sábado, 31 de outubro de 2015


O que torna uma pessoa feliz jamais dependerá da quantidade e da qualidade das coisas que ela possui ou acumula; felicidade de fato não depende de ter o melhor de tudo. Fundamentalmente, ser feliz depende de poder ser o melhor que pudermos agora.

E quanto mais despertarmos a capacidade de ser, mais plenos de paz e amor seremos. Em outras palavras, a grande sacada mesmo consiste em aprender cada vez mais a fazer o melhor que pudermos com tudo aquilo que temos nas mãos. Ou seja, felicidade é diretamente proporcional à sabedoria e nem mesmo desenhando didaticamente conseguiremos conscientizar pessoas ainda indispostas a transcender.

Mas é preciso seguir com ternura tentando até conseguirmos fazer a nossa luz crescer ao ponto de iluminar também escuridões alheias. Até mesmo os solos mais férteis precisam de gestos de cuidado para fecundar qualquer semente. Afinal, felicidade e paz dependem demais de escolha própria, amor e autoconhecimento. Musa!

*Prof. Dr. Pablo Mendes
Filósofo Clínico. Professor. Livre Pensador.
Porto Alegre/RS

sexta-feira, 30 de outubro de 2015

Valéry angustiado*


Leio em "Monsieur Teste", livro do genial Paul Valéry relançado, em edição ampliada, no ano de 1946, um ano após a morte do escritor: "Enfastiado de ter razão, de fazer o que tem sucesso, da eficiência dos procedimentos, tentar outra coisa". Na metade do século passado, Valéry ataca, assim, alguns dos valores mais divinizados em nosso século 21: o império da razão, a necessidade do sucesso a qualquer preço, o endeusamento da eficiência e do desempenho. A idolatria da vitória. Não vacila: diz. Não se poupa: expõe-se. Foi também um crítico de grande coragem intelectual.

Em "Monsieur Teste", um dos livros mais importantes de Valéry (1871-1945), o filósofo se dedica a pensar o pensamento. Seu objeto não é o mundo, não está interessado em refletir a respeito das coisas a seu redor. Interessa-se, apenas, por sua própria maneira de pensar. Na edição ampliada que tenho nas mãos, estão incluídos fragmentos e anotações que Valéry pretendia acrescentar a seu livro, originalmente publicado no ano de 1896. Faleceu antes de fazer isso. As fortes ideias do pensador francês me chegam através de uma edição brasileira, publicada pela Ática, com tradução de Cristina Murachco, em 1997.

Continuo a seguir as pegadas de Paul Valéry. Para se defender de acusações injustas e de preconceitos intelectuais, ele se apressa em fazer, em um dos fragmentos póstumos, uma defesa enfática da "aberração". Lamenta que a palavra seja usada, quase sempre, de forma negativa, como "um afastamento da norma que vai na direção do pior". Lembra, ao contrário, que, em alguns ramos da ciência, a mesma palavra pode designar "algum excesso de vitalidade, uma espécie de transbordamento do energia interna, que leva a uma produção anormalmente desenvolvida de órgãos ou de atividade física ou psíquica". Faz assim a defesa do "homem observado, vigiado, espiado por suas ideias, de memória". Faz uma defesa de si mesmo, não para elevar-se, mas, ao contrário, para se expor.

A aberração escapa da vigilância e, em consequência, abre portas para mundos antes desconhecidos. Abre portas para o próprio homem. Deveria, por isso mesmo,interessar positivamente os cientistas. Lembra então Valéry que, até a adolescência, seu personagem Monsieu Teste _ pois o livro mescla ensaio e ficção _ "absolutamente não desconfiava da singularidade de sua mente". Ao contrário: "Achava-se mais tolo e mais fraco do que a maioria". Em Teste, o que parece fraqueza _ o que é fraqueza _ é valor. É na derrota que ele se ampara para ser.

Passa então à enumeração de alguns dos pensamentos de Teste. "Deve-se entrar em si mesmo armado até os dentes", pensava Monsieu Teste. A suspeita contra si, apesar do simultâneo acolhimento de si, deve prevalecer. Ao entrar em si (ao examinar-se), o sujeito deve "criar uma espécie de angústia para resolvê-la". É um grande escândalo fazer, em nosso mundo adestrado, a defesa da angústia e do tormento como instrumentos de saber. De novo, a imagem (falsa) do fracassado se cola a Valéry, mas ele não tem medo disso. Ao contrário: transforma o obstáculo _ o fracasso _ em um valor positivo. Faz do fracasso não sua derrota, mas seu ponto de partida.

Nesse estado em que a angústia é essencial para o conhecimento, prossegue Valéry através de Teste, os sujeitos devem "considerar suas emoções como tolices, inutilidades, imbecilidades, imperfeições _ como o enjoo no mar, ou a vertigem nas alturas, que são humilhantes". Ao contrário: devem suspeitar do que sentem em vez de glorificar os próprios sentimentos. "Desprezo o que sei _ o que posso", ele escreve. O desprezo é, no fundo, um mecanismo de suspeita. E a suspeita, em vez de entorpecer, fortalece. A suspeita, e não a retidão ou a eficiência, é a forma mais segura de pensamento. Mas como homenagear a suspeita em um mundo de pessoas "cheias de si"? Em um mundo no qual o brilho do Eu nos cega?

Prossegue Valéry com a voz de Teste: "Minha alma começa no ponto exato em que não enxergo mais, em que não posso mais nada _ onde meu espírito bloqueia a estrada para ele mesmo _ e voltando das maiores profundezas, olha com pena para o que a linha de sondagem marca". Defesa enfática do obstáculo, da impossibilidade e do limite, o pensamento, mais uma vez, contrasta com um mundo fascinado pelos recordes, pelas altas das bolsas e pelo consumo desmesurado. Fascinado, sobretudo, pela precisão. Falhar é o grande pecado de nossos dias. Por essas e outras ideias, Paulo Valéry se torna, assim, um pensador essencial para o século em que vivemos.

* José Castello

quinta-feira, 29 de outubro de 2015

O que há para além dos portões da nossa vida ? *


Quantas vezes nos deparamos com limites, com muros que nos cercam e que não nos permitem ver para além da estrada histórica para a qual nos encaminhamos ao longo da vida? No nosso patamar existencial esse fenômeno costuma ser muito comum, o fato de não podermos ver para além da nossa trajetória, um horizonte fechado, limitado, onde o futuro se torna apenas duas ou três possibilidades, nos dando concomitantemente a impressão de um frágil controle regado à limitação.

Às vezes ouvimos boas novas que parecem ser mágicas, distantes da nossa existência. Coisas como um horizonte infinito, como uma vida, vasta por onde possamos transitar e com seletividade vivenciar aquilo que verdadeiramente tem a ver conosco, deixando o restante para trás. Uma existência considerada utópica para a maioria.

Para muitas pessoas o horizonte da vida é murado, é fechado, não há luz para além dele, não há nada... São cegos existenciais que somente enxergam aquilo que está ao seu limiar, sua periferia é próxima e as questões são tratadas no âmago do seu ser. Há citações comuns entre pessoas assim, tais como “não há saída...”, “não há para onde ir...”, “eu não tenho um futuro...”, “minha vida se resume a tais e tais coisas...”, conotações tópicas de armadilhas conceituais.

Adentrando a multiplicidade da natureza humana vemos também aqueles que, metaforicamente falando, têm a vida cercada por grades que limitam seu trânsito pela existência, que não lhes permitem ir para além daquele limite, mas que diferentemente dos murros por onde nada passa, essas cercas lhes permitem ver o que há num horizonte próximo... Cercas, de forma geral, permitem a passagem da luz, a passagem do vento, permitem espiar o que há para além delas... São pessoas que deslumbram possibilidades, que percebem que a existência vai além daquele limitado mundo em que elas vivem, que podem sonhar com o caminhar por novos campos, descobrir novas coisas, construir outras casas existenciais. Pessoas que aspiram por uma vida diferente.

O que nos leva a levantarmos cercas e muros que limitam a nossa existência? A resposta é tão vasta quanto a natureza de limites que desenvolvemos, desde armadilhas conceituais, pontos cegos, áreas de sombra, medos, contrastes e um turbilhão de fenômenos. A questão é que podemos mudar isto, podemos derrubar murros, podemos expandir o limite das nossas cercas, podemos plantar novos jardins. A resposta do como fazer isto será distinta para cada pessoa, segundo suas propensões, segundo sua estrutura subjetiva, segundo o seu mundo.

Entre os fenômenos mais comuns, percebe-se que ao longo da nossa jornada a vida costuma abrir diversas portas que nos permitem ir para além desse nosso mundo. São possibilidades de novos lugares, novos empregos, novos aprendizados, amores e uma sorte infinita de possibilidades. A maioria destas portas não são nem mesmo percebidas, estamos ocupados demais para prestar atenção ao aroma de um lírio, ao sorriso de alguém sentado ao nosso lado no ônibus, ao cartaz pendurado no poste de luz, ao anúncio no jornal. Bilhões e bilhões de possibilidades de caminhada, de abertura, mas nossa intencionalidade se volta exclusivamente para as questões imediatas da nossa existência.

Ao tratar de questões como esta precisamos tomar muitos cuidados. Cuidado para não cair em devaneios, em aventuras perigosas que podem jogar fora toda uma existência, afinal, sempre há aqueles que gostam de tomar licenças que podem custar muito caro no futuro. Muitos, inclusive, cruzam desavisadamente certas portas e se jogam de tal forma que deixam para traz toda a sua base categorial neste mundo, e quando essa nova estrada acaba, veem-se sem ter para aonde retornar, veem-se perdidos, mais destruídos do que estavam antes.

Não estamos tratando aqui de abandonar a própria vida e partir em busca de aventuras, mas em ter mais caminhos por onde é possível transitar, em ter uma existência mais rica, em aproveitar os elementos de passagem para nos alimentarmos existencialmente, nos mostrar possibilidades que tenham a ver conosco, em ter para aonde ir quando as coisas não funcionarem e onde buscar recursos quando em nós eles faltarem. Estamos falando em ter fluência em visitar novos mundos, em curtir novas paisagens, e aos poucos, à medida que se toma fluência nesse transito, ir construindo com solidez novas estradas, novos jardins, novas vidas, sempre usando-se de seletividade e prudência.

Quando se toma fluência em abrir novas portas, em transitar por novos mundos, as grades e os murros da nossa vida tendem a gradualmente desaparecerem. O futuro não se torna mais apenas um jogo de duas ou três possibilidades, mas um infinito muito rico de experiências e aprendizados. A vida não é mais vivida em preto e branco, mas em várias cores, aromas e gostos. E quando uma parte da nossa existência morrer, isso não nos pesará tanto, pois sabemos do infinito de caminhos há no devir.

Como exercitar isto? Aos poucos, segundo a sua história de vida, segundo as suas propensões internas. Abram-se para novos aprendizados, mesmo que não tenham vontade de aprender. Iniciem novas pequenas atividades que lhe tragam bem estar e que não precisam ser cotidianas. Conheçam novos lugares. Saboreiem um suco novo ou uma comida que jamais tiveram coragem. Conversem com estranhos pelos quais sintam afinidade e visitem por um pequeno tempo esses mundos. E aos poucos, semelhantemente um jardim, essas conversações servirão como sementes que germinarão e trarão novas flores, novos perfumes, novas estradas.

O que há para além dos portões que limitam a nossa vida? Há o infinito, desde coisas muito boas até coisas muito ruins. Cabe a nós abrir apenas aquelas portas que forem seguras, que nos levem ao encontro daquilo que de fato tem a ver conosco.

*Gilberto Sendtko
Filósofo Clínico
Chapecó/SC

quarta-feira, 28 de outubro de 2015

Fragmentos filosóficos, delirantes*



"Escrever é um caso de devir, sempre inacabado, sempre em via de fazer-se, e que extravasa qualquer matéria vivível ou vivida."

"Não há linha reta, nem nas coisas nem na linguagem. A sintaxe é o conjunto dos desvios necessários criados a cada vez para revelar a vida nas coisas."

"A interioridade não pára de nos escavar a nós mesmos, de nos cindir a nós mesmos, de nos duplicar, ainda que nossa unidade permaneça."

"(...) a mentira não pode ser pensada como universal, visto implicar pelo menos algumas pessoas, que nela acreditam e que não mentem ao acreditar."

"Félix Guattari definiu bem, a esse respeito, uma esquizoanálise que se opõe à psicanálise: 'Os lapsos, os atos falhos, os sintomas são como pássaros que batem com o bico na janela. Não se trata de interpretá-los. Trata-se antes de detectar sua trajetória para ver se podem servir de indicadores de novos universos de referência suscetíveis de adquirirem uma consciência suficiente para revirar uma situação." 

"(...) uma moral da vida em que a alma só se realiza tomando a estrada, sem outro objetivo, exposta a todos os contatos, sem jamais tentar salvar outras almas, desviando-se das que emitem um som demaisado autoritário ou gemente demais, formando com seus iguais acordos/acordes mesmo fugidios e não-resolvidos, sem outra realização além da liberdade, sempre pronta a libertar-se para realizar-se."

"Já não é a sintaxe formal ou superficial que regula os equilíbrios da língua, porém uma sintaxe em devir, uma criação de sintaxe que faz nascer a língua estrangeira na língua, uma gramática do desequilíbrio."

*Gilles Deleuze in Crítica e clínica. Editora 34. SP. 2004

terça-feira, 27 de outubro de 2015

Epifania*


Epifania (é uma súbita sensação de entendimento ou compreensão da essência de algo)

Com a chegada da maturidade  e o nascimento da minha netinha, chegou também uma nova nota de amor pela vida. Tão  silenciosa quanto poderosa. Um verdadeiro reset na alma. Veio colocando os problemas no exato tamanho de sua realidade. Tudo ficou pequeno e o sentido da coisas se refaz a cada descoberta a cada espanto a cada sorriso da doce Tetê .

Com ela estou vivendo doces momentos de epifania, me sentindo como a Clarice Lispector que inúmeras vezes redescobre as coisas e os acontecimentos mais simples como uma criança que se depara com algo pela primeira vez e vive o encantamento. da descoberta.
                 
A pequena  está  com 7 meses e a vovó está  a 4 meses sem fumar, depois de ter fumado mais de 30 anos.  Quando paro pra pensar,  tenho uma sensação estranha, afinal por muitos anos  acreditei que eu jamais conseguiria abondar este vício, mas consegui e a verdade é que sinto ter resgatado a pessoa que era originalmente antes do cigarro, antes de incorporar esse comportamento tabagista estou falando de tudo que fui antes dos 15 anos.. 

Não posso me furtar de reconhecer que o desejo de eliminar este habito vinha de longa data, ha mais ou menos uns 4 anos. Assim fui tomando  medidas que achei possível nesse e em cada tempo, elas  dizem respeito a pequenas modificações. Depois de ver uma reportagem sobre os males do cigarro, descobri que a limpeza do pulmão ocorre no período da manhã e que este era o pior horário para inalar essa fumaça toxica. Diante disso não tive duvidas , exclui os cigarros matinais.

O próximo passo ,foi mudar para uma tipo de cigarro suave e reduzir  a nicotina pela metade, porem continuava fumando uma quantidade indevida. Nos últimos dois anos, sempre depois do Ano Novo eu reduzia para três cigarros dia, durante um mês, queria ficar mais tempo assim, mas  logo o vicio voltava com tudo e eu passava a fumar 20 cigarros a cada 24 horas.Foi um longo caminho.

Agora estou reencontrado  com meu eu, isso é  maravilhoso, redescubro uma nova força e a máxima "Eu posso" ecoa dentro de mim. Como consegui de fato? Penso que o Start foi com esse vovorecer, com ele fui buscar ajuda e a primeira e mais pratica foi química , usei o que ha de mais moderno no tratamento  anti tabagismo, período que durou  dois meses .

Usei a medicação como apoio e quando senti que a dependência química a nicotina estava sob controle, fui diminuindo a dose. Em uma semana me livrei dos remédios. Agora estou bem e sinto no meu coração  que não vou retroceder.                 

As vezes olho ali atrás  e tenho a sensação que aquela fumante compulsiva nunca fez parte de mim, um verdadeiro estranhamento, em outros momentos sinto que ela esta ali a espreita a espera de uma nova oportunidade que decididamente não permitirei que aconteça

É como se, o período que fui possuída pelo vício, tenha revelado o  meu auto encarceramento existencial e agora uma força  maior toma posse da minha vontade e simplesmente resolve  me libertar, estou  deliberadamente sobe a chancela da vontade de poder.

As três primeiras semanas,  foram as mais difíceis, com instantes de ansiedade abruptos que se dissipam com a mesma velocidade do click de um isqueiro.Mas o mais incrível e que vale uma analise, eram os sonhos, tinha pesadelos terríveis, sempre que estava sendo roubada ou que um bandido estava querendo extirpa uma pedaço do meu corpo.

É mole? Imagino que se deva exatamente a falta química da nicotina no corpo, o cérebro representa isso como algo ruim afinal esta viciado. Terrível, não?.
Felizmente a fase dos pesadelos passou, e com isso uma bonança  interior começa a se avolumar no meu intimo.

Certa vez um psiquiatra falou que largar o cigarro em termos de comprometimento químico, emocional e comportamental era mais difícil do que largar a cocaína, apesar de nunca ter usado cocaína posso entender de onde vem essa afirmação, realmente os fatores que vedam essa dependência tabagista transcendem a coisa química.

Felizmente o momento certo aconteceu, ele esta inteiramente ligado a estrutura de pensamento aos valores, a afetividade a emoção,ao perdoar-se e ao permitir-se. Finalmente entendi que sou o que posso ser, que fiz tudo que fui capaz de fazer e que somos todos anjos em universo terrivelmente infinito e hostil a nossa pequena compreensão. Então que sejamos tudo que pudermos no tempo que pudermos.

*Alba Regina Bonotto
Psicóloga. Filósofa Clínica
Curitiba/PR

segunda-feira, 26 de outubro de 2015

Fragmentos filosóficos, delirantes***


"A poesia é conhecimento, salvação, poder, abandono. Operação capaz de mudar o mundo, a atividade poética é revolucionária por natureza; exercício espiritual, é um método de libertação interior."

"Cada leitor procura alguma coisa no pema. E não é nada estranho que a encontre: já a tinha dentro de si."

"Cada palavra ou grupo de palavras é uma metáfora. E desse modo é um instrumento mágico, ou seja, algo suscetível de tornar-se outra coisa e de transmutar aquilo em que toca."

"Sim, a linguagem é poesia e cada palavra esconde certa carga metafórica disposta a explodir no momento em que se toque na mola secreta, mas a força criadora da palavra reside no homem que a pronuncia."

"(...) um poema só se realiza plenamente na participação: sem leitor, a obra só existe pela metade"

"A palavra, em si mesma, é uma pluralidade de sentidos"

"(...) toda magia que não se transcende - isto é, que não se transforma em dom, em filantropia - devora a si mesma e acaba devorando seu criador."

"A palavra poética jamais é completamente deste mundo: sempre nos leva além, a outras terras, a outros céus, a outras verdades."

"A razão cria cárceres mais escuros que a teologia. O inimigo do homem se chama Urizen ( a Razão), o 'deus dos sistemas', o prisioneiro de si mesmo. A verdade não provém da razão, mas da percepção poética, ou seja, da imaginação."

*Octavio Paz in "O arco e a Lira. Ed. Cosac Naify, SP. 2012. 

**Esta página é uma homenagem a Laura. Incompreendida e aprisionada num diagnóstico, decidiu voar - cedo demais - de volta pra casa, na madrugada de 24/10/15. Com carinho e saudades, daqueles que, como muitos de nós, não tiveram a chance e o privilégio de conhecê-la melhor. Que tenha reencontrado sua liberdade, sua poesia.

domingo, 25 de outubro de 2015

Serenidades*


Pode sentar...
Tocar seu canto.
Enquanto o tempo passa,
Há música no mar.
Venha...
Bem dentro de você
Há uma serenidade infinita.
Só imaginar...
Que tudo acontece!
Agora!
É a grande magia!
Bom dia!

*Dra Rosângela Rossi
Psicoterapeuta. Filósofa Clínica. Escritora da Academia Juizforana de Letras.
Juiz de Fora/MG

sábado, 24 de outubro de 2015

Poema de sete faces*


Quando nasci, um anjo torto
desses que vivem na sombra
disse: Vai, Carlos! Ser gauche na vida.

As casas espiam os homens
que correm atrás de mulheres.
A tarde talvez fosse azul,
não houvesse tantos desejos. 

O bonde passa cheio de pernas:
pernas brancas pretas amarelas.
Para que tanta perna, meu Deus, pergunta meu coração.
Porém meus olhos
não perguntam nada. 

O homem atrás do bigode
é sério, simples e forte.
Quase não conversa.
Tem poucos , raros amigos
o homem atrás dos óculos e do bigode. 

Meu Deus, por que me abandonaste
se sabias que eu não era Deus
se sabias que eu era fraco. 

Mundo mundo vasto mundo
se eu me chamasse Raimundo,
seria uma rima, não seria uma solução.
Mundo mundo vasto mundo,
mais vasto é meu coração. 

Eu não devia te dizer
mas essa lua
mas esse conhaque
botam a gente comovido como o diabo.

*Carlos Drummond de Andrade

sexta-feira, 23 de outubro de 2015

As linguagens da terapia*

                                         

O espaço compartilhável da clínica aprecia se constituir num acordo de singularidades. Um desses lugares onde a interseção dos personagens pode acontecer. O veículo capaz de transcrever essa objetividade fugaz é a linguagem. As palavras, ainda quando silenciadas, convidam, pela atualização discursiva, a ingressar nos inéditos cenários.   

Uma pronúncia das vontades costuma elencar o mundo como representação da pessoa. As palavras escolhidas para dizer, pensar, imaginar, constituem um aprendizado fundamental a atividade clínica do Filósofo. A aventura pessoal descrita na história de vida se utiliza de códigos linguísticos próprios.

 Essa página em branco, inicialmente, rascunha-se em borrões. Seu vocabulário estranho, vai fazendo sentido na sustentação dos encontros, na qualificação da relação, no aprendizado da nova língua. O movimento introspectivo compartilhado na hora-sessão, convida a reviver eventos passados pelo viés atual. No entanto, ainda assim, o interior das palavras aprecia guardar um sentido, jamais decifrável por inteiro.   

Se fôssemos utilizar a lógica das figuras de linguagem, seria possível encontrar, num discurso assim, múltiplas perífrases, antíteses, metáforas, eufemismos, instâncias por onde o Filósofo Clínico busca transitar na relação de ajuda. No entanto, cabe lembrar que um termo substitutivo, uma metáfora, por exemplo, pode ser mais do que substituição, pode se tratar do universo inteiro da pessoa. O esboço da criatividade, quando encontra um território confiável para se ensaiar, aprecia as margens da norma socialmente aceita. Essa imaterialidade costuma ser apontada e compartilhada pelo constructo linguístico de cada um.

O evento terapia estabelece um território, delimita códigos de acesso, reivindica um aprendizado na perspectiva partilhante. Nesse contexto, a nova abordagem se utiliza da matéria-prima oferecida por sua trama discursiva. Ao ser possível uma clínica para cada pessoa, tendo como ponto de partida, a narrativa (bem apontada) da história de vida e o vislumbre da estrutura de pensamento, é possível antever a condição humana refugiada nos desvãos do diagnóstico.    

Assim é possível acolher e compreender o teor dos princípios de verdade. O chão onde a pessoa se desloca existencialmente, vive suas circunstâncias, acontece socialmente. Um ponto de partida para o terapeuta aprender o dialeto que vai chegando. Os episódios significativos de cada sujeito, utilizam a mesma fonte estrutural para se expressar. 

Nesse sentido, os desdobramentos da atividade clínica, sua sustentação e qualificação, são reféns de uma correta leitura desse dicionário muito íntimo. O dado literal, ao proteger a versão da pessoa, também oferece a intencionalidade discursiva, os tópicos determinantes, o acesso a subjetividade.   

É na linguagem compartilhada nas sessões, que se faz possível um vislumbre do lugar de onde se diz o que se diz. Cada um, mesmo quando não saiba disso, exercita sua existência num contexto único. Assim, um dos primeiros indícios de autogenia, em clínica, é a mudança na escolha e uso das palavras.

Na sutileza da frase inacabada, é possível se anunciar um rascunho da estrutura em movimento. O ponto de vista partilhante, ao se deixar acessar pelos termos agendados, reivindica um leitor de raridades. O fenômeno terapia aproxima os papéis existenciais da clínica com a arqueologia. Sua estética cuidadora, a descobrir e proteger inéditos, mescla saberes para acolher as linguagens da singularidade.   

*Hélio Strassburger

quinta-feira, 22 de outubro de 2015

Envelhecer*


“Quando eu fico, como hoje, mexendo nesses velhos cartões-postais, percebo que de repente tudo se misturou, se confundiu.”
Danilo Kiš

A extensão dos meus propósitos por linhas que escrevo a vida, meu nome. É por acrescentar que faço o viver sem deixar de ler o todo do meu nome, escrevo meu tempo. É como se eu tivesse saído do minimalismo da juventude, e nesse tempo ter aprendido a usar todo o meu corpo em nome por extenso para filosofar sobre o umbigo. O meu nome não esquece a vida, alia o Nada ao Tudo, deixa para trás a dor e reinventa as cores. Compõe a música imaginária em todas as letras para escrever no muro o nome do nome. Meu nome não teme o fim, rompe a linha da vida, avança para além do pequeno lugar rumo ao desconhecido. Meu nome é um viajante que precisa soletrar para compreender sua língua amolada em nomes marcados no fio metal do tempo.

*Luis Antônio Paim Gomes 

quarta-feira, 21 de outubro de 2015

Sobre o amor*


Amor, então, também, acaba?
Não, que eu saiba.
O que eu sei é que se transforma numa matéria-prima que a vida se encarrega de transformar em raiva.
Ou em rima.

*Paulo Leminski

terça-feira, 20 de outubro de 2015

Tempo pra renascer*


Vou contar-me por "estórias"...
Sou ansioso, desde menino
Parece que nasci atrasado
Andei atrasado
Falei atrasado
Amei pouco e atrasado
Vou morrer atrasado.

Sou ansioso
Agora tenho pressa
Minh'alma vê mais coisas
Que minha mão escreve
Minha boca fala mais
Que meu pensamento pensa.

Minha imaginação
Não copia meu pensamento
Não dou carta em branco ao tempo
Não assino procuração em branco para amores.

Agora vou inventar "estórias" imaginárias
Para fazê-las acontecer
Amanhã
Ou depois
Ou depois...

*José Mayer
Filósofo. Livreiro. Poeta. Estudante na Casa da Filosofia Clínica
Porto Alegre/RS

segunda-feira, 19 de outubro de 2015

Fragmentos Filosóficos, Delirantes*



"Ainda existem almas para as quais o amor é o contato de duas poesias, a fusão de dois devaneios."

"(...) como pode um homem, apesar da vida, tornar-se poeta ?"

"(...) ouvindo certas palavras, como a criança ouve o mar numa concha, um sonhador de palavras escuta os rumores de um mundo de sonhos."

"Aliás, por que existir, já que sonhamos ?"

"Ver e mostrar estão fenomenologicamente em violenta antítese."

"Não é também no devaneio que o homem se mostra mais fiel a si mesmo ?"

"Não saberíamos, sem os poetas, encontrar complementos diretos do nosso cogito de sonhador. Nem todos os objetos do mundo estão disponíveis para devaneios poéticos. Mas, assim que um poeta escolheu o seu objeto, o próprio objeto muda de ser. É promovido à condição de poético."

"Que importam para nós, filósofo do sonho, os desmentidos do homem que reencontra, após o sonho, os objetos e os homens ? O devaneio foi um estado real, em que pesem as ilusões denunciadas depois. E estou certo de que fui eu o sonhador. Eu estava lá quando todas essas coisas lindas estavam presentes no meu devaneio. Essas ilusões foram belas, portanto benéficas. A expressão poética adquirida no devaneio aumenta a riqueza da língua."

"E que vem a ser um belo poema senão uma loucura retocada ? Um pouco de ordem poética imposta às imagens aberrantes ? A manutenção de uma inteligente sobriedade no emprego - ainda assim intenso - das drogas imaginárias. Os devaneios, os loucos devaneios, conduzem a vida."

"Quando um sonhador de devaneios afastou todas as 'preocupações' que atravancavam a vida cotidiana, quando se apartou da inquietação que lhe advém da inquietação alheia, quando é realmente autor da sua solidão, quando enfim, pode contemplar, sem contar as horas, um belo aspecto do universo, sente, esse sonhador, um ser que se abre nele."

"(...) as vidas imemoriais que dormitam para além das mais velhas lembranças despertam em nós sob o influxo de sua chama e nos revelam as regiões mais profundas da nossa alma secreta."

"Ah, pelos menos, qualquer que seja a fraqueza de nossas asas imaginárias, o devaneio do voo nos abre um mundo, é abertura para o mundo, grande abertura, larga abertura. O céu é a janela do mundo. O poeta nos ensina a mantê-la aberta de par em par."

*Gaston Bachelard in "A poética do Devaneio". Ed. Martins Fontes. SP. 2001

domingo, 18 de outubro de 2015

Alimento do amor*


Em minha mão
Mais que alimento
Te dou amor
Em minha mão
Toda ternura deste amanhecer
Te dou
Em minha mão
Toda possibilidade infinita
De voar e livre ser
Vá e semeie
Voe longe
Meu amor
Pois, amor só dura
Em liberdade!

*Dra. Rosângela Rossi
Psicoterapeuta. Escritora. Filósofa Clínica
Juiz de Fora/MG

sábado, 17 de outubro de 2015

Pré-história*


Mamãe vestida de rendas
Tocava piano no caos.
Uma noite abriu as asas
Cansada de tanto som,
Equilibrou-se no azul,
De tonta não mais olhou
Para mim, para ninguém!
Cai no álbum de retratos.

*Murilo Mendes

sexta-feira, 16 de outubro de 2015

Além das Palavras – O Escutar como Método Terapêutico*


“A alma anda por todos os caminhos.
A alma não marcha numa linha reta nem cresce como um caniço.
A alma desabrocha, qual um lótus de inúmeras pétalas.”
(Khalil Gibran)

Percorrer caminhos desconhecidos, aventurar-se nas planícies dos destinos incertos de cada alma: eis a missão do terapeuta. Antes da palavra germinar em frases que emanam silêncios incertos, ela está sendo gerada nos territórios mais recônditos do coração. Expressar vida em palavras é um grito de liberdade diante de uma história que está ainda em processo de construção.

Ouvir exige atenção, escutar necessita do coração. Muitos ouvem, contudo não escutam. Escutar é deixar que o outro faça do diálogo uma oportunidade de encontro. Quando apenas ouvimos a paciência é limitada. O desejo incontido de dar uma opinião, por mais simples e singela que seja parece incontrolável.

Em toda alma há um dispositivo que diz: “Minha opinião é importante!”. Será mesmo? Ouvir não basta, é preciso acrescentar a fala alheia as teses de nossa experiência como medicação que irá cicatrizar as feridas de uma história que conhecemos a apenas cinco minutos. A pressa em solucionar as dores é o veneno que extermina o restante de vida a palpitar em uma alma machucada.

A cada frase elaborada e pronunciada deveríamos fazer um silêncio respeitoso e acolhedor diante do mistério que habita cada palavra pronunciada. Escutar requer tempo e delicadeza, características sutis de um bom ouvinte. Somente o que foi assimilado pelo coração pode ser compreendido pela alma.

O silêncio faz parte da liturgia de muitas igrejas. Para escutar a Deus alguns mestres espirituais aconselham silenciar o coração. A alma silenciosa pode mergulhar no mistério que ultrapassa as palavras. Os apaixonados sabem o valor secreto de um olhar profundo. Não é preciso palavras quando o encontro supera as fronteiras do ouvir e mergulha na escuta apaixonada.

O terapeuta mais qualificado não é aquele que na academia desenvolveu as melhores teses e tem as palavras mais acalentadoras para a fragilidade da alma, mas sim aquele que no silêncio do ouvir deixou rastros do seu amor na escuta amorosa.

Em cada história muitas vidas e personagens gritam e pedem espaço para serem ouvidos e compreendidos. Talvez a vocação do terapeuta seja esta: escutar cada história e compreender no silêncio amoroso que em cada personagem encontra-se um retalho da grande colcha que compõe a história do partilhante. Somos tantos em apenas um. O ouvir é uma ponte para que a escuta nos ajude a superar o medo desbravar outros mundos que estão sendo gestados naquele exato momento que estão sendo expressos.

*Pe Flávio Sobreiro
Filósofo. Teólogo. Poeta. Estudante de Filosofia Clínica
Cambuí/MG

quinta-feira, 15 de outubro de 2015

Fragmentos Filosóficos, Delirantes*


"Como Bleuler tampouco descobriu qualquer doença nova nem desenvolveu qualquer novo tratamento, sua fama assenta, em minha opinião, no fato de ter inventado uma nova doença - e, através dela, uma nova justificativa para se considerar o psiquiatra um médico, o esquizofrênico um paciente e a prisão em que aquele confina este, um hospital"

"Antes de 1900, os psiquiatras acreditavam que a paralisia geral era devida à má hereditariedade, alcoolismo, fumo e masturbação."

"(...) ao descrever um paciente esquizofrênico, está descrevendo meramente alguém que fala de modo bizarro ou diferente dele, ou quem ele, Bleuler, está em desacordo."

"A essência da minha argumentação é que homens como Kraepelin, Bleuler e Freud não eram o que afirmavam ou pareciam ser, notadamente, médicos ou investigadores médicos; eles eram, de fato, líderes e conquistadores político-religiosos."

"Szasz citando Laing: 'O homem futuro verá que aquilo a que chamamos "esquizofrenia" foi uma das formas em que, frequentemente através de pessoas comuns, a luz começou a penetrar através das brechas de nossas mentes excessivamente fechadas.'"

"A esquizofrenia é definida de modo tão vago que, na realidade, trata-se de um termo frequentemente aplicado a quase toda e qualquer espécie de comportamento reprovado pelo locutor."

"(...) a esquizofrenia é um símbolo sagrado da Psiquiatria, da mesma forma que, digamos, o Cristo crucificado é um símbolo sagrado do cristianismo."

"(...) em nosso mundo medicamente intoxicado, acredita-se geralmente que, numa discordância entre duas partes, se uma puder provar que a outra é 'doente' - especialmente 'esquizofrenica' - isso estabelecerá de maneira irrefutável a superioridade, ao mesmo tempo científica e moral, da primeira sobre a segunda."

"(...) na proporção em que o matrimônio passou a ser considerado sagrado e indissolúvel, a Psiquiatria involuntária foi considerada indispensável, uma verdadeira benção."

"(...) o contexto real e a maneira precisa em que surgem tipicamente os fenômenos que Kraepelin chamou de dementia praecox e Bleuler denominou 'esquizofrenia'. O contexto é a família (...)"

"O que desejo enfatizar aqui, logo de início, é que a afirmação de que algumas pessoas têm uma doença chamada esquizofrenia (e de que algumas, presumivelmente, não a tem) baseia-se unicamente na autoridade médica e não em qualquer descoberta da Medicina; de que isso foi, em outras palavras, o resultado de uma tomada de decisão ética e política, e não de um trabalho científico empírico."

*Thomas S. Szasz in "Esquizofrenia - o símbolo sagrado da psiquiatria". Zahar Editores. RJ. 1978

quarta-feira, 14 de outubro de 2015

O Viajante*




“Tudo isso é a passagem aos nossos olhos. E nada disso ela foi outrora.”
Walter Benjamin

Um amor além desta cidade,
O verão queima as casas, os telhados brilham,
Um amor além deste lugar,
A vida é mais que um prato à mesa,
É a fome dos fantasmas que vivem nesta cidade.

Um verão a mais na vida dos meus planos,
Depois desta cidade não existe mais um lugar para morar sozinho.
Um amor além desta cidade só com você,
Lá na beira do Sena, irei plantar meu sonho,
Ele nunca morreu, irei catar lixo para sobreviver de amor.

Irei morar em baixo da ponte para pagar o teu doce preferido,
um amor além desta cidade é preciso.
Vamos envelhecer longe daqui, que ninguém nos ouça:
Vamos embora quando findar o dia,
o avião não espera ninguém. Partimos!

*Dr. Luis Antonio Paim Gomes
Professor. Editor. Poeta.
Porto Alegre/RS

terça-feira, 13 de outubro de 2015

Fragmentos Filosóficos Delirantes*


"A concepção mítica da linguagem, que em toda parte precede a filosófica, caracteriza-se sempre por esta indiferença entre palavra e coisa. Para ela, a essência de cada coisa está contida no seu nome. Efeitos mágicos se vinculam de maneira imediata à palavra e à sua posse."

"Se considerarmos o logos da linguagem somente na forma sob a qual ele se representa e cristaliza na palavra isolada, verificaremos que cada palavra limita o objeto que pretende designar, e que, ao limitá-lo, o falsifica. Através da fixação na palavra, o conteúdo é extraído do fluxo incessante do devenir no qual se encontra, sendo, portanto, apreendido não de acordo com a sua totalidade, mas tão somente representado em uma determinação unilateral."

"(...) mesmo a ambiguidade inerente à palavra não constitui uma mera deficiência da linguagem, e sim um momento essencial e positivo da força expressiva que nela reside. Porque nesta ambiguidade se evidencia que os limites da palavra, tais como os do próprio ser, não são rígidos, e sim fluidos."

"A linguagem encerra um sentido oculto a ela própria, que ela somente pode decifrar por conjecturas, através da imagem e da metáfora."

"Leibniz disse certa vez que a natureza gosta de expor abertamente em um ponto qualquer os seus últimos segredos, e, por assim dizer, colocá-los diante dos nossos olhos através de demonstrações visíveis."

"(...) toda forma de espírito verdadeiramente original cria a forma linguística que lhe é apropriada."

"Todo indivíduo fala a sua própria língua."

"A diversidade das línguas não concerne aos sons e signos, e sim às concepções de mundo que lhes são inerentes."

*Ernst Cassirer in "A Filosofia das Formas Simbólicas." I - A linguagem. Ed. Martins Fontes.SP. 2001 

segunda-feira, 12 de outubro de 2015

Códigos Secretos*


A conheci numa livraria
Sentada sobre um banquinho
De uma livraria pequena
E mal iluminada.

Os fantasmas de luzes e sombras
Ilustravam as páginas que lia
Seus dedos tocavam as letras
Que levava até os lábios.

Contou-me que não gostava
De bibliotecas e livrarias amplas
Não tinha nenhuma afeição
As classificações e códigos de barras.

Seu semblante era marcado
Por códigos secretos
Seus olhos pretos cintilavam
Como o olhar de um gato preto
A tez translúcida de sua pele
Ocultava tatuagens das letras em sua alma.

Era triste e pálida
Pudera!!!!
Nunca havia tomado banho de sol
Tomava banho de escuro.

Sentei-me no chão ao seu lado
Disse-me, em seguida,
Que lia os seus livrinhos
Para lembrar-se das lembranças
Que se atrasaram....

*José Mayer
Filósofo. Livreiro. Poeta. Estudante na Casa da Filosofia Clínica
Porto Alegre/RS