se para dentro, numa alma exilada em um corpo refém.

A surpresa denuncia algo inesperado, na sugestão das dialéticas do instante. Desatino e imprecisão a tentar decifrar as rotas aos outros do mesmo. Talvez a historicidade consentida possa adentrar a fronteira onde a pessoa se internou.

Nessa fonte de imprevisibilidades a leitura nem sempre se dá a primeira vista. Os ânimos de excesso podem ser contágio, um hiato a se refugiar na própria fundamentação. Um dialeto intraduzível permanece grávido de originalidades. Essa fonte onde nasce a palavra, se alimenta de si mesma como um campo de experimentação.

Anotações à margem do texto dão conta de uma escrita em dessintonia com a palavra falada. É comum encontrar, aquilo que poderia ficar invisível, entremeios dessas vozes no silencio do traço, a trazer ecos de vida antiga. Também é possível o encontro da essência e existência no teor discursivo delirante.

O convívio assim descrito busca fazer menção ao impensável, matéria-prima de difícil apreensão pelas leis conhecidas. É provável que esse convite siga interditado a lógica normal. Sua decifração, ao rascunhar geografias indeterminadas, aprecia um terapeuta de raridades para se mostrar.

Ao abrigo dos contextos, múltiplas mensagens aguardam a percepção incapaz de ver sempre o mesmo. Sua mente de natureza extraordinária ultrapassa com agilidade os limites da convicção especialista. Desliza por entremeios dessa estrutura significante e percorre a distorção imaginativa como um quintal conhecido.

Uma apresentação assim descrita esboça uma metafísica dos refúgios. Um lugar onde pensar e dizer são. Acontecem e se desdobram na realidade imperfeita do cotidiano. Intencionalidade pelas estéticas dos exploradores de amanhãs.

Talvez a noção da poesia existencial ofereça um caminho para resgatar elos perdidos da condição singular. Enquanto isso, esse habitante de lugar nenhum, parece referir mais do que se possa ouvir.

A periferia de alma nova aprecia oferecer milagres no meio da rua, sugerir um logos nem sempre conhecível, a atuar por aí. Quando uma pessoa se coloca a pensar, numa perspectiva desajustada, modifica-se e desarruma o mundo inteiro ao seu redor. Interseção sensível a reivindicar, em seus rumores, a pessoa sem maquiagem. Reminiscências onde dizer e desdizer se integram num paradoxo de rascunho.

É fundamental o inacabamento das coisas, eventos, convivências, a perseguir as poéticas da descontinuidade. A língua desconhecida desses prefácios sugere uma incompletude em busca de preenchimento. Assim a loucura de toda lucidez se mostra no equívoco de ser sempre a mesma.

Ao testemunhar o nascimento de uma possibilidade, o próprio refúgio segue com ela, para o encontro do sonho com a realidade. Nessa fonte de alquimias o inesperado convida a uma interseção com as arqueologias do agora.

*Hélio Strassburger
Filósofo Clínico

quinta-feira, 26 de abril de 2012

Fragmentos

Lúcio Packter
Pensador da Filosofia Clínica


Principalmente a partir do feudalismo, e provavelmente antes dele, havia alguns princípios lineares nos quais valores, éticas, preceitos, arrumações gerais usadas em casa serviam para a atividade pública, para o comércio, para a vida. Um indivíduo poderia manter-se como era nos vários âmbitos de sua existência.

Com os séculos XVII e XVIII uma tendência em andamento se aprofunda: a fragmentação das vivências, da mente. Nos séculos seguintes a fragmentação mostrou que determinadas especificidades nos relacionamentos, na família, no trabalho, na religiosidade não poderiam mais ser conciliadas segundo algum critério que levasse à paz, ao convívio harmonioso.

Alguns aprenderam a viver com estas peculiaridade, seguem altivos para um novo tempo. Muitos não têm como viver o que consideram paradoxos. E muitos andam quebrados ao meio por angústias referentes a terem uma mente feudal que vive em um mundo de 2009.

Quando Jacy veio ao consultório, ela trouxe como queixa não compreender como podia ter êxito no trabalho, ser uma líder no clube, e sofrer tantos ferimentos em suas relações com a família. Para Jacy era natural comparar estas instâncias, mas em um mundo fragmentado o trabalho, o clube podem nada ter a ver com a família.

Muitas Jacys andam pelo mundo perdidas porque forçosamente tentas emendar aspectos que, pelo modo como vivem, não podem mais conviver sem uma fratura no meio. A fratura é o elo de ligação. A ruptura, neste caso, funciona como o que anuncia a outra parte e não como o que convida a uma união.

Fernando foi um bom namorado de Jacy, mas é um marido complicado; Adilson casou-se com Fátima e tem dois filhos com ela, mas quando perguntado sobre a família ele pensa nos velhos pais que moram na Flórida; Renata está no terceiro casamento, no segundo câncer e tem uma religião que lhe enche de culpa; Carla será indicada como diretora da escola e seu filho do meio reprovou no primeiro semestre na faculdade; Adna, especialista em tratamento a usuários de cocaína é constantemente tida alcoolizada; Patrick, juiz, rouba nos jogos de canastra; Marlice, conselheira matrimonial para casais heterossexuais é homossexual; Leonita, professora de literatura, prefere a televisão ao livros.

As prováveis fragmentações não constituem a priori contradições. Podem ser desdobramentos, complementações, vivências antônimas ou outra variável.

quarta-feira, 25 de abril de 2012

Rituais de fé

Pe. Flávio Sobreiro
Poeta, Filósofo Clínico
Cambuí/MG

Na cores da manhã
cubro meus dias de verdes esperanças
na tarde do dia que se foi

despeço-me das tristezas
dou lugar às estrelas
que me guiam
pelas noites do medo

nos outonos da estação
deixo as folhas
cumprirem seu ritual
de despedida

a vida cumpre seu papel
no cotidiano
de chegadas e despedidas

reconcilio-me comigo mesmo
e descubro novos horizontes
de um tempo novo
que nasce
a cada novo aprendizado

terça-feira, 24 de abril de 2012

Reinventar

Vânia Dantas
Filósofa Clínica
Uberlandia/MG


Reinventar. Revi essa palavra num cartão que recebi, com a linda fênix de fogo subindo ao céu....

Sim, se pode reescrever o passado. A tentativa de ser outra pessoa persiste.

Afinal, Por todos os lados se propaga a famigerada correção.

O passado que nos fez ser quem somos. Para deixarmos de sê-lo há que se ressignificar vivências, memórias e valores, embora estes estejam mais próximos ao essencial e ao presente... ou estaria ancorado em eventos mudos para o dia de hoje?

Procura-se a chave da prisão da casa corpo. Procura-se a vida nas dimensões sutis quando a matéria é campo minado.

Os alunos percebem que, além da letra há o intertexto, o contexto, a intenção, a entonação e a falácia.

Os mundos dentro de mundos sugam para o interior do redemoinho o espírito indócil.

Fatalmente, as roupas velhas, ainda no corpo, já não servem mais.

domingo, 22 de abril de 2012

O Silêncio que fala Alto

Beto Colombo
Empresário, Escritor, Filósofo Clínico, Coordenador da Filosofia Clínica na UNESC
Criciúma/SC


Querido leitor, aceite o meu fraternal abraço. Nos últimos anos, tenho procurado valorizar a simplicidade da vida, até de forma lúdica e ingênua, se é que dá pra falar assim. E o silenciar é um caminho tão intenso quanto profundo. Na verdade, para mim, o silêncio mostra muito.

Ainda na infância lembro de dias silenciosos sem televisão, sem rádio, passávamos boa parte do tempo ouvindo e discernindo o cantar dos pássaros, se arrepiando com os sons uivantes do vento. Na tenra idade, marcou-me muito os poucos momentos em que esse silêncio era quebrado e um deles era quando o leiteiro de charrete tocava sua buzina avisando que estava passando e era a deixa para trocar a vasilha.

Há poucos anos, precisamente em 2006, quando fiz o Caminho de Santiago pela primeira vez, tenho saudade dos dias inteiros em que fiz companhia para mim, em silêncio, ouvindo somente meus passos quando a bota arrastava no chão, ou até o toque o cajado dando o tom da caminhada, anunciando o ritmo da jornada rumo à casa do Santo. Hoje sei que não caminhava a Compostela, a jornada era pra dentro de mim.

Esta mesma energia do acesso interno só conseguida por mim via silêncio, acessei recentemente neste verão. Era fim de semana, estava só na casa da lagoa. Acordei cedo, como de hábito. Olhei para aquele mar de água doce e me veio uma vontade gostosa de entrar na água de caiaque. Não deu outra, não eram seis horas quando remava naquelas águas mansas e cheias de incógnitas.

O frescor da manhã tocava minha pele, respirava ar úmido, estava só naquela imensidão da Lagoa dos Esteves. Estava eu e eu. Remava sem direção, mas remava. Talvez como lá em Santiago, também remava para dentro de mim. Não via e nem ouvia ninguém, só o som dos remos entrando e saindo da água que era minha aliada abrindo caminho para dentro de mim.

Os remos entravam na água, provavelmente a mesma que circula em minhas veias, numa sincrônica batida que lembrava as batidas do meu coração.

Foram momentos de solitude, instantes de inteireza. Eu era o tudo, era o nada. Era eu.

Mas como vivemos neste plano tridimensional, dual, logo o outro lado me vem e passo a vivenciar os sons, os ruídos e barulhos na maioria das vezes ensurdecedor dos carros, jet ski, televisão, músicas bate estaca, “bem-vindo a outra realidade”, pensava em silêncio.

Fazendo um comparativo com aquela criança que fui lá na encosta do morro, hoje lembro que os “barulhos” quebravam a rotina do silêncio. Trazendo para hoje, é o silêncio que quebra a rotina do barulho. Mas para ouvir o silêncio é necessário muito esforço. Mas que vale a pena. Na verdade, para mim, o silêncio fala alto.

É assim como o mundo me parece hoje. E você, o que pensa sobre silêncio?

sexta-feira, 20 de abril de 2012

Fragmentos filosóficos delirantes XCV*

Não-coisa

O que o poeta quer dizer
no discurso não cabe
e se o diz é pra saber
o que ainda não sabe.

Uma fruta uma flor
um odor que relume...
Como dizer o sabor,
seu clarão seu perfume?

Como enfim traduzir
na lógica do ouvido
o que na coisa é coisa
e que não tem sentido?

A linguagem dispõe
de conceitos, de nomes
mas o gosto da fruta
só o sabes se a comes

só o sabes no corpo
o sabor que assimilas
e que na boca é festa

de saliva e papilas
invadindo-te inteiro
tal do mar o marulho
e que a fala submerge
e reduz a um barulho,

um tumulto de vozes
de gozos, de espasmos,
vertiginoso e pleno
como são os orgasmos

No entanto, o poeta
desafia o impossível
e tenta no poema
dizer o indizível:

subverte a sintaxe
implode a fala, ousa
incutir na linguagem
densidade de coisa
sem permitir, porém,
que perca a transparência
já que a coisa ë fechada
à humana consciência.

O que o poeta faz
mais do que mencioná-la
é torná-la aparência
pura — e iluminá-la.

Toda coisa tem peso:
uma noite em seu centro.
O poema é uma coisa
que não tem nada dentro,

a não ser o ressoar
de uma imprecisa voz
que não quer se apagar
— essa voz somos nós.

* Ferreira Gullar

quinta-feira, 19 de abril de 2012

O abismo é logo ali

Luana Tavares
Filósofa Clínica
Niterói/RJ


As lembranças vão se insinuando pouco a pouco, como se viajassem ao longo de um caminho incerto, impreciso, familiar... mas que aos poucos se desenha obscuro e tenso. O ritmo se traduz intenso e a velocidade se revela em descontrole, imbricando pelas voltas sinuosas de tudo o que não conseguimos compreender.

Sentimos a sensação iminente de um vazio, de um vácuo a se formar pela possibilidade do pressentido temor que se aproxima... o temor do desconhecido. Não sabemos ainda se queremos acessar o abismo, embora saibamos que ele permanece logo ali, acompanhando, com seu olhar penetrante, na certeza de que, em breve, e mesmo a contragosto, mais uma partícula se aninhará em seu acolhedor destino.

Muitas vezes não sabemos para onde ir ou o que devemos fazer, pois não importa o que se escolha, somos levados talvez para onde não desejássemos estar, pelo menos não ainda... ou jamais. Escolhas talvez não definam sentimentos, mas o risco implícito nelas continuamente acaba por conduzir à loucura, que por sua vez conduz à salutar insanidade de se permanecer transbordado de vida... de vida que vaza por todos os poros como um inebriante clímax de existência, como um alucinante êxtase que quebra as barreiras da existência.

Transpor limites é como navegar em águas turbulentas, desconhecidas, desafiadoras e, na maioria das vezes, profundas... mas que não se engane quem assim se decide, mesmo sem saber, porque para ir além de suas amarras é preciso o porto seguro do conhecimento ou a ligação sutil da alma com a sua essência, pois há devaneios sem volta aparente.

Há mergulhos dos quais só emergimos de outras formas, em outros caminhos, para muitos dos quais ainda não estamos preparados. Reencontros requerem o preparo do sublime e compensador da consciência ou, quem sabe, exatamente da ausência dela.

Porque nem sempre conseguimos êxito ao lambermos os destroços do que deixamos, ao ceifarmos as raízes do que plantamos ou da colheita de cacos que resultam de explosões apocalípticas executadas nas dores nossas de cada dia, ou das dores que não ousamos lembrar.

Sim, o abismo pode estar logo ali... tão perto que um passo em falso nos empurra no turbilhão dos debates travados na alma e das descargas que aliviam a mancha que não suportamos mais carregar nas entranhas do que sentimos e pensamos.

Para penetrar os limites será preciso entrega, não exatamente preparo, mas uma sensível percepção de que ainda é possível; sondar o abismo e não ser tragado; inquirir o futuro e não antecipá-lo; viajar às mais longas distâncias, na maior velocidade permitida pela nossa resistência, da mente e do coração, do que elaboramos e do que apenas intuímos ou sentimos.

O que consola é que nunca será tarde demais... somos eternamente jovens enquanto sonhamos e irresistíveis enquanto acreditamos. O preço é apenas o de saber que nunca mais seremos os mesmos, ou melhor ainda, seremos os mesmos, mas mudados, com uma condição que nos permitirá penetrarmos novos abismos em busca de novos limites, novas e arrebatadoras estações desconhecidas, onde nenhum verão será tão quente ou nenhum inverno tão frio... mas onde os outonos continuarão a espalhar as folhas que nossa nudez descortinar, atenta à primavera dos nossos suaves sonhos.

quarta-feira, 18 de abril de 2012

Sua boca é o céu que eu quero alcançar

Jussara Hadadd
Terapeuta Sexual, Filósofa Clínica
Juiz de Fora/MG


De olhos fechados deixando o pensamento ir, encontrar as nuvens. O frescor e a leveza das nuvens brancas que passam sem sentido fluindo para onde a chuva tem de chegar.

De olhos fechados, imaginando e sentindo. Percebendo cada toque dos lábios, os sons e o perfume da respiração do amor que nesta hora vem afagar os anseios por carícias e ensejos que o desejo acendeu.

De olhos fechados, caminhando sob o calor do sol que inunda de luz um corpo que pede amor no corpo do outro... De olhos fechados, sonhando com a luz do amor, com o brilho que o desejo acende na alma, trazendo cores a um momento dedicado a vida. Que o sol brilhe apenas neste instante e que a luz pareça eterna.

De olhos abertos, olhando nos olhos e confirmando o instante presente e ausente que nasce e morre e que morre feliz se morrer ali.

De olhos bem abertos confirmando a presença e a proximidade do amor que deve partir e que ali parece jamais ter de ir.

De olhos abertos atentos a satisfação de quem recebe de você o que você tem de melhor para dar. Que a sua doação permita levitar, que a sua entrega proponha sonhar além do contato dos lábios molhados, das línguas incertas que a mente tenta em vão acertar.

De olhos abertos ou de olhos fechados, que um homem e uma mulher que compartilhem em desejo e loucura de amar, sintam a sutileza e o poder, as energias, o fluir das emoções e as ondas que movimentam seus corpos e o pulsar das veias, as batidas do coração as certezas de um caminho.

De olhos abertos ou fechados, que a loucura de beijar seja plena e viva e jamais desprezada em sua riqueza. Seja o alimento.

Que o beijo dos amantes seja o sinaleiro e o termômetro das delícias que os une em verdade. Jamais se esqueçam da delicia de beijar.

Que o beijo dos amantes seja a verdade, seja a luz, seja o amor expresso em silêncio rico de dizeres, jamais encontrados em palavra alguma.

A certeza, a âncora, o presente, as lembranças, o ultimo suspiro.

terça-feira, 17 de abril de 2012

Penúltimas notícias:

Experiências sensoriais e abstratas são temas de palestra em Florianópolis

Temas que envolvem a psique humana sempre aguçam a curiosidade e despertam indagações. O cérebro é capaz de reproduzir sentimentos, abstrações, pressentir ações futuras e até mesmo, coordenar atitudes e estimular a imaginação.

No dia 18 de abril, quarta-feira, o filósofo clínico Bruno Packter coordena a palestra Filosofia Clínica e as experiências sensoriais e abstratas, na Livrarias Catarinense no Beiramar Shopping. O evento, com início às 19h30, terá entrada franca.

Para a Filosofia Clínica as chamadas experiências abstratas estão diretamente relacionadas a questões como conceitos e ideias. “As abstrações dizem respeito aos ‘movimentos’ soltos dos conceitos intelectuais e nem sempre possuem fundamentos lógicos”, diz Bruno Packter.

Já as experiências sensoriais estão diretamente ligadas aos cinco sentidos humanos – visão, audição, paladar, tato e olfato. “É possível que uma pessoa vivencie estes dois tipos de experiências simultaneamente. Isto ocorre quando, por exemplo, tocamos na água morna e nossa mente nos remete a imagem de uma cachoeira com águas mornas”, exemplifica o filósofo.

Bruno afirma que, em certas ocasiões, são os estímulos produzidos pela mente que levam o indivíduo a realizar determinadas ações. “Um exemplo seria uma pessoa que idealiza ter um automóvel e, para isso, cria condições para que isso se torne realidade”, comenta.

Aos que idealizam a si próprio, o palestrante alerta que nem sempre o ser humano é capaz de descrever a sua auto imagem sendo fiel a realidade.

Existem casos em que a ligação entre as experiências sensoriais e abstratas são tão intrínsecas que o indivíduo passa a entrar em conflito, dando mais valor aos aspectos materiais de sua vida do que as características relacionadas a sua essência. Estas e outras questões relacionadas a mente humana serão esclarecidas por Bruno Packter na palestra.
Apenas um garoto de 26 anos

Lúcio Packter
Pensador da Filosofia Clínica


O futuro está lá, não é nítido, será construído pelo caminho. E o caminho é feito de momentos; os bons momentos são os que acontecem com a pessoa certa no lugar certo. É quase um estado de espírito.

Casamento e filhos são relacionados a alguém para ficar junto depois dos 30, por aí. Depende, porque o futuro está em aberto.

Vida social é importante, contatos, nada a ver com questões de trabalho, de família. A explicação é que contatos são importantes porque são contatos.

O capitalismo é bom, o que não é bom é o governo. A política é o problema, não a economia propriamente. A idéia é que a política influencia a economia.

Não interessa muito se a pessoa é católica, evangélica, taoísta, o que está em questão é a energia que a pessoa passa. A ênfase é no que a pessoa mentaliza e passa, não a ideologia.

Sobre comida, é saudável evitar porcaria e isso está ligado a exercício, a boas idéias, a bons papos, coisas produtivas. Saudável é carboidrato, chocolate, carne, ainda que possa passar sem isso. Come sabendo que pode passar sem.

Se um marciano perguntasse o que diferencia um garoto de 26 anos das outras dez mil idades que encontramos em nossa cidade, a resposta é simples: estar sempre em busca de algo novo, não daquilo que sempre existiu e se esparrama; estar sempre ligado em novidades. Novidade não é Felipe Massa, novidade é o que faz Felipe Massa ser novidade.

Um cara de 26 anos lê Martha Medeiros e se tiver alguém por perto pode acabar lendo em voz alta, desde que possa ler e comentar.

O vocabulário é razoável, mas geralmente monossilábico, com termos e expressões curtas que dizem quase tudo. Subitamente, no meio de um assunto fatídico, surge um ‘só’.

Uma coisa ridícula: exibicionismo. Uma esperança; eis algo que demanda tempo e gera respostas vagas como “o autoconhecimento coletivo”.

Este é o resumo, mais ou menos exato, de uma conversa com um garoto de 26 anos.

segunda-feira, 16 de abril de 2012

Transgredir

Rosângela Rossi
Psicoterapeuta, Filósofa Clínica, Escritora
Juiz de Fora/MG


Por que? Para que? Como?
Por que dormir à noite e não ficar acordado vendo as estrelas, lendo um livro, escrevendo ou amando até o sol nascer?
Por que não tomar cerveja ao amanhecer e café ao anoitecer?
Por que não almoçar às 18 hs e jantar ás 3 hs da manhã?

As regras vão nos engessando e nos emburrecendo.
A vida vai passando no sempre tudo igual, certinho e chatinho.
Sem perceber vamos nos perdendo no tudo sempre o mesmo. Marasmo.

Para que? Servindo a quem? A Apolo? Ao Logos?
Quero ser Bacante e seguir Dioniso pelos caminhos de Eros.
Quero dormir ao relento em pleno sol do meio dia.
Caçar pirilampos e me enrolar no cobertor sob o luar.
Não seguir regras e ouvir o canto encantado de minha alma.

Posso transgredir como quiser a qualquer tempo.
Ser maluco beleza ou Frida khalo ou Picasso ou Chaplin ou.... Muitos.
Ser um eu que até então não me deixei ser.
Por que? Porque deixei minha alma ser engolida pelo sistema.

Enfim, me liberto, sem preocupar em agradar, com coragem de me experimentar.
Quem quiser que me acompanhe. Um mundo intenso nos espera.

Com amor e dor sem censura vamos caminhar por florestas e vales.
Desbravando o desconhecido. Achando e perdendo sem compromisso vivendo.
Transgredir é mais que lei . É aventura das almas livres.

domingo, 15 de abril de 2012

Fragmentos filosóficos delirantes XCIV*


"Não gosto de conclusões. Conclusões são chaves que fecham"

"Acontece que meu espelho ficou cansado dessa função de só repetir o que vinha de fora e começou a ter ideias próprias"

"'A ciência normal', diz T.S. Kuhn, 'não procura nem novidades de fato nem de teoria. Quando é bem-sucedida, ela não encontra novidades'"

"'Estou muito curioso sobre aquilo que o senhor irá dizer', alguém comentou a Wilfried Bion, pouco antes de uma de suas conferências. Ao que ele retrucou: 'Eu também..'"

"O entendimento esgota o sentido da palavra"

"Os místicos e os poetas sabem que o silêncio é nossa morada original"

"A verdade é underground, clandestina, subversiva"

"Os poetas buscam as palavras que moram no silêncio"

"Palavras de ordem não toleram as brumas, pois é lá que moram os sonhos. Luminosidade total para tornar impossível sonhar. Pois os sonhos são testemunhos de que a alma se recusa a se tornar um pássaro engaiolado"

"Os olhos que só vêem o visível não podem ver as ausências que moram ali"

"A palavra é apenas a beirada do abismo. O abismo, ele mesmo, está coberto de neblina; nele habita o silêncio. As dez mil palavras que comunicam o conhecimento das dez mil coisas são inúteis: o vento não pode ser capturado por redes, a beleza dos bosques profundos e escuros desaparece se acendemos nossas lanternas"

* Rubem Alves

sábado, 14 de abril de 2012

A VERDADEIRA NUDEZ

Ildo Meyer
Médico, Filósofo Clínico, Escritor
Porto Alegre/RS


Alguns leitores perguntam como acontecem tantas coisas em minha vida, como tenho tantas histórias para contar. Na verdade só consigo captar e contar uma parte muito pequena do que está acontecendo, o resto passa despercebido. Mesmo assim, esforço-me para tentar não ser um simples assistente ou personagem do enredo que me cerca.

Pequenas rotinas, comportamentos robotizados, teses definitivas causam-me espanto. Costumo querer saber por que, como, onde, quando se originaram regras, conceitos, relacionamentos, religiões, paradigmas.

Acredito em vias alternativas e fico atento ao lado B dos acontecimentos, aquilo que não é percebido se não houver sensibilidade, curiosidade, treinamento e vontade de olhar em outras direções. É por estes caminhos que surgem novas histórias e por onde podemos atuar pró - ativamente por um mundo melhor.

Um famoso mestre zen budista havia sido convidado para uma festa. Conforme sua forma de viver, compareceu vestindo sua modesta roupa, gasta pelo tempo e mal cuidada. O anfitrião, não o reconhecendo, expulsou-o dali. O mestre voltou para casa, trocou de roupa, vestiu um manto bordado com pedrarias e retornou para a festa. Desta vez foi recebido com toda a pompa e conduzido a um local especial reservado para autoridades. Lá chegando, tirou seu manto e colocou-o cuidadosamente na cadeira. “Não tenho dúvidas de que esperavam pelo meu manto, já que não me deixaram entrar pela porta na primeira vez que vim”. Virou as costas e foi embora.

O manto é uma fachada. Portas abrem ou fecham conforme o estilo dos mantos. Quantos mantos precisamos vestir ao longo da vida? Muitos. Alguns por vontade própria, outros por imposição. Seja como for, os trajamos. Depois de um tempo, os mantos podem colar no corpo e não se consegue mais retirá-los, nem mesmo viver sem eles. Outras vezes os mantos ganham vida própria e passam a ditar os trâmites da vida de quem os usa.

Enquanto alguns precisam da roupa para freqüentar determinados locais, outros só conseguem entrar se ficarem quase nus, utilizando o corpo como degrau para a fama e ganhar um bom dinheiro. Até a mais insignificante das criaturas, tira a roupa, faz uma pose erótica e se transforma em uma deusa, bastando apenas alguns retoquezinhos no photoshop.

Banalizaram a nudez a tal ponto de não causar mais espanto, não escandalizar e até mesmo, não excitar como deveria. Por incrível que pareça, alguns nus são olhados com total indiferença. Viraram fachada. Ninguém se expõe verdadeiramente estando nu.

O cantor Ney Matogrosso, confessou sentir-se muito mais envergonhado durante uma entrevista, onde se encontrava completamente vestido e revelando sua intimidade, do que cantando e rebolando semi nu no palco, onde representava um personagem.

Talvez a verdadeira excitação esteja, hoje em dia, em conseguir penetrar fachadas alheias e romper as próprias. Não é fácil, exige cuidado. Quando alguém nos abre a porta e permite ultrapassar as aparências, estamos pisando em local sagrado. É preciso tirar os sapatos e estar ciente de nossa responsabilidade.

Para se mostrar por inteiro não é preciso ficar nu, é necessário despir a alma e se entregar. Sem medo de correr riscos, mostrar pequenos defeitos, contar segredos íntimos ou expor fraquezas. Somos muito mais que fachadas. Reduzir-se a um simples manto ou nudez é uma evasão de si próprio, uma alienação de seu eu. Contraditórios ou não, somos uma pluralidade, um infinito a descobrir.

O segredo para abrir portas não é se mostrar por fora, mas sim, olhar para dentro. É assim que ficamos mais bonitos, íntegros e conseguimos enxergar além das aparências. Não vemos as coisas como são, vemos as coisas como somos.

sexta-feira, 13 de abril de 2012

Divagações III

Miguel Angelo Caruzo
Filósofo Clínico
Juiz de Fora/MG


Depois de alguns dias com essa divagação escrita, me deparei com um fragmento a partir de uma leitura aleatória de Nietzsche e achei pertinente expô-lo como abertura ao texto. Entretanto, que seja reconhecido como trecho introdutório à divagação e não como fio condutor das reflexões desenvolvidas.

“Há, frequentemente, uma espécie de humildade estúpida que quando nos afeta, nos torna para sempre impróprios para as disciplinas do conhecimento. Pois, no momento em que o homem que a transporta descobre uma coisa que o choca, dá meia volta, e diz consigo: ‘Enganaste-te! Onde é que estavas com a cabeça? Isso não pode ser verdade!’.

E, ao invés de examinar mais de perto e de ouvir com mais atenção, desata a fugir, como que intimidade, da coisa diferente, e evita encontrar aquilo que o choca e procura esquecê-lo o mais depressa possível. Pois a sua lei interior, diz: ‘Não quero ver nada que contrarie a opinião corrente. Serei eu feito para descobrir novas verdades? Já existem muitas antigas.’” (Nietzsche, A Gaia Ciência §25, pp. 56-57).

Continuando as ideias apresentadas no texto da série “Divagações” anterior, pensaremos agora acerca da limitação do conhecimento e da pretensão de querer dar conta com respostas apressadas. Como podemos notar, historicamente muitas coisas foram sendo conhecidas, ou devidamente explicadas.

Em séculos de existência humana podemos explicar tudo? Evidentemente que não. Entretanto, não resolve nada responder valendo-se de concepções de mundo oriundas de pensamentos imaginários claramente criados mentalmente ou com quaisquer outras formas.

O que motivou a busca humana por compreender ou aprender sobre toda realidade reconhecida foi exatamente a inquietação gerada pelo desconhecimento e a crença de que seria possível chegar às respostas. Séculos de desenvolvimento ocidental, por exemplo, nos deram matemática (vinda do oriente), física, sociologia, lógica, gramática, psicologia, engenharia, ciências das mais variadas formas, e a tão antiga e persistente na atualidade, a filosofia.

Todas elas deram conta de todas as nossas questões? Não. Mas, por meio delas foi possível saber como se formam desde as nuvens e as chuvas, os raios e trovões, até o nascimento e morte de uma estrela. Nas questões mais próximas, coisas como falar com alguém do outro lado do mundo vendo sua imagem e ouvindo sua voz é possível hoje pela internet. Isso para citarmos apenas algumas conquistas das mentes inquietas da humanidade.

E tratando de inquietação, os acomodados geralmente não foram tão longe. Quem se conformou em compreender que ao fazer ofertas a Deméter conseguiria uma colheita farta ou quem fizesse o devido culto a Poseidon conseguiria navegar em paz, ignorou o desenvolvimento da agricultura com técnicas avançadas, bem como o desenvolvimento dos modos de navegar cada vez mais dependentes de aparelhos e com precisão cada vez mais apurada.

Inquietar-se com algo que desconhece deve motivar o conhecimento desse algo e não buscar qualquer resposta. Cada época da humanidade cria seus próprios mitos para responder a questões atinentes à realidade*. Diversos fenômenos ainda não respondidos carregam em si diversas respostas “prontas”. Mas, as respostas mais esclarecidas estão em quem não se contenta com pouco.

A humildade da humanidade está em saber que sua característica mais intrínseca está em reconhecer o ambiente no qual transita. E, por consequência, saber que jamais dará conta de responder tudo. Entretanto, isso não cede o direito de dar respostas absurdas e esperar que todos concordem. Alguns simplesmente viverão toda sua vida com respostas que encobrem a inquietação.

Outros, pelo contrário, viverão no sentido de buscar compreender e tentar deixar seu legado de reconhecimento da vida e do mundo para os que vierem depois. Mas, que fique claro que não se pretende emitir juízo de valor perante isso. A humanidade caminhou assim até hoje e provavelmente continuará desse modo.

A intolerância mútua tanto dos que não queriam deixar suas posições confortáveis quanto dos que em nome de vislumbrar novos horizontes, é claro. Principalmente dos primeiros. Mas, esse assunto não cabe ser desenvolvido aqui. Que fique como questão a ser pensada. Talvez desenvolva nas próximas divagações.

Enfim, a finalidade dessa reflexão foi atentarmo-nos para a inquietação diante do que não conhecemos. Adquirimos grandes progressos por meio dos que buscaram. Não foi a toa que Thomas Edison registrou em suas descobertas 2.332 patentes, dentre as quais está a lâmpada elétrica. Podemos deduzir que se o homem se acomodasse com a possibilidade de viver sob a luz de uma vela ou de uma lamparina a gás, dificilmente chegaria a tais resultados. Impossível talvez seja uma palavra desconhecida para os que vivem a inquietação.

Quer viver em seu mundo tranqüilo? Fique à vontade. Mas, jamais queira impor barreiras às inquietações de quem quer mais. Pois, são os inquietos que nos legam grandes bens. Bombas atômicas, armas de fogo, anthrax? Sim, estas são destrutivas invenções humanas. E estão ao lado das vacinas, aviões, carros, internet, computadores, geladeira, medicina, produção em massa de livros, televisão, rádio, produção em massa de alimentos, etc. E que a última palavra não seja “sei”, mas “não sei, vou procurar saber”; e se não sei, não sei. Respostas fáceis não dão conta de acalmar mentes inquietas que querem sempre mais.

* Tratarei de conceitos como “realidade” nas próximas divagações.

quinta-feira, 12 de abril de 2012

Mulheres super poderosas

Débora Perroni
Professora de Filosofia, estudante de Filosofia Clínica
Porto Alegre/RS


Hoje enquanto estava lavando a louça (isso também pode ser terapêutico), me dei conta do quanto é difícil ser uma mulher independente, livre, bem decidida, bem articulada, enfim contemporânea!

Hoje, eu entendo uma série de relatos de grandes mulheres que afirmam ter problemas em relacionamentos amorosos, realmente não é fácil. Parece-me que os homens têm certo receio (pra não dizer medo), de uma mulher que parece ser tão auto-suficiente, que transmita uma imagem de que não necessite da sua presença.

Talvez, se eu fosse homem, também escolheria uma mulherzinha mais meiga, carente, frágil, doce, que eu pudesse dominar e não me sentir inseguro ao seu lado.

Por outro lado, me sentiria um machista com a idéia de um homem provedor, o que, enquanto mulher não acho ruim. Não posso negar que temos culpa no cartório, realmente, companheiras do século XXI, por vezes, nos escondemos tanto embaixo de uma armadura de auto-suficiência que fica complicado de alguém sentir-se útil, importante, podendo gerar dessa forma falsas expectativas de um abandono, por exemplo.

Cabe esclarecer que não fazemos nada disso de propósito, às vezes, esta explicação está na nossa historicidade. Como o caso de Dercy Gonçalves, que transformou a revolta com o pai em algo produtivo como a sua carreira. De qualquer forma, ela teve vários problemas nos seus relacionamentos amorosos, acredito eu, que muito em função do pai.

Isso me lembra o mito de Palas Atena, grande Deusa grega, que nasceu da cabeça de seu pai Zeus, contam que ele teve uma forte dor de cabeça e através de um furo feito em sua cabeça nasceu Atenas, já adulta e com seu escudo. É a Deusa da sabedoria, da arte da guerra e contam que morreu virgem. Fazendo uma alusão a história de Dercy, podemos dizer que aconteceu algo semelhante no seu caso, pois através de seu pai nasceu uma nova mulher.

Penso que nós, mulheres do século XXI, cada uma ao seu modo, tenha sido impulsionada a agir da forma como agimos em função de alguma cobrança externa, talvez alguma decepção amorosa ou através da experiência de nossos pais, em todo caso acho que fomos machucadas de alguma forma por um homem, seja ele pai, irmão ou amor.

Lembra-me também de Alice no País das Maravilhas, conta-se que a jovem de 19 anos é uma garota independente e que se sente vigiada pelas mulheres da aristocracia, suas atitudes contradizem a sociedade da época e ela não sabia como equilibrar seus sonhos com o que esperavam dela, e acabou por recusar um casamento e então partiu, por acaso, para o País das Maravilhas onde viveu loucas experiências.

Definitivamente eu me identifico com essa garota! Vejo que existe um mundo de possibilidades que me aguardam e não tenho medo de encará-las!

Acho que é isso, somos mulheres super poderosas, belas, mas adormecidas e pode não parecer, mas também queremos um príncipe encantado!

quarta-feira, 11 de abril de 2012

Multiplicidades

Pe. Flávio Sobreiro
Poeta, Filósofo Clínico
Cambuí/MG


Nem todas as manhãs de sol são lindas, e nem todas as noites sem luar são tenebrosas. Olhar a vida sempre de diferentes pontos de vista é o caminho para quem deseja ir além do que possa parecer normal.

Em tempos de normalidade, quem pensa diferente condena-se a uma perseguição preconceituosa. De normais o mundo está cheio! Mas o que é normal? No mundo dos conceitos e definições muitas poderiam ser as respostas. Mas no mundo da alma humana as definições são simplesmente uma maneira camuflada de dar uma resposta ao que ainda não tem nome.

Anormal é sempre um modo de definirmos aquilo que não compreendemos. Diante de alguém que desenha rabiscos sem sentido (o que já é uma definição de anormalidade definida antecipadamente por quem escreve), muitos podem pensar que o incompreensível é uma definição de que tal pessoa precise de um acompanhamento terapêutico.

Muitos foram parar em consultórios terapêuticos por transformarem suas tristezas em depressão. Afinal o que é a depressão? Em uma definição primária não seria uma tristeza vista a partir de conceitos psiquiátricos e psicológicos mais sofisticadas?

Fato é, que sempre o ser humano teve a tristeza como companheira de jornada. Estar triste é tão normal quanto estar alegre. Contudo a tristeza sempre foi vista como vilã no reino dos sentimentos. Anormal é estar triste em uma sociedade que reprime qualquer sentimento de tristeza. Para o ser humano estar bem é necessário estar sempre alegre. Mas como retirarmos de nós a anormalidade da tristeza sendo que ela faz parte de nosso processo humano?

Não sei se os avanços da psicologia e psiquiatria ajudam o homem a ser mais feliz. Num passado, não muito distante ninguém falava em depressão. Era um termo desconhecido. Hoje todos dizem: “Tenho depressão!”. Se este termo não tivesse entrado para a categoria de doenças e se nem mesmo tivesse sido criado, iríamos ouvir: “Estou profundamente triste!”. Fico sempre a me perguntar quais outros sentimentos serão catalogados como doenças. Os sentimentos humanos estão perdendo sua categoria de estados da alma e se tornando neuroses que adotamos como fatores doentios.

Anormal seria quem pensa diferente quando vivencia as mesmas situações que outros? Alguns terapeutas dirão que sim. Padronizar pensamentos e atitudes tem sido a base de muitos que se dizem terapeutas e buscam com seus métodos formatar o modo de quem pensa com os próprios neurônios. Normal é muitas vezes trilhar os mesmos caminhos e reprimir a criatividade que nasce das próprias experiências e vivências.

No mundo anormal, o normal é sempre um problema a ser solucionado. Ninguém deseja ser visto como anormal por ser e pensar diferente da maioria das pessoas. Felizes são aqueles que sentem a brisa serena de uma tarde de outono como um momento que não pode ser definido. Normais são aqueles que diante das folhas secas levadas pelo vento adentram nos territórios mais secretos de seu ser. Normal é toda pessoa que descobriu na sua anormalidade um caminho para ser feliz.

terça-feira, 10 de abril de 2012

VINHO E MOINHOS

Vânia Dantas
Filosofa Clínica
Uberlândia – MG


Talvez a comunicação com as pessoas ‘diferentes’ seja mais possível pela emoção. Talvez nessa troca nos entendamos, tendo a razão recolhida. Mas como dizer isso para quem define a melhor forma da vida ser vivida, ou seja, através da racionalidade?

A própria existência nos ensina a ser, na figura das pessoas e situações encontradas. Assim se percebe que há caminhos para uns e para outros. Com essa emoção me lembro dos delírios que observo no mundo, no caos da Terra e no das imagens mentais. Música, vinho e fantasia.

Os moinhos de vento ruflam no meio do mar escuro. Altos, muito altos, construídos de tijolos antigos, querem tirar sal da água, água do sal. Os moinhos se vão com o redemoinho, sobem com o vento como num clipe de Pink Floyd. Esse mar, que é um copo de vinho, vinho amargo pela dor ou prazer adocicado de enjoar.

Esse corpo de vinho que se liquefaz no chão já não se agüenta de saudade e não sabe mais como existir sozinho; se altera com ondas na superfície e se espanta com a multidão de veleiros coloridos, espantalhos de surpresas e desfeitas. Se há esperança? Anseia há muito a calmaria.

Lembro premonições, como o texto distribuído na sala dos professores:

“Construção diferente
Uma nova cor muda um quadro
Uma nova página reescreve uma história
Um novo dia muda uma vida...
Que neste ano você faça parte da construção de um novo projeto:
Viver intensamente!”

Algumas vezes, essa mensagem pode ser muito certeira. Um momento que se instaura para fazer reconstruir toda uma vida, repensar o passado, mudar o futuro. Muda-se o futuro, se ele nem existe? O tempo é uma utopia? Nossas vidas, enteiadas umas às outras, mostram que o livre arbítrio não existe...

Todos quereriam viver intensamente, dez anos a mil. Mas pode haver grande diferença entre discurso e ação. O futuro seria o mesmo, com você sozinho e lutando contra a vontade de manter seus ideais por conta de convenções e limites. Você acha que o futuro já estava marcado? Então é o presente que está errado, não você... (risos)

Mas se ele é presente, foi um pacotinho brilhante, com laço de fita vermelha que, acho, não soubemos bem desembrulhar e ver o que tinha escondido nos cantinhos... lá estava a poeirinha mágica, purpurina dourada pra dizer que é possível – e que, no fim, é tudo sonho. Mas você não a viu.

Voltar pro sonho. Soltar os braços e sentir um redemoinho pronto pra nos levar, pra guiar nossos planos, realizá-los. Caminhar no leito dos córregos da fazenda em busca das cachoeiras. Nadar a favor da correnteza do rio, ser o rio.

Alcançar um corrimão que nos ajude a transpor a ponte de Monet para outra fase da vida. Passar para outra vida, digna de ser vivida. Sentir muito mais coisas no ar do que o corpo poderia participar, sendo ele um elemento a mais e não o principal, como ocorre com a generalidade.

Encontrei os moinhos na usina eólica instalada no alto do morro do Camelinho, ao lado da rodovia Curvelo-Diamantina. Eram figuras isoladas, brancas e bem delicadas pra se dizer que seriam monstros com quem se precisasse guerrear.
Penúltimas notícias!

Filósofa Clínica ministra palestra em Sorocaba/SP na quarta!

Ipanema Online

A Associação “MOSAICO” promove na próxima quarta-feira (11), a palestra “Filosofia Clínica e áreas de atuação”, com Monica Aiub,da Associação Nacional dos Filósofos Clínicos (ANFIC).

O evento será realizado no auditório do prédio da reitoria da UNISO, no campus Cidade Universitária, a partir das 9h da manhã. A Universidade é parceira na realização do evento e certificará os participantes.

Ao final da palestra haverá um “café e conversações”, que permitirá uma maior interação entre os presentes.

“A Filosofia Clinica é um campo de atuação para o Filósofo. Nosso objetivo é criar um grupo de estudos em Sorocaba sobre o tema para que tenhamos, num futuro não muito distante, os cursos de formação para Especialistas e Filósofos Clinicos na cidade”, afima Jô Santos, Presidente da Associação “MOSAICO”.

As inscrições, que são gratuitas, devem ser realizadas por email. Basta enviar nome completo e telefone para contato no endereçodiretoria@mosaico.org.br. Também é possível se inscrever diretamente na coordenação do curso de Filosofia da UNISO, localizado no prédio da reitoria.

Coordenação.

segunda-feira, 9 de abril de 2012

Esvaziar a Mente

Beto Colombo
Empresário, Filósofo Clínico, Coordenador da Filosofia Clínica na UNESC
Criciúma/SC


Querido leitor, que você esteja bem. Hoje vamos refletir um pouco sobre esvaziar a mente. Tenho pensado muito, nos últimos dias, sobre um assunto que a meu ver é interessante e extremamente importante em nossas vidas, na vida de cada um. E o foco do meu pensamento, até bastante prazeroso, é o de se esvaziar.

Lembro que fiz o Caminho de Santiago duas vezes e dele tirei uma conclusão que trago até hoje, que é o de esvaziar a mochila, de deixá-la mais leve. Daqui a pouco a mochila está tão pesada que a vida, que é o que deve ser vivida, não pode seguir seu fluxo porque tem muito peso, muitos compromissos, muitas responsabilidades.

É comum eu receber solicitações para encontros, para programas, para festas, para reuniões, para trabalho, para sociedade, enfim, como ser humano aberto ao contato com as pessoas, recebo muitos convites. Se eu aceitasse pelo menos metade deles, necessitaria de 48 horas no dia, 14 dias na semana, 60 dias no mês, 730 dias no ano. Talvez até mais.

Além da mochila pesada, e isso a gente sente no corpo, ainda temos o cérebro cheio de coisas: de ideias, de agendas, de compromissos... Nosso cérebro, muitas vezes, é comparado a uma biruta de aeroporto. Gira para todos os lados e não sai do lugar. Esvaziar a mochila é fácil, é visível. Mas como esvaziar o cérebro, a mente?

Em conversas com amigos e especialistas, uma das fontes é a meditação. Pelo que sei, há várias formas de meditação, desde as sentadas, as deitadas até as caminhando. E foi aqui nela que me encontrei.

Mas meu foco no tema de me esvaziar surgiu quando Thereza Carlota, uma amiga de 68 anos que fez o Caminho da Ilha comigo agora no último mês de junho - juntos percorremos 188 quilômetros ao redor da capital de Santa Catarina em 8 dias – ela, quando se esvaziou para o novo, é que sentiu o que é a meditação e, a partir daí, passou a dar valor.

Não tem como não citar o diálogo do aprendiz com o mestre:

- Mestre, o que devo fazer para meditar? - perguntou o aprendiz.

Diante da pergunta, o Mestre respondeu:

- Sente e medite!

Não tem outra forma de fazer, senão fazer.

Sentado, deitado ou caminhando, não importa. Talvez devesse encontrar o seu jeito, a sua forma . Há aqueles que meditam observando pássaros. Você quer tentar? Então pare, escute-se e não pense. Pelo menos por alguns instantes durante o dia. No começo é difícil, depois a prática ensinará.

É assim como o mundo me parece hoje. E você, o que pensa de esvaziar a mente?

domingo, 8 de abril de 2012

Fragmentos filosóficos delirantes XCIII*


"Para algumas almas, ébrias de onirismo, os dias são feitos para explicar as noites"

"(...) no mundo do sonho não se voa porque se tem asas, mas acredita-se ter asas porque se voa"

"Há palavras que, apenas pronunciadas, apenas murmuradas, abrandam em nós os tumultos. Quando sabe uni-las em sua verdade aérea, o poema é por vezes um maravilhoso calmante."

"No reino do imaginário, não é impossível que o moinho faça girar os ventos"

"Aquilo que é difuso nunca é visto na imobilidade"

"O sonho é a cosmogonia de uma noite. Todas as noites o sonhador recomeça o mundo. Todo ser que sabe desprender-se das preocupações do dia, que sabe dar ao seu devaneio todos os poderes da solidão, devolve ao devaneio sua função cosmogônica"

"Há no céu tantos sonhos que a poesia, embaraçada pelas velhas palavras não conseguiu nomear"

"O conhecimento poético do mundo precede, como convém, o conhecimento racional dos objetos. O mundo é belo antes de ser verdadeiro. O mundo é admirado antes de ser verificado. Toda primitividade é onirismo puro"

"O poeta não tem que traduzir-nos uma cor, mas fazer-nos sonhar a cor"

"Um cosmos nietzschiano vive em instantes reencontrados por impulsões sempre jovens. É uma história de sóis nascentes"

"Há naturezas que banalizam as imagens mais raras: têm sempre conceitos prontos para receber as imagens"

"Para a imaginação dinâmica, o primeiro ser que voa num sonho é o próprio sonhador. Se alguém o acompanha em seu voo, é antes o silfo ou a sílfide, uma nuvem, uma sombra; é um véu, uma forma aérea envolvida, envolvente, feliz por ser vaga, por viver no limite do visível e do invisível"

*Gaston Bachelard
O ar e os sonhos

sábado, 7 de abril de 2012

A medida de Cada Um.

Jussara Hadadd
Filosofa Clínica, Terapeuta sexual
Juiz de Fora/MG


Eu sei que vocês vão dizer que é tudo mentira e que não pode ser... Será que esta terapeuta não tem uma posição definida sobre a necessidade sexual do ser humano?

Do ser humano sim, num apanhado geral, eu digo e repito que sexo é essencial, que esta é uma energia que não se despreza e que muitas pessoas lotam consultórios de terapias diversas em busca de respostas e soluções para uma vida mais feliz quando, na verdade, o que lhes falta mesmo é um pouquinho de carinho ou, melhor dizendo, uma pegada daquelas de alguém com quem se tenha afinidade.

Agora, quanto a cada ser humano... Aí a coisa tem que ser mais bem analisada. Cada um tem a sua medida, é verdade e isto deve ser respeitado. A quantidade e a qualidade do sexo que uma pessoa faz, depende muito de vários fatores e entre eles, seu humor, sua saúde, seu estado emocional, o clima no relacionamento.

O que vemos com freqüência hoje em dia são pessoas declarando fazer mais sexo do que realmente fazem. Tal fato se deve provavelmente à liberdade sexual instituída há umas cinco décadas e que obriga todo homem e principalmente toda mulher a se declarar realizado sexualmente. Assim como os homens, agora as mulheres também passaram a mentir afirmando fazerem sexo muitas vezes por semana.

Isto tem explicação. Homens e mulheres vêem no sexo um símbolo da juventude e da virilidade. A vaidade norteia os pensamentos e sentimentos da era pós-moderna e faz com que as pessoas se auto-afirmem, sobretudo, em sua aparência, desempenho sexual e posse de bens materiais.

A sociedade está dividida, entretanto em nossas pesquisas encontramos também, pessoas mais voltadas para a espiritualidade e a intelectualidade, talvez por opção ou talvez por falta de opção e que se orgulham em dizer que "nem pensam nestas coisas", que sexo é para pessoas menos elevadas, incultas e desprovidas de metas e objetivos maiores. Pode ser que para elas, isto seja uma grande verdade. Aí também entra o respeito à individualidade. Cada um vive como quer.

A verdade é que sem sexo nenhum, ah!, isso ninguém vive. Nem que seja em sonho e que depois a pessoa se auto flagele, ele acontece. Mesmo que se sublime esta necessidade, de alguma forma, o corpo humano e suas manifestações hormonais, pede por alguma atividade sexual e ela precisa ser atendida.

Tem aqueles que a revertem para alguma arte, para alguma atividade esportiva, para uma vida aparentemente ilibada e voltada para a caridade e o amor ao próximo, e por aí vai, mas como diz Freud: "Somos feitos de carne, mas temos que viver como se fossemos de ferro".

E diz mais: "Sob a influência do instinto de conservação do ego, o princípio do prazer afasta-se e cede lugar ao princípio da realidade, que faz com que, sem renunciarmos ao objetivo final que o prazer constitui, nos decidamos a consentir que a sua realização seja protelada, suportando até, em favor de um longo desvio que tomamos para chegar ao prazer, um desprazer momentâneo".

Em outras palavras o que queremos dizer aqui é que cada um tem a sua medida para a atividade sexual e o prazer obtido através dela. Cada um tem o seu momento e verdade seja dita, isto tem que ser respeitado.

Existem pessoas que se contentam com uma sessão de masturbação uma vez ao mês e outras que não passam sem uma transa de manhã, uma à tarde e outra à noite. Tem aquelas que necessitam de serviço completo, com carícias antes e depois de quatro horas de sexo intenso com múltiplos orgasmos e tem também aquelas que dão "uma rapidinha", do tipo coelhinho, duas vezes por semana. Homens e mulheres reagem de modo diverso em sua sexualidade. E o importante é ficarem satisfeitos.

O que deve ser levado em conta realmente é que o parceiro, se existir um fixo, seja respeitado também. Se a pessoa quer sexo demais e o outro quer um pouquinho menos, os dois devem achar um meio termo que possibilite a convivência. Um segura um pouquinho a vontade e o outro passa a se interessar um tanto mais pela coisa. O casal que vive com liberdade não enfrenta muitos problemas quanto a esta questão.

O parceiro que quer mais sexo busca compensações e alternativas como, por exemplo, a masturbação sem que o outro se sinta ofendido. Vê uns filmes, curte umas revistas eróticas e assim vai levando sem necessariamente ter que recorrer a uma relação paralela, o que não é muito legal porque implica em conflito, é claro.

O que pode ser pior neste desencontro é quando o parceiro mais desanimado condena o outro a viver sem sexo. O que acontece, muitas vezes, é que o condenado tem que viver também sem nada que gere uma energia dessa categoria.

Não pode se masturbar com o conhecimento do outro, não pode curtir filmes e revistas pornográficas, porque o outro se ofende e se sente traído, não pode sair para dançar, cantar, brincar ao ar livre, porque normalmente quem não tem energia sexual, também não tem energia para estas outras coisas e não permite que o parceiro as viva, por ser inseguro e temer que ele encontre e se envolva com alguém que goste destas mesmas coisas, e aí a relação que não existe por inteiro acaba de vez ou fica no mínimo ameaçada. Esta é a pior das situações.

Quando se trata de alguém que vive sozinho, que não se envolve com pessoas, que não namora e que não gosta de viver intensamente um amor cheio de prazeres e alegrias que o sexo certamente proporciona, bom aí, há de se respeitar a sua singularidade não criticando e não cobrando uma postura que não tenha a ver com ela. Esta pessoa certamente tem como lançar mão de algum recurso neste sentido, mas pode não gostar de sair por aí dividindo a sua intimidade.

Sexo é bom, é uma delícia sim, mas cada um gosta de fazer de um jeito diferente e na quantidade que lhe agrada e isso deve ser observado. Esta é a questão aqui.

sexta-feira, 6 de abril de 2012

MELHOR CALAR

Ildo Meyer
Médico, Filósofo Clínico, Escritor
Porto Alegre/RS


Poderia dizer mil coisas, mas resolvi calar...Melhor assim. Em algumas situações o silêncio expressa sentimentos que palavras nunca vão conseguir traduzir.

Também estou calando para não brigar e magoar quem mais precisaria me ouvir e calar-se. Alguém precisava tomar a iniciativa de interromper o diálogo antes que virasse uma batalha interminável.

Optei por utilizar a voz do silêncio.

Nem tudo precisa ser dito com palavras. Nem todas as perguntas necessitam uma resposta. Nem sempre a solução dos problemas aparece quando se abre a boca. Existem coisas que melhor se dizem calando, pois o silêncio é um dos argumentos mais difíceis de refutar.

Calando-me consigo ouvir meu coração, que ainda sente, continua falando e precisa de ajuda. Aproveito meu silêncio para escutar melhor, prestar atenção ao outro, interpretar gestos, olhares, respiração. Tenho tempo para analisar, deixar que as idéias circulem e amadureçam.

Calo-me para saber se existe eco. Seguro palavras inúteis ou nocivas que na ânsia de contestar ou revidar poderiam ferir.

A economia de palavras é uma virtude que não é exclusiva dos monges tibetanos. Guardo silêncio pela dor que estou sentindo e que não pôde se converter em lágrimas.

Calo-me por respeito a você, para que consiga ouvir o que seu interior quer lhe falar, possa pensar a respeito e talvez sentir aquilo que não estou conseguindo lhe dizer. Acredite naquelas coisas que não conseguem ser ditas. Corações não conversam com palavras, precisam de silêncio para conseguir se ouvir e entender.

A psicanálise sustenta que não existe silêncio sem sentido, pois não existe um olhar humano sem interpretação da realidade, ou seja, o silêncio é sempre uma folha em branco, um prenuncio de novas palavras ou situações, uma resposta latente, e até mesmo, uma pergunta trancada.

Sei que ficar em silêncio incomoda e é constrangedor. Desculpa, não estou calado porque recuso-me a conversar, covardia, omissão ou indiferença. Também não estou me fazendo de louco. Calo-me porque em alguns casos, o silêncio é a resposta que tudo explica, e neste caso, é a única resposta.

quinta-feira, 5 de abril de 2012


Em cima da hora!

Arthur Bispo do Rosário: a poesia do fio

A mostra apresenta um conjunto expressivo de obras do artista cuja poética tem profundo impacto na teoria crítica da arte, na arte contemporânea, nas terapias ocupacionais e também na medicina.

Bispo do Rosário passou a maior parte de sua vida internado em uma clínica para doentes mentais e lá produziu toda sua obra, que hoje é um importante patrimônio cultural brasileiro, por meio da qual é possível acessar um imaginário que serve de ponto de partida para um amplo processo de reflexão sobre a arte contemporânea e a cultura popular.

A mostra conta com a parceria do Museu Bispo do Rosário e o olhar dos curadores Helena Severo e Wilson Lázaro.

Aberta ao público de 21 de março a 29 de abril

Entrada Franca.

Santander Cultural Porto Alegre
Rua Sete de setembro, 1028
Centro Histórico. Porto Alegre/RS.
Tel. 51 3287 5500
De terça a sexta, das 10h às 19h
Sábados, domingos e feriados, das 11h às 19h

Coordenação.
Prezados amigos,

Hoje, dia 5 de abril, às 20h, no Centro Cultural Yves Alves (SESI Tiradentes) será lançado meu novo documentário, "Deus Esteja".

O documentário foi realizado no ano de 2011, na zona rural de Resende Costa, na VIII Reza do Retiro Velho.

Seguindo a mesma proposta dos meus outros trabalhos, esse documentário busca registrar as manifestações culturais da nossa região, valorizando as tradições populares e dando voz às pessoas da comunidade.

A singularidade deste trabalho está mais nas imagens do que nas falas e entrevistas.

Realizadas com muita plasticidade e sonoridade, as imagens mostram um encontro de foliões, violeiros e religiosos que se reúnem anualmente para celebrar, cantar, pular fogueira, brincar de boi janeiro - o carnaval do povo da roça - com muita devoção e simplicidade.

Conto com presença de todos vocês!

"2011/ MG / Doc/ 30 min. Direção: Mariana Fernandes. Classificação Livre"

Att.,
Mariana Fernandes
Filosofa Clínica, Cineasta, Coordenadora Cultural
Tiradentes/MG
Devaneios, poéticas, esquisitos_criativos I*

"Estou com sono e vou acordar cedo, mas a solidão do pensamento noturno perturba minha alma, desorienta o meu mais profundo ser. Escrever tem sido a solução de compartilhar.

O quê? Não importa! Quem vai ler? Pode ser ninguém, porém expurgo essa angústia existencial e crio... É só. Mais nada.

Tenho necessidade de criar a todo instante que respiro.

Uma alma como a minha não consegue ficar calada, talvez meu grande aprendizado seja o de me escutar. Mas o silêncio é tão barulhento quanto uma tempestade lá fora. agora vou criar nos sonhos... Neles posso até voar se quiser...

Tanta insensatez deve ter uma significação, de preferencia sem punição! Não! Chega de culpas, disso acho que já me livrei. Continuarei buscando e caminhando e filosoficamente pensando. Preciso aprender a escutar-me!"


*Vanessa Ribeiro. Filosofa, atriz, dançarina, estudante de filosofia clínica.
Petrópolis/RJ
Divagações II

Miguel Angelo Caruzo
Filósofo Clínico
Juiz de Fora/MG


No texto Divagações I, discorri sobre o tema da limitação do conhecimento, também comentei sobre o caráter subjetivo desse conhecimento, ainda que o referencial seja o mesmo para todos os sujeitos. Agora tratarei sobre nossa relação com o todo, o mundo ou o universo. A proposta é pensar nosso lugar diante de ou em meio ao que nos rodeia e encontrar onde nos situamos e ao mesmo tempo pensar em que nos destacamos diante de tudo isso.

O que nos diferencia de todos os seres vivos da Terra? Somos biologicamente constituídos dos mesmos elementos. Entre os seres de constituição simples ou complexas, seus elementos são os mesmos que estão presentes em nós. Quando deixarmos de ser, nossa constituição se desfará e se tornará parte de outras coisas. O que resta enquanto vivemos, que nos torna privilegiados? O fato de reconhecermo-nos parte desse todo.

Ainda que nos julguemos superiores a tudo o que temos consciência, perdemos o foco metafísico do mundo. Metafísico aqui não no sentido de algo além do “mundo físico” ou nenhuma afirmação além de tudo o que é e que temos acesso. Metafísico nesta divagação se encontra no sentido de totalidade de tudo o que é enquanto é.

Outro nome para metafísico é ontológico. Etimologicamente ontológico trata do ente enquanto ente, ou seja, do ser sendo, existindo, enquanto existe. Em outras palavras, ente designa o particípio presente do verbo ser, portando, poderíamos traduzi-lo também enquanto “sendo” ou simplesmente existindo.

Voltando à questão metafísica de nossa situação ou de nossa constituição, pensemos na distinção do que somos para os demais entes contidos ou partícipes da natureza. Somos parte, ou integrantes da totalidade que é. Em momento algum podemos nos abster de vivermos ou de constituirmos a totalidade da qual somos parte.

Por sinal, uma ínfima parte dessa totalidade que denominamos universo. Se nossos olhares não são passíveis de abarcar o todo, as ciências humanas apenas apontam, com constantes tentativas de aproximação, referências do quanto somos pequenos diante desse todo do qual fazemos parte.

Diante desse todo e de nossa participação, não precisamos desfazer da importância de nossa observação. Aliás, mesmo que seja para nós mesmos importante sermos capazes de nos maravilharmos com tudo o que nos constitui, o privilégio é totalmente válido. Desde uma criança que deita no chão à noite e ao olhar para o céu contempla as infindáveis estrelas, até um astrofísico que observa com seus aparelhos de última geração as constituições mais complexas do cosmos, somos um grupo privilegiado.

Se estamos ou não sozinhos no universo (enquanto mentes conscientes ou apenas como seres dotados de vida, como as formas elementares da microbiologia), não importam agora. O que nos torna únicos é o modo único de nos percebermos nessa totalidade.

E talvez o erro maior esteja em nos outorgar a centralidade ante o todo, subestimando todas as demais formas de vida que nos circundam. Destruir tudo o que está em nossa volta para atender nossos interesses torna a Terra mais austera conosco. Entretanto, mesmo que morramos, este mesmo planeta terá seus próprios meios de refazer-se e, com outros meios de vida, repovoar e reorganizar a fauna e a flora. Portanto, quando se fala em cuidar da natureza, não nos preocupemos com a vida na Terra, pois esta continuará de alguma forma. Preocupemo-nos com nós mesmos, que não sobreviveríamos com pequenas mudanças climáticas.

Voltando à nossa diferenciação em relação aos demais seres, pensemos no fato de sermos capazes de nos reconhecer únicos, subjetivos, singulares, conscientes de que somos finitos, que constituímos o mundo e que somos aptos a vislumbrar tudo a nossa volta e gozarmos do que vivenciamos.

Enquanto um apaixonado pelo estudo da filosofia vejo que diversas observações filosóficas de mundo que pude estudar até agora são inteiramente criações únicas de pontos de vista. Adentrar nessas visões é caminhar por outros meios de visualização dessa realidade que chamamos mundo.

E a cada caminho que percorro ao adentrar no universo de pensamento de um filósofo, mais meu modo de ver o mundo abrange. E quanto mais abrangente o modo de ver, mais me reconheço pequeno ante a totalidade de tudo o que é. Mais o olhar metafísico ou ontológico se expande.

E qual seria a “vantagem” de tudo isso? Bem, eu só tenho uma oportunidade de ver o que vejo. Ou seja, com apenas uma vida eu somente teria um olhar e uma perspectiva para vislumbrar.

Acompanhando filósofos, escritores literários, artistas, poetas, pensadores de ordem diversa, o zelador do prédio, o vendedor da esquina, o empresário, meus amigos e familiares – com o conhecimento adquirido de modo subjetivo tal como citei em minha primeira divagação –, sou capaz de abranger minha visão e viver essa vida como se eu fosse muitos e se pudesse viver as várias experiências sendo apenas um. E aí está a vantagem, ou dito de melhor modo, o privilégio de tudo isso.

quarta-feira, 4 de abril de 2012

Sobre ausências e atalhos

Luana Tavares
Filosofa Clínica
Niterói/RJ


Às vezes, o olhar se distancia como se quisesse alcançar o que já não está mais ao alcance das mãos da alma. Porque sentir e tratar de ausências, num sentido que mais se refere como confirmação de uma presença, é como ter as entranhas se rasgando na tentativa desesperada de buscar uma completude que não se encontra mais lá, onde sentimentos não contaminados ainda tentam sobreviver. A ausência é a própria presença do vazio que preenche uma dimensão ainda desconhecida, ainda não descoberta.

Nos vácuos deixados por quem está longe, poucos sentires consolam. Como se andanças percorridas na imensidão de um espaço ainda não desbravado se esvaíssem como brisas efêmeras e descoloridas num devaneio que, em vão, tenta se justificar. Em função de um desejo, trilhamos estradas na intenção de um porvir, de uma esperança que insiste em não se esvair. Não se esvai porque, para muitos, deixar partir também é demonstrar afeto, mas um que dilacera o peito e, assim, a esperança o consome.

A busca por sonhos perdidos ou ausentes se torna algo estranhamente distante, provavelmente por antever tudo o que jamais será encontrado. Momentos assim lembram que há alguns esforços e empenhos que não conseguem se concretizar, ainda que mergulhem profundamente em seus anseios mais fortes e ocultos. Não se concretizam simplesmente porque não é mais possível; porque não basta querer e sim entender que alguns fins são necessários.

Há momentos em que apenas a inexorável e determinada atitude da vida – por si mesma – permanece. E ela, a vida, não costuma dar lugar a vontades carentes de poder. Porque a vida encontra seu modo de existir, mesmo que descrentes horizontes atravessem seu caminho.

Feliz de tudo que deixa saudade... sua essência continuará a transitar entre os sentidos da terra, através da sutileza dos ares, pela insistência das águas e pelo inebriante calor do fogo. Mas principalmente através da presença sutil das lembranças e percepções que não se esgotam. E as lembranças reavivam sonhos...

E os sonhos insistem em resgatar as ausências presentes na alma, mesmo que à custa da sanidade perdida, indicando que o sofrimento por perdas compromete a própria percepção da realidade. É que os sonhos não se ausentam tão facilmente e insistem em se atualizar, mesmo que nos caminhos cobertos do pó da existência ou na matéria viva que aninha desejos. Ou na imersão de lugares distantes onde flutuam os delírios, as aberturas improváveis ou os abismos impenetráveis.

E a lembrança, atenta às infinitas variedades subjetivas, espreita as opções possíveis, na tentativa de se fazer perceber, de atender às esperanças que acalentam nossos sonhos, ao alcance de um beijo, um gesto, um toque ou de uma distância entrecortada de certezas.

Nas ausências, há impressões que extravasam as comportas da alma, vazando por entre as fendas e precipícios da existência. Vão se infiltrando como água e trevas nas veias abertas dos intensos espaços da esperança, resvalando por entre pedras de tristezas e orifícios de saudades.

E muitas vezes não percebemos que os mesmos sonhos podem estar próximos, tão perto que nem conseguimos perceber ou distinguir, como se o sentido mais precioso e sagrado não fosse capaz de suportar a totalidade de seu significado. Os sonhos podem ser algo tão intrinsecamente belos, reais, sempre capazes de devolver a percepção, ainda que no absurdo atalho da existência.

Quanto aos atalhos, ainda que forçados, conferem a permissão necessária aos jardins da alma – mesmo que esta esteja fortemente protegida por ofuscantes armaduras – e indicam como podem os sonhos ser (re)descobertos, transferindo a busca para algum lugar indecifrável... enigmático, onde as ninfas, os elfos, as fadas e as bruxas de cada singularidade se encontram e se permitam dançar como se não houvesse amanhã... ontem... nunca... sempre. Atalhos de onde partem as essências que perfumam caminhos e consolam ausências.

terça-feira, 3 de abril de 2012

Pela primeira vez professora

Débora Perroni
Professora de Filosofia, estudante de Filosofia Clínica
Porto Alegre/RS


Hoje, 22 de março de 2012 eu me senti pela primeira vez professora! Não foi quando fiz o meu primeiro estágio (ocasião em que descobri a minha vocação), ou quando apresentei o meu trabalho de conclusão, nem quando vesti a toga e recebi o meu diploma.

Hoje eu me dei conta do poder que tenho em minhas mãos, hoje eu sei o valor do meu conhecimento. Não foi à toa que dois políticos de partidos opostos vieram pedir o meu apoio, eles já haviam percebido o que eu nem sequer sonhava.

De alguns de meus professores eu tirei lições para a vida toda, me dá saudade do convívio com pessoas tão especiais que puderam ver em mim um investimento e é assim que eu vejo os meus alunos. É neles que eu deposito a minha confiança em um mundo melhor. Pode dizer: é utópico, sim! Mas no sentido positivo da palavra, de algo que ainda não existe, mas que é possível!

Realmente me cansa ver as pessoas reclamarem pelo simples prazer de reclamar, porque está na moda reclamar, porque você se traveste de intelectual ao fazê-lo, mas quando é proposta a mudança a essas pessoas elas se justificam com mil motivos, para que não saiam da sua condição de vítima que já está internalizada!

Este é o preço que se paga por viver em um sistema medíocre, que é sustentado num mundo de ideias, baseado em uma constituição de uma democracia que, antes de tudo é, em verdade, uma demagogia!

Não é possível que todo político se deixe corromper quando estão no poder! Não é possível que tenham encarado a carreira apenas como um bem de consumo, ou um modo de adquirir bens de consumo. Eu não acredito, ou melhor, eu não quero crer que todo político pense assim, que ele nunca teve "vontade política" de melhorar e contribuir com a nossa sociedade.
De nada adianta reclamar do sistema se não fizermos algo para mudá-lo. Não cabe a nós combatê-lo, o que nos cabe é usar as suas ferramentas a fim de torná-lo digno!

Política é assunto que eu tinha asco, até que comecei a estudar para dar aulas de sociologia aos meus alunos, e hoje compreendo o rio de ideologias em que estamos imersos, hoje mesmo até pensei em fazer parte dela.

Esse amadurecimento intelectual não acontece do dia pra noite, foram anos de rebeldia e, por consequência, de repressão, até que eu entendi o meu valor como pessoa e hoje enfim entendo o meu valor como professora!

E isso não diz respeito a remuneração salarial, mas a semente idealista que eu planto no coração de cada um. Agradeço ao sistema por me proporcionar a profissão, eu vou devolver tudo a você ensinando: Marx! Nietzsche! Maquiavel! Hobbes! Locke! Rousseau! Montesquieu! Platão! Comte! Freire! Sobre política, religião, sociedade e filosofia!

segunda-feira, 2 de abril de 2012

Traidor ou traído

Rosângela Rossi
Psicoterapeuta, Filosofa Clínica, Escritora
Juiz de Fora/MG


Acontece assim... De quem menos se espera.
Pode acontecer todos os dias, em qualquer esquina.
Você se entrega, confia, se doa e...
Ao virar as costas, a traição.

Mas, não pense que a culpa é do traidor.
Seria fácil julgar quem traiu, se...
O traído não tivesse elegido a traição.

Isto mesmo! O traidor pode ser vítima de um jogo invisível.
Traidor e traído jogam os enigmas das sombras.
Projeção do insondável e imponderável mal vivido de ambos.

Quem é o culpado? Quem é o responsável?
Quem se aventura a ser juiz deste jogo por vezes singular.
O traído sutilmente vai colocando as pedras de suas insatisfações
No tabuleiro da existência complexa e cheia de surpresas.
E sua vítima, colocada entre parênteses, se submete sem pensar
Em múltiplas tramas emocionais.

Ao se tornar traidor, colocado no altar de culpado,
Liberta o jogador para voar para novos ares.
Nelson Rodrigues sai do túmulo a cada estória, que seria trágica,
Se não fosse parar no forum ou no divã.

Acontece assim... Humanos no Olimpo.
Os deuses se apresentando, sem disfarces, tramando.
E nós mortais obedientes, jogando.
Depois, dizem que Deus não joga dados.

domingo, 1 de abril de 2012

Fragmentos filosóficos delirantes XCII*


"Um poema não tem moral; a obra de arte não tem moral. Não ensina qualquer lição específica, nem dá qualquer conselho específico."

"O mesmo poema é lido por várias pessoas, e cada uma delas faz dele o "seu" poema."

"As relações internas que o tornam belo para quem o vê precisam ser descobertas e, de certa forma, atribuídas pelo admirador."

"(...) a história é feita por fanáticos. As pessoas de mentalidade aberta e generosa fazem ciência, poesia ou outra arte produzida pela imaginação. Mas é preciso decidir, quem quer fazer história deve ser como Stalin e Hitler."

"(...) a obra de arte nos ensina não só o que é agir como se fôssemos outra pessoa, mas também o que é ser outra pessoa."

"A obra de arte é essencialmente uma proposição incompleta, que nos é apresentada para que com ela possamos construir nossa própria generalização."

"Na verdade, há muitas razões para dizer que o poder de manipular imagens em situações hipotéticas é uma forma de magia."

"Muitos pensadores da Renascença acreditavam que a imaginação era essencialmente mágica."

"(...) o produto de toda atividade humana, científica ou artística, é um artefato. A natureza da criação humana consiste em criar coisas que trazem a marca da sua fabricação."

"Um edifício 'horizontal' não está preso a um único ângulo de visão; precisa assim guiar nossa atenção pelo modo como organiza os detalhes."

*Jacob Bronowski