quinta-feira, 31 de outubro de 2013

A maioria das mulheres são machistas*


De nada adianta levantar a bandeira do feminismo se não pratica-lo em sua vida e se formos examinar a fundo essa questão vemos que ele está enraizado em nossa sociedade.

Em primeiro lugar devo destacar que as mulheres não se articulam como os homens, existe entre eles um instinto de defesa admirável. Conta-se que uma esposa desconfiou da história que seu marido contou justificando onde havia passado a noite, mulher sente instintivamente o cheio de algo podre de longe, cada mulher conhece o seu homem e os seus sinais deixam claro suas mentiras. 

Então, resolveu ligar para cada um dos seus amigos questionando se era verdade que seu marido havia passado a noite com eles e cada um deles confirmou que o mesmo havia dormido em sua casa, sendo impossível fisicamente que o marido se dividisse ou fizesse um revezamento na casa de cada um deles ela resolveu o problema esquartejando-o! É brincadeira gente, mas é uma história que eu duvido muito que em algum lugar do mundo não tenha de fato ocorrido. Entretanto é de se admirar o instinto de proteção que ilustra essa história, isso sim é muito comum. Um homem, a menos que tenha interesse na esposa do amigo, jamais admitirá um ato que cause repulsa à mulher do seu amigo. O contrário é mais comum de acontecer, sempre que cabe o amigo exalta as qualidades do amigo.

Já as mulheres são desunidas, demonstram isso quando falam umas das outras, mesmo sendo consideradas "amigas", é quase como um hobby julgar as outras mulheres, sejam íntimas ou desconhecidas. A fofoca rola solta nos salões de beleza, desde um simples comentário sobre o cabelo de uma atriz até a confissão de infidelidade do marido de alguém. É menos trabalhoso deixar a "amiga" iludir-se em uma relação em que ela se sinta bem, do que arriscar perder uma "amizade" é daí entramos na questão do valores!

É de conhecimento geral da humanidade o ditado que diz mais ou menos assim: "em briga de marido e mulher, não se mete a colher", homens e mulheres temem "passarem por mal" quando um casal, apesar de tudo, resolve continuar junto e o que ocorre, na maior parte das vezes de fato, é que realmente se perde uma "amizade".

Analisemos mais a fundo essa questão: o marido é infiel, a esposa fica sabendo por alguém que supostamente (já que o interesse pode ser outro...) quer o seu bem e a esposa resolve perdoar por inúmeras razões. No primeiro momento o homem nega, a ordem é: negar até a morte! E tentar por A + B provar que o delator é um louco, sempre tem um louco na história, então que seja o outro e não ele, pois a infidelidade é coisa de gente sã...?

Porém, contra provas não há argumentos, então o homem admite que foi um deslize e que nunca mais vai acontecer, que não significou nada e que a ama, isso pareceria razoavelmente sincero para uma mulher que acha que traição é mesmo comum, do instinto masculino, que já viu muitas pessoas a sua volta perdoar, e que ainda tem um sentimento (obscuro, é claro) pelo marido. Outro dia ouvindo a Rádio Farroupilha com minha mãe a ouvinte pedia conselho a respeito de perdoar ou não a infidelidade do marido, o detalhe é que pedia que fosse chamada de "esposa em dúvida"... Afinal de contas pra que perguntar?! Pra que todo mundo saiba que ela é uma pessoa que não se dá o devido valor?! Para que as mulheres saibam que não estão sozinhas em seus atos!? Eu acho um completo absurdo, porque se ela se intitula dessa maneira ainda, é porque de fato não rompeu sua aliança, para mim parece óbvio que ela irá perdoar independente dos conselhos que escutar.

Depois vem a argumentação dos pais de família: não vamos nos separar porque quero estar perto das crianças... e que belo exemplo de pai, é de uma dignidade sem tamanho...? Essa argumentação devia estar em desuso desde que criaram a guarda compartilhada, no entanto não é isso que vemos. Muitas mulheres se sujeitam a relevar as "escapadinhas" (apelido carinhoso esse) dos maridos em nome dos filhos.

Ainda tem os homens que possuem propriedade sob suas mulheres, pois elas são sustentadas por eles e não querem sair da sua zona de conforto. Essa é a mulher que perde tempo discutindo com o marido sobre a relação se não quer de fato mudar a sua condição já que o que os une é maior que isso ($.$).

Enfim, independente dos motivos que levam um casal a continuarem uma relação "superando" (o que eu acho difícil e doloroso) a traição, é comum o delator figurar como o errado da história nessa nossa sociedade hipócrita onde quem faz as coisas corretas está errado, porque o habitual é fazer o errado.

Contudo, cada um sabe o quanto pode suportar em um relacionamento, eu confesso que já adiei um rompimento por conta das festas de final de ano, outro porque era meu aniversário e assim só adiei aquilo que era inevitável, por outro lado tenho certeza de que me esforcei para fazer dar certo até o fim.

Em um relacionamento sempre se deve levar em consideração que são dois colaboradores, os homens argumentam que as mulheres não fazem determinadas coisas que as outras (adúlteras) fazem, no entanto eles deviam pensar nisso antes de querer comprometer-se em um relacionamento sério.

Eu entendo que não exista justificativa para a traição, seja ela de qualquer natureza, é muito mais digno explicar que não tem mais interesse ou que tem interesse em outra pessoa, é uma questão de respeito não só com o próximo, mas principalmente consigo mesmo. Negar seus desejos (nesse caso) é aniquilar-se, é deixar de arriscar (medo), deixar de tentar ser feliz com outra pessoa, deixar de viver intensamente. No fim das contas o que você faz em vida importa tão somente a ti, se você viveu uma vida digna de acordo com aquilo que era importante pra ti, em que pôde fazer aquilo que te fazia feliz ou seja lá qual o valor mais importante pra ti, é isso o que importa. Fazer ou não o bem para o outro é o próximo passo após aprender o que é o amor de verdade. E se você não tem amor próprio, como pode esperar que o outro possa lhe amar? Se você não se dá o seu devido valor, quem poderá dar?

No momento em que um homem levanta a voz para uma mulher e ela aceita, já começou o machismo, provavelmente ele tenha começado dentro do próprio lar dessa mulher, quando a filha acostuma-se com o pai que levanta a voz para lhe chamar a atenção. A partir da primeira submissão o homem vê que possui um certo domínio (poder) sobre sua vítima e esse é o primeiro passo para a agressão. Ela pode se manifestar de inúmeras formas, até mesmo com relação ao que é sagrado para cada um, quando o homem não admite que a mulher siga uma religião diferente da dele.

Quando a mulher não denuncia uma agressão seja ela física, ou psíquica está fazendo com que esse homem tenha a oportunidade de continuar ileso de suas atitudes. Muitas irão argumentar que de nada adianta registrar queixa, que não acontecerá nada e dirão também que tem vergonha de fazê-lo é isso que faz com que os homens continuem a praticar seus atos repulsivos, pois "não dá nada". Antigamente, quando não existia a Lei Maria da Penha, era mais fácil para os homens, as mulheres registravam suas queixas, faziam as pazes e retiravam as queixas. Hoje a situação se complica bastante para eles, no entanto por mais que a mulher tenha sido ofendida ou agredida, são poucos os registros.

Portanto, se eu puder dar uma dica para as mulheres é que não deixem que ninguém pise em vocês! Eu sei que é difícil, que muitas vezes existem entrelaçamentos que fazem com que nos sujeitemos a determinadas situações. Eu já vivi situações (no trabalho) em que um homem levantou a voz pra mim ou me julgou sem ter razão e confesso que antigamente eu baixava a cabeça, chegava em casa e elaborava tudo o que gostaria de ter dito pra ele naquele momento, mas não dizia. E confesso também que quando aprendi a me amar isso nunca mais aconteceu, hoje eu não permito que alguém tenha autoridade para me julgar inferior a essa pessoa. 

Eu posso vir a perder algo com a atitude de enfrentamento, talvez acabe me machucando ou até morra lutando em defesa da minha dignidade, mas pelo menos o meu respeito por mim mesma continua intacto. Para quem tem uma visão holística é mais fácil perceber que nenhum ser humano deveria valer menos do que outro, todos são criados da mesma maneira. Isso não significa perder a humildade, pelo contrário, trata-se de manifestá-la, pois no momento em que me posiciono em condições equivalentes ao outro consigo demonstrar que ele também tem o seu valor.

Portanto mulheres machistas, afirmo que depende de nós, de cada uma de nós, que nos unamos contra as opressões sofridas e combatamos o machismo em cada pequena atitude cotidiana. Dar-se conta que esse machismo é muitas vezes incentivado por nós mesmas já é um grande passo. Combatê-lo é o que deve ser feito a seguir e passar essa ideia adiante só depende de você.

*Débora Perroni
Professora de filosofia, filósofa clínica
Porto Alegre/RS

quarta-feira, 30 de outubro de 2013

Sobre a caligrafia*


Caligrafia.
Arte do desenho manual das letras e palavras.
Território híbrido entre os códigos verbal e visual.
— O que se vê contagia o que se lê.
Das inscrições rupestres pré-históricas às vanguardas artísticas do século XX.
Sofisticadamente desenvolvida durante milênios pelas tradições chinesa, japonesa, egípcia, árabe.
Com lápis, pena, pincel, caneta, mouse ou raio laser.
— O que se vê transforma o que se lê.
A caligrafia está para a escrita como a voz está para a fala.
A cor, o comprimento e espessura das linhas, a curvatura, a disposição espacial, a velocidade, o ângulo de inclinação dos traços da escrita correspondem a timbre, ritmo, tom, cadência, melodia do discurso falado.
Entonação gráfica.
Tais recursos constituem uma linguagem que associa características construtivistas (organização gráfica das palavras na página) a uma intuição orgânica, orientada pelos impulsos do corpo que a produz.
Assim como a voz apresenta a efetivação física do discurso (o ar nos pulmões, a contração do abdómen, a vibração das cordas vocais, os movimentos da língua), a caligrafia também está intimamente ligada ao corpo, pois carrega em si os sinais de maior força ou delicadeza, rapidez ou lentidão, brutalidade ou leveza do momento de sua feitura.
A irregularidade do traço denuncia o tremor da mão. O arco de abertura do braço fica subentendido na curva da linha. O escorrido da tinta e a forma de sua aborção pelo papel indicam velocidade. A variação da espessura do traço marca a pressão imprimida contra o papel. As gotas de tinta assinalam a indecisão ou precipitação do pincel no ar.
Rastos de gestos.
A própria existência de um saber como o da grafologia, independentemente de sua finalidade interpretativa sobre a personalidade de quem escreve, aponta para a relevância que podem ter os aspectos formais que, muitas vezes inconscientemente, constituem a "letra" de uma pessoa.
O atrito entre o o sentido convencional das palavras (tal como estão no dicionário) e as características expressivas da escritura manual abre um campo de experimentação poética que multiplica as camadas de significação.
Além disso, suas linhas, curvas, texturas, traços, manchas e borrões, mesmo que ilegíveis, ou apenas semi-decifráveis, podem produzir sugestões de sentidos que ocorrem independentemente do que se está escrevendo, apenas pelo fato de utilizarem os sinais próprios da escrita.
O A grávido de O.
Érres e ésses atacando Es.
A multiplicação de agás.
Rios de Us e emes e zês.
Esqueletos de signos fragmentados.
Dança de letras sobrepostas possibilitando diferentes leituras. Paisagens.
Horizontes ou abismos.

*Arnaldo Antunes

terça-feira, 29 de outubro de 2013

A Medicina e os Remédios*


Querido leitor, que você esteja bem. Hipócrates, filósofo grego, foi membro de uma família que, durante várias gerações, praticara a ciência da saúde, por isso é considerado o pai da medicina moderna. Inclusive, é atribuída a ele a frase “que seu remédio seja o seu alimento e que seu alimento seja seu remédio”.

Quando falamos em remédio, você que lê este artigo, provavelmente deve ter lembrado daqueles que compramos nas farmácias. Mas remédio não é só isso. Algumas pessoas, ao passar na casa da mãe e sentem aquele cheirinho de bolacha, de pão que vem do forno a lenha, este cheiro pode ser um saudoso remédio. Já para outras, o simples fato de ouvirem uma música que tem a ver com sua historicidade, pode estar se remediando. Sim! Se estas músicas entram em seus corações acalmando, então se transformou num remédio.

Tem um conhecido meu que sente aquele cheiro adocicado do estrume de gado e logo faz um deslocamento à gostosa infância rural, hoje vivenciada na selva de pedra. Aquele cheiro, segundo ele, o leva a um lugar que ele gosta muito.

Ir à praia, para algumas pessoas, é uma espécie de remédio. Para outras, pode ser fazer uma viagem, degustar um tinto com um amigo querido, abraçar a companheira, tomar um café com filho na cafeteria da praça numa manhã de sábado. Remédio pode ser visitar o neto, a filha, o filho, ir pescar, caminhar no mato, jogar tênis, futebol. Há tantos remédios em nossa história de vida quanto nas farmácias, às vezes, o que aconteceu é que nos esquecemos de tomá-los em doses homeopáticas. Falei isso a um amigo e ele concluiu: Então cada um de nós podemos ser nossos próprios médicos! O que você acha?

Médico é quem deveria fazer a mediação, ou medicação, entre o ser “do-ente” e o ser saudável. Embora existam também as pessoas que são doentes por remédios e até aqueles que se autoremediam. Médico é aquela pessoa que nas culturas eram conhecidos por magos, xamãs, bruxos, curandeiros, benzedores, enfim, eram pessoas que buscavam, cada um do seu jeito, trazer as pessoas para o caminho do meio.

Uma curiosidade. Homem santo, mulher santa, não significa outra coisa senão um homem são, uma mulher sã, pessoas saudáveis. Estes seres humanos santos são entes livres de mazelas, sejam elas físicas, psíquicas ou espirituais.

Outra curiosidade. Em inglês a palavra doença é "disease", onde o prefixo "dis" representa a negação e "ease" vem da palavra "easy", que é traduzida como fácil. Assim, disease passa a ideia de que não está fácil ou não está na normalidade, necessitando então, trazer os pacientes para o caminho do meio.

Que tenhamos sabedoria e conhecimento para viver uma vida mais fácil trilhada no caminho do meio.

Lembrando que isso é assim para mim hoje.

*Beto Colombo
Empresário, administrador, filósofo clínico, coordenador da filosofia clínica na UNESC
Criciúma/SC

segunda-feira, 28 de outubro de 2013

O que eu adoro em ti*


O que eu adoro em ti
Não é a tua beleza
A beleza é em nós que existe
A beleza é um conceito
E a beleza é triste
Não é triste em si
Mas pelo que há nela
De fragilidade e incerteza

O que eu adoro em ti
Não é a tua inteligência
Não é o teu espírito sutil
Tão ágil e tão luminoso
Ave solta no céu matinal da montanha
Nem é a tua ciência
Do coração dos homens e das coisas.

O que eu adoro em ti
Não é a tua graça musical
Sucessiva e renovada a cada momento
Graça aérea como teu próprio momento
Graça que perturba e que satisfaz

O que eu adoro em ti
Não é a mãe que já perdi
E nem meu pai

O que eu adoro em tua natureza
Não é o profundo instinto matinal
Em teu flanco aberto como uma ferida
Nem a tua pureza. Nem a tua impureza.

O que adoro em ti lastima-me e consola-me:
O que eu adoro em ti é a vida!

*Manuel Bandeira

domingo, 27 de outubro de 2013

Que máscara você prefere ?*

                                











Sempre que ando de avião e ouço aquela voz melosa dizendo "no caso de despressurização, máscaras cairão sobre sua cabeça”, penso que o impacto seria maior se o aviso alertasse exatamente o contrário: “em caso de despressurização, a máscara que você está usando, cairá”. Todos nós já utilizamos alguma espécie de máscara e talvez, ao escutar esta frase, nossa atenção se detivesse um pouco mais sobre o assunto. Já imaginou você, seu vizinho, seu patrão, o prefeito, a dona da loja, todos de cara limpa? Impossível.

A palavra personalidade deriva de persona, do etrusco, pessoa, porém, era utilizada para designar as máscaras que os atores utilizavam para representar seus personagens no teatro. Desde o primeiro instante em que o homem passou a conviver em sociedade, precisou aprender a, eventualmente, abrir mão de sua “personalidade” para representar vários papéis, não significando que se transforme em várias pessoas, mas simplesmente formas de se mostrar ao mundo.
     
Precisamos esconder certos instintos, pensamentos, palavras e atitudes para viver em sociedade.  Representamos eventualmente, e dispomos de um arsenal de máscaras para sobreviver em casos de emergência. Não necessariamente artefatos para cobrir o rosto como faziam os atores etruscos.  Máscaras exprimindo posturas diferentes que facilitem o desempenho dos vários papeis existenciais que nos são exigidos – pai, filho, amigo, vizinho,  namorado,  profissional.

Estas oscilações não significam que sejamos falsos ou más pessoas, e sim, maneiras de assumir posturas diferentes adequadas a contextos distintos.  Não vejo problema algum nesta alternância eventual, desde que a essência seja mantida, não ocultem o verdadeiro caráter, e as intenções sejam nobres, pois cumprem papel importante na vigilância dos costumes e organização de uma comunidade. Assim como nos aviões, em caso de emergência, podemos utilizá-las como recurso para nos proteger e beneficiar.

Entretanto, a pior das máscaras, a que me incomoda e que deveria ser banida, é aquela que o lobo veste pele de cordeiro. Pessoas que utilizam seu próprio rosto como máscara para transmitir a impressão de puras, honestas e confiáveis, enquanto acobertam segundas e terceiras intenções. Falam ou agem de uma maneira, porém estão pensando ou sentindo o inverso. Fingem amor, disfarçam felicidade, simulam interesse, aparentam posses, escondem insegurança, sorriem plastificadamente, choram lágrimas de crocodilo, exibem fachadas. Não mostram nem intenção, nem identidade.  Hipocrisia pura. Representação permanente.

A inteligência permitiu ao homem conhecer muito do mundo a sua volta, no entanto, o mundo interior das pessoas continua sendo um grande enigma. Este espaço privado é íntimo e inviolável e só podemos ter acesso a ele, se nossa entrada estiver autorizada e formos convidados. Ainda assim, na melhor das hipóteses, conheceremos apenas a sala de entrada deste castelo. Como então saber quando o outro está sendo sincero ou representando? Como perceber as verdadeiras intenções do outro?

Se tentarmos decifrá-lo através da nossa razão, de nosso modo de pensar, construiremos uma imagem a nossa semelhança, o outro se tornará parecido conosco e o perderemos. Além disto, a compreensão humana recebe influência da vontade e dos afetos, que colorem e contaminam os entendimentos. Os homens acreditam mais facilmente naquilo que gostariam que fosse verdade.

O problema agora já não reside apenas na possível dissimulação do outro. Também somos responsáveis por nos deixar enganar. Sinto dizer, mas esta é mais uma das tantas incertezas da vida que precisamos suportar. Não há escapatória.

Mesmo sabendo que milhões de pessoas enganarão e outras tantas serão enganadas, não vale a pena gastar tempo e energia tentando decifrar os outros. É preciso ter humildade em relação à complexidade da vida.  Se cada um souber dar e usufruir a exata importância dos valores humanos, pelo menos poderemos ser felizes, pois para ser feliz não são necessárias máscaras, para sobreviver sim.

*Ildo Meyer
Médico, escritor, palestrante, filósofo clínico
Porto Alegre/RS

sábado, 26 de outubro de 2013

Apontamentos de poesia e vida*


Tu tens um medo:
Acabar.
Não vês que acabas todo o dia.
Que morres no amor.
Na tristeza.
Na dúvida.
No desejo.
Que te renovas todo o dia.
No amor.
Na tristeza.
Na dúvida.
No desejo.
Que és sempre outro.
Que és sempre o mesmo.
Que morrerás por idades imensas.
Até não teres medo de morrer.
E então serás eterno.

*Cecília Meireles

sexta-feira, 25 de outubro de 2013

Ondas*









Onda represada... no mar repleto de lembranças...
O tempo não passou na memória e ainda dá pra ver...
... a ponte
... o sol de fim de tarde
... o mar sem fim nos olhos esquecidos de saudade...

Quantos mares já não são os mesmos deste momento
No mesmo mar que restou...

A onda que batia nas pedras...
Seu barulho nostálgico... faz eco daquilo que não se foi...
Com as águas do tempo...

E bate...
bate...
bate...
Como a chamar pela impressão marcada
Deixada dentro dos olhos marejados...                                                                                          
*Helena Monteiro
Poetisa, estudante de filosofia clínica
Petrópolis/RJ

quinta-feira, 24 de outubro de 2013

Fragmentos filosóficos, poéticos, delirantes*


"Não é o ângulo reto que me atrai.

Nem a linha reta, dura, inflexível, criada pelo homem. 

O que me atrai é a curva livre e sensual. 

A curva que encontro nas montanhas do meu País, no curso sinuoso dos seus rios, nas ondas do mar, nas nuvens do céu, no corpo da mulher preferida. 

De curvas é feito todo o Universo - o Universo curvo de Einstein."

*Oscar Niemeyer

quarta-feira, 23 de outubro de 2013

Lua trina*


Três são suas fases visíveis

Três também seus movimentos férteis

Ainda três são os Reis Magos.


Nessa trina há rima

Assim, ela vem maestrina

Com sua regência sutil e fina.


Mas cuide para que não sejam levadas ao vento

As criações de tantos alentos

Pois as grandes causas estão em seus rebentos.


Mas para os três primeiros não há rima

Pois neles impera a imparidade

E, de forma fascinante, também sua probidade.


O triplo distribui, espalha, cria

E nesta lua chega e procria

Pró-criação deveria ser então sua oração.


(Mas não há perdão sem coração

Pois nele há também razão

Uma que oferta mesmo sem pão.)


Dezoito foram as linhas

E com esta, vinte (quase uma)

Mas só aqui pode aparecer: que três é também e antes criatura.


Então não sejamos desavisados

Em nossa criação há também ignorância

Mas dela é que pode brotar algo que seja de real pujança


E claro que há alegria diante do três ao cubo

Aqui sua potência encontra-se trielevada

Para tanto, haja reverência e que ela possa ser assim triplicada.

(É bem possível que o que mais queiramos agora seja uma terceira via que estabeleça relações entre antagonismos que apareceram dentro e fora de nós recentemente. A chance aqui se apresenta. Exercitemos, para isso, nossas visões pois, diante dessa possibilidade de encontro, é preciso somente um pouco de paciência para que essa terceira via seja vislumbrada.)

*Renata Bastos
Astróloga, filósofa, filósofa clínica
São Paulo/SP

terça-feira, 22 de outubro de 2013

Chamar a Si Todo o Céu com um Sorriso*


"que o meu coração esteja sempre aberto às pequenas
aves que são os segredos da vida
o que quer que cantem é melhor do que conhecer
e se os homens não as ouvem estão velhos

que o meu pensamento caminhe pelo faminto
e destemido e sedento e servil
e mesmo que seja domingo que eu me engane
pois sempre que os homens têm razão não são jovens

e que eu não faça nada de útil
e te ame muito mais do que verdadeiramente
nunca houve ninguém tão louco que não conseguisse
chamar a si todo o céu com um sorriso"

*E. E. Cummings

segunda-feira, 21 de outubro de 2013

Elogio da Singularidade*



O homem, o que é? Diariamente o homem é definido, ora é um animal dotado de razão, dali a pouco já é um bárbaro que destrói o ambiente em que vive. Qual conceito seria o mais adequado para definir o homem?

O foco está na palavra “conceito”, palavra de origem grega que define todo processo de descrição, classificação e previsão dos objetos do conhecimento. Conceituar o homem quer dizer descrevê-lo, classificá-lo e ter certa previsão sobre ele.

Será que isso é possível? Olhe para o lado: você convive com várias pessoas no seu dia-a-dia. Pense na pessoa que você mais “conhece” e depois tente descrevê-la. Depois de descrever tente classificá-la, como seria? Boa, má, otimista, pessimista, inteligente, ignorante, quais seriam as classes que caberiam a ela, ou seria necessário criar classes para ela?

Por fim, tente prever os comportamentos desta pessoa. Talvez reconheça que em alguns casos até mesmo coisas básicas não são previsíveis. Como se pode arrogar o direito de tentar definir conceitualmente o homem?

Quem sabe seja muito difícil definir o outro. Tente então conceituar a si mesmo, descrever-se, classificar-se e prever seus próprios comportamentos. Há uma gama vasta de pessoas que se espantam consigo mesmas, admiram o próprio comportamento, não sabiam que eram capazes.

Como então, seria possível que eu, que não consigo conceituar a mim mesmo tenho a pretensão de conceituar todos os outros que estão ao meu redor? Um dos grandes exemplos desta dificuldade está em conceituar Deus: o que é? Quem é? Como conceituar? Vários filósofos tentaram conceituar Deus e tiveram sérios problemas, perceberam que a complexidade é muito maior que a capacidade humana de entendimento. Será que o ser humano também não é muito mais do que se tenta conceituar? Bom, mau, pecador, santo, humilde, soberbo, são todos conceitos atrelados a comportamentos e não a pessoas.

Não há nada de mau em um conceito, o problema está em ligar um conceito a uma pessoa. Quando você pega um conceito e liga-o a uma pessoa está personalizando um conceito, tornando-o palpável. A partir deste momento aquele conceito, avarento, por exemplo, passa a ser a própria pessoa e não seu comportamento. Por isso não é recomendável dizer: “Fulano é avarento”.

Ao conceituar a pessoa como avarenta ela pode ser descrita como avarenta, ser classificada como avarenta e ser previsível como avarenta. O ser humano foi reduzido ao comportamento de juntar dinheiro, avarento é um adjetivo, ou seja, um atributo do substantivo.
De comportamento pode-se levar para outras áreas, em alguns lugares pelo mundo o homem é reduzido à sua crença, em outros reduzido a sua cor de pele. Aqui, em nossa região o homem pode ser reduzido ao carro que tem na garagem, à casa que tem na praia ou não tem, às roupas que veste.

Cada ser é único, “inconceituável”, não é possível, por mais tempo e conhecimento que se tenha, conceituar um ser humano, quem dirá “o” ser humano. Alguns filósofos, algumas correntes filosóficas tentaram conceituar o ser humano, muitos acharam ter conseguido completar tal tarefa. Mas, ainda hoje, dois mil e quinhentos anos depois do início da trajetória o homem ainda não foi conceituado adequadamente, um dia talvez.

Ao olhar para seu filho, não o conceitue, classifique ou tente prever seu comportamento, ao contrário, tente se aproximar, conhecer e, quem sabe um dia, você verá seu filho. O conceito é uma sombra nebulosa que cobre o ser e quanto mais forte for o conceito, menos se verá o ser.

*Rosemiro Sefstrom
Filósofo Clínico
Criciúma/SC

quinta-feira, 17 de outubro de 2013

Carta ao Érico*



O nosso modo de ser
- que é tão nosso e por isso
tão humano -
de tal modo, velho Érico, tu o soubeste dizer

que os teus personagens vão,
Todos eles,
andando, andando
por uma terra que não tem
fronteiras,
contando da sua vida
dizendo da sua lida
e juntando o seu calor
vasto e profundo
a essa inquieta esperança
que arfa no peito do mundo.

Érico da terra de todos,
Érico da terra da gente.
Não foi só essa a tua mágica...

Além de tantos personagens,
como soubeste criar amigos,
Érico da gente!

Por isso é que
Ana Terra, o capitão Rodrigo e eu
hoje te enviamos esta carta-poema

*Mário Quintana
** Carta de Mário Quintana ao Érico Veríssimo

quarta-feira, 16 de outubro de 2013

Penso que sempre penso em pensamentos*


Coisas incríveis acontecem na minha cabeça. Sonho coisas que não fazem nenhum sentido, penso em tudo e penso em nada; penso em como pode surgir o pensamento e penso que penso demais. 

Penso que poderia ser um escritor por pensar em muitas coisas, mas penso que posso apenas pôr em textos meus pensamentos. Penso estar fazendo isso ao escrever em uma página de rede social. Tenho até amigos que curtem meus pensamentos! Isso é bom! Ou é apenas mais um pensamento?

Coisas realmente extraordinárias acontecem no meu espírito. Penso que se olhar para dentro, encontrarei as respostas. Ou me encherei de mais pensamentos? Penso ter ouvido de algum pensador que não são as respostas que nos movem, mas perguntas. 

Se esse pensamento é correto, pergunto aonde meus pensamentos vão me levar, pois até agora continuo pensando e não cheguei à conclusão alguma. Porém pensar me faz vivo. É uma evidência realmente clara e distinta, portanto, indubitável do meu ser que pensa pensar em algum pensamento.

Ficar com as dúvidas é realmente bom e instruidor? Penso que talvez seja, porém penso que não me levarão a lugar algum. Mas meu espírito é o espírito de alguém que pensa e o pensamento faz parte do meu próprio ser (ou o é). 

Na verdade penso que seja meu próprio ser essa coisa pensante: sou pensamento em essência e meu caminho existencial é continuar pensando sem chegar a lugar nenhum, afinal por que chegar a algum lugar ao invés de somente pensar? 

*Vinicius Fontes
Filósofo, estudante de filosofia clínica
Rio de Janeiro/RJ

terça-feira, 15 de outubro de 2013

Pequeno Breviário Shawiano*












Não há amor mais sincero que o da comida.
Cabe à mulher casar-se o mais cedo possível e ao homem ficar solteiro o  mais tempo que pode.
A minha especialidade é ter razão quando os outros não a têm.
Quando um tolo pratica um ato de que se envergonha, declara sempre que fez o seu dever.
Quem nunca esperou não pode desesperar nunca.
Uma vida inteira de felicidade? Ninguém agüentaria: seria o inferno na terra.
O pior crime para com os nossos semelhantes não é odiá-los, mas demonstrar-lhes indiferença: é a essência da desumanidade.
Há duas tragédias na vida: uma, a de não alcançarmos o que o nosso coração deseja; a outra, de alcançá-lo.
Os ingleses nunca hão de ser escravos: eles são livres de fazer tudo o que o Governo e a opinião pública lhes permitem fazer.
(Jogo de xadrez) É um expediente tolo para fazer com que pessoas preguiçosas acreditem que estão fazendo algo muito inteligente, quando estão apenas perdendo tempo.
O lar é a prisão da moça e o hospício da mulher.
O martírio... é a única maneira de ganhar fama sem ter competência.
Quem deseja uma vida feliz com uma mulher bonita assemelha-se a quem quisesse saborear o gosto do vinho tendo a boca sempre cheia dele.
Não faças aos outros o que queres que te façam; os gostos deles podem ser diferentes dos teus.
Neste mundo sempre há perigo para aqueles que o temem.
Há apenas uma única religião, embora dela exista uma centena de versões.
Nunca espero nada de um soldado que pensa.
Sou abstêmio apenas de cerveja, não de champanha.
Não gosto de sentir-me em casa quando estou no estrangeiro.

*Bernard Shaw

domingo, 13 de outubro de 2013

Canção na plenitude*


Não tenho mais os olhos de menina
nem corpo adolescente, e a pele
translúcida há muito se manchou.
Há rugas onde havia sedas, sou uma estrutura
agrandada pelos anos e o peso dos fardos
bons ou ruins.
(Carreguei muitos com gosto e alguns com rebeldia.)

O que te posso dar é mais que tudo
o que perdi: dou-te os meus ganhos.
A maturidade que consegue rir
quando em outros tempos choraria,
busca te agradar
quando antigamente quereria
apenas ser amada.

Posso dar-te muito mais do que beleza
e juventude agora: esses dourados anos
me ensinaram a amar melhor, com mais paciência
e não menos ardor, a entender-te
se precisas, a aguardar-te quando vais,
a dar-te regaço de amante e colo de amiga,
e sobretudo força — que vem do aprendizado.

Isso posso te dar: um mar antigo e confiável
cujas marés — mesmo se fogem — retornam,
cujas correntes ocultas não levam destroços
mas o sonho interminável das sereias.

*Lya Luft

sábado, 12 de outubro de 2013

Interseções*












E quando tudo parecer estranho não deixarei de olhar para dentro. Quando a vida se tornar tão fundamental quanto a arte e a filosofia, sentirei um começo de libertação na alma!

E, se por ventura não lembrares de mim, direi que sou amante dos livros e das pessoas descomplicadas.

Pode parecer que sou incoerente para muitos, mas, para tantos outros, sou pura lógica, ainda que um pouco delirante. Eu sinto mesmo, verdadeiramente, excessivamente, demasiadamente! Singularidade!

O mundo me parece mais belo que é, sei que sou um pouco Alice e um pouco madrasta. Sou uma mistura única! Minha paixão dominante é o amor e a expressão...

Vivo a intensidade de cada minuto, seja dormindo ou acordada. Não tolero intersecções negativas na minha vida pessoal!!! Sou fé, vontade, desejo, esperança. Também sou comum, a professora que ensina a cada dia com muita paixão e motivação... Vocação!

*Vanessa Ribeiro
Atriz, dançarina, matemática, filósofa, estudante de filosofia clínica
Petrópolis/RJ