quinta-feira, 31 de julho de 2014

A Terceira Caverna (Platão)*


Ah, o mito da caverna de Platão. Conhecido por por muitos. Nem sempre bem compreendido por mim. Homens vivendo em cavernas. Conheciam apenas o reflexo das coisas. Suas sombras projetadas nas paredes. Contornos de fantasmas da realidade.

O conhecimento mais completo se daria pelo contato com a realidade. Mostrada pelo brilho da luz do sol. Pela claridade mesma das coisas. E viva o sol!!! E o sol subiu ao intelecto. Cristalizou-se sobre as coisas. E deu curto-circuito.... Seria tudo tão simples assim?

A claridade excessiva ofuscou meu conhecimento. A máxima brancura cegou minhas vistas. E o conhecimento envaideceu-se de si mesmo.... Andou pelas margens da desrazão.

Mais filosofia. Outra filosofia, por compaixão. Oh, Sócrates venha em meu auxílio. Quanto mais avança o conhecimento, mais se abrem as lacunas de um novo não-conhecimento.... Imagino-me pelo caminho: morando na caverna, com suas sombras. Andando pelo mundo, ofuscado por excessos de claridade. O intelecto e a razão exercendo seus imperialismos sobre as coisas.

Aqui estou eu agora. Procurando por uma terceira caverna. De conhecimentos sem definições certeiras. Um novo aconchego a cavernas com contemplações e representações mais significativas.

*José Mayer
Filósofo, Estudante de Filosofia Clínica
Porto Alegre/RS

quarta-feira, 30 de julho de 2014

Piglia aprisionado*


          Tento escrever meu terceiro romance. A experiência é aflitiva: imitando a improvável domesticação dos animais selvagens, lido com um material que, à minha revelia, a toda hora se transforma e se rebela. Em definitivo: não sou eu quem comando. É muito doloroso aceitar isso. Aceitar que escrever uma ficção é, quase sempre, uma experiência fora de controle. Que o livro segue seu próprio caminho, em absoluta indiferença para com seu autor. Que, quanto mais avançamos, mais contato perdemos.

          Encontro consolo lendo uma entrevista de Ricardo Piglia publicada na revista "Otra Parte". A entrevista se chama: "A narração como iminência do fecho". O remate, ou conclusão, é o enervante destino de qualquer relato. É nele - é a partir dele - que toda a narrativa se desenha e encontra sua forma. Que toda narrativa se forma. "Penso que teríamos que partir da ideia do fecho como lugar de cruzamento entre experiência e literatura". É ali, onde o real enfim se impõe, que um autor ganha uma assinatura e um texto recebe, enfim, sua legitimidade. É ali, na conclusão, que tudo se organiza e ganha corpo.

          Por outro lado, prossegue Piglia, devemos entender o fecho como "uma espécie de constrição, no sentido do Oulipo, isto é, uma condição da forma". Oulipo foi um grupo literário francês que pregou o estabelecimento de regras rígidas como condição essencial para a escrita literária. O Houaiss define a contrição como "uma pressão circular que faz diminuir o diâmetro de um objeto". É essa pressão final, como o arremate de um costureiro, a alinhavada final, que acomoda e organiza toda a dispersão anterior. Até chegar ao fecho, toda a experiência do escritor é de desorganização. É de caos. Só o destino final empresta à ficção sua face. Chega-se, então, nos diz ainda Piglia, não a um sentido abstrato, mas "ao sentido para o sujeito mesmo". Ali uma autoria se ergue e se impõe. Ali o caos se represa e é contido na barreira de um sujeito. O sujeito da ficção. 

          Mas a parte que mais me interessa _ que mais me consola _ na entrevista de Ricardo Piglia é aquela em que ele admite seu absoluto descontrole sobre sua escrita. Cheio de coragem, ele nos diz: "Nunca termino de escrever a história que está na origem da narrativa que escrevo. Sempre estou escrevendo uma história que se converte em outra e a ficção toma uma forma que não estava prevista". O autor pensa que escreve um relato e escreve outro. Pensa que caminha em uma direção, quando na verdade marcha na oposta. Tudo isso é motivo de muita angústia. É a aceitação dessa angústia, porém, que conduz à ficção.Essa experiência de descontrole - que todo escritor sempre experimenta _ é, na verdade, a condição de sua escrita. Sem ela, ninguém escreve.

          Só porque se descontrola e se perde um autor chega a escrever. Só porque não sabe onde está ele encontra, enfim, seu lugar e sua autoria. Essa aflição primordial exige do escritor uma grande paciência. Precisa suportar a cegueira na qual trabalha. Precisa estar disposto a arriscar-se em caminhos que desconhece. Precisa, enfim, se dar uma intensa dose de liberdade interior, ou a escrita emperra. O mais difícil não é, portanto, escrever, mas se conceder essa liberdade. Por isso mesmo, liberdade podia ser o outro nome da ficção.

              Curiosa liberdade, que exige que se passe antes pela experiência de aprisionamento. Mas não podia ser de outra maneira. A liberdade não é tudo, não é ter tudo. A liberdade é a possibilidade de escolher e acessar uma forma. De tomar uma posição, e não outra. O aprisionamento - o limite -, portanto, é condição primordial da liberdade. Sem essa experiência do limite - sem essa experiência da contrição _ ninguém consegue traçar um corpo, seja ele físico, ou literário. Prisão e liberdade estão, por fim, intimamente associadas. Só depois de atravessar uma prisão, um escritor pode encontrar a posse de si mesmo.

*José Castelo 

terça-feira, 29 de julho de 2014

Travessias*

 

Dê-me tua mão, te ensino a dançar.
Dê-me tua mão, esteja comigo na travessia do vale escuro
Ao tempo em que executo meus desejos apesar das turbulências,
No espaço em que meu corpo é o obstáculo, não só para a alma.
Creia na minha história e invente outras.
A ciência e as explicações não adiantam mais.
Emoções danificadas se encontram.
Trajetórias semelhantes, realidades paralelas.
Mesmo biorritmo,
Buscas e formação em comum.
Mas, se o conjunto é mesmo maior do que a soma das partes,
A união eclipsa/ameaça a estrutura singular?
A interseção, nesse caso, é um terceiro
Não alheio às constituições de cada um;
Triângulo do fogo em graça.

*Vânia Dantas
Filósofa Clínica
Brasília/DF

segunda-feira, 28 de julho de 2014

Dédalo da alma*


                                                                                          
Labirintos são intrincadas construções arquitetônicas que mudam de forma a cada instante, de acordo com o ponto de vista dos que neles se aventuram: são, portanto, construções de caráter instável. O indivíduo que adentra um labirinto nem sempre se dá conta de que encontrar a saída pode ser algo complexo.
        
A argumentação em relação aos espaços labirínticos tem como ponto de partida o labirinto mitológico grego, construído para  asilar um ser emblemático. Essa criatura foi um filho bastardo de Pasífae, que era esposa do rei Minos, com um Touro que fora núncio pela majestade do mar, Poseidon, com o intuito de punir o rei através do adultério da rainha.
        
Por conseqüência, Pasífae acabou concebendo a um ser meio homem, meio touro: o Minotauro. Na medida em que ele crescia, teve que ser aprisionado no labirinto, uma construção projetada por Dédalo. Tratava-se de um ser híbrido, não só por sua compleição física, mas como criatura que não pertencia nem ao mundo dos homens, nem à esfera divina. O Minotauro tinha que se nutrir de púberes, que eram arremessadas ao labirinto.

Os banquetes à criatura configuravam-se, também, como cerimônias de sacrifício aos deuses. Teseu, filho de Egeu, rei de Atenas, ofereceu-se para ser lançado ao labirinto, pois seu desígnio era eliminar o monstro e deliberar as rixas entre gregos e cretenses. Sua apaixonada, a filha do rei Minos, Ariadne, forneceu-lhe um novelo de lã para auxiliar a tirá-lo do labirinto. Ao conseguir seu intento, que era o de exterminar a criatura, Teseu deparou o caminho de volta, soltando o fio de linha que havia desenrolado do novelo, enquanto adentrava o labirinto. Podemos proferir que essa é uma sinopse de convergências, das mais diversas variantes desse mito.
       
 Evocado por esse mito, o labirinto é levado à condição de questão existencial, um ponto de partida. Isso exige do investigador certo esforço, certa concentração para que, em cotejo com o labirinto, possa fazer e refazer os vários percursos, ora confrontando, ora dialogando, ora justapondo sua própria existência e perpetrando através desse olhar, a recontextualização de sua intrincada singularidade, em sintonia com seu universo labiríntico.
        
Existem dois tipos de labirinto: os unicursórios e os multicursórios. O modelo unicursório é constituído por um único caminho que leva ao centro, enquanto que o multicursório possui diversos caminhos e, por tal, envolvem escolhas. O modelo multicursório requer o uso da intuição em oposição ao unicursório que clama racionalidade. Podemos traçar um paralelo do modelo multicursório com a própria existência, onde inúmeros caminhos são ofertados a cada momento, exigindo do caminhante coerência interna com os ditames de sua alma.
        
Se estabelecermos uma analogia, podemos proferir que o fio de Ariadne é propiciado pela existência ao caminhante, através das múltiplas proposições dos desígnios do caminho.
        
Ao seguir pelo labirinto da existência, com suas inconstantes nuances , há sempre uma nova chance, onde a especificidade pode ser redefinida a cada passo, com consequentes reavaliações e tomada de decisões.
        
O fio condutor indica o caminho, porém cabe ao caminhante, através de uma via aberta a escolha, levando-o assim ao próximo passo na trajetória de seu ciclo existencial.

*Mariah de Olivieri
Filósofa e Mestre em Filosofia. Artista Plástica. Estudante de Filosofia Clínica
Porto Alegre/RS                                                                     
       

domingo, 27 de julho de 2014

O sim contra o sim*


[...] 
Miró sentia a mão direita
demasiado sábia
e que de saber tanto
já não podia inventar nada.

Quis então que desaprendesse
o muito que aprendera,
a fim de reencontrar
a linha ainda fresca da esquerda.

Pois que ela não pôde, ele pôs-se
a desenhar com esta
até que, se operando,
no braço direito ele a enxerta.

A esquerda (se não se é canhoto)
é mão sem habilidade:
reaprende a cada linha,
cada instante, a recomeçar-se.

Mondrian, também, da mão direita
andava desgostado;
não por ser ela sábia:
porque, sendo sábia, era fácil.

Assim, não a trocou de braço:
queria-a mais honesta
e por isso enxertou
outras mais sábias dentro dela.

Fez-se enxertar réguas, esquadros
e outros utensílios
para obrigar a mão
a abandonar todo improviso.

Assim foi que ele, à mão direita,
impôs tal disciplina:
fazer o que sabia
como se o aprendesse ainda.

*João Cabral de Melo Neto

sábado, 26 de julho de 2014

A complicada arte de ver*


Ela entrou, deitou-se no divã e disse: "Acho que estou ficando louca". Eu fiquei em silêncio aguardando que ela me revelasse os sinais da sua loucura. "Um dos meus prazeres é cozinhar. Vou para a cozinha, corto as cebolas, os tomates, os pimentões - é uma alegria! Entretanto, faz uns dias, eu fui para a cozinha para fazer aquilo que já fizera centenas de vezes: cortar cebolas. Ato banal sem surpresas. Mas, cortada a cebola, eu olhei para ela e tive um susto. Percebi que nunca havia visto uma cebola. Aqueles anéis perfeitamente ajustados, a luz se refletindo neles: tive a impressão de estar vendo a rosácea de um vitral de catedral gótica. De repente, a cebola, de objeto a ser comido, se transformou em obra de arte para ser vista! E o pior é que o mesmo aconteceu quando cortei os tomates, os pimentões... Agora, tudo o que vejo me causa espanto."

Ela se calou, esperando o meu diagnóstico. Eu me levantei, fui à estante de livros e de lá retirei as "Odes Elementales", de Pablo Neruda. Procurei a "Ode à Cebola" e lhe disse: "Essa perturbação ocular que a acometeu é comum entre os poetas. Veja o que Neruda disse de uma cebola igual àquela que lhe causou assombro: 'Rosa de água com escamas de cristal'. Não, você não está louca. Você ganhou olhos de poeta... Os poetas ensinam a ver".

Ver é muito complicado. Isso é estranho porque os olhos, de todos os órgãos dos sentidos, são os de mais fácil compreensão científica. A sua física é idêntica à física óptica de uma máquina fotográfica: o objeto do lado de fora aparece refletido do lado de dentro. Mas existe algo na visão que não pertence à física.

William Blake sabia disso e afirmou: "A árvore que o sábio vê não é a mesma árvore que o tolo vê". Sei disso por experiência própria. Quando vejo os ipês floridos, sinto-me como Moisés diante da sarça ardente: ali está uma epifania do sagrado. Mas uma mulher que vivia perto da minha casa decretou a morte de um ipê que florescia à frente de sua casa porque ele sujava o chão, dava muito trabalho para a sua vassoura. Seus olhos não viam a beleza. Só viam o lixo.

Adélia Prado disse: "Deus de vez em quando me tira a poesia. Olho para uma pedra e vejo uma pedra". Drummond viu uma pedra e não viu uma pedra. A pedra que ele viu virou poema.

Há muitas pessoas de visão perfeita que nada vêem. "Não é bastante não ser cego para ver as árvores e as flores. Não basta abrir a janela para ver os campos e os rios", escreveu Alberto Caeiro, heterônimo de Fernando Pessoa. O ato de ver não é coisa natural. Precisa ser aprendido. Nietzsche sabia disso e afirmou que a primeira tarefa da educação é ensinar a ver. O zen-budismo concorda, e toda a sua espiritualidade é uma busca da experiência chamada "satori", a abertura do "terceiro olho". Não sei se Cummings se inspirava no zen-budismo, mas o fato é que escreveu: "Agora os ouvidos dos meus ouvidos acordaram e agora os olhos dos meus olhos se abriram".

Há um poema no Novo Testamento que relata a caminhada de dois discípulos na companhia de Jesus ressuscitado. Mas eles não o reconheciam. Reconheceram-no subitamente: ao partir do pão, "seus olhos se abriram". Vinicius de Moraes adota o mesmo mote em "Operário em Construção": "De forma que, certo dia, à mesa ao cortar o pão, o operário foi tomado de uma súbita emoção, ao constatar assombrado que tudo naquela mesa - garrafa, prato, facão - era ele quem fazia. Ele, um humilde operário, um operário em construção".

A diferença se encontra no lugar onde os olhos são guardados. Se os olhos estão na caixa de ferramentas, eles são apenas ferramentas que usamos por sua função prática. Com eles vemos objetos, sinais luminosos, nomes de ruas - e ajustamos a nossa ação. O ver se subordina ao fazer. Isso é necessário. Mas é muito pobre. Os olhos não gozam... Mas, quando os olhos estão na caixa dos brinquedos, eles se transformam em órgãos de prazer: brincam com o que vêem, olham pelo prazer de olhar, querem fazer amor com o mundo.

Os olhos que moram na caixa de ferramentas são os olhos dos adultos. Os olhos que moram na caixa dos brinquedos, das crianças. Para ter olhos brincalhões, é preciso ter as crianças por nossas mestras. Alberto Caeiro disse haver aprendido a arte de ver com um menininho, Jesus Cristo fugido do céu, tornado outra vez criança, eternamente: "A mim, ensinou-me tudo. Ensinou-me a olhar para as coisas. Aponta-me todas as coisas que há nas flores. Mostra-me como as pedras são engraçadas quando a gente as têm na mão e olha devagar para elas".

Por isso - porque eu acho que a primeira função da educação é ensinar a ver - eu gostaria de sugerir que se criasse um novo tipo de professor, um professor que nada teria a ensinar, mas que se dedicaria a apontar os assombros que crescem nos desvãos da banalidade cotidiana. Como o Jesus menino do poema de Caeiro. Sua missão seria partejar "olhos vagabundos"...

*Rubem Alves

sexta-feira, 25 de julho de 2014

Comentário ao livro “Poéticas da Singularidade”, de Hélio Strassburger . Editora E-papers/RJ. 2007*


“Nem sabia se era começo ou fim. Poderia ser tudo ou nada.”
Helio Strassburger 

A impressão durante quase toda a leitura é de estar diante de uma poesia. Não há  absolutamente nenhuma indução neste sentido pelo título; é que ela está presente em sua fala, tanto quanto na singularidade. O ritmo é o da poesia que provoca, que não quer esclarecer, mas dar uma chance aos mais epistemológicos de se deliciar. Hélio força o leitor a fazer certo ajuste para entrar no mundo da especulação e acredito que este seja pelo menos uma de suas características. A ausência de pronomes definidos e a sensação de que estamos a todo o momento sendo levados a um caminho de sugestões – como um convite a um passeio pela complexidade das palavras – expressam bem esse sentimento.

Não há obviedade na leitura, mas e daí... também não há nenhuma no ser humano (pré-juízos meus!). Ela acontece de uma maneira curiosa, que impele a uma reflexão quase artística. Muitas vezes é possível (e inevitável) se perder na beleza da escolha de termos, que para muitos podem até ser equívocos. Quantas vezes são necessárias releituras para encontrar o sentido claro/oculto das entrelinhas. A estrutura de pensamento deve estar aberta e receptiva à percepção. Se estiver, é uma festa na apreensão e interiorização de uma possível proposta. O texto é uma dança de possibilidades e é justamente aí que reside sua riqueza.

Nosso professor e filósofo clínico provavelmente não tem a intenção de ser elucidativo. Deixa a quem se aventura a emoção desse passeio por entre suas impressões acerca da singularidade, que por si só, convenhamos, já seria uma grande viagem. Não é fácil chegar a um consenso sobre o texto, mas existe algum que se preze a consensos? Se assim fosse não exerceriam encantos sobre os que os leem, pois estariam condenados à superficialidade dos que nada, ou muito pouco, têm a dizer, dando voltas e mais voltas sem chegar a qualquer paragem. Não que isso importe tanto, pois há vias de beleza em qualquer lugar, dependendo isso somente do momento em que se encontra a estrutura de pensamento. Mas qualquer uma é plástica o bastante para se permitir, teoricamente, qualquer movimento.

Às vezes, porém, o ritmo causa estranheza e incomoda pela extensão e pelo contexto, algo caótico. Sinceramente, ao leigo não é recomendável que esteja desbravando, iniciando, seus estudos em Filosofia Clínica, ainda que esta esteja plenamente situada em cada frase, rica ou não em seus vice conceitos, estes sempre belos submodos presentes. Assim, a percepção singular prossegue, calma e pausadamente, amadurecendo a loucura expressa na singela intenção pretensiosa da dúvida inevitável.

O texto incomoda e instiga, mas emociona. Deve ser saboreado como um desafio, como a vida. E justamente por isso que faz com que muito, de tudo, valha a pena. Um pressuposto justo a quem se aventura, mas igualmente provoca encanto em suas associações ou impressões subjetivas, pois incita o levantar dos olhos para alcançar uma visão diferenciada do próximo. O próximo também é complexo, com sua singularidade nem sempre simples e terna, mas sempre disposta a reverberar e contagiar. Como as palavras, em suas ricas disposições, podem iniciar as consequências do voo da borboleta.

Em Filosofia Clínica, a singularidade poética de cada ser consciente é justamente o que fascina. As muitas possibilidades que se abrem em torno de cada ser e em cada aventura passível de ser vivenciada é o que torna bela a caminhada. Não importa para onde o olhar se remeta, o que conta é a consciência envolvida, a respiração conjunta que impulsiona, mesmo que não se saiba exatamente para onde, ou para quê.

Hélio Strassburger é rígido quando cuida da formação do filósofo clínico e sugere, pretensiosamente, direcionar o exercício peculiar de cada um. Mas o faz de forma carinhosa e muito bem estruturada, resultado de suas vivências clínicas e dos quilômetros percorridos de uma didática envolvente e livre. Há surpresas em cada encontro.

*Luana Tavares
Filósofa Clínica
Niterói/RJ

quinta-feira, 24 de julho de 2014

Outono primaveril...*


Meu outono resolveu florescer.... Floriram diversas flores. Fora de época. O que faz com que algumas flores floresçam fora da primavera?

Gosto mais destas. Teimam em se mostrar em tempos não esperados. Parecem revoltadas contra qualquer definição. São mais bonitas. Únicas. Alegram mais. Surpreendem. Impressionam. Parecem querer alegrar em tempos de menos alegrias....

Ah, deixa as flores aparecerem quando bem quiserem... São livres....

Amarelas, roxas, vermelhas... Um monte de 'Três Marias' para lembrar sempre da minha Maria...
Flores, Cheiros. Belezas. Cores... E o sol...

Sentimentos também vão e vem. Sem pedir licença... Aparecem, quando menos esperamos... Estive pensando: poderiam existir sentimentos fora de época? Acho que não. Tenho certeza que não. No rádio, o meteorologista da alma, anuncia:

"Tempo bom em todo o Planeta Terra para todos os sentimentos bons..."

*José Mayer
Filósofo, estudante de Filosofia Clínica
Porto Alegre/RS

quarta-feira, 23 de julho de 2014

Fragmentos poéticos, filosóficos*


"Era eu um poeta estimulado pela filosofia e não um filósofo com faculdades poéticas. Gostava de admirar a beleza das coisas, descobrir no imperceptível, através do diminuto, a alma poética do universo."

"Há entre mim e o mundo uma névoa que impede que eu veja as coisas como verdadeiramente são - como são para os outros."

"Sinto-me múltiplo. Sou como um quarto com inúmeros espelhos fantásticos que torcem para reflexões falsas uma única anterior realidade que não está em nenhuma e está em todas."

"Sinto-me viver vidas alheias, em mim, incompletamente, como se o meu ser participasse de todos os homens, incompletamente de cada [?], por uma suma de não-eus sintetizados num eu postiço."

"Dividiu Aristóteles a poesia em lírica, elegíaca, épica e dramática. Como todas as classificações bem pensadas, é esta útil e clara; como todas as classificações, é falsa. Os generos não se separam com tanta facilidade íntima, e, se analisarmos bem aquilo de que se compõem, verificaremos que da poesia lírica à dramática há uma gradação contínua."

"Toda a arte é uma forma de literatura, porque toda a arte é dizer qualquer coisa. Há duas formas de dizer - falar e estar calado. As artes que não são a literatura são as projeções de um silencio expressivo. Há que procurar em toda a arte que não é a literatura a frase silenciosa que ela contém ou o poema, ou o romance, ou o drama."

*Fernando Pessoa

terça-feira, 22 de julho de 2014

Pensando e Sentindo Adélia

       
Nos prados da vida
Adélias iluminam
Múltiplas facetas
Convida-nos
A olhar as coisas simples
No recolhimento orar em latim
Ao som do canto gregoriano
Lá vão as Adélias
Em mim e em nós
Chamando-nos à reflexão
Ensinando- nos a pensar
Com o coração

*Rosângela Rossi
Psicoterapeuta, Filósofa Clínica, Escritora
Juiz de Fora/MG

segunda-feira, 21 de julho de 2014

Fragmentos de razão e desrazão*



"O que geralmente acontece com a loucura socialmente visível, é que há intervenção psiquiátrica, e o desenvolvimento da psiquiatria comunitária e o aumento geral de vigilância da população torna-a cada vez mais provável. A intervenção psiquiátrica leva a cabo, efetivamente, uma fragmentação da união paradoxal da loucura; primeiro, a alegria é destruída pela tratamento e, depois, até o desespero é aniquilado, deixando o 'bom resultado' ótimo da psiquiatria: pessoa nenhuma. A não-pessoa pode funcionar para o sistema ou tornando-se lucrativa, embora operando talvez a um nível reduzido, ou como parte da sub-população de 'mentalmente doentes' quer num hospital quer no 'manicômio familiar' fora dele, mas, em todo o caso, servindo de 'reforço negativo' da definição de normalidade para o sistema e do interesse pelo controle ilimitado da população."

"Razão e desrazão são ambas maneiras de conhecer. A loucura é uma maneira de conhecer, outro modo de exploração empírica dos mundos tanto interior como exterior. A razão para a exclusão e invalidação da loucura não é puramente médica, nem estritamente social. É, como tentarei demonstrar, política."

"Não-psiquiatria significa que o comportamento profundamente perturbador, incompreensível e 'louco' deve ser contido, incorporado na sociedade global e nela disseminado como uma fonte subversiva de criatividade, espontaneidade, não-doença."

"A não-existência da psiquiatria só será alcançada numa sociedade transformada, mas é vital iniciar agora o trabalho da des-psiquiatrização."

"O novo fator revolucionário é que as pessoas começam a fazer amor em vez de se limitarem a foder para procriar para os patrões. O orgasmo é uma loucura contagiosa e boa."

David Cooper

sexta-feira, 18 de julho de 2014

Penúltimas notícias*


Boa tarde amigos,

Na segunda-feira, 21 de julho, começa a Mostra Itinerante de Vídeos do 27º Inverno Cultural da Universidade Federal de São João del-Rei. O evento visa a difusão e democratização do acesso ao cinema brasileiro independente, além de promover diálogos entre produtores, realizadores e espectadores.

A Mostra será realizada em espaços alternativos e gratuitos. Os filmes serão exibidos nas praças públicas de bairros de São João del-Rei e nas cidades onde a UFSJ atua. Após cada sessão serão debatidos os temas propostos pelos conteúdos audiovisuais. Os diretores, produtores e personagens estarão presentes na exibição de seus trabalhos para responder às questões levantadas pelo público.

Conto com o apoio de cada um de vocês para auxiliar na divulgação deste evento. Convide seus amigos e familiares, contatos de e-mail e redes sociais para acompanhar a programação do evento. Ressalto ainda que a população de São João del-Rei terá a oportunidade de assistir a diversos conteúdos produzidos na cidade por alunos e ex-alunos do curso de Jornalismo da UFSJ.

Em anexo envio a lista dos filmes e sinopses, com os locais definidos, datas e horários das exibições de vídeos em São João del-Rei.

Nos dias 21, 22 e 23 de julho,  às 20h, na Praça Senhor Bom Jesus de Matosinhos, em São João del-Rei.
Nos dias 28, 29 e 30 de julho, às 19h, na Praça Guilherme Milward, no bairro Bonfim, em São João del-Rei. 

Att.,
*Mariana Fernandes
Filósofa, Jornalista, Filósofa Clínica
Coordenadora da Mostra Itinerante de Vídeos
São João del Rei/MG

Onde você esconde o seu amor?*


Ele está residindo nos seus medos e você não consegue entender o que é amar?Onde mora o seu amor, onde habita o que você chama de amar alguém, onde você encontra a sua felicidade, do que você precisa para sustentar o conceito de amor em sua vida? De sexo? De beleza? De paz? De riqueza?

Está dentro ou fora de você? Tem a ver com o mundo, com a história, é cultural? Tem a ver com trocas, negociações e recompensas, com a garantia, já de início, que se ele acabar um dia você não sairá lesado materialmente?

Está no seu pensamento, nas suas atitudes, no que você consegue demonstrar, sentir ou não sentir? Precisar ou não? Então você é poderosa mesmo? Ele está residindo nos seus medos e você não consegue entender o que é amar? Se entregar?

Deus, o amor das pessoas está morando fora delas. Tantas coisas ensinadas, calibradas e ditas amadas. Quanta preocupação com que o mundo vai pensar. Tantas regrinhas chatinhas, enjoadas, entaladas. Eca!

Quando foi, de verdade, em que tempo da história, na nossa cronologia, fizeram esta maldade e trocaram, inverteram os valores perenes pelos perecíveis como forma de amar? As pesquisas apontam, os estudos tentam provar, mas não adianta, não entra na minha cabeça que o ser humano possa passar melhor com coisas compradas, conquistadas pelo seu triunfo e vitória. Não cabe o raciocinar sobre o planar e eu juro que tento entender e dou asas e pondero sobre a inteligência paralela à emoção, ta bom, equilíbrio ajuda, mas dá um cansaço às vezes. Estará nesta coisa da singularidade, ama quem quer? Do jeito que quer? Acho que é.

Outra coisa que não me conformo e me irrita de verdade são as maneiras babacas de jogar com o amor. Existe mesmo o certo e o errado nas maneiras de amar e se entregar? Não seria somente o tangente às escolhas e a ética sobre elas a delimitar o que é felicidade para as pessoas, o que deveria contar? Talvez pagar o preço da lealdade, não custasse tão caro e garantiria tranquilidade ao entregar o coração. Isto não caminharia apenas pelo viés do que é sentido como felicidade e bastaria? Quanta complicação e perda de tempo.

E os conceitinhos então? Mulher fácil, homem “galinha”. As pessoas desprendidas estão recebendo os respingos de tanta porcaria. E eu imagino por onde passa tanta confusão, talvez, pela mentira na intenção. Então como se comportar, que leitura esperar quando você apenas quer viver algo leve, quando você é autentico ou solícito, assim, descomplicado.

Então você tenta ser ético, honesto, discreto, amoroso, carinhoso, fraterno, desinteressado, altruísta e ainda é colocado à prova quanto a merecer ou não ser amado? Aí você perde para alguém que faz o melhor jogo e tudo bem? “Hakuna matata” mesmo? Talvez seja melhor deixar pra lá quando se tratar de tentativa com pessoas que acreditam em joguinhos de amor.

A presunção marca lugar na vida dos casais, onde um traça certezas sobre as certezas que o outro tão pouco pensou ainda, e exerce sobre ele um poder vaidoso, pretendido ser charmoso que primeiro quase encanta e depois, quando decanta deixa no ar apenas a tristeza, a decepção e a certeza de precisar voltar a caminhar sozinho.

Casais estão fazendo sexo mecânico, mental, observado e aferido quanto ao desempenho e sucesso do prazer dos dois. De um prazer relâmpago que deixa no ar a questão sobre o que seria sexo de verdade. Ta bom, já sei. É o que é bom para cada um, mas… Mas, alguém aí, pode me entender? Tem alguma coisa no sexo feito fora da cabeça que propõe uma ida aos céus e lá, as coisas que nos atormentam ficam de fora e quando a gente volta mais alegre e forte, a vida real parece mais fácil de levar. Eu falo do sexo feito com o coração e o corpo como instrumento, com o coração tranquilo, aquele que você não consegue entregar.

Tenho visto tanta coisa esquisita. Estou meio confusa, mas não desisto e minha alegria vem daí, da certeza que muita gente também não desiste e acredita na leveza, no amor, no prazer e, sobretudo no ser humano cada dia mais capaz de ser humano.

*Jussara Hadadd
Terapeuta Sexual, Filósofa Clínica
Juiz de Fora/MG

quinta-feira, 17 de julho de 2014

Manoel por Manoel*


Eu tenho um ermo enorme dentro do olho. Por motivo do ermo não fui um menino peralta. Agora tenho saudade do que não fui. Acho que o que faço agora é o que não pude fazer na infância. Faço outro tipo de peraltagem. 

Quando eu era criança eu deveria pular muro do vizinho para catar goiaba. Mas não havia vizinho. Em vez de peraltagem eu fazia solidão. Brincava de fingir que pedra era lagarto. Que lata era navio. Que sabugo era um serzinho mal resolvido e igual a um filhote de gafanhoto.

Cresci brincando no chão, entre formigas. De uma infância livre e sem comparamentos. Eu tinha mais comunhão com as coisas do que comparação.

Porque se a gente fala a partir de ser criança, a gente faz comunhão: de um orvalho e sua aranha, de uma tarde e suas garças, de um pássaro e sua árvore. Então eu trago das minhas raízes crianceiras a visão comungante e oblíqua das coisas. Eu sei dizer sem pudor que o escuro me ilumina. 

É um paradoxo que ajuda a poesia e que eu falo sem pudor. Eu tenho que essa visão oblíqua vem de eu ter sido criança em algum lugar perdido onde havia transfusão da natureza e comunhão com ela. Era o menino e os bichinhos. Era o menino e o sol. O menino e o rio. Era o menino e as árvores.

*Manoel de Barros

quarta-feira, 16 de julho de 2014

Padrões autogênicos*


Há um provérbio, derivado de uma passagem bíblica, mas que hoje é um grande dito popular: “Diga-me com quem andas e te direi quem és”. Poderíamos abordar a origem e o significado dessa frase nos remetendo à fonte e ao sentido filológico. Entretanto, podemos nos valer dela para compreender um importante postulado da filosofia clínica. Vejamos!

Por um lado, encontramos aqueles que baseados na frase acreditam que basta caminhar com determinadas companhias, que acabaremos nos igualamos ao grupo. Por outro lado, há quem pense que nosso modo de ser atrai tudo o que tem semelhança com o que somos. 

Aristóteles, filósofo grego, profundo observador, ao formular sua física afirmava que as coisas tendiam para aquilo que lhes era própria. A frase comumente utilizada para a afirmação aristotélica e que, de certo modo, se aproxima da frase citada no início, é: "Semelhante atrai semelhante". Assim, por exemplo, não conhecendo a moderna “lei da gravidade” dizia que as pedras tendiam para o chão, por nele se encontrar o elemento que lhe era semelhante. Dizer que o Estagirita está errado, seria muita pretensão nossa. Pois, seja por uma “lei” formulada por um moderno para compreender os fenômenos, seja por uma afirmação filosófica de mais de dois milênios, ambas continuam a observar a pedra que, lançada ao alto, volta para o solo. E o que isso importa para o início da reflexão?

Do mesmo modo como a pedra e o chão se encontram, independentemente da “lei” que rege esse movimento, a interpretação acerca da proximidade das pessoas pode ser variada, mesmo que o fenômeno interpretado continue o mesmo. No entanto, abordar a gravidade nos ajuda a trabalhar uma série de questões que daí se deriva, melhor do que basear-se em Aristóteles.

Assim, hoje a filosofia clínica nos traz uma compreensão que, em seus desdobramentos, nos esclarece e mantém o sentido para melhor compreendermos os fenômenos. À proximidade de pessoas que compartilham traços comuns, a filosofia clínica denomina “padrão autogênico”.

Grosso modo, padrão autogênico nos serve como uma espécie de termômetro de observação do nível existencial no qual estamos. Não se trata de “nível” no sentido de juízo de valor. Trata-se, contudo, de uma compreensão que nos mostra que entre dois extremos, há uma gradação de níveis que nos mostra onde existencialmente nos encontramos.

O nível mais abaixo seria o mecânico. Nesse nível as coisas funcionariam mais voltados para o lidar da pessoa consigo, com as pessoas e com o mundo; isto em âmbitos mais lógicos, racionais, baseado em medições, cálculos e com pouca oportunidade para o elemento mais maleável da existência, por não ser passível de ser abarcado pelos meios apresentados.

O nível mais elevado seria o mais intuitivo. Nesse âmbito, as coisas funcionam com mais margens para imaginação, abertura à surpresa, à criatividade, à liberdade para a Estrutura de Pensamento produzir seus próprios meios de lidar com o que, num primeiro momento, sequer é possível de ser confrontado logicamente.

Mais uma vez afirmo: não se trata de juízo de valor. O que queremos expor é que baseado, grosso modo, nessas características a pessoa tende a ter a convivência com pessoas, coisas, pensamentos, mundo, enfim, tudo muito próximo desse padrão. E quando isso não ocorre? E quando não nos encontramos no padrão que nos é referente?

Isso tem muitas variações. Desde a pessoa que precisa viver no conflito e, por isso, busca no padrão diferente do próprio, esse âmbito para viver, até aquele que quer um conforto existencial e está se sentindo mal por não estar no padrão que lhe é característico. Além disso, há padrões verticais, horizontais, transversais, etc.

Os padrões podem mudar ao longo da vida. Muitas pessoas passam de um padrão ao outro sem complicações. Há outros que dependem de ajuda tanto para se adaptar ao novo padrão, quanto para mudar de padrão por não se encontrar mais onde está, ou até para que alguém lhe mostre que mudar de padrão não lhe fará bem. E quando saber quando fazer o quê? A princípio, não sei.

Tudo vai depender da abertura do filósofo clínico e da historicidade apresentada pelo partilhante. E, para isso, vai uma dica (nunca uma máxima universal): Mantenha-se em constante contato com uma formação sólida que lhe permite ter essa abertura e capacite-se para que as nuanças do trabalho clínico sejam bem lapidadas. Contudo, isso é fruto de saber andar com pessoas, livros, coisas e até com a mente nos lugares propícios.

Assim, diga-me com quem andas existencialmente e, a partir de sua historicidade, verificando o dado padrão e o dado atualizado, e te direi em qual padrão autogênico estás.

*Miguel Angelo Caruzo
Filósofo, Mestre e Doutorando em Filosofia da Religião/UFJF, Filósofo Clínico
Juiz de Fora/MG

terça-feira, 15 de julho de 2014

Minha universidade*


Conheceis o francês,
sabeis dividir,
multiplicar,
declinar com perfeição.

Pois, declinai!
Mas sabeis por acaso
cantar em dueto com os edifícios?

Entendeis por acaso
a linguagem dos bondes?

O pintainho humano
mal abandona a casca
atraca-se aos livros
e a resmas de cadernos.

Eu aprendi o alfabeto nos letreiros
folheando páginas de estanho e ferro.

Os professores tomam a terra
e a descarnam
e a descascam
para afinal ensinar:
“Toda ela não passa dum globinho!”

Eu com os costados aprendi geografia.
Não foi à toa que tanto dormi no chão.

Os historiadores levantam
a angustiante questão:
- Era ou não roxa a barba de Barba Roxa?
Que me importa!

Não costumo remexer o pó dessas velharias!
Mas das ruas de Moscou
conheço todas as histórias.

Uma vez instruídos,
há os que propõem
a agradar às damas,
fazendo soar no crânio suas poucas idéias,
como pobres moedas numa caixa de pau.

Eu, somente com os edifícios, conversava.
Somente os canos dágua me respondiam.

Os tetos como orelhas espichando
suas lucarnas atentas
aguardavam as palavras
que eu lhes deitaria.

Depois
noite a dentro
uns com os outros
palravam
girando suas línguas de catavento.