domingo, 18 de dezembro de 2016

Clarice Lispector entrevista Pablo Neruda*













Clarice Lispector — Você se considera mais um poeta chileno ou da América Latina?

Pablo Neruda — Poeta local do Chile, provinciano da América Latina.

Clarice Lispector —Escrever melhora a angústia de viver? 
Pablo Neruda — Sim, naturalmente. Tra­ba­lhar em teu ofício, se amas teu o­fí­cio, é celestial. Senão é infernal.

Clarice Lispector — Quem é Deus? 
Pablo Neruda — Todos algumas vezes. Nada, sempre.

Clarice Lispector — Como é que você descreve um ser humano o mais completo possível? 
Pablo Neruda — Político, poético. Físico.

Clarice Lispector — Como é uma mulher bonita para você? 
Pablo Neruda — Feita de muitas mulheres.

Clarice Lispector — Escreva aqui o seu poema predileto, pelo menos predileto neste exato momento? 
Pablo Neruda — Estou escrevendo. Você pode esperar por mim dez anos?

Clarice Lispector — Em que lugar gostaria de viver, se não vivesse no Chile? 
Pablo Neruda — Acredite-me tolo ou patriótico, mas eu há algum tempo es­crevi em um poema: Se tivesse que nascer mil vezes. Ali quero nascer. Se tivesse que morrer mil vezes. Ali quero morrer…

Clarice Lispector — Qual foi a maior alegria que teve pelo fato de escrever? 
Pablo Neruda — Ler minha poesia e ser ouvido em lugares desolados: no deserto aos mineiros do norte do Chile, no Estreito de Ma­ga­lhães aos tosquiadores de ovelha, num galpão com cheiro de lã suja, suor e solidão.

Clarice Lispector — Em você o que precede a criação, é a angústia ou um estado de graça? 
Pablo Neruda — Não conheço bem esses sentimentos. Mas não me creia in­sensível.

Clarice Lispector — Diga alguma coisa que me surpreenda. 
Pablo Neruda — 748. (E eu realmente surpreendi-me, não esperava uma harmonia de números)

Clarice Lispector — Você está a par da poesia brasileira? Quem é que você prefere na nossa poesia? 
Pablo Neruda — Admiro Drummond, Vinícius, Jorge de Lima. Não conheço os ma­is jovens e só chego a Paulo Men­des Campos e Geir Campos. O poema que mais me agrada é o “Defunto”, de Pedra Nava. Sem­pre o leio em voz alta aos meus amigos, em todos os lugares.

Clarice Lispector — Que acha da literatura engajada? 
Pablo Neruda — Toda literatura é engajada.

Clarice Lispector — Qual de seus livros você mais gosta? 
Pablo Neruda — O próximo.

A que você atribui o fato de que os seus leitores acham você o “vulcão da América Latina”? 
Pablo Neruda — Não sabia disso, talvez eles não conheçam os vulcões.

Clarice Lispector — Qual é o seu poema mais recente? 
Pablo Neruda — “Fim do Mundo”. Trata do século 20.

Clarice Lispector — Como se processa em você a criação? 
Pablo Neruda — Com papel e tinta. Pelo menos essa é a minha receita.

Clarice Lispector — A critica constrói? 
Pablo Neruda — Para os outros, não para o criador.

Clarice Lispector — Você já fez algum poema de encomenda? Se não o fez faça agora, mesmo que seja bem curto. 
Pablo Neruda — Muitos. São os melhores. Este é um poema.

Clarice Lispector — O nome Neruda foi casual ou inspirado em Jan Neruda, poeta da liberdade tcheca? 
Pablo Neruda — Ninguém conseguiu até agora averiguá-lo.

Clarice Lispector — Qual é a coisa mais importante no mundo? 
Pablo Neruda — Tratar para que o mundo seja digno para todas as vidas humanas, não só para algumas.

Clarice Lispector — O que é que você mais deseja para você mesmo como indivíduo? 
Pablo Neruda — Depende da hora do dia.

Clarice Lispector — O que é amor? Qualquer tipo de amor. 
Pablo Neruda — A melhor definição seria: o amor é o amor.

Clarice Lispector — Você já sofreu muito por amor? 
Pablo Neruda — Estou disposto a sofrer mais.

Clarice Lispector — Quanto tempo você gostaria de ficar no Brasil? 
Pablo Neruda — Um ano, mas depende de meus trabalhos.

*A entrevista foi concedida em 19 de abril de 1969. Publicada no livro “De Corpo Inteiro”, Editora Rocco, em 1999.

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