domingo, 31 de maio de 2015

A Realidade Transfigurada*


Não quero ter a terrível limitação de quem vive apenas do que é passível de fazer sentido. Eu não: quero é uma verdade inventada. 

O que te direi? te direi os instantes. 

Exorbito-me e só então é que existo e de um modo febril. Que febre: conseguirei um dia parar de viver? ai de mim, que tanto morro. Sigo o tortuoso caminho das raízes rebentando a terra, tenho por dom a paixão, na queimada de tronco seco contorço-me às labaredas. 

A duração de minha existência dou uma significação oculta que me ultrapassa. Sou um ser concomitante: reúno em mim o tempo passado, o presente e o futuro, o tempo que lateja no tique-taque dos relógios.

Para me interpretar e formular-me preciso de novos sinais e articulações novas em formas que se localizem aquém e além de minha história humana. Transfiguro a realidade e então outra realidade, sonhadora e sonâmbula, me cria. 

E eu inteira rolo e à medida que rolo no chão vou me acrescentando em folhas, eu, obra anônima de uma realidade anônima só justificável enquanto dura a minha vida. E depois? depois tudo o que vivi será de um pobre supérfluo.

Mas por enquanto estou no meio do que grita e pulula. E é sutil como a realidade mais intangível. Por enquanto o tempo é quanto dura um pensamento.

*Clarice Lispector

sábado, 30 de maio de 2015

Psiquiatria e identidade filosófica*


O conceito de identidade é coisa séria na filosofia. Tem consequências em várias áreas como a metafísica, a epistemologia, a relação mente-corpo, para falar das mais destacadas. Quando Aristóteles, no livro V da Metafísica, define identidade como uma unidade do ser, está se referindo a uma identidade, digamos, forte. Algo idêntico a si mesmo não pode ser de outra forma e nem outro ser pode ser idêntico a ele.

Mas, escreve ele, há identidade mais fraca, digamos assim. Coisas que são diversas em seu ser podem ser idênticas em propriedades ou aspectos. Qualidades, atributos e afecções podem ser idênticas em seres diferentes, assim como, por exemplo, todo ser humano é bípede mesmo sendo seres não idênticos de modo forte, pois cada indivíduo é um ser em si.

O mito da doença mental atua implicitamente no conceito de identidade. E quer atuar no modo forte desse conceito. Tenta nos fazer crer que atributos do ser têm identidade forte entre eles. A identidade forte, assumida como uma relação de si consigo mesmo, é ainda logicamente aceitável, porém tem suas controvérsias metafísicas e epistemológicas. Mas ainda assim a aceitamos de forma mais clara ou menos obscura. 

Usamos carteira de identidade para afirmar que somos quem somos e que ninguém pode ser outro por nós. Este exemplo ainda não é bom, pois a carteira de identidade representa quem somos, e o conceito de identidade não representa uma coisa com outra: é. O exemplo ainda não é bom, mas dá uma ideia de que assumimos a identidade forte de um ser consigo mesmo. Ter identidade é ser aquilo que somos sem uma cisão entre o ser e seus atributos ou qualidades ou afecções. A única cisão entre o ser e seus atributos é formal, mas nunca substancial.

A psiquiatria usa o conceito de identidade entre cérebro e comportamento. Quer fazer uma ligação forte de identidade entre esses dois e nos diz que nosso comportamento é algo em nosso cérebro (uma reação química, ou um estímulo ou uma ação neuronal). Mas afirmar identidade entre duas coisas diferentes é ainda mais problemático quanto assumir a identidade de si para consigo mesmo. 

Para afirmar o argumento a psiquiatria e os psiquiatras colocam força nos argumentos de força, tais como serem considerados médicos ou associarem-se a técnicas médicas científicas como neurodiagnóstico computacional. A força desses argumentos está baseada na força do saber-poder atrelados a eles – medicina e ciência – mas não explicam nem conseguem reforçar a identidade fraca como se fosse forte.

O fato de uma reação química se dar no cérebro quando certo comportamento acontece, seja mental ou físico, ou quando uma luz ilumina, no programa de computador, certa área do cérebro quando este é estimulada pela tristeza, por exemplo, não é automaticamente identidade entre cérebro e comportamento ou cérebro e sentimento. 

Pode ser que vinte pessoas em um laboratório, todas ligadas ao mesmo programa de computador e estimuladas com sentimentos de tristeza, tenham as mesmas reações químicas e iluminem o mesmo local no cérebro. Mas o que isso diz do conteúdo daquilo que sentiram? Como avaliar a intensidade, a extensão e o impacto que tal tristeza na vida de qualquer uma dessas pessoas ligadas ao computador? 

Essa identidade que querem estabelecer nesta experiência, por exemplo, é uma identidade fraca, de atributos, de afecções, de propriedades. E não seria necessário medicina ou ciência tecnológica para estabelecer qualquer tipo de identidade fraca. Podemos ficar com o exemplo no início desse texto: sem ligar-nos a fios e a computadores, podemos estabelecer que aqueles vinte indivíduos dentro daquele laboratório são bípedes, ou têm apenas dois olhos ou qualquer outra coisa. A ciência e a medicina servem apenas para dar peso ao argumento da força e não para dar força ao argumento.

Ao concedermos que a psiquiatria aliada à medicina e à ciência consegue estabelecer uma identidade forte entre cérebro e comportamento ou cérebro e sentimento estamos concedendo mais do que deveríamos e poderia ser concedido a uma pseudo-explicação que, tirando toda maquiagem e fantasia, não passa de uma explicação teórica análoga à da possessão demoníaca.

Não há identidade entre cérebro e comportamento ou entre cérebro e sentimento. Conceder que há reações químicas e estímulos no cérebro em consonância com comportamentos e sentimentos não é conceder que há identidade. Pode-se dizer que há uma relação causal entre elas, mas aí caímos em outro problema que é o determinismo. Não podemos aceitar também o reducionismo onde diz que porque reações químicas acontecem em nosso cérebro então somos meras reações químicas. Em uma guerra há em atividade leis da física, mas daí não podemos reduzir a guerra à física.

Considerar uma identidade falsa ou um determinismo é enfraquecer as relações complexas que acontecem entre os seres humanos e entre eles e seu meio. Além de não considerar a complexidade ainda maior que tudo isso toma na mente e nos sentimentos de cada um. Ainda, desde Sócrates, não foi achado atalho para o bem estar e a vida boa, e essas tentativas de diagnósticos identitários ou deterministas são tentativas de fabricar esses atalhos.

Mesmo que a reação química esteja presente e o computador identifique qual área do seu cérebro se ilumina com tal sentimento, ainda é a intersubjetividade que qualifica e dá sentido e significado àquilo que cada um sente e age.

Podemos aceitar a identidade forte de Aristóteles e dizer que somos uno com nós mesmos e então, a partir daí, estruturar nosso bem viver de acordo com aquilo que é necessário para manter e qualificar nosso eu que emerge de nosso ser. 

Mas precisamos estar atentos às teorias psiquiátricas que tentam definir nosso eu não de nosso ser, mas de uma falsa identidade entre atributos do nosso ser, mas que não definem sozinhos nosso eu nem se relacionam de forma determinista. Para nós, adultos, ainda nos resta um exame de autocrítica e autoconhecimento que pode nos proteger de pseudo-teorias-explicativas-com-argumento-da-força. 

Mas a coisa se torna mais séria quando adultos cuidam e tratam com crianças. A escola hoje é a instituição que mais clientes consegue para as clínicas psiquiátricas. As crianças hoje são medicadas e envenenadas muito em função da participação de adultos que trabalham com crianças em escolas. 

Faz-se urgente uma intervenção dialógica dentro das escolas, mais diálogo sobre essas supostas alternativas medicamentosas, e que os pais consigam conhecer melhor seus filhos e acreditar menos em fantasias explicativas deterministas e de pseudo-identidades.

Mas isso é outro assunto!

*Fernando Fontoura
Filósofo. Mestrando em Filosofia. Estudante na Casa da Filosofia Clínica
Porto Alegre/RS

sexta-feira, 29 de maio de 2015

A um Poeta*


Longe do estéril turbilhão da rua,
Beneditino, escreve! No aconchego
Do claustro, na paciência e no sossego,
Trabalha, e teima, e lima, e sofre, e sua!

Mas que na forma de disfarce o emprego
Do esforço; e a trama viva se construa
De tal modo, que a imagem fique nua,
Rica mas sóbria, como um templo grego.

Não se mostre na fábrica o suplício
Do mestre. E, natural, o efeito agrade,
Sem lembrar os andaimes do edifício:
Porque a Beleza, gêmea da Verdade,
Arte pura, inimiga do artifício,
É a força e a graça na simplicidade.

*Olavo Bilac

quinta-feira, 28 de maio de 2015

Caminhos do neologismo*


 “O desejo é fundamental polívoco, e sua polivicidade faz dele um único e mesmo desejo que banha tudo.”
Kafka

“...formas de corporeidade, de gestualidade, de ritmo, de dança, de rito, coexistem no heterogêneo com a forma vocal. ”
Deleuze e Guattari


Ainda sobre o neologismo no pensar, o pensamento é um voo que vai além da univocidade, ele tem sua pluralidade no efeito dos significados. Está certo, o significado é preciso mas ele percorre o signo como um estilhaço de origens. O fato de existir a criação, de recriar naquilo que já existe outros existentes nomes é o que legitima a polivicidade dos nomes.

Um nome sozinho é um achado no meio da linguagem, é o que faz o filósofo da contemporaneidade, não recorrer apenas o existente e não se iludir com os nomes, flexibilizar os caminhos, romper barreiras com a força da linguagem. 

Não existe um sem outro, o pensamento e a linguagem não estão isolados. Mesmo com o artificialismo das coisas, até aí foi preciso o pensar sobre a origem da polivicidade das formas. 

O pensamento serve ainda para contribuir nos mistérios da criação, a linguagem é o caminho do neologismo desterritorializado no fluxo da linguagem do cotidiano.

*Luis Antônio Gomes
Doutor em Comunicação. Editor Sulina.  Prof. PUC/RS
Porto Alegre/RS

quarta-feira, 27 de maio de 2015

A Ilusão da Viagem*


Viajar é o paraíso dos tolos. Devemos às nossas primeiras jornadas a descoberta de que o lugar não significa nada. 

Em casa, imagino sonhadoramente que em Nápoles ou em Roma poderei intoxicar-me de beleza e livrar-me da tristeza. 

Faço as malas, abraço os amigos, tomo um vapor e, finalmente, acordo em Nápoles e lá, diante de mim, está o facto insubornável, o triste eu, implacável, idêntico, de que fugi. 

Visito o Vaticano e os palácios. Finjo estar intoxicado com as visitas e as sugestões, mas não é verdade. O meu gigante acompanha-me por onde vou.

*Ralph Waldo Emerson, in "Essays"

terça-feira, 26 de maio de 2015

Poéticas*


“o que há a fazer? - Nada!
ao parar de buscar
encontramos!
- Agora!
no intervalo...
um raio de entendimento!”

“que nossos sonhos
dormindo ou acordado
se realizem.
que possamos voar
em liberdade sem
as nuvens das repressões.
leves e soltos
sem medos e ansiedades
nos rendamos à vastidão!”

*Rosângela Rossi
Psicoterapeuta, Filósofa Clínica, Escritora, Poeta
Juiz de Fora/MG

segunda-feira, 25 de maio de 2015

A Inutilidade dos Sindicatos*


A sindicação, saída da liberdade como o monopólio espontâneo, é igualmente inimiga dela, e sobretudo das vantagens dela; é-o com menos brutalidade e evidência e, por isso mesmo, com mais segurança. 

Um sindicato ou associação de classe — comercial, industrial, ou de outra qualquer espécie — nasce aparentemente de uma congregação livre dos indivíduos que compõem essa classe; como, porém, quem não entrar para esse sindicato fica sujeito a desvantagens de diversa ordem, a sindicação é realmente obrigatória. 

Uma vez constituído o sindicato, passam a dominar nele — parte mínima que se substitui ao todo — não os profissionais (comerciantes, industriais, ou o que quer que sejam), mais hábeis e representativos, mas os indivíduos simplesmente mais aptos e competentes para a vida sindical, isto é, para a política eleitoral dessas agremiações. Todo o sindicato é, social e profissionalmente, um mito.

Mais incisivamente ainda: nenhuma associação de classe é uma associação de classe. No caso especial da sindicação na indústria e no comércio, o resultado é desaparecerem todas as vantagens da concorrência livre, sem se adquirir qualquer espécie de coordenação útil ou benéfica. O caráter natural do regímen livre atenua-se, porque surge em meio dele este elemento estranho e essencialmente oposto à liberdade. 

A vantagem pública da não elevação desnecessária de preços desaparece por completo, pois por haver sindicato, é fácil a combinação e a "frente-única" contra o público e, por esse sindicato ser tirânico, é fácil compelir à aceitação de novas tabelas os profissionais pouco dispostos a aceitá-las.

Quanto ao aperfeiçoamento dos serviços comerciais ou industriais, que a concorrência estimula, o sindicato diminui-o na própria proporção em que diminui o espírito de concorrência e, como nunca é dirigido por grandes profissionais, mas por políticos de dentro da profissão, pouco pode animar diretamente a técnica da indústria ou do comércio que representa. 

Nem resulta da ação do sindicato qualquer coordenação útil que compense estas desvantagens todas. Não tendo uma verdadeira base de liberdade, o sindicato não coordena a classe como indivíduos; não tendo nunca uma direção profissionalmente superior, o sindicato não coordena a classe como profissionais; não tendo outro fim senão o profissional e o econômico, o sindicato não coordena a classe como cidadãos.

*Fernando Pessoas, in 'Ideias Filosóficas'

domingo, 24 de maio de 2015

Poéticas*


Sabia muito bem
Desde o começo
Dos perigos que corria
Até havia lhe pedido
Em um bilhete escrito
Que não me deixasses
Conhecer sua alma.
Avançamos porém os sinais.
Éramos duas crianças
Brincávamos e sorríamos
Me ofereceste teus olhinhos
Por onde entrei
E me perdi
E fiquei
E descansei.
Paguei por ter te olhado a olho nu.
Eu já sabia
Que fecharias as portas
De entrada e saída
Então te levei para morar comigo
Tenho agora duas almas dentro de mim.

*José Mayer
Filósofo. Livreiro. Poeta. Estudante na Casa da Filosofia Clínica
Porto Alegre/RS

sábado, 23 de maio de 2015

Românticos*


Românticos são poucos
Românticos são loucos desvairados
Que querem ser o outro
Que pensam que o outro é o paraíso

Românticos são lindos
Românticos são limpos e pirados
Que choram com baladas
Que amam sem vergonha e sem juízo

São tipos populares
Que vivem pelos bares
E mesmo certos vão pedir perdão
Que passam a noite em claro
Conhecem o gosto raro
De amar sem medo de outra desilusão

Romântico
É uma espécie em extinção
Romântico
É uma espécie em extinção

Românticos são poucos
Românticos são loucos desvairados
Que querem ser o outro
Que pensam que o outro é o paraíso

Românticos são lindos
Românticos são limpos e pirados
Que choram com baladas
Que amam sem vergonha e sem juízo

São tipos populares
Que vivem pelos bares
E mesmo certos vão pedir perdão
Que passam a noite em claro
Conhecem o gosto raro
De amar sem medo de outra desilusão

Romântico
É uma espécie em extinção
Romântico
É uma espécie em extinção

Românticos são poucos
Românticos são loucos como eu
Românticos são loucos
Românticos são poucos como eu, como eu

*Vander Lee 

sexta-feira, 22 de maio de 2015

Pensar ou não pensar ?*


Como seres humanos, nada nos é dado automaticamente. Temos que desenvolver cada aspecto de nosso ser para nos mantermos vivos. Inclusive pensar. Pensar é um ato de escolha. O cérebro nos é concedido, mas não seu conteúdo. Temos as ferramentas, mas podemos evadir do processo de pensar. Não nos é dado por instinto o conhecimento das coisas e nem de nós mesmos. Há um esforço que temos que decidir se vamos realizar ou não: pensar ou não pensar?

Claro que há vários sentidos em que podemos falar do pensar. O que proponho aqui é um pensar ativo, não uma simples apreensão de algo. E também não um processo isolado. Um pensar dialético das coisas do mundo com nós mesmos e com os outros. 

Pensar seria entrar em diálogo com nós mesmos sobre as coisas do mundo. Um pensar sobre as coisas sem refletir por que ou como as definimos de uma ou outra maneira, não é pensar. É fazer uma colagem da primeira impressão para um espaço definido para, exatamente, não mais precisar pensar sobre as coisas. 

Essa maneira de definir coisas do mundo sem pensar sobre o que pensamos sobre elas é uma maneira de fortalecer o preconceito paralisante (há o preconceito bom, que não nos paralisa, mas nos movimenta) e a estagnação mental. É colocar definições junto com muros altos para evitar termos que revê-las futuramente. 

Está tudo definido, cada coisa “em seu devido lugar” e assim matamos nossa potência de pensar. Quando não pensamos, ou seja, não entramos em diálogo com nossas impressões primeiras sobre o que pensamos do mundo, acabamos, mais cedo ou mais tarde, agindo por automação. Agir assim é o contrário de agir com autonomia, o que, de certa forma, é um dos resultados do pensar.

Pensando o pensar como diálogo interno sobre as coisas do mundo, temos apenas que ter o cuidado de não fazermos isso isolados. Ficar sozinho em uma montanha gelada, dentro de um quarto, em uma cadeira em frente à lareira pensando seu pensar sobre o mundo não é maneira profícua de tratar sobre o pensar. O outro, tomando-o como alteridade, também faz parte do pensar de cada indivíduo. Na medida em que confrontamos o nosso pensar dialético com outros, temos a grande chance de manter nosso pensar em atividade e chegar mais longe na construção de nosso próprio pensar. 

Conhecer-se a si mesmo mas não somente consigo mesmo é uma das lições da filosofia e de Sócrates. Manter a atividade do pensar e contrastá-la com outros pensares é uma forma de medir nossa própria estatura cognitiva e percebermos que o maior pensar sozinho ainda é pequeno se não entrecruzado com outros pensares.

Pensar não é um processo automático e nem de pouca monta. Defender a atividade mental para não cair no exílio do automatismo é um exercício que quase se torna moral, pois se ainda, de alguma forma, não podemos nos evadir do fato de sermos seres racionais, precisamos da decisão de nos tornarmos seres pensantes ou não.

*Fernando Fontoura
Filósofo, Mestrando em Filosofia, Estudante na Casa da Filosofia Clínica
Porto Alegre/RS

quinta-feira, 21 de maio de 2015

Carta*










Meu caro poeta,

Por um lado foi bom que me tivesses pedido resposta urgente, senão eu jamais escreveria sobre o assunto desta, pois não possuo o dom discursivo e expositivo, vindo daí a dificuldade que sempre tive de escrever em prosa.

A prosa não tem margens, nunca se sabe quando, como e onde parar. O poema, não; descreve uma parábola traçada pelo próprio impulso (ritmo); é que nem um grito. Todo poema é, para mim, uma interjeição ampliada; algo de instintivo, carregado de emoção.

Com isso não quero dizer que o poema seja uma descarga emotiva, como o fariam os românticos. Deve, sim, trazer uma carga emocional, uma espécie de radioatividade, cuja duração só o tempo dirá. Por isso há versos de Camões que nos abalam tanto até hoje e há versos de hoje que os pósteros lerão com aquela cara com que lemos os de Filinto Elísio.

Aliás, a posteridade é muito comprida: me dá sono. Escrever com o olho na posteridade é tão absurdo como escreveres para os súditos de Ramsés II, ou para o próprio Ramsés, se fores palaciano.

Quanto a escrever para os contemporâneos, está muito bem, mas como é que vais saber quem são os teus contemporâneos? A única contemporaneidade que existe é a da contingência política e social, porque estamos mergulhados nela, mas isto compete melhor aos discursivos e expositivos, aos oradores e catedráticos.

Que sobra então para a poesia? – perguntarás. E eu te respondo que sobras tu. Achas pouco? Não me refiro à tua pessoa, refiro-me ao teu eu, que transcende os teus limites pessoais, mergulhando no humano. O Profeta diz a todos: “eu vos trago a verdade”, enquanto o poeta, mais humildemente, se limita a dizer a cada um: “eu te trago a minha verdade.” E o poeta, quanto mais individual, mais universal, pois cada homem, qualquer que seja o condicionamento do meio e da época, só vem a compreender e amar o que é essencialmente humano. Embora, eu que o diga, seja tão difícil ser assim autêntico. Às vezes assalta-me o terror de que todos os meus poemas sejam apócrifos!

Meu poeta, se estas linhas estão te aborrecendo é porque és poeta mesmo. Modéstia à parte, as digressões sobre poesia sempre me causaram tédio e perplexidade. A culpa é tua, que me pediste conselho e me colocas na insustentável situação em que me vejo quando essas meninas dos colégios vêm (por inocência ou maldade dos professores) fazer pesquisas com perguntas assim: “O que é poesia? Por que se tornou poeta? Como escrevem os seus poemas?” A poesia é dessas coisas que a gente faz mas não diz. 

A poesia é um fato consumado, não se discute; perguntas-me, no entanto, que orientação de trabalho seguir e que poetas deves ler. Eu tinha vontade de ser um grande poeta para te dizer como é que eles fazem. Só te posso dizer o que eu faço. Não sei como vem um poema.

Às vezes uma palavra, uma frase ouvida, uma repentina imagem que me ocorre em qualquer parte, nas ocasiões mais insólitas. A esta imagem respondem outras. Por vezes uma rima até ajuda, com o inesperado da sua associação. (Em vez de associações de ideias, associações de imagem; creio ter sido esta a verdadeira conquista da poesia moderna.) Não lhes oponho trancas nem barreiras. Vai tudo para o papel.

Guardo o papel, até que um dia o releio, já esquecido de tudo (a falta de memória é uma bênção nestes casos). Vem logo o trabalho de corte, pois noto logo o que estava demais ou o que era falso. Coisas que pareciam tão bonitinhas, mas que eram puro enfeite, coisas que eram puro desenvolvimento lógico (um poema não é um teorema) tudo isso eu deito abaixo, até ficar o essencial, isto é, o poema. Um poema tanto mais belo é quanto mais parecido for com o cavalo. Por não ter nada de mais nem nada de menos é que o cavalo é o mais belo ser da Criação.

Como vês, para isso é preciso uma luta constante. A minha está durando a vida inteira. O desfecho é sempre incerto. Sinto-me capaz de fazer um poema tão bom ou tão ruinzinho como aos 17 anos. Há na Bíblia uma passagem que não sei que sentido lhe darão os teólogos; é quando Jacob entra em luta com um anjo e lhe diz: “Eu não te largarei até que me abençoes”. Pois bem, haverá coisa melhor para indicar a luta do poeta com o poema? Não me perguntes, porém, a técnica dessa luta sagrada ou sacrílega. Cada poeta tem de descobrir, lutando, os seus próprios recursos. Só te digo que deves desconfiar dos truques da moda, que, quando muito, podem enganar o público e trazer-te uma efêmera popularidade.

Em todo caso, bem sabes que existe a métrica. Eu tive a vantagem de nascer numa época em que só se podia poetar dentro dos moldes clássicos. Era preciso ajustar as palavras naqueles moldes, obedecer àquelas rimas.

Uma bela ginástica, meu poeta, que muitos de hoje acham ingenuamente desnecessária. Mas, da mesma forma que a gente primeiro aprendia nos cadernos de caligrafia para depois, com o tempo, adquirir uma letra própria, espelho grafológico da sua individualidade, eu na verdade te digo que só tem capacidade e moral para criar um ritmo livre quem for capaz de escrever um soneto clássico.

Verás com o tempo que cada poema, aliás, impõe sua forma; uns, as canções, já vêm dançando, com as rimas de mãos dadas, outros, os dionisíacos (ou histriônicos, como queiras) até parecem aqualoucos. E um conselho, afinal: não cortes demais (um poema não é um esquema); eu próprio que tanto te recomendei a contenção, às vezes me distendo, me largo num poema que vai lá seguindo com os detritos, como um rio de enchente, e que me faz bem, porque o espreguiçamento é também uma ginástica. Desculpa se tudo isso é uma coisa óbvia; mas para muitos, que tu conheces, ainda não é; mostra-lhes, pois, estas linhas.

Agora, que poetas deves ler? Simplesmente os poetas de que gostares e eles assim te ajudarão a compreender-te, em vez de tu a eles. São os únicos que te convêm, pois cada um só gosta de quem se parece consigo. Já escrevi, e repito: o que chamam de influência poética é apenas confluência. Já li poetas de renome universal e, mais grave ainda, de renome nacional, e que no entanto me deixaram indiferente. De quem a culpa? De ninguém. É que não eram da minha família.

Enfim, meu poeta, trabalhe, trabalhe em seus versos e em você mesmo e apareça-me daqui a vinte anos. Combinado?

*Mario Quintana

quarta-feira, 20 de maio de 2015

Espiritualidade para Poetas*




“Escritor: não somente uma certa maneira especial de ver as coisas, senão também uma impossibilidade de as ver de qualquer outra maneira” (Carlos Drummond de Andrade).

A cada manhã renasço com as esperanças que florescem anônimas no jardim dos meus dias. A beleza não precisa de propaganda quando a plateia que contempla sua delicadeza oferece aplausos com as sutilezas do olhar. Em cada canto de minha casa está um pouco daquilo que sou. Na cozinha os aromas do tempo e o perfume dos mais variados temperos costuram nas tramas da vida o presente do passado. Sobrevivo de memórias que a cada dia são sempre novas. Carrego em minha alma as marcas do tempo da vida bem vivida. E por vezes sofrida…

Na minha pequena biblioteca os amigos das noites infinitas de solidão. Nunca obtive o autografo de um autor famoso, mais conheço a alma de cada um deles melhor que os seus amigos de outros tempos. Minha história tem um pouco de Guimarães e de Drummond. Meus sonhos se confundem com os de Pessoa e minhas lágrimas são um pouco de Graciliano. Em cada canto de minha alma encontra-se um sorriso nas entrelinhas das marcas eternizadas em parágrafos que me ajudaram a escrever meus dias.

Na estante alguns bibelôs que marcam minhas viagens por tantos lugares que hoje são apenas doces lembranças que o tempo não quis esquecer. Caminhei pela vida buscando belos horizontes e portos alegres. Perdi-me em muitos passos e cheguei há alguns portos seguros. Sou da vida viajante que escreveu no tempo pequenas histórias que somente eu mesmo conheço.

Em cada tarde ritualizo antigas práticas que em mim se faz sacramento de valores que o tempo não apaga. Despeço-me do sol e acolho as alegrias da noite que em estrelas fulgurantes devolvem-me saudades de um sertão com muitas veredas. Sou filho da poesia e dos amores que em mim ainda despertam o desejo incontido que me fazem seguir nos caminhos sempre novos a cada amanhecer.

Prefiro calar-me e ver a vida com os olhares que me devolvem a paz roubada pelas agitações modernas. Sou de outros tempos nos quais a vida seguia seu ritmo natural. Não me perco nas modernidades pois minha alma será sempre atemporal. O tempo que me cabe eu o vivo em cada cena de uma nova peça da qual sou protagonista. Não nasci para ser coadjuvante no plural de multidões. Faço-me ator de personagens que em mim ganham novas falas a cada encontro sempre novo.

Abraço as borboletas e danço com as nuvens. Meu céu é um pedaço de minhas alegrias e nele antecipo a chegada de minhas alegrias. Não perco a hora quando o que desejo é ser eu mesmo. Desamarro os nós de minhas inquietações e descanso meus pés já cansados na leveza de uma sombra graciosa. Escuto o longe dos meus silêncios e transfiguro minhas saudades no espaço do amor que não cabe em meu peito.

Do contrário que não entendo faço versos em tantos contextos. Minha cama tem a colcha costurada com os retalhos das cores que em cada dia deixam o seu tom de eternidade impresso nas varandas do meu ser. Da essência sou a vida e do amor outros tantos.

Pe Flávio Sobreiro
Escritor, Poeta, Estudante de Filosofia Clínica
Cambuí/MG

terça-feira, 19 de maio de 2015

A música de cada um*


Há no coração de cada um de nós, por essência, uma música que é somente nossa, inigualável, intransferível. Por várias razões, conhecidas ou não, às vezes aprendemos desde muito cedo a diminuir, gradativamente, o seu volume e inventar ruídos que nada tem a ver com ela para nos relacionarmos com nós mesmos e com os outros. 

Até que chega um tempo em que desaprendemos a entrar no nosso próprio coração para ouvi-la e, porque não passeamos mais nele, porque não a ouvimos mais, não é raro esquecermos completamente que ela existe. 

Mas, como toda ignorância, toda indiferença, toda confusão, não são capazes de apagar a beleza original dessa partitura impressa na alma, ela continua tocando, ainda que de forma imperceptível. Continua tocando, à espera do dia em que, de novo ou pela primeira vez, possamos aumentar o seu volume, trazê-la à tona, compartilhá-la. Continua tocando, e alguns são capazes de escutá-la mesmo quando não conseguimos.

Todo encontro genuíno de amor é também o encontro de duas pessoas que conseguem ouvir a música uma da outra e sentir alegria e descanso com aquilo que ouvem. Conseguem ouvir, não importa quantos ruídos tenham inventado pelo caminho para se proteger da dor afastando a vida.

*Ana Cláudia Saldanha Jácomo

segunda-feira, 18 de maio de 2015

Olhos do viajante, recorte do pensamento*


“A alma jamais pensa sem fantasia.” Aristóteles

Quão estúpidos são os homens que creem que a vida é só viver; a vida é, também, renuncia, é deixar de viver momentaneamente para se dedicar ao não vivido. Viver não é só gozar a vida, é tudo, até mesmo morrer para viver melhor outro dia após outros dias.

Andei pensando esses últimos dias, enquanto viajava, lia, via coisas novas, coisas que já tinha visto mas meus olhos renovados já passaram pela negação da vida, questionava ao total abandono de um absoluto nas imagens. Tudo parece novo, mesmo que já tenha visto, imagino o novo diante dos olhos, o sentir desse espaço infinito por onde o pensar foge da imagem.

Vejo outros mundos dentro do mundo em que me adentro a ver. A vida do viajante é interessante porque nunca consegue descansar a cabeça, sempre quer olhar e pisar mais o todo de qualquer canto por onde passa.

O viajante difere do turista, ele é quem conduz o roteiro, quase sempre aleatoriamente, mesmo que organizado, ele consegue se perder, mais adiante, ele consegue se achar e encontrar lugares já existentes; para o viajante tudo é novo e eterno. O desconhecido é um livro a ser lido. Um eterno retorno dentro de um conceito de vida, de viver e morrer por onde passa, pelos cafés, pelos bistrôs por onde aporta seu barco.

Cansado, toma seu café a perder de vista os sentimentos, e, já a pensar como é bom esquecer sua origem, de onde veio. É como os tempos em que os cafés reuniam o mundo, as ideias, agora alguns viajantes. Nunca pensar o fim daquele momento que mais parece um descanso para o corpo.

A melhor forma de viver sem esperar o que encontrar, é viajar, é poder ler descolado do leitor comum, é ler, sorver um gelado, um doce ao lado da praia mais cheia de gente, é como ficar no sossego do rio, ouvir o som das águas, ver o vento arejar as ideias, e retomar do esquecimento um pouco de sua história deixada em cada lugar por onde cravou seus dentes. Assim, voltar para casa um dia, é sempre bom quando esquecemos um pouco do caminho de casa e nos perdemos para nos encontrarmos.

*Prof. Dr. Luis Antônio Gomes
Editor Sulina. PUC/RS. Poeta. Escritor.
Porto Alegre/RS

domingo, 17 de maio de 2015

Lembrança de morrer*


Quando em meu peito rebentar-se a fibra,
Que o espírito enlaça à dor vivente,
Não derramem por mim nem uma lágrima
Em pálpebra demente.

E nem desfolhem na matéria impura
A flor do vale que adormece ao vento:
Não quero que uma nota de alegria
Se cale por meu triste passamento.

Eu deixo a vida como deixa o tédio
Do deserto o poento caminheiro...
Como as horas de um longo pesadelo
Que se desfaz ao dobre de um sineiro...

Como o desterro de minh’alma errante,
Onde fogo insensato a consumia,
Só levo uma saudade — é desses tempos
Que amorosa ilusão embelecia.

Só levo uma saudade — e dessas sombras
Que eu sentia velar nas noites minhas...
E de ti, ó minha mãe! pobre coitada
Que por minhas tristezas te definhas!

De meu pai... de meus únicos amigos,
Poucos, — bem poucos! e que não zombavam
Quando, em noites de febre endoudecido,
Minhas pálidas crenças duvidavam.

Se uma lágrima as pálpebras me inunda,
Se um suspiro nos seios treme ainda,
É pela virgem que sonhei!... que nunca
Aos lábios me encostou a face linda!

Ó tu, que à mocidade sonhadora
Do pálido poeta deste flores...
Se vivi... foi por ti! e de esperança
De na vida gozar de teus amores.

Beijarei a verdade santa e nua,
Verei cristalizar-se o sonho amigo...
Ó minha virgem dos errantes sonhos,
Filha do céu! eu vou amar contigo!

Descansem o meu leito solitário
Na floresta dos homens esquecida,
À sombra de uma cruz! e escrevam nela:
— Foi poeta, sonhou e amou na vida. —

Sombras do vale, noites da montanha,
Que minh’alma cantou e amava tanto,
Protejei o meu corpo abandonado,
E no silêncio derramai-lhe um canto!

Mas quando preludia ave d’aurora
E quando, à meia-noite, o céu repousa,
Arvoredos do bosque, abri as ramas...
Deixai a lua pratear-me a lousa!

*Álvares de Azevedo
         1831-1852