quarta-feira, 30 de novembro de 2016

Aprender a sentir*


Um dia percebemos e aprendemos a captar essa linguagem que se forjou através da comoção de impulsos de pulsos de amor que pouco a pouco, passo a passo, persistiram demais e ainda persistem materializando fonemas que se somam até compor glórias de sensações que passam a fazer sentido pela descoberta.

E esse fenômeno está sempre em construção, sempre inacabado e por alguma razão transcende qualquer razão. Essa linguagem nos toca nos conecta um a um, pouco a pouco na direção de singularidades fundamentais e infinitas.

De algum modo, há um propósito ordinário por ser comum, mas também, extraordinário por depender de cada um de nós a partir do nosso próprio jeito de criar e de mudar as coisas ungidos pela vontade de saber e fazer.

Podemos tanto mesmo quando permeados pelas sombras que tentam nos fazer esquecer, sobretudo, de nós mesmos. E ainda que incompreensões persistam quando limitadas apenas aos muros da razão, saberes como a historiografia dita oficial, a sociologia dita ocidental ou a antropologia dita moderna fatalmente se perdem em labirintos de contradições e vaidades que porventura somente a poesia pode dar conta.

É preciso aprender a sentir para muito além de pensar, é preciso considerar outros saberes e outros fazeres. Enfim, talvez seja por isso que a poesia persista e prevaleça revelando-nos que ela jamais morrerá. Musa!

*Prof. Dr. Pablo Eugenio Mendes
Filósofo. Educador. Filósofo Clínico.
Uberlândia/MG-Porto Alegre/RS

terça-feira, 29 de novembro de 2016

Fragmentos Filosóficos, Delirantes*


"Nas horas de grandes achados, uma imagem poética pode ser o germe de um mundo, o germe de um universo imaginado diante do devaneio de um poeta. A consciência de maravilhamento diante desse mundo criado pelo poeta abre-se com toda ingenuidade"

"(...) O sonhador escuta já os sons da palavra escrita. Um autor, não lembro quem, dizia que o bico da pena era um órgão do cérebro"

"Ainda existem almas para as quais o amor é o contato de duas poesias, a fusão de dois devaneios"

"(...) como pode um homem, apesar da vida, tornar-se poeta ?"

"O cientista continua. O alquimista recomeça. Assim, referências objetivas a purificações da matéria nada nos podem ensinar a respeito dos devaneios de pureza que dão ao alquimista a paciência de recomeçar"

"(...) o devaneio, transportando o sonhador para outro mundo, faz do sonhador alguém diferente dele mesmo (...)"

"Ver e mostrar estão fenomenologicamente em violenta antítese"

"A flor nascida do devaneio poético é então o próprio ser do sonhador, seu ser florescente"

"Que importam para nós, filósofo do sonho, os desmentidos do homem que reencontra, após o sonho, os objetos e os homens ? O devaneio foi um estado real, em que pesem as ilusões denunciadas depois. E estou certo de que fui eu o sonhador. Eu estava lá quando todas essas coisas lindas estavam presentes no meu devaneio. (...) A expressão poética adquirida no devaneio aumenta a riqueza da língua"

"Os poetas, em seus devaneios cósmicos, falam do mundo em palavras primeiras, em imagens primeiras. Falam do mundo na linguagem do mundo. As palavras, as belas palavras, as grandes palavras naturais, acreditam na imagem que as criou"

*Gaston Bachelard in "A poética do devaneio". Ed. Martins Fontes. SP. 2001  

segunda-feira, 28 de novembro de 2016

Trem do tempo*


“Pois os pensamentos são uma coisa estranha. Muitas vezes não passam de acasos que desaparecem sem deixar rastros; os pensamentos têm épocas de viver e épocas de morrer.” Robert Musil – O jovem Törless

Não tenho nada a dizer, o dito pelo dito é entediante,
Melhor ler do que dizer, melhor sentir do que falar,
Tenho muito a viver, o tempo chega ao fim.
Tenho algo a fazer, construir um mundo de imagens,
Tenho muito a colher, a vida foi longa,
A colheita é breve, a dor só existe na seca.
Choramos para nos alegrar, cantamos para acordar a noite.
A palavra escrita é o alimento, a voz é o vaguear no tempo,
O fim é o início de outras escritas, de vozes que não temem o fim.
Os dias perdem forças no tempo chega ao fim.
Deixo a negação para o momento do tempo que se perde,
Tenho tudo a ler, livros perdem o tempo único.
A leitura dos lábios é o signo que o rio perde no fim.
Um dia escrevo tudo, outro dia falo muito, a angústia me resgata no fim da linha. A vida é tênue.

*Prof. Dr. Luis Antonio Paim Gomes
Filósofo. Editor. Livre Pensador.
Porto Alegre/RS

domingo, 27 de novembro de 2016

Reinvenção*


A vida só é possível
reinventada.

Anda o sol pelas campinas
e passeia a mão dourada
pelas águas, pelas folhas...
Ah! tudo bolhas
que vem de fundas piscinas
de ilusionismo... — mais nada.

Mas a vida, a vida, a vida,
a vida só é possível
reinventada.

Vem a lua, vem, retira
as algemas dos meus braços.
Projeto-me por espaços
cheios da tua Figura.
Tudo mentira! Mentira
da lua, na noite escura.

Não te encontro, não te alcanço...
Só — no tempo equilibrada,
desprendo-me do balanço
que além do tempo me leva.
Só — na treva,
fico: recebida e dada.

Porque a vida, a vida, a vida,
a vida só é possível
reinventada.

*Cecília Meireles

sábado, 26 de novembro de 2016

Fragmentos Filosóficos, Delirantes


"São sonhos, sobretudo, que unem artista e rua"

"(...) as contradições que animam a cidade moderna ressoam na vida interior do homem da rua"

"Não obstante, a verdade é que, como Marx o vê, tudo o que a sociedade burguesa constrói é construído para ser posto abaixo. 'Tudo que é sólido' - das roupas sobre nossos corpos aos teares e fábricas que as tecem aos homens e mulheres que operam as máquinas, às casas e aos bairros onde vivem os trabalhadores, às firmas e corporações que os exploram, às vilas e cidades, regiões inteiras e até mesmo as nações que as envolvem - tudo isso é feito para ser desfeito amanhã, despedaçado ou esfarrapado, pulverizado ou dissolvido, a fim de que possa ser reciclado ou substituído na semana, talvez para sempre, sob formas cada vez mais lucrativas"

"Que espécie de pessoas produz essa revolução permanente ? Para que as pessoas sobrevivam na sociedade moderna, qualquer que seja a sua classe, suas personalidades necessitam assumir a fluidez e a forma aberta dessa sociedade"

"No manifesto, a ideia de Marx é que a burguesia efetivamente realizou aquilo que poetas, artistas e intelectuais modernos apenas sonharam, em termos de modernidade"

"Em nossos dias, tudo parece estar impregnado do seu contrário"

" Todas as nossas invenções e progressos parecem dotar de vida intelectual as forças materiais, estupidificando a vida humana no nível da força material"

"Ser moderno é encontrar-se em um ambiente que promete aventura, poder, alegria, crescimento, autotransformação e transformação das coisas em redor - mas ao mesmo tempo ameaça destruir tudo o que temos, tudo o que sabemos, tudo o que somos (...)"

"Ser moderno é fazer parte de um universo no qual, como disso Marx, 'tudo que é sólido desmancha no ar'"

*Marshall Berman in "Tudo que é sólido desmancha no ar" Ed. Cia das Letras. SP. 2007.  

sexta-feira, 25 de novembro de 2016

Ainda estamos juntos*


Sonhei com meu pai. Estava com uma aparência saudável, avental de médico e muito animado. Chamou-me para ver o consultório que montara em seu novo plano existencial. Se quiserem, também podem chamar de céu. Era um consultório nos mesmos moldes que mantinha aqui na terra: papel de parede diferenciado, grande sala de espera, aquário com peixinhos, poltronas confortáveis, diplomas e quadros nas paredes.

Disse-me que demorou quase um ano para se ajeitar por lá, mas que agora já estava em condições de atender seus clientes. Parecia feliz em mostrar sua adaptação.

Despertei e não me preocupei em interpretar nada. Signifiquei apenas que a partida dele foi tranqüila, que estava bem por lá, que mantinha conexão comigo. Passei a manhã inteira animado e com uma sensação de leveza, missão cumprida e proteção espiritual. Bateu uma saudade forte também.

Acontece que sendo filósofo, não pude me furtar de pensar que onde quer que meu pai esteja, seu consultório não terá poltronas, mesas, estetoscópios, quadros. Até onde eu saiba, lá em cima não existe corpo, não há matéria. No sonho, desloquei-me até lá, mas fui com a visão de mundo terrena, com aquilo que conheço, com as idéias que me povoam.

Não entrei verdadeiramente em sua morada atual, não sei como funcionam as coisas por lá. Para mim é algo muito vago, confuso, misterioso, e até certo ponto, impenetrável para quem ainda reside num corpo. Meu subconsciente fez de conta que fui até lá, mas certamente o consultório dele é bem diferente do que sonhei, o que não diminuiu, de forma alguma, o prazer de sonhar com meu pai.

Fazemos este mesmo tipo de confusão conceitual quando tentamos nos colocar no lugar do outro e sentir o que esta pessoa sentiria, caso estivéssemos na mesma situação vivenciada por ela. Pedro está desanimado porque perdeu o emprego e vem pedir minha ajuda. Marta terminou um relacionamento, quer ouvir meu conselho. Não tenho a menor noção de como são seus mundos, suas buscas, sentimentos, princípios. Como ajudá-los?

Na maior parte dos casos em que nos dispomos a auxiliar, apenas acolhemos o outro com a bagagem de nossas próprias experiências, com as idéias, preconceitos e valores que nos habitam. Não entramos em seus mundos de fato, limitamo-nos , apressadamente, a dizer algumas palavras de consolo.

Escutar é diferente de entender, e entender é diferente de sentir. Quando digo que entendo o sofrimento de Pedro ou Marta, permaneço em meu mundo lógico e racional tentando confortá-los, mas não vou ao universo deles. A intenção pode ser boa, mas a viagem até o outro não acontece e o sentimento não se transmite. Faço de conta que entrei na pele deles, mas levando comigo meu cérebro particular, limitado e parcial, mais ou menos como tentei entrar no céu com meu corpo físico.

Sentir é ir além, é ultrapassar a fronteira do entender. Sentir é chorar junto com Pedro e Marta, como se a dor e o problema deles fossem meus. Não é dizer o que eu faria se estivesse em seus lugares ou tratá-los como eu gostaria de ser tratado. Sentir é entrar em suas histórias, envolvendo e identificando-me com eles. Um sorriso, uma lágrima, um abraço, podem falar mais que palavras.

Quando o outro abre a porta e me permite entrar em seu território sagrado, humildemente entro despido de considerações ou pareceres. Meus julgamentos precisam ficar do lado de fora.  Estou transpondo um portal desconhecido imensurável, entrarei para sentir, não para ajuizar. O mundo do outro funciona como o consultório de meu pai no céu: desconhecido e amplo.

Possuo um arsenal de ferramentas que costumo empregar para resolver meus problemas, mas não sei se Pedro e Marta sabem utilizá-las, querem que eu as empreste ou funcionarão em suas vidas. Não posso barbaramente invadir seus mundos com minhas ferramentas e sair dizendo como devem se comportar. Meus conselhos refletem minha forma de pensar e sentir, que é diferente de Pedro, que é diferente de Marta.

Em muitos casos, sequer consegue-se chegar perto do mundo do outro. Apesar da porta aberta, não estamos prontos para entrar, a distância existencial é enorme. Um bebê não consegue entrar no mundo de um idoso, faltam-lhe vivências. Casais podem se distanciar emocionalmente, pais relatam desconhecer seus filhos, pacientes nem sempre alcançam seus terapeutas, leitores podem não entender escritores. Patamares autogênicos diferentes, visões de mundo diversas. Não existe regra, mas parece mais fácil ao sábio descer de seu patamar e ir ao encontro do outro para que a aproximação aconteça.

Foi o meu caso. Como não consegui alcançar o plano existencial elevado de meu pai, ele veio até mim através de um sonho.  Sabiamente utilizou as ferramentas que conheço, para se comunicar e me fazer sentir que ainda estávamos juntos. Simples assim. Não cabem suposições ou conjecturas. “Ainda estamos juntos”, foi o recado dado, meramente isto. Ou melhor, tudo isto. De uma forma ou de outra, quando existe amor, as portas nunca fecham.

*Ildo Meyer. Médico. Filósofo Clínico.
Porto Alegre/RS

quinta-feira, 24 de novembro de 2016

Poema em linha reta*


Nunca conheci quem tivesse levado porrada.
Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.

E eu, tantas vezes reles, tantas vezes porco, tantas vezes vil,
Eu tantas vezes irrespondivelmente parasita,
Indesculpavelmente sujo.
Eu, que tantas vezes não tenho tido paciência para tomar banho,
Eu, que tantas vezes tenho sido ridículo, absurdo,
Que tenho enrolado os pés publicamente nos tapetes das etiquetas,
Que tenho sido grotesco, mesquinho, submisso e arrogante,
Que tenho sofrido enxovalhos e calado,
Que quando não tenho calado, tenho sido mais ridículo ainda;
Eu, que tenho sido cômico às criadas de hotel,
Eu, que tenho sentido o piscar de olhos dos moços de fretes,
Eu, que tenho feito vergonhas financeiras, pedido emprestado
[sem pagar,
Eu, que, quando a hora do soco surgiu, me tenho agachado
Para fora da possibilidade do soco;
Eu, que tenho sofrido a angústia das pequenas coisas ridículas,
Eu verifico que não tenho par nisto tudo neste mundo.

Toda a gente que eu conheço e que fala comigo
Nunca teve um ato ridículo, nunca sofreu enxovalho,
Nunca foi senão príncipe — todos eles príncipes — na vida…

Quem me dera ouvir de alguém a voz humana
Que confessasse não um pecado, mas uma infâmia;
Que contasse, não uma violência, mas uma cobardia!
Não, são todos o Ideal, se os oiço e me falam.
Quem há neste largo mundo que me confesse que uma vez foi vil?
Ó príncipes, meus irmãos,

Arre, estou farto de semideuses!
Onde é que há gente no mundo?

Então sou só eu que é vil e errôneo nesta terra?

Poderão as mulheres não os terem amado,
Podem ter sido traídos — mas ridículos nunca!
E eu, que tenho sido ridículo sem ter sido traído,
Como posso eu falar com os meus superiores sem titubear?
Eu, que venho sido vil, literalmente vil,
Vil no sentido mesquinho e infame da vileza.

*Fernando Pessoas

quarta-feira, 23 de novembro de 2016

A cidade das palavras esquecidas*


“É possível que desde Sófocles todos nós sejamos selvagens tatuados. Mas na Arte existe alguma outra coisa além da retidão das linhas e do polido das superfícies. A plástica do estilo não é tão ampla como toda a ideia (...) Temos coisas demais para as formas que possuímos”
                              Flaubert

Num cotidiano de atividade limite existe uma aproximação com a subjetividade do não dito. O não sentido concede vestígios ao artesão das palavras. Uma nova conjugação se anuncia na rasura do texto conhecido. Manuscritos assim costumam se expressar em linguagem própria.

A expressividade desses fenômenos, um pouco antes de significar-se no traço da autoria, se insinua nalguma forme de transbordamento. Sua subjetividade acolhe essa intencionalidade para resignificar seus dias. Busca compartilhada da contradição com a estrutura do delírio.  

Um leitor de incompletudes desvenda esses horizontes por vir. Sua atividade inclui rituais de tradução a essas páginas chegando. Acolhe a referência às lacunas como fonte de inspiração, descreve um lugar de integração para texto e contexto. As brumas contidas nos jogos de linguagem protegem seus ensaios estruturais.  

Nessa matriz de onde se apresentam as novas derivações, um devir compartilhado acolhe o que restaria distorcido. A quebra discursiva é um desses vestígios por onde a fala estrangeira se diz. Sua composição rasura a página com uma crônica absurda. Essa vontade distorcida, ao elaborar dialetos inusitados, se faz poesia existencial.  

A reciprocidade permite encontrar a fonte desses esboços desmerecidos. Neles a natureza, ao desajustar o mundo conhecido, se desdobra tal qual ela é. Seu devir libertário se expressa em linguagem própria. Nela a condição exilada rascunha seus propósitos, elabora significados, reapresenta-se ainda sem nexo.

É possível à multidão de personagens surgir em meio às poéticas clandestinas. Seu inesperado descreve uma fenomenologia do porvir. A compreensão dessas narrativas descreve um terapeuta da palavra fora de si. Sua percepção em sintonia lhe autoriza a transitar pela cidade das palavras esquecidas.  

*Hélio Strassburger

terça-feira, 22 de novembro de 2016

Uma Didática da Invenção*


I
Para apalpar as intimidades do mundo é preciso saber:
a) Que o esplendor da manhã não se abre com
faca
b) 0 modo como as violetas preparam o dia
para morrer
c) Por que é que as borboletas de tarjas
vermelhas têm devoção por túmulos
d) Se o homem que toca de tarde sua existência
num fagote, tem salvação
e) Que um rio que flui entre 2 jacintos carrega
mais ternura que um rio que flui entre 2
lagartos
f) Como pegar na voz de um peixe
g) Qual o lado da noite que umedece primeiro.
Etc.
etc.
etc.
Desaprender 8 horas por dia ensina os princípios.

IV
No Tratado das Grandezas do Ínfimo estava
escrito:
Poesia é quando a tarde está competente para
Dálias.
É quando
Ao lado de um pardal o dia dorme antes.
Quando o homem faz sua primeira lagartixa
É quando um trevo assume a noite
E um sapo engole as auroras

IX
Para entrar em estado de árvore é preciso
partir de um torpor animal de lagarto às
3 horas da tarde, no mês de agosto.
Em 2 anos a inércia e o mato vão crescer
em nossa boca.
Sofreremos alguma decomposição lírica até
o mato sair na voz.

Hoje eu desenho o cheiro das árvores.

X
O rio que fazia uma volta atrás de nossa casa
era a imagem de um vidro mole que fazia uma
volta atrás de casa.
Passou um homem depois e disse: Essa volta
que o rio faz por trás de sua casa se chama
enseada.
Não era mais a imagem de uma cobra de vidro
que fazia uma volta atrás de casa.
Era uma enseada.
Acho que o nome empobreceu a imagem.

*Manoel de Barros

segunda-feira, 21 de novembro de 2016

A vida e seus milagres*


A vida é um milagre que de repente acontece e aí já é; e continua. A vida é um milagre e por mais que ansiedades, pretensões, prepotências, egoísmos ou apegos possam intervir e superficialmente parecer dominar, na verdade, o poder do amor prossegue o seu caminho inabalável até tocar todos os corações mais dia menos dia.

Por isso, a poesia persiste seja nas linhas seja nas entrelinhas, seja no suspiro sincero, na pulsação ou nos intervalos entre um pulso e outro. A poesia nunca morre nem esfria. Porventura, mentiras sempre cairão por terra, ilusões também, mas o amor, nossa o amor é foda e por ser ou estar infinitamente no agora, sempre continua enquanto máscaras se desfazem e corações se regeneram, sobretudo, quando se cansam de doerem, de amargarem, de se enganarem.

E é quando o mistério da vida transborda e se torna resposta concreta é que percebemos o quanto a nossa alma se revela nas motivações provindas daquilo que vem de dentro para fora e que é provocado por inspiração.

Ao mesmo tempo, sentimos a manifestação de incentivos, literalmente daquilo que vem de fora para dentro, por exemplo, quando o amor genuíno nos toca seja pelas mãos do outro seja pelas dádivas providas das colheitas daquilo que outrora plantamos e cultivamos pacientemente.

Enfim, a poesia é puro ato de amor por resistência, por persistência, por ternura, por intuição, por reação e muito mais mas, sobretudo, é um ato de sabedoria, doação e gratidão. Musa!

*Prof. Dr. Pablo Mendes
Filósofo. Educador. Filósofo Clínico.
Porto Alegre/RS

domingo, 20 de novembro de 2016

Fragmentos Filosóficos, Delirantes*


"(...) sempre existem, entre as dualidades universais, entre as pluralidades, o mundo da razão e o que é alheio a este"

"É que o meu mundo não é o mundo de vocês (...). De forma que eu não conheço o mundo de vocês e vocês não conhecem o meu"

"O que é a vida senão uma recordação de bundas e bocetas em que a gente penetrou ?" 

"Penso que em outros tempos eu vivia num mundo mais semelhante ao de vocês, refiro-me ao mundo da razão, mas as coisas se tornaram cada vez mais insustentáveis e comecei a deixar a casa daquele mundo e a retirar-me para esta"

"Ora, pelo amor de Deus, Moise, sou eu que me traio para todo mundo, ninguém se trai para mim nem é traído por mim"

"O mundo da razão deixou de ser sustentável para mim (...) usei todas as minhas tintas até esgotá-las"

"Suponho que seja simplesmente e inevitavelmente humano atribuir todas as deserções da pessoa amada a alguma influência diversa daquilo que é a causa mais comum, a saber, a nossa própria insuficiência em face dos seus requisitos no que diz respeito a um amante"

"Desde que deixei minha casa, ainda na adolescência, tenho levado uma vida de nômade, por assim dizer, como se tivesse perdido em alguma parte uma coisa de vital importância para mim e andasse à procura dela"

"Há certas frases que um ilustre escritor fracassado deve envergonhar-se de completar, como quem conta um segredo"

"Eis aí uma frase incompleta, mas de que outra coisa é feita a vida ?"

*Tennessee Williams in "Moise e o mundo da razão". Ed. Círculo do livro. SP. 1975. 

sábado, 19 de novembro de 2016

Fenomenologia das imagens*

                      
“As sílabas recolhidas pelos lábios — belo silencioso círculo — ajudam a estrela rastejante em seu centro.”
Paul Celan

Os sentimentos andam ao lado de nossa vontade. Nossos desejos não são alterações meteorológicas e sim psíquicas. São funções de nossas percepções e sonhos. Um cruzar de idéias que percorrem o tempo de nossa existência. Esse cruzar complexo, onde mora o único valor, o que pode nos manter vivos todas às manhãs quando acordamos. 

É o acordar do “trajeto antropológico” sob as imagens que circulam nosso Ser esse tempo todo. Sonoridade na dor, na despedida e nas chegadas das imagens. O encontro do vivido com o que buscamos mais adiante do olhar.

Meus sentimentos começaram antes do século XX findar. Bem antes, quando ainda sentia poder encontrar através das imagens todas as linguagens que fossem o expressar do cotidiano. O cotidiano lançou seus dados Mallarmaicos que impulsionaria as inspirações nos signos de hoje. Assim acordei pensando em Octavio Paz no seu Arco e a Lira, em que diz: “Não é a técnica que nega a imagem do mundo; é o desaparecimento da imagem que torna possível a técnica”.

As palavras tomam conta dos dias. As gerações, eu leio, incessantemente, me afasto a cada página lida. Fujo dos absolutos. Entrego-me incessantemente à diversidade da vida, da dor, das paixões.

As palavras são mais do que razões para se ter, pensar sobre os objetos e sobre as possibilidades da verdade. Muito mais, elas, agora, a linguagem, o signo me levou para o distante das utopias. Joga-me no deserto dos saberes, da desilusão e do fim de um tempo que se abre ao novo. De outros: do fim dos fins. Sempre a jogar, as palavras verdadeiramente à vida do fluxo e refluxo da dialógica dos acontecimentos.

Um olhar fenomenológico é posto acima disso, do que está dado, é um complexo religar as imagens do cotidiano. À deriva, ao sabor do presente e de todos os tempos, as imagens são verdadeiras como “as noites que fixam sob o teu olho”, escreveu Paul Celan.

(Um blog, um espaço para o texto, pensamento, as ideias, todas as possibilidades de pensar no texto. Filosofia, literatura, arte, cinema, livros, o humano demasiado humano. Criado em 2007, sob forte influência de Barthes, depois de ter acabado de concluir meu doutorado, nasceu "em colocá-los numa maquinaria de linguagem".)   

*Prof. Dr. Luis Antonio Paim Gomes
Filósofo. Editor. Livre Pensador.
Porto Alegre/RS

terça-feira, 15 de novembro de 2016

Fragmentos Filosóficos, Delirantes*


"Para os alunos, ele era um anarquista - vivaz, excêntrico, profano"

"Sua mente era um fluxo só, a cabeça cheia de ideias discordantes, que se cristalizavam em belas sequências de prosa, que subiam do pântano às alturas do ascetismo"

"Escrevia os contos que se tornariam Dubliners, luminosas imagens da cidade que professava odiar, mas que apesar disso estão impregnadas de ternura pelas criaturas perdidas 'excluídas do festim da vida'"

"Durante toda a vida foi um leitor voraz. Lia livros, panfletos, manuais, guias de ruas, tudo e qualquer coisa para alimentar seus gostos ecléticos e sua sede de saber" 

"Joyce recorreu em vão aos amigos literários. Thomas Kettle leu os contos e disse que eles fariam mal à Irlanda. A cada dia que passava, intensificavam-se os escrúpulos e objeções"

"Dois anos depois, o editor original (...) decidiu publicar Dubliners. As críticas foram mornas, o material julgado medíocre e mórbido, o autor acusado de tratar de temas não normalmente ventilados"

"(...) nos pensamentos, como nas obras, tudo nele era complexo e paradoxal"

"Como grande artista, Joyce tinha ideias radicais e mutáveis sobre tudo"

(...) ele tinha de experimentar tudo para escrevê-lo. Não era só isso. Ia espantar seus leitores. Ia levá-los a um pico de consciência a que não haviam chegado antes. (...) Iria abrir fronteiras desconhecidas"

"Um americano, o Dr. Joseph Collins, que conhecera Joyce por intermédio de um amigo comum, disse que tinha em seus arquivos textos de loucos com a mesma qualidade, e dava em seguida uma explicação médica da deterioração do cérebro dele"

"Ele fazia novos amigos e perdia velhos"

"Seu exílio era tão completo dentro de si mesmo"

"Joyce sempre punha os amigos, e sobretudo os errantes em sua obra"

"(...) sabia que a loucura era o segredo dos gênios"

"Preferia a palavra 'exaltação', que pode fundir-se na loucura. Todos os grandes homens tinham esse traço. O homem sensato, insistia, não realiza nada"

"A vitória material era a morte da ascendência espiritual"

*Edna O'Brien in "James Joyce". Ed. Objetiva. RJ. 2001  

segunda-feira, 14 de novembro de 2016

Verdade*


A porta da verdade estava aberta,
mas só deixava passar
meia pessoa de cada vez.

Assim não era possível atingir toda a verdade,
porque a meia pessoa que entrava
só trazia o perfil de meia verdade.

E sua segunda metade
voltava igualmente com meio perfil.
E os dois meios perfis não coincidiam.

Arrebentaram a porta. Derrubaram a porta.
Chegaram a um lugar luminoso
onde a verdade esplendia seus fogos.
Era dividida em duas metades,
diferentes uma da outra.

Chegou-se a discutir qual a metade mais bela.
As duas eram totalmente belas.
Mas carecia optar. Cada um optou conforme
seu capricho, sua ilusão, sua miopia.

*Carlos Drummond de Andrade

sábado, 12 de novembro de 2016

Poéticas assimétricas*


São sem métricas
Minhas poéticas
Assim analfabéticas
Tristes ou alegres
Sem ordem alfabéticas
Construções hipotéticas
Assim peripatéticas
Alegres ou tristes
Criações céticas
De uma fé herética
Em busca de alguma estética....
Eu não sei...!!!!

*José Mayer
Filósofo. Livreiro. Poeta. Estudante na Casa da Filosofia Clínica
Porto Alegre/RS

sexta-feira, 11 de novembro de 2016

Demasiada loucura é o mais divino juízo*


Demasiada Loucura é o mais divino Juízo -
Para um Olhar criterioso -
Demasiado Juízo - a mais severa Loucura -
É a Maioria que
Nisto, como em Tudo, prevalece -
Consente - e és são -
Objecta - és perigoso de imediato -
E acorrentado -

*Emily Dickinson

quinta-feira, 10 de novembro de 2016

A palavra vertigem*

 
   
"O idioma está sempre em movimento, mas o homem, por ocupar o centro do redemoinho, poucas vezes percebe essa mudança incessante."
                               Octávio Paz

Um ser irreconhecível se desdobra na expressividade fugaz. Seu aspecto de invasor ameaça o saber encastelado, seu ritmo alucinado de vivências subjetivas re_apresenta um devir quase esquecido. Ao pensar o impensável realiza uma excursão pela partícula de infinito desconsiderada. Sua ótica de incerteza desconstrói o mundo de uma só verdade. 
  
Os sons murmurados nas entrelinhas apresentam o instante entre um e outro. Sua lógica de estorvo, o caráter de percepção excessiva denuncia espaços, amplia escutas, vislumbra imaterialidades. As associações desgovernadas esboçam um contato com o absurdo. Parece recordar que a vida não tem ponto final. 

Sua estranha dialética é ser registro de uma ausência. Como um acesso de desrazão, seu teor de expressividade não cabe numa definição. Nas possibilidades entreabertas pelo discurso novo, uma sensação de embriaguez involuntária, gestada na própria estrutura, ensaia lonjuras. 
 
A palavra vertigem aparece como um fundamento da lógica dos excessos. Em sua ótica de nuance se estabelecem múltiplos acenos. Como um não lugar em vias de acontecer, sua tensão desconfigurada e de viés imprevisível, interroga a vida para reinventar o sonho.      
     
Talvez sua maior contribuição seja precipitar novas verdades. Seu discurso, até então desconhecido, apresenta uma novidade em cada versão. Nessas idas e vindas percorre itinerários para acolher e descrever matérias-primas. Seu caráter obtuso expõe fragmentos na transgressão da estrada querendo partir.

Os deslocamentos da singularidade, quando em direção às ideias complexas, apresentam estéticas não lapidadas. O deslize da pena do autor, pelos subúrbios inclassificáveis da reciprocidade, tenta apontar o refúgio dos inéditos.

Numa perspectiva de lógica delirante, ao decifrar sua linguagem, é possível se ter subjetividade, tempo e lugar como integrantes da mesma estrutura de pensamento. Nela o teor precursor reivindica a palavra vertigem em poéticas da não-lucidez. 

*Hélio Strassburger

quarta-feira, 9 de novembro de 2016

Fragmentos Filosóficos, Delirantes*


"Eu não tenho nenhuma espécie de superstição pelos nossos títulos escolares ou universitários; eles dão algumas vezes algum saber profissional, muito restrito e ronceiro, e nunca uma verdadeira cultura"

"Os leitores hão de dizer que não era possível encontrar isso numa casa de loucos. É um engano; há muitas formas de loucura e algumas permitem aos doentes momentos de verdadeira e completa lucidez"

"Digo com franqueza, cem anos que viva eu, nunca poderão apagar-me da minha memória essas humilhações que sofri"

"Esta passagem várias vezes no hospício e outros hospitais deu-me não sei que dolorosa angústia de viver que eu me parece ser sem remédio a minha dor"

"Caído aqui (hospício), todos os médicos temem pôr logo o doente na rua. A sua ciência é muito curta, muito prevê; mas seguro morreu de velho e é melhor empregar o processo da Idade Média: a reclusão"  

"Amaciado um pouco, tirando dele a brutalidade do acorrentamento, das surras, a superstição de rezas, exorcismo, bruxarias, etc., o nosso sistema de tratamento da loucura ainda é o da Idade Média: o sequestro"

"Aqui no hospício, com as suas divisões de classes, de vestuário, etc, eu só vejo um cemitério (...) a loucura zomba de todas as vaidades e mergulha todos no insondável mar de seus caprichos incompreensíveis"

"Todos eles estão na mão de um poder que é mais forte do que a Morte"

"(...) fora da humanidade, só ligado a ela pelos livros preciosos, notáveis ou não, que me houvessem impressionado, sem ligação sentimental alguma no planeta, vivendo no meu sonho, no mundo estranho que não me compreendia a mágoa (...) no meio de maravilhas"

"(...) crítica que, neste e naquele ponto, já vinha sendo feita pelos espíritos mais livres, mais ousados, libertos das tiranias da tradição das academias e universidades"

*Lima Barreto in "O cemitério dos vivos". Ed. Planeta. SP. 2009

terça-feira, 8 de novembro de 2016

Ela tem olhos verdes*


Estou lendo um livro de 84
32 anos, exatamente minha idade
Não busco nele ciências
Quero a versão de uma mulher
Encontro o avesso de várias
Variadas versões dela
Poderiam ser as nossas
Mas uma predomina ser
Menina, eu vi! ela é fogueira
Tanto esquenta quanto aquece
Você acha que a conhece?
Ardente e mansa,
Se metade dela eu fosse...
Não mudaria, nem se quisesse
Tem alma leve quando enlouquece
Desnuda-se e atravessa oceanos
Navega em mares que não conhece
Ama o mistério dos olhos
Sai do mar, põe os pés na areia
Fala por nós, dores e amores...
Séculos de dominação
E ainda assim estamos soltas
Se não em nossas almas,
Na alma das outras!
A natureza nos chama...

*Dionéia Gaiardo
Filósofa Clínica
Porto Alegre/RS