terça-feira, 23 de setembro de 2014

Sociedade sem escolas!*


Imagine uma sociedade sem escolas. 

Esta sociedade também não terá aprendizados? Sim, terá. A relação direta entre escola-aprendizado é tão falaciosa quanto a relação escola-educação. Uma criança que entra na escola formal, e isso não é de hoje, muitas vezes já sabe ler, falar outra língua, por influência familiar ou porque viajou com pais desde muito pequena, tem seu gosto pela leitura incentivada por uma família que adora ler, já sabe tocar algum instrumento musical, já tem contatos mais aprofundados com algum esporte que, porventura, os pais jogam. 

Como ela obteve todas essas aprendizagens se, embora intencional, nenhuma foi precedida de um currículo formal? Não é de hoje também, que muitos educadores e filósofos já atentaram para o fato do autodidatismo ser a melhor forma de aprender. E por quê? Por que ela é automotivada. Se a automotivação é o motor do aprendizado – qualquer aprendizado e em qualquer idade ou fase da vida – por que obrigar as crianças a irem à escola? 

É que a escola entrou para o rótulo, já muito citado por Theodor Adorno, filósofo alemão, de indústria cultural. Só que a escola é da indústria do ensino. Obrigar a toda criança estar em uma escola movimenta milhões de reais e muita burocracia, que efetivamente, beneficia a quem vive dessa indústria: diretores de escolas, professores, pedagogos, supervisores, secretários de educação, etc. Quando, por exemplo, a pesquisa da última semana sobre eleições, afirma que o número de eleitores menores de 18 anos que escolheram por não participar dessa eleição que se aproxima diminui cerca de trinta por cento, o que você acha que os políticos vão fazer em relação a isso? Nada! Eles já têm uma reserva de mercado de indivíduos de 18 a 70 anos que são obrigados a votar. Se eles tivessem que conquistar eleitores, a pesquisa citada antes poderia preocupá-los. 

O mesmo acontece com as pessoas envolvidas na educação escolar. Se as escolas e os professores tivessem que conquistar seus alunos, pode ter certeza que trabalhariam no cominho da automotivação de seus pupilos e seriam muito mais flexíveis na questão do ensino, porque o que importaria de verdade não é o que ensinar, mas o que o outro quer aprender. Ivan Illich[1] se deu conta de tudo isso em 1970 quando lançou seu livro Sociedade sem Escolas. 

Desde então ele cunhou o termo rede de aprendizagens na esperança que esta se desinstalasse da instituição escolar. Por que hoje o privilégio de constatar e avaliar quem sabe e quem não sabe está na escola? Porque ela é detentora do certificado. Escola vende certificado. E para quem? Para o mercado de trabalho que só aceita instrução formalizada. Por quê? Para manter a reserva de mercado da indústria do ensino. 

Não é uma nem duas nem três histórias que cada um de nós conhece de amigos ou pessoas muito íntimas que fizeram anos de cursos, seja primário, secundário, universitário ou esses cursinhos de idiomas, que, quando defrontadas com a situação real do qual estudaram tanto, não souberam como agir, fazer ou falar e, para piorar, encontram outras pessoas que não passaram pela indústria do ensino e que agiam, faziam ou falavam muito melhor do que elas e aprenderam em muito menos tempo e, muitas vezes, com muito menos custo financeiro e, com muita certeza, com muito mais prazer. 

Redes de aprendizagens não-formais é a ideia básica de Ivan Illich, mas sua grande questão é colocar à disposição de todos a capacidade de desenvolver suas habilidades intelectuais ou físicas de forma livre e autodidata e não monopolizar em uma instituição a relação falaciosa de ensino-aprendizagem e ainda de forma que essa instituição ou seus governos determinam.

Vale lembrar uma frase que sempre me acompanhou desde minhas primeiras idas à escola formal: mais vale aquilo que aprendo do que aquilo que me ensinam.

*Fernando Fontoura
Filósofo, Educador Físico, Estudante de Filosofia Clínica
Porto Alegre/RS 

[1] Nasceu em Viena em 1926 e faleceu em 2002. Estudou filosofia e teologia na Universidade Gregoriana de Roma. Foi co-fundador do Centro Intercultural de Documentação (CIDOC) em Cuernavaca, México.

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