sábado, 31 de maio de 2014

Imaginação*


Querido leitor, que você esteja bem. Nosso tema de hoje é imaginação.

O filósofo Blaise Pascal em sua obra mais conhecida, "Pensamentos", discutia a imaginação, com poucos fundamentos, apenas preocupado em anotar pensamentos sobre o tema. E olha que sua especialidade era matemática. Na visão de Pascal, a imaginação é a força mais poderosa nos seres humanos e também uma de nossas principais fontes de equívoco.

Para o matemático, a imaginação pode ultrapassar nossa razão, pois é ela que nos leva a confiar nas pessoas, apesar do que nos diz a razão. Um exemplo: médicos e advogados vestem-se com distinção, tendemos a confiar neles. Ao contrário, dedicamos menos atenção a quem parece desmazelado, mesmo que suas palavras sejam sensatas e seus exemplos coerentes. Lembrando que isso era assim para Pascal. Ele continua: Embora a imaginação leve a falsidade, por vezes também conduz a verdade, pois se fosse apenas falsa, então poderíamos usá-la como fonte de certeza ao aceitar sua negação.

Blaise Pascal escreve que a imaginação dispõe de tudo. Ela produz beleza, justiça e felicidade, mas como a imaginação, em geral, leva ao equívoco, então a beleza, a justiça e a felicidade que ela produz normalmente são falsas.

Um de seus objetivos era mostrar aos Libertins que a vida de prazer que haviam escolhido não era o que eles imaginavam. Embora acreditassem que tinham eleito o caminho pela razão, eles teriam sido, de fato, iludidos pelo poder da imaginação.

Para os Libertins retornarem à igreja, Pascal criou um argumento conhecido como aposta de Pascal. Aqui ele admitia que não era possível dar bons fundamentos racionais para a crença religiosa, mas tentou oferecer bons fundamentos racionais para se querer ter tais crenças. Consistia em comparar os possíveis ganhos e perdas ao se fazer uma aposta na existência de Deus.

O filósofo argumentou ainda que, ao apostar se Deus não existe, há a possibilidade de perder muito - a felicidade infinita no céu - ou ganhar pouco - um sentido finito de independência nesse mundo. Já a aposta de que Deus existe traz o risco de perder pouco ou a chance de ganhar muito. Assim, seria mais racional, sob esse aspecto, acreditar em Deus.

Ao longo da história, alguns pensadores escreveram sobre a imaginação. Aristóteles, por exemplo, disse que a alma nunca pensa sem uma imagem mental. Já René Descartes afirmou que o filósofo deve treinar sua imaginação para a aquisição do conhecimento. David Hume argumenta que nada que imaginamos é absolutamente impossível. Imanuel Kant defende que sintetizamos as mensagens incoerentes dos nossos sentidos em imagens e depois em conceito usando a imaginação. Dentre todos, a frase de Einstein talvez seja uma das mais simples e profundas: “A imaginação é mais importante que a inteligência”.

É assim como o mundo me parece hoje. E você, o que pensa sobre imaginação?

*Beto Colombo
Administrador de empresas, Escritor, Filósofo Clínico. Coordenador da Filosofia Clínica na UNESC
Criciúma/SC

sexta-feira, 30 de maio de 2014

Estudo 175*


Estar com o rio não é molhar-se na água.
Nem ser leito.
É ser a água e o leito.
E o mar.
E ser as nuvens do céu.

Nosso destino é o que somos. Somos
o destino – o olho d’água
e a foz.
Somos a foz
e o ruído das águas se encontrando.

E as nuvens do céu e o homem
sentado numa pedra. E a pedra.

*Antonio Brasileiro

quinta-feira, 29 de maio de 2014

Nas sombras da minha escuridão*


Sou quem eu sou
Mas não sou quem gostaria de ser.
Penso ser quem eu deveria ser
(À maneira dos outros)
Penso ser aquilo que sou
E penso querer ser somente eu
Sem a influencia de ninguém
Ser quem somente sou
Mas quem sou eu?
Mas o que sou eu?
Esgueiro-me por entre os escombros
De um eu que pensa ser
Quem deveria ser,
Quem gostaria de ser,
Quem sou
E não me encontro em nenhum desses
Quem sou eu?
O que sou eu?
Palavras, pensamentos e atitudes
Não me definem
Por entre os escombros de mim
Procuro uma luz pra entender quem sou
Procuro um lugar além-mim
Uma palavra de definição e fechamento
Percebo que sou modificações
Penso que sou devires
Fervilho elucubrações sobre-mim
Em mim me encontro e me perco.
Mas quem eu sou?
Mas o que eu sou?
Não sou definição
Não sou fechamento
Não sou devir
Não sou modificações
Ou será que sou tudo isso?
Quem eu sou?
O que eu sou?

*Vinicius Fontes
Filósofo Clínico
Rio de Janeiro/RJ

quarta-feira, 28 de maio de 2014

Tabacaria*


Não sou nada.
Nunca serei nada.
Não posso querer ser nada.
À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.

Janelas do meu quarto,
Do meu quarto de um dos milhões do mundo.
que ninguém sabe quem é
( E se soubessem quem é, o que saberiam?),
Dais para o mistério de uma rua cruzada constantemente por gente,
Para uma rua inacessível a todos os pensamentos,
Real, impossivelmente real, certa, desconhecidamente certa,
Com o mistério das coisas por baixo das pedras e dos seres,
Com a morte a por umidade nas paredes
e cabelos brancos nos homens,
Com o Destino a conduzir a carroça de tudo pela estrada de nada.

Estou hoje vencido, como se soubesse a verdade.
Estou hoje lúcido, como se estivesse para morrer,
E não tivesse mais irmandade com as coisas
Senão uma despedida, tornando-se esta casa e este lado da rua
A fileira de carruagens de um comboio, e uma partida apitada
De dentro da minha cabeça,
E uma sacudidela dos meus nervos e um ranger de ossos na ida.

Estou hoje perplexo, como quem pensou e achou e esqueceu.
Estou hoje dividido entre a lealdade que devo
À Tabacaria do outro lado da rua, como coisa real por fora,
E à sensação de que tudo é sonho, como coisa real por dentro.

Falhei em tudo.
Como não fiz propósito nenhum, talvez tudo fosse nada.
A aprendizagem que me deram,
Desci dela pela janela das traseiras da casa.

*Fernando Pessoas 

terça-feira, 27 de maio de 2014

O primeiro passo para compreender a Filosofia Clínica*



O título ideal para um texto desse tipo sobre filosofia clínica, deveria ser Abordagem do que não é possível ser abordado: guia para um texto que não deveria ser escrito. Controverso, não? Mas, nas linhas seguintes, explicitaremos o porquê que um título assim seria justificável.

Para esclarecer nossa proposta, vamos nos remeter a Sócrates (469 a.C. – 399 a. C.) um ateniense que mudou o foco da filosofia Ocidental. Longe de nos determos em longas linhas acerca da história da filosofia, abordaremos apenas alguns traços desse pensador para servir ao fio condutor de nossa reflexão.

Antes de Sócrates, havia pensadores denominados filósofos da natureza, ou seja, suas reflexões estavam voltadas para o todo, o cosmos, a ordem, a origem de tudo o que é. Depois desses pensadores, surge Sócrates inaugurando o pensamento mais antropológico. Ele não escreveu nada, tudo o que sabemos dele foi escrito por seus seguidores, como Platão, ou por opositores, como Aristófanes.

Platão nos mostra que seu mestre andava pelas ruas de Atenas questionando as certezas de seus interlocutores. Em todos os diálogos, essas certezas eram desconstruídas. Mas, Sócrates não dava respostas após tirar seu interlocutor da segurança de suas convicções, e ainda se autodeclarava ignorante com a célebre frase “Sei que nada sei”.

Trata-se, no caso de Sócrates, de um recurso irônico, mas para a filosofia clínica, um princípio metodológico. Chegamos, em parte, ao porquê de nossa afirmação quanto ao título. Se metodologicamente o filósofo clínico não sabe nada, como abordar temas da clínica filosófica quando nada se deve saber acerca, nesse caso, do partilhante?

Trata-se de uma questão cuja resposta não e possível de ser dada em apenas um pequeno texto como este. Mas, para melhor compreendê-la, podemos apontar uma primeira questão a fim de explicitar um principio básico da clínica filosófica. O que é necessário dizer é que o princípio básico para o qual afirmar que nada se sabe é referido à questão da singularidade como referencial básico dessa abordagem terapêutica.

Agora precisamos nos remeter a outro pensador, chamado David Hume (1711-1776) que em seu ceticismo filosófico nos ensina que aprendemos durante nossa experiência de vida a dotar a explicação das coisas com relações causais. Por exemplo, se vimos várias vezes que pela manhã o sol nasce, concluímos que o sol nasce todas as manhãs. Mas, essa aferição, nos diz Hume, é apenas em nossa experiência e nada diz que de fato acontecerá. E o que tem a ver essa, “quase absurda”, afirmação humeana com a filosofia clínica?

Podemos tomar desse ceticismo metodológico que não é o fato de diversas pessoas que apresentam determinados sintomas, terem tidos causas em comum, que todas as pessoas que apresentam os mesmos sintomas terão essa mesma causa comum. Ou seja, quando algum partilhante aparecer no consultório com sintomas característicos ou até “idênticos” aos que o terapeuta já acompanhou, nada indicará que as causas são as mesmas, portanto, o modo como se lidará com esses problemas, também não o será.

Assim, como escrever alguma coisa quando, na verdade, todos os casos clínicos serão absolutamente únicos, irrepetíveis e redundantemente, singulares? Aí está a questão. O que a filosofia clínica nos proporciona são “ferramentas” metodológicas a fim de que possamos recepcionar melhor o que o partilhante nos trás.

Uma vez que o “não saber” é a base metodológica da filosofia clínica, precisamos “saber” ser receptivos ao que esse mesmo partilhante nos trás como sua história de vida, problemas, questões, etc., para que caminhos possíveis, em vista do bem-estar existencial, sejam viabilizados a partir do partilhante e sua interseção com o terapeuta, numa construção compartilhada de sentido e entendimento.

Então, qual seria o primeiro passo para compreender a filosofia clínica? Ouvir!

Ouvir o que ela tem a dizer para que possamos ouvir a nós mesmos – pois o primeiro a ser beneficiado com o conteúdo dessa abordagem, somos nós mesmos ao aprendê-la –, as pessoas com as quais convivemos, uma vez que ao sermos afetados por esse aprendizado, o trazemos para nossa prática de vida e, por fim, o partilhante, que abrirá as portas de seu ser para que possamos, de alguma forma, ajudá-lo – seja qual for o significado do conceito de ajuda que a singularidade do partilhante propicie ao terapeuta viabilizar.

*Miguel Angelo Caruzo
Filósofo Clínico
Juiz de Fora/MG

segunda-feira, 26 de maio de 2014

Menos face, mais look*


Mensagem recebida pelo Facebook: “Fiquei feliz em te ver no restaurante. Estás muito bem!”

Resposta ao amigo: “Querido Carlos, por que não vieste conversar comigo? Somos amigos e eu também ficaria muito feliz em te rever, trocar um abraço e algumas palavras. Dá próxima vez, deixa de lado o computador, a  rede social e senta comigo. Vai ser mais divertido.”

Estamos sendo dominados e virando prisioneiros da tecnologia que nós mesmos criamos. Só que a prisão não é uma cela pequena e escura onde ficamos isolados. Pelo contrário, é uma tela que nos oferece um  universo sem fronteiras, repleto de distrações e amigos virtuais. Podemos com um pequeno computador realizar mil atividades diferentes e concomitantes. Mandar e receber e-mails, mensagens, torpedos, assistir televisão, ver filmes, realizar buscas, namorar, fazer sexo, conectar com pessoas do mundo inteiro.

Entretanto, apesar da suposta liberdade, a pena é a mesma: Isolamento em uma vida pequena, trancada na solidão de uma telinha e amarrada a uma rede social virtual que prefere mostrar fotos e não emoções,  conversa horas sem contato visual, curte sem ao menos ler o que está escrito, cruza por você na rua e nem lhe cumprimenta.  Criamos telefones inteligentes e nos tornamos burros.

Ao abrir o computador, fechamos as portas de nossas vidas e passamos a apreciar a dos outros, que editam e exageram seus momentos em uma rede de auto promoção e felicidade continua.  Por que tudo isto? Quando começou esta tendência?

Talvez no momento em que a felicidade passou a ser uma obrigação pessoal. Ninguém mais tem o direito de se sentir infeliz, isso é considerado uma incompetência social. Ninguém quer se sentir ou ser visto como melancólico.  A necessidade de estar e se mostrar sempre feliz em comemorações, baladas, viagens, restaurantes, está produzindo depressivos e ao mesmo tempo excluindo-os.

Para escapar deste mal, procura-se freneticamente tapar os prováveis buracos de uma vida vazia e sem sentido espiando a vida dos outros ou se auto promovendo. É um ciclo sem saída, quanto mais desperdiçamos o tempo nas redes, menos nos sobra para viver e mais dependentes ficamos de postagens nas redes sociais.

Perceberam como dizer “te amo” pela internet é fácil? Ficou banalizado dizer que se ama. Basta digitar, apertar um botão e enviar. É preciso amar as pessoas como se não houvesse internet, ferramenta que aparentemente aproxima, mas na verdade é um abismo emocional. Conecta, mas à distância. Junta, mas nem tanto. Ama, mas não sente.

Era uma vez um casal que não tinha internet. Ele vendeu seu computador e comprou um par de alianças. Ao invés de curtir postagens, amavam-se. Não precisavam dizer para centenas de pessoas o que fizeram, compartilhavam entre si. Tinham um velho computador, mas o utilizavam como livro, e não como um amigo. Sobrava tempo para abraços, sorrisos, calor dos corpos, brilho no olhar, toque de pele, pulsar dos corações. Estavam “on line” para amar. Não sei se viveram felizes para sempre, mas se curtiram um monte.

Será que estamos buscando alguma coisa nos outros por estarmos carentes de nossas próprias emoções? A vida é feita de desafios, um deles é se desligar do computador e se ligar nas pessoas, na vida e em nós mesmos. Quer ser meu amigo? O mínimo que espero é um abraço apertado.

*Ildo Meyer
Médico, escritor, palestrante, filósofo clínico
Porto Alegre/RS 

domingo, 25 de maio de 2014

A que bebeu poesia*


A louca que passa
Deixou na vidraça
Um olhar que no fundo
Tem muita desgraça.

Será minha mãe
A pobre da louca
Que nada mais tendo
Conserva a ternura?

Será minha noiva
Que louca ficou
Depois que parti
No barco da guerra?

Será minha filha
A louca do bairro
Que a vida judiou
Depois que morri?
                 
Ou foi a poesia
Que a louca bebeu
Que lhe deu esse ar
De ser doutro mundo?

*Prado Veppo.

sábado, 24 de maio de 2014

Fragmentos de Poesia e Vida*


Não me prendo
escrevo sem rima e
sem métrica
vou sentindo
no papel virtual
teclando
expiro sensações
retalhos e fragmentos
de sonhos e desejos
deixo de lado
sem medo
normas e regras
e me lanço
no espaço da tela vazia
faço e desfaço
das linhas
coloco meu porvir e devir
sou poeta
corre em minhas veias
sons que surgem
da alma e gritam
para se atirar
no mundo
e se libertar da forma
que me limita e
escraviza!

*Rosângela Rossi
Psicoterapeuta, escritora das Academias de Letras de Juiz de Fora/MG e Cabo Frio/RJ, Filósofa Clínica
Juiz de Fora/MG

sexta-feira, 23 de maio de 2014

Os buracos do espelho*


o buraco do espelho está fechado
agora eu tenho que ficar aqui
com um olho aberto, outro acordado
no lado de lá onde eu caí

pro lado de cá não tem acesso
mesmo que me chamem pelo nome
mesmo que admitam meu regresso
toda vez que eu vou a porta some

a janela some na parede
a palavra de água se dissolve
na palavra sede, a boca cede
antes de falar, e não se ouve

já tentei dormir a noite inteira
quatro, cinco, seis da madrugada
vou ficar ali nessa cadeira
uma orelha alerta, outra ligada

o buraco do espelho está fechado
agora eu tenho que ficar agora
fui pelo abandono abandonado
aqui dentro do lado de fora

*Arnaldo Antunes

Residência*


Para que partir
se meu lugar contém
todos os lugares?

O que está longe não existe
e em todo lugar é a mesma dor.

Inútil partir, viajar, desesperar...
Toda geografia é interior.

*Hildeberto Barbosa Filho

quinta-feira, 22 de maio de 2014

A palavra mundo*



"As palavras são instrumentos de atos úteis, de modo que nomear o real é cobri-lo, velá-lo com familiaridades. (...) Para rasgar os véus e trocar a quietude opaca do saber pelo espanto do não-saber é preciso um 'holocausto das palavras'."
                                  Jean-Paul Sartre

Uma poética se anuncia num esboço de captura às múltiplas verdades. Nesse horizonte nem sempre coerente, a pessoa encontra um chão para integrar-se e experienciar suas possibilidades existenciais.
 
Ao ser a visão de mundo inseparável da subjetividade que a oferece, as formas da expressividade tentam obter o maior ângulo possível. Nela o teor dos termos agendados denuncia até onde se pode chegar.

Um pouco antes dos movimentos de rebeldia, a linguagem, em vias de se ultrapassar, costuma emitir dissonâncias. Uma dessas características é o excesso de equívocidades discursivas, as quais, nem sempre se traduzem ao dicionário conhecido.

O sentido de ser sem sentido surge como afronta, sedução ou promessa, um endereço existencial para transgredir anterioridades. Ainda quando transcende na direção de alguém, em busca de acolhimento e compreensão, o sujeito se apresenta num contexto determinável.

A palavra mundo exibe uma predisposição à vida, sua existência começa, se desenvolve e se conclui com ela. Sua voz se confunde com o sujeito que a pronuncia.

Assim, ao reconhecer nesse dialeto um espaço de enigmas, desafios, zonas de conforto e contradições, é possível, na cumplicidade do vocabulário, enunciar os contornos dessa fonte. Nesse sentido, parece não haver amanhãs sem esse instante a desalojar outros instantes.

 É comum a associação nalgum endereço_refúgio, onde o desenvolvimento do novo horizonte possa acontecer. Num diálogo da estrutura de pensamento com seu entorno, a palavra mundo existe em tempo próprio. Essa percepção descreve a natureza inteira num único representante.

A vastidão circunscrita à um só olhar aprecia multiplicar-se no imenso espelho diante de si mesmo. Nesse cotidiano impregnado de originais pode se cogitar: o que se refugia naquilo que se revela ?

*Hélio Strassburger
Filósofo Clínico não-filiado a ANFIC

quarta-feira, 21 de maio de 2014

Descartes e a Filosofia Clínica*


Descartes foi um filósofo francês da modernidade. Segundo os estudos de historiadores da filosofia, foi ele quem inaugurou esse período. Mas que tem isso a ver com a Filosofia Clínica que é totalmente contemporânea? Um dos métodos estabelecidos por Lúcio Packter para a clínica propriamente dita é a epoké cética por parte do Filósofo Clínico. A suspensão dos juízos (epoké) é o que garante a subjetividade da construção de mundo do Partilhante e o que possibilita uma clínica bem sucedida. Descartes se vale desse método para encontrar sua primeira verdade indubitável: penso, logo existo.

Na Filosofia, chamamos o método cartesiano de “dúvida hiperbólica”, porque ele duvida de TODO o conhecimento por ele adquirido durante toda sua vida. Em Clínica, não duvidamos do conhecimento por nós adquirido. Pelo contrário, temos que tê-los sempre em nosso auxílio. Porém, nos utilizamos da suspensão dos nossos juízos para entendermos a Representação (Schopenhauer) dos nossos Partilhantes. É a partir do mundo do Partilhante que trabalhamos e não a partir do nosso mundo. Se colocarmos a nossa Representação, estaremos induzindo-o a pensar como nós e não é o que queremos.

O método adotado por Descartes nos ajuda a encontrar um caminho seguro para seguirmos em Clínica, a nossa verdade indubitável: o mundo é Representação. A partir dessa verdade trabalharemos em Clínica, tendo em mente que é sempre a visão de mundo do Partilhante que nos interessa. A nossa visão de mundo não pode ser colocada para ele, pois ele só entende sua própria Representação. Porém, é muito difícil ir ao mundo existencial do outro sem colocar nossas representações de mundo, mas é necessário.

“Penso, logo existo” é o alicerce segundo o qual o filósofo francês vai edificar toda sua filosofia. “O mundo é Representação” é o substrato segundo o qual o Filósofo Clínico vai qualificar sua interseção com o Partilhante para, a partir daí, buscar o conforto existencial pretendido por quem o procura. A pura e integral alteridade é extremamente necessária para que possamos entender por completo a Representação daquele que nos partilha sua vida, entendendo alteridade como ir ao mundo do outro sem interferir nele.

O método de suspensão dos juízos é necessário também para que possamos nos aprofundar na alteridade e descobrir as causas, motivos, razões ou circunstâncias do sofrimento daquela singularidade que está à nossa frente. Desculpem-me pelo pleonasmo, mas foi necessário para frisar bem o que queremos, enquanto Filósofos Clínicos, na construção compartilhada que se faz em Clínica: identificar e ajudar a desatar os nós de sofrimento.

*Vinicius Fontes
Filósofo Clínico
Rio de Janeiro/RJ

terça-feira, 20 de maio de 2014

Quem é o cara?*


A motivação primeira de quem faz um curso ou oficina de criação textual é muito simples: o intuito é o de averiguar a real qualidade dos escritos que talvez há muito tempo o nosso iniciante venha fazendo em segredo e com certa vergonha, como se cagara, para lembrar a metáfora de João Cabral de Melo Neto.

Esse ímpeto é mais poderoso do que, por exemplo, ampliar os conhecimentos sobre a arte da poesia. Enfim, a maioria quer saber se têm jeito pra coisa. Se o que escreve presta ou não. Infelizmente, não há resposta cabal para essa angústia.

Primeiro porque, como afirma W. H. Auden, o percurso textual do verdadeiro artista denuncia um progressivo senso de dúvida. Isto é, quanto mais experiência ele adquire mais incerto o nosso herói se sente com relação à qualidade e ao alcance do seu trabalho. Mesmo a palavra do “ministrante” (expressão terrível), não será inteiramente de confiança. 

Muitos autores consagrados falharam na avaliação de sujeitos que iniciavam suas carreiras literárias. O mergulho no acervo da tradição e a rivalidade virtuosa que se estabelece entre os iguais potencializam o sentimento de incerteza em relação a nós mesmos e ao alheio.

E, segundo, porque a prerrogativa de tal aferição, fica a cargo da recepção (o sistema literário, no nosso caso) e do tempo. A recepção às vezes é perversa. Há uma dialética um tanto tensa entre os interesses dos grupos envolvidos, as contingências históricas e o transcurso mais demorado do tempo onde as coisas se decantam.

Dois exemplos relativos à difícil avaliação da qualidade de um trabalho artístico: Kafka e Arthur Bispo do Rosário.

O primeiro pediu para que depois de morto seus papéis fossem queimados. Não foi atendido. O artista brasileiro, um indigente negro acolhido num manicômio, é guindado, contra a sua vontade, à categoria de criador de vanguarda; Bispo do Rosário dizia que seus mantos não eram arte, mas coisas sagradas cuja realização tinha a ver com uma missão divina. Ninguém deu a mínima. E muitos ganharam grana com as obras do sacerdote alienado.

Quem estava com a razão?

*Ronald Augusto

segunda-feira, 19 de maio de 2014

Não deixe sua menina ir embora*


Os amores são diferentes e são necessários, mas escolher viver só, com a sua companhia, é um direito seu. Viver só, sem o amor de um homem, não faz parte dos seus planos de vida? Não tem nada de errado nisto, nascemos homem e mulher côncavo e convexo para formarmos par. Ajusta-se aqui, recorta-se ali e um dia encaixamos.

Acontece frequentemente. Muitas mulheres depositam na relação com um homem, toda a sua perspectiva de felicidade. – O outro deve me fazer feliz. – Acontece com os homens também, aliás, até muito mais com eles, entretanto, a capacidade deles em disfarçar melhor esta necessidade é algo de se tirar o chapéu.

Cuidar da própria vida pode ser um bom caminho para a convivência. Acredito de verdade que é aí que os casais erram. Um quer cuidar da vida do outro e nenhum quer se cuidar para o outro e assim manter o encantamento.

No sexo, onde de verdade o amor se manifesta, onde a expressão do desejo confirma a vontade de permanecer ao lado da pessoa amada independente dos acontecimentos, das influências e das condições do entorno, porque sim, um casal apaixonado não enxerga problema em nada, parceiros se descuidam e deixam correr solto o cordão de ouro que os manteria unidos por toda uma vida.

Leviandade falta de retidão, conceitos pré-concebidos, desestruturação e vaidade induzem os casais a buscarem fora do mundo deles, as alegrias que um dia justificou a sua união. Beijo na boca, nem pensar. De língua?

Não falo só dos casados não. Esta busca por satisfação através do novo vem acontecendo, de uma maneira surpreendente, entre os noivos e namorados também. Casais que planejam se casar, já se traem. Tenho visto isto com muita frequência e confesso que é difícil entender sem uma análise mais profunda do perfil da pessoa que age assim. De relance, não dá para explicar porque alguém que ainda nem se casou e faz planos de se casar, busca em outras pessoas, clandestinamente, prazer, amizade, diversão e até amor. Porque ele vai se casar com o outro então? Analisando, existem questões muito complexas para relatar aqui, mas a coisa se explica e eu até poderia pontuar algumas questões que justificam tal atitude, mas isso é coisa de consultório, deixa pra lá.

Mas, voltando ao cerne da questão. Como uma mulher, que sempre fez a parte dela, que não deixou “a peteca cair”, pode sobreviver ao fim de um amor que ela julgava ser, apaixonado, quente, bom, sincero, honesto, companheiro. Como? Ela queria acreditar nisso até o fim. Palavras foram ditas. Onde estão as rosas da mesa do bar? As mensagens enviadas de madrugada? Os ímpetos para o amor? De repente o gelo do polo sul e surpreendentemente, o calor que deveria ser seu, é dado de bandeja, sem exigências e sem referências a outra pessoa, só porque tudo ali parece ser azul.

– Doutora, onde foi parar a paixão? Eu não estou nem aí pra este posto de esposa… Dá pra quem quiser. Eu quero o quente do amor. Eu não posso admitir um casamento de aparências, não cabe em mim. Vou ter que ter um amante? Vou ter que repetir os erros dele? Vou ter que começar tudo de novo? Como posso aguentar isso? Como posso aceitar que o amor acabou? Como vou sobreviver?

Como alguém pode aguentar isso? Cuidando da própria vida em todos os sentidos. Cuidando do espírito. Se fazendo cada dia mais bela e atraente, buscando se auto afirmar cada dia mais e mais nas suas certezas. Tendo as suas certezas. Sendo dócil leve e perfumada. Banho de leite é melhor que banho de vinagre. O sofrimento é inevitável e até saudável. Viva este luto e tão logo seja possível, ressurja maior. Tente perdoar, perdoe os seus erros, a sua contribuição para o fim da relação, perdoe os erros do outro. Isto da um alívio danado.

Agir com inteligência e independência. Não se vitimizar. Jamais perder a candura e a crença na sua capacidade de amar. Deixar-se sempre pronta para um novo amor e enquanto ele não chegar se amar apesar de tudo. Não se deixar secar, não se deixar fechar.

“Se amar apesar de tudo”, pode conduzir a mulher a todas as ações que eu citei acima, naturalmente. Este é um processo simples, desde que concebido com sinceridade. Nada disso valerá se for feito com o intuito de se vingar ou simplesmente de impressionar alguém, como arma de sedução. Errar é humano. Preste atenção onde você errou e procure não repetir. Faça a sua parte, continue, não desista. Reconheça o seu valor, o universo vai mandar alguém que reconheça também e se não mandar, não negue a sua existência.

Não deixe a sua menina ir embora.

*Jussara Hadadd
Terapeuta sexual, Filósofa Clínica
Juiz de Fora/MG

sexta-feira, 16 de maio de 2014

Conversar*


Em um poema leio:
conversar é divino.
Porém os deuses não falam:
fazem, desfazem mundos
enquanto falam os homens.
Os deuses, sem palavras,
jogam jogos terríveis.

O espírito desce
e desata as línguas
porém não pronuncia palavras:
diz fogo. A linguagem,
pelo deus incandescida,
é uma profecia
de chamas e um colapso
de sílabas calcinadas:
cinzas sem sentido.

A palavra no homem
é filha da morte.
Falamos porque somos
mortais: as palavras
não são signos, são anos.
Ao dizer o que dizem
os nomes que dizemos
dizem tempo: nos dizem,
somos nomes do tempo.
Conversar é humano.

*Octávio Paz

quinta-feira, 15 de maio de 2014

Poéticas do existir*


Bate o silenciar
Quietude da vastidão
Gravidez do espirito
Bate o recolhimento
Quietude criativa
Gravidez da alma
Grávida quietude bate
Talvez a espera do porvir
Efêmera fresta no limite
A fim de parir o indizível
E, encontrar o amoral
Nas entrelinhas do existir!

*Rosângela Rossi
Psicoterapeuta, Escritora, Filósofa Clínica
Juiz de Fora/MG

quarta-feira, 14 de maio de 2014

Convite a viagem*


Existe um país soberbo, um país idílico, dizem, chamado Cocagne que eu sonho visitar com uma velha amiga. País singular, nascido nas brumas de nosso Norte e que poderia se chamar o Oriente do Ocidente, a China da Europa, tanto pela sua calorosa e caprichosa fantasia quanto por ela, paciente e persistentemente ser ilustrada por sábias e delicadas vegetações.

Um verdadeiro país de Cocagne, onde tudo é belo, rico, tranqüilo, honesto; onde o luxo se compraz em se ver em ordem, ou a vida é livre e doce de se respirar; de onde a desordem, a turbulência e o imprevisto são excluídos; onde a bondade está casada com o silêncio; onde a própria cozinha é poética, rica e excitante ao mesmo tempo; onde tudo se parece contigo, meu anjo.

Conheces essa doença febricitante que se apossa de nós nas gélidas misérias, essa nostalgia de um país que ignoramos, essa angústia vinda da curiosidade? É um lugar que se parece contigo, onde tudo é belo, rico, tranqüilo, honesto; onde a fantasia construiu e decorou uma China ocidental, onde a vida é doce de se respirar, onde a felicidade está casada com o silêncio. É lá que se precisa ir viver, é lá que se precisa ir morrer.

Sim, é lá que se precisa ir respirar, sonhar e esticar as horas para o infinito. Um músico escreveu o Convite à Valsa, quem comporá o Convite à friagem, que se possa oferecer à mulher amada ou à irmã preferida?
Sim, é nessa atmosfera que seria bom viver — lá onde as horas mais lentas contêm mais pensamentos, onde os relógios marcam a felicidade com a mais profunda e a mais significativa solenidade.

Sobre as telas brilhantes ou sobre os couros dourados, de sombria riqueza, vivem, discretamente, as pinturas beatas, calmas e profundas como as almas dos arriscas que as criaram, Os sóis poentes que cobrem tão ricamente a sala de jantar ou o sabão são amenizados pelos belos tecidos ou por altas janelas trabalhadas divididas pelas esquadrias de chumbo em numerosos compartimentos, Os móveis são vastos, curiosos, bizarros, armados de fechaduras com segredos, como as almas refinadas. Os metais, os espelhos, os tecidos, a ourivesaria e a faiança tocam para os olhos uma sinfonia muda e misteriosa; e de todas as coisas, de todos os cantos, das frestas das gavetas e das pregas dos tecidos emerge um perfume singular, um retorne de Sumatra, que é como a alma do apartamento.

Um verdadeiro país de Cocagne, digo-te, onde tudo é rico, limpo e luminoso como uma consciência pura, como uma magnífica bateria de cozinha, como urna esplêndida ourivesaria, como uma joalheria multicor! Os tesouros do mundo inteiro afluem, como na casa de um homem trabalhador que bem os merece. País singular, superior aos outros, como a Arte é em relação à Natureza reformada pelo sonho, onde é corrigida, embelezada e refundida.

Que eles procurem, que pesquisem mais, que recuem sem cessar os limites de sua felicidade, estes alquimistas da horticultura! Que proponham o preço de sessenta e de cem florins na solução de seus ambiciosos problemas! Eu encontrei minha tulipa negra e minha dália azul!

Flor incomparável, tulipa reencontrada, dália alegórica, está lá, não é?, nesse belo país tão calmo e tão sonhador que seria preciso ir viver e florescer Não estarias enquadrada em tua analogia e não poderias mirar-te, para falar com os místicos, em tua própria correspondência?

Sonhos! Sempre sonhos! E quanto mais ambiciosa e delicada é a alma, mais os sonhos se afastam do possível. Cada homem leva em si sua dose de ópio natural, incessantemente secretada e renovada, e, do nascimento até a morte, quantas horas temos nós de alegria positiva e de ações bem-sucedidas e decididas? Viveremos nós, por acaso, passaremos nós alguma vez nesse quadro que meu espírito pintou, esse quadro que se parece contigo?

Esses tesouros, esses móveis, esse luxo, essa ordem, esses perfumes, essas flores miraculosas, és tu. Es tu, ainda, esses grandes rios, esses canais tranqüilos. Esses enormes navios que os singram carregados de riquezas e de onde provêm os cantos monótonos das manobras, são estes meus pensamentos que dormem ou rolam sobre teu seio. Tu os conduzes docemente em direção ao mar que é infinito, a refletir as profundezas do céu na limpidez de tua bela alma; e quando, fatigados pelas vagas e saciados dos produtos do Oriente, eles retornam ao porto natal, são ainda meus pensamentos enriquecidos que voltam do infinito para ti.

*Charles Baudelaire