quinta-feira, 27 de abril de 2017

A natureza das diferenças*









A SuperTerra se revela 
Mostra-nos nosso verdadeiro tamanho
Coloca-nos diante a real pequenez 
Será que aprenderemos? 
Libertar do poder 
Compartilhar com amor 
Aceitar as diferenças

Aceitar nossa natureza
Ainda há tempo! 
Saturno faz a faxina 
Convoca-nos ao trabalho sério
Não dá mais para tantas
Vaidades, orgulho, prepotência 
Ou abrimos a flor de lótus no peito
Ou seremos devorados pela sombra 
É hora da ação determinada 
Do diálogo, do dar as mãos...
É possível...
Não é utopia, é o acender a luz
Consciência!

*Dr. Rosângela Rossi
Psicoterapeuta. Escritora. Filósofa Clínica
Juiz de Fora/MG

quarta-feira, 26 de abril de 2017

Fragmentos Filosóficos, Delirantes*








"Já Platão havia reconhecido que a palavra humana possui um caráter de discurso, isto é, expressa a unidade de um pensamento através da integração de uma multiplicidade de palavras, e tinha desenvolvido, em forma dialética, essa estrutura do logos"

"A dialética, como arte de conduzir uma conversação, é ao mesmo tempo a arte de olhar juntos na unidade de uma perspectiva isto é, a arte da formação de conceitos como elaboração da intenção comum"

"(...) Nesse sentido a pessoa a que chamamos experimentada não é somente alguém que se fez o que é através das experiências, mas também alguém que está aberto a experiências"

"(...) o homem experimentado é sempre o mais radicalmente não dogmático, que, precisamente por ter feito tantas experiências e aprendido graças a tanta experiência, está particularmente capacitado para voltar a fazer experiências e delas aprender"

"Elogia-se, portanto, a compreensão de alguém, quando ele, julgando, consegue deslocar-se completamente para a plena concreção da situação em que o outro tem de atuar"

"(...) o homem compreensivo não sabe nem julga a partir de um simples estar postado frente ao outro de modo que não é afetado, mas a partir de uma pertença específica que o une com o outro, de modo que é afetado com ele e pensa com ele"

"Quem está dominado por suas paixões se depara de repente com o fato de que não é capaz de ver numa situação dada o que seria correto"

"Na verdade, o horizonte do presente está num processo de constante formação, na medida em que estamos obrigados a pôr à prova constantemente todos os nossos preconceitos"

*Hans-Georg Gadamer in "Verdade e Método - traços fundamentais de uma hermenêutica filosófica" Ed. Vozes. Petrópolis/RJ. 1997.

terça-feira, 25 de abril de 2017

O amor e a saudade*



Conduza-me pela mão
Por um campo de centeio
Para saciar a fome
De todas as belezas.
Me enxague as mãos
Neste cristalino córrego
De qualquer sentimento
Que possa machucar.
Escrever sobre a vida
É amar duas vezes,
Várias vezes.
Outras tantas vezes
É chamar a saudade
Para bem junto de si.

*José Mayer
Filósofo. Poeta. Livreiro. Estudante na Casa da Filosofia Clínica
Porto Alegre/RS

segunda-feira, 24 de abril de 2017

Fragmentos Filosóficos, Delirantes*













"Para Platão o mito também encerra em si um determinado teor conceitual; pois ele é aquela única linguagem conceitual na qual se pode exprimir o mundo do vir-a-ser. Também não pode haver outra apresentação que não seja mítica daquilo que nunca é, mas sempre 'vem a ser', daquilo que não perdura identicamente determinado, como os produtos do conhecimento lógico e matemático, mas que de momento a momento aparece como outro"

"O processo mitológico não tem a ver com objetos da natureza, mas com as puras potências criadoras, cujo produto originário é a própria consciência"

"Todo começo do mito, especialmente toda concepção mágica de mundo, está impregnado dessa crença na essência objetiva e na força objetiva do signo. A magia da palavra, a magia da imagem e a magia da escrita formam o acervo fundamental da atividade mágica e da visão mágica de mundo"

"(...) Mas a autêntica força mítico-mágica da linguagem só vem à tona quando já aparece na forma de som articulado"

"(...) O mesmo papel que cabe à imagem cabe também à sombra de alguém. Ela também é uma parte real vulnerável dessa pessoa e todo ferimento da sombra é um ferimento na própria pessoa. É proibido pisar na sombra de alguém, pois com isso se pode transmitir uma doença à pessoa"

"Também aqui, como no desenvolvimento de todas as 'formas simbólicas', luz e sombra estão correlacionadas. A luz se anuncia e se mostra na sombra que projeta: o puramente 'inteligível' tem o sensível como seu oposto, mas esse oposto ao mesmo tempo constitui seu correlato necessário"

*Ernst Cassirer in "A filosofia das formas simbólicas - O pensamento mítico". Ed. Martins Fontes. SP. 2004.

domingo, 23 de abril de 2017

Cabelos de Baudelaire*


Certas cores, cabelos que esvoaçam no tempo,
mistura cheiros e sons, açafrão no tilintar do outono,
Tinta que borda a pele, marca a alma, o frio se aproxima.
Ilumina partes do corpo, o tom certo, é como a luz,
Atravessa fendas, melodias espalham, clarão que dança,
Como melodia na luz assombradas de pensamento.

Dedico meu tempo a teus cabelos, a poética imortal,
Mesmo que não crês no Nada, a cabeleira brilha,
O tempo não apaga os versos, o tempo esquece o presente.
Como o barco de Debussy, eleva a dor diante da música,
Em perdidas matemática antes do sol do meio-dia,
Fios voam mar dentro de luz, fonte da vida, os cabelos em direção à margem,
Morre no horizonte o que oculta. 

*Prof. Dr. Luis Antonio Paim Gomes
Filósofo. Editor. Livre Pensador.
Porto Alegre/RS

sábado, 22 de abril de 2017

A palavra dialética*









A rigidez do raciocínio bem estruturado, nos relatos da palavra definida, abriga um dizer de natureza inconformada. Antítese da comunicação inicial, esse teor descompassado, ao ser contradição, prescreve novos rituais para comunicar. As propostas por desmerecê-lo reafirmam sua natureza de transgressão. Seu rumor de não palavra, ao ser dizível, aponta uma estética da desrazão. 
Esses relatos interditos na expressividade buscam emancipar as fronteiras discursivas. Sua desconformidade inaugura espaços, oferece ambientes para novos experimentos narrativos. Ao quebrar protocolos emancipa aquilo por vir. A palavra dialética contém em si mesma: afirmação e negação. Um território com cheiro de terra nova se apresenta em cada página. 
Na ruptura com aquilo que já foi novidade, se empenha em querer mais. Acolhe as dinâmicas da crise como um anúncio. Sua referência de inspiração são as autogenias precursoras. Ao dizer não a rigidez do discurso completo, bem acabado, sua alternativa é uma poética das incompletudes. Sua ótica de reverência à vida persiste em ser ensaio criativo. 
Nessa arte de evidenciar frestas se rasura a norma definitiva. Suas vírgulas, espaços em branco, acenam um devir de raridades. Sua lógica subversiva, ao denunciar refúgios na palavra consentida, equivale a uma premonição. Assim é possível vislumbrar algo mais além de fracassos, acertos, dúvidas. São muitas as invenções contidas na desorganização preliminar do sujeito. Sua força emancipadora reside nos anúncios de originalidade.
Sua intencionalidade de negação faz girar a vida aprisionada nas teses de sentido único. A ideia, ao sair de si mesma, desconstrói certezas para inaugurar verdades. Desse ponto de vista uma transcendência parece flertar com os descaminhos do cotidiano. Quiçá um devir a flanar entremeios da rigidez discursiva, significando-se como arte a emancipar fronteiras.
*Hélio Strassburger

sexta-feira, 21 de abril de 2017

Fragmentos Filosóficos, Delirantes*


"(...) essa estrutura da consciência é muito frequente nos filósofos, ou seja, nos homens que têm um grande hábito de 'pensar sobre o pensamento', como diz Goethe, isto é, que estão profundamente penetrados pelo caráter imaterial do pensamento, que sabem de longa data que ele escapa a todo esforço para representá-lo, defini-lo, cristalizá-lo, e que, por conseguinte, só de modo sóbrio e com alguma repugnância usam comparações e metáforas quando falam dele"

"A compreensão é um movimento que nunca se conclui, é a reação do espírito a uma imagem através de outra imagem, e a essa através de outra imagem, e assim por diante, em linha contínua, até o infinito"

"Na atitude imaginante, com efeito, encontramo-nos na presença de um objeto que se dá como análogo aos que podem aparecer-nos na percepção"

"(...) compreender por que percebemos de maneira diferente daquela com que vemos"

"O ato de imaginação, como acabamos de ver, é um ato mágico. É um encantamento destinado a fazer aparecer o objeto no qual pensamos, a coisa que desejamos, de modo que dela possamos tomar posse. Nesse ato, há sempre algo de imperioso e infantil, uma recusa de dar conta da distância, das dificuldades. Dessa forma, a criança, em seu leito, age sobre o mundo com ordens e preces. A essas ordens da consciência os objetos obedecem: aparecem"

"Um objeto enquanto imagem não é nunca de maneira franca ele próprio"

"(...) o sentimento comporta-se diante do irreal tal como se comporta diante do real. Procura fundir-se a ele, esposar seus contornos, alimentar-se dele"

"(...) imagens hipnagógicas. Essa produção de imagens, fundada sobre a apreensão imaginante de fosfenos, de contrações musculares, de palavras interiores, possui riqueza suficiente para fornecer a matéria do sonho"

*Jean-Paul Sartre in "O imaginário" Ed. Ática. SP. 1996.  

quinta-feira, 20 de abril de 2017

Buscas ou escolhas ?*


O passado é um lugar, nunca uma prisão. Confundir essa condição pode ser doloroso e degradante demais. E a nossa morada deve ser sempre agora, pois no passado não devemos permanecer, mas sim, visitar quantas vezes for preciso, sobretudo, para aprender a perdoar ou superar os desafios propostos na nossa jornada da vida como produto das nossas próprias escolhas. Afinal, podemos e até devemos sempre buscar sermos senhores das nossas escolhas; porquanto das consequências sempre seremos reféns. Musa!

*Prof. Dr. Pablo Eugenio mendes
Filósofo. Educador. Filósofo Clínico
Uberlândia/MG – Porto Alegre/RS

quarta-feira, 19 de abril de 2017

Fragmentos Filosóficos, Delirantes*


"Para Isócrates, para Alcidamas, o lógos também é um ser vivo (zôon) cuja riqueza, vigor, flexibilidade, agilidade são limitados e constrangidos pela rigidez cadavérica do signo escrito"

"Mas antes de ser dominado, subjugado pelo kósmos e pela ordem da verdade, o lógos é um ser vivo selvagem, uma animalidade ambígua. Sua força mágica, 'farmacêutica', deve-se a esta ambivalência, e isso explica que ela seja desproporcionada a esse quase nada que é uma fala"

"O phármakon está compreendido na estrutura do lógos"

"(...) dar nascimento aos outros é uma obrigação que o deus me impõe, procriar é potência da qual me afastou. E lembremo-nos da ambiguidade do phármakon socrático, anxiógeno e tranquilizante: 'Ora, esas dores, minha arte tem a potência de despertá-las ou acalmá-las"

"O esperma, a água, a tinta, a pintura, o tingimento perfumado: o phármakon penetra sempre como o líquido, ele se bebe, se absorve, se introduz no interior que ele marca, primeiramente, com a dureza do tipo, invadindo-o em seguida e inundando-o com seu remédio, sua beberagem, sua bebida, sua poção, seu veneno"

"No líquido, os opostos passam mais facilmente um no outro. O líquido é o elemento do phármakon. E a água, pureza do líquido, se deixa o mais facilmente, o mais perigosamente, penetrar e depois se corromper pelo phármakon, com o qual se mistura e se compõe tão rapidamente" 

"A cura pelo lógos, o exorcismo, a catarse anularão pois o excedente"

"Trata-se da palavra 'pharmakós' (feiticeiro, mágico, envenenador)"

"Desse fundo a dialética extrai seus filosofemas. O phármakon, sem nada ser por si mesmo, os excede sempre como seu fundo sem fundo. Ele se mantém sempre em reserva, ainda que não tenha profundidade fundamental nem última localidade. Nós o veremos prometer-se ao infinito e se escapar sempre por portas secretas, brilhantes como espelho e abertas sobre um labirinto. E também essa reserva de fundo que chamamos a farmácia"

*Jacques Derrida in "A farmácia de Platão". Ed. Iluminuras. SP. 2005.

terça-feira, 18 de abril de 2017

Aceite críticas: notas sobre minha tese e o Facebook*


Pouco depois de defender minha tese de doutorado e ver alguns debates enraivecidos no Facebook, acabei refletindo sobre algumas coisas e, na medida em que as ideias surgiram, escrevi postagens avulsas sobre a dificuldade de algumas pessoas de serem criticadas. Dessas postagens, três acabaram se tornando a reflexão que segue, com ligeiras alterações para dar uniformidade ao raciocínio.

A experiência de defender minha tese foi, antes de tudo, um exercício de humildade. Por mais que eu aconselhe os meus colegas a ficarem confiantes, uma vez que a maior autoridade no trabalho de pesquisa que fazemos somos nós mesmos, isso não isenta o trabalho de erros que podem ser encontrados pelos avaliadores. 

Eles provavelmente não leram tudo o que você leu, na ordem em que leu e com a perspectiva que você interpretou para escrever seu trabalho. Mas eles são os primeiros – em muitos casos, os únicos – receptores de seu trabalho e alguns dos mais atentos que o lerão. Desde sua monografia da graduação até a tese de doutoramento, a avaliação é um modo de você reconhecer que seu trabalho é passível de falhas. Não interessa se seus avaliadores são doutores no mesmo assunto que você aborda ou leitores interessados e pouco versados no seu tema. O que importa é colocar seu trabalho à prova.

A crítica não deveria ser vista como uma ameaça. Seja de quem é superior em conhecimentos, seja de quem possui menos ciência, toda crítica deveria ser avaliada. Aquele que sabe mais do que você pode ter visto inconsistências em suas ideias. Mas, também pode ter compreendido mal sua exposição. Aquele que sabe menos, pode ter percebido algo que nem você se deu conta. Ou até pode lhe mostrar algo em que você falhou na hora de explicar, dando margem para ambiguidades. Esbravejar diante de críticas sem ponderação prévia, não resolve nada. Não esclarece o ignorante, nem convence o sábio.

Por fim, reclamar que não entenderam o que você escreveu é até compreensível. Muitos não interpretam bem mesmo. Mas, é possível também que o erro esteja em sua escrita. Quanto mais seu texto se encontra repleto de subentendidos ou até erros gramaticais, mais difícil será para o leitor compreender o que você escreveu. Taxar todos de ignorantes ou analfabetos funcionais pode configurar apenas a soberba de quem se acha superior aos outros e infalível no domínio da expressão escrita.

*Prof. Dr. Miguel Angelo Caruzo
Filósofo. Educador. Filósofo Clínico.
Teresópolis/RJ

segunda-feira, 17 de abril de 2017

Fragmentos Filosóficos, Delirantes*


"Todo mundo elevado requer que se tenha nascido para ele; ou melhor, que se tenha sido cultivado para ele: direito à filosofia - no sentido mais amplo - obtém-se apenas em virtude da ascendência, os ancestrais, o 'sangue' decide também aqui. Muitas gerações devem ter trabalhado na gênese do filósofo; cada uma de suas virtudes deve ter sido adquirida, cultivada, transmitida, incorporada, e não apenas o passo e curso ousado, leve e delicado de seus pensamentos, mas sobretudo a disposição para grandes responsabilidades, a elevação de olhares que dominam e olham para baixo, o sentir-se apartado da multidão e seus deveres e virtudes, a afável proteção e defesa do que é incompreendido e caluniado (...)"

"Todos os deuses até aqui não foram demônios rebatizados e santificados ?"

"(...) todos grandes descobridores no terreno do sublime (...) Com misteriosos acessos a tudo que seduz, atrai, compele, transtorna, inimigos natos da lógica e da linha reta, cobiçosos do que seja estranho, exótico, enorme, torto, contraditório"

"(...) o desejo de sempre aumentar a distância no interior da própria alma, a elaboração de estados sempre mais elevados, mais raros, remotos, amplos, abrangentes, em suma, a elevação do tipo 'homem', a contínua 'auto-superação do homem', para usar uma fórmula moral num sentido supramoral"

"Não basta utilizar as mesmas palavras para compreendermos uns aos outros; é preciso utilizar as mesmas palavras para a mesma espécie de vivências interiores, é preciso, enfim, ter a experiência em comum com o outro"

"Todo pensador profundo tem mais receio de ser compreendido que de ser mal compreendido"

"Um filósofo: é um homem que continuamente vê, vive, ouve, suspeita, espera e sonha coisas extraordinárias; que é colhido por seus próprios pensamentos, como se eles viessem de fora, de cima e de baixo, constituindo a sua espécie de acontecimentos e coriscos; que é talvez ele próprio um temporal, caminhando prenhe de novos raios; um homem fatal, em torno do qual há sempre murmúrio, bramido, rompimento, inquietude"

*Friedrich Nietzsche in "Além do bem e do mal". Ed. Cia de Bolso. SP. 2005. 

domingo, 16 de abril de 2017

Ressurreição*


Desta vez
Não haveria volta
Ela havia decidido
Falou de si
Para si mesma:
- Desta vez, ou vai , ou racha...
Rachou seu coração
Quebrou a casca
E a borboleta saiu
Tropeçou
Caiu
Levantou
Quase desaprendera a voar.
Ele ainda tentou falar:
- Cuidarei da casa
Cuidarei do jardim
Cuidarei das flores
E dos beija flores
E das borboletas.
Afinal, borboletas
Sempre voltam!
Ela disse-lhe:
- A borboleta sou eu...!!!

*José Mayer
Filósofo. Poeta. Estudante na Casa da Filosofia Clínica
Porto Alegre/RS

sábado, 15 de abril de 2017

Fragmentos Filosóficos, Delirantes*


"É necessário lembrar que a classificação das vozes humanas - como toda classificação elaborada por uma sociedade - nunca é inocente"

"(..) o corpo dispensa o sujeito e a pintura de Réquichot vai, então, ao encontro do que seria a extrema vanguarda: aquela que não é classificável e cujo caráter psicótico a sociedade denuncia, pois que, assim fazendo, pode, pelo menos, nomeá-la"

"Ora, é mais u menos o que ocorre na cura analítica: a própria ideia de 'cura', inicialmente muito simples, transforma-se, torna-se distante: a obra, como a cura, é interminável: trata-se, em ambos os casos, menos de obter um resultado do que modificar um problema, isto é, um tema: livrá-lo da finalidade em que se encerra seu início" 

"A metáfora é a única maneira de nomear o inominável (transforma-se, então, em catacrese): a cadeia de nomes substitui o nome que falta"

"A polissemia desenfreada é o primeiro episódio (iniciático) de uma ascese: a ascese que leva para fora do léxico, para fora do sentido"

"Tomemos um objeto usual: não é seu estado de novo, virgem que melhor traduz sua essência; é mais bem seu estado de resíduo um pouco desgastado, um pouco abandonado: é no resíduo que se lê a verdade das coisas. É no seu rastro que está a verdade do vermelho; é na tênue marca de um traço que está a verdade do lápis"

"(...) o sentido depende do nível em que o leitor se coloca"

"Procedimento inovador, raro, sustentado contra uma prática majoritária (a da significação), o sentido obtuso surge, fatalmente, como um luxo, uma despesa sem retorno; esse luxo ainda não faz parte da política de hoje, mas já faz parte da política do amanhã"

"O sentido obtuso parece desdobrar suas asas fora da cultura, do saber, da informação; analiticamente, tem algo de irrisório; porque leva ao infinito da linguagem, poderá pareer limitado à observação da razão analítica; pertence à classe dos trocadilhos, das pilhérias, das despesas inúteis; indiferente às categorias morais  ou estéticas (o trivial, o fútil, o postiço e o pastiche), enquadra-se na categoria do carnaval. Obtuso convém, pois, perfeitamente"

*Roland Barthes in "O óbvio e o obtuso". Ed. Nova Fronteira. RJ. 1990.    

sexta-feira, 14 de abril de 2017

A cegueira nossa de cada dia*


Tenho refletido bastante sobre o uso das mídias digitais...
Tudo tem os dois lados. Usar o caminho do meio nem sempre é fácil.

Usar este espaço para divulgar cultura, reflexões e trocar afetos, para mim é sempre bom.
Preocupo-me com os discursos agressivos, o excesso de exposição, as falsas imagens e tanto desrespeito.

Preocupo-me principalmente com o vício do uso excessivo destes canais que tiram as pessoas das relações olho no olho.

Preocupo-me com o tempo perdido no uso excessivo destas mídias que roubam a leitura de um bom livro, dos encontros com amigos, família e colegas. Que roubam tempo no trabalho, no estudo e fazer bem feito coisas simples do dia a dia.

Administrar o Tempo do uso destas mídias se faz urgente, senão seremos cegos e máquinas e perderemos nossas vidas, como bem diz Saramago em seu livro e filme: "Ensaio sobre a Cegueira". Pensem nisto!

*Dra. Rosangela Rossi
Psicoterapeuta. Escritora. Filósofa Clínica. Livre Pensadora.
Juiz de Fora/MG

quinta-feira, 13 de abril de 2017

Com licença poética*


Quando nasci um anjo esbelto,
desses que tocam trombeta, anunciou:
vai carregar bandeira.

Cargo muito pesado pra mulher,
esta espécie ainda envergonhada.
Aceito os subterfúgios que me cabem,
sem precisar mentir.

Não sou tão feia que não possa casar,
acho o Rio de Janeiro uma beleza e
ora sim, ora não, creio em parto sem dor.
Mas o que sinto escrevo. Cumpro a sina.
Inauguro linhagens, fundo reinos
-- dor não é amargura.

Minha tristeza não tem pedigree,
já a minha vontade de alegria,
sua raiz vai ao meu mil avô.
Vai ser coxo na vida é maldição pra homem.
Mulher é desdobrável. Eu sou.

*Adélia Prado

quarta-feira, 12 de abril de 2017

Ame mais, fale menos*


Será que isto é amor? Esta é uma pergunta que muitos morrem angustiados sem saber responder. Felizes daqueles que afirmam categoricamente sim. Ainda que não tenha durado para sempre, que tenham sido anos, meses ou dias, esta certeza é melhor que a dúvida ou a negativa.

Se o amor foi correspondido ou não, é outra história. A questão é saber se amou ou não amou.  Passar uma vida inteira e ao final constatar jamais ter amado alguém é um desperdício. Ou pior, passar anos fazendo análise para saber se realmente era amor aquilo que sentia e morrer na dúvida. Desperdício dobrado.

Houve um tempo em que amar significava comprometimento. Dizer “eu te amo” era declaração de um sentimento único e raro em uma relação diferente de todas as outras. Um envolvimento sólido, uma ligação pra valer. Eram necessários meses ou anos de convívio e muita coragem para solenemente declarar amor por aquela pessoa especial. Jamais seria escrito via whatsapp seguido de figuras de coraçõezinhos ou beijinhos. O amor era revelado ao pé do ouvido, olhando nos olhos, entrelaçando as mãos, e significava quase um pedido de casamento. Em tese, sabiam do que estavam falando. 

Hoje em dia, anunciar que ama alguém, não quer dizer quase nada.  A palavra amor foi banalizada e é verbalizada à toa. Maria ama João, mas antes amou Paulo e antes dele, Francisco. Maria só tem treze anos de idade, e todas as declarações foram postadas no facebook.  Fernanda amou o show do Fábio Júnior, Ana amou a torta de nozes que provou na confeitaria. Ama-se cachorros, filmes, viagens, móveis, óculos, biquínis e pessoas também.

O dicionário define amor como uma afeição profunda, a ponto de estabelecer um vinculo intenso, capaz de doações próprias, até o sacrifício. É assim que funciona pra você?  Fique tranqüilo, nem todos concordam com esta explicação, existem milhares de outras definições, em alguma delas você deve se encaixar.

“Amar é aquela vontade danada de andar de mãos dadas durante o dia e de pés dados durante a noite”.
”O amor tem vários sabores, desde o adocicado do início, até o amargo do fim”.
“O amor nasce não sei de onde, vem não sei como, e dói não sei porquê”.
“O amor está em todos os lugares, você é que não procura direito”.
“O amor é o que o amor faz”.
“O amor que acaba, nunca principiou”.
“Quando encontramos o amor da vida da gente, tudo parece fazer sentido. E percebemos que tínhamos uma falsa idéia do que era o amor”.
"O amor que acaba também é eterno".
"Quem não é nem capaz de dividir o amor, deixará o outro sofrer sozinho depois".
"Quando um homem ama de verdade, a única coisa que vai querer mudar na mulher amada é o sobrenome".
"Quem perde tempo julgando, fica sem tempo para amar".

E agora, ficou mais fácil ou complicou de vez? Como enquadrar aquilo que estamos sentindo em uma definição de amor? Por mais evoluídos que possamos parecer, não conseguimos descrever sentimentos com palavras adequadas, então utilizamos o auxilio de metáforas palpáveis. Ainda não atingimos a capacidade de descrever idéias abstratas sem transformá-las em algo físico. Não conhecemos palavras pertinentes, então tentamos nos comunicar através de imagens que simulem aquilo que queremos expressar. “Explodiu de amor”, “ficou cego de paixão”, “regou o amor”, “amor raso”, “amor profundo”, “amor de verão”, “louco amor”.

Provavelmente você tem a sua definição de amor, que é diferente da minha, que é diferente da maioria das pessoas. E não há nada de errado nisto. Amor é uma palavra que inventaram para expressar um sentimento e não um conceito fechado e consensual, portanto, cada um sentirá de sua maneira e o expressará como conseguir. Se aquilo que você está sentindo se encaixa ou não no rótulo amor do dicionário ou combina com a imagem formada de seu amado(a) é o grande desafio.

Por conta destas discordâncias conceituais, casais que lá atrás juravam se amar, depois de um tempo de convivência, descobriram que se enganaram, hoje se odeiam e talvez amanhã até se matem. Quem pode assumir o papel de juiz ou dono da verdade para decidir o que é amor ou não? Já dizia o Marquês de Maricá: “nossas necessidades nos unem, mas nossas opiniões nos separam”.

Não gosto de dar conselhos, mas vou dizer o que penso hoje sobre o amor. Talvez ajude alguns corações indecisos. Preste atenção: amor é apenas uma palavra que sequer consegue expressar o sentimento de uma só pessoa, quem dirá de um casal ou do universo inteiro. Dizer “eu te amo” não significa muito, não é garantia de nada e pode causar confusão, tapas e beijos.  Em compensação, amar significa quase tudo.
Ame mais e fale menos.

*Ildo Meyer
Médico. Escritor. Palestrante. Filósofo Clínico.
Porto Alegre/RS

terça-feira, 11 de abril de 2017

Fragmentos Filosóficos, Delirantes*


"Independência é algo para bem poucos - é prerrogativa dos fortes"

"É inevitável - e justo - que nossas mais altas intuições pareçam bobagens, em algumas circunstâncias delitos, quando chegam indevidamente aos ouvidos daqueles que não são feitos e predestinados para elas"

"Livros de todo mundo sempre são livros malcheirosos: o odor da gente pequena adere a eles. Ali onde o povo come e bebe, e mesmo onde venera, o ar costuma feder. Não se deve frequentar igrejas, quando se deseja respirar ar puro"

"É preciso livrar-se do mau gosto de querer estar de acordo com muitos"

"(...) as grandes coisas ficam para os grandes, os abismos para os profundos, as branduras e os tremores para os sutis e, em resumo, as coisas raras para os raros"

"Fomos maus espectadores da vida, se não vimos também a mão que delicadamente - mata"

"A mulher aprende a odiar na medida em que desaprende a enfeitiçar"

"Não existem fenômenos morais, apenas uma interpretação moral dos fenômenos"

"Quem combate monstruosidades deve cuidar para que não se torne um monstro. E se você olhar longamente para um abismo, o abismo também olha para dentro de você"

"O que se faz por amor sempre acontece além do bem e do mal"

"Quando os impulsos mais elevados e mais fortes, irrompendo passionalmente, arrastam o indivíduo muito acima e além da mediania e da planura da consciência de rebanho, o amor-próprio da comunidade se acaba, sua fé em si mesma, como que sua espinha dorsal, é quebrada: portanto, justamente esses impulsos serão estigmatizados e caluniados"

"(...) tudo o que ergue o indivíduo acima do rebanho e infunde temor ao próximo é doravante apelidado de mau; a mentalidade modesta, equânime, submissa, igualitária, a mediocridade dos desejos obtêm fama e honra morais"

"É difícil aprender o que é um filósofo, porque isso não se pode ensinar"

*Friedrich Nietzsche in "Além do bem e do mal". Ed. Companhia de Bolso. SP. 2005.

segunda-feira, 10 de abril de 2017

Descrituras*


“(...) Deram-me esta bela gravata... como um presente de desaniversário! (...) o que é um presente de desaniversário ? – Um presente oferecido quando não é seu aniversário, naturalmente.”
                                                                               Lewis Carroll

Uma redação se faz página cotidiana na vida de qualquer pessoa, quer ela entenda ou não. Algo que restaria esquecido, não fora a ousadia semiótica a tentar decifrar essa trama de códigos imperfeitos. Por esse esboço a lógica descritura se incompleta para prosseguir inconclusa, aberta, viva. 

Nem sempre se escolhe escrever, algumas vezes são as palavras a escolher um sujeito para se dizer. Conteúdos de rascunho, ilação, percepção extemporânea, reflexão. Aproximações com a zona interdita nas margens de cada um.

O tempo aprecia conceder eficácia de tradução aos traços persistentes. O sujeito prisioneiro dessa armadilha conceitual experimenta liberdades nem sempre possíveis de mencionar na forma retórica. A relação do universo singular com o mundo dos outros aprecia se realizar em manuscritos compartilhados.

A trama constitutiva dos termos agendados exibe um processo em curso na pessoa fonte de vivências, um deslocamento a mencionar labirintos desmerecidos. Esse olhar inédito, a conter invisibilidades, se aproxima de um lugar sem nome. 

Um refém sugere seu extraordinário teor discursivo em dialetos de novidade. Quiçá à espera de algo que o mantenha vivo, um pouco antes de ser verdade nalguma forma de religião. A desnecessidade aparece, ao autor dessas linhas, como um lugar provisório aos textos por vir.

No encontro do acaso com a definição o sujeito desdobra-se num percurso onde entrevê seu ser passando. Assim as releituras podem conseguir um vislumbre desses traços malditos. Nalguns instantes as palavras podem antecipar a visão do paraíso ou inferno pessoal.

Essa teia de signos possui intencionalidade transbordante, a qual, longe da singularidade que a produz, nada é. Sua ameaça às certezas oscila com a frequência das interseções do seu entorno. Os rituais de autodescoberta esparramam vestígios de arquitetura indizível. Quiçá tentativa de expandir a janelinha diante do espelho.

Escreve-se por não saber por que. Quando se sabe já são outras razões. Nessa dialética a descritura aproxima sonho com a vida real. Já é outro aquele mesmo que se foi. Convivência absurda a parir virgindades. 

*Hélio Strassburger

domingo, 9 de abril de 2017

Fragmentos Filosóficos, Delirantes*


"Ao primeiro exame, é possível definir as palavras por seu caráter arbitrário ou coletivo. Na sua raiz primeira, a linguagem é feita como diz Hobbes, de um sistema de sinais que os indivíduos escolheram, primeiramente, para si próprios: por essas marcas, podem eles recordar as representações, ligá-las, dissociá-las e operar sobre elas. São esses sinais que uma convenção ou uma violência impuseram à coletividade; mas, de toda maneira, o sentido das palavras só pertence à representação de cada um e, conquanto seja aceite por todos, não tem outra existência senão no pensamento dos indivíduos tomados um a um"

"(...) a linguagem é espontânea e irrefletida; é como que natural. Conforme o ponto de vista com que a consideramos, ela é tanto uma representação já analisada, quanto uma reflexão em estado selvagem. Na verdade, é o liame concreto entre a representação e a reflexão"

"O que erige a palavra como palavra e a ergue acima dos gritos e dos ruídos é a proposição nela oculta"

"No interior das frases, ali mesmo onde a significação parece ter um apoio mudo em sílabas insignificantes, há sempre uma nomeação adormecida, uma forma que guarda fechado entre suas paredes sonoras o reflexo de uma representação invisível e todavia inapagável"

"A identidade e aquilo que a marca se definem pelo resíduo das diferenças. Um animal ou uma planta não é aquilo que é indicado - ou traído - pelo estigma que se descobre impresso nele; é aquilo que os outros não são; só existe em si mesmo no limite daquilo que dele se distingue"

"(...) o poeta é aquele que, por sob as diferenças nomeadas e cotidianamente previstas, reencontra os parentescos subterrâneos das coisas, suas similitudes dispersadas"

"(...) por mais que se diga o que se vê, o que se vê não se aloja jamais no que se diz"

Michel Foucault in "As palavras e as coisas". Ed. Martins Fontes. SP. 2002.

sábado, 8 de abril de 2017

O menino e a poesia*


A fresta era um resto
Atrás do mundo
Onde a estrela caíra
E a lua se dobrara.

Era atrás da fresta
Que morava um vazio
De alguém também vazio
Agora sem endereços.

Era na fresta, e atrás
Que a menina colava a testa
Para um resto de noite
Era na luz da fresta
Que a menina espiava
Feito noite na floresta

Foi ali
Que ela vira
Que o menino-poeta
Certa feita desfalecera
Numa das últimas vezes
Que morreu de amor.

Depois a porta se abriu
A fresta desmanchou
A estrela subiu
A lua se encheu...

*José Mayer
Filósofo. Livreiro. Poeta. Estudante na Casa da Filosofia Clínica
Porto Alegre/RS

sexta-feira, 7 de abril de 2017

Fragmentos Filosóficos, Delirantes*


"A linguagem da poesia é essencialmente polissêmica e isso de um jeito muito próprio. Não conseguiremos escutar nada sobre a saga do dizer poético enquanto formos ao seu encontro guiados pela busca surda de um sentido unívoco"

"O estranho está em travessia. Sua errância não é porém de qualquer jeito, sem determinação, para lá e para cá. O estranho caminha em busca do lugar em que pode permanecer em travessia. 'O estranho' segue, sem quase dar-se conta, um apelo, o apelo de se encaminhar e pôr-se a caminho do que lhe é próprio"

"(...) é indispensável perdermos o hábito de só ouvir o que já compreendemos"

"Metalinguística é a metafísica da contínua tecnicização de todas as línguas, com vistas a torná-las um mero instrumento de informação capaz de funcionar interplanetariamente, ou seja, globalmente. Metalinguagem e esputinique, metalinguística e técnica de foguetes são o mesmo"

"Estamos sempre no perigo de sobrecarregar um poema com excesso de pensamento e assim impedir que o poético nos toque"

"Não se deve ver a linguagem como um produto morto e sim como uma produção. Deve-se abstrair a linguagem da ideia de tudo que ela efetiva como designação de objetos e transmissão de entendimentos e reconduzi-la com todo cuidado para a sua origem, intrínseca e intimamente relacionada com a atividade interior do espírito e a sua mútua influência"

"O que, portanto, deve manter-se impronunciado resguarda-se no não dito, abriga-se no velado como o que não se deixa mostrar, é mistério"

"O delirante pensa e pensa mais do que qualquer um. Mas nisso ele fica sem o sentido dos outros. Ele é um outro sentido"

"O desprendido é delirante porque está a caminho de outro lugar"

Martin Heidegger in "A caminho da linguagem". Ed. Vozes. 2004. Petrópolis/RJ.