quinta-feira, 2 de agosto de 2012

Construção compartilhada*



Após a palestra do professor Hélio Strassburger ficou mais evidente para mim que o homem é fruto do seu meio**, pois ninguém que viva em sociedade é capaz de construir algo sozinho, as relações entre as pessoas é o que possibilita a nossa vida em sociedade e o que torna possível a evolução do ser humano.

Isso não quer dizer que a pessoa não é autônoma, pelo contrário, é justamente entendendo essa relação de interdependência (alteridade) que se pode ser verdadeiramente autônomo.

Mas é ingenuidade achar que se pode ser completamente independente do outro, pois você somente pode ser reconhecido como indivíduo, com toda sua singularidade, no momento em que existe o outro para legitimar a sua identidade.

Ainda que seja possível a uma pessoa viver isolado de qualquer contato humano, para sua existência foi necessário haver dois outros seres humanos que o geraram (ou então alguma espécie de criador).

No primeiro caso mesmo que o sujeito negue suas origens, não pode se livrar da sua herança genética, que é um condicionamento. A pessoa que nasce em determinada família está fadada a uma herança, não só genética, mas também social. Cada família possui os seus ritos, agendamentos, nenhuma delas é igual à outra e querendo ou não a pessoa carrega consigo as lembranças desse convívio.

Mesmo que a pessoa queira afastar-se da sua origem (ainda que consiga tornar-se completamente o avesso da sua origem) não pode negar que foi justamente essa origem (a recusa dela) que lhe possibilitou tornar-se o que é.

Tornou-se comum dizer "isso é atávico" elevando esse a uma esfera metafísica e num tom de que é algo que se deve rejeitar. Saber que você pratica ações atávicas não te liberta delas, pode sim ser uma enorme porta aberta para, através dessa tomada de consciência, iniciar uma mudança.

Agora imagine você se esforçando para ter ciência em todos os momentos da sua vida analisando se seus atos estão sendo autônomos ou se você está sofrendo alguma influência, é algo inconcebível, por tanto ter ciência de que existe uma herança histórica, cultural, religiosa, etc. não é algo libertador.

E se a pessoa quiser justamente honrar (seguir) as tradições herdadas, repetindo o que já foi feito antes, (tivesse sucesso ou não) não nos cabe julgar e mesmo que ele queira repetir exatamente o mesmo feito está presente aí uma nova consciência e um ser humano que é outra vez fruto do seu meio em um meio que é inverso daquele dantes.

Saber que a minha ansiedade é causa da minha gastrite não vai fazer com que ela cesse, é preciso antes que eu encare a vida de maneira mais leve, consciente daquilo que eu não posso controlar devo aceitar ou encontrar algum jeito de desconstruir.

Alguns eventos independem da minha própria existência ou dos meus antepassados.

Dessa maneira entendo que dizer-se fruto do seu meio não determina pontualmente o destino de um sujeito, mas significa ter clareza de que você depende do outro para ser quem você é. As pessoas nos ajudam na construção de nós mesmos, e nesse sentido a construção compartilhada é parte de cada singularidade.

*Débora Perroni
Filósofa, estudante de Filosofia Clínica
Porto Alegre/RS
**Rousseau

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