segunda-feira, 30 de novembro de 2015

Fragmentos filosóficos, delirantes*



"O mesmo poema é lido por várias pessoas, e cada uma delas faz dele o 'seu' poema. Assim funciona a imaginação: cada um precisa reimaginar por si mesmo."

"A nova era só termina quando esses limites se tornam rígidos e convencionais, aguardando seu rompimento por outra descoberta, para que prossiga a marcha no rumo das próxima liberdade."

"A obra de arte, ao contrário, é essencialmente uma proposição incompleta, que nos é apresentada para que com ela possamos construir nossa própria generalização."

"E depois de ler essa passagem de Gertrude Stein, estilisticamente estranha (como A Rose is a Rose, is a Rose) [Uma rosa é uma rosa, é uma rosa], ela de repente nos faz perceber que os problemas que a preocupavam só podiam ser expressos daquela forma."

"(...) a obra de arte nos ensina não só o que é agir como se fôssemos outra pessoa, mas também o que é ser outra pessoa."

"(...) a história é feita por fanáticos. As pessoas de mentalidade aberta e generosa fazem ciência, poesia ou outra arte produzida pela imaginação. Mas é preciso decidir: quem quer fazer história deve ser como Stalin e Hitler."

"O dom da imaginação é esse duplo movimento que manipula imagens na minha mente e as faz girar com uma espécie de força comunicativa que vai recriá-la na mente de outras pessoas; movimento que ocorre sempre que vemos uma obra de arte, lemos um poema ou falamos sobre um teorema."

"A capacidade de traçar imagens que representem o que está ausente e de usá-las para experimentar situações imaginárias dá ao homem uma liberdade que nenhum animal tem."

*Jacob Bronowski in "O olho visionário". Ed. UNB. Brasília/DF. 1998.

domingo, 29 de novembro de 2015

Entropia da Calêndula*


“Mas não tenho nenhuma certeza de que o porvir de vocês coexistia assim com o seu presente.”
Henri Bergson

A ordem é a desordem. Havia um tempo que a desordem era o momento em que as coisas começavam a tomar um ponto a seguir, que as direções se distribuíam conforme os seguimentos da existência pediam passagem. Hoje, o caos não é mais dessa proposição, ou seja, a expressão verbal dos conceitos deixa de ter legitimidade diante dos fatos que atropelam o uso da linguagem. Se o juízo de algo é mais do que uma verdade, se ele passa a ser um acontecimento destruidor, a proposição do que estou aqui a pensar não tem importância alguma de sua veracidade de enunciado.

Esse pequeno esforço recreativo, quase um jogo do pensamento, é porque ando a refletir sobre os efeitos benéficos e maléficos das Verdades seculares, sejam elas de ordem das ideias, dos grandes movimentos e correntes do pensamento, ou da heresia quase suicida de afrontar ao uso analítico de conceituar tudo através da linguagem (velho truque de determinar a veracidade dos acontecimentos) através de um exercício lógico de ver o Real.

É uma pena, esse lance de dados não é o único, isso se tornou inócuo no momento, já vai mais de 30 anos que Jean Baudrillard desfolhou a malmequer, dissecou os eventos na crítica do simbólico e do lógico como se eles dessem conta de tudo e diante de uma explosão poderiam deixar de ter sua eficácia, ou de que a linguagem nada mais era do que um recurso para interpretar, e que os homens convencionaram como o núcleo duro das ideias até esgotar o seu repertório. 

Voltamos ao centro da Terra, ao centro da Vida, onde o estômago do pensamento regurgita, onde tudo se liga, até o mais absurdo do niilismo se dedica a pensar o que fazer da existência se seu pensamento parar de pensar, é o vão da porta onde toda espécie de luz adentra ou esvazia o que vem do interior para o fora do lugar. 

Do centro, as forças da destruição movidas por ideias esculpidas, seja pelo sentimento de um deus, pela adesão à salvação da unidade da vida, desse lugar, todos os outros sobreviventes das ameaças poderão reunir os cacos da modernidade, das religiosidades, das verdades e das ciências. Assim, o pensamento não abrirá mão do olhar cético, esse ar pós-monista que ilumina tal qual o idealismo do olhar realista. A entropia é parte do que restou da unidade, então, me volto para a calêndula: o bem-me-quer da Vida 

Prof. Dr. Luis Antônio Paim Gomes
Editor. Professor. Escritor. Livre Pensador.
Porto Alegre/RS

sábado, 28 de novembro de 2015

Espiritualidade cristã e qualidade de vida*


Quando falamos em qualidade de vida, logo nos lembramos de uma alimentação saudável, exercícios, noites de sono bem dormidas e outras centenas de métodos que visam cuidar da pessoa de um modo que possa viver mais e melhor. Mas onde entra a espiritualidade cristã dentro do contexto da qualidade de vida?

Hoje, o ser humano é visto como um todo. Não somos um compartimento com gavetas diferenciadas. Tudo o que faz parte de nós compõe aquilo que somos. E a espiritualidade está presente naquilo que faz parte de nossa existência em sua totalidade.

Quando descuidamos da alimentação, o nosso corpo, as nossas emoções, o nosso humor, o nosso sono, a nossa autoestima, o nosso desempenho no trabalho, as nossas motivações respondem de maneira negativa. O mesmo processo acontece quando descuidamos de nossa espiritualidade. Todo o nosso ser responde negativamente.

Uma qualidade de vida saudável também exige que a espiritualidade seja cuidada. Muitos adentram em complexos processos de depressão sem saber o real motivo desse estado negativo que, aos poucos, vai se enraizando na vida. Em muitos casos, alguma área social, psicológica ou espiritual sofreu algum abalo. Além do acompanhamento médico e psicológico, faz-se necessário que o paciente também ajude a si mesmo. É neste momento importante do processo de cura que a espiritualidade ocupa uma importante função.

Uma vida com qualidade exige de todos nós uma vivência espiritual saudável e equilibrada, na qual possamos cuidar de todos os outros aspectos que nos compõe, sem deixarmos de lado nenhum deles, incluindo nossa espiritualidade.

Adquirimos uma qualidade de vida espiritual saudável quando reservamos um tempo para a nossa oração diária. A oração nos devolve a paz e nos coloca em contato com nossa própria alma e com Deus já presente nela. Silenciosamente, o Senhor vai transformando o nosso interior para que o exterior seja um reflexo daquilo que foi sendo cultivado nos tempos sagrados reservados para o nosso crescimento na fé, na esperança e no amor.

A espiritualidade somente é saudável quando é vivenciada com equilíbrio. Tudo o que foge ao equilíbrio torna-se espiritual e psicologicamente perigoso. O trabalho, o esporte, o lazer, a diversão, o descanso, a participação na vida de comunidade, são importantes para o nosso crescimento humano, social, mental e espiritual. E em todos estes ambientes a espiritualidade deverá estar presente. A experiência de Deus que trazemos gravada em nossa alma não fica isolada das outras experiências da vida, mas as potencializa.

Quem separa a vida social da experiência espiritual que traz em si, perde-se nos territórios de sua própria alma. O equilíbrio entre a vida e a fé não são motivos para nos afastar das diferentes realidades que nos interpelam. Uma vida espiritual madura, sadia e equilibrada abre-nos um caminho de paz que é trilhado a partir das experiências de fé que estão sendo cultivadas em nosso próprio coração.

Quem descobriu na espiritualidade um jeito maduro de ser mais humano e divino, encontrou em si mesmo o segredo do amor de Deus que em nós equilibra todos os aspectos da vida.

*Pe Flávio Sobreiro
Teólogo. Filósofo. Estudante de Filosofia Clínica. Poeta.
Cambuí/MG

sexta-feira, 27 de novembro de 2015

Fragmentos de alma primaveril*


"Saibam, pois, que a arte é: um caminho para a liberdade. Todos nós nascemos acorrentados. Um ou outro esquece os seus grilhões, revestindo-os de prata ou de ouro. Mas nós queremos quebrá-los. Não com violência torpe e selvagem; queremos nos desvencilhar crescendo até que eles não nos caibam mais." 

"A criação do artista é uma insígnia: a partir de seu íntimo ele exterioriza todas as coisas pequenas e efêmeras: seu sofrimento solitário, seus desejos vagos, seus sonhos angustiados e aquelas alegrias que perdem o viço. Aí sua alma se engrandece e torna-se festiva, e ele criou o lar digno para si mesmo."

"Cada um de nós recria a mundo ao nascer, porque cada um de nós é o mundo."

"(...) a busca nostálgica de si mesmos. Seus maiores arrebatamentos provinham das descobertas que faziam em seu íntimo."

"Fato é que cada um cresce em direção a si mesmo."

"Não podendo a arte ser nacional em seus momentos de apogeu, segue-se que todo artista, na verdade, nasce em terra estrangeira. Sua pátria não está em lugar algum situando-se apenas em seu próprio íntimo. E as obras nas quais traduz a linguagem desta terra são as suas mais genuínas."

"Em seus atos de libertação ele oferece como um presente as possibilidades adormecidas, e apenas quem conhece a palavra mágica é capaz de despertá-las novamente e transformá-ls em alegria e festividade."

"(...) na obra do gênio, a regra é o acaso necessário."

"O homem que não necessita de títulos, porque ele, com o seu trabalho, é portador de todas as honrarias, e haveria de sentir-se tolhido e amedrontado se tivesse de ocupar determinado posto. Ele não erige um trono para si próprio, embora pudesse fazê-lo a cada dia. Ele sabe: tronos podem cair."

"Cada vez mais estou convencido de que não me refiro às coisas, e sim àquilo que elas fizeram de mim."

*Rainer Maria Rilke in "O diário de Florença"   Ed. Nova Alexandria. SP. 2002

quinta-feira, 26 de novembro de 2015

Viver e morrer*


Estaríamos nós desprezando a presença da morte?

Mais uma vez ela estava presente, ou melhor, ela sempre esteve. Por mais que não a enxerguemos, está rondando o ambiente. E, quando menos esperamos, aparece num último suspiro, acompanhada sempre de algumas indagações, medos, incertezas, sofrimentos, projetos inacabados e até mesmo alívios.

Quando se recebe a notícia de que se está com uma doença terminal, se pensa logo que vai morrer. E, realmente, em algum momento vamos morrer... Só que não sabemos o momento.  Quando a morte é no “outro”, acabamos de alguma forma, morrendo um pouco. Apenas presenciamos, sabendo que em algum momento esta morte será no “eu”.

Ainda assim, continuamos a viver como se nunca fossemos morrer, adquirimos coisas, fazemos planos e até colecionamos objetos, sem pensar que em algum momento vamos nos desprender deles. Essa é a forma através da qual a sociedade enxerga a morte. Falar de morte ainda é um tabu. Falamos de sexo, de drogas, até de ufologia, mas escondemos, velamos, não enxergamos, negamos esse fenômeno chamado morte, sempre pulando este capítulo.  

Sentir a presença da morte, em um ambiente do qual ela faz parte do contexto, é algo difícil de assimilar. Por mais que saibamos que a morte é uma certeza, não conseguimos aceitar a finitude como algo natural do desenvolvimento humano. Damos tanta importância para o nascer porém desprezamos o morrer. Todavia não podemos ver o nascer sem o morrer. Até o sol nasce e morre, e mais uma vez negamos o morrer, pois quando falamos no sol dizemos “o sol nasce e se põe” e não “o sol nasce e morre”. Medo, negação ou apenas uma forma de evitar falar na palavra morrer.

No livro “Totem e Tabu’, Sigmund Freud relata experiências de ancestrais, nas quais a morte era respeitada, sendo sempre obedecidos rituais e costumes, de acordo com os quais até os guerreiros da época faziam oferendas para os inimigos, que eles próprios haviam abatido nos combates.

Podemos fazer um paralelo entre presente e passado, constatando que muita coisa mudou e ainda vai mudar. Através dos tempos a morte foi sendo banalizada e até desrespeitada. O morrer em casa, na companhia da família, foi sendo deixado para trás, não tendo mais o moribundo o direito de escolher onde morrer, passando a se tornar apenas um objeto valioso em qualquer CTI hospitalar.

Heidegger diz “que o homem deve estar em permanente vigília com relação aos fenômenos que se apresentam, e que afetam diretamente no transcorrer de sua cotidianidade. A morte deve ser enxergada como uma realidade de nossa vida.”

A verdade é que com toda essa evolução em termos de apego as coisas materiais, nossa sociedade foi se distanciando dos valores reais e naturais. O homem atual encontra-se despreparado para enfrentar a morte, e vê o fenômeno como um duelo, e não como uma sequência natural do viver.

*Marcelo Á. Franco
Psicólogo. Especialista em Educação. Estudante na Casa da Filosofia Clínica.
Porto Alegre/RS

quarta-feira, 25 de novembro de 2015

Fragmentos filosóficos, delirantes*


"Em sua essência, a linguagem não é expressão e nem atividade do homem. A linguagem fala. O que buscamos no poema é o falar da linguagem. O que procuramos se encontra, portanto, na poética do que se diz."

"Poesia nunca é propriamente apenas um modo mais elevado da linguagem cotidiana. Ao contrário. É a fala cotidiana que consiste num poema esquecido e desgastado, que quase não mais ressoa."

"A poesia de um poeta está sempre impronunciada. Nenhum poema isolado e nem mesmo o conjunto de seus poemas diz tudo. Cada poema fala, no entanto, a partir da totalidade dessa única poesia, dizendo-a sempre a cada vez."

"O delirante pensa e pensa mais do que qualquer um. Mas nisso ele fica sem o sentido dos outros. Ele é um outro sentido."

"O desprendido é delirante porque está a caminho de outro lugar."

"Deixei uma posição anterior, não por trocá-la por oura, mas porque a posição de antes era apenas um passo numa caminhada. No pensamento, o que permanece é o caminho. E os caminhos do pensamento guardam consigo o mistério de podermos caminhá-los para frente e para trás, trazem até o mistério de o caminho para trás nos levar para frente."

"O que, portanto, deve manter-se impronunciado resguarda-se no não dito, abriga-se no velado como o que não se deixa mostrar, é mistério."

*Martin Heidegger in "A caminho da linguagem". Ed. Vozes. Petrópolis/RJ. 2004 

terça-feira, 24 de novembro de 2015

Poéticas do indizível*


  
                              

Uma crença muito antiga aprecia atualizar-se nesse enigmático hoje que um dia foi amanhã. Poderia ser o pretérito imperfeito de uma busca ou aquele quase nada onde tudo acontece. Atualização de um dialeto nem sempre dizível, se alimenta nas fontes inenarráveis, nos paradoxos, nas desleituras criativas.

Seu visar inédito sugere desvãos ao mundo que se queria definitivo. Costuma ser abrigo do acaso na versão do avesso das coisas. Ao referir o encantamento das pequenas devoções, parece ter a vocação de traduzir esse texto interminável, por onde a vida escoa seus segredos. Realiza um esboço sobre as tentativas de decifrar por inteiro um mundo que é mistério por natureza.     

A característica de ser imprevisível seria insuportável, não fora a poesia re_significada numa lógica delirante. No submundo dos outros é possível reconhecer parte do nosso, isso pode acontecer no elogio ou crítica, censura ou aplauso. Essa contradição parece fundamentar uma distância aproximada de cara metade. Assim ódio e paixão podem se reconhecer no mesmo objeto de desejo.

O transbordamento discursivo relata a vida num desses lugares onde os sonhos acontecem. A recriação estética imprecisa sua matéria-prima nas gavetas desmerecidas, na via marginal, no rastro dos rituais exóticos. Ao primeiro olhar, a inexatidão dos rascunhos aponta manuscritos ilegíveis. Há que se conviver em meio às brumas para aprender sua dialética, a trama significativa de existir absurdo.   

Talvez os personagens de cada um possam se esboçar na percepção de consciência alterada, oferecer leituras sobre os fenômenos ao seu redor, como uma ousadia retórica a testar o limite das palavras na relação com os extraordinários eventos.

Universo subjetivo inconformado com a definição refém de si mesma, ao deixar entrever sua fonte de originais, se alimenta nas ressonâncias dos ensaios irrefletidos.  As poéticas do indizível se associam em código próprio, para desvendar sua arquitetura irreal, reivindicam uma interseção nem sempre cabível a verdade dos consensos. Ao se colocar numa ótica de devaneio e invenção sua decifração percorre os instantes de um discurso que silencia.  

*Hélio Strassburger

segunda-feira, 23 de novembro de 2015

Você é um Envelhescente?*


Se você tem entre 45 e 65 anos, preste bastante atenção no que se segue. Se você for mais novo, preste também, porque um dia vai chegar lá. E, se já passou, confira.

Sempre me disseram que a vida do homem se dividia em quatro partes: infância, adolescência, maturidade e velhice. Quase correto. Esqueceram de nos dizer que entre a maturidade e a velhice (entre os 45 e os 65), existe a ENVELHESCÊNCIA.

A envelhescência nada mais é que uma preparação para entrar na velhice, assim com a adolescência é uma preparação para a maturidade. Engana-se quem acha que o homem maduro fica velho de repente, assim da noite para o dia. Não. Antes, a envelhescência. E, se você está em plena envelhescência, já notou como ela é parecida com a adolescência? Coloque os óculos e veja como este nosso estágio é maravilhoso:

— Já notou que andam nascendo algumas espinhas em você? Notadamente na bunda?

— Assim como os adolescentes, os envelhescentes também gostam de meninas de vinte anos.

— Os adolescentes mudam a voz. Nós, envelhescentes, também. Mudamos o nosso ritmo de falar, o nosso timbre. Os adolescentes querem falar mais rápido; os envelhescentes querem falar mais lentamente.

— Os adolescentes vivem a sonhar com o futuro; os envelhescentes vivem a falar do passado. Bons tempos...

 — Os adolescentes não têm idéia do que vai acontecer com eles daqui a 20 anos. Os envelhescentes até evitam pensar nisso.

— Ninguém entende os adolescentes... Ninguém entende os envelhescentes... Ambos são irritadiços, se enervam com pouco. Acham que já sabem de tudo e não querem palpites nas suas vidas.

— Às vezes, um adolescente tem um filho: é uma coisa precoce. Às vezes, um envelhescente tem um filho: é uma coisa pós-coce.

 — Os adolescentes não entendem os adultos e acham que ninguém os entende. Nós, envelhescentes, também não entendemos eles. "Ninguém me entende" é uma frase típica de envelhescente.

— Quase todos os adolescentes acabam sentados na poltrona do dentista e no divã do analista. Os envelhescentes, também a contragosto, idem.

— O adolescente adora usar uns tênis e uns cabelos. O envelhescente também. Sem falar nos brincos.

— Ambos adoram deitar e acordar tarde.

— O adolescente ama assistir a um show de um artista envelhescentes (Caetano, Chico, Mick Jagger). O envelhescente ama assistir a um show de um artista adolescente (Rita Lee).

— O adolescente faz de tudo para aprender a fumar. O envelhescente pagaria qualquer preço para deixar o vício.

— Ambos bebem escondido.

— Os adolescentes fumam maconha escondido dos pais. Os envelhescentes fumam maconha escondido dos filhos.

— O adolescente esnoba que dá três por dia. O envelhescente quando dá uma a cada três dia, está mentindo.

— A adolescência vai dos 10 aos 20 anos: a envelhescência vai dos 45 aos 60. Depois sim, virá a velhice, que nada mais é que a maturidade do envelhescente.

— Daqui a alguns anos, quando insistirmos em não sair da envelhescência para entrar na velhice, vão dizer:

—  É um eterno envelhescente!

Que bom.

*Mário Prata

domingo, 22 de novembro de 2015

Tempestades*


Lembro-me. Quando aconteciam tempestades ,
com relâmpagos e trovões. Mamãe comentava:
- É Deus riscando fósforos lá no céu
- É São Pedro jogando bolão com os amigos.
Naquele tempo eu acreditava... não havia nenhum mal nisso.

Meu pai era um ator do cotidiano. Representava a vida em formas mais divertidas. Era engraçado. Gostava de fazer as pessoas rirem...

Eu entendia ele. É que a vida é pouca para caber num dia. Pouca para caber numa semana. Pouca para caber num mês. É preciso inventar uma vida a cada dia.

Hoje iludo-me pensando que entendo tudo isto melhor. Não acredito em vitórias antecipadas. Tenho dificuldade em acreditar em fatalidades do destino. Entro em briga com ele. E faço ele jogar a meu favor...

Na monotonia morna de dias repetitivos, invento tempestades. E não me refugio dentro de casa. Nem acendo velas para o medo encolhido. Tampouco queimo palmas para a escuridão cega.

Hoje, prefiro permanecer na tempestade. Alcanço a minha mão para os relâmpagos. Afino os meus ouvidos para as músicas dos trovões. E deixo a chuva cobrir o meu corpo para lembrar de amores...
Afinal. nenhum temporal é para sempre....

*José Mayer
Filósofo. Livreiro. Poeta. Estudante na Casa da Filosofia Clínica
Porto Alegre/RS

sábado, 21 de novembro de 2015

Motivo da rosa*


Não te aflijas com a pétala que voa:
também é ser, deixar de ser assim. 

Rosas verá, só de cinzas franzida,
mortas, intactas pelo teu jardim. 

Eu deixo aroma até nos meus espinhos
ao longe, o vento vai falando de mim. 

E por perder-me é que vão me lembrando,
por desfolhar-me é que não tenho fim.

*Cecília Meireles

sexta-feira, 20 de novembro de 2015

A luz que cega!*


Há uma obra de José Saramago publicada em 1995 com tradução em várias línguas, chamada “Ensaio Sobre a Cegueira”. Esta obra tornou-se filme em 2008 pelas mãos do diretor Fernando Meirelles e também pode ser vista nos teatros. A história conta de um japonês que, por não conseguir enxergar, pede ajuda até que alguém o leva até em casa e acaba por roubar o seu carro. No dia seguinte o japonês e sua esposa vão ao oftalmologista para saber o que está acontecendo e aos poucos uma epidemia se alastra e, com exceção da mulher do oftalmologista, todos ficam cegos. Devido ao alastramento da epidemia o governo decreta quarentena e separa as pessoas cegas das outras, mas mesmo assim a epidemia continua se alastrando.

Presos em uma construção, confinados a uma convivência sem a visão, os internos formam dois grupos e pouco a pouco a convivência se torna insustentável. Até que chega ao ponto em que um dos grupos, por questão de sobrevivência acaba por incendiar o lugar e fugir, mesmo às cegas. Já em casa, depois de uma longa e exaustiva caminhada, cada um faz um pedido, o que gostaria naquele momento. O interessante é que, mesmo sem enxergar, nenhum deles pedem o retorno da visão, cada um pede coisas simples, em sua maior parte o que dá o conforto à alma. Enquanto não enxergavam, os personagens diziam ver uma luz branca. Por vezes não é o escuro que cega as pessoas, mas a claridade.

No dia-a-dia em contato com pessoas de diferentes áreas de formação, status econômico, religião ou religiosidade, filosofia de vida e tantas outras diferenças podemos escutar: “Há uma luz no fim do túnel”. Estas pessoas estão vivendo o aqui e o agora, mas o seu pensamento está tão focado num futuro que “vai chegar” que o que veem é uma luz. Esta luz que veem é diferente para cada uma, para alguns a luz no fim do túnel é o dinheiro para pagar as contas no mês que vem. Para outras, a luz no fim do túnel é o emprego que desejam para si. Existem ainda pessoas para as quais a luz no fim do túnel é o relacionamento que um dia pode dar certo. Apenas para fechar as possíveis luzes, pense em qual será a luz no fim do seu túnel.

Olhando fixamente para esta luz estas pessoas passam dias, semanas, meses, anos caminhando naquela direção. Todo o tempo que caminham um pensamento é recorrente: “Quanto eu chegar lá...” Esta luz os dá força, alimenta sua alma e faz com que caminhem em passos largos, firmes e decididos, voltados para a claridade que é onde colocaram seus objetivos. Estão tão resolutos em sua caminhada e olham tão fixamente para a luz que tudo o que está na sombra passa despercebido, ou seja, ao olhar fixamente para a luz não conseguem enxergar o que está à sombra dela.

Esta luz, a claridade intensa que foi colocada como objetivo de vida pode cegar a pessoa para as vivências do presente. Quando chegar ao objetivo, conquistar a tão buscada luz no fim do túnel, pode olhar para trás iluminado pela claridade e perceber que muitas coisas boas ficaram pelo caminho. Ao focar a claridade do tão sonhado emprego a família pode ter ficado na sombra e quando se chega ao objetivo e olha-se para trás, ela já pode não existir mais. Ao ganhar o dinheiro que queria para pagar as contas e ter um tanto para guardar no banco, o amor da vida pode ter ficado na sombra pelo caminho. Ao se fixar atentamente ao relacionamento que pode dar certo pode acontecer que a sombra cubra o outro que está nesse relacionamento.

Não há nada de errado em ter objetivos e buscá-los diariamente, colocar pontos de luz na vida que possam alimentar a alma durante os períodos difíceis. Mas estes pontos devem irradiar claridade para todo o restante da vida e não cegar. Seria interessante pensar se não são os seus filhos que estão à sombra da luz que você observa no fim do túnel.

*Rosemiro A. Sefstrom
Filósofo Clínico
Criciúma/SC

quinta-feira, 19 de novembro de 2015

Fragmentos Filosóficos, Delirantes*


"A obra de arte é uma mensagem fundamentalmente ambígua, uma pluralidade de significados que convivem num só significante."

"A ruptura de uma Ordem tradicional, que o homem ocidental acreditava imutável e identificava com a estrutura objetiva do mundo... Ora, desde que essa noção se dissolveu, através de um desenvolvimento problemático secular, na dúvida metódica, na instauração das dialéticas historicistas, nas hipóteses da indeterminação, da probabilidade estatística, dos modelos explicativos provisórios e variáveis, a arte não tem feito outra coisa senão aceitar essa situação e tentar - como é sua vocação - dar-lhe forma"

"(...) as novas obras musicais, ao contrário, não consistem numa mensagem acabada e definida, numa forma univocamente organizada, mas sim numa possibilidade de várias organizações confiadas à iniciativa do intérprete, apresentando-se, portanto, não como obras concluídas, que pedem para ser revividas e compreendidas numa direção estrutural dada, mas como obras 'abertas', que serão finalizadas pelo intérprete no momento em que as fruir esteticamente' 

"(...) no ato de reação à teia dos estímulos e de compreensão de suas relações, cada fruidor traz uma situação existencial concreta, uma sensibilidade particularmente condicionada, uma determinada cultura, gostos, tendências, preconceitos pessoais, de modo que a compreensão da forma originária se verifica segundo uma determinada perspectiva individual."

"As poéticas do pasmo, do gênio, da metáfora, visam, no fundo, além de suas aparências bizantinas, a estabelecer essa tarefa inventiva do homem novo, que vê na obra de arte, não um objeto baseado em relações evidentes, a ser desfrutado como belo, mas um mistério a investigar, uma missão a cumprir, um estímulo à vivacidade da imaginação."

"E Sartre lembra que o existente não pode reduzir-se a uma série finita de manifestações, pois cada uma delas está em relação com um sujeito em contínua mutação. Assim um objeto não somente apresenta diversas Abschattungen (ou perfis), mas são possíveis diversos pontos de vista sobre uma única Abschattung."

"(...) um aspecto peculiar da obra, que a desvende inteira sob uma nova luz, deve esperar o ponto de vista capaz de captá-lo e projetá-lo."

"Das estruturas que se movem àquelas em que nós nos movemos, as poéticas contemporâneas nos propõem uma gama de formas que apelam à mobilidade das perspectivas, à multíplice variedade das interpretações. Mas vimos também que nenhuma obra de arte é realmente 'fechada', pois cada uma delas congloba em sua definitude exterior, uma infinidade de 'leituras' possíveis."

*Umberto Eco in Obra Aberta. Ed. Perspectiva. SP. 2005

quarta-feira, 18 de novembro de 2015

Independência ou morte*


A moça é carinhosa, atenciosa, parceira, boa de cama e ainda assim não pede nada em troca.
De verdade, eu gosto mesmo é de falar de amor.

Gosto de dizer para as pessoas que me ouvem, que tudo é lindo, que o céu é infinito, que o mar é azul.

Gosto de falar da sorte, gosto de mostrar o quanto a alegria faz viver e rejuvenescer.

Gosto mesmo é de falar de amor. Como se amar não significasse nunca, nenhum ajuste para algum desajuste humano, quando um homem e uma mulher resolvem compartilhar a vida. Gosto mesmo é de sempre pensar, ingenuamente, que um casal pode ser feliz simplesmente.

Me esqueço, de verdade, que um casal que quer amar é a soma complicada, difícil, interminável e quase infinita de um mais um. Quase me esqueço o que cada um em sua singularidade representa no mundo e como representa o mundo.

E é aí que o universo aparece descolorido, realístico e impondo conceitos tão pequenos para seres que teriam tanto para serem felizes. É aí, neste mundo de interpretações que um casal perde seu referencial de felicidade que pouco tempo atrás o fenômeno do amor e sua química mágica e inocente criou. É diante de pré-juízos pobres, mas fortes como lanças com pontas envenenadas, que muitos casais se distanciam.

Um deles diz respeito ao mito da mulher independente. Ao paradoxo que cerca a vida da mulher independente e que só perde para o da mulher bonita.

Explico de forma simples, breve e popular.

Ela tem que ser bonita, mas ninguém pode gostar dela, olhar para ela. E ela não pode sorrir para ninguém, e também não pode ter alguém com quem se assuma um compromisso sem que para sempre sua beleza seja alvo de medo, desconfianças, inseguranças.

Ela tem que ser independente. Não pode incomodar. Nem emocionalmente, nem tão pouco em suas dúvidas. Não pode sentir ciúmes, não pode pedir carinho e nem ao menos precisar de ajuda financeira. Tem que trabalhar, mas não muito. Tem que ser a melhor amante, mas não pode ser resolvida sexualmente. Não, isso nem pensar.

Mas essa independência toda, paradoxalmente é exigida e repelida, revestida em uma película de um faz de conta que contenta, ainda que de mentirinha, alguém que não tem muita coragem nem de cuidar, nem tão pouco de deixar a mulher que supõe amar. Confuso, desgastante, cansativo. Perda de tempo dos momentos que poderiam ser bem vividos, em confusões que sempre dão em alguma tristeza.

Acho que os homens estão ficando malucos. A moça não pode precisar de nada. Muito menos de homem. Então, ela é quieta, bela, não o persegue não o cobra em nada, compreende todas suas limitações e ainda assim não está bom? Isso é mal sinal, dizem eles. Mulher independente dá medo. _ Homem, homem mesmo não gosta de mulher independente, daquelas que se viram sozinhas.

A moça é carinhosa, atenciosa, parceira, boa de cama e ainda assim não pede nada em troca. _ Não é possível, vai ver que ela não me ama, mulher esquisita.

Ela fica doente, carente, precisa de alguma coisa, tem um sonho para os dois, algum anseiosinho de felicidade para eles. _ Ô mulher chata, só sabe cobrar.

Um dia ela se cansa de tanta confusão e dá um “piti” _ Ô mulher doida. Igualzinha a todas, só sabe me julgar e me colocar pra baixo.

Senhor me faz entender antes de eu continuar por aí a falar de amor.

Tem receita? Meninos, dizendo de bom coração:

Talvez um pouco menos de egoísmo, menos medo, um pouco mais de sensibilidade, uma verdade, uma pitada a mais de segurança, alguma coisa como amar sem esperar recompensas, talvez um trabalhinho em conhecer a parceira na sua essência e confiar nela e, quem sabe caiba ainda um naco de gratidão por ser ela, às vezes, muito às vezes, a pessoa que faz você feliz.

Trabalhoso!

A proposição de Erich Fromm do amor como uma arte não é mero jogo retórico, consiste na compreensão de que o amor não é uma situação acidental em que nele se “tropeça” quem for afortunado, é sim algo que, na qualidade de arte, exige conhecimento e esforço. E como toda arte para ser vivida precisa ser aprendida – como na música, pintura, marcenaria, artes da medicina ou da engenharia – tal não poderia ser diferente com a atividade de amar, o que envolve, portanto, dois domínios que devem estar interpenetrados: o da teoria e o da prática (FROMM, 2006).

*Jussara Hadadd
Terapeuta Sexual. Filósofa Clínica. Palestrante.
Juiz de Fora/MG

terça-feira, 17 de novembro de 2015

Receita de ano novo *


Para você ganhar belíssimo Ano Novo
cor do arco-íris, ou da cor da sua paz,
Ano Novo sem comparação com todo o tempo já vivido
(mal vivido talvez ou sem sentido)
para você ganhar um ano
não apenas pintado de novo, remendado às carreiras,
mas novo nas sementinhas do vir-a-ser;
novo
até no coração das coisas menos percebidas
(a começar pelo seu interior)
novo, espontâneo, que de tão perfeito nem se nota,
mas com ele se come, se passeia,
se ama, se compreende, se trabalha,
você não precisa beber champanha ou qualquer outra birita,
não precisa expedir nem receber mensagens
(planta recebe mensagens?
passa telegramas?)

Não precisa
fazer lista de boas intenções
para arquivá-las na gaveta.
Não precisa chorar arrependido
pelas besteiras consumidas
nem parvamente acreditar
que por decreto de esperança
a partir de janeiro as coisas mudem
e seja tudo claridade, recompensa,
justiça entre os homens e as nações,
liberdade com cheiro e gosto de pão matinal,
direitos respeitados, começando
pelo direito augusto de viver.

Para ganhar um Ano Novo
que mereça este nome,
você, meu caro, tem de merecê-lo,
tem de fazê-lo novo, eu sei que não é fácil,
mas tente, experimente, consciente.
É dentro de você que o Ano Novo
cochila e espera desde sempre.

*Carlos Drummond de Andrade

segunda-feira, 16 de novembro de 2015

Indiferença*



Características sutis
Já não fazem diferença
Salvo para os gentis
O ser humano cultiva indiferença
Crendo ser 'sabido'
Mas um tanto perdido
Aprofundou-se na loucura
Da correria sem ternura!

*Dionéia Gaiardo
Administradora de Empresas. Poeta. Estudante na Casa da Filosofia Clínica
Porto Alegre/RS

domingo, 15 de novembro de 2015

Fragmentos poéticos, filosóficos, delirantes*


"(...) clássico é um tipo primordial, fundador, em que vidas futuras se reconhecem e cujas pegadas seguirão - um mito, portanto, pois o tipo é mítico e a essência do mito é retorno, atemporalidade, onipresença."

"Aonde chegaríamos se quiséssemos despir o conceito dos primórdios de sua natureza relativa ? Só existem começos relativos."

"(...) a fronteira entre as atividades de poeta e escritor não passa por fora, pelo lado das aparências, e sim dentro da própria pessoa; (...)"

"Na esfera de Lessing, nós nos acostumamos a relativizar as coisas, a humanizar o conceito de verdade, e nos habituamos à ideia de que os critérios do que é verdadeiro residem menos na verdade defendida do que naquele que a defende."

"O gênio, podemos afirmar, revela-se onde aparece algo nunca antes intuído, onde algo nunca antes imaginado se materializa; (...)"

"A natureza não oferece paz, simplicidade, univocidade; ela é o elemento da interrogação, da contradição, da negação, da dúvida ampla."

"(...) contra os amigos da humanidade e da perfectibilidade que acreditam que o ser humano almeja a felicidade e a vantagem, quando na verdade ele também anseia por sofrimento, essa única fonte de conhecimento, e não deseja o palácio de cristal e o formigueiro da perfeição social, jamais abrindo mão da destruição e do caos. "

"Pois a única forma de lidar com o que é poético, irracional, é por meio da literatura, e não por intermédio da palavra que analisa e dissocia."

*Thomas Mann in "O escritor e sua missão". Ed. Zahar. RJ. 2011 

sábado, 14 de novembro de 2015

A poesia e o instante*


O essencial é este agora
aqui com você!
No parar, observar e ...
mais nada.
O essencial é ser simples!
Poesia a cada instante brotando da existência.

Dra. Rosângela Rossi
Psicoterapeuta. Filósofa Clínica. Escritora.
Juiz de Fora/MG

sexta-feira, 13 de novembro de 2015

A Tentação*


Diante do crucifixo
Eu paro pálido tremendo:
“Já que és o Verdadeiro Filho de Deus 
Desprega a humanidade desta cruz”.

*Murilo Mendes

quinta-feira, 12 de novembro de 2015

Um almoço na Feira do Livro*


Um rápido tempinho para um almoço. No mesmo lugar onde almoçamos juntos tantas vezes. Pedi um almoço simples, prato do dia. Leve, pra não machucar os sentimentos. Pouco, para não espantar as lembranças.

Me avisam que demoraria quinze minutos. Legal, havia trazido caderno e caneta.
Me pus a escrever:

"O amor que tenho por ti
É bem maior que a soma
Dos amores da tua vida.
Ah, se tu soubesses
Como um homem ama
Como é difícil para o homem amar
Como é difícil para o homem amar de novo
Ah, se tu soubesses
Como ama um homem como eu...."

Terminado o almoço, esqueci caneta e caderno sobre a mesa. Que culpa tenho por um esquecimento? Se deixei sobre a mesa um pedacinho de mim. Retornei meia hora depois. Sobre a mesa o caderno e a caneta. E abaixo do meu poema estava escrito:

"Ah, se eu soubesse antes
O amor que tinhas por mim...."

Tive a sensação que reconhecia a letra. Comprei uma barrinha de cereal.
Que sempre dividíamos juntos.
E saí....

*José Mayer
Filósofo. Poeta. Livreiro. Estudante na Casa da Filosofia Clínica
Porto Alegre/RS

quarta-feira, 11 de novembro de 2015

“É muito raro encontrar almas livres, mas logo se vê quando são”***


Descobri-me livre, plenamente livre, quando me peguei mirando, da cobertura de um prédio de dezoito andares, a rua movimentada, ao cair da noite. Pensei: “eu poderia pular daqui agora”. Balancei-me para frente e para trás, sorrindo feito criança, como a reafirmar a mim mesma aquela possibilidade.

Obviamente eu não queria me matar, nunca tive esse intento. Na verdade, aquele era um momento leve e feliz que preferi dividir com ninguém, por uma questão de egoísmo, talvez. Sequer lembro a razão de tal alegria, mas ela estava presente, radiante, inundando meus poros como uma onda incontrolável. “Eu poderia pular agora.” E subitamente compreendi o que aquilo significava. A verdade é que eu poderia fazer o que quisesse.

Veja bem, o Código Penal não traz proibições. Nada traz proibições, na verdade. É permitido matar e roubar. É permitido sonegar impostos, exercer profissão ilegalmente e cometer furtos em mercearias desprotegidas. Dentro de seu pequeno universo e respeitando as próprias limitações naturais, não há proibição de verdade, se você tiver um pouco de mobilidade e consciência. A questão é aceitar as consequências de cada ato. “Art. 121. Matar alguém: Pena — reclusão de seis a vinte anos.”

Matar, roubar, sonegar e pular do prédio do décimo oitavo andar são ações que, espera-se, acarretarão reações desagradáveis, mas, ainda assim, são escolhas individuais.

Talvez o momento mais incrível desta vida seja o da tomada de consciência sobre a liberdade de ser quem se quer ser. É uma experiência individual — apoteótica, eu diria! — que talvez perca considerável parte de sua magia quando narrada pelo limitado vocabulário humano.

É surreal.

Esta crônica é minha e escrevo sobre o que quiser. Posso bater em alguém agora, beber água neste exato instante, mexer os dedos dos pés. Posso até mesmo inventar uma história maluca e faltar ao trabalho para deixar que minha cabeça fértil fantasie sobre ela durante todo o dia.

Eu. Sou. Livre. Maravilha! E agora?

Enquanto me balançava para frente e para trás, mirando o movimento distante da avenida, decidi que usaria a liberdade recém-parida para dizer as três palavras mais atrevidas e viscerais que poderia proferir naquele momento: “Eu me demito”.

Assim o fiz, logo no outro dia, em alto e bom tom: “Eu me demito. Eu me demito. Eu me demito”. Estou fora, chega, deu, acabou. Como uma maluca assumida, sem eira nem beira, saí pela rua quase sambando de alegria e deixando cada motorista perplexo, sorridente. Alguns de choque, outros de pena, imagino.

Deus, que claramente prefere asas a correntes, recompensou minha loucura com um incrível presente: a sala de aula. E, desde então, vivo de levar a consciência da liberdade a alunos muitas vezes presos a algemas invisíveis, impingidas por limites imaginários, colocados por seus medos opressores ou terceiros mordazes. Anseio por esses momentos, afinal, foi só então que passei a respirar.

Essa é minha história, mas poderia ser a de qualquer um. Não há limites para asas ousadas, quando os intentos são profundos e arraigados. Há, sim, limites físicos, mundanos e comezinhos, mas não para o substrato que de fato importa. Quando a alma se descobre livre, a solução é atualizar os parâmetros da vida, porque nunca, nunca mais se é o mesmo. O caminho não tem volta.

“Eu poderia viver recluso numa casca de noz e me considerar rei do espaço infinito”, disse Hamlet. A consciência da liberdade talvez seja o maior presente que um homem possa se dar nesta vida.

*Lara Brenner

**Título tomado de empréstimo de Charles Bukowski