sexta-feira, 29 de janeiro de 2016

Fragmentos Filosóficos, Delirantes*


"Pequenos Robinsons em terra firme, somos todos, desse ponto de vista, heróis de romances que vagamos por mundos em construção, obrigados que estamos, para advir à existência no interior de nosso próprio texto, a fazer de nós também construtores de cenários, planejadores urbanos, geômetras, agrimensores, sinalizadores do espaço - e do tempo."

"(...) Espécie mais raro, o segundo - o viajante disponível -, por sua vez, chega, ao contrário, livre de todo programa preciso. Não tem nenhuma transação para concluir, nenhuma cobiça a satisfazer, nenhuma ordem a estabelecer. Desejando-se inteiramente desimpedido, ele sequer se preocupou, antes de partir, de notar o que poderia haver 'para ver' ali onde ele vai chegar. na realidade, se ele se pôs a caminho numa bela manhã, foi mais ou menos de improviso (...)"

"Ele não se instalará. Ele não se comportará como ocupante, nem por conta própria nem por conta de algum longínquo mandatário. Apenas passando, ele não incomodará nada, nem ninguém; não mudará um milímetro a ordem das coisas - nem mesmo a ordem do sentido. Ele não destruirá nada para refazê-lo segundo sua ideia (...)"

"Visitante por princípio respeitador dos equilíbrios que fundam a especificidade de um lugar ou de um meio estrangeiros, ele rejeita a ideia de os perturbar por sua presença ou sua ação. As paisagens que ele admira, tal como os espaços sociais, secretam cada um, ele o sabe, sua temporalidade própria para quem os sabe 'ler'"

"(...) Se o devir pressupõe logicamente o ser, a certeza de ser 'eu' pressupõe, por sua vez, a experiência - a visão, no caso, retrospectiva - de meu próprio devir. Fortuita ou deliberada, a ressurreição autobiográfica do passado é um meio privilegiado de prover a isso."   

"(...) valoriza deliberadamente a energia vital do advento, a força interpeladora da surpresa diante do novo, a virtude regeneradora dos começos."

"(...) Como numa espécie de intercâmbio, cada um dos dois universos empresta ao outro uma parte essencial do que o caracteriza, de tal modo que, embora permanecendo em princípio distintas, as duas ordens de fenômenos terminam, na prática dos agentes sociais, por se juntar, se assemelhar, e com frequência quase se confundir."

*Eric Landowski in "Presenças do outro" Ed. Perspectiva. SP. 2002

quinta-feira, 28 de janeiro de 2016

Contradição*


E então vestia-se de anjo
Sabia exatamente o que queria
Mas o que queria mesmo, nunca soube...

Adorava a noite com suas sombras. Contudo temia os olhos do escuro. Seu dia era pesado. Á noite vestia-se de seu sorriso e se alegrava. Enchia-se de coragem.
Reclamava do tempo e da sua lentidão. Sabia, todavia, que não havia outro jeito. O tempo era o melhor remédio para algumas dores. Então, dava tempo ao tempo. E o tempo lhe retribuía na mesma moeda.

Amava a chuva e os dias nublados. Por aquilo que eles escondiam..Escrevia sobre aquilo que o tempo não mostrava. Ansiava por um grande amor na chuva....
Temia o desconhecido. Mas o mistério a fascinava. Vestia-se muito mais para se ocultar, do que se revelar. Entrava mar adentro, voava com o vento , surfava nas nuvens.

Adorava viajar. Pegou então uma carona para as estrelas. Não haviam lhe ensinado que o brilho de umas é tão lindo de longe, mas queima de perto.
Não queria se entregar a amores. Mas pensava o tempo inteiro em um deles. Deu-se conta que as pessoas se iludem. Por vezes o boca mente, a mente ignora e o coração se engana...
Era um anjo
Achava que sabia o que queria
Mas o queria mesmo, nunca saberá....

*José Mayer
Filósofo. Livreiro. Poeta, Estudante na Casa da Filosofia Clínica
Porto Alegre/RS

quarta-feira, 27 de janeiro de 2016

Fragmentos filosóficos, delirantes*


"Não existe nenhum organismo individual que viva em isolamento. Os animais dependem da fotossíntese das plantas para ter atendidas as suas necessidades energéticas; as plantas dependem do dióxido de carbono produzido pelos animais, bem como do nitrogênio fixado pelas bactérias em suas raízes; e todos juntos, vegetais, animais e microorganismos, regulam toda a biosfera e mantêm as condições propícias à preservação da vida."  

"Todo organismo vivo se renova constantemente, na medida em que suas celulas se dividem e constroem estruturas, na medida em que seus tecidos e órgãos substituem suas celulas num ciclo contínuo. Apesar dessa mudança permanente, o organismo conserva a sua identidade global, seu padrão de organização."

"(...) o sistema que se liga ao ambiente através de um vínculo estrutural é um sistema que aprende."

"A cognição, portanto, não é a representação de um mundo que existe independentemente e por si, mas antes a contínua produção de um mundo através do processo do viver."

"Quando átomos de carbono, oxigênio e hidrogênio se ligam de uma determinada maneira para formar o açúcar, o composto resultante tem um sabor doce. A doçura não está nem no C, nem no O, nem no H; reside, isto sim, no padrão que surge de uma determinada interação dos três."

"Numa organização humana, o acontecimento que desencadeia o processo de surgimento espontâneo de uma nova ordem pode ser um comentário informal, que, muito embora não pareça importante para quem o fez, pode ser significativo para algumas pessoas dentro de uma comunidade de prática."

"(...) o surgimento da novidade é uma propriedade dos sistemas abertos, o que significa que a organização tem de abrir-se a novas ideias e conhecimentos. Para facilitar o surgimento da novidade, é preciso criar essa abertura - uma cultura de aprendizado que encoraje o questionamento constante e recompense a inovação. As organização dotadas de uma tal cultura valorizam a diversidade e, nas palavras de Arie de Geus, 'toleram atividades marginais: experimentos e excentricidades que dilatem a sua margem de conhecimento'".

"Está claro que o interesse principal das empresas de biotecnologia não é a saúde humana nem o progresso da medicina, mas o lucro. Um dos meios mais eficazes de que elas dispõem para garantir que o valor de suas ações continue alto, mesmo à revelia de quaisquer benefícios, médicos significativos, é a perpetuação, perante os olhos do público, da ideia de que os genes determinam o comportamento." 

*Fritjof Capra in "As conexões ocultas". Ed. Pensamento-Cultrix. SP. 2002

terça-feira, 26 de janeiro de 2016

Apontamentos de lógica superlativa*




Existe um mundo exageradamente singular. O lugar constitui-se de eventos descritos por um vocabulário de exuberâncias. Uma estrutura onde tudo se agiganta diante das expressões de êxtase. Sua sobrevida se alimenta de anúncios dos eventos realçados. Um teor fantástico expressa rumores de imensidão. Seu ser extraordinário transborda numa perspectiva exaltada. 

Nas entrelinhas do discurso bem ajustado essa lógica dos excessos busca emancipar-se. Um devir assim aprecia o refúgio numa dialética dos sobressaltos. Ao sujeito constituído nalguma forma de esteticidade, não é raro o olhar da tradição prescrever-lhe alguma tipologia, enquadrando-o como desajustado.  

Ao surgir numa intensidade máxima contrapõe-se a rotina mediana. Seu dizer superlativo emancipa o cotidiano para engendrar sonhos, arremessar possibilidades. Os relatos dessa linguagem sugere um brilho incomparável ao seu autor. Desdobrando-se para além dos territórios conhecidos, modifica recriando o lugar_espaço_tempo ao seu redor.   

Uma fonte inesgotável de paixões renova armadilhas existenciais. Assim, caminhar pelas calçadas é sempre mais que caminhar pelas calçadas. Tomar um banho, ler um livro, conversar com amigos ou sorver um café significa um excesso necessário. Sua melhor contradição é a noção de equilíbrio.  
   
A fartura de seu vocabulário denuncia uma subjetividade exaltada. Avista e emancipa horizontes maravilhosos, atreve-se a vislumbrar o que ninguém via antes de si. Ao que se tinha como dado e cristalizado, sua distorção oferece uma visão diferenciada. Seu caráter religioso e profano convive e se abastece das sagradas heresias. Talvez por isso sua existência seja tão ameaçadora! Ao rascunhar esses pressentimentos atua na desconstrução das paredes, insinua ampliar fronteiras.  

Um ser incomparável se associa a abundância dos eventos exóticos. Abalar menos vida com mais vida é seu papel existencial preferido. Um transbordamento discursivo compartilha-se pelas janelas escancaradas de si mesmo. Ao sustentar utopias desconsideradas sua natureza se expressa em lógica superlativa.  

*Hélio Strassburger

segunda-feira, 25 de janeiro de 2016

Fragmentos filosóficos, delirantes*



"Quando a vida se torna invivível, deve-se inventar uma vida nova."

"Cada reorganização produz, implicitamente, versões diferentes da história de um indivíduo."

"No decorrer da existência, cada indivíduo experimenta então, diferentes versões de si mesmo, que incluem trechos não traduzidos na linguagem das camadas seguintes."

"O sujeito delirante acha-se, assim, no centro de um embate entre lógicas que, em diferentes períodos, estruturaram, separadamente, a experiência atingível e agora não conseguem explicar a con-fusão dos respectivos conteúdos. (...) Sua mente torna-se, então, a matriz de novas traduções impróprias, absurdas e bizarras, mas adequadas ao novo mundo em que ele se encapsula." 

"O delírio dilacera o cenário opaco do mundo da vida, dado por todos como pressuposto, e o coloca em discussão abertamente. Onde nada é óbvio, tudo deixa de ser familiar, tudo é submetido a um exame cuidadoso e a uma revisão radical."

"O sujeito delirante é incoerente e absurdo somente em relação ao mundo compartilhado, porque é muito coerente e razoável na ótica do mundo 'substituto'.

"(...) mais do que um defeito ou uma ausência, encontra-se no delírio uma plenitude excessiva, um transbordamento."

"Esta verdade, no entanto, é tão importante do ponto de vista subjetivo que não pode ser apagada, de forma que a camuflagem é seu único salvo-conduto."

"Justamente por ser a verdade, com certa frequência, inverossímil, os poetas e todos que, com audácia, recorrem ao auxílio da imaginação estão, às vezes, em condição de colhê-la antes e melhor do que os cientistas, sempre vinculados a imperativos de cautela, observantes de procedimentos e saberes que exigem o reconhecimento oficial e, às vezes, preocupados em não arriscar seu nome respeitado."

"A diferença mais significativa entre lógica comum e delírio parece residir no fato de que a primeira coloca limites à 'razão', ao passo que o segundo é relapso ou ab-solutus, totalmente livre de qualquer vínculo, desenfreado, excessivo, transbordante."   

"O delírio é tão perturbador e temido precisamente porque ameaça e coloca escandalosamente, em dicussão o mundo de cada um, com sua presumida obviedade."

*Remo Bodei in "As lógicas do delírio" EDUSC - Editora da Universidade do Sagrado Coração.SP. 2003

domingo, 24 de janeiro de 2016

Mônica Aiub desfilia-se da ANFIC*


       Esclarecimentos sobre minha desfiliação da ANFIC:

     Iniciei meus estudos em filosofia clínica em 1997, desde então tenho dedicado grande parte de meu trabalho, incluindo as pesquisas, a esta área. Além das pesquisas, do trabalho em consultório, da responsabilidade pela formação dos filósofos clínicos em São Paulo, atuei na formação da Associação Nacional de Filósofos Clínicos – ANFIC, fundada em 2008. Fui sócia fundadora e presidente desta associação de 2008 a 2010 e de 2012 até dia 16 de janeiro de 2016, quando, durante a Assembleia Extraordinária convocada por mim para a reforma estatutária, renunciei ao cargo de presidente. Findada a assembleia, desfiliei-me da ANFIC.

     Minha decisão foi provocada, principalmente, pelo distanciamento que observo entre as práticas da filosofia clínica e sua base, a filosofia. Desde o início tenho defendido que a filosofia clínica é filosofia, e com isso quero dizer que não podemos nos distanciar da pesquisa filosófica, da metodologia filosófica, do pensar filosoficamente. Vejo tal distanciamento ocorrendo cada vez mais, tanto no que se refere à construção conceitual, como na prática de alguns filósofos clínicos e especialistas em filosofia clínica.

    O processo como se deu a reforma estatutária, considerando principalmente as discussões e posicionamentos, evidenciou interesses mercadológicos que sobrepujam a filosofia, e ausência de reflexão filosófica por significativa parte dos filósofos clínicos e especialistas em filosofia clínica. Isto faz com que eu não consiga mais me considerar representante da categoria, nem me sentir representada por ela.

      Diante do observado neste processo, especialmente nos dois últimos anos; diante de minhas fortes discordâncias - destacadas e evidenciadas publicamente desde então - acerca dos caminhos teóricos desenvolvidos de 2008 para cá, entendendo-se, mais especificamente, a denominada "Matemática Simbólica", as "Autogenias Horizontais, Verticais e Transversais" e as "Sinonímias", considero ser o momento de desvincular-me da ANFIC e prosseguir no caminho filosófico.

     Informo que continuarei com todas as atividades no Instituto Interseção, conduzindo os trabalhos, como sempre, e agora ainda mais, a partir da pesquisa e da reflexão filosóficas.

     Disponibilizo-me para esclarecer quaisquer dúvidas relativas a este tema.

*Prof. Dra. Monica Aiub
www.institutointersecao.com.br
institutointersecao@institutointersecao.com.br
São Paulo/SP

sábado, 23 de janeiro de 2016

*Floresceres


...e assim a flor abre
a cada amanhecer
trazendo sonhos
para colher fazeres
e as possibilidades
infinitas

...e assim a vida floresce
se torna poema
para quem tece amores
e coze obstáculos

... e assim Deus se distribui
em milhões de orvalhos
no fazer brilhar o Cris/Tao
em nossos corações

...e assim vamos
vivendo dia após dia
em Graça
apesar de todos apesares
a observar estes floresceres.

... e assim vale dizer:
Bom dia!
na eterna esperança
de ver a vida brotar
em paz a dissolver a guerra

*Rosângela Rossi
Psicoterapeuta. Filósofa Clínica. Escritora.
Juiz de Fora/MG

sexta-feira, 22 de janeiro de 2016

Fragmentos filosóficos, delirantes*


"Nossos pensamentos correm sobre a fronteira aberta para confraternizar com povos de outros costumes e outra língua. A fascinação nos confronta diuturnamente com o diverso. Etnias de diferentes origens nos levam a saborear diferenças dentro das nossas fronteiras."

"Louvável nesta visão panorâmica da literatura brasileira é o esforço de compreendê-la na sua diversidade sem as deformações provocadas quando submetida à ótica dos centros hegemônicos."

"(...) Viaja-se pelo puro prazer de viajar. Coisas acontecem ao sabor do deslocamento. Homens se renovam. Tudo se renova. O viajante não é mero espectador. Tocado pelo lugar, ele se transforma. Fronteiras se movem ao infinito. Odisseu, o navegante homérico, se desloca conduzido pelo desejo de conhecer o espírito dos homens, o espaço contribui para formar os espíritos inventados (...)."

"Fantasmagórico é o universo verbal. Faça-se a afirmação que se fizer, ela será sempre traidora, prostituída, por mais fiel que pretenda ser."

"O fora da lei é ameaça aos que vivem na lei."

"Minha pátria é a língua portuguesa, diz Fernando Pessoa. Observe-se, entretanto, que o escritor, ao transgredir fronteiras, provoca o estranhamento, opera como estrangeiro. Vive dentro e fora da língua."

"Quem habita a língua portuguesa, move-se num organismo em transformação. A transgressão, o estranhamento, o exílio, a vertigem é a vida da língua portuguesa. Quem a elegeu como pátria, vive perplexo."

"O significado espanta porque vagueia na fronteira do dizível e do indizível. Não há como recusar a palavra vivida. Instalada no limite da norma e da transgressão, ela foge da definição."

"Ora, o que se observa na loucura é que os signos, livres da objetividade, dão voz a verdades que não estão inscritas nos objetos."

*Donaldo Schuler in "Fronteiras e confrontos". Ed. Movimento. Porto Alegre/RS. 2009

quinta-feira, 21 de janeiro de 2016

Há tempos que não olho mais para trás...*


Há tempos que não olho mais para trás, não por querer fugir ou não querer enxergar o que foi vivido, mas por ter consciência que o amanhã não existe mais. Hoje sou assim, serena, confiante, amante da vida com todas as suas imperfeições. Talvez essa seja realmente a beleza da maturidade. Viver o hoje! O agora!

Entretanto, se for preciso curar alguma ferida ou reavaliar uma atitude que me inquieta, abro uma licença poética para fitar o passado. Só nesse caso. Não sou muito saudosista, nem gosto de ficar remoendo o que passou, gosto de abrir o peito para o novo, o por vir... Tenho a esperança como um leme para meu viver, aliás o que seria dessa mulher que vos fala se não fosse a esperança?

Sinto o cheiro da noite fresca da minha cidade natal, o silêncio de poucos carros que passam pela rua lá fora, o barulho dos meus pensamentos, a maciez do meu anoitecer. Ah!!! Como gosto da noite.
Secreta. Sincera. Amiga de sempre, companheira no momento de solidão. Como é bom viver e criar durante a noite.

A noite é misteriosa e sempre guarda um amanhã cheio de surpresas, agradáveis ou nem tão agradáveis. Qual será o próximo desafio que o dia apresentará?
Esse enigma me encanta.

Sinto vontade de chorar, não de tristeza, e sim de gratidão por estar tão lúcida diante de meus sentimentos e sensações. Vejo as pessoas ao redor em constante discussão, numa tentativa voraz de tentar encontrar alguma solução. Como somos crianças no campo da evolução!!!

A busca é minha paixão dominante, assim como de inúmeras outras pessoas com singularidades de intersecção positiva com a minha. Cerco-me de confidentes amigos-irmãos, amores sinceros e singelos, pessoas que me dirão verdades ou mentiras sinceras para não ferir meu coração. Construo um mundo particular paralelo ao mundo crise, violência e injustiças mil. Talvez seja julgada por alienada, contudo, não me importo mais, quero paz. Talvez os que me julgam assim, não consigam enxergar a vida como um todo, um uno.

Acredito na vibração da não-violência, no calar na hora certa, na intuição da minha alma. Eu também quero um mundo melhor, com direitos e deveres iguais, entretanto eu já entendi que para contribuir com essa mudança preciso mudar o que não serve mais no meu mundo particular. Se eu cuidar de mim e de minhas virtudes, regando, refletindo a cada dia no que posso fazer para me aperfeiçoar, estarei fazendo tudo o que me cabe e contagiando com minhas atitudes os corredores por onde passar. Prefiro atos verdadeiros, ainda que desalinhados, buscando amadurecer.

Trabalhar os sentimentos se tornou minha mais linda obsessão!!! Gosto de perceber o quão humana sou e estou, na caminhada dessa existência sem destino traçado. O livre arbítrio nos obriga a escolher nossos caminhos o tempo todo. Sartre não estava enganado!!! Isso me deixa leve, saber que sou autora da minha história e de minhas escolhas. Aprendo muito, principalmente com as escolhas desmedidas e inconsequentes, já me aceito mais. Essa minha condição, igual a de todos os seres racionais, errantes e caminhantes me seduz mais e mais... E, eu aprendo... Quebrando a cabeça, por vezes o coração, tropeçando no escuro, como qualquer irmão.

Erguida aqui estou para continuar com minhas inúmeras provocações e inquietudes que quase não cabem em mim. Transbordo-me em palavras, na dança, nas minhas aulas, nas minhas relações, nas gargalhadas e nas lágrimas teimosas. E, assim, vou descobrindo um pouco mais dessa, insana doce vida, que se apresenta para essa mulher que amadurece a cada dia mais... e... mais.

*Vanessa Ribeiro
Filósofa. Atriz. Dançarina. Filósofa Clínica
Petrópolis/RJ

quarta-feira, 20 de janeiro de 2016

Fragmentos filosóficos, delirantes*



"Era eu um poeta estimulado pela filosofia e não um filósofo com faculdades poéticas. Gostava de admirar a beleza das coisas, descobrir no imperceptível, através do diminuto, a alma poética do universo."

"Sinto-me múltiplo. Sou como um quarto com inúmeros espelhos fantásticos que torcem para reflexões falsas uma única anterior realidade que não está em nenhuma e está em todas."

"Desde criança tive a tendência para criar em meu torno um mundo fictício, de me cercar de amigos e conhecidos que nunca existiram. (Não sei, bem entendido, se realmente não existiram, ou se sou eu que não existo. Nestas coisas, como em todas, não devemos ser dogmáticos.)"

"Toda a coisa que vemos, devemos vê-la sempre pela primeira vez, porque realmente é a primeira vez que a vemos. E então cada flor amarela é uma nova flor amarela, ainda que seja o que se chama a mesma de ontem. A gente não é já o mesmo nem a flor a mesma."

"(...) Seus poemas são o que houve nele de vida."

"Não é à crítica que me quero referir, porque ninguém pode esperar ser compreendido antes que os outros aprendam a língua em que fala."

"(...) porque não é a teoria que faz o artista, mas o ter nascido artista."

"Toda arte é uma forma de literatura, porque toda a arte é dizer qualquer coisa. Há duas formas de dizer - falar e estar calado. As artes que não são a literatura são as projeções de um silêncio expressivo. Há que procurar em toda a arte que não é a literatura a frase silenciosa que ela contém, ou o poema, ou o romance, ou o drama."

*Fernando Pessoas in "Alguma prosa". Ed. Nova Fronteira. RJ. 1990. 

terça-feira, 19 de janeiro de 2016

A Lei da Verdade – Pincel Sobre Um Caso*


Cansados, desgastados e ávidos por verdades que eles nem sabem onde encontrar.

Interessante essa habilidade do homem em acreditar na sua majestade diante de tão pouca certeza sobre ele mesmo.

Me lembrei do pavão.

Meu Deus, aquela cauda, aquelas penas reluzentes que de repente em um mínimo acidente, podem não existir mais. Que tristeza, o pavão destronado indo buscar alento no colo de sua pobre, sem cauda reluzente e boa galinácea. É sempre assim.

Eles chegam ou voltam depenados, e tão logo se aprumam se esquecem das mãos que repuseram suas plumas no lugar.

E a “simples e boa mulher”, crente no amor e esperançosa por uma vida plena em companheirismo, sincronismo, prazer, respeito e tudo o que deve cercar uma convivência conjugal bacana, ainda faz com que este homem se sinta único. A maioria das mulheres age assim e isso não é bom! Isso não é verdadeiro e não pode dar em boa coisa. É uma troca interesseira disfarçada de amor.

Ao identificar que seu investimento em tempo, elogios falaciosos, construções de sonhos pueris não darão os frutos desejados, ou seja, que ela se uniu a um homem comum e passível de erros que comprometem seus planos ou frustram seus desejos e caprichos, a mulher se dedica a cobrar a peso de ouro o que parecia ter acontecido por amor.

O homem que acreditou ter encontrado uma santa, capaz de suportar todos os seus defeitos em troca apenas do fato de ele ser homem – condição ridiculamente suficiente hoje em dia – ao se ver contestado, reage e traz a tona um caráter que justifica o ponto de partida da relação.

Cansados, desgastados e ávidos por verdades que eles nem sabem onde encontrar se digladiam dia a dia no afã agora de se livrarem um do outro. Clássico e patético.

Aquele rei que ela acreditou reconstruir, por covardia, pouca retidão ou gratidão a destitui do posto de rainha santa deusa, onde mentiras mantidas por necessidade, caridade ou vaidade não mais se sustentam.

E ocorre que na maioria das vezes, a mulher destrói sobremaneira a autoestima do homem, daquele pavão a quem ela ajudou arrumar a plumagem, mentindo e, em um golpe derradeiro, revela a ele uma grande verdade, aquela que ela nunca disse “por amor” a um conjunto, mas que em face de todo desamor que nela brotou por vingança, mágoa contida, dor rebatida diz a ele o que ele jamais poderia ouvir.

_ Você não é de nada!

É o fim da confusão, da relação, do que nunca foi amor.

*Jussara Hadadd
Terapeuta Sexual. Filósofa Clínica
Juiz de Fora/MG

segunda-feira, 18 de janeiro de 2016

Fragmentos filosóficos, delirantes*



"A alquimia também entrega-se frequentemente a essa simples perspectiva dialética do interior e do exterior. Ela se propõe muitas vezes a 'revirar' as substâncias, como se revira uma luva. Se sabes pôr para fora o que está dentro e para dentro o que está fora, diz um alquimista, é um mestre da obra."

"E é aqui que se pode captar a diferença entre as dialéticas da razão que justapõe as contradições para abranger todo o campo do possível e as dialéticas da imaginação que quer apreender todo o real e encontra mais realidade naquilo que se oculta do que naquilo que se mostra."

"A cor negra, diz também Michel Leiris, 'longe de ser a do vazio e do nada, é antes a tinta ativa que faz sobressair a substância profunda e, consequentemente, escura de todas as coisas. (...) O negro alimenta toda cor profunda, é a morada íntima das cores. Assim o sonham os obstinados sonhadores."

"Temos aqui um bom exemplo da necessidade que tinham os alquimistas de multiplicar as metáforas. A realidade, para eles, é uma aparência enganadora."

"(...) quando a imaginação põe em nós a mais atenta das sensibilidades, nos damos conta de que as qualidades representam para nós mais devires do que estados."

"Quando o sonho se apodera assim de nós, temos a impressão de habitar uma imagem."

"(...) a relação entre anima e animus é uma dialética de envolvimento, e não uma dialética de divisão. É neste sentido que o inconsciente, em suas formas mais primitivas, é hermafrodita."

"Nós somos seres profundos. Ocultamo-nos sob superfícies, sob aparências, sob máscaras, mas não somos ocultos apenas para os outros, somos ocultos para nós mesmos. E a profundidade é em nós, no dizer de Jean Wahl, uma transcendência."

"(...) A raiz domina o obstáculo contornando-o. Ela insinua suas verdades; estabiliza o ser por sua multiplicidade."

"No mundo mineral opera o mercúrio, princípio de toda liquidez, princípio que confere à água, sempre um tanto pesada, alguma sutileza. O mercúrio dos filósofos é uma água sábia que dissolve aquilo que a água das fontes não consegue corroer. A vida animal tem também seu líquido nobre: é o sangue, elemento da própria vida, princípio de sua força e de sua duração, lei de uma raça."

"(...) O vinho é realmente um universal que sabe tornar-se singular, quando encontra um filósofo que saiba bebê-lo."

*Gaston Bachelard in "A terra e os devaneios do repouso" Ed. Martins Fontes. SP. 2003

domingo, 17 de janeiro de 2016

Poema sobre o que sei*



"Continuo impetuosamente absorto
Calado estou a me torturar
Nada para meu ser é absoluto
Ponho-me sempre a fragmentar
Confundo-me! Estou ou devo ficar ?
Minha alma possui um vazio
Cheio demais para tentar
Sou itinerante e meu amor é idílio
O que intensamente sei é amar!

*Dionéia Gaiardo
Administradora de Empresas. Poeta. Estudante na Casa da Filosofia Clínica.
Porto Alegre/RS

sábado, 16 de janeiro de 2016

Fragmentos filosóficos, científicos, delirantes*



"(...) Sou uma microcirurgiã da mente. Médica, psiquiatra e psicanalista por formação, uso palavras e símbolos para explorar e modificar o panorama neural das mentes e cérebros de meus pacientes, da mesma maneira como o cirurgião maneja o bisturi para expor e extirpar estruturas comprometidas do corpo." 

"(...) a chamada "cura pela palavra", originalmente criada por Freud, altera literalmente a conexão dos neurônios cerebrais entre si."

"Trabalhando com Alice em psicoterapia, tenho de visualizar o mapa em ziguezague de sua mente e explorar sua 'ilha da Terra do Nunca' na sua companhia."

"Venho argumentando que a psicoterapia compreende a exploração e a transformação das conexões existentes entre os neurônios interligados do córtex superior que compõem nossas mentes."

"(...) o cérebro humano, possui mecanismos biológicos que torna possível alterar as conexões entre os neurônios. Mostrarei por que acredito que a psicoterapia, literalmente, modifica a estrutura do cérebro e, assim fazendo, altera o modo de interligação dos sentimentos e ideias na mente."

"Não posso pressupor que minhas ideias sejam prova definitiva de algo sobre Ted, embora muitos terapeutas caiam nessa armadilha; minhas associações são minhas próprias pistas pessoais, guardando talvez uma relação tanto com minhas experiências e personalidade quanto com as de Ted. Somente as associações dele constituem dados legítimos que podem me ajudar a definir o que contêm suas redes."

"É surpreendente como, quando meus pacientes e eu estamos em sintonia, nossas redes neurais parecem fazer contato num nível que não posso descrever com palavras."

"O fato de que formamos protótipos do modo como nos relacionamos traz uma série de implicações práticas."

"A psicoterapia bem-sucedida estimula a capacidade de auto-análise, reinvestimento direto que lhe permite concluir a terapia e mesmo assim continuar a progredir, a aplicar o auto-entendimento adquirido através do trabalho com seu terapeuta em novas situações de vida que forem surgindo."

"São muitos os padrões de funcionamento individual, o que me permite desenvolver-me como terapeuta, ampliando a experiência e a prática."

*Susan C. Vaughan in "A cura pela fala - a ciência por trás da psicoterapia" Ed. Objetiva. RJ. 1998

sexta-feira, 15 de janeiro de 2016

Pobre rica menina*


Seu andar lento traía uma nostálgica tristeza.
-É coisa minha.... - sempre dizia.

Sabia, melhor do que ninguém, dos riscos da vida. Dos perigos do amor. Escolhia, contudo, amar e confiar. Entre a dúvida e a certeza, não vacilava. Mergulhava inteira e oferecia a cara e a alma.

Havia traçado o seu destino. O que tiver que ser será. Estava escrito, e o que não estava escrevia. Mergulhava de cabeça em águas muito rasas. Ah, machucara-se tantas vezes.

Quem não a conhecia comentava: pobre menina, insiste em se machucar. Ninguém entendia direito o porquê.

Sempre que perguntada, ela respondia:
-É coisa minha....

Sim, era coisa dela. Não desistia de acreditar no amor e nas pessoas. Vida arriscada a sua. Levava junto com ela as marcas dos amores.

Onde chegava, amava
Onde ficava, sonhava
Onde passava, alegrava
Onde caía, florescia

Por vezes, quando caía
Voava para mais longe
E onde pousava, florescia de novo....

*José Mayer
Filósofo. Livreiro. Poeta. Estudante na Casa da Filosofia Clínica
Porto Alegre/RS

quinta-feira, 14 de janeiro de 2016

Fragmentos filosóficos, delirantes*


"Operação capaz de mudar o mundo, a atividade poética é revolucionária por natureza; exercício espiritual, é um método de libertação interior."

"Há máquinas de rimar, mas não de poetizar. Por outro lado, há poesia sem poemas; paisagens, pessoas e fatos muitas vezes são poéticos: são poesia sem ser poemas."

"Cada poema é um objeto único, criado por uma "técnica" que morre no momento exato da criação. A chamada "técnica poética" não é transmissível porque não é composta de receitas, e sim de invenções que só servem a seu criador."

"Ser um grande pintor significa ser um grande poeta: alguém que transcende os limites da sua linguagem."

"A leitura do poema tem grande semelhança com a criação poética. O poeta cria imagens, poemas; e o poema faz do leitor imagem, poesia."

"(...) as palavras são rebeldes à definição."

"Cada palavra ou grupo de palavras é uma metáfora. E desse modo é um instrumento mágico, ou seja, algo suscetível de tornar-se outra coisa e de transmutar aquilo em que toca (...)" 

"Sim, a linguagem é poesia e cada palavra esconde certa carga metafórica disposta a explodir no momento em que se toque na mola secreta, mas a força criadora da palavra reside no homem que a pronuncia."

"O poeta o cria (o poema); o povo, ao recitá-lo, recria. Poeta e leitor são dois momentos de uma mesma realidade. Alternando-se de uma forma que não é incorreto chamar de cíclica, sua rotação engendra a faísca: a poesia."

"(...) magos e poetas, ao contrário de filósofos, técnicos e sábios, extraem seus poderes de si mesmos."

"A poesia nos abre a possibilidade de ser que decorre de todo nascer; recria o homem e o faz assumir sua verdadeira condição, que não é a alternativa vida ou morte, mas uma totalidade: vida e morte num único instante de incandescência."

*Octavio Paz in "O arco e a lira" Ed. Cosac Naify. SP. 2012.  

quarta-feira, 13 de janeiro de 2016

O Olhar de Celan*


“por onde ela quer descer, a estrela:
para embaixo nadar, embaixo,
onde se vê cintilar...”
Paul Celan

Devir é transformar o Ser no que é,
Ser é além do vir a ser,
Nadar é olhar o rio,
Celan em poética do sentir.

Ver é o Ser que atira na vida, água,
A expressão da contradição que molha,
O manto, o corpo se move, sentido,
A projeção da linguagem no absoluto, a morte.

Devir é o velejar, o pensar no lago,
O Nada é o descontínuo cruzar da diferença,
O corpo é mais rápido que o olhar,
Atravessa a margem, é o descobrir o lado seguro.

A lógica da vida é o sentir, descreve o conceito,
É o que está na essência,
É o que trata do Ser, a expressão do
“ondear das palavras errantes”, a diferença. 

É tudo mais prazeroso, o que se lê com calma, a alma do absoluto desejo do leitor, o prazer de ler é quase Deus, retorna à compreensão ao texto, tudo faz sentido. Ao interpretar o texto, ao ler o poema, esse é o momento mais apropriado para se orgulhar do esforço, o corpo agradece, o todo está presente. Os olhos podem cansar, mas a leveza das pedras na leitura dá sentido ao sentir o melhor das coisas.

Paul Celan, para o escritor Paul Auster é “o melhor poeta do pós-guerra em qualquer idioma”, me uno ao Auster no que diz o melhor dos poetas. Leio e releio Celan com o renovado olhar que se inicia a cada ano que surge em minha vida.

*Prof. Dr. Luis Antônio Paim Gomes
Filósofo. Professor. Editor. Livre Pensador.
Porto Alegre/RS

terça-feira, 12 de janeiro de 2016

Fragmentos filosóficos, delirantes*


"O animal humano precisa dizer-se. Mas é próprio dos 'discursos' (mitos, representações, histórias) serem impermanentes, saturarem-se."

"São cada vez mais numerosos os que nada têm a dizer e o dizem em voz alta."

"A intranquilidade do ser não tem o que fazer, de fato, com promessas moles e hipócritas. Agrada-lhe muito mais a inquietante inquietação que é toda vida. O enigma, mais que a solução."

"Quando se institucionaliza, a ciência torna-se dogmática e precisa ser sacudida para recuperar o dinamismo original e de origem."

"Já não se trata de ser um adulto sério e tensionado para a perfeição de um "estado" estável, mas, pelo contrário, uma eterna criança, sempre em devir e ávida pelo que se apresenta."

"(...) as apresentações vitalistas se empenham em descrever os frêmitos, as efervescências, o fervilhar de uma cultura em perpétua gestação."

"Donde a necessidade de cultivar a lucidez, e de uma ponta de ceticismo em relação a tudo que se pretende eterno."

"Devo frisar que, desde sempre, o ato de pensamento esteve voltado para os que se fazem perguntas, e não para os que já têm as respostas."

"O sentido para a pessoa é fornecido pela pluralidade das máscaras que a constituem, e pelo contexto no qual suas diversas máscaras poderão expressar-se."

"As máscaras pós-modernas estão sob influência. Influência de coisas, de problemas ancestrais. Traduzem a força impessoal que, de forma subterrânea, vem de muito longe, e às vezes se exprime à luz do dia."

"Nascer com o mundo sem passar pelas palavras, eis efetivamente o que parece estar em jogo em todas as práticas tribais e em seus excessos."

*Michel Maffesoli in "O ritmo da vida - variações sobre o imaginário pós-moderno". Ed. Record. RJ. 2007. 

segunda-feira, 11 de janeiro de 2016

As gavetas e os poemas*


Guardei
nas gavetas de mim
poemas.
Dali me salvo
de angustias
e anseios.
Fecho-me
por vezes, me abro
desfaço-me.
Pinto e bordo.
Nem sempre
há um por que
nem para que
transcendo
e me basta!

*Dra. Rosângela Rossi
Psicoterapeuta. Filósofa Clínica. Escritora.
Juiz de Fora/MG

domingo, 10 de janeiro de 2016

Fragmentos filosóficos, poéticos, delirantes*


"Como em Tchekhov ou na fase inicial de Joyce, o desejo é deixar os acontecimentos falarem por si mesmos, escolher o detalhe exato que tudo dirá e, desse modo, permitir que o máximo possível permaneça não dito. Essa espécie de contenção requer paradoxalmente uma abertura de espírito de que apenas poucos estão dotados: uma capacidade de aceitar o dado, de permanecer uma testemunha da conduta humana e não sucumbir à tentação de se tornar juiz."

"(...) O indizível gera uma poesia que ameaça continuamente ultrapassar os limites do dizível (...)"

"Ashbery escreve como um forasteiro, como alguém destituído da possibilidade de uma interação tolerável com o mundo e, por mais dissimulado ou humorístico que se torne, o sentimento essencial em seus poemas é de saudade."

"Grande parte da melhor poesia atualmente escrita é publicada por pequenas editoras e apreciadas por não mais que algumas centenas de leitores."

"(...) Acho que a única explicação para isso é que quando você começa a escrever um poema ele já foi escrito dentro de você, ainda que você não tenha consciência disso."

"Quando digo que existem muitos livros no livro, é porque há muitas palavras na palavra."

"(...) Trata-se de um artista que pinta da mesma forma que respira. Ele jamais se limitou a criar objetos bonitos, mas procurou, no ato de pintar, tornar a vida possível para si."

"O equilibrismo na corda bamba não pode ser realmente ensinado: é algo que se aprende sozinho. E certamente um livro será o último lugar a que se recorrerá caso se queira realmente aprendê-lo. (...) a corda bamba é uma arte da solidão, uma forma de enfrentar a própria vida no recôndito mais escuro, mais secreto do Eu."

*Paul Auster in "A arte da fome". José Olympio Editora. RJ. 1996

sábado, 9 de janeiro de 2016

Vanitas e o lembrar de viver*


Geralmente, quando olhamos a imagem de uma caveira, associamos a morte. Parece que ali está a imagem da escuridão, do abismo, do sem volta, da tristeza, do sofrimento... Mas isso se deve a que? Isso me faz lembrar os quadros “Vanitas”, obras que traziam em sua configuração sempre a imagem de uma caveira, para nos lembrar de que um dia vamos morrer. 
A chamada expressão natureza-morta demonstra motivos da vaidade deste mundo. Sabemos, ou melhor, deveríamos saber que nem tudo é para sempre, muito menos a vida. Mas para isso precisamos falar sobre ela, a morte, discutir, comentar, lembrar que ela, mesmo não aparecendo em imagem, está presente, esperando o momento certo para dar o “bote” e concretizar seu objetivo que é a finitude. 
Para isso, precisamos deixar nossas vaidades de lado, deixar de se importar com o corpo, corpo esse que vai ficar, vai virar pó. Deveríamos lembrar, que o mais importante são nossas atitudes e momentos que vivenciamos, e não a parte concreta, que em nossa sociedade atual é dado um indevido valor. Narciso olha seu reflexo no lago e se apaixona por ele mesmo, admirando sua própria imagem, acaba morrendo demonstrando o imenso valor que dava a si próprio. Os Vanitas nos lembram de que em vida devo me preparar para morte, preparar ela no meu eu, pois um dia vou sentir.
A lembrança da morte me faz recordar um passeio que fiz, em um grande cemitério de Porto Alegre, onde um historiador nos conta a memória do cemitério, curiosidades, fatos históricos e a principal ideia da visita, o respeito pela morte, principalmente respeitando a memória dos que já se foram. Uma bela frase que me chamou muito a atenção, e que está escrita em muitos mausoléus é: “Nós, ossos que aqui estamos, pelos nossos esperamos”, esta frase mostra que a vida é breve e deve ser utilizada com sabedoria.
        Hoje com as redes sócias (estou falando diretamente daquela rede social), onde todos nós colocamos fotos de acontecimentos, de conquistas, de lugares, de comidas, de bebidas, de tragédias, de catástrofes, etc. Tudo para mostrar um acontecimento e se possível que o “eu” faça parte desse acontecimento, um meio que se mostra ou a desgraça dos outros ou o lado sempre positivo de nossas “vidas”, perfeitas, que não aparecem às dificuldades, as desavenças, as fraquezas, as tristezas reais, onde geralmente sempre espera uma atenção desmerecida. 
             Nos dias de hoje, deixamos de lado o principal, a essência do homem natural, o homem sem camadas de proteção ao real, vivenciando as frustrações e não mascarando a fraqueza de todos nós. Nisso, ela, a morte deve ser sempre lembrada como algo real e não surreal, esperando que um dia ela vá aparecer e não desaparecer.

*Marcelo Ávila Franco
Psicólogo. Especialista em Educação. Estudante na Casa da Filosofia Clínica.
Porto Alegre/RS

sexta-feira, 8 de janeiro de 2016

Fragmentos filosóficos, delirantes*


"A Loucura também tem seus jogos acadêmicos: ela é objeto de discursos, ela mesma sustenta discursos sobre si mesma; é denunciada, ela se defende, reivindica para si mesma o estar mais próxima da felicidade e da verdade que a razão, de estar mais próxima da razão que a própria razão."

"(...) a loucura fascina porque é um saber. É saber, de início, porque todas essas figuras absurdas são, na realidade, elementos de um saber difícil, fechado, esotérico."

"A loucura só existe em cada homem, porque é o homem que a constitui no apego que ele demonstra por si mesmo e através das ilusões com que se alimenta."

"A loucura torna-se uma forma relativa à razão ou, melhor, loucura e razão entram numa relação eternamente reversível que faz com que toda loucura tenha sua razão que a julga e controla, e toda razão sua loucura na qual ela encontra sua verdade irrisória. Cada uma é a medida da outra, e nesse movimento de referência recíproca elas se recusam, mas uma fundamenta a outra."

"Se a loucura vem sancionar o esforço da razão, é porque ela já fazia parte desse esforço: a vivacidade das imagens, a violência da paixão, este grande recolhimento do espírito para dentro de si mesmo, que s~]ao todos traços da loucura e os instrumentos mais perigosos, porque os mais aguçados, da razão. Não há razão forte que não tenha de arriscar-se à loucura a fim de chegar ao término de sua obra."

"Antes de ter o sentido médico que lhe atribuímos, ou que pelo menos gostamos de supor que tem, o internamento foi exigido por razões bem diversas da preocupação com a cura."

"Todos os acometidos pela doença venérea somente serão recebidos sob a condição de se sujeitarem à correção, antes de mais nada, e chicoteados, o que será certificado com a nota de envio. (Deliberação do Hospital Geral em 1679).

"A loucura de um ato se mede pelo número de razões que o determinam."

"A liberdade do louco, essa liberdade que Pinel, com Tuke, pensava ter dado ao louco, já pertencia há muito tempo ao domínio de sua existência. Sem dúvida ela não era nem dada nem oferecida em nenhum gesto positivo. Mas circulava surdamente ao redor das práticas e dos conceitos - verdade entrevista, exigência indecisa nos confins do que era dito, pensado e feito a respeito do louco, presença obstinada que nunca se deixava apreender."

"A loucura de Nietzsche, a loucura de Van Gogh ou a de Artaud pertencem a sua obra, nem mais nem menos profundamente talvez, mas num mundo bem diferente."

*Michel Foucault in "História da loucura". Ed. Perspectiva. SP. 2000

quinta-feira, 7 de janeiro de 2016

Levando os Olhos para passear*


Querido leitor, paz! É sábado de manhã... Levanto cedinho e levo meus olhos para passear.

Na calçada ao lodo, os bougainville estão floridos embelezando o céu e criam um tapete para meus pés, que tem como testemunhas meus dois olhos.

Bem à minha direita, ao alcance e deleite dos olhos, um bem-te-vi me avista e avisa todo o bando que, em coro, cantam: “bem-te-vi”.

Vejo, agora, o joão de barro que cisca o chão em busca do material perfeito para a construção da nova casa. “Por que será que o João de Barro não entrou na casa vazia e resolveu fazer uma nova?”.

Continuo caminhando e sou testemunha ocular de que levei meus olhos para passear. O sentimento de inteireza toma conta de mim a ponto de sentir o cheiro de pão matinal que vem da padaria em frente. Além do pão, também sinto o indescritível cheiro de café que vem daquele lugar. Entro. Peço um expresso com leite, meu café preferido. Enquanto a atendente preparava o café, meus olhos fazem a festa, piscam de alegria com bolos, pães com sortidas cores pasteis.

Meus olhos correm tudo e paralisaram no pão de queijo, bem torradinho. Sento a mesa e saboreio o lanche como se saboreia a vida.

Saio daquele lugar e continuo o passeio pelas ruas próximas, ocasião em que meus olhos se deleitaram com rosas vermelhas, orquídeas e jasmim.

Nesse sensorial sábado de pães, café e flores, lembro-me de duas coisas que fazem muito sentido nesse momento. Uma, é a do pensamento de Alberto Caeiro, que diz que o mundo é para ser visto e não para pensarmos nele. A outra vem do Livro Sagrado que fala da poesia da criação onde Javé, depois de cada dia de trabalho, contemplava sua Criação e via que tudo era muito bonito. Meus olhos dizem amém a tudo isso hoje.

E você, já levou seus olhos para passear em 2016?

*Beto Colombo
Empresário. Escritor. Filósofo Clínico