sábado, 30 de junho de 2012

Fragmentos filosóficos delirantes XCXIV*


"(...) E algum tempo depois, eles que haviam transposto seus confins, por caminhos singulares se encontraram, e, se não foram felizes para sempre, ao menos conquistaram, com risco e aflição, o dom de partilhar o seu sinal, que os marcava e isolava de todos os demais."

"Não tentem me explicar, não me prendam, escrevi certa vez, mas podia ter escrito 'não me matem', como se espetassem uma borboleta no alfinete das interpretações."

"É preciso entregar-se à minha narração, andar pelos caminhos dela, rolar em suas enconstas, afogar-se em suas águas como eu tantas vezes fiz, para me acompanhar."

"Sempre foi duro vencer o espírito de rebanho, mas esse conflito se tornou quase esquizofrênico: de um lado, precisamos ser como todo mundo, é importante adequar-se, ter seu grupo, pertencer; por outro lado, é necessário preservar uma identidade e até impor-se, às vezes transgredir para sobreviver."

"Para ter um relativo controle de nossa vida é necessário descobrir quem somos ou queremos ser - à revelia dos modelos generalizantes."

"Quando se acumulam os anos, a paisagem que avistamos se torna mais variada, a perspectiva é de quem vai subindo - às vezes com asas, outras de joelhos, dependendo da situação, da personalidade, das escolhas, dos azares e das fatalidades de cada trajeto."

"(...) independente de todas as conjeturas e filosofias e cálculos e inovações, somos desgarrados, e nos atrapalhamos, e buscamos no lugar errado, ou acertamos sem querer - para surpresa nossa."

*Lya Luft
Histórias do tempo

sexta-feira, 29 de junho de 2012

Operação bicicleta: dia 1*


Com tantas campanhas que incentivam o uso da bicicleta decidi aderir e hoje foi o meu primeiro dia.
O sol ainda estava muito tímido quando subi para as primeiras pedaladas. A sensação que tive foi quase religiosa.

Nunca fui dada aos exercícios físicos, quase sempre dava um jeito de não fazer educação física na escola, sou uma sedentária de carteirinha. Mas admito que não sai da minha cabeça a idéia de fazer alguma atividade a fim de ajustar as engrenagens, tenho uma inclinação para o pilates. A idéia de me esticar toda remete a um livro infantil em que os animais passavam por aparelhos bem rústicos feitos de madeira e parafusos que esticavam ou encolhiam os mesmos, lembro da girafa que quis encolher, no meu caso eu gostaria justamente do contrário, um pouquinho que fosse já me satisfaria, por isso me anima o pilates! Mas entre uma passada e outra em frente a academia nada ainda me fez entrar.

Então a bicicleta veio a calhar, apesar deu percorrer um caminho curto e de pretender usá-la apenas três vezes na semana, já é um começo. Quem sabe a endorfina se torne uma necessidade e eu vá aumentando o uso, ou mesmo me sinta forçada a praticar algum outro exercício.

Tive vários motivos que me levaram a usar a bicleta, um deles é a economia. De onde eu moro até o trem dá uns 10 minutos caminhando, mas sair muito cedo de casa acaba sendo arriscado, então teria de pegar um ônibus que me custaria R$3,10 (incluída a passagem do trem), agora este passa a ser o meu recurso para os dias de chuva.

Outro motivo foi com relação a violência, depois de ter passado por um assalto, não me sinto mais segura ao caminhar pelo meu bairro, acredito que a bicicleta me dá mais recursos para evitar que isso ocorra.

Há alguns anos já um senhor que mora perto da estação está guardando as bicicletas por R$0,50 por dia, em outros tempos teria de acorrentá-la na passarela do trem, sem a garantia de que a mesma estaria ali até a minha volta, muitas pessoas aqui no meu bairro fazem isso todos os dias e a cada dia aumenta o número dos que aderem.

Além disso o que não tem preço é você sentir um ventinho no rosto de manhã cedo! A bicicleta me causou uma sensação de liberdade e de reconexão com o meu corpo. Na volta pra casa quando passei para pegar a bicicleta foi como ter uma companhia. Definitivamente está selada a nossa relação!
Meu coração é meu e de mais ninguém!
Nele guardo aqueles que me são caros!

*Débora Perroni
Professora de filosofia, filósofa clínica
Porto Alegre/RS

quarta-feira, 27 de junho de 2012

Por que a Arte de Amar surpreende?*

O fenômeno é o Amor- sinônimo de relação, logo energia - Movimento, Ação- Liberdade. Que tem como antônimo o Poder - Egocentrismo - Controle - Tensão - Escravidão.
Se amor é Movimento, é deste movimento que se faz e cria a Arte.
Que arte é esta que falo quando o assunto é o amor?

Falo das expressões no tempo e espaço e além do espaço e tempo. Falo da vastidão da alma para além do ego, que é eu aprendiz. Amor pode parecer complexo, mas é Vida.
Arte é movimento da alma, expressão amorosa, que no encontro promove o enamoramento, encantamento, identificação e espelhamento.

A arte faz vibrar a alma, que depois de se enamorar se transforma em paixão. A alma acende a lua,clareia a escuridão dos pantanais. Convida a fusão. As almas se entrelaçam e desejam os corpos incendiados.
A arte avança, rompe, fragmenta,corta. Gera paixão triste.

Na pósmodernidade, nosso tempo do agora, nosso hoje existencial a arte de amar mais separa, rompe, destroí o mito da família e do romantismo, pois há nas entre linhas a busca da autenticidade e honestidade, pois mais pareça que não.
A arte de amar surpreende nos seus estágios erótico, philia e ágape. A arte de amar é uma grande ponte entre a alma, o eu e o outro, sendo a amizade a sustentação fundamental.

A amizade compartilha,compreende, aceita as diferenças, não julga, comunga das luzes e das sombras, tece o existir em todas as dimensões.

Surpreende o amor, por que vai além do romantismo. É poético, imaginal, mítico, racional e irracional. Não foge da separação, da dor e do luto.

Quando o poder entra o amor sai. Amor é liberdade, escolha. Poder é escravidão. Por isto quando o ciúme entra o amor se refugia. A posse, o controle são ante amor, jogo de poder dos escravos. O homem livre liberta.

O homem livre escuta...compartilha sua individualudade sem perder sua identidade. É NÓS! No nós você e eu caminhamos lado a lado. Eu sou eu e você é você. Nos respeitamos na singularidade e nis damos as mãos.

Ah! Quem idealiza o amor vive no desamor. Somos imperfeitos. O amor está para além da perfeição. Por ser pleno acolhe a luz,consciência e a sombra, a alma.

Ilusão achar que amor é paraíso. Por ser vastidão, multiplicidade, racional e irracional, moral e imoral é isto e aquilo.
Por que é tão difícil amar? Por buscarmos a perfeição e desconhecermos o caminho escura da alma. Por idelizar um mundo impossível e romântico. Por ter muita expectativa surgem tantas frustrações.

Por isto, pensar com o coraçāo e alma se pensa bem e vive e ama melhor. Amar é possível para quem trilha o caminho do filosofar.

Só para terminar. Hoje me permito pensar por mim mesma. Penso que a filosofia é a mais sofisticada auto ajuda. Considero um intelectualismo besta negar a autoajuda filosôfica como caminho de reflexäo.

Na realidade, nós mortais buscamos o tempo todo nos autoajudar para dar conta de viver esta vida tāo trágica. Negar que desejamos nos autoajudar é mentir. Assim pemsando escrevi "A surpreendente arte de amar" para promover uma reflexão, instigar a pensar bem no exercício de fazer a alma.

*Rosângela Rossi
Psicoterapeuta, escritora, filósofa clínica
Juiz de Fora/MG

terça-feira, 26 de junho de 2012

Periódico Existencial*


Uma discussão a respeito de mente e cérebro acabou levando a uma discussão sobre se as doenças realmente existem ou não. Eu, e talvez você, conhecemos pessoas que já tiveram um problema de saúde e que, após muitos exames, nada foi diagnosticado, pessoas que percorreram um longo caminho na medicina e nenhum causador orgânico foi encontrado. Esse é o caso do problema que envolve a mente e o cérebro.

O cérebro é considerado nosso principal órgão, onde fica o centro do sistema nervos. É um órgão extremamente complexo, que nas últimas décadas vem sendo largamente estudado e mapeado. Estes estudos têm vários objetivos, entre os quais entender o funcionamento do cérebro e, a partir disto, construir diversos mecanismos que facilitem a fabricação de remédios que possam ter o efeito desejado para as mais diversas doenças que o afetam. Há ainda o interesse em desvendar a forma como o cérebro funciona, mecanicamente, e talvez aplicar o seu sistema a um computador.

Mente é o estado da consciência ou subconsciência que possibilita a expressão da natureza humana, segundo o site Wikipédia. Mas, em diversas bibliografias, podem ser encontradas outras definições. Segundo a definição acima citada, a mente é um estado, ou seja, uma manifestação de algo, orgânico ou não. Quando digo que estou feliz, segundo minhas vivências, estou vivendo um estado de espírito, isto é uma vivência da mente. Desta maneira a interação entre a mente e o cérebro é o que faz um ser humano algo completo.

Essa problemática mente e cérebro lembra as doenças das quais não encontramos motivos aparentes, orgânicos. Muitos dos males que vivemos no corpo têm suas origens na existência que temos. Quando eu, você, sua esposa ou esposo, vivem sob pressão, como alguns dizem, “no fio da navalha”, como é que o corpo reage? Para muitos nada acontece, mas para alguns o corpo adoece, mesmo com dietas corretas, remédios corretos, a doença do corpo é apenas um sintoma de um mal existencial.

Muitos de nós estamos existencialmente doentes, o corpo apenas avisa, quando assim é possível. Mas, pela facilidade, falta de conhecimento, desleixo, comodismo, acabamos apelando para a medicação química como modo de solução. Um câncer que devora aos poucos nossa existência é tratado com Rivotril. Isso não parece certo, mas é dessa maneira que se procede com frequência. Muitos casos chegam a procurar ajuda, mas vão depois que o mal já se espalhou tanto que só existe a possibilidade de remediar. Não há mais como voltar atrás e reajustar tudo o que ficou pelo caminho.

Olhando para a sua história, para o que vem fazendo no seu dia-a-dia, os remédios que anda tomando ou deveria tomar, estes podem ser os alertas de que é preciso mudar. Mudar não quer dizer deixar de ser quem somos, mas fazer o que sempre fizemos de maneira diferente, mais adequada a nós mesmos. Os males da existência podem ser identificados, assim como os males do corpo. Mas tanto um quanto o outro devem ser tratados.

É espantoso o quanto se fala de medicina preventiva para o corpo e o quanto não se fala de medicina preventiva para a mente. Todos fazemos exames médicos antes de assumir um emprego numa empresa, mas não fazemos exames existenciais para saber se estamos existencialmente prontos, preparados para este emprego. Nosso corpo pode estar preparado para uma maratona, mas nossa mente pode não estar e provavelmente sairemos perdedores. Deveríamos pensar mais na vida mental e também procurar um profissional para fazer um exame de rotina. A mente pode e em muitos casos é quem comanda a vida, se ela não estiver bem, provavelmente nossa vida não estará bem.

*Rosemiro A. Sefstrom
Filósofo Clínico
Criciúma/SC

segunda-feira, 25 de junho de 2012

Muitos em mim*


Nas desventuras da vida
me aventuro na descoberta
do humano incompreendido
desprezado e indiferente
olho nas entrelinhas da vida
escuto o silêncio
das palavras não ditas
redescubro sonhos
esquecidos no passado
trilho novos caminhos
a partir de velhas existências
navego em oceanos
de emoções
me humanizo a cada dor
e partilho o dom
da paz
em cada coração
encontro o humano
na essência de cada
retalho da vida
faço-me um
com os muitos que
habitam o meu ser

*Pe. Flávio Sobreiro
Poeta, Filósofo Clínico
Cambuí/MG

domingo, 24 de junho de 2012

Águas ocultas*





“Tudo está cheio de deuses”
Atribuído a Tales de Mileto (séc. VI a.C.)


Na imensidão azul que perpassa dois mundos – dos seres e da natureza - todos os deuses ali habitam, integrando as realidades pela fluidez, pela unicidade e pela característica úmida de sua essência. Esses mesmos deuses se contorcem entre as passagens para alcançar as brechas da natureza mais oculta de cada ser, permitindo que as indagações mais substanciais transpareçam na transparência de seu elemento. Então, flutuamos imprecisos sobre seus movimentos e sobre sua atração, não sendo possível dispensar qualquer de suas manifestações. E este princípio fundamental – a água essencial - ainda persiste na natureza e é validado por tudo que se move, se atrai, se expande, se infiltra e está repleto de si mesmo, de vida, de deuses e da alma que se fixa através de sua qualidade ou de sua potencialidade divina.


Águas... em forma de fontes, rios, oceanos, artérias, filetes, lagos, mares, geleiras, no raso e no fundo, na terra e no ar, em todo o tempo e lugar e até onde não está, pois mesmo ali há a potência de sua natureza, já que não há (quase) nada que sobreviva sem ela... de todos os modos, sempre urgente e imprescindível, sempre presente! Nas suas formas se realizam vontades e se complementam intenções, vertendo mergulhos profundos e poéticos, ao som de cantos ancestrais.

E as águas que circulam, contidas por nossos corpos, se equivalem, proporcional e filosoficamente, às águas que circulam pelo planeta... virtualmente na mesma proporção. Ambas são precisas, carentes, ávidas de um magnetismo que as mantenha coesas em suas invisíveis fronteiras, pois elas não sabem para onde vão ou de onde vem, apenas seguem seus padrões passíveis de alternâncias. Na verdade, não há distinção de percursos... eles se misturam e se transpõem em objetivos que se supõem vitais, mas que são, igual e simultaneamente, insondáveis.


Quem pode intuir qual o sentido do caminho das águas que se ocultam? Quem pode saber que invisíveis seres a habitam? Na substancialidade do que nos serve de alimento, está a transcendência de sua própria essência, a que penetra mundos em escalas que não podem ser compreendidas, ou talvez essa compreensão seja possível apenas através de olhares e sentidos ainda não descobertos ou revelados, aqueles cuja exigência de racionalidade está além da realidade imediata.

E, no entanto, águas são apenas estruturas químicas, claramente definidas, simples em sua composição e mais simples ainda na sublime função de promover a vida da forma mais básica. Mas é uma simplicidade que carrega segredos quase impenetráveis... segredos que assolam a existência e que a validam exatamente pela sua singeleza, pela sua integralidade e interdependência. Águas transformam paisagens e faces, transfiguram o tempo e nos lembram de que não sobrevivemos sem elas. Mas também provocam fins em sua violência desmesurada, quando não se suporta e se transborda na manifestação de uma das mais poderosas forças que invade o mundo sem piedade, sem pedir licença, sem que escape um só vazio, uma só dimensão... elas requerem atenção e cuidados, vigilância constante de algo que permite vida e morte dos que são por ela tocados.

Nas esferas mais inquietantes, abissais e invisíveis, porém, alternam as configurações da frequência de vida e, a níveis inimagináveis, tomam para si a responsabilidade da perpetuação da vida e da beleza, da evolução e da própria constituição do universo.

Águas, aparentes ou ocultas, são as fontes físicas da alma que conduz e que preenche a condição existencial da natureza, representando uma das formas mais sutis que os deuses encontraram de participar da divindade em cada espécie, em cada possibilidade de vida.

*Luana Tavares
Filósofa Clínica
Niterói/RJ

**Coincidentemente, ‘águas ocultas’ parece ser o significado do nome da minha cidade: Niterói! Ela era, originalmente, toda entrecortada por rios, que se ocultavam na mata nativa... sempre imagino o deslumbre de sua paisagem primordial!

sexta-feira, 22 de junho de 2012

VOLTANDO DO ENCONTRO*


Pra longe eu fui, de novo, sem imaginar o carinho da acolhida e o compartilhamento dos amigos de Porto Alegre quanto a seus lugares e objetos, haja vista o chimarrão como exemplo mais próprio da interligação sulina. Pessoas que se mostram e aceitam trocas; o faço por palavras. A vocês do entorno do Guaíba, também de Ctba, Fpolis, RJ, JFora, Campinas e arredores, minha reverência.

Tento reapresentar o passado mas as roupas são pequenas, cresci. De cabelos curtos, depois de longos, como a adolescente que deixou a menina pra trás, conforme Cecília Meireles em “Olhinhos de gato”. Vi uns cachinhos de ouro dia desses no banco; não me pareceu uma infância tão feliz assim.

Segundo Strassburger, há carinho nas manifestações dos internos do Hospital Psiquiátrico ao gritar e chutar portas na hora da crise. Sutileza de percepção de quem observa a fragilidade do ato necessário ao momento e o respeita.

Ao lidar com a singularidade presente em cada qual, por mais chocante que seja para o terapeuta, a meta se faz nova. Segundo Packter, não se pretende mais buscar o bem-estar, mas verificar o que é possível fazer na EP do partilhante para resolver choques.

Descobre-se, numa dada estrutura, que é possível minorar os conflitos entre os elementos internos através da visão cética, descompromissada, buscando a redução fenomenológica e o distanciamento, tão comum a nossos estudos sobre a observação do que há. Junte-se a eles frieza, flexão da axiologia, suspensão de pré-juízos e um investimento maior em si mesmo, com menos recíproca. Ao voltar o foco para si mesmo, colocando-se como o centro que sente, pode-se esperar o furacão passar.

A triste solidão do quarto de hotel, morada de Mário Quintana, é elemento indispensável ao poeta. Ele a carrega, onde quer que vá e sua obra é a expressão da diferença permitida; segundo Pedro Leopoldo, produção socialmente aceita.

Pensamos a sexualidade intelectual para longe do corpo físico – ele é apenas um detalhe, instrumento através do qual se atingir... o mundo ideal da libertação do pensamento. Ou se pode voar para a cama da atriz, os braços do cantor, do professor de dança de salão enquanto se aguarda o final do vôo. Imagem ou papel existencial quando ao prazer só se chega, segundo Hadadd, com saltos altos, esmalte vermelho e colares de strass?

O prazer de quem se sente chutada e oprimida, mas naquele momento precisam dela, tem valor. “Sexo por compaixão”, outra nuance citada por Alba e Márcio. Atender os infelizes para a felicidade dos lares. A cidade precisa de uma redenção porque, afinal, poucos querem sexo da mesma forma. A mulher paga, de outrora, tinha uma função social; hoje, sem pagamento, hipocrisia.

Amor, sexo e afeto são cartas que vêm nas rodadas do jogo aleatoriamente, bem diferente do abordado pelo social sobre a obrigatoriedade das relações perfeitas. Sorteios; cada jogador recebe uma mão diferente; insistem num resultado padrão mas não há ases para todos.

*Vânia Dantas
Filósofa Clínica, escritora
Uberlândia/MG

quarta-feira, 20 de junho de 2012

Meu caminho para escrita*





“A leitura traz ao homem plenitude, o discurso segurança e a escrita exatidão.”
(Francis Bacon, Ensaios)


Jamais pensei que iria escrever alguma coisa para mais de uma pessoa. Passei a adolescência quase sem ler. Somente iniciei minhas leituras, relevantes e em quantidade, a partir dos 20 anos. Isso é muito tarde para muitos. Minha escrita foi surgindo nessa época. Antes disso não havia diferença entre o que escrevia no fim do ensino médio e o que um iniciante na escrita da quarta série do ensino fundamental escrevia, inclusive a dificuldade de expressar o que pensava e sentia.

Mas, as coisas mudaram. Hoje ainda não conheço muitas regras da nossa língua. Uma frase às vezes deve repetidamente ser mudada para que a forma esteja de acordo com o que minha intuição permite. O que conheço de escrita devo totalmente à minha leitura. E para quem começou a ler e escrever com certa frequência a partir dos 20 anos, até que não me saio mal escrevendo.

Quando apresentei minha monografia enquanto cursava a licenciatura de filosofia, o professor que me argüia me disse: “Miguel, você escreve muito bem. Mas, sua fala não corresponde à sua escrita.” Ou seja, pelo que parece, escrevo melhor do que falo.

Creio que devo isso ao fato de falar desde quando me entendo por gente. Fui tomando todos os vícios de linguagem possíveis ao longo de minha infância e adolescência. Mas, minha escrita tem certa “pureza”. Escrever e ler aconteceram concomitantemente no momento tardio de minha formação expressiva. Aprendi a me expressar por escrito quando já falava bastante e minha formação básica já havia terminado.

Aos 21 anos, quando entrei no bacharelado em filosofia, tive de aprender outra forma de escrita. Já não bastava expressar o que pensava, sem rigor. Agora era necessário dizer o que o escritor quis dizer, ou pelo menos de modo aproximativo. Foi um grande desafio. Lembro que uma de minhas primeiras notas foi “3,5”, atribuída pela professora com a qual cursei disciplinas em todo meu bacharelado. As notas finais eram as melhores e ela ainda foi minha orientadora na monografia para conclusão do bacharelado. De alguém que pouco entendia o que lia dos conteúdos filosóficos, consegui chegar a não somente entender, mas expressar por palavras escritas.

Hoje não me considero um “escritor”, muito menos um dominador da arte de escrever e me expressar. Mas, reconheço que ultrapassei o jovem que até os dezenove anos escrevia vergonhosamente (devo isso ao meu desinteresse, à ausência de estímulos em casa e à qualidade do ensino público no qual cursei o nível fundamental e médio) e apenas sabia elementos básicos de mecânica de veículos a diesel (trabalhei alguns anos em oficina mecânica).

Ler e escrever foram exercícios que mudaram muito meu modo de interagir com o mundo. Digo “meu modo” porque sei que são diversos os modos de interagir com o mundo e a escrita tornou o “meu” um pouco melhor, o que não vale como regra universal. Agora tenho o Alétheia. O primeiro blog para o qual escrevi foi a Casa da Filosofia Clínica, administrado por Hélio Strassburger, que até hoje me dá grande força para seguir escrevendo. Se posso deixar uma dica para quem pensa em escrever, direi:

“Leiam e escrevam o tempo todo. Todas as ideias que vierem à cabeça, coloquem no papel sem preocupar-se se sairá bem ou se as pessoas gostaram. Primeiro expresse-se, depois veja se essa expressão vale a pena ser compartilhada. Na grande maioria dos casos, valerá sim.”

Esse foi meu caminho para escrita. Qual foi, é ou será o seu?

*Miguel Angelo Caruzo
Filósofo Clínico
Juiz de Fora/MG

terça-feira, 19 de junho de 2012

Fragmentos filosóficos delirantes XCXIII*


"(...) Torturado pelo casamento, sem forças para abandonar mulher e filhos, mas bastante poeta para sofrer com eles sempre, o escritor não podia perdoar êxito nenhum a pessoa alguma: devia sentir-se descontente com tudo, por estar sempre descontente de si próprio. Luciano compreendeu o ar amargo que gelava aquela fisionomia invejosa, a aspereza das réplicas que o jornalista semeava na conversa, o acerbo de sua frase, sempre aguda e afiada, como um estilete."

(Pág. 186 da obra "As ilusões perdidas". Ed. Nova Cultural. 1993. SP)

*Honoré de Balzac
1799 - 1850
Imagens Imaginativas*


Ideias que nascem da alma, convidam.
Alma, vastidão na noite, indefinível e feminina em sua multiplicidade.
Em cores ou preto e branco é no estar. Imagine...

Pode virar retrato, congelar um instante.
Ou quadros surrealistas, expressionistas,realistas...impressionistas.
Ou mesmo modelar estátuas como Miguelangêlo ou Rhodin.
Imagens em e de sonhos ou no ver simplesmente no agora.
Imaginação intensa de alegria ou dor.
Imagine...

Idéias soltas no espaço, pura intuição.
Idéias escritas em letras nunca imaginadas.
Imagens imaginativas vindas da imaginação.
Loucuras lúcidas, lúcidas loucuras.

Verbos em ação. Subjetivos adjetivos. Adjetivos subjetivos.
Riso de choro, choro de riso.
Indefinições dionisíacas em meio ao mundo bem apolíneo.
Versões, hermenéuticas nada interpretativas.
O ser no não ser. Apenas imagens imaginativas a brincar com efêmero.
Imagine...

Invente. Encante. Faça e desfaça.
Afinal, tudo faz parte da alma que é mítico- poética.

*Rosângela Rossi
Escritora, psicoterapeuta, filósofa Clínica
Juiz de Fora/MG

segunda-feira, 18 de junho de 2012

Sentado na Riqueza*


Querido e atencioso leitor, aceite o meu fraternal e caloroso abraço. Já não é de hoje que ouvimos dizer que toda riqueza do mundo está dentro da gente. Que a maior e melhor busca é saber realmente quem nós somos e que o poder de um ser humano é medido pelo que ele sabe de si e se conhece. Ouvimos dizer e, para algumas pessoas, é assim mesmo.

Claro que são frases prontas e feitas e devem ser observadas desse jeito: frases prontas. E, como sabemos, frases prontas nem sempre são frases que se pode usar universalmente. Ou seja, ela é assim para quem a escreveu.

Quer um exemplo de frase pronta? “Diga-me com quem andas que te direi quem tu és”. Sobre esta frase, o que se diria ao mestre Jesus que também andava com ladrões, prostitutas e pessoas que viviam a margem da sociedade? Quando sentimos a brisa do mar, ela está fora ou dentro? O aroma da maçã verde faz parte do dentro ou do fora? Se está fora então como a reconheço?

E também esta frase de que a riqueza está dentro da gente, às vezes pode nos tirar o foco de vermos a beleza externa. Mas, no final, onde está o dentro? Onde está o fora? Será que tudo não faz parte de uma realidade única?

Ao refletir sobre este tema, “sentado na riqueza”, me vem à mente o início do livro “O poder do agora”, de Eckhart Tolle. Um livro interessante, mas dica de livro é com a Fabrícia de Pelegrini, na Dica do Café da Som Maior FM.

Já na introdução do livro “O Poder do Agora” o autor comenta que um mendigo passou um ano, cinco anos, dez anos, sempre no mesmo local e sentado sobre um caixote velho. Com cara de coitado, vitimizando-se, mostrando as mazelas que fazia questão de escavar na própria pele, fazendo feridas, estendia a mão pedindo coisas. Às vezes ganhava algum alimento, mas o que ele queria era dinheiro ou algo que pudesse transformar facilmente em dinheiro.

Foi quando, depois de quase duas décadas, alguém passa na frente do pedinte e dá uma dica: levante a tampa do seu caixote, abra e olhe no que você está sentado. Na verdade, queria dizer: olhe o que tem dentro.

O mendigo era mendigo, não idiota. Por isso, fez o que aquele senhor enigmático sugeriu. Abriu o caixote e qual não foi sua surpresa quando nestes anos todos, descansava ali, bem próximo a ele, um tesouro de pedras preciosas e ouro. Na verdade, o caixote era um tesouro.

É uma metáfora, é verdade. Mas é pertinente, pois quantas vezes estamos sentados sobre riquezas e sequer desconfiamos que elas podem estar dentro da gente ou estamos sentados sobre elas?

Exemplos também não nos faltam. Quando o Adelor Lessa e eu pegamos a rádio Som Maior, a desconfiança era de que tinham muitas rádios em Criciúma e, por isso, era deficitária. Não acreditamos, fizemos um planejamento e hoje a nossa rádio é referência na região. Mas o exemplo mais atual e esclarecedor vem do Criciúma Esporte Clube. Há pelo menos dois anos o Tigre carece de um profissional para a ala direita, vieram e foram muitos atletas até de renome nacional sem uma solução convincente. Por último, o atleta que fora contratado para ser o titular teve seu contrato rescindido mesmo antes de jogar e a solução foi olhar para dentro do caixote, e lá estava um tesouro, um tesouro de nome Ezequiel.

É assim como o mundo me parece hoje. E você, está sentado em cima do quê?

*Beto Colombo
Empresário, Filósofo Clínico, Coordenador da Filosofia Clínica na UNESC
Criciúma/SC

domingo, 17 de junho de 2012

Sobre flores, jardins e tristezas*


Cansado de retirar a ervas daninhas dos canteiros que encantam minha alma, sentei-me a beira das minhas desesperanças. O frio do outono que chegava de mansinho anunciava tempos de despedidas. Mas como despedir-me das flores que um dia eu tinha cultivado com tanto amor? Elas eram minhas amigas e por dias sem sol haviam me devolvido a alegria das noites estreladas.

Tudo parecia em vão... O que antes havia sido um jardim florido hoje estava perdido numa selva de desilusões. Mas elas ainda estavam lá... Não poderia deixá-las morrer sem antes tentar salvá-las. Mas o cansaço das tardes de muitos dias anunciava-me o tempo das despedidas que estava chegando. O outono ia cumprir seu papel. Não raras vezes ele veio visitar-me. As folhas verdes de outrora estavam amareladas pelo tempo de incertezas. Outras novas iriam nascer e dar vida nova as que foram sepultadas por um vento sereno que as levou para longe de mim.

Não gosto de despedir-me do que em mim faz parte. De tudo o que se foi ficou a saudade do que um dia já vivenciei. Os poetas bem sabem a minha angustia da dor de deixar partir o que em mim ainda está vivo. Não sei viver de ausências. E por isso choro pelas dores que em mim gritam nas noites sem fim. Meu coração é muito pequeno para tantas saudades. Talvez se meu jardim fosse maior e minhas esperanças mais verdes... Talvez eu ainda conseguisse recuperar aquelas flores que estão morrendo... Quem sabe se eu despedisse a saudade e ela nunca mais voltasse aqui, nesta cozinha onde bebo agora o café do medo...

Tenho medo... Muitos já tiveram! Jean-Paul Sartre sabia muito bem dos medos que carrego em mim: “Todos os homens têm medo. Quem não tem medo não é normal; isso nada tem a ver com a coragem”. Vergonha não tenho! O que eu tenho é medo mesmo! Medo de deixar partir com o que me acostumei. Medo de ficar só. Medo da ausência de mim mesmo. Muitas flores já se foram e sempre levaram uma parte de mim. Sou sempre um fragmento daquilo que se foi.

Os ventos do outono levam sem pedir as folhas de esperanças e sorrisos. Não sei se quero abrir mão das margaridas e das rosas que um dia alegraram minhas manhãs. Sei que a tristeza invade minha alma, como um frio que congela todas as certezas que sempre sei serem incertas. Certezas não tenho. Tenho apenas a ausência como metáfora do que em mim ficou sacralizado.

Lembro-me que em uma manhã enquanto minha xícara de chá ainda fumegava, olhei pelo vidro da janela desta mesma cozinha e contemplei a dor de ver meu lírio já morto. Minhas lágrimas se misturavam aos poucos com a camomila do chá que não mais me tranquilizava. Um lírio de muitas estações e doces sorrisos. Cultivei aquele lírio com as dores de muitas esperas. Molhei muitas vezes aquela terra que agora o sepultaria com lágrimas de infinitas esperanças. O lírio foi embora, mas o que em mim ficou foi à saudade da beleza que ele em todas as manhãs me anunciava...

Não sei despedir-me do que plantei neste terreno chamado vida. Sei apenas que aquilo que se for estará sempre vivo nos canteiros da saudade de meus silenciosos outonos.

*Pe. Flávio Sobreiro
Poeta, Filósofo Clínico
Cambuí/MG

sábado, 16 de junho de 2012

Uma fenomenologia dos roteiros*



“A solidão me madurou de borboleta...
Estou apto, já posso discursar com minhas paredes.”
Djandre Rolim
Poeta Cigano


Na intenção de olhar absurdo um ânimo extraordinário descreve a novidade ao meu redor. À primeira vista se parece com um visar de fatia, uma sensação de incompletude, logo depois se desdobra em possibilidades de interseção.

Seu caráter de obra-prima desenha, em cada mudança perspectiva, eventos de primeira vez a se repetir. As entrevistas e suas contradições colocam em movimento o que parecia imutável. Talvez o sentido buscado, sem se saber que existia, para a desconstrução dos cenários pré-agendados.

Nesse vislumbre andarilho uma estética do imaginário se compõe dos percursos a percorrer. Sua busca, quando apressada, pode conformá-la nalguma ótica definível. O viés discursivo diante do espelho pode reivindicar um distanciamento maior para desembassar suspeitas, desvendar vestígios, desajustar o foco excessivamente rígido da normalidade.

Os pergaminhos esquecidos apontam vidas marginais, dialetos situados no próprio centro das atenções. Um de seus refúgios preferidos é a cegueira do espírito de multidão.

Ao perseguir esse endereço desconhecido, o tempo parece se alimentar dos indícios esparramados pelo caminho. Iniciando uma viagem objetiva, quase sempre começa outras, no universo subjetivo de cada sonhador. Contraste irrefletido pelo esboço das poéticas a desalojar adjacências, até então, indizíveis.

Nessa região em vias de quase nada, os vislumbres apreciam se insinuar como não-ser. Reflexos de um mundo onde as verdades se encontram à beira do abismo. Matéria-prima de uma lógica sem palavras, tratativas para apontar esse laboratório da natureza nas entrelinhas da própria estória. Superlativo saber e de procedência indefinível, reivindica-se na estrutura de um faz de conta. Seu aspecto de ser o que não é protege o ser que é.

Seu contexto se alimenta de pretextos contraditórios e, na fração entre uma versão e outra, o ziguezague epistemológico_intuitivo tenta desalojar pontos de vista à margem. Seu texto repleto de inacabamentos compartilha derivações ao que se tinha como cristal. Na ante_sala dos enredos delirantes se ensaia o transbordar pessoal.

O templo sagrado da alma aprendiz acolhe evasivas, contornos, exuberâncias. Depois de algum tempo pode descobrir, no imprevisível de toda rotina, a dialética do universo. Assim os itinerários vão deixando pistas sobre a fenomenologia dos roteiros por vir.

*Hélio Strassburger
Filósofo Clínico

sexta-feira, 15 de junho de 2012

Um absurdo poder sobre si mesma*


Ela tem dedos finos e longos e toca as pessoas de forma diferente, qual timbre tenham. A pianista morena seduz com o talento que tem e o usa a seu favor, sobre as melodias dos mestres que interpreta com a alma.

Toca as teclas de geléia colorida, as frutas transformadas em vitrificados translúcidos ou opacos – a nobreza está na transparência. Comeria o mundo, como Simone de Beauvoir. Suas heroínas são Ana de Assis, Xica da Silva, a Dama das Camélias, Dona Flor, Pagu, Clarice, mulheres transgressoras, mulheres de poder, quando o poder sobre si mesmas já era um absurdo.

A luta contra a exigência do padrão que exclui e fecha a liberdade a chance de cada um ser o que é para ser o modelo convencionado por tal sociedade humana. Puxa, o que é isso, um ventilador de teto?

A pianista queria ser admirada pelo que era, e não pelo que tinha, posto que não tinha, ou tinha – apenas a história. E histórias bonitas ou tristes para se contar e escrever era preciso. E animadinha decidiu tocar sua vida em tons graves, um contralto sonoro e puro. Pura e sensual como Mariah Carey. Interseção até por demais. O excesso dá problema?

A neurolingüística manda no corpo; ó, mente, obedeça! As receitas estão prontas. Feche a boca, segure as mãos, encolha a barriga. Muito obrigada. Seja feliz. Mas afinal, o que você realmente quer? Ou não quer, apenas vive? Liberdade para ser. Pipocas com doce de leite, geléia de pimenta com sementes e tudo.

Aí você pára, olha para os resultados da somatização e pensa: “gente, o que foi que eu fiz pra fazer brotar tudo isso?” Estresse de férias, como detectam os colegas, coisa quase absurda. Diria que os sintomas quiseram aparecer todos agora; segurei-os para cumprir meu papel profissional. Na definição de Paulo Coelho, a vida é a busca do equilíbrio entre pão e vinho, “um representa o que se impõe, o outro o que se adapta”. Devo pensar melhor nos pães.

Vejo cada parte delicada que está sofrendo com os maus tratos a que me impus por conta de um termo, “compromisso”: a pele, a garganta, o ovário, o estômago, todos pontos fortes de energia que diminuíram sua pulsação devido ao excesso de um lindo final de ano e às expectativas de um ano movimentado que vem! Volto aos trabalhos deixados por uma semana – uma falta, pra mim: se procuras um workaholic, é o espécime perfeito que te escreve - : a resenha do Manual de saúde mental sem rascunhos (cheguei de BH procurando atônita os papéis de anotação e lembrei, ao me concentrar, que escrevia o texto direto do livro). Puxa, é uma obra muito importante e objetiva para quem estuda saúde mental!

Iniciamos com várias possibilidades – afora a “lenda urbana” de que o ano brasileiro começa após o carnaval... para quem? Um susto que o governo prega, bem em cima das festas, é vir cobrar IPVA, IPTU, avisar sobre ISSQN e as novas do IRPF ou IRPJ quando está tanta gente convergindo pras origens, pra si mesmo. Vá lá, o homem também pode ser muito bem entendido através da dualidade Débito/Crédito.

Cheguei do estado do Rio de Janeiro à noite, dei uma bela espiada no vale do Paraíba do Sul, nas serras da Zona da Mata afinal, eu sou o navegador do rally de Uno, mapa em punho direto; intuição tem que funcionar – embora desta vez não estivesse lá essas coisas, erramos algumas entradas, faltaram umas placas de sinalização, mas deu tudo certo: 2.485 km, uma beleza. Quatro dias na estrada pra quatro na praia (bem que eu prefiro a menor distância de São Paulo!).

As estradas seguindo o Paraíba do Sul, o Muriaé e cruzando o Rio Pomba. Os profetas eternizados em pedra de Congonhas, na Basílica do Senhor Bom Jesus de Matosinhos, sendo esta resultado de um voto religioso feito por volta de 1757. Observei tudo aquilo que pode ser um detalhe que diz algo de alguém, de uma civilização pré-existente, do século XVIII visto nas ruínas, dos resquícios de vida nas construções abandonadas, nos casarões de dois andares, sedes antes vultosas de fazenda. As locomotivas enferrujando em São João da Barra, os canaviais e os acampamentos dos sem-terra; o mar tomando prédios e asfalto em Atafona.

Vi muita coisa, tentando pressentir sentimento, pensando em como seria a cultura daquelas pessoas numa terra tão diferente da minha, porque aqui no Triângulo se tem cidades com apenas um século e pouco, diferentes até de Catalão/GO, que fica a apenas uns 110 km, fundado em 1722 e cujo museu (muito emocionante, por sinal, com a reprodução do quarto de personagens marcantes para a cidade, como a professora – o que me fez lembrar o quartinho de minha bisavó, com seus móveis e utensílios – e o escritor, além de documentos sobre os “loucos”, ali tratados como personagens pitorescos, conhecidos pelo nome, como, se não me engano, o “Zé do trem”, que, segundo as funcionárias do museu, colocava o ouvido sobre os trilhos para saber o horário do trem passar) fica na própria estação ferroviária – motivo da formação de tantas cidades por esta parte do Brasil. Em Uberlândia, somente circulam na linha restante da RFFSA os trens de carga; a lembrança que ficou no dia-a-dia foram as avenidas com canteiro central que cortam a cidade.

Estradas e pontes. Chegar mais perto das pessoas e ganhar a confiança para que seja possível vê-las; estamos em casulos.

*Vânia Dantas
Filósofa Clínica
Uberlândia/MG

quinta-feira, 14 de junho de 2012

Música na experiência pessoal*



Neste texto o foco será uma experiência pessoal. Minha experiência com a música, ou um aspecto dela em minha vida, ou em parte desta. Depois do início do cinema muitas vidas passaram a pautar seus momentos marcantes com músicas, trilhas sonoras de suas histórias.

Tenho certeza de que não falo somente da minha. Seja no âmbito da paixão, amor, relacionamento, acontecimentos importantes, mudanças nos rumos da vida, experiências religiosas, todas costumam levar consigo uma música de fundo. E o interessante é que essa música será o gatilho para diversas lembranças vivenciadas. Sejam essas boas ou ruins.

No meu caso, poucas são as músicas “gatilho”. E elas geralmente me conduzem a momentos que foram muito bons, embora carreguem consigo a nostalgia de um tempo que não voltará. Por vezes me proponho a não ouvir mais essas músicas. Mas, em outros momentos as tomo na lista que tenho guardada no computador e ouço. Por que faço isso? A resposta não me vem com tanta facilidade e, por isso, penso que seja válido arriscar um palpite, embora não destituído de momentos de reflexão a respeito.

Penso que as vivências fortes nos levam (ou me levam) a grandes mudanças de paradigmas na vida. Tamanha foi a influência exercida que seu acontecimento precisa de uma música, as vezes com uma letra que sequer condiz com o fato, para desencadear uma série pessoal de história.

Confesso que escrevo essa pequena colocação com uma dessas músicas. Isso torna a reflexão não apenas factível para mim, mas tão vivencial que expressá-la se torna mais fluente. Não vou dizer qual a música nem o que ela me traz à mente. Mas, afirmo que foi incrível e que dificilmente essa experiência que a música está suscitando será apagada em minha curta passagem pela Terra.

E você, tem alguma música ou trilha sonora de determinado momento de sua vida? Um grande momento com amigos? Uma vitória alcançada? Uma amizade feita ou desfeita? Uma experiência de rompimento com paradigmas que faziam mal? Um nascimento? Um renascimento? Uma morte? Um amor nascente, mantido ou terminado? Um que remeta a sonhos realizados?

Se você, caro leitor, não se identifica com esse relato, não se preocupe. Isso é como eu experimentei determinadas coisas no mundo. Experiências são tão diversas quantas são as pessoas. Talvez haja formas muito mais profundas de vivenciar ou relembrar grandes experiências. E a forma presente foi apenas a minha maneira.

Sei que na medida em que alguns se identificarão, outros sequer concordarão. Penso, por fim, que o importante é viver, e viver da melhor forma possível. A vida é curta e o destino indecifrável. Temos o agora e as coisas passadas. Construir hoje o amanhã esperado é a única ação possível, segundo minha perspectiva.

Carpe Diem!

*Miguel Angelo Caruzo
Filósofo Clínico
Juiz de Fora/MG

quarta-feira, 13 de junho de 2012

Fragmentos filosóficos delirantes XCXII*

"(...) inaugurando uma epistemologia das margens para decifrar o fenômeno humano internado nos subúrbios"

"Uma desenvoltura delirante compartilha rasuras ao mundo das certezas"

"Na raridade do instante fugaz, as incompletudes embalam o espírito da metamorfose significante, de onde os eventos peregrinos costumam partir"

"Com o exercício da autonomia retórica os textos se oferecem à procura de um leitor de amanhãs"

"(...) uma lógica de náufrago aprendendo a nadar em meio à tempestade"

"Imaginava um rascunho nalgum ponto entre as fronteiras do dizível"

"Seu viés inusitado possui a linguagem própria dos fenômenos que tenta descrever"

"O abismo entre a semelhança e a singularidade é um desses equívocos, de onde as tipologias retiram sua fonte de conhecimento"

"Múltiplos disfarces protegem os segredos da vontade sem representação"

"Lógicas da insensatez possuem um saber cigano: indescritível forasteiro a sentir-se em casa no lugar qualquer de todo lugar"

*Hélio Strassburger

segunda-feira, 11 de junho de 2012

Respeito é bom e eu gosto

Jussara Hadadd
Terapeuta sexual, Filósofa Clínica
Juiz de Fora/MG


Um princípio básico de convivência que é esquecido e desprezado pelas pessoas, faz com que casais que se amam, que estão dispostos a viverem felizes, que querem montar sua família e serem respeitados como seres adultos e capazes de conduzirem suas vidas, se magoem e muitas vezes convivam com conflitos, causados por aqueles que já passaram à posição de parente e não se conformam em perder as rédeas dos membros que alçaram vôo.

O básico princípio, chamado respeito, é atropelado pelo egocentrismo de pais, de avós ou até de irmãos, que, se esquecendo do bom senso, utilizam-se de uma arbitrariedade justificada pela natalidade e adjacentes graus de parentesco, tentando a todo custo manter a posse sobre aquele que deseja partir em busca de palhas, cipós, sementes e tudo o que possa compor o seu novo ninho.

Justificativas, na grande maioria das vezes, cercadas de preconceitos contra a diferença social, racial, econômica, intelectual, sexual e tantas outras que até são inventadas, são usadas sem nenhuma cerimônia, quando o intuito é tentar separar quem gostaria de viver feliz um amor.

Moças mais bem resolvidas são chamadas de qualquer coisa pra baixo, moços menos bem sucedidos, jamais serão alguém, se é negro não presta, se é branco é xexelento, se é pobre é vagabundo, se não estudou muito é burro, se é filho único é fresco, se é vaidosa é patricinha, se é mais velho é pedófilo, se é mais nova é oportunista e por aí vai.

E para superar tamanha adversidade e tamanha diversidade, o casal que se ama e que supera preconceitos, deve se fortalecer no respeito até antes do amor.

Seus propósitos devem ser firmados a cada dia e com exemplo de boa convivência, fazer calar as línguas ferinas e ávidas por confirmação de suas ridículas impressões.

Um casal que se ama, deve afastar-se do meio que o julga, mas deve cuidar de não ferir egos. Um casal apaixonado deve, muito além da paixão, buscar na razão, maneiras de se comportarem, sempre afirmando seus sentimentos, contradizendo as opiniões maldosas dos parentes que desejam vê-los separados. Este casal deve acima de tudo, compactuar em admiração, em respeito, em sinceridade e unanimidade na crença dos laços que os une. Seu discurso deve ser o mesmo, sempre.

O casal para ser respeitado, não importa o quanto são aparentemente diferentes um do outro, deve achar o ponto que os une, onde acontece sua afinidade e sustentar estes pontos apesar de toda dificuldade que a vida conjugal apresentar.

Um casal forte, alicerçado no sexo de boa qualidade, na afinidade dos gostos, dos hábitos, dos pensamentos, dificilmente será influenciado pelos pareceres tendenciosos das pessoas que os criaram. Este casal não sucumbirá à tentação de voltar ao colinho da mamãe.

Contudo, ao menor sinal de desentendimento, perante a negligência em regar com amor, amizade, prazer, evolução, educação, gentileza e principalmente respeito, o casal descuidado, se tornará vulnerável ao ataque da parentalha de plantão ao menor sinal de ruína na relação e fracos, recorrerão ao colo da maldade que os separou.

Fugir do meio que os julga incompatíveis é o melhor remédio. Viagem juntos, estudem juntos, encontrem prazer em ficarem juntos em casa, recusem visitas de pessoas suspeitas, visitem muito rapidamente a casa dos familiares que tentam separá-los. Visitem apenas para não aumentar a ira que fomenta tamanha crueldade. Vivam por vocês, até que o mundo, na certeza que foram feitos um para o outro, aja em seu favor e cale a maldade que tentou, mas não os separou.

domingo, 10 de junho de 2012

Fragmentos filosóficos delirantes XCXI*


"Uma das infelicidades a que estão sujeitas as grandes inteligências é a de compreender forçosamente todas as coisas, tanto os vícios como as virtudes"

"Longe do centro onde brilham os grandes espíritos, onde o ar está carregado de idéias, onde tudo se renova, a instrução envelhece, o gosto se corrompe como uma água estagnada. Na falta de exercício, as paixões minguam avolumando as coisas mínimas"

"Um por-de-sol é um grande poema, mas não será ridículo para uma mulher descrevê-lo com palavras grandiloquentes diante de criaturas materialistas ?"

"Há delicadas voluptuosidades que não podem ser saboreadas senão entre duas criaturas, de poeta a poeta, de coração a coração"

"(...) viveu durante algum tempo de sua própria essência e de esperanças longínquas"

"Quantas recomendações! Lembrou-se de mil pequenos nadas"

" (...) a deprimente polidez usada pelas pessoas bem-nascidas para com os inferiores"

"As almas grandes estão sempre dispostas a fazer de uma desgraça uma virtude"

"(...) a inocência tem o picante do vício"

"Os que compreendem a poesia procuram desenvolver em sua alma aquilo que o autor pôs em germe nos seus versos"

"O amor é uma poesia em ação"

"Há para as criaturas que amam, um prazer infinito em encontrar nos acidentes da paisagem, na transparência do ar, nos perfumes da terra, a poesia que têm na alma"

"Existem em certas mulheres um horror as situações definidas com antecipação (...) querem ceder a um arrebatamento e não a convenções"

*Honoré de Balzac
1799 - 1850

sábado, 9 de junho de 2012

Trabalho, uma atividade da alma

Rosângela Rossi
Psicoterapeuta, Escritora, Filósofa Clínica
Juiz de Fora/MG


Falar do trabalho de uma maneira poética e estética poderá parecer uma viagem de alguém fora do tempo presente. Tempo este que só pensa o trabalho numa visão econômica e finanveira. Grande engano!

O trabalho como sagrado ofício, fenômeno psicológico instintivo, é uma atividade da alma, das mais sofistificadas e essenciais para uma vida potente e vibrante.
Busque apenas o pagamento em dinheiro, as vantagens financeiras e deixe de lado as necessidades da alma, que logo,logo estará engolido pela alienação de um trabalho enfadanho. Feliz morte lenta!

Facilmente nos sentiremos escravos se ligarmos o dinheiro apenas ao trabalho. A linguagem financeira eliminou a linguagem da alma para falar sobre riqueza, crédito, poder de comprar e venda, juros, débitos , passivos e ativos. O trabalho perdeu seu encantamento e seu verdadeiro sentido de valor, quando a alma foi abandonada.

Ao fecharmos o trabalho na busca contínua por dinheiro, o colocamos no altar monoteísta. Fixamos nas especializações, mergulhamos na compulsão e a queixa e a insatisfação contínua domina os egos ora inflados, ora vitimizados, deixando a poesis e o prazer da opus trancafiados nos complexos psicológicos.

Hillman nos convida a pensar o fazer a alma: -"Quando falo de fazer a alma, estou imaginando o opus da alma como um trabalho que é semelhante a um artesanato, cujos modelos viriam das artes".

Assim, se considerarmos o trabalho como parte da nossa opus, da nossa individuação, prestaríamos mais atenção na maneira como trabalhamos e o trabalho aqueceria nossa alma e vibraríamos a cada dia com as possibilidades criativas no exercício do fazer.

O trabalho como instinto natural se perdeu. Confunde- se hoje com a gratificação de ser recompensado pelo pagamento em espécie. O prazer do sagrado ofício em ação não tem mais valor para a maioria. Daí a grande crise existencial que percebemos, levando a depressões e a extensos conflitos.

A maioria não compreende o sentido e significado do trabalhar e vê nele apenas uma busca de pagamento, um salário maior e como resultado percebe que o salário sempre está aquém dos desejos. A frustração e a insatisfação toma conta das egos fragilizados, desaparados e distanciados da alma.

A alma clama pelo amor ao trabalhar. A sociedade de consumo desvaloriza o trabalho colocando em primeiro lugar o "esforço" heróico e a seguir o prazer egoíco do consumir e competir. Viramos todos rôbos cansados e sempre infelizes, pois quase nunca alcançamos o sonho idealizado de perfeição e poder.
Quando a alma toma a frente no exercício de trabalhar, o prazer tira o amargor do considerar o trabalho como algo duro, suado, difícil, tenso, escravizante. Esta imagem negativa ficou agendada para a maioria. A alma recupera o prazer, o prazer com alma.

Muito importante lembrar que ao deprezarmos as sombras, os complexos, as tragédias, os acontecimentos negativos, como parte da vida, tenderemos diante o trabalho, fixar nas infinitas reclamações. Esquecemos que trabalho dá muito trabalho e é um ritual, que tem suas chatices, bloqueios, repetições, perda de tempo. A alma exige muito de nós. É assim o caminhar pela escuridão. Engano pensar que o trabalho é o tempo todo prazer. Nem por isto perde sua beleza.

A consciência do ritual, das dificuldades, dos desafios fazem parte e esta é a beleza do mais sagrado ofício. Imagine a poeira que Miguelangelo teve que enfrentar para lapidar suas estátuas de mármore? Quando a obra está pronta parece que o trabalho foi fácil.

Esta é a grande magia que o trabalho como atividade da alma nos impoēm. Temos altos e baixos, dúvidas e certezas, prazer do nosso puer e crítica do nosso senex. Há uma dialética natural entre o sentimento de fracasso e sentimento de ambição, poder e perfeição. É a trajetória de nossa jornada de trabalho como atividade da alma.
O que importa é retornar o trabalho para onde ele sempre habitou, a alma. Devolver a ele a poesis e a estética. Só assim o peso toma outra imensão e se faz mais brilhante compondo uma singular realização.

sexta-feira, 8 de junho de 2012

Ausências e presenças

Vânia Dantas
Filósofa Clínica
Uberlândia/MG


Por que é preciso tanto tempo e distância pra se encontrar quem fale a nossa língua? Por muito tempo a gente procura o sublime e pensa que vai encontrar. De vez em quando vem a sensação de que esse melhor que se busca não existe, ou não foi reservado a nós, por enquanto. E às vezes uma presença é como um véu de estrelas e precisamos desencantar.

Nos unimos pelos defeitos, também pela maldade, que não somos certinhos, e às vezes nos maltratamos, competimos, querendo nos livrar porque dói muito amor e não poder. E talvez, pisando no outro, ele desista e nos livre da decisão que não tomaremos.

No caminho, vemos florezinhas azuis claras, dessas de vida curta, em plantas de 25 centímetros, entre meio-fio e asfalto. Elas estão ali, como a felicidade pode estar por toda parte, invisível, no som de um soprano, no doce da goiaba, nas contas de madeira da pulseira xamânica.

Fabricamos felicidade, ou melhor, para sair da lógica pós-industrial, a seduzimos, pois como disse Baudrillard, “produzir é materializar pela força o que pertence a outra ordem – a ordem do secreto e da sedução” (1984: 32-3). Assim, retiramos a felicidade da ordem do visível para vive-la. Mas os amigos são os construtores do sentido das coisas, do ambiente, quando, com flores trocadas no ar, fazem festa etílica de uvas rubi.

Ouso dizer, se o diferente nos espanta, o deveras semelhante assusta muito, chega a ser inacreditável. No confronto das estruturas, relacionamo-nos tópico a tópico. Emoção bate com emoção mal resolvida e convida para dançar. Rodopiam em idéias complexas, gargalham com a exuberância dos vice-conceitos quase ininteligíveis, me acompanhe... e trombam com pares de pré-juízos no salão, ora aqui, ora ali. Dão uma parada e tentam retomar o ritmo, mesmo que às vezes arranhem os próprios tornozelos entre si, escorreguem nos tacos encerados do que acham de si mesmas, ou desandem a discordar do passo de como o mundo lhes parece.

Sua axiologia talvez as permita agir e compartilhar, percepcioniar, brincar de atentar os sentidos. Talvez até façam uma dança sobreposta, complementar, exótica e harmônica e cheguem a se fundir, para, depois das paixões dominantes, caírem em suas próprias armadilhas conceituais.

Talvez uma emoção sinta a falta da outra, quando a vir roteirizada num filme de domingo à tarde, após o almoço, embora tenha a certeza de sua amiga ser mais maravilhosa que ele.

E, fatalmente, a km de distância, vai sentir a sua presença no ritmo de uma outra bailarina, que talvez rodopie mais, saltos de garça, sainha de seda sobre tule rosa encorpado, garça anoréxica.

Vai saboreá-la no gosto dos temperos que só uma maga cozinheira sabe usar. Tomilho, manjericão que é orégano, canela com gengibre e aroma de banana ou maçã; e pimentas, dedo-de-moça, cumari amarela ou vermelha, verde-castanha, malagueta sementeira, bode de doer e calabresa, que é a própria.

E vai procurar, por um bom tempo, medido em termos equívocos, sem querer seguir em direção ao singular, por uma outra avezinha de plumas poucas, corpo trabalhado em sofrimento, mínimo, pois basta ser sutil, e músculos às vezes parecem ser só para as esteticidades brutas.

Numa singularidade existencial, a emoção distante reverencia dentro de si os altares sagrados em que Deus habita. Reconhece uma parte dele em cada pluma, planta, ser de movimento e imóvel. Agradece pelos fatos que apontam a necessidade de restabelecer a harmonia. Aceita que sua fala se reverte para si mesma, fala o tempo todo para si, se aconselha e se pune. Age com sensatez e claridade, mostra sua decisão e ouve a análise indireta decorrente dela. Separa o que vale a pena e segue com os seus bens preciosos em frente: seus filhos, seus dons, seu trabalho.

Sente as vibrações e o magnetismo em seu físico suficiente, seus centros de energia renovados e ela viva. Pulsa, esquenta as mãos, ruge – cabelos de fera. Respira a neblina quando desce do ônibus, depois de quilômetros de brancura na estrada. Sorri ao pensar na espera do sol, quando poderá sair e continuar a busca da companheira que, ansiosa, acordara várias vezes na madrugada, todos esses dias, meses, ou anos, e já a espera no Box 18 do Expresso União.

quinta-feira, 7 de junho de 2012

Reversos

Pe. Flávio Sobreiro
Poeta, Filósofo Clínico
Cambuí/MG


Dos mistérios da vida
apenas o sorriso
e as alegrias
as manhãs que ainda irão chegar
e as tardes que se despediram
o brilho do olhar
e o silêncio dos poetas
apenas o presente
a saudade do abraço
e a esperança no futuro
certezas não tenho
me faço um
com o mistério
que ainda não tem nome
e que faz de cada fragmento
do meu ser
o mais belo momento
daquilo que em mim
é um reverso
das muitas vidas
que cruzam as esquinas
do meu ser

segunda-feira, 4 de junho de 2012

ENQUANTO SE ESPERA, TUDO PODE ACONTECER


Ildo Meyer
Médico, Escritor, Filósofo Clínico.
Porto Alegre/RS


Nem tudo na vida pode acontecer exatamente como planejamos e no momento que desejamos. Algumas situações exigem esperar. Esperar o nascimento de um filho, a diplomação na faculdade, a recuperação de uma doença, a fruta amadurecer, o sinal de trânsito abrir, a fila do banco andar, o pagamento no final do mês, a raiva ceder, o perdão transcender, o amor aparecer...

Nem todas as esperas são iguais e nem todos esperam da mesma forma. Algumas esperas podem ser programadas e não causam tanto incômodo, porém quando eventualmente surge algo fora da rotina ou planejamento, alguns conseguem lidar com a situação tranquilamente, enquanto outros são mais impacientes, se estressam, sofrem demasiadamente e chegam até a perder o controle emocional.

A insegurança provocada por um imprevisto e a sensação de perda do controle do futuro podem alterar a percepção do tempo real e causar a impressão de que tudo está acontecendo devagar ou rápido demais. A experiência de viver o presente é abreviada e não desfrutada em sua plenitude.

Esta lente desfocada pode causar incômodos e problemas de relacionamento, pois enquanto se espera, tudo pode acontecer, tanto para o bem, como para o mal. Um momento de paciência pode evitar um grande desastre; um momento de impaciência pode arruinar toda uma vida.

Enquanto esperam, pessoas costumam utilizar a imaginação. Pensam no motivo da demora, na possibilidade de desistirem do encontro, na repreensão que farão ao atrasado, na recuperação do tempo perdido, na desforra...Até que surja algum esclarecimento, tudo pode estar acontecendo, tanto dentro como fora da cabeça de quem espera, que não tendo por onde se orientar, fica adubando indefinidamente seus pensamentos. Qualquer explicação pode ser suficiente para acalmar os ânimos, porém atraso sem justificativa é extremamente ansiogênico.

Esperas ansiosas podem gerar pensamentos e julgamentos falhos acerca do atraso, pois nestas situações o campo de visão de quem espera é limitado por observações, informações e experiências próprias contra um universo de possibilidades adicionais sequer imaginadas. Quem espera toma os limites de seu pequeno campo de visão como os limites do mundo, e se esta espera estiver sendo desagradável, tanto pior serão os pensamentos.

Alem disto, ao tentar prever o que está se passando utiliza-se a imaginação como ferramenta. A imaginação é uma força poderosa que pode ultrapassar a razão e levar a ver verdades ou falsidades onde elas realmente não existam. Prever o futuro é um jogo arriscado, e as chances de perder são grandes.

Precisamos ser pacientes com a demora, mas não ao ponto de perder o desejo; devemos ser ansiosos, mas não ao ponto de não sabermos esperar. O ato de esperar também pode ser produtivo. Este texto, por exemplo, foi escrito durante um período onde esperar talvez tenha sido a melhor, senão a única conduta possível. Esperar não é o ideal, mas às vezes é o que resta.

Entretanto, assim como a impaciência pode ser danosa, o atraso também pode por tudo a perder. Por vezes o trem não passa duas vezes no mesmo lugar. Talvez este artigo não esteja tão bem elaborado e precisasse mais alguns dias para ser revisto e refinado, mas a hora de ser lido era agora. Sem mais demoras ou contratempos. O que vale a pena conquistar, tanto merece a pontualidade, como vale a espera. Se você não demorar demais, posso te esperar por toda a minha vida.

domingo, 3 de junho de 2012

Fragmentos filosóficos delirantes XCX*


" Sou palavra louca sem pernas, eiras e beiras,
beiro o não sentido do oposto
sou louco! Rouca gargalhada...
Sou o que não sou uma estrada sem fim."

"Andarilho beatificado pelas mãos dos ventos,
pelas asas dos rios, cheirosos por lírios,
pelos lixos ditos e desorganizados por várias bocas"

"Estou num estado que nem me procuro mais!"

"Porque escrevo ?
Escrevo por dentro por não ser alma por fora
Não compreendo, sinto apenas.
Pensamentos são veios: poetas, filósofos.
Troco o amargo pelo agrado.
Mentiras por falsas verdades...
É preciso escrever mesmo em maltratadas palavras!
Sentir, olhar, andar... trincar o cambalear de incertezas.
Por isso escrevo!
Para que as memórias do eterno estendam sobre
o cotidiano a luz do frescor e os ruídos da lógica."

"A fala tinge de branco o que a incerteza nos impõe:
o silêncio!"

"Todas as minhas lendas que moravam nas estradas do meu pensar (...)"

* Djandre Rolim`
Poeta Cigano

sábado, 2 de junho de 2012

Considerações de cinema e clínica*









A improvável interseção entre cinema e terapia faz possível sentir as influências, reciprocidades. Intermináveis derivações a partir da versão original para explorar os inéditos recantos de cada um.

Ao ser informação dirigida já é algo mais sobre a película passando. Roteirizando trajetos com recheio das simbologias discursivas, a intencionalidade aponta alegorias numa estética das fontes, um lugar onde saber_sentir é. A fita concede aberturas até então desconsideradas pelo cotidiano.

Nessa magia perspectiva uma interpretação fascinante se desdobra entre atores principais e coadjuvantes nas possibilidades de cada ato. Sua promessa indeterminável elabora uma dialética entre autor e espectador, mescla por onde se realiza a con_fusão entre realidade e irrealidade.

Seu manuscrito inicial, tornado acessível a várias frequências de percepção e entendimento, permite uma variada interação com o público, desde um visar de superfície até mergulhos mais intensos. O signo estrangeiro faz acordos de aproximação e tradução com as lógicas dessa fonte de inspiração.

Talvez a obra “Morangos silvestres” de Ingmar Bergman (Suécia, 1957), consiga traduzir esse exercício de reciprocidade, onde o médico solitário, em busca de revisitar seu passado, um pouco antes das homenagens pela história de cuidados com as pessoas da região, atualiza aspectos significativos de sua caminhada de vida.

Na concepção da obra de arte_cinema aparece uma diversidade de fenômenos, a superar a concepção discursiva original, como o caso das releituras de um público singular. Nesse sentido se destaca a autoria de obra aberta, a espera de preenchimento dos cenários inconclusos.

Bem depois das tentativas de fechar uma conclusão, o filme “Clube da luta” de David Fincher (EUA/Alemanha,1999), faz possível esse movimento desconstrutivo das certezas em prol de um imaginário incapaz de um ponto final. Uma realidade delirante (impregnada de lógicas desconhecidas) parece tomar conta da síntese narrativa, ao aprisionar em múltiplas visões o desenrolar dos eventos.

Um ponto onde ficção e realidade casam na sessão de cinema, derivando suas crias na forma de textos, novas ideias para o teatro, poesia, literatura. Aproxima-se de uma teia de armadilhas conceituais onde uma alimenta a outra. A retórica desse esboço mal_dito aproxima a perspectiva clínica das poéticas do delírio, da imaginação criativa, da invenção, da superação dos limites dos acordos sociais.

É improvável ser a obra “Dom Juan de Marco” de Francis Ford Coppola (EUA, 1995) um desses exemplares onde o mundo objetivo e a subjetividade dos envolvidos, do lado de lá da tela e do lado de cá da poltrona, se encontrem com alguma objetividade. Sugere um olhar sobre a sessão terapêutica onde, muitas vezes, os papéis existenciais podem ficar embaralhados. Também as ressonâncias dos encontros e agendamentos de lado a lado da interseção, permitem cogitar caminhos para além do texto de origem.

A partir daí as circunstâncias multiplicam entrelinhas de uma matriz que supera a busca inicial do filme. O fenômeno do encontro da clínica com o cinema parece não ter fim, mas recomeços, a perseguir o horizonte possível em cada subjetividade. Quem sabe sua vitalidade esteja relacionada com o ressurgir das cinzas, tão próprio da ficção, muitas vezes desconsiderada como ilusão ou erro, a contribuir, para o desenvolvimento e aperfeiçoamento da vida.

“Blade Runner” de Ridley Scott (EUA, versão final do diretor 2007) consegue dizer sem palavras, a relação de um caçador de androides apaixonado por sua vítima. Em muitos instantes fica difícil saber quem é quem entre o fenômeno humano e desumano, suas cenas estão impregnadas da interseção muito íntima da realidade com a fantasia.

Nesse assédio de um pelo outro, encontros e desencontros elaboram versões inéditas, em busca por releituras a integrar razão e desrazão. Nesse endereço onde dramas, comédias, tragédias se integram a criatividade espectadora, a obra de arte pode ser recriada a todo instante.

Em “O pecado mora ao lado” de Billy Wilder (EUA, 1955), é possível vislumbrar a utopia dos desdobramentos subjetivos. Em alguns momentos o ator principal convida seus cúmplices de cena a participar de seus deslocamentos. Como um roteiro dentro do roteiro, vai abrindo janelas e dialogando com vários atores, inclusive com o ator_espectador diante da tela.

É possível notar a expansão dos limites do cinema para as ruas, praças, casas da cidade, ao influenciar o estilo de vestir, dialogar, caminhar, escolhas literárias, opção e formas de vida. No entanto, sua fonte de inspiração permanece indefinível, num caleidoscópio mutante a adaptar os diálogos entre as possibilidades de cada sujeito diante de si mesmo.

A obra “Poderosa Afrodite” de Woody Allen (EUA, 1995) é uma dessas poéticas narrativas que interfere no cotidiano das pessoas, desacostumadas aos discursos de tipo novo. Nela um pai procura a mãe legítima de seu filho adotivo. O que descobre modifica seu olhar, suas relações, o contexto dos envolvidos, a natureza dos agendamentos.

Um visar assim descrito, testemunha reciprocidades e passa a atuar nos limites da própria interpretação. Talvez como uma forma de dialogar com a matéria-prima contida na imprevisibilidade das coisas ao redor. Seus desdobramentos insinuam, convidam, instigam a um movimento de alma inédito, o qual aprecia compartilhar aprendizados no dia-a-dia dos envolvidos pela façanha cinema.

O processo de interseção entre duas singularidades, raramente é descrito com a aptidão de uma obra como “Livre para voar” de Paul Greengrass (Inglaterra, 1999). O impacto transformador na vida de um e de outro, a pluralidade discursiva, somática, concede uma pedagogia sobre o drama de uma ficção inacabada, um exercício de humanidade radical.

Nos enredos do cinema se multiplicam cenários que restariam desconsiderados não fora sua capacidade de inaugurar, a partir de um ambiente de sedução e magia, um aprendizado sobre as margens do que já se sabe. Apontamentos para um sentir além dos limites ideologizados, no convite sutil dos subtítulos da obra de arte.

Esse convite absurdo se realiza na sala escura, agregando ao sujeito, pela hora espetáculo, um fantástico rol de matéria-prima e ensaios. Entrar em cena pode significar a expansão das fronteiras pessoais em um só instante. O fora de foco de uma linguagem a reivindicar contornos intermináveis pelas releituras da mesma estória. Um sutil encantamento a transformar espectador em co-autor.

*Hélio Strassburger
Filósofo Clínico

sexta-feira, 1 de junho de 2012

Geração Celular

Beto Colombo
Empresário, Filósofo Clínico, Coordenador da Filosofia Clínica na UNESC
Criciúma/SC


Querido leitor que você esteja bem. Sábado à noite saí para beber um chope e, como de costume, observo hábitos, comportamento das pessoas que, assim como eu, saíram de casa num gostoso sábado e aprazível à noite. Saí para relaxar, bater um bom papo com amigos; e olha que eu vou longe atrás de um bom bate-papo e curtir a filosofia de botequim, entre outras coisas.

Como disse, gosto de observar hábitos e, nesse local que fui, era um bom laboratório, pois a maioria do público era de jovens abaixo de 30 anos. O que me chamou atenção era o volume do ruído ocasionado pela conversa entre as pessoas que ali se encontravam.

Prestando melhor atenção, qual não foi minha surpresa quando percebi que o ruído era ocasionado sim pelas conversas, porém, o diálogo se dava não só pelos presentes e sim pelo diálogo que ocorria devido ao telefone celular. É isso mesmo! Você convida amigos para sair, conversar, relaxar e a pessoa a qual você faz interseção não está presente, pois dá atenção, provavelmente, a alguém que está em casa na frente do computador, também dialogando com outros trancafiados em algum quarto, em algum lugar desse planeta.

Observando um pouco, vejo pessoas em silêncio. Compenetradas, olhando para baixo. Mas, observando um pouco melhor, vejo que estão enviando ou recebendo mensagens, ou, possivelmente, acessando a internet. De repente, postando foto recentemente tirada naquela mesa. É uma velocidade incrível nas informações externas, um vai e vem frenético de palavras, mas parece que não paramos mais na frente do outro.

O sinal é esse: pare e olhe por até cinco segundo no olho do outro. Na grande maioria das vezes não conseguimos passar do segundo ou terceiro segundo. Quando alguma coisa vai ocorrer de interseção de amizade, mudamos o olhar, provavelmente, voltamos a tela do computador, do celular.

Como administrador de empresa, adquiri alguns hábitos que não abro mão. Um deles é que, geralmente, não chamo meus liderados para conversar em minha sala, eu vou à sala deles. Faço isso, e quando sou interrompido pelo telefone do outro, principalmente o celular, levanto e encerro a conversa. Tenho minhas razões, a principal é que se a pessoa do outro lado da linha é mais importante que nossa conversa, então podemos deixar para depois, isso sem falar da falta de educação.

Claro que compreendo que há os casos de urgência e emergência, mas esses, como sabemos, são exceções e como exceções vão ser tratados. O que me intriga é que atender telefone na frente do outro virou regra.

Recentemente esperava na fila de uma repartição pública para ser atendido, mas a demora era grande porque tinha somente um atendente que recebia pessoalmente as pessoas e atendia ao telefone, tudo ao mesmo tempo. Não deu outra. Da fila liguei para a repartição e fui atendido mais rápido e meu caso foi resolvido dessa forma.

Do jeito que estamos indo, daqui a pouco teremos algum tipo de LER – Lesão por Esforço Repetitivo – advinda justamente pelo uso excessivo e repetitivo do celular. Mais do que isso, como conheço muitas pessoas que se sentem nuas e não saem de casa sem o tal aparelho, inclusive levam para o banho e dormem com ele, o telefone celular deverá ser eleito o segundo melhor amigo do homem. O primeiro? É o cachorro é claro. Mas desde que a foto esteja estampada no visor do celular.

É assim como o mundo me parece hoje. E você, o que pensa sobre a geração celular?