sexta-feira, 22 de maio de 2015

Pensar ou não pensar ?*


Como seres humanos, nada nos é dado automaticamente. Temos que desenvolver cada aspecto de nosso ser para nos mantermos vivos. Inclusive pensar. Pensar é um ato de escolha. O cérebro nos é concedido, mas não seu conteúdo. Temos as ferramentas, mas podemos evadir do processo de pensar. Não nos é dado por instinto o conhecimento das coisas e nem de nós mesmos. Há um esforço que temos que decidir se vamos realizar ou não: pensar ou não pensar?

Claro que há vários sentidos em que podemos falar do pensar. O que proponho aqui é um pensar ativo, não uma simples apreensão de algo. E também não um processo isolado. Um pensar dialético das coisas do mundo com nós mesmos e com os outros. 

Pensar seria entrar em diálogo com nós mesmos sobre as coisas do mundo. Um pensar sobre as coisas sem refletir por que ou como as definimos de uma ou outra maneira, não é pensar. É fazer uma colagem da primeira impressão para um espaço definido para, exatamente, não mais precisar pensar sobre as coisas. 

Essa maneira de definir coisas do mundo sem pensar sobre o que pensamos sobre elas é uma maneira de fortalecer o preconceito paralisante (há o preconceito bom, que não nos paralisa, mas nos movimenta) e a estagnação mental. É colocar definições junto com muros altos para evitar termos que revê-las futuramente. 

Está tudo definido, cada coisa “em seu devido lugar” e assim matamos nossa potência de pensar. Quando não pensamos, ou seja, não entramos em diálogo com nossas impressões primeiras sobre o que pensamos do mundo, acabamos, mais cedo ou mais tarde, agindo por automação. Agir assim é o contrário de agir com autonomia, o que, de certa forma, é um dos resultados do pensar.

Pensando o pensar como diálogo interno sobre as coisas do mundo, temos apenas que ter o cuidado de não fazermos isso isolados. Ficar sozinho em uma montanha gelada, dentro de um quarto, em uma cadeira em frente à lareira pensando seu pensar sobre o mundo não é maneira profícua de tratar sobre o pensar. O outro, tomando-o como alteridade, também faz parte do pensar de cada indivíduo. Na medida em que confrontamos o nosso pensar dialético com outros, temos a grande chance de manter nosso pensar em atividade e chegar mais longe na construção de nosso próprio pensar. 

Conhecer-se a si mesmo mas não somente consigo mesmo é uma das lições da filosofia e de Sócrates. Manter a atividade do pensar e contrastá-la com outros pensares é uma forma de medir nossa própria estatura cognitiva e percebermos que o maior pensar sozinho ainda é pequeno se não entrecruzado com outros pensares.

Pensar não é um processo automático e nem de pouca monta. Defender a atividade mental para não cair no exílio do automatismo é um exercício que quase se torna moral, pois se ainda, de alguma forma, não podemos nos evadir do fato de sermos seres racionais, precisamos da decisão de nos tornarmos seres pensantes ou não.

*Fernando Fontoura
Filósofo, Mestrando em Filosofia, Estudante na Casa da Filosofia Clínica
Porto Alegre/RS

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