quarta-feira, 31 de julho de 2013

Os Projetos*












Sozinho, passeando em um grande parque, ele dizia para si mesmo: “Como ela ficaria bela em seu vestido real, complicado e faustoso, descendo, através da atmosfera de uma bela tarde, os degraus de mármore de um palácio diante de grandes gramados e laguinhos! Porque ela tem, naturalmente, o ar de uma princesa.”

Passando, mais tarde, por uma rua, ele parou diante de uma loja de gravuras e encontrando numa pasta uma estampa representando uma paisagem tropical. se disse: “Não! Não é num palácio que eu desejaria possuir sua querida vida. Nós não estaríamos em casa. Porque em suas paredes incrustadas de ouro não haveria lugar para pendurar o seu retrato; naquelas solenes galerias não existiriam recantos para nossa intimidade. Decididamente, é lá que é preciso ficar para cultivar o sonho de minha vida.”

E, analisando com os olhos todos os detalhes da gravura, ele continuou, mentalmente: “À beira-mar, uma bela cabana de madeira, cercada por todas essas árvores bizarras e luminosas das quais me esqueço os nomes..., na atmosfera um odor inebriante, indefinível.., na cabana, um perfume de rosas e almíscar.

Mais longe, atrás de nosso pequeno domínio, as pontas de mastros dos botes oscilando com as ondas.,, em volta de nós, além do quarto iluminado por uma luz rósea tamisada pelas cortinas, decoradas com esteiras frescas e flores capitosas com algumas cadeiras de rococó português, de uma madeira pesada, tenebrosa (onde ela repousaria, calmamente, refrescando-se e fumando um tabaco levemente opiáceo); além do terraço, a gritaria de pássaros embriagados pelas luzes e a tagarelagem das negrinhas.., e à noite, para servir de acompanhamento a meus sonhos, o canto lamentoso de árvores musicais, de melancólicas casuarinas. Sim, na verdade, é bem este cenário lá que eu procurava. Que faria eu com um palácio?”

E, mais adiante, como ele seguisse por uma grande avenida, vislumbrou um albergue asseado onde, de uma janela alegrada por cortinas indianas multicores, penduravam-se duas cabeças sorridentes. E, logo a seguir: “É preciso”, disse para si, “que meu pensamento seja um grande vagabundo para ir procurar tão longe o que está perto de mim. O prazer e a felicidade estão no primeiro albergue encontrado, no albergue do acaso, tão fecundo e voluptuoso. Uma lareira, faianças vistosas, um jantar passável, um vinho rude e um leito muito largo com lençóis um pouco ásperos, mas frescos; o que há de melhor?”

E voltando para casa sozinho àquela hora onde os conselhos da sabedoria não são mais abafados pelo burburinho da vida exterior, ele se disse: “Tive hoje, em sonho, três domicílios onde encontrei prazeres iguais. Por que obrigar meu corpo a mudar de lugar se minha alma viaja tão rapidamente? De que serve a execução de projetos, posto que o projeto, em si, é já um gozo suficiente?"

*Charles Baudelaire

terça-feira, 30 de julho de 2013

Conexões*


“Somos feitos da mesma matéria que nossos sonhos"
(William Shakespeare)

Estamos todos essencialmente conectados... com a vida, a morte e tudo o que compreende o espaço entre estes dois instantes. Os universos multisingulares se misturam e se interpenetram como amantes que se deixam levar por seus desejos sublimes.
Não há frente ou verso, em cima ou em baixo, dentro ou fora... há apenas o que foi determinado para o momento, como se tudo pudesse coexistir, espacial e temporalmente. Como se tudo fosse uma coisa só e apenas a percepção do instante fizesse sentido e conferisse significado.

Conexões... mas também cogitei dar o nome a este texto de ‘Francisco’. Apenas porque nestes dias em que estivemos imersos na frequência que vibrou pelas ruas, numa colorida babel que determinou um novo ritmo e que conduziu multidões, percebi que houve de fato conexões em andamento. O maestro que conduziu a orquestra, o encantadoramente louco Papa Francisco, demonstrou que conexão é algo que entende e promove. Ele violou regras, passou por cima de protocolos e foi até inconsequente, mas entrou de peito e coração abertos, como o de Assis e o Xavier. Mas foi demasiadamente humano ao estender as mãos.

Francisco deixou claras suas convicções próprias, no que representa e no que acredita, mas também demonstrou respeito às diferenças e diversidades. Soube dizer o que sente e exprimir o que pensa, com firmeza e doçura, bem como fazer valer simplicidade e coerência. Soube ousar e pedir por uma revolução pela qual ansiamos, despertamos e protestamos, mas de forma carinhosa, quase como se fosse um abraço amigo. 

Faz parte de nossa condição lutar e desbravar; foi assim que alcançamos a orgulhosa supremacia racional da qual costumamos nos orgulhar. Subimos o cume da montanha apenas porque não nos conformamos; porque não nos deixamos afundar na apatia de quem espera pelo vento e teimosamente corremos a abraçar tempestades. Foi em uma destas turbulências que encontramos o outro e então percebemos o quanto estamos conectados e o quão profundamente pertencemos à mesma mandala que circunda a raça.

Porque somos gente, admiramos, aplaudimos, reverenciamos, criticamos, apontamos, colocamos o dedo nas feridas e acolhemos. Somos todos, afinal, farinha do mesmo saco. Somos gente que acerta, que erra, que desvia, que mergulha, que voa, que sonha... Defendemos o que acreditamos: pontos de vistas, perspectivas existenciais, tribos, times, partidos... defendemos até dilemas, dores e controvérsias. E permanecemos conectados aos nossos sonhos, dos quais extraímos matéria prima para novos dias, novas viagens, novas loucuras. Assim caminha a humanidade.

Os paradoxos existenciais determinam que, ainda que nossas digitais – tão singulares como estrelas a brilhar no céu – atestem que somos únicos, o fato é que somos iguais perante a eternidade. Nascemos nus e ao pó ou às cinzas voltaremos; corre sangue na veia de cada um que se considera da espécie, embora existam tantas e diferentes culturas e modos de ver o mundo, de crer, de comer, de vazar emoções. Mesmo isso talvez não importe tanto, não somos melhores ou piores que ninguém. 

Oportunidades, valores e outras condições é que distinguem aqueles que se alimentam de pompa e circunstância dos que vislumbram apenas esperanças. E que fique claro como Francisco que não estamos aqui falando de religiosidade e sim de conectividade, pois religiosos nem sempre creem, filósofos nem sempre pensam, poetas nem sempre amam e muitos que respiram nem sempre estão vivos. Mas... todos seguem o rio.

*Luana Tavares
Filósofa. Filósofa Clínica
Niterói/RJ 

segunda-feira, 29 de julho de 2013

Acordei doente mental*

A poderosa American Psychiatric Association (Associação Americana de Psiquiatria – APA) lançou neste final de semana a nova edição do que é conhecido como a “Bíblia da Psiquiatria”: o DSM-5. E, de imediato, virei doente mental. Não estou sozinha. Está cada vez mais difícil não se encaixar em uma ou várias doenças do manual. Se uma pesquisa já mostrou que quase metade dos adultos americanos tiveram pelo menos um transtorno psiquiátrico durante a vida, alguns críticos renomados desta quinta edição do manual têm afirmado que agora o número de pessoas com doenças mentais vai se multiplicar. E assim poderemos chegar a um impasse muito, mas muito fascinante, mas também muito perigoso: a psiquiatria conseguiria a façanha de transformar a “normalidade” em “anormalidade”. O “normal” seria ser “anormal”.

A nova edição do Diagnostic and Statistical Manual of Mental Disorders (Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais) exibe mais de 300 patologias, distribuídas por 947 páginas. Custa US$ 133,08 (com desconto) no anúncio de pré-venda no site da Amazon. Descobri que sou doente mental ao conhecer apenas algumas das novas modalidades, que tem sido apresentadas pela imprensa internacional. Tenho quase todas. “Distúrbio de Hoarding”. Tenho. Caracteriza-se pela dificuldade persistente de se desfazer de objetos ou de “lixo”, independentemente de seu valor real. Sou assolada por uma enorme dificuldade de botar coisas fora, de bloquinhos de entrevistas dos anos 90 a sapatos imprestáveis para o uso, o que resulta em acúmulos de caixas pelo apartamento. Remédio pra mim. 

“Transtorno Disfórico Pré-Menstrual”, que consiste numa TPM mais severa. Culpada. Qualquer um que convive comigo está agora autorizado a me chamar de louca nas duas semanas anteriores à menstruação. Remédio pra mim. “Transtorno de Compulsão Alimentar Periódica”. A pessoa devora quantidades “excessivas” de comida num período delimitado de até duas horas, pelo menos uma vez por semana, durante três meses ou mais. Certeza que tenho. Bastaria me ver comendo feijão, quando chego a cinco ou seis pratos fundo fácil. Mas, para não ter dúvida, devoro de uma a duas latas de leite condensado por semana, em menos de duas horas, há décadas, enquanto leio um livro igualmente delicioso, num ritual que eu chamava de “momento de felicidade absoluta”, mas que, de fato, agora eu sei, é uma doença mental. Em vez de leite condensado, remédio pra mim. Identifiquei outras anomalias, mas fiquemos neste parágrafo gigante, para que os transtornos psiquiátricos que me afetam não ocupem o texto inteiro.

Há uma novidade mais interessante do que as doenças recém inventadas pela nova “Bíblia”. Seu lançamento vem marcado por uma controvérsia sem precedentes. Se sempre houve uma crítica contundente às edições anteriores, especialmente por parte de psicólogos e psicanalistas, a quinta edição tem sido atacada com mais ferocidade justamente por quem costumava não só defender o manual, como participar de sua elaboração. Alguns nomes reluzentes da psiquiatria americana estão, digamos, saltando do navio. Como não há cordeiros nesse campo, movido em parte pelos bilhões de dólares da indústria farmacêutica, é legítimo perguntar: perceberam que há abusos e estão fazendo uma “mea culpa” sincera antes que seja tarde, ou estão vendo que o navio está adernando e querem salvar o seu nome, ou trata-se de uma disputa interna de poder em que os participantes das edições anteriores foram derrotados por outro grupo, ou tudo isso junto e mais alguma coisa?

Não conheço os labirintos da APA para alcançar a resposta, mas acredito que vale a pena ficarmos atentos aos próximos capítulos. Por um motivo acima de qualquer suspeita: o DSM influencia não só a saúde mental nos Estados Unidos, mas é o manual utilizado pelos médicos em praticamente todos os países, pelo menos os ocidentais, incluindo o Brasil. É também usado como referência no sistema de classificação de doenças da Organização Mundial da Saúde (OMS). É, portanto, o que define o que é ser “anormal” em nossa época – e este é um enorme poder. Vale a pena sublinhar com tinta bem forte que, para cada nova patologia, abre-se um novo mercado para a indústria farmacêutica. Esta, sim, nunca foi tão feliz – e saudável.

O crítico mais barulhento do DSM-5 parece ser o psiquiatra Allen Frances, que, vejam só, foi o coordenador da quarta edição do manual, lançada em 1994. Professor emérito da Universidade de Duke, ele tem um blog no Huffington Post que praticamente usa apenas para detonar a nova Bíblia da Psiquiatria. Quando a versão final do manual foi aprovada, enumerou o que considera as dez piores mudanças da quinta edição, num texto iniciado com a seguinte frase: “Esse é o momento mais triste nos meus 45 anos de carreira de estudo, prática e ensino da psiquiatria”. Em carta ao The New York Times, afirmou: “As fronteiras da psiquiatria continuam a se expandir, a esfera do normal está encolhendo”.

Entre suas críticas mais contundentes está o fato de o DSM-5 ter transformado o que chamou de “birra infantil” em doença mental. A nova patologia é chamada de “Transtorno Disruptivo de Desregulação do Humor” e atingiria crianças e adolescentes que apresentassem episódios frequentes de irritabilidade e descontrole emocional. No que se refere à patologização da infância, o comentário mais incisivo de Allen Frances talvez seja este: “Nós não temos ideia de como esses novos diagnósticos não testados irão influenciar no dia a dia da prática médica, mas meu medo é que isso irá exacerbar e não amenizar o já excessivo e inapropriado uso de medicação em crianças. Durante as duas últimas décadas, a psiquiatria infantil já provocou três modismos — triplicou o Transtorno de Déficit de Atenção, aumentou em mais de 20 vezes o autismo e aumentou em 40 vezes o transtorno bipolar na infância. Esse campo deveria sentir-se constrangido por esse currículo lamentável e deveria engajar-se agora na tarefa crucial de educar os profissionais e o público sobre a dificuldade de diagnosticar as crianças com precisão e sobre os riscos de medicá-las em excesso. O DSM-5 não deveria adicionar um novo transtorno com o potencial de resultar em um novo modismo e no uso ainda mais inapropriado de medicamentos em crianças vulneráveis".

A epidemia de doenças como TDAH (Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade) tem mobilizado gestores de saúde pública, assustados com o excesso de diagnósticos e a suspeita de uso abusivo de drogas como Ritalina, inclusive no Brasil. E motivado algumas retratações por parte de psiquiatras que fizeram seu nome difundindo a doença. Uma reportagem do The New York Times sobre o tema conta que o psiquiatra Ned Hallowell, autor de best-sellers sobre TDAH, hoje arrepende-se de dizer aos pais que medicamentos como Adderall e outros eram “mais seguros que Aspirina”. Hallowell, agora mais comedido, afirma: “Arrependo-me da analogia e não direi isso novamente”. E acrescenta: “Agora é o momento de chamar a atenção para os perigos que podem estar associados a diagnósticos displicentes. Nós temos crianças lá fora usando essas drogas como anabolizantes mentais – isso é perigoso e eu odeio pensar que desempenhei um papel na criação desse problema”. No DSM-5, a idade limite para o aparecimento dos primeiros sintomas de TDAH foi esticada dos 7 anos, determinados na versão anterior, para 12 anos, aumentando o temor de uma “hiperinflação de diagnósticos”.

Pensar sobre a controvérsia gerada pelo nova “Bíblia da Psiquiatria” é pensar sobre algumas construções constitutivas do período histórico que vivemos. Construções culturais que dizem quem somos nós, os homens e mulheres dessa época. A começar pelo fato de darmos a um grupo de psiquiatras o poder – incomensurável – de definir o que é ser “normal”. E assim interferir direta e indiretamente na vida de todos, assim como nas políticas governamentais de saúde pública, com consequências e implicações que ainda precisam ser muito melhor analisadas e compreendidas. Sem esquecer, em nenhum momento sequer, que a definição das doenças mentais está intrinsicamente ligada a uma das indústrias mais lucrativas do mundo atual.

Parte dos organizadores não gosta que o manual seja chamado de “Bíblia”. Mas, de fato, é o que ele tem sido, na medida em que uma parcela significativa dos psiquiatras do mundo ocidental trata os verbetes como dogmas, alterando a vida de milhões de pessoas a partir do que não deixa de ser um tipo de crença. Talvez seja em parte por isso que o diretor do National Institute of Mental Health (Instituto Nacional de Saúde Mental – NIMH), possivelmente a maior organização de pesquisa em saúde mental do mundo, tenha anunciado o distanciamento da instituição das categorias do DSM-5. Thomas Insel escreveu em seu blog que o DSM não é uma Bíblia, mas no máximo um “dicionário”: “A fraqueza (do DSM) é sua falta de fundamentação. Seus diagnósticos são baseados no consenso sobre grupos de sintomas clínicos, não em qualquer avaliação objetiva em laboratório. (...) Os pacientes com doenças mentais merecem algo melhor”. O NIMH iniciou um projeto para a criação de um novo sistema de classificação, incorporando investigação genética, imagens, ciência cognitiva e “outros níveis de informação” – o que também deve gerar controvérsias.

A polêmica em torno do DSM-5 é uma boa notícia. E torço para que seja apenas o início de um debate sério e profundo, que vá muito além da medicina, da psicologia e da ciência. “Há pelo menos 20 anos tem se tratado como doença mental quase todo tipo de comportamento ou sentimento humano”, disse a psicóloga Paula Caplan à BBC Brasil. Ela afirma ter participado por dois anos da elaboração da edição anterior do manual, antes de abandoná-la por razões “éticas e profissionais”, assim como por ter testemunhado “distorções em pesquisas”. Escreveu um livro com o seguinte título: “Eles dizem que você é louco: como os psiquiatras mais poderosos do mundo decidem quem é normal”.

A vida tornou-se uma patologia. E tudo o que é da vida parece ter virado sintoma de uma doença mental. Talvez o exemplo mais emblemático da quinta edição do manual seja a forma de olhar para o luto. Agora, quem perder alguém que ama pode receber um diagnóstico de depressão. Se a tristeza e outros sentimentos persistirem por mais de duas semanas, há chances de que um médico passe a tratá-los como sintomas e faça do luto um transtorno mental. Em vez de elaborar a perda – com espaço para vivê-la e para, no tempo de cada um, dar um lugar para essa falta que permita seguir vivendo –, a pessoa terá sua dor silenciada com drogas. É preciso se espantar – e se espantar muito.

Vale a pena olhar pelo avesso: quem são essas pessoas que acham que o “normal” é superar a perda de uma mãe, de um pai, de um filho, de um companheiro rapidamente? Que tipo de ser humano consegue essa proeza? Quem seríamos nós se precisássemos de apenas duas semanas para elaborar a dor por algo dessa magnitude? Talvez o DSM-5 diga mais dos psiquiatras que o organizaram do que dos pacientes.

Há ainda mais uma consequência cruel, que pode provocar muito sofrimento. Ao transformar o que é da vida em doença mental, os defensores dessa abordagem estão desamparando as pessoas que realmente precisam da sua ajuda. Aquelas que efetivamente podem ser beneficiadas por tratamento e por medicamentos. Se quase tudo é patologia, torna-se cada vez mais difícil saber o que é, de fato, patologia. Por sorte, há psiquiatras éticos e competentes que agem com consciência em seus consultórios. Mas sempre foi difícil em qualquer área distinguir-se da manada – e mais ainda nesta área, que envolve o assédio sedutor, lucrativo e persistente dos laboratórios.

Se as consequências não fossem tão nefastas, seria até interessante. Ao considerar que quase tudo é “anormal”, os organizadores do manual poderiam estar chegando a uma concepção filosófica bem libertadora. A de que, como diria Caetano Veloso, “de perto ninguém é normal”. E não é mesmo, o que não significa que seja doente mental por isso e tenha de se tornar um viciado em drogas legais para ser aceito. Só se pode compreender as escolhas de alguém a partir do sentido que as pessoas dão às suas escolhas. E não há dois sentidos iguais para a mesma escolha, na medida em que não existem duas pessoas iguais. A beleza do humano é que aquilo que nos une é justamente a diferença. Somos iguais porque somos diferentes.

Esse debate não pertence apenas à medicina, à psicologia e à ciência, ou mesmo à economia e à política. É preciso quebrar os monopólios sobre essa discussão, para que se torne um debate no âmbito abrangente da cultura. É de compreender quem somos e como chegamos até aqui que se trata. E também de quem queremos ser. A definição do que é “normal” e “anormal” – ou a definição de que é preciso ter uma definição – é uma construção cultural. E nos envolve a todos. Que cada vez mais as definições sobre normalidade/anormalidade sejam monopólios da psiquiatria e uma fonte bilionária de lucros para a indústria farmacêutica é um dado dos mais relevantes – mas está longe de ser tudo.

E não, eu não acordei doente mental. Só teria acordado se permitisse a uma Bíblia – e a pastores de jaleco – determinar os sentidos que construo para a minha vida.

*Eliane Brum
Jornalista, escritora

domingo, 28 de julho de 2013

Metamorfose*


Uma namorada entrou-me em casa
fez-me a cama
esfregou e encerou o chão da cozinha
lavou as paredes
aspirou
limpou o banheiro
esfregou o chão do quarto
cortou-me as unhas dos pés e
o cabelo.

depois
tudo no mesmo dia
veio o canalizador e consertou as torneiras da cozinha
e do banheiro
e o homem do gás consertou o esquentador
e o homem dos telefones consertou o telefone.
agora sento-me no meio de toda esta perfeição.
é um sossego.
acabei com todas as minhas 3 namoradas.

sentia-me melhor quando tudo estava
desordenado.
precisarei dalguns meses para que tudo volte ao
normal:
nem consigo encontrar uma barata para conviver.

perdi o meu ritmo.
não durmo.
não como.

roubaram-me a minha
imundície.

*Charles Bukowski

sábado, 27 de julho de 2013

Fragmentos poéticos delirantes*



Onde foi parar a vida?
qual o caminho que ela tomou?
qual seria o líquido que ela ingeriu?
perguntas, e mais perguntas...

somos assassinos da vida, pois a matamos com gestos,
palavras e lágrimas, e a cela de nossa prisão, vocês bem
sabem, é a morte...
chega sem marcar hora...

somos o impulso, repleto de dor, munidos da identidade
da foto que não fala, do endereço que não aponta...
onde foi parar a vida, quem sabe dobrou a esquina e encontrou-se...

encontrou-se com quem?
quem pode a vida ter encontrado?
quem sabe uma taça de vinho tinto seco, sim, um Dionísio
feito homem em sua poesia filosófica...

mas a vida é poesia e filosofia?
e as outras coisas?
as ciências?
não, a vida se perdeu nos diversos lugares que se alojou...

nas pedras geladas que sepultou.
mas a vida morreu?
sepultada foi?
claro que não...

a vida vive em todos os sentidos,
até em uma morte, sim a vida vive em uma ausência
de vida...

*Eduardo Silveira
Filósofo, poeta, estudante de filosofia clínica
Porto Alegre/RS

sexta-feira, 26 de julho de 2013

É o Fim que Confere o Significado às Palavras*


 Apenas as palavras quebram o silêncio, todos os outros sons cessaram. Se eu estivesse silencioso, não ouviria nada. Mas se eu me mantivesse silencioso, os outros sons recomeçariam, aqueles a que as palavras me tornaram surdo, ou que realmente cessaram. Mas estou silencioso, por vezes acontece, não, nunca, nem um segundo. 

Também choro sem interrupção. É um fluxo incessante de palavras e lágrimas. Sem pausa para reflexão. Mas falo mais baixo, cada ano um pouco mais baixo. Talvez. Também mais lentamente, cada ano um pouco mais lentamente. Talvez. É-me difícil avaliar. 

Se assim fosse, as pausas seriam mais longas, entre as palavras, as frases, as sílabas, as lágrimas, confundo-as, palavras e lágrimas, as minhas palavras são as minhas lágrimas, os meus olhos a minha boca. E eu deveria ouvir, em cada pequena pausa, se é o silêncio que eu digo quando digo que apenas as palavras o quebram. 

Mas nada disso, não é assim que acontece, é sempre o mesmo murmúrio, fluindo ininterruptamente, como uma única palavra infindável e, por isso, sem significado, porque é o fim que confere o significado às palavras.

*Samuel Beckett

quinta-feira, 25 de julho de 2013

Resenha crítica*











Pérolas Imperfeitas – Apontamentos sobre as lógicas do improvável
Hélio Strassburger. Ed. Sulina. Porto Alegre/RS. 2012, 142 p. 

Num estilo que dança por entre “a ilusão da realidade e a realidade da ilusão” o professor e filósofo clínico Hélio Strassburger compartilha com seus leitores suas experiências, vivências e desavenças em seu caminhar como filósofo clínico. 
Como um passeio pelos recônditos espaços da mente humana o autor nos presenteia com 28 pérolas que ainda imperfeitas na medida em que se constroem na busca pelo direito de serem únicas, singulares e livres das tipologias e semelhanças que mergulham o filósofo clínico num “sobrevoo que não aterrissa”.  
O livro nos conduz pelos labirintos da relação entre o filósofo clínico e seu partilhante onde a interseção clinica ganha a forma de sentido para o partilhante a medida que seus ainda não traduzidos e interditados conteúdos ganham vida para o filósofo clínico.
O livro vai ao longo do caminho desvelando, através de seus apontamentos sobre as lógicas do improvável, as performances do filósofo clínico que como um “artesão a esculpir sua obra de arte” vê surgir ante seus olhos o ser que surgiu de si mas não é seu e que se desenovela ante o sentir admirado de um partilhante que se descobre. 
Relembrando “a mescla de sentimentos, percepções e desconstruções” que o transformaram num experiente e sensível parceiro de descobertas disposto a “brincar de esconde-esconde” com pontos cegos e descontinuidades lógicas, Hélio Strassburger guia o leitor atento às nuances dos seus pensamentos pelos meandros da interseção clínica.                                                 
  Enquanto as palavras do partilhante, transbordando como silêncio ou fala, são desvelamentos a tomar forma e fazem parte de um mundo único a se descortinar ante o filósofo, as palavras do filósofo podem ser “refúgio, remédio ou veneno”. É necessária uma escuta atenta, mas também livre de muros e correntes, que transforme a relação filósofo partilhante num encontro singular e destemido, sem medo de novas descobertas, de encontros inusitados e construções e reconstruções impossíveis. 
Nas lógicas do improvável tudo é possível, longe dos “arranjos da conformação dominante” e se existe a vontade de se reencontrar, e no desenrolar da clínica filosófica a mudança é comum a ambos, filósofo e partilhante comungam dessa mudança, pois  “assim como o leitor interfere no texto com sua leitura, o clínico não sai ileso na relação com o sujeito sob seus cuidados.”
Adentrando o mundo da loucura e o dos casos perdidos o autor navega por mares pouco navegados e por vezes com muitas tempestades, mas tanto na “interseção com as lógicas do extraordinário” como oferecendo “conforto existencial no fundo do poço”, ele se mantém sempre fiel ao “instante aprendiz” buscando sua mais pura existência, livre de arranjos e fórmulas. 
Hélio Strassburger repousa seu olhar atento sobre a interseção que, orquestrada pela reciprocidade e regida pela linguagem, é fonte fértil de enigmas que a mente já pré-formada não consegue decifrar perdendo o gosto da alquimia que transita na troca sempre singular a desvelar o outro na medida em que se desvela a si mesmo. 
É sobre esse tatear em solo abundante, mas movediço, que o livro nos orienta procurando nos despertar para os “herméticos esconderijos” que “podem se utilizar das cegueiras” produzidas pelas incômodas lembranças esquecidas que repousam preguiçosas aguardando o momento de emergir.
Pérolas Imperfeitas não é um livro para iniciantes, é uma obra ímpar e diferenciada, com um texto poético de uma estética que rastreia entre a realidade da ilusão e a ilusão da realidade e nos arremessa às associações imagéticas de uma “busca aprendiz” e singular, ali, toda ao alcance do leitor sedento de novos ares, sedento de aventurosas descobertas lá e cá onde as possibilidades alcançam e as subjetivas realidades permitem. E, acredito que esta obra, parafraseando o autor, possa nos ajudar a celebrar nossa vida e poética existencial.

*Maria Madalena Matos
Filósofa, Terapeuta Ayurveda, Estudante de Filosofia Clínica. 
Petrópolis/RJ

quarta-feira, 24 de julho de 2013

Entre partir e ficar*


Entre partir e ficar hesita o dia,
enamorado de sua transparência.
A tarde circular é uma baía:
em seu quieto vai e vem se move o mundo.
Tudo é visível e tudo é ilusório,
tudo está perto e tudo é intocável.
Os papéis, o livro, o vaso, o lápis
repousam à sombra de seus nomes.
Pulsar do tempo que em minha têmpora repete
a mesma e insistente sílaba de sangue.
A luz faz do muro indiferente
Um espectral teatro de reflexos.
No centro de um olho me descubro;
Não me vê, não me vejo em seu olhar.
Dissipa-se o instante. Sem mover-me,
eu permaneço e parto: sou uma pausa

*Octavio Paz

terça-feira, 23 de julho de 2013

Solta_lua_solta*

E vem vento através do vento e dos nossos pés.
O dia é 22. O Louco também.
Soltar, sol e ar. Aí está um outro altar.
Que nesse chão haja leveza e assim nos proteja.
O momento é de exceção. E com ele vem sua vibração.

Saia do seu espaço cativo. Vá até um canto, um mesmo seu, que seja menos visitado.
Leve-o para fora, e volte com suavidade para dentro.
Num movimento de flexão, caminhe de uma ante para uma retro. Nela se encontra um chakra que é central, mesmo que não fisicamente.

Abra esse canal de passagem para as mágoas, e favoreça seu desprendimento. As águas já se puseram fluentes com o poderoso triângulo que chegou nesse céu no mês lunar passado. E ainda aqui/aí/lá se encontra. Foi mesmo um Presente_Lunar. Num movimento de fluência que, após sentido, caminha para o livre e desapegado.

Empenhe-se nesse lanç_ar-se, com tranquilidade. Esvazie-se e verá o quão rápido se recarrega e se regenera. Mas mantenha-se no esvazi_ar-se.

Triângulos geram resultantes, sendo este o seu trabalho. Coloque-as para fora dando-lhes passagem através de você mesmo/a.

Eis o tudo e o nada. Também o tudo a ver e o nada a ver.

O poder lunar que move sem mover, mas não como o motor imóvel aristotélico – posto que não é Sub nem Supra lunar. É desde sempre e somente L_una_r. Maestra e Mestra de uma orquestra de passos, compassos, danças e mudanças.

Vem agora Solta em um ritmo Louca. Mas afinal, tá na própria lou_cura. E haverá sempre uma ques_tão de dose.

Soltar-se à altura da própria altura. Alcança-se, quem sabe, alguma soltura. Não confie, todavia, muito nisso. Pois não há definições e, assim, tudo poderá ser revisto. E o que importa será não se import_ar.
Export_ar assim para chegar a esse transport_ar-se. Aí se encontra nossa re(tro)flexão.
E o movimento de sal_to faz-se da própria terra. Que alívio!
A hora é salutar.
Sal-te.
Namaskar _/|\_

*Renata Bastos
Filósofa, mestre em filosofia, astróloga, filósofa clínica
São Paulo/SP

**(co_incidência: dia 25 de julho, dia zero ou dia considerado fora do tempo pelos maias em seu calendário, é um momento pro(preci)pício para rê_ciclar, rê_carregar, rê_começar… deixo aqui esse rê_lembr_ar)

segunda-feira, 22 de julho de 2013

O Poeta é a Mãe das Armas*











O Poeta é a mãe das armas
& das Artes em geral —
alô, poetas: poesia
no país do carnaval;
Alô, malucos: poesia
não tem nada a ver com os versos
dessa estação muito fria.

O Poeta é a mãe das Artes
& das armas em geral:
quem não inventa as maneiras
do corte no carnaval
(alô, malucos), é traidor
da poesia: não vale nada, lodal.

A poesia é o pai da ar-
timanha de sempre: quent
ura no forno quente
do lado de cá, no lar
das coisas malditíssimas;
alô poetas: poesia!
poesia poesia poesia poesia!
O poeta não se cuida ao ponto
de não se cuidar: quem for cortar meu cabelo
já sabe: não está cortando nada
além da MINHA bandeira ////////// =
sem aura nem baúra, sem nada mais pra contar.
Isso: ar. ar. ar. ar. ar. ar. ar. ar. ar. ar. ar. ar. a
r: em primeiríssimo, o lugar.

poetemos pois

*Torquato Neto /8/11/71 & sempre.
Teresina/PI

quinta-feira, 18 de julho de 2013

A arte de escrever*



Quem tem a palavra como companheira, seja por profissão (jornalistas, advogados, escritores...), seja por hobby (contistas, cronistas e poetas nas horas vagas...), sabe o quanto um parto pode ser difícil e sem qualquer segurança de uma bela cria. 

Quantas vezes ficamos horas, sem sucesso, em cima de um papel em branco, tamborilando com a ponta da caneta, à espera daqueles versos sublimes, sinceros, que transformam em palavras e ritmos nossos melhores (e piores) sentimentos? Ou então em frente ao computador, vendo o cursor piscando, como prova cabal de nossa incompetência naquele momento para expressar ideias e opiniões?

O contrário também acontece. Quando menos esperamos, caminhando na rua, bem no meio de uma prova de matemática, ou então quando estamos dirigindo (e sem papel e caneta), parece que o texto nasce pronto, precisando apenas de alguns pequenos ajustes.

O mais interessante (e todos que trabalham com a expressão escrita costumam dizer isso) é que o texto não vem em sucessão de palavras. Vem como ideia, entendida no todo, e somente ao ser organizada se divide em parágrafos, frases, etc. É mais ou menos o que Mozart dizia em relação à música: antes de a compor, ele a ouvia mentalmente inteira, e não como sucessão de notas. Captava primordialmente a ‘alma’ da música, e então lhe dava a forma.

Isso tudo me faz pensar em Platão e seu ‘Mundo das Ideias”. Ele dizia que duas realidades diferentes envolvem a tudo, sendo elas o Mundo das Ideias e o Mundo dos Sentidos. O Mundo das Ideias seria a essência primordial, onde tudo nasce, enquanto o Mundo dos Sentidos é onde acontece sua materialização. Seguindo o raciocínio de Platão, o ser humano, na verdade, nada cria. Seu mérito é o de servir como ‘canal’ para que as ideias adquiram forma. E por isso que os antigos reverenciavam as musas, pedindo a elas inspiração, para que pudessem, humildemente, servir como meio de expressão para essas ideias não presentes até então no mundo dos sentidos.

É algo até fácil de se entender, mas não de aceitar, especialmente considerando que somos tão vaidosos de nossas letrinhas. Mas mesmo que não seja verdade, que é poético, ah, isso é!


*Sandra Veroneze
Jornalista, escritora, editora, filósofa clínica
Porto Alegre/RS

quarta-feira, 17 de julho de 2013

Prefácio para o livro Não, de Augusto de Campos*












O filósofo Ludwig Wittgenstein (que comparece neste livro intraduzido em om / e. e. wittgenstein) dedicou toda sua obra à reflexão sobre os limites da linguagem. É famosa a asserção com que ele encerra o seu Tratactus Logico-Philosophicus: “O que não se pode falar, deve-se calar”.

No extremo mais extremo dessa (im)possibilidade, para onde a filosofia ou a fala de todo dia apenas apontam, sem alcançar, emerge a linguagem-coisa de Augusto de Campos.

Entre falar e calar, seus poemas parecem dizer o indizível, por não tentar dizê-lo, mas realizá-lo através da linguagem.

Dessa condição limítrofe surgem as marcas de negação que vêm caracterizando sua poesia há muitos anos — poetamenos, expoemas, despoesia, o afazer de afasia, o vácuo o vazio o branco, o oco, a canção sem voz, poesia sem placebo, semsaída, nãopoemas, não.

Tais sinais de menos adquirem positividade na medida em que os poemas se efetivam; minérios extraídos de recusas a todos os excessos e facilidades.

O que sobra depois de subtrair tanto? Que sumo essência medula “osso/sos”? Augusto não responde, mostra. Como em não, que dá título a este volume, poema feito do dizer o que não é poesia, numa sequência de pequenos quadrados brancos nas páginas negras, que vão pouco a pouco rarefazendo as colunas verticais do texto até o limite vertebral da única linha “oesia”.

Como também em semsaída, estampado na contra-capa, que toma o mote mais repetido pelos antagonistas da poesia concreta (que ela teria levado a poesia a um “beco sem saída”, expressão também citada/brindada em desplacebo), positivando seu sentido, afirmando a potência do desafio ante o impossível.
semsaída lembra tudoestádito (1974), pelo que diz, assim como pela forma de decifração que impõe para que se chegue ao que diz. E também pela livre disposição das frases, que podem ser lidas em diferentes ordens. 

Em tudoestádito esse caráter lúdico se evidenciava especialmente na versão da Caixa Preta, de Julio Plaza e Augusto (1975), onde o poema vinha impresso em seis folhas permutáveis. semsaída convida ao jogo misturando as frases num labirinto, onde se pode entrar a partir de diferentes direções.

Reverberações como essa são comuns no trabalho de Augusto de Campos — poemas que parecem comentar, ou completar, com intervalos de anos, uns aos outros. Podemos lembrar os versos da contra-capa de Despoesia (1994) — “a flor flore / a aranha tece / o poeta poeta” — ao ler “a cor / cora / a flor / flora / o ir / vai / o rir / rói / o amor / mói / o céu / cai / a dor / dói”, em ferida (2001), onde a obviedade se converte em estranhamento. Ou associar não (1990) a poesia (1998) — “nãoéphila / telianãoé / philantro / pianãoéph / ilosophia / nãoéegoph / iliaésome / ntepoesia”, onde sobressai semanticamente o “some” que encerra a penúltima linha. E espelho (1993) a desespelho (2000), que gira em torno do “o” central (o “espelho” dentro e fora do “olho”), assim como ruído (1993), que por sua vez remete a omesmosom (1989/1992).

O próprio formato quadrado de NÃO dialoga com Despoesia, assim como sua estrutura, dividida em duas seções de poemas, uma de profilogramas e uma de intraduções.

Se por um lado tais recorrências denotam uma trajetória de coerência e fidelidade a um projeto estético, por outro, a poesia de Augusto de Campos se caracteriza pela busca incessante de novas soluções formais — nas diferentes possibilidades de fragmentação da linguagem; na inauguração de sistemas de leitura, onde o linear se abre ao prismático; nos signos dentro de signos, onde várias alternativas disputam, pelos cortes ou junções, o mesmo espaço sintático (“sub/ir” em “subir” — paradoxo de uma só palavra —, “pulsa” em “ex/pulsa”, “ruído” em “dest/ruído”, “alenta” em “rapid/alenta/mente”, etc.); na exploração constante dos procedimentos gráficos (o uso cada vez mais apurado da cor, disposição e escolha de tipos, que se relacionam isomorficamente com os sentidos dos poemas e ao mesmo tempo inserem obstáculos de leitura que são incorporados à sua recepção), usados de forma estrutural e não decorativa.

Como se a cada passo conquistado fosse preciso buscar outro andar, sem repouso (“fujo de mim / e assisto a minha fuga”, diz em “rapidalentamente”), cada descoberta formal alimenta o anseio de correr o risco atrás de outro processo, outro limite, outra sensibilidade.

É natural portanto que Augusto busque no repertório de recursos digitais novas instigações para sua expressão apur(depur)ada, procurando respostas de linguagem que façam usos procedentes desses meios, raramente integrados de forma tão coesa à criação poética.

Se os frutos desse embate já ampliam as possibilidades gráficas do próprio livro, no CD-rom que o acompanha podemos apreciar ainda mais plenamente seus resultados. Nele encontramos versões animadas e sonorizadas que redimensionam poemas já existentes, como caracol, cidadecitycité, rever, entre outros, e criações feitas especialmente para os recursos que as sustentam, como os morfogramas, os interpoemas e outros como criptocardiograma e semsaída, que, além da já admirável inserção de movimento na palavra escrita, somada à sua ocorrência sonora, incorporam ainda o aspecto da interatividade com o receptor.

Se a poesia concreta, com sua dimensão verbivocovisual, já indicava experiências de linguagem avançadas para os meios da época (a sugestão de movimento já aparecia, por exemplo, pela composição tipológica de poemas como velocidade, de Ronaldo Azeredo, ou infin, de Augusto, ou pela sequência gráfica de várias páginas como em seus cicatristeza ou oeilfeujeu, assim como no organismo, de Décio Pignatari; o aspecto interativo também era já prenunciado em poema-objetos como linguaviagem e tudoestádito, da Caixa Preta), os recursos digitais parecem agora idealmente adequados ao seu espírito de invenção. Ao explorar suas virtualidades nesses clip-poemas, Augusto de Campos demonstra continuar desbravando novos territórios de linguagem, com inquietude determinada, cinquenta anos depois da formação do grupo noigandres.

Do menos ao ex, do ex ao des, do des ao não, a poesia de Augusto renova sua afirmação.

*Arnaldo Antunes

terça-feira, 16 de julho de 2013

Subjuntivos*

                                                      









Talvez esse imenso lugar nativo ficasse inexplorado, não fora o movimento desconcertante a acessar as inéditas regiões. Essa aptidão de estranhamento, tão desmerecida, aprecia desnudar o espaço novo diante do olhar, interseção limiar com as demais teias discursivas.

Através do viés desconsiderado é possível apreender e dialogar com a pluralidade transgressora das fronteiras conhecidas. Ao fazer possível o impossível se pode vislumbrar a ótica selvagem, um pouco antes de ser cooptada pelo saber instituído.  

A cogitação sobre a origem dessa matriz já contém, em si mesma, a multiplicidade de versões. As lógicas da incerteza elaboram seus vocabulários brincando com os vestígios da irrealidade. O devir instintivo ensaia relatividades ao querer mostrar paradoxos, alternâncias, dialetos para se entender ou sentir que a perfeição de toda imperfeição nem sempre vai ser explicável.  

Sua opinião escolhe desmerecer todo beco sem saída. Seu saber especulativo, recheado de incertezas, promove reflexão, antecipa periferias. Ao tentar sufocar as crises do movimento precursor, a pessoa se afasta de um si mesmo em vias de nascer. Como um logos irracional, a essência de seu devir é a invisibilidade às lógicas do entendimento. Reivindica a invenção discursiva capaz de não-pensar para criar.  

A busca por emancipação pode ser antecedida por ensaios desestruturantes. O espaço literário e a clínica apreciam a relação flexível da convicção com sua contestação. Com ela pode acolher, transitar, compreender aprendendo os roteiros da estranha geografia.

O exercício da transcendência pode ter aptidão para deslocar o sujeito momentaneamente, desarticulando o chão de onde a crise tenta resgatá-lo. Quem sabe seu esboço consiga aproximar real e irreal ao seduzir o hábito com a surpresa. Um sujeito ressuscitando na própria vida.

A trama subjuntiva se oferece para desvendar perspectivas ao que se sabia único, acabado. O tempo da dúvida, do receio, das tratativas com o absurdo das hipóteses, parece ser uma dessas fontes da palavra mágica. Seu desvio dos rituais conhecidos sugere caminhos para compreender o inacabamento, a contradição que alimenta a vida.  

*Hélio Strassburger