sábado, 31 de agosto de 2013

A levitação de Clarice***


            Um dia Clarice liga dizendo que aceitou dar um depoimento no Museu da Imagem e do Som, mas fazia questão que Marina e eu fôssemos os entrevistadores. Eu a conheci em 1962 quando ela foi a Belo Horizonte lançar A maçã no escuro, na livraria Francisco Alves, e o gerente da livraria o professor Neif Safady convidou-me, eu ainda estudante de Letras, para fazer uma espécie de discurso de apresentação dela. 

Lembro-me da primeira visão que tive daquela linda e consistente mulher no hall do Hotel Normandy. Estranhamente, tinha só meia dúzia de pessoas no lançamento. Depois disto fomos jantar num restaurante chinês e me lembro de que Ivan Ângelo estava conosco. E como seguíssemos durante a sobremesa falando de A maçã no escuro o garçom nos interrompeu constrangido explicando que a  maçã estava meio escura, mas não estava estragada.

            O convite para aquela entrevista no MIS, que ocorreu um ano antes de sua morte, era um pacto de amizade. Essa relação afetiva já havia sido demonstrada quando ela dedicou “A galinha Laura” a nossa filha Fabiana. Clarice sabia que nós não a ameaçávamos, antes a protegíamos. O que ela estava pedindo era abrigo e compreensão para se abrir. E foi tudo natural. 

Não quisemos fazer uma entrevista acadêmica, pedante, “inteligente”, mas criar um ambiente em que ela se sentisse à vontade. E ela estava particularmente feliz naquele dia, sorrindo várias vezes. Atendíamos ao pedido da amiga sem pensar que essa entrevista, hoje traduzida e amplamente divulgada, seria uma peça rara e fundamental ao entendimento de   sua extraordinária obra.

            Se eu tivesse um diário e paciência para anotar, quanta coisa, quanta conversa, piada e brincadeira teria salvo do oblívio. Mas posso me lembrar do interesse dela quando soube que tínhamos uma cartomante incrível lá no Méier. Tanto Clarice fez que a fomos buscar no seu apartamento uma manhã e a levamos à dona Nadir. Resultado: dona Nadir entrou para a história da literatura brasileira, virou Fernanda Montenegro, a cartomante de A hora da estrela. Clarice ficou freguesa de dona Nadir.

            A meu convite ela foi várias vezes à PUC-RJ quando dirigi o Departamento de Letras e Artes. Tenho aqui as fotos dela assistindo a alguns dos desafiadores encontros nacionais de professores de literatura que organizamos nos anos 70. Lembro-me daquele em que Luiz Costa Lima e José Guilherme Merquior debatiam trocando hermetismos teóricos, quando Clarice, de repente, levantou-se e foi embora. Fiquei preocupado. Nélida a acompanhou. Telefonei-lhe depois. E ela: “Aquela discussão incompreensível foi me dando uma fome que cheguei em casa e comi um frango inteiro.”

            Na PUC, quando lá dirigi o Departamento de Letras e organizei um curso de criação literária, Clarice foi e falou sobre sua obra. Imperdoável não se ter gravado seu depoimento. Era um clima tenso, especial. Os alunos, temerosos de perguntar, como se ela fosse sangrar a cada pergunta. E sangrava mesmo. Ou, então, ria, como ocorreu num curso sobre ela dado pelo prof. Amarylis Hill em que estavam todos tantalizados sem saber o que lhe dizer, e eu então, para quebrar o gelo, perguntei: “Clarice, você acha que 2 e 2 são 4?” (Naquele tempo cantava-se com Gal “tudo certo como 2 e 2 são cinco”, e era ditadura). 

         Sorrindo, ela disse que aquilo lembrava a piada sobre qual era a diferença entre o neurótico e o psicótico. O psicótico, que já extrapolou a realidade, diz: 2 + 2 são 5. O neurótico diz 2+2 são 4, mas eu não aguento.

            Já contei, Marina já contou, que um dia ela nos cobrou que não a convidávamos para jantar. Não o fazíamos por pudor. Mas tendo ela manifestado o desejo armamos um jantar onde ela escolheria todos os convidados. Até o horário era cedo, como ela queria. Fui buscá-la em sua casa. Pois ela chegou, viu aqueles amigos todos, mas daí a uns 15 minutos fez um pedido que era uma ordem: “Quero ir embora.” Levei-a de volta à sua solidão. E os amigos compreenderam.

            Fui visitá-la em seus últimos dias naquele hospital da Lagoa. Olga Borelli que a acompanhava disse que ela não permitia que homens a visitassem ali, eu era exceção. Fiquei ao lado de seu leito tentando uma leveza impossível.

            Otto Lara tinha razão. Com Clarice ocorre o fenômeno de possessão. Quem se aproxima de sua obra é devorado por ela. Quando dirigi a Biblioteca Nacional e minha ex-aluna Ester Schwarz pediu para reunir lá a Sociedade das Amigas de Clarice, concordei. Ali, umas 30 clariceanas. Quando minha chefe de gabinete passou por elas, sentiu que havia  em suspensão algo estranho. Veio à minha mesa, e disse: “O que é aquilo? O clube do lexotan?”

            Ela tinha captado o clima. Leitores de Clarice vivem em outra dimensão. E sou capaz de reconhecer uma leitora de Clarice a cinqüenta metros de distância, porque, como Clarice, ela não anda, vive em denso estado de levitação.

*Affonso Romano de Sant’Anna
**Clarice Lispector

sexta-feira, 30 de agosto de 2013

Dores existenciais*


Vivemos numa época em que as dores são consideradas como ruins, uma dor é algo a ser debelado. Antigamente quando uma criança cortava o dedo, era tratada com Merthiolate e Mercúrio Cromo. Um dos desafios às mães era convencer a criança a se deixar medicar, pois eram medicamentos que causavam dor. Geralmente a mãe dizia: “Fica quieto, se dói, cura”. 

Atualmente o medicamento já não causa mais dor, a fórmula foi alterada de maneira que a aplicação seja indolor. Quando não se tinha Merthiolate utilizava-se álcool ou até mesmo a velha e boa cachaça com arnica. Aqueles que passaram por estes tratamentos devem lembrar que era bastante doloroso a aplicação destes medicamentos sobre a ferida. 

Era também uma época em que a criança tinha desde cedo uma participação forte na família, em muitos casos com tarefas como alimentar os animais, varrer o pátio, capinar a horta. As dificuldades da família eram partilhadas, não se “tapava o sol com a peneira” para que a criança não sofresse.

Esta postura menos polida, dito por alguns, mas realista, era a maneira que as famílias antigas tinham para preparar suas crianças para a vida. Eram crianças, hoje adultos, que desde cedo percebiam que na vida passar por algumas dores era algo absolutamente normal e natural. Sabiam que depois de um dia capinando as mãos teriam bolhas e estas provocariam dores; com o tempo e o trabalho a pele da mão engrossava e já não fazia mais calo. Não se pode dizer que era algo agradável, bom, desejável, mas era algo pelo qual era necessário passar. Colaborar com a família passava pela dor do trabalho físico.

Existencialmente as coisas não são muito diferentes: existem dores que precisam ser vividas para que nos façam mais fortes. Imagine uma mocinha que arruma um namorado. Pelos acasos da vida seu relacionamento não funciona e ela sofre. Sua mãe, por temer o pior recomenda um remedinho para aliviar essa dor ou leva a filha às compras para esquecer. O que esta mãe está fazendo? Muito provavelmente está evitando que a filha crie resistência, que aprenda com o que aconteceu, que vivencie de maneira produtiva aquela dor existencial. Sofrer por sofrer não é recomendável, mas eliminar todo o sofrimento também não é produtivo.

Em alguns casos uma depressão pode ser o melhor remédio que uma pessoa encontrará para muitos dos males. Em um de meus atendimentos ouvi o seguinte: “Eu estava em depressão, estava triste, não queria conversar e as pessoas diziam que eu não tinha motivo para estar assim. Eu sabia, mas quanto mais elas me diziam, mais depressiva eu ficava. Eu estava vivendo minha depressão, era um momento que eu precisava viver. Depois que vivi segui em frente”. 

É interessante perceber que viver uma dor existencial não significa ser masoquista, mas viver a consequência de uma série de fatores que podem ser ruins agora, mas serão muito bons no futuro. Na primeira vez em que se vai à academia ao fazer exercícios os músculos doem, e é sinal de que os exercícios estão fazendo efeito.

Uma pessoa que usa dispositivos para anestesiar uma dor pode pouco a pouco aumentar a dose para uma dor que é, aparentemente, cada vez maior. Algumas pessoas ao anestesiar suas dores também anestesiam seus prazeres. Correm o risco de chegar num tempo em que não sabem mais o que é dor ou prazer, ou seja, ficam anestesiadas para a vida.

*Rosemiro A. Sefstrom

quinta-feira, 29 de agosto de 2013

A poesia*


Por que tocas meu peito novamente?
Chegas silenciosa, secreta, armada,
como os guerreiros a uma cidade adormecida;
queimas minha língua com teus lábios, polvo,
e despertas os furores, os gozos,
e esta angústia sem fim
que acende o que toca
e engendra em cada coisa
uma avidez sombria.

O mundo cede e se desmorona
como metal no fogo.
Entre minhas ruínas me levanto,
só, desnudo, despojado,
sobre a rocha imensa do silêncio,
como um solitário combatente
contra invisíveis hostes.

Verdade abrasadora,
para onde me impeles?
Não quero tua verdade,
tua insensata pergunta.
Aonde vai esta luta estéril?
Não é o homem criatura capaz de conter-te,
avidez que só na sede se sacia,
chama que todos os lábios consome,
espírito que não vive em forma alguma
mas faz arder todas as formas
com um secreto fogo indestrutível.

Mas insistes, lágrima escarnecida,
e alças em mim teu império desolado.

Sobes do mais profundo de mim,
desde o centro inominável de meu ser,
exército, maré.
Cresces, tua sede me afoga,
expulsando, tirânica,
aquilo que não cede
a tua espada frenética.
Já somente tu me habitas,
tu, sem nome, furiosa substância,
avidez subterrânea, delirante.

Golpeiam meu peito teus fantasmas,
despertas com meu tato,
gelas minha fronte
e fazes proféticos meus olhos.

Percebo o mundo e te toco,
substância intocável,
unidade de minha alma e de meu corpo,
e contemplo o combate que combato
e minhas bodas de terra.

Nuveiam meus olhos imagens opostas,
e às mesmas imagens
outras, mais profundas, as negam,
ardente balbucio,
águas que afogam uma água mais oculta e densa.
Em sua úmida treva vida e morte,
quietude e movimento, são o mesmo.

Insiste, vencedora,
porque tão somente existo porque existes,
e minha boca e minha língua se formaram
para dizer tão somente tua existência
e tuas secretas sílabas, palavra
impalpável e despótica,
substância de minha alma.

És tão somente um sonho,
mas em ti sonha o mundo
e sua mudez fala com tuas palavras.
Roço ao tocar teu peito
a elétrica fronteira da vida,
a treva de sangue
onde pactua a boca cruel e enamorada,
ávida ainda de destruir o que ama
e reviver o que destrói,
com o mundo, impassível
e sempre idêntico a si mesmo,
porque não se detém de forma alguma
nem se demora sobre o que engendra.

Leva-me, solitária,
leva-me entre os sonhos,
leva-me, mãe minha,
me desperta do todo,
faz-me sonhar teu sonho,
unta meus olhos com óleo,

para que, ao conhecer-te, eu possa conhecer-me.

*Octávio Paz

quarta-feira, 28 de agosto de 2013

Fênix*


Na minha opinião o órgão do corpo que mais consegue se regenerar é o coração!

Aos olhos da ciência isso não existe, mas qual o ser humano pode afirmar que nunca teve o coração partido?

Quando você sente uma dor de cabeça é simples de tratar o problema, toma um remédio e logo passa, mas quando a dor é no coração... pode durar uma eternidade. Em todo caso isso depende de você! Ficar estagnado curtindo uma fossinha de vez em quando é inspirador e até poético, mas você tem de saber o momento de fazer renascer a fênix que existe em você!

Na mitologia grega a fênix era uma ave com capacidade de suportar cargas muitas vezes maiores do que o seu corpo, conta-se que quando ela morria entrava em combustão, porém após algum tempo renascia das próprias cinzas! Acho lindo isso!

Hoje em dia utiliza-se um termo emprestado da física para falar dessa capacidade de resistência, fala-se em resiliência. Resiliência é a capacidade que algumas matérias tem de sofrer deformações e voltar a ser o que eram antes, a exemplo disto podemos citar uma esponja de lavar louças: aplicada uma força sobre a sua matéria ela sofre a deformação, porém volta ao seu estado original quando a pressão cessa. O ser humano que conseguir levar a vida como uma esponja jamais precisará de terapia!

Porém essa tarefa de voltar ao estado original, em se tratando das pessoas, na maior parte da vezes é muito desafiadora!

Os estresses pelos quais vamos sendo submetidos, ao longo do tempo, nos levam há muitos caminhos, mas podemos dizer de forma geral que, algumas pessoas superam e conseguem ver os aspectos positivos, tirando lucro do aprendizado enquanto outras somente veem o saldo negativo. Estas muitas vezes gostam ainda de cutucar suas feridas para vê-las sangrar novamente, é como se esse movimento alimentasse a sua existência. 

Não raras vezes elas internalizam prejuízos pessimistas sobre si mesmas e sobre os outros. Pensam que todas as coisas ruins só acontecem com ela e que nunca alguém irá se aproximar sem algum interesse obscuro. Não conseguem sorrir para a vida, não se dão outra chance de voltar a ser feliz. É muito triste quando alguém decide tomar essa postura, pois todo o universo ao seu redor começa a ficar sombrio e então começam os medos: "não vou tentar porque não vai dar certo", "não vou me entregar porque não quero ser enganado", "não quero me iludir", "não quero mais sofrer"... me pergunto se uma vida cercada de uma falsa ideia de segurança vale a pena? É claro que eu tenho a minha resposta, que é muito simples, porém sincera: - Não!!!

Eu quero sentir o meu coração bater todos os dias, faça frio, chuva ou sol, eu preciso sentir pulsá-lo dentro de mim fazendo irrigar o meu sangue por todas as partes do meu corpo. Eu sei que viver é muito arriscado, mas eu prefiro ter uma vida plena e intensa em sentimentos, sejam eles bons ou maus do que levar uma vida morna e sem emoções. 

Costumo me entregar a cada novo projeto que surge, em todos os aspectos na minha vida, mergulho de cabeça e mesmo que me alertem para que não o faça, o meu espírito pede isso, pois a minha epistemologia funciona assim, eu preciso experienciar tudo aquilo que me interessa para que eu possa formar a minha opinião a respeito de qualquer coisa. Não me contento de saber o que os outros pensam a respeito, quero ter uma opinião autêntica.

Por isso às vezes sinto vontade de sacudir algumas pessoas que ficam se escondendo atrás de suas vergonhas e seus medos. Eu também tenho medos, mas eu luto contra eles até o fim. Jamais vou me entregar à um medo sem antes lutar. Os nossos medos somente existem porque foram criados por nós, cabe a nós saber se o que temos a oferecer a eles é alimento ou a miséria... enfim, viva a capacidade de resiliência do coração! Viva a fênix que habita cada um de nós! Para o alto e avante!

*Débora Perroni
Filósofa, Filósofa Clínica
Porto Alegre/RS

terça-feira, 27 de agosto de 2013

As janelas*


Quem olha, de fora, através de uma janela aberta, não vê jamais tantas coisas quanto quem olha uma janela fechada. Não há objeto mais profundo, mais misterioso, mais fecundo, mais tenebroso, mais deslumbrante do que uma janela iluminada por uma vela.

O que se pode ver à luz do sol é sempre menos interessante do que o que se passa atrás de uma vidraça. Nesse buraco negro ou luminoso vive a vida, sonha a vida, sofre a vida.

Além das vagas do teto, percebo uma mulher madura, enrugada mesmo, pobre, sempre inclinada sobre qualquer coisa e que nunca sai de casa. Por seu rosto, por seus vestidos, por seus gestos, por quase nada eu refaço a história dessa mulher, ou antes, sua legenda e, às vezes, conto a mim mesmo, chorando, essa história.

Se tivesse sido um pobre velho, eu, também, refaria a dele, facilmente.
E me deito orgulhoso de ter vivido e sofrido nos outros como se fosse em mim mesmo.

Talvez vocês me dirão: “Estás certo de que esta fábula seja verdadeira?” Que importa o que possa ser a realidade situada fora de mim, se ela me ajuda a viver, a sentir que existo e o que sou?

*Charles Baudelaire  

segunda-feira, 26 de agosto de 2013

Não me pergunte que eu respondo*


Nascemos.

E a partir deste momento mágico, inicia nosso treinamento para questionar e responder.

Pais e avós orgulham-se da inteligência de seus bebês quando estes, questionados, apontam rapidamente, sem hesitação, o narizinho e a orelhinha. Mais tarde vem a escola ensinando respostas mais difíceis: “Qual a capital da França?”, “Por que a lei da gravidade faz a maçã cair?”. E, mesmo quando adultos, nosso conhecimento continua sendo testado em provas para faculdades e concursos.

Assim, lenta e gradativamente, somos induzidos a acreditar que a vida acontece e se explica através de perguntas e que sempre existirá uma resposta correta.  Dependendo de nosso desempenho, receberemos um conceito e seremos aprovados ou não.

Mas a vida é bem mais que isso. Algumas perguntas terão resposta.  Outras vão produzir mais de uma resposta, e todas estarão corretas. E talvez algumas perguntas sejam irrespondíveis. É preciso saber conviver com esta complexidade. E é justamente aí que algumas pessoas se complicam.

São as chamadas "pessoas mecânicas". Seus raciocínios funcionam de maneira linear e horizontal.  Precisam de respostas claras e objetivas, pois acreditam que tudo envolve uma explicação lógica. Suas vidas funcionam em uma relação de causa-efeito, inclusive seus sentimentos,  que necessitam argumentos coerentes para sobreviver.

Pessoas mecânicas escutam aquilo que lhes interessa, perseguindo um gabarito utópico. Dão  notas a seus pares e permanecem sempre em estado de alerta, examinando e elaborando novas questões, que necessitarão de um novo gabarito. Uma sucessão de altos e baixos, formando uma gangorra existencial que não oferece paz nunca.

O rapaz adiciona a nova secretária como amiga no facebook. A namorada observa a foto, acha a secretária bonita e questiona o motivo de tal atitude.  Talvez o pobre rapaz simplesmente tenha aceitado um pedido de amizade, recebeu um comentário, levou uma cutucada.  Como explicar?  Para que explicar?

Pessoas mecânicas   nutrem-se com  respostas, explicações, justificativas, provas que amenizem sua insegurança. Precisam estar com alguém que se submeta a seus interrogatórios e lhes alimente permanentemente. Alguns relacionamentos funcionam nestas bases. Funcionam?

Analisando rapidamente parece que sim, porém o sentimento nunca consegue amadurecer, pois está sendo checado e colocado à prova a todo instante. É mais ou menos como assistir a um truque de mágica e ao invés de se encantar com a beleza do coelho saindo por dentro da cartola, ficar quebrando a cabeça tentando descobrir a trapaça que o mágico realizou. O show perde toda sua graça.

Dúvida e desconfiança são sentimentos que não conversam. Suspeitam, interrogam, espionam, acusam e dificilmente dão chance a qualquer tipo de diálogo ou troca.  Esta convivência inquisitória transforma a relação em tribunal, onde o suposto juiz, ao julgar o outro, não têm condições para amá-lo.

Qual o problema do parceiro não saber uma resposta ou não querer responder naquele momento? Isso não faz dele um insensível, pelo contrário.  Pessoas sensíveis sabem que existem coisas que melhor se dizem calando. Talvez o silêncio seja um sinal de respeito pelo sentimento que um ainda nutre pelo outro.

Todos temos nossa herança  "mecânica", entretanto, alguns escolhem saltar fora da engrenagem e arrebatar suas vidas. Se entregam, acolhem, acreditam, confiam, têm fé e acima de tudo, amam. Não precisam de palavras, explicações ou perguntas. 

Sabem que o silêncio pode expressar sentimentos que palavras nunca vão conseguir traduzir.  Um único olhar pode deixar tudo muito claro. Não precisam de tribunal.  Eles sentem....Eles vivem..."

*Ildo Meyer
Médico, palestrante, escritor, filósofo clínico
Porto Alegre/RS

domingo, 25 de agosto de 2013

Uma Arte*


Não é tão difícil dominar a arte de perder;
tanta coisa parece preenchida pela intenção de ser perdida
que sua perda não é nenhum desastre.

Perca alguma coisa todo dia. Aceite a novela das chaves perdidas,
a hora desperdiçada, aprender a arte de perder não é nada.

Exercite-se perdendo mais, mais rápido:
lugares, e nomes e... para onde mesmo você ia viajar?
Nenhum desastre...

Perdi o relógio de minha mãe. E olha, minha última e
minha penúltima casas ficaram para trás.
Não é difícil dominar a arte de perder.

Perdi duas cidades, adoráveis. E, mais ainda, alguns domínios,
propriedades, dois rios, um continente.
Sinto sua falta, mas não foi um desastre.

- Até mesmo perder você (a voz gozada, o gesto que
eu amava) eu não posso mentir. É claro que não é tão difícil dominar
a arte de perder apesar de parecer (pode Escrever!) desastre.

*Elisabeth Bishop

sábado, 24 de agosto de 2013

A Banda*





           


Estava à toa na vida
O meu amor me chamou 
Pra ver a banda passar
Cantando coisas de amor
A minha gente sofrida
Despediu-se da dor
Pra ver a banda passar
Cantando coisas de amor

O homem sério que contava dinheiro parou
O faroleiro que contava vantagem parou
A namorada que contava as estrelas parou
Pra ver, ouvir e dar passagem
A moça triste que vivia calada sorriu
A rosa triste que vivia fechada se abriu
E a meninada toda se assanhou
Pra ver a banda passar
Cantando coisas de amor

O velho fraco se esqueceu do cansaço e pensou
Que ainda era moço pra sair no terraço e dançou
A moça feia debruçou na janela
Pensando que a banda tocava pra ela
A marcha alegre se espalhou na avenida e insistiu
A lua cheia que vivia escondida surgiu
Minha cidade toda se enfeitou
Pra ver a banda passar
Cantando coisas de amor

Mas para meu desencanto
O que era doce acabou
Tudo tomou seu lugar
Depois que a banda passou

E cada qual no seu canto
Em cada canto uma dor
Depois da banda passar
Cantando coisas de amor

*Chico Buarque de Holanda

sexta-feira, 23 de agosto de 2013

Leitor incomum*

   
  
  “(...) Suas palavras chegavam aonde outros não conseguiam.”
                                            Virginia Woolf              

Um dizer protagonista aprecia surgir na vida do texto. Sua mensagem parece se divertir em passar despercebida a primeira vista. A textura inaudita ressoa poesia, musicalidade, convida ao sonho e a fantasia da vida real.

Sua eficácia parece estar associada à multiplicação dos significados, reinvenção dos sentidos, descrição de travessias, num discurso que incita deslizes de autoria própria. Com ele a pluralidade de eventos, personagens se desdobra nas páginas da obra, inicialmente um palco recheado de possibilidades.   

O essencial na essência da leitura parece ser a qualidade da interseção entre autor e leitor. As revisitas ao teor discursivo inicial, recheado de nuanças, brechas, incompletudes, dão boas vindas ao estranhamento dos seus originais. Os momentos de magia restariam perdidos não fosse a palavra duração.    

Uma das suas expressividades é apontar o que não pode ser dito naquilo que se diz. Assim uma apercepção se desenha nos refúgios da folha em branco. Seus acenos convidativos sugerem segredos à deriva nas invisibilidades.   
  
A busca do autor_leitor, ao caminhar pelas entrelinhas de si mesmo, reivindica leituras e releituras para compreender a lógica das fontes. Lugar de onde a poética evidencia rastros ao território introspectivo das originalidades. As páginas diante de si, agora obra reescrita, se institui com as sensações vivenciadas a partir dela, agora outra.

   O leitor surge como co-autor num enredo onde a interseção, impregnada de suas representações, concede novos olhares ao texto de partida. A biografia de cada um pode ser descoberta na escolha dos termos, nos encontros da estrutura significante com as derivações da leitura incomum. Essa prática se aproxima de um saber de periferia, onde já é outro pensar.

A intencionalidade dos rascunhos se oferece ao transbordar da literalidade na palavra transcendência. Fonte de matéria-prima onde a escritura abastece os diários para transcrever suas visões. Ao ser esboço numa arquitetura pessoal, aguarda a palavra mágica capaz de traduzir singularidades. 

*Hélio Strassburger

quinta-feira, 22 de agosto de 2013

Lua semente*


Eis uma lua semente
uma lua inicial
e, com ela,
a abertura de um tempo inaugural.

As sementes estão aí
em muitas mãos e mentes
e, com sincera reverência,
vêm e nos deixam mais conscientes.

Mas mesmo se mentes
mentes ainda existirão
porém, diante das muitas dúvidas,
elas assim resistirão.

Portanto, sê pura mente
e ore por sua florida,
pois nela há variadas chances
iguais e também sortidas.

Tudo isso para dizer
que há semente na mente
pois mesmo com o se,
há nela ainda mente.
E nesta conotação
de uma mente iniciada
em sua própria compleição
esta mesma deve ser regada.

Isso para lembrar no presente
que as sementes tudo geram e perfazem
e nesse ciclo sem fim
há momentos que em si nos comprazem.

Ó Lua, quase sempre poente,
em sua atmosfera tão clara
venha nos dar cadência
de uma beleza fecunda e rara.

*Renata Bastos
Filosofa, astróloga, mestre em filosofia, filosofa clínica
São Paulo/SP

quarta-feira, 21 de agosto de 2013

Ler ou Copiar um Texto*


 O efeito de uma estrada campestre não é o mesmo quando se caminha por ela ou quando a sobrevoamos de avião. 

De igual modo, o efeito de um texto não é o mesmo quando ele é lido ou copiado. O passageiro do avião vê apenas como a estrada abre caminho pela paisagem, como ela se desenrola de acordo com o padrão do terreno adjacente. 

Somente aquele que percorre a estrada a pé se dá conta dos efeitos que ela produz e de como daquela mesma paisagem, que aos olhos de quem a sobrevoa não passa de um terreno indiferenciado, afloram distâncias, belvederes, clareiras, perspectivas a cada nova curva [...]. 

Apenas o texto copiado produz esse poderoso efeito na alma daquele que dele se ocupa, ao passo que o mero leitor jamais descobre os novos aspectos do seu ser profundo que são abertos pelo texto como uma estrada talhada na sua floresta interior, sempre a fechar-se atrás de si. 

Pois o leitor segue os movimentos de sua mente no vôo livre do devaneio, ao passo que o copiador os submete ao seu comando. A prática chinesa de copiar livros era assim uma incomparável garantia de cultura literária, e a arte de fazer transcrições, uma chave para os enigmas da China.

*Walter Benjamin

terça-feira, 20 de agosto de 2013

Significados*


Queridos leitores, que vocês estejam em paz. 

Edmund Husserl, filósofo alemão e fundador da fenomenologia, por intermédio da observação tentou explicar os mitos, os símbolos e os rituais religiosos. Com seus estudos denominados Fenomenologia da Religião, ele conseguiu, em minha opinião, captar, mais do que qualquer outro filósofo, o lado único das experiências religiosas.

Husserl procurou compreender as religiões do ponto de vista do crente e, principalmente, o valor dessas crenças na vida dos religiosos. O que mais gosto de Edmund Husserl é que ele conseguiu escrever sem juízo de valor. 

Dito isso, vou tentar trazer alguns exemplos dessa fenomenologia religiosa para o nosso cotidiano.

Precisamente na montanha do Caravaggio, município de Nova Veneza, onde me criei, há uma bica d’água. Antigamente os agricultores usavam essa água para lavar suas ferramentas e se banhar depois de um dia de trabalho forçado. Anos atrás, uma estrada serpenteou aquele morro e descobriram a tal bica d’água e agora é a passagem para os religiosos que, com suas crenças, vão até o Santuário de Nossa Senhora do Caravaggio. A água corrente passou a ser parada quase que obrigatória e um convite para saciar a sede.

O atento proprietário do terreno levantou no local uma gruta de pedra e colocou uma imagem da Santa. Como num toque de mágica, a água passou a ser benta e a curar, a fazer milagres. O que a deixou milagrosa de uma hora para outra se não pelo significado dado pelos religiosos que por ali passam? Podemos dizer então que ela passou a ter significado porque aqueles crentes deram significado a ela.

A flor pode ser uma confissão de amor se ofertada a um enamorado ou pode ter um significado de saudade se posta sobre uma sepultura. Um par de alianças pode significar casamento ou apenas algumas gramas de ouro nas mãos de um comerciante.

Quando um artista pinta uma tela, ele está colocando o seu significado àquela pintura. Outra pessoa que não conhece a história da obra pode dar outra representação significativa, dependendo do acervo agendado no seu intelecto.

Quando alguém estiver falando de algo, pode ser de mitos e símbolos, para ele isso pode ser sagrado e não cabe a nós julgar se é verdade ou mentira, se é bom ou ruim.

A meu ver, por ora, avalio que se é santo para as pessoas, não cabe a nós profaná-lo.

Lembrando que isso é assim para mim hoje.

*Beto Colombo
Empresário, filósofo clínico, coordenador da Filosofia Clínica na UNESC
Criciúma/SC