quinta-feira, 31 de janeiro de 2013

O Pecado abaixo da linha Equador*

Na verdade, está abaixo de tudo e, principalmente, abaixo do que jamais gostaríamos que fizessem conosco. O pecado não está em buscar a felicidade ou viabilizar uma nova e alegre vida, mas sim em não avisar ao outro que passou a precisar de uma vida nova. Está também em fazer tentativas com outro alguém, deixando o parceiro em stand by, caso se meta em alguma furada. O pecado está em deixar de amar e não comunicar. Em não libertar o outro enquanto sai em busca do que é bom para você.

O pecado está em minar cruelmente e lentamente a relação, o outro e tudo o que possibilitaria a continuidade da união, criando justificativas para atender a impulsos de leviandade que nascem exclusivamente de sua incapacidade com a autoconvivência e com a convivência reta e proposta com alguém a quem um dia elegeu como o seu grande amor.

- Ele agora é cheio de defeitos e conhece todos os meus, por isso, mereço e me permito alguém melhor. Vou tentando e se não achar, vou ficando por aqui. Enquanto isso, vou vivendo romances, sexo variado de boa ou má qualidade, sei lá. Enquanto isso, vou elencando motivos para o deixar e quando eu, verdadeiramente, por outro me encantar, que o outro vá pastar.

Este comportamento atende ao desespero e ao desequilíbrio de pessoas que não aprenderam a lutar, construir e desfazer e fazer tudo de novo se precisar. Acomodados, preguiçosos, mal orientados, superprotegidos, mimados, enfim. Atende à inércia em cuidar até mesmo da própria vida.

Pode acontecer e acontece muito do "pecador" ser exatamente quem mais deixa faltar na relação. Mal trabalhador muitas vezes é cobrado. E orgulhoso que é, vai tirar a prova em outros territórios. Uma topada aqui, uma facada ali, um tombo acolá e volta o inábil ser em busca do perdão daquele que ele tentou provar a todo custo, não ser a melhor pessoa para continuar uma relação.

Não existem melhores ou piores pessoas. Existem pessoas de todos os tipos. Quem é melhor para você? Vai ficar experimentando de tempos em tempos, de lugar em lugar? Por isso, um conselho que desprezamos na juventude vem muito a calhar quando nos desiludimos no amor: não vá se casando com qualquer um. Invista um tempinho em conhecer, o tempo vai mostrar. Melhor ver antes de tomar decisões mais sérias, como construir patrimônio ou gerar vidas. Melhor ver antes de sofrer demais.

Não está bom para você? Pode estar pior para o outro. Honestidade costuma abreviar sofrimentos. Tente uma conversa sincera, combata a covardia. Ame ao seu próximo como a si mesmo. Pode ser que você mereça a felicidade que tanto procura por aí.

*Jussara Hadadd
Terapeuta sexual, filósofa clínica
Juiz de Fora/MG

terça-feira, 29 de janeiro de 2013

Nova Lua Cheia_27jan2013*

Eis uma Nova Lua Cheia. E com ela a possibilidade de que algo novo realmente aconteça.

Esta é a primeira lua cheia do ano e favorece a percepção dos condicionamentos antigos já, que não servem mais para muita coisa.

É uma Nova Lua Cheia sincrônica com o Arcano Maior do Tarô, A Torre, conhecido também como a Casa de Deus. Arcano que inaugura e favorece novas estruturas, um novo chão e a possibilidade de iniciar algo a partir de novas bases, pós aniquilação das antigas.

Momento para perceber que muita coisa não funciona mais. O movimento da natureza é lento, sábio e constante, não linear necessariamente ao que os nossos olhos possam considerar como linear, porém, cíclico, em círculos gigantes e pequeninos, mas nunca em saltos. Ela é constante em seus movimentos, e somos natureza também. Pois bem, mas há algo novo no ar a espera de decodificação.

Há necessidade de enxergar o que não compactua com o atual momento. Se tudo pode ser novo já e nossas percepções ainda não focalizaram essas novidades, deve-se saber destas possibilidades e, especialmente, revisitar e saber reformular questões centrais. Novas formas de fazer, de olhar e de considerar são mais do que bem vindas. É hora, por exemplo, de não fortalecer, pelo contrário, crenças que podem já estar cristalizadas, mas sim dar uma chance para as mudanças, para os novos caminhos e formas de fazer, ver, enxergar, acreditar e sentir.

A natureza é delicada e poderosa ao mesmo tempo e essa é uma lua cheia que apresenta o novo e a possibilidade de acessá-lo. Após um mês intenso, diabólico, vem a chance de zerar diversos aspectos em nossa vida. É o momento de início dessas novas estruturas que sobreviverão ao longo dos tempos. E a terra está propícia às novas sementes.

Livre-se do que já não serve mais. Se uma nova estrutura ou se algo saiu da sua vida, agradeça. Seja humilde para reconhecer seus erros e o que não faz mais parte do seu dia a dia e das suas escolhas. Recomece libertando-se e receba a possibilidade de estabelecer uma nova estrutura, seja de crenças, sentimentos e pensamentos, seja de atitudes, hábitos e vivências.

Plante uma árvore. Ela será frutífera. Até a próxima lua cheia é tempo para liberar e encontrar o que realmente oferece estrutura ou apresenta maior senso de realidade.

Boas e novas reestruturações a todos!

Renata Bastos
Astróloga, publicitária, filósofa clínica
São Paulo/SP

segunda-feira, 28 de janeiro de 2013

Alétheia ou Des-velar*

“Des-velar” é a tradução literal da palavra grega “Alétheia”, que significa “verdade”. As concepções de verdade ao longo da história são diversas – adequação da coisa ao intelecto, validade de proposições, etc –, entretanto, ao escolher esse termo grego e a atribuição dada, sobretudo por Heidegger, para o qual a “verdade como ‘desvelamento’ possui diversas consequências.

A verdade já não é mais algo do qual podemos ou devemos estar certos em um sentido cartesiano ou husserliano. Nós podemos estar certos de proposições, eu estou certo de que isto e isto é assim. A busca pela verdade não é uma busca pela certeza sobre aquilo que já sabemos ou cremos, mas uma busca pela descoberta de âmbitos ainda desconhecidos”[i]

Diante disso, vou apresentar artigos, ensaios, resenhas ou texto de ordem diversa com o intuito de partilhar minha aquisição de conhecimento, defesa ou ataque de determinada tese ou simplesmente exercitar minha prática de escrita por meio de alguma exposição relevante.

Tendo em conta uma afirmação do pensador estadunidense R. W. Emerson: “Quero dizer o que eu penso e sinto hoje, com a condição de que talvez amanhã eu vá contradizer tudo”, reconheço que mudanças de ponto de vista podem ocorrer e que não há nenhuma afirmação absolutamente irrevogável no decorrer dos textos.

E isto nada tem a ver com desonestidade intelectual ou falta de convicção de minhas palavras, mas está estritamente ligada à concepção de que desvelar já demonstra o contrário de algo que comumente é velado; e que a limitação humana permite o reconhecimento de estarmos sempre em busca da verdade, mesmo jamais a encontrando de modo definitivo, pois a cada des-velar há um velamento.

[i] INWOOD, Michael. Dicionário Heidegger. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2002.

*Miguel Angelo Caruzo
Filósofo Clínico
Juiz de Fora/MG

domingo, 27 de janeiro de 2013

Escrituras, desleituras, releituras IV*

"A leitura haverá de ser sempre uma ética. Incumbe-lhe ensinar o homem a viver e a respirar o universo"

"Ao contrário de Machado de Assis, que se mascarou para exercer uma realidade que só se realiza plenamente no espaço da metáfora, Lima Barreto presumiu que a projeção verbal da realidade - que é uma criação, e portanto, a passagem para outro universo - dispensa a intermediação estilística, exclui a máscara capaz de revelar o verdadeiro rosto da vida"

"Obra aberta, Dom Casmurro assenta a sua verdade romanesca na ambiguidade, sendo, pois, esteticamente irrelevante interrogar-se se Capitu é culpada ou inocente, se andou de amores escondidos com Escobar ou se tudo não passou de imaginações de um temperamento ciumento, sensual e doentio como Bentinho"

"(...) nossa identidade é sempre uma versão ou uma relação"

"(...) escrevo os meus poemas e a Poesia, sendo alquimia e vertigem, corresponde ao uso supremo da linguagem e ao mais alto e primoroso nível da escrita"

"Como nas fronteiras secas que unem países e nacionalidades, em lugar de separá-los, e chegam até a gerar uma língua comum, o escritor e o poeta coabitam nesses figurantes literários"

"Mas, no meu caso pessoal, o fato de ter publicado prosa e verso induz o interlocutor eventual a impor-me uma divisão profissional, como se eu fosse dois e não uma sempre inacabada integridade"

"Transeunte de uma avenida de interrogações, não sei se a Poesia pertence a Literatura ou se constitui uma outra capitania da vida e da Linguagem"

"Ao de mais, prosa e poesia não são categorias incomunicáveis, compartimentos estanques. Entre ambas se sucedem vizinhanças de pé de porta, intimidades, gradações semânticas, terras de ninguém e das duas"

"A Natureza é um livro que reclama uma leitura, a adoção de um código, de um elenco de sinais"

*Lêdo Ivo
1924 - 2012

sábado, 26 de janeiro de 2013

Penúltimas notícias:

Edital 001/2013:

Inscrições para estágio institucional em Filosofia Clínica:

Encontram-se abertas as inscrições para a turma 2013 de estagiários em Filosofia Clínica

- Período: 01/02/2013 - 01/03/2013
- Local: Hospital Psiquiátrico Espírita em Porto Alegre
- Vagas: 10 vagas – 05 no hospital-dia e 05 na internação integral
- Pré-requisitos: conclusão da parte teórica em centro de formação reconhecido, parecer do professor titular e pré-estágio
- Entrevista e avaliação curricular com a coordenação
- Duração: 06 meses – início em março/2013
- Inscrições e demais informações: casadafilosofiaclinica@gmail.com
- Coordenação: Casa da Filosofia Clínica

sexta-feira, 25 de janeiro de 2013

Penúltimas notícias:

Boas Vindas!

Associação Piauiense de Filosofia Clínica convida:

CAFÉ COMPARTILHADO


Olá, bom dia! Tudo bem com Você?

A APIFIC lhe convida para um CAFÉ COMPARTILHADO (por adesão), partilha de CONVERSAS, de COMIDA, que será realizado no dia 25 de janeiro de 2013, no Restaurante da D. Lúcia, na Rua Benjamim Constant, 1544, Centro, as 7 horas e 30 minutos, pela manhã.

O mesmo alem de oportunidade para reencontro, partilha de conversas e comidas, será uma confraternização pela passagem do ano de 2012 para o ano de 2013 e início das atividades deste último.

Esse evento não tem finalidade econômica e terá como público alvo as pessoas que fizeram ou que fazem a Filosofia Clínica no estado do Piauí, os seus familiares próximos e os que, de alguma forma, contribuemlaboraram ou colaboram com a Filosofia Clínica em nosso Estado.

Aos que desejam participar desse nosso Café lembramos a necessidade da confirmação da presença. Por sua compreensão, obrigado!.

Como não dispomos de todos os contatos, peço a gentileza de retransmitir este convite. Pela sua colaboração, obrigado!

Qualquer dúvida nos procure através do fone: 9991-3869.

Confirme presença!

A APIFIC aguarda todo mundo lá.

Obrigado!

Elvécio Paraguai e Silva,

Pela APIFIC.
Ser Amigo é...*

Saber ouvir os silêncios da alma, expresso em olhares, gestos, sorrisos, lágrimas... É falar quando for preciso sem medo de ser mal interpretado. Pois no fundo do coração, um verdadeiro amigo sabe que somente quem se preocupa com ele tem a coragem de falar a verdade.

Acolher os medos reais ou ilusórios. O medo sempre é maior quando estamos sozinhos diante dele. A presença de um amigo sincero do lado torna a vida mais fácil de ser compreendida. Quem descobriu no sorriso de um amigo o antídoto para seus medos, encontrou um companheiro para a vida toda.

Se alegrar com as conquistas do outro. Muito mais difícil do que acolher uma dor é se alegrar com as vitórias que não são nossas. Muitos sabem ser solidários na dor, mas incapazes de se alegrar com a felicidade de outros.

Cultivar a amizade em pequenos gestos. Um “oi”, ou simplesmente um sorriso, um “bom dia”, “boa tarde” ou “boa noite” podem fazer grande diferença na vida de alguém. Amizade que não se cuida, morre por falta de ternura.

Ser amigo é acima de tudo saber caminhar no ritmo do outro, sem nunca descuidar dos seus próprios passos.

*Pe Flávio Sobreiro
Poeta, filósofo clínico
Cambuí/MG

quinta-feira, 24 de janeiro de 2013

Penúltimas notícias*

Estou muito feliz!!!!

Acabo de saber que meu projeto de documentário "Terra dos Biscoitos Falantes" foi aprovado pela LEIC de Minas Gerais.

O orçamento total de R$115.335,00 serão destinados a realização de um média metragem de 35 minutos, cujo tema abordará as tradições orais que envolvem a culinária artesanal dos biscoitos de São Tiago/MG; cantigas, confecção de fornos de barro, causos e tropeiros serão apresentados em uma narrativa lúdica e poética. Obrigada amigos que aceitaram compartilhar essa ideia!

*Mariana Fernandes
Produtora cultural, cineasta, jornalista, filosofa clínica
São João del Rei/MG
Por que Filosofia?*

Por que Filosofia? Essa pergunta surgiu de uma outra indagação: por que Bergson? Porque me apaixonei... Foi a resposta para a segunda. Daí comecei a pensar na primeira: por que Filosofia? Bem, poderia dar a mesma resposta: porque me apaixonei. Porém, apaixonei-me porque encantei-me e acredito que seja assim com as outras carreiras também. Por que Biologia? Por que Física? Por que Matemática, Engenharia, Artes Plásticas? Podem dizer: quero aprender isso ou aquilo, mas na verdade nunca é pelo fato empírico de descobrir algo. Na verdade, acredito eu, é sempre pela paixão. O coração fala mais alto!

Já que o coração manda, podemos desobedecer? Pois dependendo da área que escolhemos, sempre nos perguntam: como vai ganhar dinheiro? Na verdade não pensamos nisso quando escolhemos nossas carreiras. Mais tarde vemos se foi ou não uma boa escolha (na maioria doa casos não é). Penso que não desobedecemos; às vezes adiamos, mas acabamos voltando e seguindo nosso coração. Na verdade nos encantamos com alguma coisa dentro da carreira que o coração escolhe para nós!

É a paixão que nos move e são as paixões que fazem com que sigamos tais ou tais caminhos! Não podemos fugir! Somos românticos em última instância! A vida tem seus mistérios, assim como nossa mente e nossos sentimentos.

Por isso acredito que nossas emoções e sentimentos estão sempre nos guiando. Quando somos excessivamente racionais, não estamos sendo totalmente nós, porque se a razão está na luz, algo está na sombra. Esse algo são nossos sentimentos e emoções.

Respondi a primeira pergunta? Não sei... Mas creio que me dei uma pista da resposta. Acho que na verdade nunca saberei qual será a resposta. Talvez não haja uma resposta! Mas continuarei investigando, pois meu impulso filosófico me compele a tal busca.

*Vinícius Gomes de Fontes
Filósofo, estudante de filosofia clínica
Rio de Janeiro/RJ

quarta-feira, 23 de janeiro de 2013

Escrituras, desleituras, releituras III*

"Toda magia que não se transcende - isto é, que não se transforma em dom, em filantropia - devora a si mesma e acaba devorando seu criador"

"Se o poeta abandona seu desterro - única possibilidade de rebeldia autêntica -, abandona também a poesia e a possibilidade de que esse exílio se transforme em comunhão"

"Magos e poetas, ao contrário de filósofos, técnicos e sábios, extraem seus poderes de si mesmos"

"Com muita frequência se compara o mago ao rebelde. A sedução que sua figura ainda exerce sobre nós é consequência de ter sido ele o primeiro que disse Não aos deuses e Sim à vontade humana"

"Nós somos o tempo, não são os anos que passam, mas nós que passamos"

"Valéry comparou a prosa com a caminhada e a poesia com a dança"

"Nascido da palavra, o poema desemboca em algo que a transpassa"

"A poesia nos abre a possibilidade de ser que decorre de todo nascer; recria o homem e o faz assumir sua verdadeira condição, que não é a alternativa vida ou morte, mas uma totalidade: vida e morte num único instante de incandescência"

"O ato de escrever poemas se oferece ao nosso olhar como um nó de forças contrárias, no qual a nossa voz e a outra voz se enlaçam e se confundem. As fronteiras ficam imprecisas: nosso discurso se transforma insensivelmente em algo que não podemos dominar totalmente; e nosso eu dá lugar a um pronome inominado, que tampouco é inteiramente um tu ou um ele. Nessa ambiguidade consiste o mistério da inspiração"

"A palavra poética jamais é completamente deste mundo: sempre nos leva além, a outras terras, a outros céus, a outras verdades. A poesia parece escapar à lei da gravidade da história porque sua palavra nunca é inteiramente histórica. A imagem nunca quer dizer isto ou aquilo. E antes o contrário, como se viu: a imagem diz isto e aquilo ao mesmo tempo. E até: isto é aquilo"

"A vida é um sonho e os homens, fantasmas desse sonho"

"O poeta limpa de erros os livros sagrados e escreve inocência onde se lia pecado, liberdade onde estava escrito autoridade, instante onde se gravara eternidade"

" O desaparecimento da imagem do mundo ampliou a imagem do poeta: a verdadeira realidade não estava fora, e sim dentro, na sua cabeça ou no seu coração"

*Octavio Paz
1914 - 1998

terça-feira, 22 de janeiro de 2013

O Silêncio e os Agendamentos*

Querido leitor, que você esteja bem e em paz! Hoje vamos refletir sobre um tema corriqueiro em nossos dias e na Filosofia Clínica, que são os agendamentos.

E inicio fazendo um deslocamento longo, vou lá nos idos de 1970 quando ainda estava no ensino primário. Trago a apresentação de uma professora substituta que iniciou dizendo que nós poderíamos chama-la de Dona Maria de Fátima Coral, e “coral”, frisava ela, é nome de cobra braba. “Ah, o que vou ensinar é matemática pra vocês durante toda esta semana”.

Com seu jeito sutil de cobra coral, ela ainda disse que depois dos ensinamentos, faria algumas perguntas e “quando eu faço uma pergunta eu exijo uma resposta”. Não me recordo direito, mas me parece que foi nesse dia uma colega, a Maria do Carmo, urinou-se, provavelmente de medo. Naquela semana foi o recorde de ausências por doença na sala.

Aquela frase da professora de que “quando eu faço uma pergunta eu exijo uma resposta” ficou em minha mente como uma verdade a não ser questionada até há poucos anos atrás. Simplesmente estava ali agendada e funcionava como uma baliza nas minhas conversas.

Provavelmente, nestes meus quase 50 anos de existência, as minhas respostas para algumas perguntas obedeciam a este agendamento. Sempre tinha que responder, sempre! Quantas vezes a resposta ideal era o silêncio, mas não consegui permanecer quieto devido essa imposição que eu acreditava ser um ensinamento verdadeiro. Podia ser verdade para aquele ambiente escolar, para a professora, mas não para a vida. Hoje ainda tenho observado atitudes de algumas pessoas dando resposta, me parecendo que a sociedade nos obriga a responder todas as perguntas e a reagir a todos os ataques.

Queridos leitores, o tempo e os sábios têm nos ensinado que não precisamos responder a todas as perguntas e muito menos a reagir a calúnias, fofocas, provocações. Silêncio, ah o silêncio. Rubens Alves diz: “Só fale se a tua fala for melhorar o silêncio”. Que coisa não?

Às vezes recebo mensagens e simplesmente não respondo e o emitente algumas vezes me xinga com outro e-mail por não ter respondido, porém, o silêncio é a resposta. Quem me conhece sabe que meu silêncio fala muito. Muitas vezes a minha melhor conselheira é a dúvida e quando tenho dúvidas a resposta é “Não sei”, como nos ensinou o Filósofo Sócrates, “só sei que nada sei de tudo quanto sei”. Eis a resposta.

E finalizo com Xenócrates da Calcedonia, outro filósofo grego que viveu de 396 a 314 a.C.: “Arrependo-me de coisas que disse, mas nunca do silêncio”.

É assim como o mundo me parece hoje. E você tem resposta para este artigo?

Beto Colombo
Empresário, escritor, filósofo clínico, coordenador da filosofia clínica na UNESC
Criciúma/SC

segunda-feira, 21 de janeiro de 2013

"CADA UM SABE A DOR E A DELICIA DE SER O QUE É"*

As pessoas curtem o que quiserem curtir,estou de cara com essas mensagens que rolam por ai querendo impor as pessoas comportamentos, éticas, estéticas e moralismos massificadores. Essa é uma rede social, não uma rede de obrigações sociais e de especulação moral ou financeira, apesar de dar espaço pra isso a base fundadora do face está na ideia do encontro e da partilha.

Se você acha que tudo tem quem ser do modo que idealiza, voltado pra divulgar sua empresa seu trabalho suas concepções éticas , morais e recheado de ações culturais então crie seu próprio grupo de interesses, e não julgue as pessoas por aquilo que elas curtem ou não, a vida por si só já é uma grande batalha.

O facebook da espaço para formação de grupos sociais, paginas pessoais e paginas profissionais, aqui já foram feitas campanhas humanitárias de grande porte,até grandes revoluções como a Primavera Árabe, lembram? Basta você saber usar a ferramenta. Não esqueça que esta nasceu da vontade de alguns adolescentes de facilitar o contato com outras pessoas da mesma faculdade, ela evoluiu e hoje você pode fazer contato com grupos de interesse comum, com pessoas, empresas e sociedades, mas a pagina pessoal é de cada um e quem não gosta pode desmarcar, bloquear, ignorar ...

Outra, o dia a dia da maioria das pessoas não é feito de grandes movimentos ou feitos, e sim de simplicidade, rotina, trabalho, contas, cuidados, respeito mutuo, compaixão e muita vontade de vida, o que não significa que estão longe de suas paixões .. Por aqui podemos fazer um exercício e tanto , como os em direção aos verdadeiros valores,para exercitar nosso melhor ,acompanhar amigos, estar ligado nos movimentos das pessoas que nos interessam , que nos inspiram , aprender a respeitar o espaços do outro ver como cada um consegue tornar suas pequenas coisas melhores, mais coloridas e divertidas até mesmo não fazer nada ,brincar e rir de besteiras para desopilar o stress do dia a dia.

Também podemos ver como boas intercessões acontecem e junto a elas aprender a nos relacionarmos melhor com tudo a nossa volta com bons contatos e boas trocas ,dicas e novidades,.Freud uma vez disse "Nos formamos conforme nossas identificações" então posso buscar minha identidade de varias maneiras e esta é apenas uma centelha no vasto universo de possibilidades...

Fico muito chateada quando me deparo com mensagens de moral do tipo " quecas furadas". Particularmente conheço pessoalmente mais de 300 pessoas aqui e não vejo muita distancia daquilo que elas são na realidade do que mostram aqui, é obvio que por mais que tentem não conseguem mostrar mais do que uma pequena porção do que são , mais o que mostram esta nelas de uma forma ou de outra. Se seu olhar for atento e humilde, ira encontrar irreverencia, genialidade, simplicidade,cumplicidades, timidez, coragem, complacência, inveja, medo, carência, compaixão,desprezo, alegria, tristeza, criatividade, união, amor, amizade.. , bem como também pode encontrar maldade e perversão.

Tudo que ha de mais concreto fora daqui da noticias por aqui com a diferença que fora daqui temos menos possibilidades de proteção e defesa. Penso que nossa especie só se mantem porque o bem triunfa pela empatia.Aqui ficam nossos registros la fora a nossa vida, aqui um instante la fora múltiplas possibilidade ,aqui um mundo de abstrações la fora um universo sensorial , aqui uma passagem la um existir.

*Alba Regina Bonotto
Psicóloga, filósofa clínica
Curitiba/PR

quinta-feira, 17 de janeiro de 2013

Fragmentos filosóficos delirantes XCXXXX*

Um viciado em Facebook me segredou, não segredou de fato, mas gabou-se para mim de que havia feito 500 amigos em um dia. Minha resposta foi que eu tenho 86 anos mas não tenho 500 amigos. Eu não consegui isso. Então, provavelmente quando ele diz amigo, e eu digo amigo, não queremos dizer a mesma coisa. São coisas diferentes.

Quando eu era jovem, nunca tive o conceito de redes. Eu tinha o conceito de laços humanos, de comunidades. Esse tipo de coisa, mas não redes. Qual é a diferença entre comunidade e rede? A comunidade precede você. Você nasce numa comunidade. Por outro lado, temos uma rede.

E o que é uma rede? Ao contrário da comunidade a rede é feita e mantida viva por duas atividades diferentes: uma é conectar e a outra é desconectar. E eu acho que a atratividade do novo tipo de amizade do Facebook, como eu a chamo, está exatamente aí. Que é tão fácil de desconectar. É facil conectar, fazer amigos, mas o maior atrativo é desconectar. Imagine que o que você tem não são amigos on line, conexões on line, compartilhamento on line, mas conexões off line.

Conexões de verdade, frente a frente, corpo a corpo, olho no olho. Então romper relações é sempre um evento muito traumático. Você tem que encontrar desculpas, você tem que explicar, você tem que mentir com frequência e, mesmo assim, você não se sente seguro porque seu parceiro diz que você não tem direitos, que você é um porco, etc.

É difícil mas, na internet, é tão fácil. Você só pressiona delete e pronto. Em vez de 500 amigos você terá 499. Mas isso será apenas temporário porque amanhã você terá outros 500, e isso mina os laços humanos. Os laços humanos são uma mistura de benção e maldição. Benção é realmente muito prazeroso, muito satisfatório ter outro parceiro em quem confiar e fazer algo por ele ou ela. É um tipo de experiência indisponível para a amizade no Facebook; então é uma benção.

E eu acho que muitos jovens não têm nem mesmo consciência do que eles perderam porque eles nunca vivenciaram esse tipo de situação. Por outro lado há a maldição. Quando você entra no laço, você espera ficar lá para sempre. Você jura, você faz um juramento: até que a morte nos separe, para sempre. O que isso significa? Significa que você empenha o seu futuro.

Talvez amanhã ou no mês que vem haja novas oportunidades. Agora, você não consegue prevê-las. E você não será capaz de pegar essas oportunidades, porque você ficará preso aos seus antigos compromissos, às suas antigas obrigações.
Então é uma situação muito ambivalente e, consequentemente, um fenômeno curioso dessa pessoa solitária numa multidão de solitários. Estamos todos numa solidão e numa multidão ao mesmo tempo.

*Zygmunt Bauman

quarta-feira, 16 de janeiro de 2013

Poética clandestina*

“A alquimia do verbo é um delírio”
Arthur Rimbaud
1854-1891

Uma profecia de caráter excepcional recai sobre alguns escolhidos, parecem surgir de uma cepa rara, sujeitos a descrever a saga do personagem marginal. Estruturados para surgir como transgressão continuada, ser iconoclastas e seus contrários, quase ao mesmo tempo, desconstroem a certeza de uma só verdade para todas as coisas.

A atitude inesperada de toda razão oferece a perspectiva plural na forma de poesia, filosofia, arte, subversão estética ao mundo instituído. No caso da inquietude filosófica, antes de virar técnica acadêmica, é a concepção do eu como outros que retorna na inspiração libertária dos movimentos da irreflexão.

Um cavalheiro andante em busca de sua tribo encontra Adão e Eva no paraíso da singularidade. A palavra realiza uma poética das ruas. Seu caráter de profanação reivindica rituais de iniciados. Os enredos do mundo novo percorrem as dialéticas do imprevisível. Visionários incompreendidos possuem a rara aptidão de conceder sabor de vida real aos delírios de invenção.

Os apontamentos do devaneio se iniciam em um não-saber. Abertura de alma em íntima interseção com os deslizes do cotidiano. Repercussão dos achados a tecer caricaturas recém-chegadas dos percalços da vida normal. Alguns segredos escolhem o silêncio desmerecido para acenar suas versões.

Aproximação das margens com a reinvenção das águas. Essa linguagem surge como refém dos endereços existenciais por onde o autor transita. Em cada página um continente virgem insinua sua geografia ao leitor das suas possibilidades. Ao integrar invisibilidades, a alquimia de viver sem intermediários se faz hermenêutica das incompletudes. Seu querer dizer aprecia abrigar múltiplos sentidos. A investigação procura os rastros desse estranho a percorrer suas lacunas.

Aos rascunhos das entrelinhas restaria á condenação à fogueira dos versos malditos, não fora a curiosidade pesquisadora a resgatar os traços de originalidade ao seu redor. Sujeitos inconformados a rotina da intenção domesticada, se associam como cúmplices do instante criativo. Articulam o encontro do absurdo com a raridade de sua tradução. Anotações preliminares em busca dos heróis dessa poética clandestina.

*Hélio Strassburger

segunda-feira, 14 de janeiro de 2013

SANTOS E PECADORES*

“Todo homem vale mais que seu erro”. Li esta frase e pensei em escrever sobre os errantes, mas não com aquele olhar que enaltece o homem que erra na tentativa de descobrir algo ou acertar. Também não pretendo analisar crimes ou outros atos bestiais.

Quero falar do outro lado do erro, daquelas pessoas que sem qualificação nem designação para a função, colocam-se no lugar de juízes, criticam e decidem o que é moralmente correto ou incorreto. Levam em conta suas verdades, aquilo que aprenderam ou lhes é conveniente no momento para condenar o suposto erro do outro. Acham-se donos da verdade, santos, castos, honestos, mas nem sempre fazem aquilo que pregam, tampouco reconhecem os próprios erros.

Imaginem uma mulher que no início do século XX, teve a ousadia de se divorciar, realizando aquilo que muitas secretamente desejavam. Algumas mais destemidas chegavam até mesmo a planejar a própria morte ou a dos maridos como solução de seus casamentos infelizes. Por que motivo esta divorciada era segregada da sociedade como se tivesse uma doença contagiosa? Qual o seu crime? Quem julgava e condenava esta mulher? Arrisco dizer que os carrascos eram seus vizinhos, parentes e amigos.

A educação judaico-cristã ensina que o pecado acontece por atos ou pensamentos. A simples vontade de se separar, a intenção do divórcio, o pensamento no assassinato ou suicídio, já configuram o pecado e induzem à culpa, mesmo sem efetivação do ato. Se outra pessoa tiver a coragem de cometer aquele “pecado” que imaginei, jogo minha culpa em cima dela e deixo que as convenções sociais se encarreguem do resto. Errar é humano, colocar a culpa no outro é mais humano ainda.

Não estou julgando este tipo de pessoas. Elas também têm o direito de errar e valem mais que seus erros. No livro “Mil e uma noites” há uma passagem falando que Deus colocou juízes no mundo para julgar apenas as aparências. Somente ele é quem julgara as intenções e sentimentos, pois os fez invisíveis para ter exclusividade neste processo.

Todos têm o potencial de mentir, trair, roubar, pecar em seus genes. Existe uma batalha constante entre hipocrisia e moralidade, amor e luxúria, crueldade e compaixão, modéstia e arrogância, honestidade e mentira, preconceito e tolerância. Do ponto de vista evolutivo, o melhor que a mente humana consegue fazer é tentar se equilibrar para sobreviver às tentações de ambiente e contexto. Nosso comportamento é o produto destas forças conflitantes em nossa mente, que é falha, sujeita a armadilhas, capaz de muita contradição e todo o tipo de truques. Quem de nós já não amou errado, odiou errado, julgou errado?

A palavra caráter advém do grego, e se refere às marcas indestrutíveis impressas nas moedas para identificá-las. O caráter seria a moeda que utilizamos para julgar as pessoas e definir quem é bom, quem vale a pena, quem merece, quem será poupado. Aquele que um dia qualificamos como mau caráter, depois pode fazer o bem várias vezes e dificilmente nossa opinião mudará. Será que o contrário, ou seja, apenas uma única falha moral pode nos dar o direito de macular o caráter de uma pessoa para sempre? Quantas vezes confundimos ousadia com erro ou falha moral? A história está repleta de mártires condenados apenas porque ousaram. O simples fato de pensar diferente da maioria já isolou milhares em manicômios.

Certo e errado são apenas modos diferentes de entender nossa relação com os outros. Santos e pecadores estão afastados por uma linha muito tênue. Quem somos nós para delimitar esta transição?

O mundo mudou, estamos em pleno século XXI e cada vez mais é o sentimento, em detrimento da moralidade, quem mantém ou desfaz relacionamentos Não é preciso mais casar para morar junto. Também não é obrigação se manter casado quando o amor termina. Muitos casais, mesmo se amando, separam-se. Alguns destes reconciliam-se um tempo depois. Melhor se abster e não fazer nenhum julgamento. Quando se trata de amor, nem sempre a lógica é respeitada. Julgar sentimentos alheios é muito complicado. O casal está feliz? Prejudicaram alguém? Então liga a música e segue o baile.

Julgamento e justiça são situações completamente diferentes. O mundo precisa de menos julgamentos e mais amor. Aquele que julga o outro, não tem tempo para amá-lo. Torço para que alcancemos logo o dia em que tenhamos uma vida tão cheia de amor, que os julgamentos e tribunais, nos moldes como os conhecemos hoje, tornar-se-ão completamente desnecessários. Afinal de contas, muitos tomaram a forma de pecador para que outros pudessem se tornar santos, entretanto, “alguns elevam-se pelo pecado, outros caem pela virtude” - William Shakespeare

* Ildo Meyer
Médico, escritor, filósofo clínico
Porto Alegre/RS

domingo, 13 de janeiro de 2013

Escrituras, desleituras, releituras II*

" Enquanto detivermos os olhos nos países de cultura mais avançada e adotarmos critérios de beleza em moda neles para adaptá-los aos nossos, nossa arte será um pueril arremedo, sem força para subsistir mais que o período de duração dessa moda"

"(...) a literatura no Brasil é mero diletantismo, a que só por irresistível pendor natural se entregam sonhadores, os quais mais naturalmente propendem para o verso, propício aos sonhos e fantasias, que para a prosa, mais amiga das realidades"

"(...) e fez da sua vida a sua grande obra d´arte"

" (...) mas para eu te dar a minha atenção e o meu apoio é necessário que me dês tu´alma inteira transubstanciada em obras de vulto como as quero. Constrói-me com isso, por exemplo, o romance de São Paulo, o romance das ruas que esfervilham burburinhantes, como caudal de sonhos, ambições, vaidades, sofrimentos, a defluir para o sorvedouro do grande Nada.."

"Que chamamos nós um poeta ? A criatura que possui um mundo interior e que consegue fazê-lo entrever por meio de imagens tomadas ao mundo externo. Sem possuir o seu mundo interior de sonhos e de beleza poderá fazer versos, lindos versos, poemas, sonetos, éclogas, odes, o que for, mas não será poeta"

"Não tiremos ao leitor o gosto do imprevisto. Não procuremos fixar em logicismos claros, analíticos, o que é de essência sonho e beleza. Leiam-no, os que não se contentam com o prosaísmo da vida e adoram os revoos pelos mundos interiores. Os outros, deixem-no em paz"

"Queixam-se de que não temos literatura. Queixam-se de que o pouco que temos não é conhecido nem estimado como deveria ser. E as razões são óbvias. Não temos tido editores que ponham os livros ao alcance do povo, em edições baratas, isto é, de preço razoável e justo"

"O prazer mental, porém, perfuma-nos o cérebro, irisa-o, e reconcilia-nos com a vida. Ora, é Machado de Assis o maior mestre que temos na arte sutilíssima de nos proporcionar ao espírito este prazer dos deuses. Lê-lo é arejarmos o cérebro, como se abríssemos uma janela para um jardim de Armida"

*Monteiro Lobato
1882-1948

sábado, 12 de janeiro de 2013

O ser: consideração inicial*

Desde Parmênides a filosofia ficou conhecida como aquela que busca o ser. O ser foi um conceito abstrato elaborado pelo homem para referir-se à totalidade. Entretanto, a abstração não significa destituição ou afastamento da concretude da vida. “Abstrato significa elaborado pelo espírito a partir da experiência.”[i]

O filósofo é aquele que, antes de tudo, vive. Nessa vivência reconhece que há um conhecer caracterizado por um saber prático. Ou seja, o homem vive na ocupação (prática) de seus afazeres deparando-se constantemente com os entes em seu sentido individualizado: ferramentas, objetos, carros, pessoas, etc. Entretanto, há um elemento que impulsiona o homem a encontrar uma unidade de significado da realidade. Um desses impulsos é o caráter de indigência próprio do homem, que se vê na iminência de formar sua identidade a partir do que lhe é externo, ou do que não é o si próprio.

Nessa busca, reconhece que há um fundamento que possibilita a relação de si com as coisas individuais, mas que não é alcançado em sua totalidade. “Tudo vive de um fundamento que se retrai ao poder dos entes concretos e individuados.”[ii] Há em toda vivência humana algo diante do qual se depara e que constitui sua identidade sem que, em suma, lhe seja próprio. Um exemplo pode ser a questão da alegria:

“O coração é alegre se colocou na correspondência da alegria, i. é, de um fundamento que não pertence ao coração. Viver alegremente é dialogar com o que não é meu nem seu: a alegria. A alegria está em nós como visita, emergindo de uma profundidade, cujo acesso se esquiva ao nosso poder.”[iii]

Assim como a alegria – caso exposto elucidativamente – toda a vivência humana é marcada pela relação com os entes que vemos. Entretanto, para o filósofo essas relações cotidianas que em si já obnubilam o ser que as precede e que para ele deve ser buscado. Embora seja algo de difícil acesso e compreensão: “O objeto próprio da filosofia é o ser enquanto ser, é a estranha profundidade nunca diretamente acessível, irredutível ao ente que vemos, tocamos e manipulamos.”[iv] Desse modo, portanto: “Filosofar é tomar consciência da profundidade em que está colocado o ser que vivemos, é instaurar um diálogo permanente com o que não é nosso, i. é, com o ser.”[v]

Enquanto históricos, os homens elaboram compreensões do ser de acordo com seu contexto. Não há, portanto, compreensão pura do que seja o ser, inclusive ele não é acessado de modo absoluto. Daí as múltiplas nomenclaturas recebidas ao longo da história:

“Quando, pois, Chuang-Tzu vê o universo como alegria, Platão como ideia, Aristóteles como ousia, Descartes como cogito, Bergson como élan vital, Francisco de Assis como dom que convida o espírito à louvação, o grego como espetáculo que convoca o homem à admiração, todos eles dizem o vigor velado que os sustentava nas peripécias de seu destino histórico.”[vi]

Assim, o homem cuja condição de possibilidade é dada pelo ser, historicamente segue o caminho individual e/ou comunitário iluminado por essa fonte que o permite seguir de modo contingencial por algo que não cessa: o próprio ser.

Bibliografia:

Resenha: BUZZI, Arcângelo R. Introdução ao pensar: o ser, o conhecer, a linguagem. Petrópolis: Vozes, 1973, pp. 17-20.

[i] BUZZI, Arcângelo R. Introdução ao pensar, 1973, p. 17.
[ii] BUZZI, Arcângelo R. Introdução ao pensar, 1973, p. 18.
[iii] BUZZI, Arcângelo R. Introdução ao pensar, 1973, p. 18.
[iv] BUZZI, Arcângelo R. Introdução ao pensar, 1973, p. 19.
[v] BUZZI, Arcângelo R. Introdução ao pensar, 1973, p. 19.
[vi] BUZZI, Arcângelo R. Introdução ao pensar, 1973, p. 19.

*Miguel Angelo Caruzo
Filósofo Clínico
Juiz de Fora/MG

sexta-feira, 11 de janeiro de 2013

Vale quanto pesa*

Quanto vale o seu prazer? E o que te dá prazer? Já sei. O poder te dá prazer. Não? Você nem sabe o que é o poder? Você tem um poder?

Todos nós temos algum poder, depende do quanto e como o sabemos. Para mim, depende também do quanto precisamos representá-lo para o mundo.

Ok, novamente a pergunta: Quanto vale o seu prazer?

O meu prazer vale uma gargalhada, um suspiro profundo, a beleza de um olhar verdadeiro, uma acomodação da alma, um pulsar cardíaco além do natural, um aperto no ventre imoral. Vale alguém me pedir o meu sorriso mais aberto e gostoso, vale minhas lágrimas de alegria e a minha certeza em pensar que naquele momento eu morreria feliz.

O meu prazer vale a minha casa em paz e o meu direito de ir e vir resguardado. Vale eu me reconhecer como uma pessoa boa e justa, ainda que defenda o meu ponto de vista sobre Deus e o mundo.

O meu prazer vale me dedicar ao homem que eu amo sem me preocupar se aos olhos do mundo, sou menos alguma coisa que a convenção mundana exige que eu seja.

Mas este é o meu prazer e a moeda que o paga pode ser muito mais valiosa que o dinheiro do mundo e ele pode valer muito mais do que alguém possa pagar. E este é também o meu poder e é a forma como eu o represento para o mundo.

Depois de vivê-lo e me fortalecer nele fico insuportavelmente poderosa. Sou só sorriso e minha criatividade brota do ar. Isso, para mim, é simples e, na maioria das vezes, pouco me importa mostrá-lo ao mundo.

E o seu prazer, quanto vale? Como você pode senti-lo e mostrá-lo ao mundo?

Quanto você pagaria por um gozo, por uma expressão de felicidade, por uma manifestação de amor e de alegria?

Então você é poderoso mesmo? Compra todo o prazer que quer sentir?

É este movimento, a meu ver, que vem tirando das pessoas, hoje em dia, de uma forma mais voraz as possibilidades de sentir o prazer em plenitude. O prazer comprado costuma ser rápido, oco, incompreensível e some da memória na mesma velocidade em que apareceu. Não abastece e você tem, de troco, a solidão.

Não estou falando da compra do sexo com um profissional. Estou falando de ostentar um ser que você não é para impressionar, demonstrando um poder que você nem tem, para atrair alguém que vai te dar fumacinhas de uma satisfação que não vai convencer nem a você, nem a ninguém. E olha você aí, de cara com a solidão novamente. Nem você mesmo está do seu lado. Aliás, estar a sós com você chega a ser dolorido, não é mesmo?

Ah, entendi! Você nem está sozinha? Você tem alguém? Então você é legal mesmo? Boazinha, carinhosinha, amiga? Não contesta nada, aceita qualquer condição. E quanto isso te custa? Quanto custa abnegar de suas feras para mostrar ao mundo que vive uma condição? Custaria, por exemplo, o seu prazer?

Você abriria mão de sua profissão, de sua vocação, de sua independência? Abriria mão de sua opinião sobre o mundo e as pessoas que rodeiam a sua relação amorosa para tentar viver em prazer com o homem que ama? E você teria prazer assim?

Abriria mão de conduzir a sua casa e os seus filhos, da maneira que acha certo, tendo que seguir um modelo de família no qual você nem acredita, instituído pelo seu parceiro, no que ele traz na bagagem como certo, para aparentar viver em prazer?

E para mostrar a você mesma que é feliz, que é amada e que tem prazer. Já encontrou uma moeda que pague isto, que faça isto acontecer? Você, com você mesma, assim: cara a cara? Você tem este poder? Você pagaria por isto?

Quanto vale o seu prazer? O que é prazer para você?

Feliz Ano Novo!

*Jussara Hadadd
Filósofa Clínica
Juiz de Fora/MG

quarta-feira, 9 de janeiro de 2013

Forças que movem mundos*

“A mente que se abre a uma nova ideia jamais voltará ao seu tamanho original"
(Albert Einstein)

O mundo é movido por forças... provavelmente por infinitas forças pulverizadas a partir das vontades de todos que habitam seus próprios mundos. São forças passíveis de vencer inércias, sejam físicas ou existenciais. E que impulsionam a espiral existencial em direção ao desconhecido, na sua tortuosa trilha rumo ao limite que a espera.

Teoricamente, até agora foram determinadas apenas quatro forças fundamentais, que ditam a coerência e a coesão do que percebemos e de como entendemos a realidade que experimentamos.

A força gravitacional, aquela da maçã, é a que nos confere peso e nos mantém conectados ao planeta; a que não permite que a Lua caia sobre a Terra e a que impede o Universo de se estatelar sobre si mesmo. A questão é saber até que ponto estamos realmente atados a esta condição intrínseca à existência. A gravidade é apenas um atributo físico, ainda que necessário às contingências cotidianas e inevitáveis... mas o fato é que talvez não estejamos realmente presos ao nosso restrito mundo! Ao sentar embaixo de uma frondosa árvore, à espera do fruto proibido, podemos sentir a intensidade de sua queda ou experimentar a revelação de outras forças e verdades.

Atire a primeira pedra quem realmente acredita que estamos todos fadados a permanecer com os pés no chão... se assim fosse, não haveria sonhos – Shakespeare já nos alertou que nossa matéria é dessa mesma estranha natureza –devaneios, delírios e loucuras.... Exprimimos o que somos a partir do que sonhamos e intuímos. Existencialmente não estaríamos – nenhum de nós – aqui se não fizéssemos valer as loucuras e os trabalhos em nome do que acreditamos.

A gravidade apenas nos segura tempo suficiente para processarmos a vida. E ela cumpre seu papel: mantém a coesão da matéria para que o espírito divague, pense e percorra distâncias improváveis, para depois retornar ao casulo e cuidar para que o mundo ainda respire e permaneça sonhando. A verdade é que para os poetas a Lua já nos invadiu muitas vezes e o Universo está ao alcance dos que imaginam e viajam... dos que se sabem capazes de extrair limites de suas próprias fronteiras.

A força eletromagnética, responsável pela atração e repulsão entre corpos, nos aproxima (ou nos repele) também dos deuses e demônios que habitam em nós. É ela que nos força a sair em busca de opostos... mas que ninguém se engane, pois esta força ainda desconhece potencialidades de existir. Ela não sabe que nossa carga pessoal, refletida nas vivências, muitas vezes nos leva a querer não somente os opostos, mas igualmente o que nos é semelhante por afinidade, por sentimentos ou apenas para que haja completude. Ela não só permite a dança boreal que transforma seres em tudo que for preciso transformar para salvar realidades e divindades, como nos eleva ao Olimpo e nos instiga a portar o cetro de Zeus, expandindo raios e controlando emoções.

A força forte mantém a coesão e atua no núcleo, une prótons e nêutrons, de onde tudo emerge e nos incita ao confronto entre as essências primordiais, nos vazios sublimes da existência, onde as grandes distâncias se manifestam, ao mesmo tempo em que não são percebidas. Esta força não permite dispersão e, assim, integra o que somos, a partir da constituição mais básica, para alimentarmos as estrelas com a energia libertada das reações nucleares, as mesmas que, essencialmente, alimentam nossos sonhos.

A interação fraca é responsável por fenômenos radioativos de decaimento. Ela induz algumas substâncias a se tornarem instáveis. Mas no fundo, o que não decai eventualmente? Quantos de nós mesmos não nos desgarramos em nossos rastros existenciais? E quem sabe se o que ficou para trás não seria fundamental para compor horizontes outros que acabamos por não saber como seriam. Mas são forças fracas, curtas, breves... talvez possam ser existencialmente relevadas... talvez não sejam significativas, afinal.

Eventos inesperados podem catalisar outras forças – talvez mais importantes – forças que movem mundos... e permitem reflexões que ultrapassam a função física de ser.

A reflexão conduz a lembranças que retrocedem ao casual encontro com uma habitante ilustre que relatou, emocionada e emblematicamente, sobre as dúvidas e dilemas e como se agarra, se equilibra, atrai, repele, decai, luta, se retrai, esmorece e se levanta em sua busca diária e constante. Busca por sonhos, lembranças, realizações, cuidados, alegrias, tristezas, dores, esperanças... e tantas outras mais.

Sobre sua necessidade de superar medos e angariar meios outros na tentativa perene de ser melhor para si mesma, para os seus e para quem puder alcançar. Sobre a percepção do amor incrível que sentiu quando foi preciso que esta força movimentasse partes de seu mundo. Reflexões sobre nossas vidas, que embarcam a caminho de algo, singularmente vivas.

E assim pode-se dar conta de tantas forças fundamentais: amor, solidariedade, carinho, saudade, paixão, determinação, fé... todas essenciais, em medidas às vezes não tão exatas para cada um, mas que incitam a permanecer neste mundo e vibrar sintonias capazes de gerar novos, além de inusitadas vidas. São forças que agregam, mas que também libertam. Para alguns são atrativas... para outros, repulsivas, mas invariavelmente cumprem seu papel na cadeia existencial.

Dedicado à Glória Belém!

*Luana Tavares
Filósofa Clínica
Niterói/RJ

terça-feira, 8 de janeiro de 2013

Rasuras a foto inesquecível*

O processo de reinvenção pessoal está vinculado à superação dos obstáculos de travessia. As etapas de antes ou depois costuma exigir menos. A interseção entre ideia e atitude será testada e pode não bastar. A escolha e ensaio dos procedimentos, além de um robusto autoconhecimento podem ser decisivos para concretizar buscas.

Um freio eficaz é a revisita ao velho álbum de fotografias. A escolha dos conselheiros, a idealização do que já passou. Olhar para trás, seguidamente e sem perspectiva agenda retrocessos, estanca transbordamentos, aprecia a sensação de protagonista em uma estória que não lhe pertence. À pessoa refém dessa lógica, ao querer matar a saudade, mata a vida passando.

Sim, existem pessoas que vivem bem onde estão. Não se sentem ameaçadas com a transformação ao seu redor. Existencialmente pacificadas, testemunham a movimentação alheia com certa tranquilidade.

Outra armadilha de transição é a impressão de que os outros acompanham sua mudança. Ao transgredir-se em roteiros de novidade é comum a percepção (enganosa) sobre o antigo endereço. O processo de crise costuma agravar esse estado de não pertencer a lugar algum. Como exilado de si mesmo, muitas vezes o que lhe resta é uma intencionalidade à deriva.

A liberdade costuma se perder de si mesma ao reviver o que busca superar. Exalta lógicas de conformação em gestos de vida resignada. Nessa mescla de ontem sem amanhã as memórias, protegidas pela distância, adquirem um relevo especial. Sua eficácia de sombra condena a pessoa ao vislumbre do que poderia ter sido. Em alguns casos, colocar uma distância entre fatos e recordações pode ser oxigênio, noutros sufocamento.

Existe uma reivindicação ao compositor da própria história: um tempo para as buscas deixarem a clandestinidade. Isso pode incluir a experiência de morte, intermediária entre nascimento e renascimento. É comum a reconciliação da pessoa com ela mesma ser posterior à dialética das idas e vindas.

Para aprender as razões da estrada é impreciso um tempo para viajar-se. Deixar a experimentação transgressora agir livremente, observar as tratativas da lucidez com o delírio, apreciar a reviravolta das interseções, refletir sobre a natureza dos horizontes desacreditados.

Ao sujeito capaz de perseguir-se em sonhos uma nova retórica se esboça: um equilibrista sem rede, sob as vaias da plateia, a compor sua poesia existencial.

*Hélio Strassburger

segunda-feira, 7 de janeiro de 2013

Renascer em Vida*

Queridos leitores, Pablo Neruda, poeta chileno, diz que “morre lentamente quem não lê, quem não viaja, quem não ouve música, quem não acha graça em si mesmo, quem destrói seu amor próprio, quem não se deixa ajudar...”

O mestre Jesus Cristo diz que “a semente tem que cair na terra, morrer para depois renascer”. Para mim, Ele estava falando dele mesmo, da sua paixão, de sua morte e, acredito, do nascimento do Cristianismo.

Algumas pessoas são como mortos vivos, apenas respiram, comem e caminham, mas não sabem eles que “estão mortos”. Não sentem mais o gosto da comida, da bebida, não gostam do canto dos pássaros, não percebem a beleza das flores, não sentem o perfume da rosa, da orquídea. A lua, as estrelas, o sol, a noite, o dia, o inverno, o verão não são mais percebidos. Atravessam uma praça de flores e borboletas e não percebem, estão apressados. Apressados para quê?

No que estamos nos transformando? Parece-me que estamos nos suicidando lentamente sem perceber.

Você gosta de você? Você gosta do que se transformou? Foi isso que sonhou para você? Quem escreveu o roteiro que você está vivendo? Foi sua esposa? Seu pai? Sua mãe? Seu marido? Sua professora? Seu professor? Para algumas pessoas não tem nada de errado nisso, mas se não é o seu caso, lembre-se: quebrar o roteiro não é quebrar a vida. O que precisamos matar em nós para nascer outra pessoa?

É como diz Pablo Neruda, “morre lentamente quem não se deixa ajudar”. É humanamente impossível saber, conhecer tudo, e às vezes nossa arrogância, nosso orgulho, nos impede de buscar ajuda para sair da armadilha social que caímos. Quando tenho problemas com minhas pernas ou joelhos vou ao ortopedista. Se tenho problemas cardíacos vou num cardiologista e para doenças da alma também tem especialistas, a filosofia clínica é um caminho.

Lembre-se que não há planta sem a morte da semente, não há borboleta sem a morte da lagarta, o embrião sem o fim do óvulo. A pessoa que você sonhou é esta que você conhece quando está em solitude?

Você não gostou no que se transformou? Não se preocupe, você não está sentenciado a ficar pregado na cruz, procure ajuda, tem saída.

É assim como o mundo me parece hoje. E você, o que pensa sobre renascer em vida?

*Beto Colombo
Empresário, filósofo Clínico, coordenador da filosofia clínica na UNESC
Criciúma/SC

domingo, 6 de janeiro de 2013

Escrituras, desleituras, releituras I*

" Kafka, talvez sem o saber, sentiu que escrever é entregar-se ao incessante"

"A escrita automática tendia a suprimir as limitações, a suspender os intermediários,a rejeitar toda mediação, punha em contato a mão que escreve com algo de original"

"Quanto mais a inspiração é pura, mais aquele que penetra no espaço de sua atração, onde ele ouve o chamado mais próximo da origem, está despojado, como se a riqueza em que ele toca, essa superabundância da fonte, fosse também a extrema pobreza, fosse, sobretudo, a superabundância da recusa, fizesse dele o que não produz, o que vagueia no seio de uma ociosidade infinita"

"Para Kafka, a angústia, os contos inacabados, o tormento de uma vida perdida, de uma missão traída, cada dia convertido de que 'a metamorfose é ilegível, radicalmente fracassada'"

"A leitura do poema é o próprio poema, que se afirma obra na leitura, que, no espaço mantido aberto pelo leitor, dá nascimento à leitura que o acolhe, torna-se poder de ler, comunicação aberta entre o poder e a impossibilidade, entre o poder vinculado ao momento da leitura e a impossibilidade ligada ao momento da escrita"

"O escritor torna-se a intimidade nascente do leitor ainda infinitamente futuro"

"Pois esse movimento é também encorajado pela própria natureza da obra de arte, provém dessa profunda distância da obra em relação a si mesma, pela qual esta escapa sempre ao que é, parece definitivamente feita e, no entanto, inacabada, parece, na inquietação que a furta a toda a apreensão, tornar-se cúmplice das infinitas variações do devir"

"(...) é o artista. É o criador, diz-se. Criador de uma realidade nova, que abre no mundo um horizonte mais vasto, uma possibilidade de modo nenhum fechada mas tal que, pelo contrário, a realidade, sob todas as suas formas, encontra-se ampliada"

"Valéry diz muito bem que a mestria é o que permite nunca terminar o que se faz. Somente a mestria, o domínio do artesão se acaba no objeto que ele fabrica. A obra, para o artista, é sempre infinita, não finita, e daí o fato de que ela é, de que é absolutamente, esse evento singular desvenda-se como não pertencente à mestria da plena realização. É de uma outra ordem"

"O poema apaga-se diante do sagrado que denomina, é o silêncio que conduz à palavra o deus que fala nele - mas, sendo o divino indizível e sempre sem palavra, o poema, por causa do silêncio do deus que ele encerra na linguagem, é o que fala também como poema e o que se mostra, como obra, sem deixar de permanecer escondido"

"(...) abordagem do inapreensível (...)"

"(...) a arte, não imobilizada em suas realizações, mas recapturada nas metamorfoses que fazem das obras os momentos de uma duração própria e da arte o sentido sempre inacabado de um tal movimento"

"Leonardo da Vinci é um dos exemplos dessa paixão que quer elevar a obra à essência da arte e que, em última instância, só percebe em cada obra o momento insuficiente, o caminho de uma busca da qual também nós reconhecemos, nos quadros inacabados e como que abertos, a passagem que é agora a única obra essencial"

"O poeta está em exílio, está exilado da cidade, exilado das ocupações regulamentadas e das obrigações limitadas, do que é resultado, realidade apreensível, poder"

"Esse exílio que é o poema faz do poeta o errante, o sempre desgarrado, aquele que é privado da presença firme e da morada verdadeira"

"(...) designando essa região onde nada reside (...)"

"O poema é a ausência de resposta. O poeta é aquele que, pelo seu sacrifício, mantém em sua obra a questão aberta"

* Maurice Blanchot
1907 - 2003

sábado, 5 de janeiro de 2013

Filosofia: o ser, o conhecer, a linguagem*

A filosofia, conforme apresentado em Introdução ao pensar[i], é compreendida a partir de três elementos: o ser, o conhecer e a linguagem. Trata-se de instâncias que se complementam na experiência do filosofar. Sucintamente é necessário elucidá-los, sabendo que serão paulatinamente esclarecidos ao longo das reflexões que sucederão esta. Esses textos sucessivos são baseados no supracitado livro de Arcângelo Buzzi e são parte de um autoexercício de resenha, resumo e exposição de conteúdos alheios os quais nem sempre estarei de acordo.[ii]

Um conceito central e que serve de elo aos termos dessa reflexão é o pensar. “O homem é definido como ser que pensa ou animal que fala”[iii], ou seja, o pensamento e a fala, ou linguagem, são características marcadamente humanas. O homem que vive dentro do todo da realidade busca por meio do pensar expressar via linguagem essa realidade que se lhe desvela. Este é possível por meio dos entes, são por estes que há o acesso ao ser. O pensar e sua expressão pela fala resultam no que se denomina conhecimento. A filosofia é a que melhor revela essa realidade, pois:

“No conhecimento filosófico o pensamento ensaia uma radical compreensão da realidade. Pensar é pois filosofar. Filosofar não é ir para além, fora do real vivido. É um aproximar-se para mais perto do que se vive, é ir a sua raiz, é descobrir que aí lateja o espetáculo do ser. Filosofar é criar um mundo diferente, não fora, mas no concreto mundo de agora, desvelando-o precisamente como diferente, revelando-o no vigor latente, esquecido às vezes na faina da vida.”[iv]

O filósofo, portanto, se encontra dentro da realidade, vinculado à vida em íntima conexão com o todo e sua manifestação pelos entes que a desvelam, pensando-os e expressando por meio da linguagem. Desse modo, se dá o conhecimento filosófico. Assim, o filósofo não deve ser compreendido como aquele que se encontra à parte da realidade, observando-a de um lugar privilegiado. Pelo contrário: “O filósofo ambiciona colocar-se no centro do círculo da existência”.[v] Nesse círculo, elementos considerados opostos – bem e mal, afirmação e negação, etc. – são acessados pelo filósofo em vista de sua correspondência significativa, sua constituição e interconexão no todo.

Quando se expressa o exercer do filósofo vê-se que não há uma formulação prévia do que seja exatamente a filosofia. A razão disso é que somente é possível compreender a filosofia por meio do filosofar mesmo. Sua natureza é anterior a divisões (como foi supramencionado) inclusive a clássica divisão do âmbito teórico e prático. Filosofia, em sua origem etimológica se traduz por amor à sabedoria.

Entretanto, diferentemente das derivações teóricas do significado desse termo, o grego quando pronunciava philosophia já tinha a realidade a que queria se referir com o termo. Sabedoria deve ser compreendida no sentido do todo da realidade, o um. O “[...] um é a própria realidade, é sua identidade última presente e estranha ao pensamento”.[vi] Seu estranhamento é devido a sua não objetivação, daí a impossibilidade de ser abarcado pelo pensamento, sua imponderabilidade. “É o imponderável que dá ao pensamento a competência de ponderar o que acontece em síntese significativa”.[vii]

A filosofia, portanto, não é desligada da vida. O filosofar é o ato de buscar a significação íntima do ser, em vista de trazer a realidade ao conhecimento, em sua característica específica que é a interconexão de todos os entes e opostos em um todo. Assim sendo, ser e pensar como instâncias inerentes à vida, são visadas no filosofar em proveito do homem. Ao contrário da retratação da realidade (feita pelos demais âmbitos do saber) que visa objetivar para explicar, a filosofia busca pensar a conexão interna das coisas no todo que a constitui.[viii]

Uma vez que a filosofia é intrínseca a vida, o filósofo só o é na medida em que vive, participa da vida. Em comunidades camponesas (hoje raras) que não tem acesso, por exemplo, a uma balança, o peso é visto pelo sentir do produto pesando-o na mão. O costume e a vivência demonstram certa precisão nos resultados.

Por outro lado, uma balança, que representa essa mão que antes conferia o peso da mercadoria, já é um elemento mais distanciado do produto em sua relação com o manuseador do aparelho.

A diferença de ambos está na proximidade da vivência e relação do camponês, com o do utilizador do aparelho, neste houve um distanciamento que não se vê naquele. O mesmo pode ser visto na relação de um fazendeiro que vive de sua terra, e um corretor de imóveis que apreça a terra pela sua medida objetiva. É claro que se trata apenas de exemplos elucidativos. As questões são mais profundas.

O filósofo está mais próximo do camponês e do fazendeiro do que do medidor ou corretor. Sua pesquisa visa, como nesses casos, revelar o saber-ligado-à-coisa, voltado para o significado, em vista de exprimir a experiência mais originária que difere do conhecimento desligado dessas instâncias, mais funcionais e científicos.

Nessa esteira, a filosofia e a vida concreta não são se excluem, são intrínsecas. Mas, diferentemente de um fazendeiro ou camponês, o filósofo busca ver o que para eles a estrutura da própria vida se encarregou de velar. “A filosofia é apenas o tornar explícita a significação implicitamente vivida. É revelar a dinâmica da existência na qual o pensamento já está embalado”.[ix] E sua meta é acessar a radicalidade do que é vivido. Em síntese pode-se dizer que:

“Filosofar é pois um saber situar-se, em ver seu caminhar, um perceber o existir como solidariedade íntima do pensar e do ser e sua expressão em conceitos adequados, enunciados numa linguagem comunicativa.”[x]

*Miguel Angelo Caruzo
Filósofo Clínico
Juiz de Fora/MG
____________________
Bibliografia:

Resenha: BUZZI, Arcângelo R. Introdução ao pensar: o ser, o conhecer, a linguagem. Petrópolis: Vozes, 1973, pp. 05-11.
[i] BUZZI, Arcângelo R. Introdução ao pensar: o ser, o conhecer, a linguagem. Petrópolis: Vozes, 1973.
[ii] Inicio 2013 com o primeiro texto de uma sequência sobre filosofia, baseado no livro de Arcângelo Buzzi. Em princípio, todas as ideias expostas serão baseadas na exposição do autor. Não pretendo, nesse primeiro momento, me posicionar. Intento compartilhar com vocês as impressões sobre esse escrito que, para mim, é um excelente início no caminho filosófico. Na medida em que for necessário, posso expor minhas opiniões. Mas, acredito que tendo mais fazer um exercício de resenha expondo o conteúdo.
[iii] BUZZI, Arcângelo R. Introdução ao pensar, 1973, p. 05.
[iv] BUZZI, Arcângelo R. Introdução ao pensar, 1973, p. 05.
[v] BUZZI, Arcângelo R. Introdução ao pensar, 1973, p. 06.
[vi] BUZZI, Arcângelo R. Introdução ao pensar, 1973, p. 07.
[vii] BUZZI, Arcângelo R. Introdução ao pensar, 1973, p. 07.
[viii] “Imerge no âmago das coisas, mergulha no roldão da vida, vive a realidade por dentro, pensado-a em seu significado.” (BUZZI, Arcângelo R. Introdução ao pensar, 1973, p. 08).
[ix] BUZZI, Arcângelo R. Introdução ao pensar, 1973, p. 08.
[x] BUZZI, Arcângelo R. Introdução ao pensar, 1973, p. 11.

sexta-feira, 4 de janeiro de 2013

Íntimas entregas*

Os ipês rosa começam a entregar buquês aqui no cerrado.

No inverno também é possível se apaixonar, e apaixonar pelo mesmo, reapaixonar, sofrer por isso e tentar se reconstruir.

Nas entregas íntimas de falas inéditas, temos o outro em nossa mão, uma mão macia e paciente, que ainda é um carinho; as mãos que são os ouvidos do terapeuta, em seu cotidiano missionário, brincado por encontros de magnificência emocional.

Enriquecem nosso pensamento letrado com a premência de entendimento sobre suas estratégias de vida, os motivos escusos, indiretos, as raízes dos comportamentos e dos gostos à primeira vista incompreensíveis e revividos a partir de óleos essenciais, peças de roupa, flores secas e texturas coloridas.

E aparece a fala rebelde: quem quer livros que andam? Pessoas há muito substantivas, há as ativas, as interjeitivas. Mas muito nos assustam mesmo os seres adjetivos, para além da teoria, e vice-versa. A vida sensível, na nossa semana de compromissos e contatos, é muito sutil. Adaptar nossa biblioteca a ela é desafio de sair de si, participar e se entregar para o próprio risco de viver.

Para compartilhar é preciso não só ir ao mundo do outro, mas saber como ele é vivido na pele dele mesmo, com seu paladar, seus valores, seu esmalte, seu cardápio, suas aventuras, suas árvores, seus bichos.

De profissional inserido no mundo a uma pessoa melhor, meta para criar filhos; criamo-nos. E isso pode ser de uma beleza tão grande, se alçarmos os braços aos ares, nos lançarmos do alto da montanha acreditando. “I believe I can fly”.

Planar sobre a cidade e entre os monumentos e aterrar verticalmente, com cuidado, nos territórios que escolhemos para nos espalhar como hera recobrindo de fofo verde, e não de cimento, superfícies elaboradas em séculos, amalgamadas em emoção e sentimento, desilusões e arroubos, haja vista a biografia de nossos heróis pensadores.

Sofreguidão e entusiasmo nos olhos. Deixar de se espantar com a vida é deixar de ser filósofo. A passividade analítica não nos serve, senão para rotular a diferença.

*Vânia Dantas
Filósofa Clínica
Brasília/DF

quinta-feira, 3 de janeiro de 2013

Certezas...*

Já sei que realmente nada sei aqui nessa estranha terra.
Descobri que o ser humano mais possível pode se tornar um ser improvável do dia para a noite!
De repente, me olho no espelho e com muitas certezas, me estranho!
Tento decifrar-me a todo momento, sinto de que matéria-prima sou feita, vou tateando-me vagarosamente e aí...
Susto! De não saber direito quem é essa que se reflete.
Será que é uma estrangeira? Será que é uma habitante de outras terras menos errantes? Não sei não!
Olho pro lado e encontro um outro alguém,
viajo, penso se durmo ou se desperta estou...
Olho novamente...
Então, eis que de uma hora para outra sinto-me diferente, meio contente, meio nada, e muitas vezes meio tudo.
Saio para caminhar no jardim, sinto o vento soprar dentre meus longos cabelos, bocejo com vontade de engolir o mundo, uma, duas, três vezes.
A razão não me deixa flutuar.
Tento buscar na memória a sensação de anestesia. Lembro-me dos beijos e dos abraços arrepiados e amados, lembro-me da expressão do meu olhar, lembro-me do cheiro, lembro-me de tudo, entretanto a anestesia ficou lá, naquele momento.
Só lamento;
dor forte no centro do peito.
Nada pode curar esse agora tão real.
Penso em fazer uma prece para os orixás, mas desanimo em seguida seguindo a preguiça de aqui estar.
Que sensação estranha...
Queria poder sonhar!
Olho pela janela e percebo o céu em sua grande imensidão, estrelas a cintilar, por ela vem um alívio repentino e lembro-me daquela moça do espelho!
Aquela que eu estava a estranhar.
Descubro que dentro dela há muito o que se encontrar; castelos feitos de areia do mar, pois, ela é filha de Yemanjá. Nuvens cheias de fadas, visto que ela ama a magia. Cavernas secretas enfeitadas só de poesias... E um amor para amar!
As certezas de nada saber estão mais intensas ainda, mas isso já nem importa. A vida é mais, muito mais. A vida é alegria e o seu contrário! Ás vezes é pura ironia, porém é essa a tal vida.
Não fui eu quem a inventou. Suspeito de um grande "SER", mas, de certo, nem isso posso saber.

Vanessa Ribeiro
Matemática, filósofa, atriz, dançarina, estudante de filosofia clínica
Petrópolis/RJ

quarta-feira, 2 de janeiro de 2013

Fragmentos filosóficos delirantes XCXXXIX*




PALAVRAS EM FORMA DE REDEMOINHO




Abro a janela
que dá
pra nenhuma parte
A janela
que se abre para dentro

O vento
levanta
instantâneas levíssimas
torres de poeira giratória

São
mais altas que esta casa
Cabem
nesta folha

Caem e se levantam
Antes que digam
algo
ao dobrar a folha
se dispersam

Torvelinhos de ecos
aspirados inspirados
por seu próprio girar

Agora
abrem-se noutro espaço

Dizem
não o que dizemos
outra coisa sempre outra
a mesma coisa sempre

Palavras do poema
não as dizemos nunca
O poema nos diz

Octavio Paz
1914 - 1998

terça-feira, 1 de janeiro de 2013

Fragmentos filosóficos delirantes XCXXXVIII*

Ueba! Dilma veta Fim do Mundo!

Buemba! Buemba! Macaco Simão Urgente! O esculhambador-geral da República! Fim do Mundo! E eu no engarrafamento! Socorro! Corram! Todos Para o Abrigo! Hoje é o Fim do Mundo. Menos pro Sarney! Só sobrarão as baratas, o Keith Richards e o Sarney! E os motoboys! Rarará! Fim do Mundo! Veta Dilma! Fim do Mundo!

E o Itaquerão nem ficou pronto! E eu não tenho medo dos maias porque os maias já morreram. Tenho medo dos maias vivos: Marco Maia e Cesar Maia! Rarará!

E como disse uma amiga minha: "Falta uma hora pro fim do mundo e eu ainda não sei com que roupa eu vou!". Fim do Mundo! Pense pelo lado positivo: se o mundo acabar, a Argentina acaba junto. Fim do Mundo! Outro lado positivo: se o mundo acabar, o Palmeiras não precisa disputar a segunda divisão!

E as manchetes do Fim do Mundo! Capa da "Caras": "Xuxa espera o fim do mundo na Ilha de Caras". Capa da "Veja": "Chávez e PT envolvidos no fim do mundo". Capa da "Trip": "Fim do Mundo, uma experiência radical". E se o mundo acabar hoje, o Sarney continua vivo? Continua! Existem duas espécies que sobrevivem à hecatombe nuclear: baratas e Sarney!

E diz que os maias marcaram o fim do mundo pra 2012 com medo da Argentina ganhar a Copa no Brasil! E pior que o fim do mundo é o fim do mês. Fim do mês é muito pior que o fim do mundo. Fim do mês é o fim do mundo em parcelas!
Rarará!

E a Nair Bello do Twitter: "Antes de o mundo acabar não posso me esquecer de fechar as janelas porque pode chover e molhar tudo". E uma outra gritou: "Não posso me esquecer de deixar comida pros gatos!". E outra: "Antes de o mundo acabar tenho que jogar uma calcinha no túmulo do Wando". Rarará! É mole? É mole, mas sobe!

E Fim do Mundo é a coisa mais antiga do mundo. Tem até música da Carmen Miranda: "Anunciaram e garantiram que o mundo ia se acabar/ Beijei na boca de quem não devia/ E o tal do mundo não se acabou".

Esse é o perigo: anunciam o fim do mundo, bate o desespero, dá pro prédio inteiro, tem orgasmos com eco, o mundo não acaba e no dia seguinte tem que encarar o povo no elevador! Rarará! O mundo não acabou, mas TINHA que acabar! Rarará! Nóis sofre, mas nóis goza!

Que eu vou pingar o meu colírio alucinógeno!

*José Simão