terça-feira, 30 de setembro de 2014

Escrever...*


Quem gosta de escrever entende.

Quando a alma se encolhe não há como escrever. Torna-se algo impossível. Daí não tem o que fazer. A não ser esperar. Qualquer tentativa de esforço é em vão.

As palavras partem-se pela metade. Não acham o seu lugar certo. Não conseguem completar uma frase inteira. As letrinhas tornam-se triangulares. Cheias de pontinhas. Não rimam. Não constroem melodias. Ferem-se umas as outras.

Aí digo para mim mesmo: Ah, Zé, não machuque as letrinhas....

De repente aparece como que um clarão. E no ônibus. E eu sem caneta. Aproximei-me, timidamente, de todos os passageiros. Pedindo-lhes, por favor, uma caneta emprestada. Mas não havia canetas. Pensei em descer do ônibus e escrever na areia. Ou na água. Uma senhora viu meu alegre desespero e emprestou-me seu lápis de colorir os olhos. Aceitei, assim sem jeito. E que é o meu jeito. Escreveria a mim, através dos olhinhos dela....

Pouco depois, vendo-me escrever, minha amiga, sentada ao meu lado deu-me a sua caneta. E disse que era de presente. Para escrever meus poemas. E levantou-se e desembarcou....

Fiquei assim... me sentindo feliz e tão pequenininho.

*José Mayer
Filósofo, Estudante de Filosofia Clínica na Casa da Filosofia Clínica
Porto Alegre/RS

segunda-feira, 29 de setembro de 2014

Fragmentos filosóficos delirantes*













"(...) Não é à crítica que me quero referir, porque ninguém pode esperar ser compreendido antes que os outros aprendam a língua em que fala. Repontar com isso seria, além de absurdo, indício de um grave desconhecimento da história literária, onde os gênios inovadores foram sempre, quando não tratados como doidos (como Verlaine e Mallarmé), tratados como parvos (como Wordsworth, Keats e Rossetti) ou como, além de parvos, inimigos da pátria, da religião e da moralidade, como aconteceu a Antero de Quental, sobretudo nos significativos panfletos de José Feliciano de Castilhos, que aliás, não era nenhum idiota. (...)"

"(...) Toda a coisa que vemos, devemos vê-la sempre pela primeira vez, porque realmente é a primeira vez que a vemos. E então cada flor amarela é uma nova flor amarela, ainda que seja o que se chama a mesma de ontem. A gente não é já o mesmo nem a flor a mesma. O próprio amarelo não pode ser já o mesmo. É pena a gente não ter exatamente os olhos para saber isso, porque então éramos todos felizes. (...)"

"(...) Desde criança tive a tendência para criar em meu torno um mundo fictício, de me cercar de amigos e conhecidos que nunca existiram. (Não sei, bem entendido, se realmente não existiram, ou se sou eu que não existo. Nestas coisas, como em todas, não devemos ser dogmáticos). Desde que me conheço, como sendo aquilo a que chamo eu, me lembro de precisar mentalmente, em figura, movimentos, caráter e história, várias figuras irreais que eram para mim tão visíveis e minhas como as coisas daquilo a que chamamos, porventura abusivamente, a vida real. (...)"

*Fernando Pessoas   

domingo, 28 de setembro de 2014

Poéticas da Singularidade*


Voo em liberdade
Suspirando flores
Confiante na existência
Brincando e dançando aos ventos
Deixei de ser gente
Sou pássaro passarinho
Saí do meu ninho
Viajo por ares a colher sementes
Voo e sinto o sol
Salto nas folhagens
Dos múltiplos verdes
Sou forasteiro de asas abertas a experimentar
O vir-a-ser da real imaginação
Rompo horizontes e mergulho nos mares do sem fim!

*Rosângela Rossi
Psicoterapeuta, Filósofa Clínica, Escritora, Poeta
Juiz de Fora/MG

sábado, 27 de setembro de 2014

Soneto XLIII*


Um sinal teu busco em todas as outras,
no brusco, ondulante rio das mulheres,
tranças, olhos apenas submergidos,
pés claros que resvalam navegando na espuma.

De repente me parece que diviso tuas unhas
oblongas, fugitivas, sobrinhas de uma cerejeira,
e outra vez é teu pelo que passa e me parece
ver arder na água teu retrato de fogueira.

Olhei, mas nenhuma levava teu latejo,
tua luz, a greda escura que trouxeste do bosque,
nenhuma teve tuas mínimas orelhas.

Tu és total e breve, de todas és uma,
e assim contigo vou percorrendo e amando
um amplo Mississipi de estuário feminino.

*Pablo Neruda

sexta-feira, 26 de setembro de 2014

A Ordem do Discurso*

         
Eu deitado na rede Que o médico disse Para pescar todos os sentidos profundos
Rogério de Almeida
        
         A labuta de Paul-Michel Foucault, filósofo, que nasceu em Poitiers, na França, na década de 20, tem influenciado o pensamento em muitos campos da teoria social, principalmente da educação. Um dos principais desafios foucaultianos é a visão de que verdade e poder estão mutuamente interligados, através de práticas contextualmente específicas, que por sua vez, estão intimamente intrincadas à produção do discurso.

         No magnífico texto, A Ordem do Discurso, Foucault ao se pronunciar, percebe uma voz sem nome, e com isso permite ser arrebatado pela palavra. Com sólidos conhecimentos acerca das diversas manifestações de poder através do discurso, Foucault nos leva a compreender as idéias básicas de sua linha filosófica sobre saber, poder e sujeito, bem como a descobrir o poder das palavras no discurso do indivíduo, que ora o exclui, reprime, ora o torna dono do saber do poder, como muito bem se define nos procedimentos externos ou internos de controle e delimitação do discurso.

 Desse modo, Foucault arrazoa a seguinte Hipótese: em todas as sociedades a produção de discursos é regulada, selecionada, organizada e redistribuída; caracterizando, portanto, o poder da palavra e os eventuais perigos decorrentes dela. O discurso é controlado, selecionado, organizado e redistribuído por certo número de procedimentos, que servem para conjurar seus poderes e perigos e dominar seu acontecimento aleatório, esquivar sua pesada e temível realidade, quais sejam: os procedimentos exteriores de controle e delimitação do discurso, procedimentos internos de controle e delimitação do discurso e imposição de regras aos sujeitos do discurso.

Dessa forma, esses discursos pretendem ditar ao indivíduo o papel que ele precisa desempenhar na sociedade. Percebe-se um alerta de Foucault, levantando alternativas sobre a visão desse indivíduo que reina no mundo, e que o discurso coercivo e universal, posiciona-o numa trilha, que funciona como o caminho da verdade, ou seja, o caminho que deve ser seguido e que interessa ao poder.

Os procedimentos exteriores usados em nossa sociedade são: o de exclusão (a palavra proibida, a segregação da loucura e a vontade de verdade), na qual, a palavra proibida sofre uma interdição (tabu do objeto, ritual da circunstância e direito privilegiado ou exclusivo do sujeito que fala). O lugar onde a interdição torna-se mais evidente, é sem dúvida, no discurso da política  e da sexualidade. É como se esse lugar, distante de ser esse elemento translúcido ou neutro, onde a sexualidade desarma-se e a política amansa-se, fosse um atemorizante poder. Percebe-se aí, o desejo de poder sobre o discurso; este, além de exprimir o desejo, é também seu alvo, representando um poder, que ansiamos abarcar.

O segundo princípio de exclusão é o da oposição razão e loucura. O discurso do louco, ora é visto como sem importância, sem fundamento, não tendo verdade alguma, e em outras ocasiões, impõe-se como verdade oculta, vislumbrando aquilo que a sapiência alheia não é capaz de perceber. Observa-se na contemporaneidade, que a fala do supostamente louco, ao contrário de ser nula, é estudada, buscando-se nela um sentido. Para Foucault, inúmeras vezes chegamos a surpreendê-la, naquilo que nós mesmos proferimos, ou seja: no distúrbio minúsculo, por onde aquilo que dizemos nos escapa.

O terceiro sistema de exclusão é a oposição verdadeiro e falso, que é assinalada por uma série de contingências históricas, sendo amparadas pelo sistema de instituições, impondo-as, de certa maneira, sobre pressão. A vontade de verdade é reforçada e reconduzida por um conjunto de práticas como: a pedagogia, os sistemas dos livros das bibliotecas, as sociedades de sábios e os laboratórios da atualidade. Desse modo, essa vontade exerce sobre o discurso uma espécie de coação, com poderes de coerção, através dos quais, atribuímos ao discurso sua validade ou falsidade.

Existem também os procedimentos internos, visto que são os discursos mesmos que exercem seu próprio controle, funcionando no nível de classificação, ordenação e distribuição, submetendo à outra dimensão do discurso: a do acontecimento e do acaso. O comentário é um destes procedimentos, através do qual os discursos são proferidos, assim permanecem e estão ainda por ser tal; a exemplo temos os textos jurídicos, religiosos, literários e científicos. Em suma, a função do comentário é a de pronunciar o que estava articulado no texto primeiro, dizendo pela primeira vez, aquilo que já havia sido dito e, estresir incansavelmente o que, não havia jamais sido dito. O novo não está no que é dito, e sim no acontecimento à sua volta.

O segundo procedimento interno sabido é o autor, entendido como princípio de agrupamento do discurso, unidade e origem de suas significâncias, como foco de seu nexo, introduzindo desse modo, a linguagem fictícia do mundo real. O autor profere Foucault, limita o acaso através da relação entre uma identidade, que tem a forma da individualidade e do eu.

Disciplina é o terceiro princípio de limitação do discurso. As disciplinas são constituídas por um conjunto de proposições, que se dirigem a um plano de objetos determinados, estando em constante avanço. Podemos pensar em um jogo de regras, definições, técnicas e instrumentos.

Para que uma proposição pertença a uma disciplina, é necessário que ela atenda certas exigências, para certificar se é verdadeira. A disciplina limita o discurso, devido à suas exigências, que se relacionam a determinada época. Igualmente, na contemporaneidade, um indivíduo pode proferir a verdade, mas não estar contextualizado no que é considerado verdadeiro, no discurso de sua época. Assim sendo, a disciplina conjura o acaso da aparição do discurso.

O terceiro grupo de controle do discurso, estabelecido por Foucault, é a restrição, que determina as condições de funcionamento, impondo regras aos indivíduos que pronunciam, restringindo seu acesso a partir de certas exigências que qualificam o sujeito a fazê-lo ou não.

Troca e comunicação são formas restritivas, na medida em que o ritual qualifica e define o que devem possuir os pronunciantes; definindo os gestos, comportamentos e circunstâncias, entre outros signos que fazem parte de um discurso, garantindo a eficácia das palavras e os efeitos sobre aqueles aos quais se dirigem as demarcações de seu denodo de coerção.

Outra forma de restrição é o segredo que está presente na ordem do discurso verossímil, assim como na ordem do discurso publicado e isento de qualquer ritual; a estes chamamos sociedades de discurso, pois de certa maneira o produzem conservando-o em um espaço restrito. Podemos citar como arquétipo desta sociedade exclusivista, o segredo técnico ou científico, e as formas de difusão e de circulação do discurso médico.

As doutrinas religiosas, políticas e filosóficas, representam uma terceira forma de ressalva. Contudo, ao revés da sociedade de discurso, o conjunto de princípios de uma doutrina são divulgados e partilhados por diversos indivíduos. O que a torna excludente é o fato dela inquirir o sujeito que fala, através e a partir do enunciado. Quando o que é transmitido não corresponde ao grupo de verdades da doutrina, o indivíduo é incriminado de heresia, sendo excluído da classe a qual pertence.

A educação representa outra forma de apropriação social do discurso. Mesmo sendo um direito, ao qual teoricamente, todo indivíduo tem acesso, esta se torna restrita em sua distribuição; no que impede as linhas que estão marcadas pela distância, oposições e lutas sociais; esta é uma maneira política de manter e modificar as apropriações do discurso, através dos saberes e poderes que trazem consigo.

Considerando os pontos abordados por Foucault em A Ordem do Discurso, percebe-se a importância de uma leitura mais consciente e reflexiva do mesmo, principalmente para os educadores, que de certa forma, estão autorizados a falar.

Sabendo-se analisar as relações de poder-saber veiculadas na sociedade, é possível identificar as características e práticas particulares que têm efeitos perigosos, dominadores ou negativos.

Ter um olhar original para as engrenagens das instituições educacionais, argüir a verdade dos discursos - inclusive os próprios – pode abrir possibilidades de transformação na prática educativa. Rematando e retomando o início do discurso, Foucault diz: “... É preciso continuar, é preciso pronunciar palavras enquanto as há, é preciso dizê-las até que elas me encontrem, até que elas me digam – estranho castigo, estranha falta, é preciso continuar, talvez já tenha acontecido, talvez já tenham dito talvez me tenham levado ao limiar de minha história, diante da porta que se abre sobre minha história, eu me surpreenderia se ela se abrisse.

*Mariah de Olivieri
Filósofa, Artista Plástica, Mestre em Filosofia, Estudante de Filosofia Clínica na Casa da Filosofia Clínica
Porto Alegre/RS

quinta-feira, 25 de setembro de 2014

Enquanto Faço Verso*


Enquanto faço o verso, tu decerto vives.
Trabalhas tua riqueza, e eu trabalho o sangue.
Dirás que sangue é o não teres teu ouro.

E o poeta te diz: compra o teu tempo
Contempla o teu viver que corre, escuta
O teu ouro de dentro. É outro o amarelo que te falo.

Enquanto faço o verso, tu que não me lês
Sorris, se do meu verso ardente alguém te fala.

O ser poeta te sabe a ornamento, desconversas:
“Meu precioso tempo não pode ser perdido com os poetas”.

Irmão do meu momento: quando eu morrer
Uma coisa infinita também morre. É difícil dizê-lo:
Morre o amor de um poeta.

E isso é tanto, que o teu ouro não compra,
E tão raro, que o mínimo pedaço, de tão vasto
Não cabe no meu canto.

*Hilda Hist

quarta-feira, 24 de setembro de 2014

Esperança*


Lá bem no alto do décimo segundo andar do Ano
Vive uma louca chamada Esperança
E ela pensa que quando todas as sirenas
Todas as buzinas
Todos os reco-recos tocarem
Atira-se
E — ó delicioso voo!
Ela será encontrada miraculosamente incólume na calçada,
Outra vez criança…
E em torno dela indagará o povo:
— Como é teu nome, meninazinha de olhos verdes?
E ela lhes dirá
(É preciso dizer-lhes tudo de novo!)
Ela lhes dirá bem devagarinho, para que não esqueçam:
— O meu nome é ES-PE-RAN-ÇA…

*Mário Quintana

terça-feira, 23 de setembro de 2014

Sociedade sem escolas!*


Imagine uma sociedade sem escolas. 

Esta sociedade também não terá aprendizados? Sim, terá. A relação direta entre escola-aprendizado é tão falaciosa quanto a relação escola-educação. Uma criança que entra na escola formal, e isso não é de hoje, muitas vezes já sabe ler, falar outra língua, por influência familiar ou porque viajou com pais desde muito pequena, tem seu gosto pela leitura incentivada por uma família que adora ler, já sabe tocar algum instrumento musical, já tem contatos mais aprofundados com algum esporte que, porventura, os pais jogam. 

Como ela obteve todas essas aprendizagens se, embora intencional, nenhuma foi precedida de um currículo formal? Não é de hoje também, que muitos educadores e filósofos já atentaram para o fato do autodidatismo ser a melhor forma de aprender. E por quê? Por que ela é automotivada. Se a automotivação é o motor do aprendizado – qualquer aprendizado e em qualquer idade ou fase da vida – por que obrigar as crianças a irem à escola? 

É que a escola entrou para o rótulo, já muito citado por Theodor Adorno, filósofo alemão, de indústria cultural. Só que a escola é da indústria do ensino. Obrigar a toda criança estar em uma escola movimenta milhões de reais e muita burocracia, que efetivamente, beneficia a quem vive dessa indústria: diretores de escolas, professores, pedagogos, supervisores, secretários de educação, etc. Quando, por exemplo, a pesquisa da última semana sobre eleições, afirma que o número de eleitores menores de 18 anos que escolheram por não participar dessa eleição que se aproxima diminui cerca de trinta por cento, o que você acha que os políticos vão fazer em relação a isso? Nada! Eles já têm uma reserva de mercado de indivíduos de 18 a 70 anos que são obrigados a votar. Se eles tivessem que conquistar eleitores, a pesquisa citada antes poderia preocupá-los. 

O mesmo acontece com as pessoas envolvidas na educação escolar. Se as escolas e os professores tivessem que conquistar seus alunos, pode ter certeza que trabalhariam no cominho da automotivação de seus pupilos e seriam muito mais flexíveis na questão do ensino, porque o que importaria de verdade não é o que ensinar, mas o que o outro quer aprender. Ivan Illich[1] se deu conta de tudo isso em 1970 quando lançou seu livro Sociedade sem Escolas. 

Desde então ele cunhou o termo rede de aprendizagens na esperança que esta se desinstalasse da instituição escolar. Por que hoje o privilégio de constatar e avaliar quem sabe e quem não sabe está na escola? Porque ela é detentora do certificado. Escola vende certificado. E para quem? Para o mercado de trabalho que só aceita instrução formalizada. Por quê? Para manter a reserva de mercado da indústria do ensino. 

Não é uma nem duas nem três histórias que cada um de nós conhece de amigos ou pessoas muito íntimas que fizeram anos de cursos, seja primário, secundário, universitário ou esses cursinhos de idiomas, que, quando defrontadas com a situação real do qual estudaram tanto, não souberam como agir, fazer ou falar e, para piorar, encontram outras pessoas que não passaram pela indústria do ensino e que agiam, faziam ou falavam muito melhor do que elas e aprenderam em muito menos tempo e, muitas vezes, com muito menos custo financeiro e, com muita certeza, com muito mais prazer. 

Redes de aprendizagens não-formais é a ideia básica de Ivan Illich, mas sua grande questão é colocar à disposição de todos a capacidade de desenvolver suas habilidades intelectuais ou físicas de forma livre e autodidata e não monopolizar em uma instituição a relação falaciosa de ensino-aprendizagem e ainda de forma que essa instituição ou seus governos determinam.

Vale lembrar uma frase que sempre me acompanhou desde minhas primeiras idas à escola formal: mais vale aquilo que aprendo do que aquilo que me ensinam.

*Fernando Fontoura
Filósofo, Educador Físico, Estudante de Filosofia Clínica
Porto Alegre/RS 

[1] Nasceu em Viena em 1926 e faleceu em 2002. Estudou filosofia e teologia na Universidade Gregoriana de Roma. Foi co-fundador do Centro Intercultural de Documentação (CIDOC) em Cuernavaca, México.

segunda-feira, 22 de setembro de 2014

Agendamentos*


As vezes penso que sou feita de ar, mar e poesia. Estranha sensação de não pertencer ao mundo dos seres humanos.

Ora me sinto água, ora me sinto chão, e, de repente, viro multidão!

São tantas as personas da minha alma que não consigo quantificar. Olho discretamente minha sombra na parede. Enxergo uma figura com forma de "ser" refletida e me encanto!

Quanto mais profundo for o sentimento de busca mais e mais eu me encontro. Um encontro meio tímido, um pouco silencioso... Apenas um encontro!

E pensar que por vezes me senti tão distante de tudo isso que estou sendo e fazendo a cada amanhecer!!!

É, viver sempre tem um porquê.

No desespero da música que a vida apresenta em cada hora, da noite ou do dia, eu reencontro o sentido de tantas palavras mal proferidas. Quantas noites insones, perdidas! Quantos dias de choro e de luta para se manter de pé diante da hipocrisia que muitas vezes se apresenta nua e crua na estrada da nossa vida, cidade, lugar coração!

E resolvo novamente acreditar no perdão!!! Sim! Uma trégua! Alívio na alma. Dor resolvida.
Sinto-me mais forte hoje. Sinto-me mais feliz e firme. Sinto-me totalmente liberta das amarras da culpa. Sim! Culpa! Muita culpa cultivada por ter sido agendada toda uma vida ou quem sabe vidas. Agendamentos desnecessários, tristes, nada salutar.

Que os demônios descansem em paz pois eu não aceito, por agora, me culpar nunca mais!
Aí, lembro que sou feita de luz, amor, ilusão! Quanta decepção!

Se o vento soprar para o sul caminharei devagar e saberei encontrar meu norte sem precisar mais de uma bússola. Já tenho as coordenadas do caminho dentro de um mapa que guardo no coração.

Está tudo indo bem... O rumo tomado foi o mais adequado. Tudo tem remédio. Tudo tem conserto.
A esperança volta galopante para perto, bem perto da minha alma. A luz da fé voltou. Clareou!!!

*Vanessa Ribeiro
Filósofa, Atriz, Dançarina, Filósofa Clínica
Petrópolis/RJ

sexta-feira, 19 de setembro de 2014

As multidões*


Não é dado a todo o mundo tomar um banho de multidão: gozar da presença das massas populares é uma arte. E somente ele pode fazer, às expensas do gênero humano, uma festa de vitalidade, a quem urna fada insuflou em seu berço o gosto da fantasia e da máscara, o ódio ao domicílio e a paixão por viagens.

Multidão, solidão: termos iguais e conversíveis pelo poeta ativo e fecundo. Quem não sabe povoar sua solidão também não sabe estar só no meio de uma multidão ocupadíssima.

O poeta goza desse incomparável privilégio que é o de ser ele mesmo e um outro. Como essas almas errantes que procuram um corpo, ele entra, quando quer, no personagem de qualquer um. Só para ele tudo está vago; e se certos lugares lhe parecem fechados é que, a seu ver, não valem a pena ser visitados.

O passeador solitário e pensativo goza de uma singular embriaguez desta comunhão universal. Aquele que desposa a massa conhece os prazeres febris dos quais serão eternamente privados o egoísta, fechado como um cofre, e o preguiçoso. ensimesmado como um molusco. Ele adota como suas todas as profissões, todas as alegrias, todas as misérias que as circunstâncias lhe apresentem.

Isto que os homens denominam amor é bem pequeno, bem restrito, bem frágil comparado a esta inefável orgia, a esta solta prostituição da alma que se dá inteiramente, poesia e caridade, ao imprevisto que se apresenta, ao desconhecido que passa.

É bom ensinar, às vezes, aos felizes deste mundo, pelo menos para humilhar um instante o seu orgulho, que existem bondades superiores às deles, maiores e mais refinadas, Os fundadores de colônias, os pastores de povos, os sacerdotes missionários exilados no fim do mundo conhecem, sem dúvida, alguma coisa dessas misteriosas bebedeiras; e, no seio da vasta família que seu gênio criou, eles devem rir, algumas vezes, dos que se queixam de suas fortunas tão agitadas e de suas vidas tão castas.

*Charles Baudelaire

quinta-feira, 18 de setembro de 2014

Convites*


Tudo roda
continuando...
e nossa jornada
convida
a sair do eu
para sermos
Nós!

*Rosângela Rossi
Psicoterapeuta, Filósofa Clínica, Escritora
Juiz de Fora/MG

quarta-feira, 17 de setembro de 2014

Certeza*


Se é real a luz branca
desta lâmpada, real
a mão que escreve, são reais
os olhos que olham o escrito?

Duma palavra à outra
o que digo desvanece-se.
Sei que estou vivo
entre dois parênteses.

*Octávio Paz

terça-feira, 16 de setembro de 2014

Incertezas*


Hoje estava pensando em como é difícil viver nesse mundo repleto de incertezas de um constante vai e vem por todos os lados. Sentei em um bar – sim, porque à beira do caminho é só para os literatos – para tomar um chope e pensar na vida. 

Recentemente, li um livro de um filósofo brasileiro chamado Mário Sergio Cortella que nos coloca muitas inquietações. O livro se chama: Qual a tua obra? e eu me peguei pensando nisso enquanto tomava minha gelada. 

Confesso que não consegui pensar em nada... Só via pessoas indo e vindo em um frenesi que toma conta hoje de qualquer lugar no mundo – afinal, somos mais de 7 bilhões de destruidores do meio ambiente. Ainda absorto em meus pensamentos o olhando fixamente para o nada, comecei a pensar que poderia estar ficando maluco e que poderia estar sendo acometido pela doença dos grandes filósofos, assim como Nietzsche: a loucura. Sim! Porque nada faz sentido! 

As pessoas passando, de um lado para o outro, os ônibus e os carros – aliás, já repararam como aumentou, de uma hora para outra, o número de veículos nessa cidade? – e as motos e as bicicletas e eu olhando fixo para o nada sem entender o que estava acontecendo, saboreando minha cerveja. Mas o fato de estar saboreando minha cerveja não me fazia sensível ao passo das pessoas e coisas que se moviam à minha frente – até minha namorada passou, com pressa.

E esse é um detalhe que chamo atenção agora: todas as pessoas me pareciam estar com pressa! Incrível... Sim, pois enquanto eu estava sentado à mesa de um bar, saboreando um chope geladinho e pensava em tudo e em nada, as pessoas passavam de maneira a nem olhar ao redor! Triste... O tempo é curto. Essa é a sensação que tenho sempre. Mas também não adianta tentar viver tudo de uma só vez. As coisas se fazem devagar, no seu próprio tempo. Mas será que estou ficando louco? 

Porque não consegui pensar em nada, mas pensava em tudo e não chegava à conclusão nenhuma! Muitos questionamentos... estão me deixando travado... o que eu tenho que fazer pra me movimentar? Pra sair desse estado de paralítico? Voltando ao Cortella, estou tentando entender qual a minha obra comigo mesmo, e ainda não consegui... vida, religião, namoro, família, convivência, trabalho, o que são essas coisas? Onde elas nos levarão? Muitas inquietações... será que um dia terão fim?

O tempo é curto porque assim nós sentimos ser. Henri Bergson nos coloca que o tempo é fluxo contínuo. Se o tempo é isso, ele não é nem mais nem menos demorado, ele é o que é tendo o tempo que ele tem. Engraçado, de acordo com essa afirmação, uma brincadeira, tipo trava língua, que fazia quando criança parece ter razão: o tempo perguntou ao tempo quanto tempo o tempo tem; o tempo respondeu ao tempo que o tempo tem o mesmo tempo que o tempo tem. Incrível! 

A duração do tempo é o próprio tempo e ele não tem um “tempo”, ele é exatamente aquilo que ele é! E por que perguntamos quanto tempo vai levar certa coisa? Não faz sentido essa pergunta! 

*Vinicius Fontes
Filósofo Clínico
Rio de Janeiro/RJ

segunda-feira, 15 de setembro de 2014

O verdadeiro significado de uma produção artística*


A verdadeira arte só encontra força para germinar em meio ao caos, ao desespero e a confusão.
André Cardoso Czarnobai

A arte trabalha com signos, ícones que atravessam nossos sentidos e se dirigem ao inconsciente. Cada vez que acontece a manifestação artística através da produção de uma obra, o artista deseja, entre tantas coisas, extirpar seus demônios; essa é a maneira que ele encontra para se expressar; sendo um perscrutador de caminhos, desnuda sua alma.

Marcel Duchamp afirma que o artista tira as certezas, mas sem colocar outras no lugar das que desaparecem, ele é um eterno buscador de novos paradigmas; provocando através da observação de sua obra a procura por um novo olhar, tão urgente em um mundo ávido por formas criativas de comunicação.

O artista desenvolve e torna visível um universo próprio; mantendo sua inquietação através de sua obra, buscando em seu cotidiano elementos que se tornaram invisíveis ao olhar humano, muitas vezes desavisado e rotineiro, tornando-os novamente visíveis.

Para haver a criação artística é necessário que o artista possua capacidade de entrega e de diversidade, aliados ao conhecimento de técnicas diversas, para que ocorra o exercício dessa expressão. Desse modo o artífice permanece fiel a si próprio, porém se concede redefinidas inovações, soltando a imaginação e permitindo que a criatividade o possua inteiramente.

Através da produção artística, o artífice tenta organizar o caos interior profundamente instalado em seu íntimo, transformando sentimentos em objeto; sua obra expõe toda a expiação transmutada no fazer aquele objeto.

Neste ponto de nosso entendimento podemos inquirir: haverá realmente uma criação genuína? De onde são resgatados os símbolos contidos na obra?

Por meio de sua criação, o fazedor é movido pelo prazer da experimentação e pela incessante busca de aspectos originais do cotidiano, traduzindo e corporificando seus sentimentos através de sua obra. Em cada objeto nascido das entranhas do artista, fica gravado um quê de sua alma e repare que esse indivíduo nunca não é o mesmo de instantes atrás, pois está em constante evolução.

Seu mais recôndito anseio é estreitar o diálogo entre ele e sua obra, fazendo brotar o rico universo das sensações; dessa maneira a emoção vivida se corporifica.

Inúmeras vezes o artista não tem a pré-ocupação em ser entendido, aceito ou admirado; sua motivação mor é a auto-expressão. Toda a experiência vivida no cotidiano remete-o a seu íntimo, ao epicentro de si e torna-se fonte de inspiração; é assim que ele produz, atribuindo significados ao mundo através de sua obra.

Qual o sentido para o fazedor de uma obra de arte? Acreditamos que acima de tudo, seja o de preencher um vazio, profundamente existencial, pois todo artista é um ser complexo, assoberbado de emoções, inúmeras vezes contraditórias; no momento em que as expressa, já não se sente tão atormentado por elas.

O artista nos alicia a ver que a percepção tem algo de único e pessoal, e assim nos inclui no momento presente, abertos a intuir seus desdobramentos futuros; ele nos convida a aguçar nossa percepção – pois cada indivíduo é oportunizado a alargar seus horizontes, através do sentimento desperto pela obra.

O artífice busca desmanchar qualquer sentido que se insinue, para que, ao contemplarmos sua criação, retornemos à percepção; esse é o traço humano que devemos eleger, traço não óbvio e nada figurado, porém urgente num mundo carente de tal qualidade.

A produção artística retira a solução, para colocar ao espectador – a cada um de nós – a tarefa de perceber sua própria busca por sentido, no olho que olha e no espírito que sente.

Adorno profetiza a busca da felicidade através da arte. Sabemos que nada fala mais forte em favor da arte: o diálogo da alma da obra com o espectador é esse seu fidedigno sentido.

*Mariah de Olivieri
Filósofa. Mestre em Filosofia. Artista Plástica. Poeta. Estudante de Filosofia Clínica na Casa da Filosofia Clínica em Porto Alegre/RS 

domingo, 14 de setembro de 2014

Nem tudo é fácil*


"É difícil fazer alguém feliz, assim como é fácil fazer triste.
É difícil dizer eu te amo, assim como é fácil não dizer nada
É difícil valorizar um amor, assim como é fácil perdê-lo para sempre.
É difícil agradecer pelo dia de hoje, assim como é fácil viver mais um dia.
É difícil enxergar o que a vida traz de bom, assim como é fácil fechar os olhos e atravessar a rua.
É difícil se convencer de que se é feliz, assim como é fácil achar que sempre falta algo.
É difícil fazer alguém sorrir, assim como é fácil fazer chorar.
É difícil colocar-se no lugar de alguém, assim como é fácil olhar para o próprio umbigo.
Se você errou, peça desculpas...
É difícil pedir perdão? Mas quem disse que é fácil ser perdoado?
Se alguém errou com você, perdoa-o...
É difícil perdoar? Mas quem disse que é fácil se arrepender?
Se você sente algo, diga...
É difícil se abrir? Mas quem disse que é fácil encontrar
alguém que queira escutar?
Se alguém reclama de você, ouça...
É difícil ouvir certas coisas? Mas quem disse que é fácil ouvir você?
Se alguém te ama, ame-o...
É difícil entregar-se? Mas quem disse que é fácil ser feliz?
Nem tudo é fácil na vida...Mas, com certeza, nada é impossível
Precisamos acreditar, ter fé e lutar
para que não apenas sonhemos, Mas também tornemos todos esses desejos,
realidade!!!"

*Cecília Meireles

sábado, 13 de setembro de 2014

Aninha e suas pedras*


Não te deixes destruir…
Ajuntando novas pedras
e construindo novos poemas.

Recria tua vida, sempre, sempre.
Remove pedras e planta roseiras e faz doces. Recomeça.

Faz de tua vida mesquinha
um poema.
E viverás no coração dos jovens
e na memória das gerações que hão de vir.

Esta fonte é para uso de todos os sedentos.
Toma a tua parte.
Vem a estas páginas
e não entraves seu uso
aos que têm sede.

*Cora Coralina

sexta-feira, 12 de setembro de 2014

As mesmas palavras*



"Em seu ser atual,
as palavras,
acumulando sonhos,
fazem-se realidades."
 Gaston Bachelard

Uma só expressão pode conter, em si mesma, a pluralidade indescritível de significados. Parece uma propriedade especial, essa aptidão de multiplicar-se, para acolher a diversidade existencial em cada um.  

É improvável ser o dicionário de sinônimos e antônimos, o guardião de todas as possibilidades para ler, reler, desler suas variáveis discursivas. O território mutante das singularidades aprecia resguardar-se na vontade subjetiva. 

Seu esboço, a reivindicar uma chave de leitura específica, popõe qualificar o reencontro com a fonte de onde partiu. Em todo lugar, a cada instante, existe um convite para desbravar inéditos. Mesmo o antigo dialeto, recuperado pelo novo olhar, pode ser refúgio de originais. Assim, as mesmas palavras podem ser outras palavras. 

O encontro da expressividade com a intenção do autor, delimita seu sentido. Aqui não se busca o transbordamento do dizer, senão o recuo a um ponto de partida. A invisibilidade desse direcionamento, entre as primeiras e últimas declarações, protege a estrutura de pensamento da pessoa.  

A promessa de infinitas derivações, presente numa declaração cotidiana, pode oferecer alternativas existenciais, qualificar a emancipação pessoal. Um conteúdo assim descrito, pode ficar inexplicável, até alguma tradução. Talvez o ajuste das velhas lentes, consiga evidenciar a multidão de ideias num só dizer. 

Ao sentir-se deslocada em determinado contexto, a nova percepção aprecia transcrever-se noutras direções. Nesse sentido, a distorção do termo, pode resignificar seu uso, o qual, ao atingir o teto de suas possibilidades num lugar, consegue reapresentar-se noutro, fundar uma nova república das letras.  

Hélio Strassburger
Filósofo Clínico não filiado à anfic

quinta-feira, 11 de setembro de 2014

A Espantosa Realidade das Cousas*


A espantosa realidade das cousas
É a minha descoberta de todos os dias.
Cada cousa é o que é,
E é difícil explicar a alguém quanto isso me alegra,
E quanto isso me basta.

Basta existir para se ser completo.

Tenho escrito bastantes poemas.
Hei de escrever muitos mais. Naturalmente.

Cada poema meu diz isto,
E todos os meus poemas são diferentes,
Porque cada cousa que há é uma maneira de dizer isto.

Às vezes ponho-me a olhar para uma pedra.
Não me ponho a pensar se ela sente.
Não me perco a chamar-lhe minha irmã.
Mas gosto dela por ela ser uma pedra,
Gosto dela porque ela não sente nada.
Gosto dela porque ela não tem parentesco nenhum comigo.

Outras vezes oiço passar o vento,
E acho que só para ouvir passar o vento vale a pena ter nascido.

Eu não sei o que é que os outros pensarão lendo isto;
Mas acho que isto deve estar bem porque o penso sem estorvo,
Nem idéia de outras pessoas a ouvir-me pensar;
Porque o penso sem pensamentos
Porque o digo como as minhas palavras o dizem.

Uma vez chamaram-me poeta materialista,
E eu admirei-me, porque não julgava
Que se me pudesse chamar qualquer cousa.
Eu nem sequer sou poeta: vejo.
Se o que escrevo tem valor, não sou eu que o tenho:
O valor está ali, nos meus versos.
Tudo isso é absolutamente independente da minha vontade.

*Fernando Pessoa in Alberto Caeiro