domingo, 4 de janeiro de 2015

Filosofia no cotidiano!*


Filosofia no Cotidiano parece ser uma frase paradoxal, pois filosofia e cotidiano não parecem fazer parte da mesma ideia. Filosofia é exatamente aquilo que não se faz no cotidiano. Filosofia no sentido de um exercício de pensamento radical, e radical em dois sentidos: no de ir até a raiz das questões e no sentido de sair do centro e passar a radial que delimita o círculo. Ou seja, um exercício de pensamento que é excêntrico e extra-ordinário. 

E cotidiano é exatamente aquilo que é lugar-comum, ordinário, mais-do-mesmo, “mesmice”, enraizador e não radical. A proposta, então, de uma filosofia no cotidiano é, dentro do ordinário e do mais-do-mesmo, plantar uma semente de pensamento radical para pensar com crítica aquilo que é dado como certo, natural e irretocável. 

Dentro desse espaço que é o cotidiano, há emoções, mas não são suficientes para que haja desacomodação. Pois cotidiano é acomodação, segurança. Há alegrias, mas não que nos exceda; há tristezas, mas não o suficiente para que provoque mudanças. Sentimentos que nos mantenham a sensação de que estamos vivos e participando do mundo dentro de um espaço que nos acomoda, do habitual, do casual. Dentro do cotidiano, muito se reclama e se lamenta, mas isso também faz parte do cotidiano. Entre emoções boas e ruins, atinge-se um equilíbrio que mantém o cotidiano dentro de um esquema de segurança e controle. 

O cotidiano nos constitui enquanto pessoas (profissão, lazer, entretenimento, obrigações sociais, etc.) mas também nos enraíza em um espaço delimitado sem qualquer possibilidade de grandes mudanças ou novidades. Apenas mudanças e novidades que estão dentro do escopo daquilo que nos constitui enquanto pessoas ligadas àquilo que nos afeta de forma direta: alguma promoção, alguma viagem, filhos, nova casa ou novo emprego. Mas essas coisas não alteram de forma substancial nossa forma de viver e de lidar com nós mesmos.

Além do mais, procuramos as coisas que nos enraízam no cotidiano cada vez mais, como jornais e programas de noticiários que nos informem de nosso cotidiano e de nosso âmbito de contato com as coisas que nos constituem. Aceitamos as notícias como parte daquilo que somos e vivemos e compramos (literalmente) entretenimentos e relações que nos afundem cada vez mais em nosso lugar-comum. Achamos que temos liberdade por escolher uma viagem ao invés de outra ou entre um salão de beleza ao invés de outro, mas estamos condicionados a viajar e a sermos esteticamente de certa forma por aquilo que está dentro de nosso cotidiano nos determinando e nos constituindo. 

Pensamo-nos livres, fazemos escolhas, mas dentro daquilo que aceitamos como opções dadas naquilo que podemos alcançar dentro de nosso cotidiano. Vez por outra fazemos uma grande viagem ou mudamos algo substancial e aí colocamos todas essas experiências em fotos e voltamos ao cotidiano, por ora, mais “recarregados” e animados...para fazer mais do mesmo.

Colocar o exercício do pensamento filosófico, como método, no cotidiano é alimentar um pouco a nossa parte de desconfiança e crítica quanto àquilo que nos é dado. É alimentar a estranheza ao invés do comodismo. É perceber nosso lugar em uma sociedade e reconhecer as mensagens subliminares dessa sociedade em direção frontal ao nosso Ser. Ter em mente uma ponta de teoria da conspiração é saudável para quem pretende colocar sua expressão de seu Ser de forma mais enfática e ampla em relação àquilo que o constitui. É não apenas ser constituído, mas constituir.

O livro de Márcia Tiburi, Filosofia Prática[1], delineia bem esse cotidiano e nos coloca frente a frente à discussão do cotidiano como algo que se naturaliza e, por isso, esconde suas verdadeiras intenções e acaba por mortificar o pensamento e a reflexão. É, assim, um exercício ao contrário do pensamento radical e leva ao vazio do pensamento, à ação pela ação, ao automatismo e à diminuição da qualidade das relações humanas, inclusive consigo mesmo.

Filosofia no cotidiano revela-se um exercício existencial, assim como nos tempos da Grécia e de Roma como Sêneca ou Epicteto. Guardar um tempo dentro do cotidiano para analisar, reconhecer, repensar, refletir sobre o próprio cotidiano e nosso lugar nele acaba por ser um antivírus pessoal para poder viver de forma íntegra e honesta com nós mesmos neste mundo que nos constitui e no qual também deixaremos nossa marca. E não apenas seremos marcados por ele. 

[1] Tiburi, Márcia. Filosofia Prática: ética,vida cotidiana, vida virtual. 2ª ed. Rio de Janeiro: Record, 2014.

*Fernando Fontoura
Filósofo, Mestrando em Filosofia, Estudante na Casa da Filosofia Clínica
Porto Alegre/RS

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