domingo, 24 de setembro de 2017

Sou*


Sou o que sabe não ser menos vão
Que o vão observador que frente ao mudo
Vidro do espelho segue o mais agudo
Reflexo ou o corpo do irmão.
Sou, tácitos amigos, o que sabe
Que a única vingança ou o perdão
É o esquecimento. Um deus quis dar então
Ao ódio humano essa curiosa chave.
Sou o que, apesar de tão ilustres modos
De errar, não decifrou o labirinto
Singular e plural, árduo e distinto,
Do tempo, que é de um só e é de todos.
Sou o que é ninguém, o que não foi a espada
Na guerra. Um esquecimento, um eco, um nada.

*Jorge Luis Borges

sábado, 23 de setembro de 2017

Fragmentos Filosóficos, Delirantes*


"(...) por mais que se diga o que se vê, o que se vê não se aloja jamais no que se diz"

"(...) o rosto que o espelho reflete é igualmente aquele que o contempla"

"A identidade das coisas, o fato de que possam assemelhar-se a outras e aproximar-se delas, sem contudo se dissiparem, preservando sua singularidade, é o contrabalançar constante da simpatia e da antipatia (...)"

"A linguagem não é um sistema arbitrário; está depositada no mundo e dele faz parte porque, ao mesmo tempo, as próprias coisas escondem e manifestam seu enigma como uma linguagem e porque as palavras se propõem aos homens como coisas a decifrar"

"(...) se a língua é uma ciência espontânea, obscura a si mesma e inábil - em contrapartida é aperfeiçoada pelos conhecimentos que não se podem depositar em suas palavras sem nelas deixar seu vestígio e como que o lugar vazio de seu conteúdo"

"O que erige a palavra como palavra e a ergue acima dos gritos e dos ruídos é a proposição nela oculta"

"As coisas e as palavras estão muito rigorosamente entrecruzadas: a natureza só se dá através do crivo das denominações e ela que, sem tais nomes, permaneceria muda e invisível, cintila ao longe, por trás dele, continuamente presente para além desse quadriculado que, no entanto, a oferece ao saber e só a torna visível quando inteiramente atravessada pela linguagem"

"(...) Começa-se a falar sobre coisas que têm lugar num espaço diverso do das palavras"

"O homem é um modo de ser tal que nele se funda esta dimensão sempre aberta, jamais delimitada de uma vez por todas, mas indefinidamente percorrida, que vai, de uma parte dele mesmo que ele não reflete num cogito, ao ato de pensamento pelo qual a capta (...)"

*Michel Foucault in "As palavras e as coisas". Ed. Martins Fontes. SP. 2002.

sexta-feira, 22 de setembro de 2017

Dançar e Punir*


“E assim, à medida que o sol se punha, uma visão foi se impondo aos meus olhos.”
Antonin Artaud

Nas redes sociais as pessoas que gostam de legitimar a cultura do óbvio, da constatação, da quantidade, essas, emburreceram de vez. Jogam suas frustrações na falta de tempo para compreender a vida, naquilo que ela possa nos apresentar de novo, de desconhecido.

A vida é o tempo de todas as coisas, o mais simples é o extremo, destruidor ou construtivo: arrasar ou adorar. É mais fácil primeiro adorar, depois, em outro sentido, destruir o pensamento contrário; sem se dar conta, pode-se estar cavando o próprio erro: o fim é o limite para o pensamento duro.

O que vem a ser o pensamento duro, bruto? É o pensar dentro da construção cultural dual, em que existem os polos do bem e do mal. Essa religiosidade racional é parte da vida, é claro, não serei eu a refutar todas as manifestações pelo simples fato de pensar diferente.

Eis a reflexão dos frágeis, pensar, refletir, o contraponto do monismo deste tempo irredutivelmente evaporizado no digital DNA das fraquezas brutais dos homens; está faltando Alteridade.

*Prof. Dr. Luis Antonio Paim Gomes
Filósofo. Editor. Livre Pensador.
Porto Alegre/RS

quinta-feira, 21 de setembro de 2017

Fragmentos Filosóficos, Delirantes*


(...)

Descobri aos 13 anos que o que me dava prazer nas
leituras não era a beleza das frases, mas a doença
delas.
Comuniquei ao Padre Ezequiel, um meu Preceptor,
esse gosto esquisito.
Eu pensava que fosse um sujeito escaleno.
- Gostar de fazer defeitos na frase é muito saudável,
o Padre me disse.
Ele fez um limpamento em meus receios.
O Padre falou ainda: Manoel, isso não é doença,
pode muito que você carregue para o resto da vida
um certo gosto por nadas…
E se riu.
Você não é de bugre? – ele continuou.
Que sim, eu respondi.
Veja que bugre só pega por desvios, não anda em
estradas -
Pois é nos desvios que encontra as melhores surpresas
e os ariticuns maduros.
Há que apenas saber errar bem o seu idioma.
Esse Padre Ezequiel foi o meu primeiro professor de
gramática.

*Manoel de Barros

quarta-feira, 20 de setembro de 2017

A lua e os sonhos*


Tremendo. Frio nos ossos.
Entardecer róseo na alma.
Fresta entre os dois mundos.
O que está para além do horizonte?
Vastidão do infinito.
O que sempre foi e será.
Mundo das possibilidades.
Colcha de cristais e fios de seda.
Olimpo inteiro.
Planetas e Deuses.
Naves espaciais e anjos.
Realidades paralelas.
Tremendo. Fogueira acesa.
Ventos limpando arestas.
Bacantes dançando à Dioniso.
Lua nova plantando sonhos.
Prenúncio de flores...
Desejos renascendo do coração.
Saturno despede da retrogradação.
Todos respiram aliviados.
Por enquanto, na casa do Centauro,
Ele planeja uma faxina mais leve.
A noite chega com céu estrelado
O frio continua intenso.
A fogueira esquenta a alma.
E a lua nova traz fio de esperança.
Para quem sabe e compreendeu!

*Rosângela Rossi
Psicoterapeuta. Escritora. Filósofa Clínica. Livre Pensadora.
Juiz de Fora/JF

terça-feira, 19 de setembro de 2017

Fragmentos Filosóficos, Delirantes*


"Devo frisar que, desde sempre, o ato de pensamento esteve voltado para os que se fazem perguntas, e não para os que já têm as respostas"

"O sentido para a pessoa é fornecido pela pluralidade das máscaras que a constituem, e pelo contexto no qual suas diversas máscaras poderão expressar-se"

"O próprio do sonho é efetivamente escapar a uma lógica de controle de si mesmo"

"As máscaras pós-modernas estão sob influência. Influência de coisas, de problemas ancestrais. Traduzem a força impessoal que, de forma subterrânea, vem de muito longe, e às vezes se exprime à luz do dia"

"Nascer com o mundo sem passar pelas palavras, eis efetivamente o que parece estar em jogo em todas as práticas tribais e em seus excessos"

"No caso, a adesão aos totens coletivos parece-me traduzir um (re)conhecimento de si como resultado de um devir. Todos estamos na estrada. A realidade é estruturalmente impermanente"

"O gênio enraizado (no sentido forte) no mundo contém em si todos os tipos humanos, o louco, o santo, o criminoso, a mamãe e a puta, sem esquecer o tipo sem qualidades que constitui o homem de todos os dias"

"Não existe, então, verdade objetiva. Só importam verdades momentâneas, factuais, ligadas às situações existenciais, tributárias das comunidades ou tribos de que todos participam"

"(...) a conexão social é feita mais de 'afinidades eletivas' que de contratos racionais. Ter ou não o 'feeling' será o critério essencial para julgar a qualidade de uma relação. E é nesse aspecto no mínimo evanescente que repousará sua durabilidade"

*Michel Maffesoli in "O ritmo da vida - Variações sobre o imaginário pós-moderno". Ed. Record. RJ. 2007. 

segunda-feira, 18 de setembro de 2017

Filosofia Clínica: retomada do olhar filosófico*


 “Somente quando a estranheza do ente nos acossa, desperta e atrai ele a admiração. Somente baseado na admiração [...] surge o ‘porquê’. Somente porque é possível o porquê enquanto tal, podemos nos perguntar, de maneira determinada, pelas razões e fundamentar. Somente porque podemos perguntar e fundamentar foi entregue à nossa existência o destino do pesquisador.” (HEIDEGGER, Martin. O que é Metafísica?. Col. Os pensadores. São Paulo: Abril Cultural, 1973, p. 242.)

Hoje a filosofia acadêmica ensinada nas faculdades e universidades tende a ser uma grande assimilação dos conteúdos escritos dos pensadores que nos precederam. Heidegger nos advertia em suas obras sobre a possibilidade mais comum entre os homens, que é o de estar na inautenticidade. Esta consiste no olhar derivado do mundo, na perspectiva mais cotidiana, vivendo segundo o que “se diz”. Ao contrário da autenticidade, que se dava com o olhar mais voltado para o espanto e admiração diante do que nos rodeia ou constitui nossa existência, partindo para uma experiência mais pessoal e profunda.

A inautenticidade na filosofia se mostra costumeiramente quando ao ler um filósofo, nos contentamos em compreender o conjunto de palavras escritas no livro. Mesmo que o significado de sua lógica escrita tenha ficado claro para nós e possamos até passá-los adiante, isso não é filosofia. É falar da referência feita pelo filósofo sem, contudo, voltar-se para o referenciado de fato. Ou seja, se fala de uma flor a partir de tudo o que foi escrito sobre ela, mas, não é aguçado o olhar quando, ao deixar o texto, se observa uma flor no cotidiano.

A autenticidade heideggeriana trata evidentemente de instâncias bem mais profundas. Mas, para a compreensão nossa, vamos pensar mais concretamente. Quando Heidegger se refere ao espanto e admiração da realidade, ele nos remete à experiência da própria vida. Um filósofo não escreve para nós ficarmos “divagando” sobre a composição de sua estrutura escrita. Escrever é posterior ao filosofar, ao pensamento. 

Primeiramente, o filósofo dá-se conta de algo, isso o causa certo espanto; em seguida, com admiração própria de quem se depara com o que estava velado no cotidiano, tenta compreendê-lo e, somente depois disso, se põe a escrever. Portanto, seu escrito é uma busca para que nós nos voltemos para o que ele observou, para o objeto de sua experiência. Cada filósofo nos propõe um caminho para sua experiência, e seus escritos são meios e não fins em si mesmos.

Lúcio Packter, pensador da Filosofia Clínica, talvez possa nos ajudar nesse caminho. Por meio da Filosofia Clínica podemos deixar a massa inflexível de nossas buscas filosóficas de compreender o mundo, e nos voltarmos para um sistema que aguça nosso olhar sobre o mundo que nos cerca. Desde Sócrates, a filosofia busca a compreensão partindo do homem. E a Filosofia Clínica parte desse grande mistério que é a humanidade. Mas, não busca estereotipá-la com definições pré-concebidas ou generalizar o ser humano em uma espécie de gavetas prontas, nas quais podemos colocar cada pessoa segundo um aspecto mais generalizado.

Heráclito nos apresenta o devir. Eis uma possibilidade de abertura para a compreensão do mundo: “ninguém entra no mesmo rio duas vezes”. Tudo muda. Não há fórmulas definitivas nem opções perfeitas. Os livros de auto-ajuda se multiplicam e os problemas humanos continuam. Talvez os mais beneficiados com a venda desses livros sejam os autores, os editores e as livrarias. Digo talvez, pois, para algumas pessoas as dicas podem funcionar.

Seguindo o raciocínio do devir heraclitiano, Heidegger, utilizando a perspectiva grega sobre o que é a verdade, apresenta o desvelar. Segundo o filósofo da Floresta Negra, nos abrimos à manifestação do ser que se mostra e, ao buscarmos definições que mais limita e afasta a significação do desvelado, o mesmo ser se esconde. É a dinâmica do movimento. Não há fórmulas definitivas. Podemos nos abrir ao devir do que se mostra a nossa frente, e apenas no movimento do espanto e admiração, mantermos nossos olhares aguçados para o amor ao saber.

Filosofia Clínica é uma grande possibilidade, não definitiva nem única, para aguçarmos o olhar sobre esse desvelar de uma humanidade que pede ajuda, mas, está cansada de fórmulas prontas. A felicidade, busca de muitos humanos, tem significados diferentes. E não nos cabe julgar o certo e o errado. Cabe a nós apenas auxiliá-los em suas realizações. Não temos a verdade absoluta. Nosso pensamento somente concebe o perfeito no pensamento, quando de fato o que vemos é movimento, é o devir.

Observar os homens a partir da Filosofia Clínica, nos tira da ótica da busca por mudar o mundo e nos propõe uma admiração pela busca e história da cada ser humano para sua vida. O respeito que a Filosofia Clínica nos incute, leva-nos a ser mais contemplativos da humanidade, do mundo, e menos manipuladores com nossas fórmulas prontas para “engavetar” cada tipo que encontramos. O caminho proposto por Packter é o do olhar para o que desvela, para o devir do que se mostra. Não o do olhar petrificado dos escritos que são vistos em si mesmos como o contemplado pelo filósofo.

Portanto, possa a Filosofia Clínica se tornar mais conhecida a fim de que os olhares sejam mais filosóficos e menos pedantes. Que nossas universidades se abram cada vez mais a esse novo modo de ver o mundo, sobretudo, a humanidade, e conduzam os alunos para além dos sistemas escritos, aguçando-lhes o olhar para o que de fato os filósofos perceberam. Que a abertura filosófica ao mundo, ao homem, à existência, seja o princípio do filosofar autêntico, espantando-se com o que vê com admiração e busca por compreensão.

*Prof. Dr. *Miguel Angelo Caruzo
Filósofo. Escritor. Filósofo Clínico. Livre Pensador.
Teresópolis/RJ

domingo, 17 de setembro de 2017

Ismália*


Quando Ismália enlouqueceu,
Pôs-se na torre a sonhar…
Viu uma lua no céu,
Viu outra lua no mar.

No sonho em que se perdeu,
Banhou-se toda em luar…
Queria subir ao céu,
Queria descer ao mar…

E, no desvario seu,
Na torre pôs-se a cantar…
Estava perto do céu,
Estava longe do mar…

E como um anjo pendeu
As asas para voar…
Queria a lua do céu,
Queria a lua do mar…

As asas que Deus lhe deu
Ruflaram de par em par…
Sua alma subiu ao céu,
Seu corpo desceu ao mar…

*Alphonsus de Guimaraens

sábado, 16 de setembro de 2017

A palavra reminiscência*


As narrativas da historicidade, ao reviver antigas memórias, atualizam uma retórica das evidências. Assim é possível a reinvenção pessoal na própria história. Sua matéria-prima, ao mesclar-se com os dias de hoje, é capaz de novas interseções na estrutura de pensamento. Essa intencionalidade discursiva emancipa periferias de si mesma.

Ao rememorar eventos, esses já são outros eventos. As novas ideias e vivências, ainda na perspectiva subjetiva, podem modificar a malha intelectiva. Esse movimento permite a contemplação e qualificação do ser singular na alternância dos endereços existenciais.

É comum que as antigas referências de lugar, tempo e circunstância apresentem, ao olhar de agora, um território de estranheza, o qual, ao transbordar, traduz-se como ressignificação. A reapresentação dos dados da memória atualiza o discurso pessoal para sobreviver.

A aptidão de rememorar, ao transportar e modificar suas representações, esboça uma estética para decifrar incógnitas. Sua ativação pelos relatos revividos na história de vida qualifica uma nostalgia para acordar o que dormia ou adormecer o que acordava.

O universo da subjetividade aprecia essa dialética, por onde se aventura nos territórios de sua singularidade. A palavra reminiscência acolhe e desenvolve múltiplas conjugações pessoais. Nesse sentido, os eventos do passado podem adquirir novas conformações existenciais.

Seu teor como chão de possibilidades amplia a medida de todas as coisas em cada um. Nele, os ensaios permitem entrever realidades, favorecer a exploração de improváveis territórios, conceder uma estética transformadora.

A arte da reminiscência é uma confidência muito íntima, que se realiza no discurso da clínica. Um ponto de encontro do fato histórico com sua releitura pela intencionalidade. Atividade compartilhada para revisitar atualizando aquilo até então desmerecido.

*Hélio Strassburger in “A palavra fora de si – Anotações de Filosofia Clínica e Linguagem”. Ed. Multifoco/RJ.

sexta-feira, 15 de setembro de 2017

Fragmentos Filosóficos, Delirantes*


"Uma intuição não se prova, se vivencia"

"O tempo é uma realidade encerrada no instante e suspensa entre dois nadas"

"Como realidade, só existe uma: o instante. Duração, hábito e progresso são apenas agrupamentos de instantes, são os mais simples dos fenômenos do tempo"

"(...) Mas, por firmes que sejamos, jamais nos conservamos inteiros, porque nunca fomos conscientes de todo o nosso ser" 

"Para as concepções estatísticas do tempo, o intervalo entre dois instantes é apenas um intervalo de probabilidade; quanto mais seu nada se alonga, maior é a chance de que um instante venha terminá-lo"

"(...) leva em conta não apenas os fatos, mas também, e sobretudo, as ilusões - o que, psicologicamente falando, é de uma importância decisiva, porque a vida do espírito é ilusão antes de ser pensamento"

"Mas a função do Filósofo não será a de deformar o sentido das palavras o suficiente para extrair o abstrato do concreto, para permitir ao pensamento evadir-se das coisas ?"

"Roupnel, como historiador minucioso, não podia ignorar que cada ação, por simples que seja, rompe necessariamente a continuidade do devir vital"

Gaston Bachelard in "A intuição do instante". Ed. Verus. Campinas/SP. 2007.

terça-feira, 12 de setembro de 2017

Desfabricar*


“[...] mas só porque tínhamos de nos cingir aos fatos não queria dizer que devíamos deixar de pensar ou não era permitido usarmos a nossa imaginação...”
Paul Auster

A verdade é que quando escrevemos, digo, escrevo no impulso. A razão nunca abandonou-me, exceto no momento em que tenha perdido totalmente a fé na lei sonhada pelos homens, regida por uma onipotência, vontade acima dos homens, exceto, diante da razão traiçoeira. A razão ou fé, pensei: a luz no fim do túnel, é a única que me engana [...] 

Andei pensando em fazer uma saída do Rio Grande do sul, ou seja, esquecer por lapso de tempo não compreendido, levar a bandeira da vitória ou da derrota, pior, achar que se é na identidade que a alma deva ser reconfortada...Me perco, estou à deriva. Os braços avançam pretensamente à margem do nunca encontrado outro lado da paz. Um rio tem sua extensão de medo e finitude. A existência requer mais do que braços longos e ágeis, precisa ter técnica, unidade e fragmento a cortar o frio, a perfurar o peso volumoso das águas.  

Não interessa a louca, a boca, a secura do tempo, do corpo, do lânguido ao úmido, do torpe ao racional, do tiro no escuro à clareza das ideias. Sempre haverá um meio termo do absoluto, uma tentativa de completude sem que se feche para a escritura. Melhor seria não ter que prestar atenção aos determinantes. 

O acaso é uma quebra de registro, um protocolo que deixa de impor verdades. Existe razão nos descontínuos pensamentos. Há de existir bons sentimentos diante de tanta desesperança, penso enquanto tomo meu último gole de água e perco-me nas águas de um rio sem fim.

*Prof. Dr. Luis Antonio Paim Gomes
Filósofo. Editor. Livre Pensador.
Porto Alegre/RS

segunda-feira, 11 de setembro de 2017

Fragmentos Filosóficos, Delirantes*


"(...) temos de descobrir a linguagem, como estamos descobrindo o espaço; o nossos século será, talvez, marcado por essas duas explorações"

"(...) os desvios (com relação a um código, a uma gramática, a uma norma) são sempre manifestações de escritura: onde se transgride a norma, aparece a escritura como excesso, já que assume uma linguagem que não estava prevista"

"O escritor está condenado a trabalhar sobre signos, para variá-los, desabrochá-los, não para deflorá-los: a sua forma é a metáfora, não a definição"

"Repetir o exercício (ler várias vezes o texto) é liberar pouco a pouco os seus 'suplementos'"

"De todas as matérias da obra, só a escritura, com efeito, pode dividir-se sem deixar de ser total: um fragmento de escritura é sempre uma essência de escritura. Eis por que, quer se queira quer não, todo fragmento é acabado, a partir do momento em que é escrito"

"(...) a escritura começa onde a fala se torna impossível"

"(...) a origem de uma fala não a esgota: uma vez que uma fala se tenha lançado, mil aventuras lhe acontecem, a sua origem torna-se turva, nem todos os seus efeitos estão na sua causa; é esse excedente que interrogamos"

"Sabemos agora que um texto não é feito de uma linha de palavras a produzir um sentido único, de certa maneira teológico, mas um espaço de dimensões múltiplas, onde se casam e se contestam escrituras variadas, das quais nenhuma é original: o texto é um tecido de citações, oriundas dos mil focos da cultura"

*Roland Barthes in "O rumor da língua". Ed. Martins Fontes. SP. 2004.  

domingo, 10 de setembro de 2017

Problemas de casamento*


Aconteceu com meu pai, e só fui saber agora, dois anos depois do seu falecimento. Certa vez uma noiva ao entrar na igreja, desencadeou uma crise de falta de ar tão intensa, que precisou ser levada ao hospital. Foi atendida por meu pai, especialista em asma e alergia, porém não conseguiu se recuperar a tempo de retornar à cerimônia. Infelizmente o casamento teve que ser cancelado. Convidados e familiares ansiosos, constrangidos e preocupados aguardaram na igreja até receberem a noticia de que a noiva passava bem e remarcaria uma nova data para o evento. Imaginem a situação do noivo.

Passada a crise, Anita, a noiva, iniciou um tratamento medicamentoso a base de vacinas dessensibilizantes e, concomitantemente, uma terapia de apoio, pois ataques de asma podem ser provocados por abalos emocionais. Combinaram que a data do matrimônio seria marcada quando médico, psicólogo e noivos estivessem tranqüilos de que aquela cena não mais se repetiria.

Três meses depois, Anita casou sem intercorrências, escoltada por meu pai que, de prontidão, sentava de modo conveniente na primeira fila. Zeloso, carregava em uma das mãos sua maleta de médico repleta de remédios, e, na outra, carinhosamente o braço de minha mãe, que o acompanhava na ocasião. Durante a festa os noivos vieram agradecer a atenção dedicada, lamentando que meu pai não pudesse ter vindo acompanhado da esposa, trazendo em seu lugar a filha.

Não perceberam a mancada, mas antes de voltar para casa, meu pai parou numa farmácia e comprou tintura para cabelos. Precisava dar um jeito de esconder sua cabeça branca e aparentar ser marido, e não pai de minha mãe.  Pintou os cabelos e ficou casado até o fim de sua vida.

Este outro episódio aconteceu com um colega terapeuta, durante o atendimento a um noivo nas vésperas de seu casamento. Seu problema eram os intestinos, que entravam em desarranjo toda vez que ficava nervoso. Com a aproximação do matrimônio, sua ansiedade aumentava e tinha certeza que durante a cerimônia não conseguiria segurar seu intestino, fazendo fiasco em pleno altar, à frente de todos convidados. Esta insegurança psicológica e intestinal fazia com que pensasse até mesmo em cancelar a solenidade, casando apenas no cartório.

A terapia consistiu em roteirizar todos os passos do noivo, desde a porta da igreja até o altar. Analisaram onde, em caso de emergência, seria o banheiro mais próximo, ensaiaram cada detalhe em minúcias. Quantos passos precisaria dar, quem manteria o caminho desimpedido, até onde conseguiria se segurar, como o padre contemporizaria a situação, como a noiva se comportaria.

Praticaram, treinaram, repetiram exaustivamente até que o noivo, na medida do possível, sentisse firmeza e confiança. Na hora H, tudo funcionou perfeitamente, noivo e noiva casaram com naturalidade. Banheiro permaneceu intocável e esquecido. Intestino nunca mais desarranjou e o casamento permanece seguro.

Quem dera todos os problemas de casamento se resumissem a pulmões e intestinos gritando por socorro ou a cabelos pedindo por tintura. Medicamentos e apoio psicológico dariam conta desses males. Entretanto, sabemos que o furo é mais embaixo. O problema não está na cerimônia, sequer no casamento propriamente dito, instituição que rotula o relacionamento, estabelece compromissos formais e exige solenidade. Muitos confundem casamento com amor. Assinam documentos, realizam liturgia, convocam testemunhas, mas não estão convictos do sentimento ou do passo que estão prestes a dar. Então o corpo se manifesta, implora por ajuda e pede um tempo para entender a dubiedade estabelecida. Eis o quebra-cabeça. As alianças trocadas no altar não precisam ser de ouro, diamantes ou ter nomes gravados. Podem até ser invisíveis, mas é vital que sejam autênticas, reais e desafiadoras. O resto é detalhe.

*Ildo Meyer
Médico. Escritor. Palestrante. Filósofo Clínico
Porto Alegre/RS

sábado, 9 de setembro de 2017

Fragmentos Filosóficos, Delirantes*


"(...) nem mesmo Husserl obteve uma única Wesenschau que não tenha, em seguida, retomado e retrabalhado, não para desmenti-la mas para obrigá-la a dizer o que ela de início não dissera inteiramente, de sorte que seria ingênuo procurar a solidez num céu de ideias ou num fundo do sentido: ela não está acima nem abaixo das aparências mas na sua juntura, sendo o elo que liga secretamente uma experiência às suas variantes" 

"(...) de sorte que o vidente, estando preso no que vê, continua a ver-se a si mesmo"

"(..) o filósofo procura uma linguagem da coincidência, uma maneira de fazer falar as próprias coisas"

"Este mundo que não sou eu, e ao qual me apego tão intensamente como a mim mesmo, não passa, em certo sentido, do prolongamento de meu corpo, tenho razões para dizer que eu sou o mundo"

"(...) o espetáculo tinha sentido para mim antes que eu me descobrisse como aquele que lhe dá sentido"

"Cada percepção é mutável e somente provável"

"Compreender é traduzir em significações disponíveis um sentido inicialmente cativo na coisa e no mundo"

"(...) a reflexão recupera tudo exceto a si mesma como esforço de recuperação, esclarece tudo salvo seu próprio papel. O olho do espírito também tem seu ponto cego"

(...) o mundo só é nosso lugar natal porque somos, de início, como espíritos, o berço do mundo"

*Merleau-Ponty in "O visível e o invisível". Ed. Perspectiva. SP. 1999.  

sexta-feira, 8 de setembro de 2017

O que permanece quando muda?***


Gosto de algumas afirmações heraclitianas, sobretudo a ideia de movimento. Plutarco (46 a 126 d. C) apontando concepção de Heráclito (535 a 475 a. C.) diz:

“Em rio não se pode entrar duas vezes no mesmo, segundo Heráclito, nem substância mortal tocar duas vezes na mesma condição; mas pela intensidade e rapidez da mudança dispersa e de novo reúne (ou melhor, nem mesmo de novo nem depois, mas ao mesmo tempo) compõe-se e desiste, aproxima-se e afasta-se” (Plutarco, Coroliano, 18 p. 392 B.).

A proposta de mudança pensada por esse pré-socrático eu pude vivenciá-la ao longo do que a vida me concedeu experimentar até agora. Eu mudei, a realidade à minha volta mudou, as pessoas mudaram. E talvez uma das mudanças mais claras e necessárias que experimentei foi a aproximação de algumas pessoas e o afastamento de outras.

Aprendi que na medida em que mudamos, não mudamos o modo de ser das pessoas ao nosso redor, pelo menos na grande maioria dos casos. O que mudam são as pessoas que nos cercavam. Mudam-se as crenças, os pontos de vista, o modo de vivência social, a profissão, os lugares frequentados, e com tais mudanças as pessoas são outras, os assuntos discutidos são outros, a vida é outra.

Às vezes as mudanças causam medos e acabamos por nos agarrar ao que já não faz parte do que somos agora. Prender-se ao que não é de nosso universo ou estado atual impede que o novo seja bem recebido. O novo exige espaço novo, olhos novos, receptividade de algo disposto a ser renovado. Afinal, jogar água limpa em recipiente sujo não muda o ambiente do recipiente qualitativamente. Medo e mudança, nesse caso, são antagônicos. Mas, podem conviver como opostos heraclitianos numa dialética em vista de denominador comum ou no vencer de um dos pólos. E que vença o que nos fizer melhor.

Tudo muda o tempo todo e mesmo a tentativa de permanecer o mesmo não impede a mudança. Ainda que as buscas sejam as mesmas, os pontos de chegada determinarão outros pontos a serem alcançados. Ainda que queiramos lidar com as pessoas como fazíamos antes, tudo o que nos foi acrescentado ao longo da jornada nos tornou diferentes. O convívio já muda as coisas. Por mais que quiséssemos conviver com as mesmas pessoas nos mesmos ambientes, ainda assim essas pessoas adquiririam outros modos de lidar conosco, e já não seriam as mesmas pessoas e nem seríamos os mesmos com a ação delas sobre nós.

E o que fica diante disso? Heráclito dirá: a mudança. Esta pode causar medo às vezes. Por vários momentos nos deparamos com horizontes obscuros à frente. Não seguir em frente, ainda que não vislumbremos onde iremos chegar, já é uma escolha, dirá Sartre e Heidegger. E na visão heraclitiana, a mudança permanecerá acontecendo. Pois diante da ausência de ação no vislumbre do horizonte, o horizonte e a ausência de ação mudarão. Decisão já é uma mudança ao mesmo tempo em que o horizonte também muda, sendo ou não percebido por nós.

Ler esse texto já mudará alguma coisa no leitor, assim como está mudando meu modo de ver a vida, mesmo que eu esteja descrevendo uma constatação de minha vida e não me propondo mudança alguma. Nas primeiras linhas éramos um e agora somos outros: tanto eu enquanto escrevo quanto você enquanto lê. Percebemos uma mudança senão no comportamento, pelo menos nas críticas observadas ou nas reflexões suscitadas. Negar o conteúdo do que foi lido, já constitui uma mudança, pois já terá visto outro ponto de vista e saberá que todos os parecidos com estes são suscetíveis de serem negados.

*Prof. Dr. Miguel Angelo Caruzo
Filósofo. Escritor. Livre Pensador. Filósofo Clínico
Teresópolis/RJ

** Pretendo apresentar a filosofia de Heráclito, bem como questões que ela nos leva a suscitar, mais à frente. Apenas lancei mão de seu pensamento neste momento para conduzir a reflexão.

quinta-feira, 7 de setembro de 2017

Os Poemas*


Os poemas são pássaros que chegam
não se sabe de onde e pousam
no livro que lês.

Quando fechas o livro, eles alçam voo
como de um alçapão.

Eles não têm pouso
nem porto
alimentam-se um instante em cada par de mãos
e partem. 

E olhas, então, essas tuas mãos vazias,
no maravilhado espanto de saberes
que o alimento deles já estava em ti…

*Mário Quintana

quarta-feira, 6 de setembro de 2017

Buscas*


Só vale pena construir projetos e tecer aspirações que façam sentido, sobretudo, para nós, para alguém ou para muitos, pois tudo que nos toca a ponto de transbordar e nos mover sinaliza que devemos saber escolher a direção.

Só vale a pena mesmo persistir em causas as quais haja conexões de dentro para fora capazes de fazer com que nos encontremos através de descobertas e surpresas. É preciso ser ousado e assumir riscos para despertar e crescer.

É assim que sinto tremenda falta de tudo que ainda não fiz porque é esse o limite de quem eu sou sob a jurisdição daquilo que desejo vir a ser. E mesmo quase insignificante, permito-me discordar de um grande e consagrado poeta.

Afinal, havendo amor tudo vale a pena, mesmo caso a alma ainda seja pequena. Musa!

*Prof. Dr. Pablo Mendes
Filósofo. Educador. Livre Pensador. Filósofo Clínico
Uberlândia/MG

terça-feira, 5 de setembro de 2017

Fragmentos Filosóficos, Delirantes*


"Saber ler, percebe-se, é portanto uma arte, e existe uma arte de ler"

"(...) a leitura de um autor que é filósofo é uma discussão contínua com ele, uma discussão onde se encontram todos os encantos e também todos os perigos de uma discussão na vida privada"

"Ao ler um romance que nos apaixona, nós não somos mais nós mesmos e vivemos nos personagens que nos são apresentados e nos lugares que nos são retratados pelo hipnotizador"

"(...) há leituras muito diferentes, segundo as diferentes naturezas de espírito, e por conseguinte há, e é divertido, decepcionante também ou pouco seguro, e tal que não se pode confiar nele levianamente, mas bastante instrutivo em suma, um estudo dos espíritos e mesmo das almas, um estudo dos homens através do que demonstram ser como leitores"

"O leitor de livros onde são retratados seres definitivamente excepcionais é, em geral, um homem a quem a vida não satisfaz"

"(...) um dos mais vivos prazeres de reflexão na leitura dos poetas dramáticos é o de reconhecer o que colocam de si mesmos em suas obras"

"(...) todo texto que é compreendido de imediato por qualquer um não é literatura"

*Émile Faguet in "A arte de ler". Ed. Casa da Palavra. RJ. 2009.

segunda-feira, 4 de setembro de 2017

Trem das Águas*


“Olha em redor: a poucos passos dele formou-se uma pequena multidão que está observando seus movimentos como as convulsões de um demente.”
(Palomar contempla o céu – Italo Calvino)

Nadar e ser um trem ao mesmo tempo, deslizar nas águas, cruzar o país como se fosse uma locomotiva, de braçada em braçada, deslizar águas, trilhos e o coração bater tão rápido enquanto o vento singra as águas do tempo, da vida. O Tempo para se viver mais do que tem para continuar a subir em trens do mundo, de poder nadar sem saber o tempo de parar, sem ter estação para descer, o tempo de morrer é não poder mais ter o som das águas, o sibilo da locomotiva humana, do sinal no céu da luz que brilha, da estrela que ilumina a dor dos olhos que envelhecem de tanto ver o fim que não termina e os braços a continuar, avançar o corpo para o outro lado do mundo, de fugir da miséria dos homens, de buscar o som inaudito dos trilhos, do apito de um trem, do barulho do mar, do rio que silencia enquanto se atravessa a fronteira a nado para contrabandear o vento do outro país, para viver o tempo dos outros e buscar dentro de si o som das águas que vibram nos trilhos úmidos da chuva.

*Prof. Dr. Luis Antonio Paim Gomes
Filósofo. Editor. Escritor. Livre Pensador.
Porto Alegre/RS

domingo, 3 de setembro de 2017

Motivo*


Eu canto porque o instante existe
e a minha vida está completa.
Não sou alegre nem sou triste:
sou poeta.

Irmão das coisas fugidias,
não sinto gozo nem tormento.
Atravesso noites e dias
no vento.

Se desmorono ou se edifico,
se permaneço ou me desfaço,
— não sei, não sei. Não sei se fico
ou passo.

Sei que canto. E a canção é tudo.
Tem sangue eterno a asa ritmada.
E um dia sei que estarei mudo:
— mais nada.

*Cecília Meireles

sábado, 2 de setembro de 2017

Prefácio*


Assim é que elas foram feitas (todas as coisas) —
sem nome.
Depois é que veio a harpa e a fêmea em pé.
Insetos errados de cor caíam no mar.
A voz se estendeu na direção da boca.
Caranguejos apertavam mangues.
Vendo que havia na terra
Dependimentos demais
E tarefas muitas —
Os homens começaram a roer unhas.
Ficou certo pois não
Que as moscas iriam iluminar
O silêncio das coisas anônimas.
Porém, vendo o Homem
Que as moscas não davam conta de iluminar o
Silêncio das coisas anônimas —
Passaram essa tarefa para os poetas.

*Manoel de Barros