sexta-feira, 28 de novembro de 2014

A palavra território*



Existe um lugar_esconderijo diante de cada possibilidade. Nele as singularidades deixam entrever vontades, ensaios, buscas. Com os termos agendados descrevem um ser determinado. Desse endereço de onde exercita-se existencialmente, a pessoa elabora rituais, se apropria de atitudes, pensamentos, indica regiões da subjetividade, propõe uma gerencia para manutenção de seu entorno.  

Ao localizar existencialmente esse vislumbre de um chão por traduzir, o sujeito, em seus desdobramentos cotidianos, refere a expressividade como chave de acesso à essa intimidade, nem sempre acessível diretamente. Seu teor concede a duração possível para ser esboço. As possibilidades da linguagem derivam do contexto onde a pessoa vivencia seus dias e noites. 

Nessa geografia, impregnada de eventos nem sempre localizáveis, é possível visualizar fronteiras, descobrir um continente a se mover. Assim a realidade se institui, significa-se, desdobra-se em deslocamentos imprevisíveis. Seu aparecer inédito, contrapõe-se à previsibilidade e domesticação. A crise, nesse contexto de pretensão definitiva, costuma se instalar com o surgimento de ideias, sentimentos estrangeiros, evasivas, delírios precursores.   
  
Uma confluência de gestos, menções, ideias sobre as delimitações do possível, ao desconsiderar a utopia, costumam alimentar a fome de irrealidade. Os eventos assim classificados, instituídos por alguma forma de decreto, indicam clara e objetivamente até onde se pode chegar. Antecipadamente, se pode circunscrever, mapear, tipologizar a pessoa contida nos limites da palavra território. Nesse sentido, o hábito, quando corrompido pela surpresa, tende a reagir contra as ameaças da transgressão.

Esse fundamento, ao contribuir para a identidade singular, também pode rastrear princípios de verdade. Ao tornar visível esse mundo subjetivo, pode-se incorrer na equivocidade de crer ter visto tudo o que existe.  

Sua presença desconhecida se insinua nos deslizes à nova realidade. A mescla das águas do rio com o mar, antecipam a integração do antigo com o novo, restando, momentaneamente, um caos a embalar travessias. A distorção, o erro, a contradição, possuem um caráter de afrontar os limites conhecidos. Dessa coexistência problemática vão surgindo os rumores do vocabulário síntese. 

Ao mesmo tempo em que permite a percepção das finitudes, traz consigo a infinidade de possíveis. Um paradoxo que se alimenta da fuga das contradições, enquanto aguarda ser incapaz repetir-se. Assim pode situar tramas discursivas, entender a origem dos relatos, desdobramentos pessoais, oferecer uma leitura apropriada para ampliar o olhar.   

Nesse espaço investigativo, a releitura denuncia a obra em nova perspectiva. Por esse caminho descritivo, interpretativo, analítico, se pode detectar o contexto de onde brotam as palavras. Talvez a reflexão sobre a palavra território, contribua com a subversão a ampliar fronteiras.   

*Hélio Strassburger

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