domingo, 31 de julho de 2016

O viajante de amanhãs*


“O filósofo é uma das maneiras pela qual se manifesta a oficina da natureza – o filósofo e o artista falam dos segredos da atividade da natureza.”
                     Friedrich Nietzsche

O espírito aventureiro impróprio à cristalização do saber, se refaz nas escaramuças de um território movido a movimento. Seu viés de intimidade precursora se alimenta das ruas, estradas, subúrbios desmerecidos. É incomum ser facilmente compartilhável, esses eventos anteriores ao engessamento conceitual.

A irregularidade narrativa como propósito sem propósito, se reveste de uma quase poesia, para tentar dizer algo sobre os eventos irreconciliáveis com a ótica dos limites bem definidos. Essa lógica de singularidades flutuantes se aplica as coisas irreconhecíveis ao vocabulário sabido.

Seu desprezo pelas fronteiras, objetivadas pelos acordos e leis, é capaz de antecipar amanhãs no agora irrecusável. Num caráter de existência marginal entre o cotidiano e a miragem das lonjuras, parece querer se estruturar nas dialéticas do acaso.

Uma espécie de não-lugar se institui numa percepção visionária das coisas e eventos ao seu redor. Os refúgios existenciais descritos na provisoriedade dos apelidos buscam denunciar a multiplicação dos exílios, onde se possa apreciar o projeto pessoal em rotas de recomeço.

Num hoje destituído de ponto final, na quimera dessas errâncias de um talvez, é possível antever os inéditos amanhãs. Por essa indefinição característica dos anúncios, a subjetividade, incapaz de viver sempre igual, se desdobra pelos inéditos movimentos. Assim o instante desordenado, deixando de ser apenas uma coisa ou outra, realiza uma conversação com suas possibilidades.

Por essas expressividades ainda sem objetivação, surgem desconstruções, reconstruções, buscas. Conteúdos sem um chão discursivo legível para se dizer. Uma aptidão de mistura parece estabelecer interseção com as novas verdades, recém chegando de um lugar desconhecido na própria estrutura.

Assim uma correspondência se estabelece, onde a diversidade se anuncia como fonte de originalidades. Um aventureiro a contrariar insinuações de que a vida acontece num só lugar. Viajante precursor a se especializar em um saber itinerante.

Nesse cotidiano estranho que não cessa de chegar, se institui algo indefinível ou apressadamente enquadrado, pelos interesses em classificar seu viés de anúncio. Numa lógica assim disposta, a única garantia é não haver garantias.

Não é tão simples reconhecer a extraordinária matéria-prima nesse devir existencial. Muitas vezes se apresenta como ameaça por ser estranho. Sua erudição de aspecto nômade se apresenta em poéticas de contradição com o mundo conhecido. Para quem acreditava ter visto tudo, o vislumbre dessa perspectiva, por si só, já pode compartilhar autogenias.

É interessante notar seu renascimento como superação de suas cinzas. Uma espécie mesclada de Fênix, Hermes, Dioniso numa alma cuja característica é a percepção inquieta destes instantes diante de si. Seu instinto mutante se abastece das impermanências e redescobre, a partir desse território, os caminhos para descobrir amanhãs. 

A epistemologia desses percursos aprecia a crise e o caos como movimento precursor, acolhendo o espírito de alma nova que vai chegando. Suas estéticas de incompletude seguem nas entrelinhas da indefinição, talvez aí resida o medo e a insegurança do mundo normal, o qual teme perder territórios já conquistados. 

Uma evidencia dessa provisória integração pessoal, nesses percursos de redescoberta, é a concessão de uma linguagem própria. Para saber mais é impreciso sair da zona de conforto, realizando uma reciprocidade com os tópicos marginais da própria estrutura. Desenvolver uma fluência das variadas linguagens possíveis numa mesma pessoa.

*Hélio Strassburger   
Filósofo Clínico na Casa da Filosofia Clínica

sábado, 30 de julho de 2016

O Albatroz*


Às vezes, por prazer, os homens da equipagem
Pegam um albatroz, imensa ave dos mares,
Que acompanha, indolente parceiro de viagem,
O navio a singrar por glaucos patamares.

Tão logo o estendem sobre as tábuas do convés,
O monarca do azul, canhestro e envergonhado,
Deixa pender, qual par de remos junto aos pés,
As asas em que fulge um branco imaculado.

Antes tão belo, como é feio na desgraça
Esse viajante agora flácido e acanhado!
Um, com o cachimbo, lhe enche o bico de fumaça,
Outro, a coxear, imita o enfermo outrora alado!

O Poeta se compara ao príncipe da altura
Que enfrenta os vendavais e ri da seta no ar;
Exilado no chão, em meio à turba obscura,
As asas de gigante impedem-no de andar.

*Charles Baudelaire

sexta-feira, 29 de julho de 2016

Interlúdio*


As palavras estão muito ditas
e o mundo muito pensado.
Fico ao teu lado. 

Não me digas que há futuro
nem passado.
Deixa o presente — claro muro
sem coisas escritas. 

Deixa o presente. Não fales,
Não me expliques o presente,
pois é tudo demasiado. 

Em águas de eternamente,
o cometa dos meus males
afunda, desarvorado. 

Fico ao teu lado.

*Cecília Meireles

quinta-feira, 28 de julho de 2016

Poema Perdido de Fernando Pessoas***


Cada palavra dita é a voz de um morto.
Aniquilou-se quem se não velou 
Quem na voz, não em si, viveu absorto.
Se ser Homem é pouco, e grande só 
Em dar voz ao valor das nossas penas
E ao que de sonho e nosso fica em nós 
Do universo que por nós roçou
Se é maior ser um Deus, que diz apenas 
Com a vida o que o Homem com a voz:
Maior ainda é ser como o Destino 
Que tem o silêncio por seu hino
E cuja face nunca se mostrou.

*Fernando Pessoas
**Poema perdido de Fernando Pessoas (19/09/1918)

quarta-feira, 27 de julho de 2016

A livraria no caminho entre o parque e o café*


"O tempo presente e o tempo passado
Estão ambos talvez presentes no tempo futuro
E o tempo futuro contido no tempo passado.
Se todo o tempo é eternamente presente
Todo tempo é irredimível"
T.S.Eliot

No caminho entre o restaurante, café, a livraria do sebo, Ex Libris, e do meu trabalho paro quase sempre para olhar a vitrine. Abro a porta e falo com a moça que atende e pergunto: o que tem de interessante ou quanto custa esse aqui?

Já comprei muitos livros e o que mais impressiona são as dedicatórias, ou quando as pessoas resolvem sublinhar com lápis e canetas coloridas o mesmo livro. Foi hoje, três cores em um livro. Um senhor livro, um T.S. Eliot, Poesia (Collected Poems). Tradução de Ivan Junqueira, Nova Fronteira, 2 edição, 1981.

Livro que já tive, que ganhei um dia de aniversário nos anos 80. Perdi num bar quando estava viajando de férias. Sei lá. Li, reli os poemas depois na casa de uma namorada que me emprestara e tive o trabalho de devolver no final do romance. Nunca vendi um livro que amasse. Terminei os romances em minha vida.

A dedicatória é assim:
“Espero que “Poesia” seja mais um meio de fazer com que continues sempre inspirado. Não deixa morrer o poeta que mora em ti. Com carinho. Sylvia – 17/XII/81”

Isso aconteceu no século passado. Será que o poeta está morto? Cansou da poesia, talvez. Talvez tenha precisado vender para pegar uns trocados. O tempo passou e ninguém come livro nem se alimenta de poesia. Talvez. Quero dizer, não enche barriga. Será que a solidão tomou conta do poeta e ele para precisar comprar um remédio, uma bebida, teve que vender o T.S. Eliot? Eu não teria coragem de me desfazer de um livro como esse.

Sempre fico curioso quando entro nas livrarias de sebo e vou logo ver o que tem anotado em suas páginas amarelecidas. Eu mesmo já comprei um livro que era meu e tinha sido roubado anos antes. Isso quando ainda cursava Filosofia. Levaram o "Contra o Método", mas tempo depois trouxe de volta para casa com minha assinatura e tudo. Sem dedicatória, é claro, porque duvido muito que ganharia de alguém esse tipo de livro. 

Nele encontrei as páginas sublinhadas pelo gatuno intelectual. Sei quem foi. Um amigo que depois de ler viu que ser anarquista epistemológico era um perigo trabalhando no governo municipal idealista de esquerda de Porto Alegre e isso poderia ser um convite para cortar os pulsos de desilusão ideológica. Ele se desfez vendendo à livraria ou resolveu simplesmente trocar por algo mais voltado aos seus ideais. Sei lá. Não me interessa.

*Prof. Dr. Luis Antônio Paim Gomes
Filósofo. Jornalista. Editor. Professor. Livre Pensador.
Porto Alegre/RS

terça-feira, 26 de julho de 2016

Buscas*


Procuro o novo
O desconhecido
O inexistente
E encontro o velho
O que sempre foi
Procuro o novo
Incansavelmente
Deparo-me
Com amarras
Agendamentos
Repressões
Procuro o novo
Novamente
e de novo e de novo
Circular envolto
Dissolvo-me
Na arte
de me reinventar!

*Dra Rosângela Rossi
Psicoterapeuta. Escritora. Poetisa. Filósofa Clínica
Juiz de Fora/MG

segunda-feira, 25 de julho de 2016

Fragmentos Filosóficos, Delirantes*


"Um poeta é o menos poético de tudo o que existe, porque lhe falta identidade; continuamente está indo para - e preenchendo - algum outro corpo. O sol, a lua, o mar, assim como homens e mulheres, que são criaturas de impulso, são poéticos e têm ao seu redor um atributo imutável; o poeta não, carece de identidade. Certamente é a menos poética das criaturas de Deus."

"(...) porque se, na verdade, é o homem esse animal que quer permanecer, o artista busca permanência transferindo-se para sua obra, fazendo-se sua própria obra, e atinge-a na medida em que se torna obra."

"Se o poeta é sempre 'algum outro', sua poesia tende a ser igualmente 'a partir de outra coisa', a encerrar visões multiformes da realidade na recriação singularíssima da palavra."

"Os poetas se compreendem de poema a poema melhor do que em seus encontros pessoais."

"Com Antonin Artaud calou na França uma palavra dilacerada que só esteve pela metade do lado dos vivos enquanto o resto, partindo de uma linguagem inalcançável, invocava e propunha uma realidade vislumbrada nas insônias de Rodez."

"Surrealismo é cosmovisão, não escola ou ismo: uma empresa de conquista da realidade, que é a realidade certa em vez da outra de papelão e para sempre ressequida. (...) e não a mera continuação, dialeticamente antitética, da velha ordem supostamente progressiva."

"Viver importa mais do que escrever a não ser que o escrever seja - como tão poucas vezes - um viver."

"'Se sou poeta ou ator, não o sou para escrever ou declamar poesias, mas para vivê-las', afirma Antonin Artaud numa de suas cartas a Henri Parisot, escrita do asilo de alienados de Rodez."

"O poeta não é um primitivo, mas sim, esse homem que reconhece e acata as formas primitivas: formas que, olhando-se bem, seria melhor chamar 'primordiais', anteriores à hegemonia racional, e logo subjacentes ao seu famigerado império."

*Julio Cortázar in "Valise de Cronópio". Ed. Perspectiva. SP. 2013.

domingo, 24 de julho de 2016

As palavras e o corpo*


Escrevo em águas turvas
E as palavras somem.
Poupam-me o trabalho
De apagá-las.
Permanecem, porém, os rabiscos
Tatuados em meu corpo
Aninhados em minh'alma.
As lembranças,
Assim como as palavras
Que tentam se apagar
Com uma borracha branca
Ficam borradas
Mas ficam,
Ainda assim...
Não seriam os olhos
Um espelho pelo avesso
Quem iluminam para dentro?

*José Mayer
Filósofo. Livreiro. Poeta. Estudante na Casa da Filosofia Clínica
Porto Alegre/RS

sábado, 23 de julho de 2016

Fragmentos Filosóficos, Delirantes, Criativos*


"Escrever implica calar-se, escrever é, de certo modo, fazer-se 'silencioso como um morto', tornar-se o homem a quem se recusa a última réplica, escrever é oferecer, desde o primeiro momento, essa última réplica ao outro." 

"(...) escreve-se talvez menos para materializar uma ideia do que para esgotar uma tarefa que traz em si sua própria felicidade."

"O estruturalismo é essencialmente uma atividade, isto é, a sucessão articulada de certo número de operações mentais."

"(...) A estrutura é pois, de fato, um simulacro do objeto, mas um simulacro dirigido, interessado, já que o objeto imitado faz aparecer algo que permanecia invisível, ou, se se preferir, ininteligível no objeto natural."

"(...) a literatura é pelo contrário a própria consciência do irreal da linguagem: a literatura mais 'verdadeira' é aquela que se sabe a mais irreal, na medida em que ela se sabe essencialmente linguagem, é aquela procura de um estado intermediário entre as coisas e as palavras (...)"

"(...) mudar os signos (e não somente o que eles dizem), é dar à natureza uma nova distribuição (empresa que define precisamente a arte), e fundar essa distribuição não sobre leis 'naturais', mas muito pelo contrário sobre a liberdade que os homens têm de fazer significar as coisas."

"(...) se as palavras tivessem somente um sentido, o do dicionário, se uma segunda língua não viesse perturbar e liberar 'as certezas da linguagem', não haveria literatura. Eis por que as regras da leitura não são as da letra, mas as da alusão: são regras linguísticas, não regras filológicas."

"O crítico não pode pretender 'traduzir' a obra, sobretudo de modo mais claro, pois não há nada mais claro do que a obra. O que ele pode é 'engendrar' um certo sentido derivando-o de uma forma que é a obra."

*Roland Barthes in "Crítica e verdade". Ed. Perspectiva. SP. 2011. 

sexta-feira, 22 de julho de 2016

A palavra ressonância*

      


Escrever sobre as repercussões de um encontro clínico, reivindica deslocar-se em estado de redução fenomenológica. Se trata de tentar visualizar eventos em sua matriz de desencadeamento compartilhado, por onde acessos inesperados se descortinam, sugerem uma dialética nem sempre traduzível.   

As poéticas da terapia esboçam seus inéditos e os ampliam pela interseção bem sucedida. Esses enredos seriam inimagináveis não fora a alquimia da atuação subjuntiva, a qual, iniciada na hora_sessão, se multiplica no cotidiano por vir. Dos múltiplos aspectos sobre seu alcance, sentido, direção, se destaca a alteração dos pontos de vista. Reinvenção pela aptidão dos procedimentos a se tornar transformação pessoal pela via da introspecção.   

A cooperação da categoria tempo é fundamental, nesse momento irrepetível, onde uma chave encontra sua porta. Ao acolher compreensivamente o que ressoa, é possível modificar representações, redescobrir-se em meio ao ir e vir das conexões.   

Os movimentos assim mencionados possuem um silêncio impregnado de originais. Num presente que se amplia, outros percursos se realizam na estrutura labirinto. Na companhia da solidão esses ecos da terapia vão constituindo sentimentos, ideias, sensações. Sua expressividade atua para organizar-se num agora definitivo. Aqui se trata do território ampliado pela transcendência, lugar de realidade estranha, onde é possível, no viés de um segundo, mesclar papéis existenciais. 

Esses conteúdos do encontro expandido continuam atuando após a hora_clínica. Os agendamentos do Filósofo, ao encontrar acolhimento na perspectiva Partilhante, interagem em desdobramentos à meia-luz. Assim rememora, desconserta, reelabora, significa algo mais até então desconhecido, procura um procedimento singular capaz de fazer ver, assimilar, viabilizar essa via de acesso, por onde a intencionalidade prossegue sua atividade cuidadora.

Ao estender-se desse jeito, essa relação atualiza rumores de esboço compartilhado. Com ela é possível recompor buscas, desconstruir certezas, emancipar tópicos marginalizados. Esse norte_sul_leste_oeste, utilizando uma matéria-prima irrepetível em cada pessoa, costuma repercutir-se num processo nem sempre explicável. 

A palavra terapia é a brisa leve, acolhedora, cúmplice das transgressões aos outros que o mesmo anuncia. Ao vislumbrar esses instantes, reivindica-se um acordo de vontades, um chão para compreender a natureza improvável em quase tudo. 

*Hélio Strassburger 

quarta-feira, 20 de julho de 2016

Fragmentos Filosóficos, Delirantes*


"(...) a consciência é um ser para o qual, em seu próprio ser, está em questão o seu ser enquanto este ser implica outro ser que não si mesmo."

"A consciência é consciência de alguma coisa: significa que a transcendência é estrutura constitutiva da consciência, quer dizer, a consciência nasce tendo por objeto um ser que ela não é."

"(...) como a consciência não é possível antes de ser, posto que seu ser é fonte e condição de toda possibilidade, é sua existência que implica sua essência."

"Portanto, eis aqui o nada sitiando o ser por todo lado; eis que o nada se apresenta como aquilo pelo qual o mundo ganha seus contornos de mundo."

"(...) não há um só gosto, um só tique, um único gesto humano que não seja revelador."

"(...) o trabalho essencial é uma hermenêutica, ou seja, uma decifração, uma determinação e uma conceituação."

"O ser é uma aventura individual."

"O gênio de Proust não é nem a obra considerada isoladamente nem o poder subjetivo de produzi-la: é a obra considerada como conjunto das manifestações da pessoa."

"(...) nossa teoria do fenômeno substituiu a realidade da coisa pela objetividade do fenômeno e fundamentou tal objetividade em um recurso ao infinito."

"Toda consciência, mostrou Husserl, é consciência de alguma coisa. Significa que não há consciência que não seja posicionamento de um objeto transcendente, ou, se preferirmos, que a consciência não tem 'conteúdo'."

*Jean-Paul Sartre in "O ser e o nada". Ensaio de ontologia fenomenológica. Ed. Vozes. Petrópolis. RJ. 1999

terça-feira, 19 de julho de 2016

Empatia...*


Se não sou de ninguém
Nem ninguém é meu
Porque dói na gente
A dor que o outro sente?
A, se a vida não fosse
Uma máquina de jogo
Que não triturasse gente
Que não moesse gente
E que não doesse tanto
Na gente.
Corpo fechado, alma aberta
Um capacete a prova de balas
Uma armadura contra a amargura
Amor mole em pedra dura
Tanto bate até que fura
Tanto bate até que cura.

*José Mayer
Filósofo. Livreiro. Poeta. Estudante na Casa da Filosofia Clínica
Porto Alegre/RS

segunda-feira, 18 de julho de 2016

Cotidiano*


“Assim, o olhar encontra naquilo que o torna possível o poder que o neutraliza...”
Maurice Blanchot 

Imagem das palavras,
Na simetria os olhos,
Correr à tela. A lente,
milímetro fátuo escorre,
no muro poema pichado.
O caminhar do texto. A representação,
tempo suficiente para a cisão,
embate do corpo arranha.
O dizer extenso do pensamento,
O cérebro guarda, cria além do que vê. 

*Prof. Dr. Luis Antônio Paim Gomes
Filósofo. Jornalista. Editor. Escritor. Livre Pensador.
Porto Alegre/RS

domingo, 17 de julho de 2016

O Infinito*



A mim sempre foi cara esta colina
deserta e a sebe que de tantos lados
exclui o olhar do último horizonte.
Mas sentado e mirando, intermináveis
espaços longe dela e sobre-humanos
silêncios, e quietude a mais profunda,
eu no pensar me finjo; onde por pouco
não se apavora o coração. E o vento
ouço nas plantas como rufla, e aquêle
infinito silêncio a esta voz
vou comparando: e me recordo o eterno,
e as mortas estações, e está presente
e vivo, o seu rumor. É assim que nesta
imensidade afogo o pensamento:
e o meu naufrágio é doce neste mar.

*Giácomo Leopardi

sábado, 16 de julho de 2016

Fragmentos Filosóficos, Poéticos, Delirantes*


"A matriz aberta desses poemas permitia vários percursos de leitura, na vertical ou na horizontal, isolando e destacando blocos, ou já os integrando, alternativamente, com outras partes componentes da peça, através de relações de semelhança ou proximidade."

"Os críticos, boa parte deles, responsáveis por essa petrificação mental, praticam uma hermenêutica de cemitério, precavendo-se cautelosamente para que nenhum oxigênio de vida, nenhuma dissonância de invenção, perturbe o ar ázimo e a paz de nafta de seus columbários cumpridamente etiquetados, classificados e inanizados, que são as obras de arte 'reconhecidas': para eles, o presente artístico só conta na medida em que possa ser, rapidamente, mumificado em passado."

"A língua é apenas um dos sistemas de signos e a linguística tão-somente uma das províncias da semiótica. Esta é a colocação que nos parece mais fecunda e aberta. Realmente, a adoção da linguagem verbal como padrão absoluto e tirânico de todos os demais sistemas de signos, a redução destes à condição de sistemas heterônomos, pode levar a descaminhos perigosos e empobrecedores."

"(...) signo é qualquer coisa que está para quem quer que seja em lugar de qualquer outra coisa, sob qualquer aspecto ou capacidade. (...) signo é uma transmissão pela qual um organismo afeta outro numa situação de comunicação."

"O que caracteriza a função poética é, assim, um uso inovador, imprevisto, inusitado das possibilidades do código da língua."

"E Chomsky, do ponto de vista da gramática gerativa ou transformacional, põe a ênfase no aspecto criador da linguagem, ao nível de sua utilização corrente, dizendo que as coisas se passam como se o sujeito falante inventasse de certa maneira a língua à medida que se fosse exprimindo ou a redescobrisse à medida que a fosse ouvindo falar em seu redor, tendo como que assimilado à sua própria substância pensante um código genético, espécie de matriz aberta que possibilita a interpretação semântica de um conjunto indefinido de frases."

"A esse teor de inovação, Eco chama abertura da mensagem estética. Ou como quer Max Bense: 'a informação estética transcende a semântica (referencial) no que diz respeito à surpresa, à improbabilidade, à imprevisibilidade da ordenação dos signos."

"As regras nascem quando falta quem pense. (...) O mal de nossa época é que a poesia já esteja reduzida a arte, de modo que, para ser verdadeiramente original, é preciso romper, violar, desprezar, deixar de parte inteiramente os costumes e os hábitos e as noções de normas, de gêneros, etc.., recebidas de todos."

*Haroldo de Campos in "A arte no horizonte do provável". Ed. Perspectiva. SP. 1977 

sexta-feira, 15 de julho de 2016

Uma poética do agora*


sou vagabundo de coração cheio
tenho amor de sobra para te dar
entristeço com tanto poder e egoísmo
para que tanto orgulho e vaidade?
onde te levará este preconceito?
pare e ame, não haverá depois!

Dra. Rosângela Rossi
Psicoterapeuta. Filósofa Clínica. Escritora. Poetisa.
Juiz de Fora/MG

quinta-feira, 14 de julho de 2016

Poema de Sete Faces*



Quando nasci, um anjo torto
desses que vivem na sombra
disse: Vai, Carlos! ser gauche na vida.

As casas espiam os homens
que correm atrás de mulheres.
A tarde talvez fosse azul,
não houvesse tantos desejos.

O bonde passa cheio de pernas:
pernas brancas pretas amarelas.
Para que tanta perna, meu Deus, pergunta meu coração.
Porém meus olhos
não perguntam nada.

O homem atrás do bigode
é sério, simples e forte.
Quase não conversa.
Tem poucos, raros amigos
o homem atrás dos óculos e do bigode.

Meu Deus, por que me abandonaste
se sabias que eu não era Deus
se sabias que eu era fraco.

Mundo mundo vasto mundo,
se eu me chamasse Raimundo
seria uma rima, não seria uma solução.
Mundo mundo vasto mundo,
mais vasto é meu coração.

Eu não devia te dizer
mas essa lua
mas esse conhaque
botam a gente comovido como o diabo.

*Carlos Drummond de Andrade

quarta-feira, 13 de julho de 2016

Aspectos das memórias Substituindo lembranças ?*


“A vida é uma lousa, em que o destino, para escrever um novo caso, precisa apagar o caso escrito”. (Machado de Assis. 1994)

Em um contexto clínico, isto que Machado de Assis nos coloca não passa de um grande chavão. Representa frases prontas como “para ter um novo amor é necessário esquecer o antigo”. Mas será que é assim que as coisas se passam? E o contrário também se aplicaria? Será que para esquecer algo traumático ou doloroso é necessário instaurarmos algo novo em seu lugar?

A historicidade de algumas pessoas nos mostra que a sua Estrutura de Pensamento funciona por fatores substitutivos. Por exemplo, alguns colocam “eu só consegui esquecer o meu antigo emprego quando eu comecei a trabalhar novamente”. E claro, não é uma frase isolada, ela aparece em vários contextos, de várias maneiras, e quando esse “fator substitutivo” fica atestado e é funcional, eis que temos um recurso clínico para a vida daquela pessoa. Chamamos em Filosofia Clínica estes recursos de “submodos informais”, são os modos de ser da pessoa que posteriormente adequamos e aplicamos com fins terapêuticos.

Uma das maiores falácias terapêuticas é acreditar que procedimentos clínicos são universais e podem ser utilizados com funcionalidade por qualquer pessoa. Na verdade, para a maioria das pessoas esse e qualquer outro modo de ser não será funcional e nem indicado. Algumas pessoas, por exemplo, acabam vivendo com dois vetores, elas encontram um novo emprego, mas não esquecem o que aconteceu no antigo, ou encontram um novo amor, mas continuam vivenciando o anterior.

Para algumas pessoas a forma como irá se instaurar o novo elemento é que irá determinar se ele será lateral ao antigo, permanecendo os dois, ou se será substituinte dele, fazendo a pessoa esquecer o anterior. Para algumas basta que um novo elemento se instaure, de modo a permitir que a intencionalidade do indivíduo para ele se dirija, para que aconteça a substituição. Já para outras é necessário que a natureza desses elementos seja semelhante, elas substituem um amor por outro amor e não por um emprego novo. Já para outras o fator substitutivo se dá via contrastes. É necessário que o novo seja inverso ao anterior, de modo que a pessoa vai esquecer-se da raiva instaurando uma paixão, por exemplo.

Os fatores substitutivos também podem gerar grandes problemáticas. Para certas pessoas, por exemplo, ele se dá de forma constante, fazendo-a substituir suas vivências por novas, esquecendo-se do presente de forma muito rápida e instaurando novas coisas diariamente. Isto, entre outras coisas, faz com que o indivíduo não tenha uma base sólida e elementos historiológicos fixados, construídos, lapidados e que possam vir a servir de “porto seguro” em determinados momentos da existência. Alguns, por exemplo, esquecem-se de coisas importantíssimas para sua existência, substituindo-as por coisas que somente lhes trarão dor e sofrimento.

Em todos os aspectos da vida indica-se sempre cuidado e prudência, lembrando que a existência é subjetiva e que para cada pessoa deve-se proceder de maneira diferenciada segundo a sua estruturação interna. 

*Gilberto Sendtko
Filósofo Clínico
Chapecó/SC

terça-feira, 12 de julho de 2016

Fragmentos Filosóficos, Delirantes*


"Não é à crítica que me quero referir, porque ninguém pode esperar ser compreendido antes que os outros aprendam a língua em que fala. Repontar com isso seria, além de absurdo, indício de um grave desconhecimento da história literária, onde os gênios inovadores foram sempre, quando não tratados como doidos (como Verlaine, e Mallarmé), tratados como parvos (como Wordsworth, Keats e Rossetti) ou como, além de parvos, inimigos da pátria, da religião e da moralidade, como aconteceu a Antero de Quental, sobretudo nos significativos panfletos de José Feliciano de Castilho, que, aliás, não era nenhum idiota." 

"O princípio da cura está na consciência da doença, o da verdade no conhecimento do erro. Quando um doido sabe que está doido, já não está doido. Estamos perto de acordar, disse Novalis, quando sonhamos que sonhamos."

"Se é este, porém, o efeito do ideal puramente objetivo nas almas inferiores, nos espíritos superiores, que são os suscetíveis de criar, o efeito é outro. Não podendo buscar consolação espiritual na religião, força é que a busquem na vida."

"(...) o heleno sentindo que a vida é imperfeita, busca aperfeiçoá-la em si próprio, vivendo-a com uma compreensão intensa, vivendo de dentro, como espírito, a essência do transitório e do imperfeito."

"Ora, um desvio patológico equilibrado é uma de duas cousas - ou o gênio ou o talento. Ambos estes fenômenos são desvios patológicos, porque, biologicamente considerados, são anormais; porém não são só anormais, porque tem uma aceitação exterior, tendo, portanto, um equilíbrio. A esse desvio equilibrado chamar-se-á gênio quando é sintético, talento quando é analítico; gênio quando resulta da fusão original de vários elementos, talento quando procede do isolamento original de um só elemento." 

"A vida de Caeiro não pode narrar-se pois que não há nela de que narrar. Seus poemas são o que houve nele de vida."

"Toda obra fala por si, com a voz que lhe é própria, e naquela linguagem em que se forma na mente; quem não entende não pode entender, e não há pois que explicar-lhe. É como fazer compreender a alguém um idioma que ele não fala."

"Sinto-me múltiplo. Sou como um quarto com inúmeros espelhos fantásticos que torcem para reflexões falsas uma única anterior realidade que não está em nenhuma e está em todas. (...) Sinto-me viver vidas alheias, em mim, incompletamente, como se o meu ser participasse de todos os homens, incompletamente de cada, por uma suma de não-eus sintetizados num eu postiço."

"A superioridade não se mascara de palhaço; é de renúncia e de silêncio que se veste."

*Fernando Pessoas in "Alguma prosa". Ed. Nova Fronteira. 1990. RJ

segunda-feira, 11 de julho de 2016

Os Opostos*


Os Opostos se atraem, dizem
Ele lutava com os opostos
Dia a dia
Dentro de si.

Para ele não havia vida na linha do equador. Havia, sim, vida acima ou abaixo do equador. Viver na linha mediana, para ele, era não viver. Definhava sob o ar condicionado. Fugia do meio termo como o capeta foge da cruz. O morno nem o esquentava, nem tampouco, o esfriava. O morno cheirava a mofo. Se negava a jogar no meio de campo. Fechava as balizas de um lado, ou estufava as redes do outro. Na loteria da vida não marcava a coluna do meio. Mas existiam empates.

Quem o conhecia sabia.

Seu "oito" era um grãozinho de areia. Um fiozinho de fumaça que sumia. Uma miragem de nevoeiro que sumia. Um pedacinho de nuvem quebrada que sumia num buraco negro. Diminuto, virava diminutivo e se transformava em Mínimo Múltiplo Comum. Virava nada, nada fazia e repousava nas espumas das águas do nada.

Mas não se entregava
Há que inventar a vida a cada dia.

Seu "oitenta" era mil. Um milhão. Zeros ao infinito. Aumentativo, virava superlativo e procurava algum Máximo Divisor Comum. Voava, sem ser pássaro. Nadava, sem ser peixe. Virava tempestades... leves. Virava terremotos... leves. Virava tsunamis... leves e suaves. Só para levar um susto. Não para destruir. Mas para pintar tudo de um colorido novo. Para recomeçar maior e melhor. Para acolher e envolver de outra forma. E fazer crer que assim a vida vale a pena. Afinal a vida pode ser assim como nós a fazemos.

Pensava o impensável
Dizia o inominável
Escrevia o inimaginável
E via tudo aquilo que Deus ainda não havia criado.
E que os homens ainda não acreditavam.

*José Mayer
Filósofo. Livreiro. Poeta. Estudante na Casa da Filosofia Clínica
Porto Alegre/RS

domingo, 10 de julho de 2016

Nossos dias melhores nunca virão ?*

  

Ando em crise, numa boa, nada de grave. Mas, ando em crise com o tempo. Que estranho "presente" é este que vivemos hoje, correndo sempre por nada, como se o tempo tivesse ficado mais rápido do que a vida, como se nossos músculos, ossos e sangue estivessem correndo atrás de um tempo mais rápido.

As utopias liberais do século 20 diziam que teríamos mais ócio, mais paz com a tecnologia. Acontece que a tecnologia não está aí para distribuir sossego, mas para incrementar competição e produtividade, não só das empresas, mas a produtividade dos humanos, dos corpos. Tudo sugere velocidade, urgência, nossa vida está sempre aquém de alguma tarefa. A tecnologia nos enfiou uma lógica produtiva de fábricas, fábricas vivas, chips, pílulas para tudo.

Funcionar é preciso; viver não é preciso. Por que tudo tão rápido? Para chegar aonde?, para gozar sem parar? Mas gozar como? Nossa vida é uma ejaculação precoce. Estamos todos gozando sem fruição, um gozo sem prazer, quantitativo. Antes, tínhamos passado e futuro; agora, tudo é um "enorme presente", na expressão de Norman Mailer. E este "enorme presente" nos faz boiar num tempo parado, mas incessante, num futuro que "não pára de não chegar". Antes, tínhamos os velhos filmes em preto-e-branco, fora de foco, as fotos amareladas, que nos davam a sensação de que o passado era precário e o futuro seria luminoso. Nada. Nunca estaremos no futuro. E, sem o sentido da passagem dos dias, de começo e fim, ficamos também sem presente. Estamos cada vez mais em trânsito, como carros, somos celulares, somos circuitos sem pausa, e cada vez mais nossa identidade vai sendo programada. O tempo é uma invenção da produção. Não há tempo para os bichos. Se quisermos manhã, dia e noite, temos de ir morar no mato.

Há alguns anos, eu vi um documentário chamado Tigrero, do cineasta finlandês Mika Kaurismaki e do Jim Jarmusch sobre um filme que o Samuel Fuller ia fazer no Brasil, em 1951. Ele veio, na época, e filmou uma aldeia de índios no interior do Mato Grosso. A produção não rolou e, em 92, Samuel Fuller, já com 83 anos, voltou à aldeia e exibiu para os índios o material colorido de 50 anos atrás. E também registrou, hoje, os índios vendo seu passado na tela. Eles nunca tinham visto um filme e o resultado é das coisas mais lindas e assustadoras que já vi.

Eu vi os índios descobrindo o tempo. Eles se viam crianças, viam seus mortos, ainda vivos e dançando. Seus rostos viam um milagre. A partir desse momento, eles passaram a ter passado e futuro. Foram incluídos num decorrer, num "devir" que não havia. Hoje, esses índios estão em trânsito entre algo que foram e algo que nunca serão. O tempo foi uma doença que passamos para eles, como a gripe. E pior: as imagens de 50 anos é que pareciam mostrar o "presente" verdadeiro deles. Eram mais naturais, mais selvagens, mais puros naquela época. Agora, de calção e sandália, pareciam estar numa espécie de "passado" daquele presente. Algo decaiu, piorou, algo involuiu neles.

Lembrando disso, outro dia, fui atrás de velhos filmes de 8mm que meu pai rodou há 50 anos também. Queria ver o meu passado, ver se havia ali alguma chave que explicasse meu presente hoje, que denunciasse algo que perdi, ou que o Brasil perdeu... Em meio às imagens trêmulas, riscadas, fora de foco, vi a precariedade de minha pobre família de classe média, tentando exibir uma felicidade familiar que até existia, mas precária, constrangida; e eu ali, menino comprido feito um bambu no vento, já denotando a insegurança que até hoje me alarma. Minha crise de identidade já estava traçada. E não eram imagens de um passado bom que decaiu, como entre os índios.

Era um presente atrasado, aquém de si mesmo. A mesma impressão tive ao ver o filme famoso de Orson Welles, It's All True, em que ele mostra o carnaval carioca de 1942 - únicas imagens em cores do País nessa década. Pois bem, dava para ver, nos corpinhos dançantes do carnaval sem som, uma medíocre animação carioca, com pobres baianinhas em tímidos meneios, galãs fraquinhos imitando Clark Gable, uma falta de saúde no ar, uma fragilidade indefesa e ignorante daquele povinho iludido pelos burocratas da capital. Dava para ver ali que, como no filme de minha família, estavam aquém do presente deles, que já faltava muito naquele passado.

Vendo filmes americanos dos anos 40, não sentimos falta de nada. Com suas geladeiras brancas e telefones pretos, tudo já funcionava como hoje. O "hoje" deles é apenas uma decorrência contínua daqueles anos. Mudaram as formas, o corte das roupas, mas eles, no passado, estavam à altura de sua época. A Depressão econômica tinha passado, como um grande trauma, e não aparecia como o nosso subdesenvolvimento endêmico. Para os americanos, o passado estava de acordo com sua época. Em 42, éramos carentes de alguma coisa que não percebíamos. Olhando nosso passado é que vemos como somos atrasados no presente. Nos filmes brasileiros antigos, parece que todos morreram sem conhecer seus melhores dias.

E nós, hoje, nesta infernal transição entre o atraso e uma modernização que não chega nunca? Quando o Brasil vai crescer? Quando cairão afinal os "juros" da vida? Chego a ter inveja das multidões pobres do Islã: aboliram o tempo e vivem na eternidade de seu atraso. Aqui, sem futuro, vivemos nessa ansiedade individualista medíocre, nesse narcisismo brega que nos assola na moda, no amor, no sexo, nessa fome de aparecer para existir. Nosso atraso cria a utopia de que, um dia, chegaremos a algo definitivo. Mas, ser subdesenvolvido não é "não ter futuro"; é nunca estar no presente.

*Arnaldo Jabor