quarta-feira, 31 de agosto de 2016

Sabor da vida*


Para saborear a vida
é preciso vivê-la devagar
Mastigar bem cada momento
Respirar, sentir o cheiro
de algo muito bom chegando…
Não exagere no tempero,
muita pimenta pode estressar
O sal e o açúcar
deve ser usado com moderação
Observe o tempo,
não deixe passar do ponto
Sente-se à mesa com apetite
e deguste um bom dia!…

*Marli Savelli

terça-feira, 30 de agosto de 2016

Uma temporada no Hospício*


Entrada;
A palavra tranca
Regurgita e volta
O que está sendo feito?
O que fizeram de mim?
O que fizeram em mim?
Uma droga:
Caio, desmaio
Agora não lembro
Agora não penso
Agora não sinto
Agora, nada sou...
No porão:
Aqui é escuro
Não vejo nada
Não sinto nada
Nada fala em mim
O que sou aqui?
Como dizer
O que não sei?
Como encontrar
Aquele que não pode ser encontrado?...

*José Mayer
Filósofo. Livreiro. Poeta. Estudante na Casa da Filosofia Clínica.
Porto Alegre/RS

segunda-feira, 29 de agosto de 2016

Fragmentos Filosóficos, Delirantes*


"(...) cada época torna canônicos textos considerados marginais na época precedente."

"A nova epopeia é a primeira a permitir que duas vozes sejam simultaneamente ouvidas: a voz do poeta e a dos outros, interiorizada; trata-se de um diálogo interior."

"O ideal de Brecht não é um teatro total, mas um teatro do heterogêneo, no qual reina a pluralidade no lugar da unidade."

"Então Brecht escolhe, sem talvez sabê-lo, a posição de Aristóteles, para quem a surpresa é a fonte de conhecimento."

"(...) escritura; ou, em todos os casos, quando o aspecto literário adquire uma pertinência nova."

"O leitor é constitutivo da literatura, repete Sartre: 'O objeto literário é um estranho pião que só existe em movimento. Para fazê-lo surgir, é necessário um ato concreto designado leitura, e este só dura enquanto a leitura durar." 

"(...) um imperativo para os livros: o melhor sentido é atribuído pelos leitores aos quais eles foram, originalmente, dirigidos."

"(...) e a última frase de Baudelaire diz: 'As circunstâncias quase abstratas da experiência permitiram-lhe testemunhar com uma clareza inigualável esta verdade: a livre escolha que o homem faz de si mesmo identifica-se absolutamente com o que designamos seu destino'."

"(...) qualquer tentativa de interpretar Blanchot em linguagem diferente da sua parece ser um interdito não pronunciado (...)"

"Mas afirmar, simultaneamente, A e não A é questionar a dimensão assertiva da linguagem e, efetivamente, produzir um discurso para além do certo e do errado, do bem e do mal."

*Tzvetan Todorov in "Crítica da crítica. Um romance de aprendizagem." Ed. Unesp. SP. 2013.

domingo, 28 de agosto de 2016

Fragmentos Filosóficos, Delirantes*


"(...) esse projeto de uma obra de arte, que faz da categoria do provisório a sua própria categoria da criação, pondo em questão, constantemente, a ideia mesma de obra conclusa, instalando o transitório onde, segundo uma perspectiva clássica, vigeria a imutabilidade perfeita e paradigmal dos objetos eternos (...)."

"O espectador influi sobre a formação, isto é, sobre a transformação do quadro e, assim, se converte em seu co-autor (...) O diálogo entre o quadro e o espectador renova-se continuamente, com a constante criação."

"(...) a palavra é o resultado acústico do pensamento"

"O que caracteriza a função poética é, assim, um uso inovador, imprevisto, inusitado das possibilidades do código da língua."

"(...) justamente esse desvio da norma, que rompia as expectativas do leitor, explicava o processo da arte, que é um processo de desautomatização (o uso normal do código automatiza as reações) mediante um recurso de singularização."

"O artista que aspire a pensar originalmente e a dizer coisas próprias de seu tempo deve preparar a língua de que necessita com suas próprias mãos (...)."

"As regras nascem quando falta quem pense (...)."

"Chomsky, do ponto de vista da gramática gerativa ou transformacional, põe a ênfase no aspecto criador da linguagem, ao nível de sua utilização corrente, dizendo que as coisas se passam como se o sujeito falante inventasse de certa maneira a língua à medida que se fosse exprimindo ou a redescobrisse à medida que a fosse ouvindo falar em seu redor (...)."

*Haroldo de Campos in "A arte no horizonte do provável" Ed. Perspectiva. SP. 1977.

sábado, 27 de agosto de 2016

A Verdade não me seduz*


A Verdade anda longe das possibilidades da Aventura e da Liberdade. Aventura para em um ponto onde a linguagem possa ser alcançada e sem que depois nos arrependamos do que pensar nos possíveis estragos. A aventura das palavras e das frases, aquilo que Paul Ricoeur nos mostra, “ela faz surgir, no próprio cerne da semântica da palavra, uma incerteza, uma inquietação, um espaço de jogo, a favor do qual se torna de novo possível lançar uma ponte entre a semântica da frase e a semântica de palavra”. Uma interação entre a aventura e o que se escreve sobre o que se pensa e dizemos.

Retomo todos os dias, pelas manhãs preferencialmente, temas que considero pertinente à compreensão do cotidiano. Um deles é sobre o postulado da palavra Verdade nesta compreensão. Não há juízo nenhum que me faça a crer que a Ciências Humanas se vale dela para poder melhor chegar a conclusivas sem que o fim possa ser surpreendente.

Mais uma vez, isso, escrito apenas em 1977 por Barthes, no livro “Leçon”, lá se vão anos, e o positivismo na cabeça dos acadêmicos ainda dá o nó necessário para no mínimo afastá-los de vez da compreensão do cotidiano de uma leitura mais livre das escrituras. Adeus ao pensamento único e salve a transdisciplinaridade!!!

A “literatura trabalha nos interstícios da ciência”, escreveu Barthes e mais: “A ciência é grosseira, a vida é sutil, e é para corrigir essa distância que a literatura nos importa”, e depois é ler Morin ou Deleuze, Lyotard para arejar numa manhã de sábado.

*Prof. Dr. Luis Antônio Paim Gomes
Filósofo. Editor. Livre Pensador.
Porto Alegre/RS

sexta-feira, 26 de agosto de 2016

Póeticas*


A poesia acontece e cria outros mundos possíveis tão somente para iluminar o íntimo de quem a percebe e, na espera, acolhe e se conecta a ela. A poesia acontece porque transborda ao desapegar-se das margens do lugar de sua origem ou, ainda, do lugar ao qual outrora se comportou. A poesia acontece quando se percebe que é a superfície que sufoca, sobretudo, quando a dimensão é afetiva e existencial. A poesia sempre acontece na gratidão, na esperança, na compaixão; ela transforma qualquer momento em amor. Afinal, a poesia acontece e seguirá acontecendo enquanto vida houver. Musa!

*Prof. Dr. Pablo Mendes
Filósofo. Educador. Filósofo Clínico
Porto Alegre/RS

quinta-feira, 25 de agosto de 2016

A palavra mágica*


Certa palavra dorme na sombra
de um livro raro.
Como desencantá-la?
É a senha da vida
a senha do mundo.
Vou procurá-la.

Vou procurá-la a vida inteira
no mundo todo.
Se tarda o encontro, se não a encontro,
não desanimo,
procuro sempre.

Procuro sempre, e minha procura
ficará sendo
minha palavra.

*Carlos Drummond de Andrade

quarta-feira, 24 de agosto de 2016

Fragmentos Filosóficos, Delirantes*


"(...) o argumento de cada narrativa é também um testemunho de estranhamento, quando não uma provocação tendente a suscitá-lo no leitor."

"Muito do que tenho escrito ordena-se sob o signo da excentricidade, posto que entre viver e escrever nunca admiti uma clara diferença; (...)"

"(...) como escrevo de um interstício, estou sempre convidando que outros procurem os seus e olhem por eles o jardim onde as árvores têm frutos que são, por certo, pedras preciosas."

"E, contudo, os contos de Katherine Mansfield, de Tchecov, são significativos, alguma coisa estala neles enquanto os lemos, propondo-nos uma espécie de ruptura do cotidiano que vai muito além do argumento.""

"A consequência inevitável de todo orgulho e de todo egotismo é a incapacidade de compreender o humano, de se aproximar dos outros, de medir a dimensão alheia."

"Imaginemos Edgar Poe num dia qualquer de 1843. Sentou-se para escrever numa das muitas mesas (quase nunca próprias), numa das muitas casas onde viveu passageiramente."

"(...) este homem pagou cedo o preço de quem marcha adiante."

"(...) entende que o mundo ideal está em tudo quanto apareça marcado pelo sinal da Beleza."

"Citando Edgar Poe: 'alguns parágrafos da sua Marginalia assumem um tom pateticamente pessoal: 'Entretive-me, às vezes, tratando de imaginar qual seria o destino de um indivíduo dono (ou mais propriamente vítima) de um intelecto muito superior aos da sua raça. Naturalmente teria consciência da sua superioridade e não poderia impedir-se de manifestar essa consciência. Assim faria inimigos em toda parte. E como suas opiniões e especulações difeririam amplamente das de toda a humanidade, não cabe dúvida de que o considerariam louco'. (...)"

*Julio Cortázar in "Valise de Cronópio". Ed. Perspectiva. SP. 2013

terça-feira, 23 de agosto de 2016

Onde pousam as borboletas*


Um perigo ronda
O campo e a cidade
Um homem e uma mulher
Foram vistos fazendo amor
Num campo florido
Tomando banho numa cachoeira
Num amor
Que já não existe mais
Estão desaparecidos
Desde então...
Um terrível perigo
Paira no ar
A civilização ocidental
Corre um perigo iminente
Localizem este homem e esta mulher
Mortos, de preferência
Capturem este casal fugidio
Antes que seja tarde.
Ronda um terrível perigo
No campo e na cidade
O governador decretou
Toque de recolher
O prefeito decretou
Estado de sítio
O FBI e a CIA
Foram acionados
Helicópteros sobrevoam a região
Localizem este homem e esta mulher
Antes que seja tarde.
Todos a postos
Capturem este casal atrevido
Não procurem em Shopping Centers
Muito menos em palácios
Nem tampouco em igrejas frias
Menos ainda em casa de políticos
Procurem nas vielas e nos becos
Ou nos bosques esquecidos
Atentem ao cheiro de corpos e da pele
Vejam onde as borboletas pousam
Onde tocam músicas suaves
Sigam os rastros dos bilhetes de poesia.
Conta-se por aí
Que este homem e esta mulher
Enfeitiçaram um casal de velhinhos
Viraram crianças
E agora cantam e dançam
Pelas ruas da cidade.
Conta-se por aí
Que este homem e esta mulher
Enfeitiçaram crianças na escola
E agora elas brincam e balançam
Pelas praças da cidade.
Um perigo iminente
Ronda o campo e a cidade
Capturem este homem e esta mulher
Antes que seja tarde demais...

*José Mayer
Filósofo. Livreiro. Estudante na Casa da Filosofia Clínica
Porto Alegre/RS

segunda-feira, 22 de agosto de 2016

Fragmentos Filosóficos, Delirantes*


"O 'poético' é exatamente a capacidade simbólica de uma forma; esta capacidade só tem valor se permite à forma 'partir' para um grande número de direções e manifestar, assim, potencialmente, o infinito caminho do símbolo, de que nunca se pode fazer um significado último e que é, em suma, sempre o significante de um outro significante (...)."

"(...) o sentido depende do nível em que o leitor se coloca."

"(...) sobre o papel - e devido ao papel - o tempo está em perpétua incerteza."

"Mudar o nível de percepção: trata-se de um choque que abala o mundo classificado, o mundo nomeado (o mundo reconhecido) e, por conseguinte, libera uma verdadeira energia alucinatória."

"(...) a metáfora é a única maneira de nomear o inominável (transforma-se, então, em catacrese): a cadeia de nomes substitui o nome que falta."

"Ora, é mais ou menos o que ocorre na cura analítica: a própria ideia de 'cura', inicialmente muito simples, transforma-se, torna-se distante: a obra, como a cura, é interminável: trata-se. em ambos os casos, menos de obter um resultado do que modificar um problema, isto é, um tema: livrá-lo da finalidade em que se encerra seu início."  

"(...) o corpo dispensa o sujeito e a pintura de Réquichot vai, então,, ao encontro do que seria a extrema vanguarda: aquela que não é classificável e cujo caráter psicótico a sociedade denúncia, pois que, assim fazendo, pode, pelo menos, nomeá-la."

"A voz humana é, na verdade, o espaço privilegiado (eidético) da diferença: espaço que escapa a todas as ciências, pois nenhuma ciência (fisiologia, história, estética, psicanálise) é capaz de esgotar a voz: classifiquem, comentem historicamente, sociologicamente, esteticamente, tecnicamente a música, restará sempre algo, um suplemento, um lapso, um som dito que se designa a si próprio: a voz." 

"É necessário lembrar que a classificação das vozes humanas - como toda classificação elaborada por uma sociedade - nunca é inocente."

"Esta passagem - esta transgressão - faz da música uma loucura: não apenas a música de Schumann, mas toda a música. Comparado ao escritor, o músico é sempre louco (e o escritor não o pode ser, pois está condenado ao sentido)."

*Roland Barthes in "O óbvio e o obtuso". Ed. Nova Fronteira. RJ. 1990

domingo, 21 de agosto de 2016

Não sei quantas almas tenho*


Não sei quantas almas tenho.
Cada momento mudei.
Continuamente me estranho.
Nunca me vi nem acabei.
De tanto ser, só tenho alma.
Quem tem alma não tem calma.
Quem vê é só o que vê,
Quem sente não é quem é,

Atento ao que sou e vejo,
Torno-me eles e não eu.
Cada meu sonho ou desejo
É do que nasce e não meu.
Sou minha própria paisagem;
Assisto à minha passagem,
Diverso, móbil e só,
Não sei sentir-me onde estou.

Por isso, alheio, vou lendo
Como páginas, meu ser.
O que segue não prevendo,
O que passou a esquecer.
Noto à margem do que li
O que julguei que senti.
Releio e digo: “Fui eu?”
Deus sabe, porque o escreveu.

*Fernando Pessoas

sábado, 20 de agosto de 2016

Fragmentos Filosóficos, Delirantes*


"Que encanto a imaginação poética encontra em zombar das censuras! (...) A poesia surge então como um fenômeno de liberdade."

"Com a poesia a imaginação coloca-se na margem em que precisamente a função do irreal vem arrebatar ou inquietar - sempre despertar - o ser adormecido nos seus automatismos."

"A palavra de um poeta tocando o ponto exato, abala as camadas profundas do nosso ser"

"Tudo se ativa quando se acumulam as contradições."

"Assim, uma imensa casa cósmica existe potencialmente em todo sonho de casa. De seu centro irradiam-se os ventos e as gaivotas saem pelas janelas. Uma casa tão dinâmica permite ao poeta habitar o universo. Ou, noutras palavras, o universo vem habitar sua casa."

"(...) os poetas são nossos mestres. Com que forças eles provam que as casas para sempre perdidas vivem em nós. Em nós elas insistem para reviver, como se esperassem de nós um suplemento de ser." 

"Alojado em toda parte, mas sem estar preso a lugar algum: essa é a divisa do sonhador de moradas."

"Quando um sonhador reconstrói o mundo a partir de um objeto que ele encanta com seus cuidados, convencemo-nos de que tudo é germe na vida de um poeta."

"Toda grande imagem simples revela um estado de alma."

"Mas o verdadeiro armário não é um móvel cotidiano. Não se abre todos os dias. Da mesma forma a chave, de uma alma que não se entrega, não está na porta."

*Gaston Bachelard in "A poética do espaço". Ed. Martins Fontes. SP. 2003

sexta-feira, 19 de agosto de 2016

Pais são invisíveis*


Seria o primeiro dia dos pais em que ele não estaria conosco. Falecera em setembro passado e  sua ausência física ainda era bastante presente. Estava desconfortável com a aproximação da data, pois sabia que recordações e lágrimas fariam parte deste “dia festivo”, e não me sentia animado para comemorar nada, sequer um simples almoço em família.

Preciso voltar um pouco no tempo. Logo após ele ter nos deixado, escrevi um artigo dizendo que pais não morrem, ficam invisíveis. Passado quase um ano, refleti melhor e hoje, penso que pais, mesmo vivos, são invisíveis na maioria do tempo. Filhos se comportam (ou descomportam) pela vida afora, seguindo experiências e exemplos observados presencialmente com seus pais. No entanto, mesmo longe da prole, o que se constitui quase a totalidade do tempo,  pais ainda continuam introjetados nos filhos, que anseiam a aprovação de suas condutas por parte de seus progenitores.

É como se os pais estivessem invisíveis observando-os a todo momento. O menino gazeia aula na escola, mas tem receio que o pai descubra; a garota volta tarde da balada e entra em casa na ponta dos pés para não ser percebida; o jovem fuma um baseado e depois escova os dentes para não ser descoberto; o casal separa e tem receio de contar para os pais. Não querem desapontá-los. Enfim, pais estão invisíveis no imaginário, no consciente, no superego, na transgressão, na culpa, na alegria e na tristeza dos filhos.

Por conta desta forma de pensar, aproveitei a invisibilidade perceptível de meu pai para amenizar o mal estar de  comemorar o dia dos pais em sua ausência. Sei que pode parecer bobagem ou loucura, mas reservei três lugares para almoçar no restaurante: um para mim, um para meu filho e outro para meu pai, que estaria ali sentado, só que não o enxergaríamos. Poderíamos conversar, contar coisas que aconteceram ao longo deste ano, pedir desculpas, conselhos, favores...

Marcamos o encontro para as 13:30 h no restaurante. Quase 14 horas e meu filho não aparecia. Preocupado, liguei para ele, que me respondeu estar atrasado e com demora prevista para mais uns quarenta minutos. Por alguns instantes fiquei chateado, famílias comemorando, se divertindo, e eu, solitário, em uma mesa com dois lugares vazios. Não sabia se passava uma descompostura em meu filho pela desconsideração, ou fazia de conta que nada havia acontecido.

Durou pouco o aborrecimento. Chamei o garçom, pedi uma cerveja para mim, um refrigerante para meu pai e me pus a conversar com ele. Não havia planejado nada, mas a situação criada pelo atraso me deu a oportunidade de resgatar um diálogo interrompido.

Às vezes, cuidamos de um ente querido, ficamos a seu lado, conversamos, choramos, sorrimos, nos abraçamos, despedimos, mas não conseguimos expressar o mais importante. Por algum motivo, aquilo que gostaríamos de falar fica trancado e não consegue ser dito. Aquela ocasião, dia dos pais, burburinho das pessoas, pratos desfilando, havia se transformado na hora certa e no momento exato. Não iria perder esta chance.

Apesar de saber da gravidade e do avanço inexorável da doença, meu pai resistiu com todas suas forças a nos deixar. Temia pela segurança da família em sua falta.  Sempre fora o provedor, cuidador, acolhedor, conselheiro, pai, avô, amigo e lhe era difícil imaginar esposa, filhos e netos sem sua guarda. Quase sem energia para falar, comer ou respirar, ainda assim, preocupava-se com todos. Era ele quem zelava por suas cuidadoras, e não o contrário.

Pensei várias vezes em lhe tirar esta responsabilidade, dizendo que ficasse tranqüilo e partisse em paz, pois cuidaríamos uns dos outros na sua privação. Mas não tive forças, faltou coragem ou até mesmo lucidez.  Receava ser mal interpretado ou magoá-lo.  Fiquei com esta fala engasgada, ele foi embora e não consegui dizer.

Um ano depois, sentados só os dois em uma mesa de restaurante, consegui dizer aquilo que talvez ele estivesse esperando há 12 meses para partir em paz. Um atraso de 365 dias de minha parte, uma espera de um ano da parte dele.

Quando meu filho finalmente chegou ao restaurante, com apenas sessenta minutos de atraso,  e com aquela cara de apressado/desculpa/aprovação, você acha que lhe passei uma descompostura ou um forte abraço? E quem estava sorrindo e feliz nos observando em sua invisibilidade?

*Ildo Meyer
Médico. Escritor. Filósofo Clínico. Autor de 'Visita de Médico' pela Editora Vozes.

quinta-feira, 18 de agosto de 2016

Poesia e amor sem gelo, por favor*


Não, eu nunca usei nenhum tipo de droga
para escrever
Poesia e Amor são os meus vícios
Sim, sou alcoolotra!
Dessas que se embriaga e não pensa no que fala
Não fumo maconha
Não cheiro cocaína
Não bebo cachaça
Liberdade não é isso, eu não preciso disso
Minhas viagens são sonhadoras
não alucinógenas
Na verdade, sinto que sou
a própria droga
Escrevo para não me perder de mim!…

*Marli Savelli

quarta-feira, 17 de agosto de 2016

A coisa*


A gente pensa uma coisa,
acaba escrevendo outra.
O leitor entende uma terceira coisa…
e, enquanto se passa tudo isso,
a coisa propriamente dita
começa a desconfiar que não foi propriamente dita.

*Mário Quintana

terça-feira, 16 de agosto de 2016

Anotações do Homem Nômade sobre o Acaso*


O Homem Nômade gosta dos exageros do pensamento e costuma se colocar com o advérbio “sempre”, contrariando as regras de como se escreve um texto acadêmico e por ora diz que sempre, no sentido de constantemente, ele se situa nos olhos da filosofia. Acordou pensando, quase sempre em suas obsessões pós-leituras de quotidiano, sobre o conceito, a noção de Acaso.

Começa pelos gregos, por Aristóteles a pensar sobre o Acaso. Da noção subjetivista e objetivista se tira uma causa superior, em que o oculto afasta as explicações racionais e que a sorte é algo superior que está longe do alcance da inteligência humana. Os estoicos colocam o Acaso como algo que escapa da ilusão porque tudo que acontece é parte da necessidade racional.

O Homem Nômade apenas gosta de refletir sobre isso, passa da filosofia à literatura, ao cinema, às imagens e desemboca na visão moderna de Acaso, mas continua a pensar, não para resolver os problemas do mundo, mas “sempre” para compreender o seu exagero quotidiano.

Na noção objetivista, e depois de ter acordado para a manhã desse outono de 2008, lembra do conceito mais moderno, em que o Acaso é insuficiência de probabilidades na previsão.

Para Aristóteles, o Acaso tem algo de finalidade por ter aparência de finalidade, exemplo:
Uma pessoa vai a algum local e acaba encontrando alguém que imaginou encontrar um dia porque essa pessoa estava lhe devendo algo. Aqui entra a sorte.

Na filosofia contemporânea entramos com Hume, em que o Acaso é parte da probabilidade das coisas, ou seja, que não é necessariamente obrigatório que acontecerá algo. Para Peirce, deixa de existir o “necessitarismo”, doutrina que tudo no mundo existe por necessidade.

O Acaso é um juízo de probabilidades e que essa própria probabilidade não tem “relevância suficiente para permitir prever um evento”:
“Nesse sentido o Acaso foi considerado uma espécie de entropia e o conceito relativo comumente é empregado no campo da informação e da cibernética (Abbagnano, 1998, p. 12).”

O Homem Nômade não se dá nunca por satisfeito com relação à vida, mas sobre questões de linguagens ele se dá por feliz em compreender a noção de algumas coisas. Não deseja recuperar o mundo, muito menos salvar os amantes do seu fim, retroceder a última imagem como se fosse a primeira. O livro acaba onde se começa o próximo.

*Dr. Luis Antônio Paim Gomes 

segunda-feira, 15 de agosto de 2016

Sobre a escrita*


Meu Deus do céu, não tenho nada a dizer. O som de minha máquina é macio.

Que é que eu posso escrever? Como recomeçar a anotar frases? A palavra é o meu meio de comunicação. Eu só poderia amá-la. Eu jogo com elas como se lançam dados: acaso e fatalidade. A palavra é tão forte que atravessa a barreira do som. Cada palavra é uma idéia. Cada palavra materializa o espírito. Quanto mais palavras eu conheço, mais sou capaz de pensar o meu sentimento.

Devemos modelar nossas palavras até se tornarem o mais fino invólucro dos nossos pensamentos. Sempre achei que o traço de um escultor é identificável por um extrema simplicidade de linhas. Todas as palavras que digo – é por esconderem outras palavras.

Qual é mesmo a palavra secreta? Não sei é porque a ouso? Não sei porque não ouso dizê-la? Sinto que existe uma palavra, talvez unicamente uma, que não pode e não deve ser pronunciada. Parece-me que todo o resto não é proibido. Mas acontece que eu quero é exatamente me unir a essa palavra proibida. Ou será? Se eu encontrar essa palavra, só a direi em boca fechada, para mim mesma, senão corro o risco de virar alma perdida por toda a eternidade. Os que inventaram o Velho Testamento sabiam que existia uma fruta proibida. As palavras é que me impedem de dizer a verdade.

Simplesmente não há palavras.

O que não sei dizer é mais importante do que o que eu digo. Acho que o som da música é imprescindível para o ser humano e que o uso da palavra falada e escrita são como a música, duas coisas das mais altas que nos elevam do reino dos macacos, do reino animal, e mineral e vegetal também. Sim, mas é a sorte às vezes.

Sempre quis atingir através da palavra alguma coisa que fosse ao mesmo tempo sem moeda e que fosse e transmitisse tranqüilidade ou simplesmente a verdade mais profunda existente no ser humano e nas coisas. Cada vez mais eu escrevo com menos palavras. Meu livro melhor acontecerá quando eu de todo não escrever. Eu tenho uma falta de assunto essencial. Todo homem tem sina obscura de pensamento que pode ser o de um crepúsculo e pode ser uma aurora.

Simplesmente as palavras do homem.

*Clarice Lispector

domingo, 14 de agosto de 2016

A primavera e o amor*


Sim, eu fui ver
Brotaram lá fora
As flores ligeiras
Das laranjeiras
Brotaram os brotos
Das flores no jardim
Voltaram os passarinhos
E os beija-flores
E as borboletas
Que sempre voltam....
É que mentiram para mim
Durante este inverno frio
Que nesta terra triste
Estavam mortos os poetas
Mentiram para mim
Que a primavera não viria
Fizeram chacota, pouco caso
Dos amores românticos...
O menino não morreu, não
Apenas dormiu
Vejo minha sombra no chão
Sombra que não é minha
Ela usa cabelos longos
E um longo vestido ,
Azul...

*José Mayer
Poeta, Amante dos Livros, Estudante na Casa da Filosofia Clínica.
Porto Alegre/RS

sábado, 13 de agosto de 2016

Fragmentos Filosóficos, Delirantes*


"Reconhecer no estranho o que é próprio, familiarizar-se com ele, eis o movimento fundamental do espírito, cujo ser é apenas o retorno à si mesmo a partir do ser diferente."

"(...) O segredo divino da vida é sua simplicidade."

"O verdadeiro problema da compreensão aparece quando, no esforço de compreender um conteúdo, coloca-se a pergunta reflexiva de como o outro chegou à sua opinião. Pois é evidente que um questionamento como este anuncia uma forma de alteridade bem diferente, e significa, em último caso, a renúncia a um sentido comum."

"O que deve ser compreendido não é a literalidade das palavras e seu sentido objetivo, mas também a individualidade de quem fala e, consequentemente, do autor. "

"(...) o ato da compreensão é a realização re-construtiva de uma produção."

"Quando se ouve alguém ou quando se empreende uma leitura, não é necessário que se esqueçam todas as opiniões prévias sobre seu conteúdo e todas as opiniões próprias. O que se exige é simplesmente a abertura à opinião do outro ou à do texto."

"Horizonte é o âmbito de visão que abarca e encerra tudo o que é visível a partir de um determinado ponto. Aplicando-se à consciência pensante falamos então da estreitez do horizonte, da possibilidade de ampliar o horizonte, da abertura de novos horizontes (...)"

"Na verdade, o horizonte do presente está num processo de constante formação, na medida em que estamos obrigados a pôr à prova constantemente todos os nossos preconceitos."

"A conversação é um processo pelo qual se procura chegar a um acordo. Faz parte de toda verdadeira conversação o atender realmente ao outro, deixar valer os seus pontos de vista e pôr-se em seu lugar, e talvez não no sentido de que se queira entendê-lo como esta individualidade, mas sim no de que se procura entender o que diz."

*Hans-Georg Gadamer in "Verdade e Método. Traços fundamentais de uma hermenêutica filosófica."
Ed. Vozes. Petrópolis/RJ. 1997.

sexta-feira, 12 de agosto de 2016

Fragmentos Filosóficos, Delirantes*


"Não se pode estudar à parte a imagem mental. Não há um mundo das imagens e um mundo dos objetos. Mas todo objeto, quer se apresente à percepção, quer apareça ao sentido íntimo, é suscetível de funcionar como realidade presente ou como imagem, segundo o centro de referência escolhido. Os dois mundos, o imaginário e o real, são constituídos pelos mesmos objetos; só variam os agrupamentos e a interpretação desses objetos. O que define o mundo imaginário tanto quanto o universo real é uma atitude da consciência." 

"(...) quando se faz da palavra tal como aparece na linguagem interior uma imagem mental, faz-se do signo uma imagem."

"(...) as visões hipnagógicas são imagens. caracteriza a atitude da consciência diante dessas aparições com as palavras 'espetacular e passiva'. É que ela coloca como de fato existentes os objetos que lhe aparecem. Todavia, na base dessa consciência há uma tese positiva: se essa mulher que atravessa meu campo visual, quando meus olhos estão fechados, não existe, pelo menos sua imagem existe. Alguma coisa aparece para mim que representa uma mulher. Frequentemente, a própria imagem se apresenta como mais nítida do que seu objeto."

"Ler é realizar nos signos o contato com o mundo irreal. Nesse mundo há plantas, animais, campos, cidades, homens: em primeiro lugar aqueles de que o livro trata e depois uma porção de outros que não são nomeados, mas que estão no fundo e dão espessura a esse mundo."

"(...) não se trata aqui de um saber imaginante vazio: a palavra desempenha muitas vezes o papel de representante  sem abandonar o de signo, e estamos lidando, na leitura, com uma consciência híbrida, meio significante e meio imaginante."

"O ato de imaginação, como acabamos de ver, é um ato mágico. É um encantamento destinado a fazer aparecer o objeto no qual pensamos, a coisa que desejamos, de modo que dela possamos tomar posse. Nesse ato, há sempre algo de imperioso e infantil, uma recusa de dar conta da distância, das dificuldades. Dessa forma, a criança, em seu leito, age sobre o mundo com ordens e preces. A essas ordens da consciência os objetos obedecem: aparecem. Mas têm um modo de existência muito particular (...)"

*Jean-Paul Sartre in "O imaginário". Ed. Ática. SP. 1996.  

quinta-feira, 11 de agosto de 2016

Da natureza inédita em todas as coisas*

                

Um cotidiano plural se abre frente ao espelho das singularidades. Nesse viés discursivo recém chegando, oferece seus inéditos numa língua estranha. Por seu caráter de novidade, recusa o gesso da classificação especialista. Numa interseção de acolhimento e partilha, concede alguma visibilidade ao que restaria desconhecido.  

Em uma experiência de transbordamento excepcional, num tempo subjetivo e de local indeterminado, a estrutura de pensamento se refaz. Nesse ímpeto de incertezas, um teor de expressividade transgressora se deixa entrevistar, seus deslizes narrativos, olhares desfocados e a escuta das lógicas sem sentido, apontam suas fontes de inspiração.

Uma hermenêutica compreensiva acolhe a desestruturação fundante, seu aspecto de estranheza refere o sujeito acessando algo em vias de tornar-se. Seu aparecimento, num viés discursivo singular, escolhe quando e a quem se mostrar, se apresentando quase invisível ao espírito de rebanho das unanimidades.

É incrível notar que a cada pessoa compete uma fatia generosa de realidades. Para acessá-las reivindica-se uma distorção às novas frequências existenciais. Embora convivendo em contextos de semelhança e entendimento, o que se destaca é o ângulo inédito recém chegando. Aqui não se trata de ser o primeiro ou o último em qualquer coisa, mas de uma relação insubstituível consigo mesmo.
       
Ao entrever originalidades descreve-se em novas conformações, emancipa fronteiras, destitui certezas, amplia as definições do indefinido. Uma interrogação assim descrita, pode se reinventar numa poética das reticências. Talvez uma intuição sobre a natureza inteira refugiada num sopro de vida.

Nesse anúncio de algo por vir, a essência do carpe diem pode acessar a decifração parcial do enigma multiplicando-se. Aqui se cogita sobre uma pátria de exilados, em uma língua estranha, a proteger os inéditos territórios. Vislumbres da eternidade ancorada num aqui-agora, quiçá porta-voz da natureza inédita em todas as coisas.

*Hélio Strassburger

quarta-feira, 10 de agosto de 2016

Aviso*


Se me quiseres amar,
terá de ser agora: depois
estarei cansada.
Minha vida foi feita de parceria com a morte:
pertenço um pouco a cada uma,
pra mim sobrou quase nada.

Ponho a máscara do dia,
um rosto cômodo e simples,
e assim garanto a minha sobrevida.

Se me quiseres amar,
terá de ser hoje:
amanhã estarei mudada.

*Lya Luft