domingo, 31 de dezembro de 2017

O livro sobre nada*


É mais fácil fazer da tolice um regalo do que da sensatez.
Tudo que não invento é falso.

Há muitas maneiras sérias de não dizer nada, mas só a poesia é verdadeira.
Tem mais presença em mim o que me falta.
Melhor jeito que achei pra me conhecer foi fazendo o contrário.
Sou muito preparado de conflitos.

Não pode haver ausência de boca nas palavras: nenhuma fique desamparada do ser que a revelou.
O meu amanhecer vai ser de noite.

Melhor que nomear é aludir. Verso não precisa dar noção.
O que sustenta a encantação de um verso (além do ritmo) é o ilogismo.
Meu avesso é mais visível do que um poste.

Sábio é o que adivinha.
Para ter mais certezas tenho que me saber de imperfeições.
A inércia é meu ato principal.

Não saio de dentro de mim nem pra pescar.
Sabedoria pode ser que seja estar uma árvore.
Estilo é um modelo anormal de expressão: é estigma.

Peixe não tem honras nem horizontes.
Sempre que desejo contar alguma coisa, não faço nada; mas quando não desejo contar nada, faço poesia.

Eu queria ser lido pelas pedras.
As palavras me escondem sem cuidado.
Aonde eu não estou as palavras me acham.

Há histórias tão verdadeiras que às vezes parece que são inventadas.
Uma palavra abriu o roupão pra mim. Ela deseja que eu a seja.

A terapia literária consiste em desarrumar a linguagem a ponto que ela expresse nossos mais fundos desejos.
Quero a palavra que sirva na boca dos passarinhos.
Esta tarefa de cessar é que puxa minhas frases para antes de mim.

Ateu é uma pessoa capaz de provar cientificamente que não é nada. Só se compara aos santos. Os santos querem ser os vermes de Deus.
Melhor para chegar a nada é descobrir a verdade.

O artista é erro da natureza. Beethoven foi um erro perfeito.
Por pudor sou impuro.
O branco me corrompe.

Não gosto de palavra acostumada.
A minha diferença é sempre menos.

Palavra poética tem que chegar ao grau de brinquedo para ser séria.
Não preciso do fim para chegar.
Do lugar onde estou já fui embora.

*Manoel de Barros

sábado, 30 de dezembro de 2017

Imagens do Pensar*


  "O imaginário e o real tornam-se indiscerníveis.”
Gilles Deleuze

“Quando tudo foi dito, quando a cena maior parece terminada, há o que vem depois.”
Michelangelo Antonioni


Minha, a letra que vem do pensamento,
A roupa, visto ‒ a música, sinto na pele.
Transfiguro em tua boca, triste é viver neste buraco,
A solidão é o começo da liberdade, me faz cantarolar,
Acordar noturno é o começo do tempo que se despede.

A narrativa em filigranas discorre no tempo,
Folhas perdem a força, sequência do pensar disperso,
O presente está depois da imagem, em signos, na nuvem.
O movimento é de Antonioni, reúne os tempos,
O vazio mescla com o tempo morto.

O que está aí, feito está. O que foi dito, está aqui.
Presa do tempo, o homem, inventa o que vem depois,
O Imaginário e o Real é o café da manhã à linguagem da vida.

O mundo é feito não mais de heróis, os excessos perderam para os subjetivos obsedantes das Redes.

*Prof. Dr. Luis Antonio Paim Gomes
Filósofo. Editor. Livre Pensador.
Porto Alegre/RS

sexta-feira, 29 de dezembro de 2017

Fragmentos Filosóficos, Delirantes*


"Mais uma vez, muito obrigado pelos livros. Eles distraem-me mais que qualquer outra coisa. Por quase cinco meses tenho vivido exclusivamente de minhas próprias provisões - ou seja, de minha própria mente e apenas dela"

"Fico imensamente feliz por ter descoberto que trago paciência em minha alma por tanto tempo, que não desejo as coisas materiais e não preciso de nada mais que livros e a possibilidade de escrever e de estar sozinho por algumas horas todos os dias. Esse último desejo é o que mais me angustia. Por quase cinco anos tenho estado sob constante vigilância, ou com várias outras pessoas, e nem uma hora sequer sozinho comigo mesmo"

"A constante companhia de outros funciona como um veneno u uma praga(...)"

"(...) mas sei que compreendes que a rotina da caserna não é uma piada e que a vida de soldado, com todas as suas exigências, não é nada fácil para alguém com a saúde frágil como a minha, com a vida interior que tenho"

"Vivo sozinho aqui. Como de costume, escondo-me das pessoas. Depois de cinco anos de contínua vigilância, um de meus grandes prazeres é ter meus momentos de solidão"

"(...) Escreve muito rápido e em demasia. Um homem deve ter mais ambição, mais respeito por seu talento e ofício, e mais amor pela arte. Quando se é jovem, as ideias acumulam-se em nossa cabeça; mas não se deve capturar a cada uma delas enquanto bailam em nossa mente, e daí apressar-se para divulgá-la. Deve-se esperar pela síntese, pensar mais; aguardar até que os detalhes todos que formam a ideia tenham se agrupado em torno de um núcleo, em uma ampla e definida imagem; nesse momento, nunca antes, deve-se então escrevê-la" 

"Não pode imaginar o quanto é amargo para mim quando as pessoas não me compreendem, quando deturpam o que eu disse e veem tudo distinto do que eu pensei"

*Fiodor Dostoiévski
    1821 - 1881

quarta-feira, 27 de dezembro de 2017

A proposta husserliana do mundo vivido como originário*


Podemos dizer que um dos intentos de Husserl com sua proposta fenomenológica é o de reivindicar o mundo vivido como a origem de nossos conhecimentos, de modo que o mundo conhecido ou objetivo não pode ser, como propõe o psicologismo de seu tempo, o único considerado verdadeiro.

Desse modo, a ciência astronômica, por exemplo, que apresenta a Terra como um planeta ao lado dos demais, isto é, como mais um objeto como os outros, nasceu na própria Terra. Em outras palavras, o astrônomo parte da Terra como referencial vivido para definir objetivamente o movimento da terra, bem como a questão do repouso, do espaço e do caráter objetivo em geral.

Com isso, a Terra não é mais um lugar possível de se referenciar dentro da infinidade de possibilidades que o universo apresenta. O astrônomo parte de suas experiências, do mundo vivido, para expor seus enunciados científicos. O que nos leva à seguinte proposta de Husserl: o mundo vivido é a origem do mundo conhecido ou objetivo.

A primeira consequência dessa reflexão é a de que o conflito segundo o qual o mundo conhecido é considerado o verdadeiro, enquanto o mundo vivido é o falso, perde seu fundamento. Pois, de algum modo, podemos afirmar que o mundo vivido é o mais verdadeiro, não por poder ser “comprovado” pelo método da ciência, mas por ser a base originária da experiência que nos serve como orientação, inclusive, para fazer ciência.

Prof. Dr. Miguel Angelo Caruzo
Filósofo. Escritor. Filósofo Clínico
Teresópolis/RJ

terça-feira, 26 de dezembro de 2017

Fragmentos Filosóficos, Delirantes*


"A natureza da loucura é ao mesmo tempo sua útil sabedoria; sua razão de ser consiste em aproximar-se tão perto da razão, ser-lhe tão consubstancial que formarão, ambas, um texto indissolúvel, onde só se pode decifrar a finalidade da natureza: é preciso a loucura do amor para conservar a espécie; são precisos os delírios da ambição para a boa ordem dos corpos políticos; é preciso a avidez insensata para criar riquezas"

"(...) a razão reconhece imediatamente a negatividade do louco no não-razoável, mas reconhece a si mesma no conteúdo racional de toda loucura"

"No momento em que quer alcançar o homem concreto, a experiência da loucura encontra a moral"

"A loucura da loucura está em ser secretamente razão"

"O desatino é que a verdade da loucura é a razão"

"Mas o louco tem seus bons momentos, ou melhor, ele é, em sua loucura, o próprio momento da verdade; insensato, tem mais senso comum e desatina menos que os atinados. Do fundo de sua loucura atinada, isto é, do alto de sua sabedoria louca, sabe muito bem que sua alma foi atingida. E renovando, em sentido contrário, o paradoxo de Epimênides, diz que está louco até o âmago de sua alma e, dizendo isso, enuncia a verdade"

"O internamento destina-se a corrigir, e se lhe é fixado um prazo, não é um prazo de cura mas, antes, o de um sábio arrependimento"

"Estranha superfície, a que comporta as medidas de internamento. Doentes venéreos, devassos, dissipadores, homossexuais, blasfemadores, alquimistas, libertinos: todos uma população matizada se vê repentinamente, na segunda metade do século XVII, rejeitada para além de uma linha de divisão, e reclusa em asilos que se tornarão, em um ou dois séculos, os campos fechados da loucura"

"A loucura torna-se uma forma relativa à razão ou, melhor, loucura e razão entram numa relação eternamente reversível que faz com que toda loucura tenha sua razão que a julga e controla, e toda razão sua loucura na qual ela encontra sua verdade irrisória. Cada uma é a medida da outra, e nesse movimento de referência recíproca elas se recusam, mas uma fundamenta a outra"

*Michel Foucault in "História da loucura". Ed. Perspectiva. SP. 2000.

domingo, 24 de dezembro de 2017

Terceira margem*


Ser capaz de abandonar o âmbito da subjetividade [ou de negá-la em função de um novo lugar existencial] significa um passo um tanto arriscado. Há que lançar-se numa aventura, como se estivesse diante de um rio e, num instante de inquietude, lançar-se, saltar. Há que mudar de margem. E este mudar de margem não significa um salto para o outro lado do rio, para a outra margem. Lá também existe a promessa de um solo seguro, sustentador de vida, acalentador da subjetividade. Não! este salto deve ser mais ousado...deve ser o salto no infundado...na terceira margem, onde não há solo cristalizado sustentador da vida.

Falamos aqui do salto realizado pelo personagem de Guimarães Rosa no conto "A terceira margem do Rio”. A subjetividade estava encarnada na figura do Pai, um senhor até então ordeiro que um dia ousou abandonar o solo seguro da margem em que estava e empreitou-se na construção de um barco.

Mas o intuito do Pai com a fabricação da canoa não era atingir a outra margem existente do outro lado do rio, onde igualmente existia um solo seguro, uma ordem igualmente posta, a vida já acabada, cristalizada, realizada...ele saltou rumo a...lugar nenhum. 

'No salto, em que se deixa para trás toda e qualquer segurança da existência seja verdadeira ou presumida' [Heidegger]; um salto que tem como escopo não simplesmente acomodar-se melhor na margem em que está - a primeira margem - nem tampouco alcançar a margem do outro lado do rio - a segunda margem; mas sim em direção a uma que se diferencia das outras; que é o espaço onde não há vida já pronta, posta, realizada, acabada - que é o que ocorre em ambas as outras margens - mas sim a vida na gênese da presentificação, a vida no constante realizando que perpassa todo brotamento.

Lançar-se nesta aventura de entregar-se ao movimento das águas do rio não é uma atitude que se toma por meio de uma decisão no sentido de um planejamento, mesmo porque quem planeja é a subjetividade e, no entanto, é a ausência desta que permite o salto do Pai. Daí o saltar do Pai trazer como consequência o "estarrecer de toda gente", de toda a agente que insiste em avaliar a sua atitude com a cifra do pensamento que quer segurança e, para tanto, exige que cada ato possa ser calculado e a partir daí ter todas as suas possíveis consequências previstas no resultado do cálculo.

O saltar do Pai confunde-se com a ousadia de quem se descalça de toda essa esfera. E ele permanece sempre na terceira margem, realizando vida; realizando não no sentido de uma subjetividade que tem o poder de forjar a vida. Não! Não é o pai enquanto uma subjetividade que detém a vida...é a vida que se realiza nele, a vida é que eclode nele. A postura do pai não é uma de quem almeja um objetivo, um alvo. O alvo é ele mesmo, a vida é ele mesmo." - Carlos Roberto Guimarães, filósofo.

E, muitas vezes, é neste momento, nessa passagem, neste salto, que advêm os rótulos, as tipologias, os conceitos universalizantes e ali, naquele momento que seria apenas uma passagem, um instante de em que se cerra os olhos entre uma piscada e outra, que se cristaliza uma vida e uma existência ao ostracismo do igual e do padrão. Muitas vezes viver no ostracismo não é ser exilado, mas viver como um igual, sem identidade própria no meio da multidão. 

Sob a alegação de que precisa “conter” essa esteticidade para que não faça mal a si ou aos outros, ofende-se e impede-se a singularidade de se exercer.

Quando se pensa que a vida somente pode se dar sob os auspícios dos princípios de verdades sociais ou aceitos com tais, ou de um certo modo em uma linguagem interior de autorreflexão, impede-se o salto à terceira margem e cerra-se o espaço de livre trânsito existencial.

A tirania da saúde mental delimita, além daquilo que é e não doença e saúde, o como deve-se ser saudável. Assim, toda ação em direção da saúde mental é uma ação de ofensa à singularidade. Não há terceira margem na sociedade, pois não há compreensão do singular.

Pelo menos em processo terapêutico, ainda mais daqueles que estabelecem uma construção compartilhada com a filosofia clínica, ainda há a terceira margem, ainda há a possibilidade de ser aquilo que se é.

Se uma das tarefas implícitas (ou não tão implícitas assim) da filosofia clínica é defender a singularidade, que ela defenda a condição de possibilidade do mergulho não calculado em um mar onde não há margens, mas há o barco do qual tanto o partilhante quanto o filósofo clínico partilham. A terceira margem é aquela que não existe, aquela que não se materializa como margem, por isso não é e por isso sua fronteira é sempre móvel, delimitando, assim, não uma margem, mas um devir.

*Fernando Fontoura
Filósofo. Mestre em Filosofia. Doutorando em Filosofia. Filósofo Clínico. Professor Titular de Filosofia Clínica em Porto Alegre/RS e Rio de Janeiro/RJ
Porto Alegre/RS

sábado, 23 de dezembro de 2017

Fragmentos Filosóficos, Delirantes*


"O devaneio poético é sempre novo diante do objeto ao qual se liga. De um devaneio a outro, o objeto já não é o mesmo; ele se renova, e esse movimento é uma renovação do sonhador"

"Não saberíamos, sem os poetas, encontrar complementos diretos do nosso cogito de sonhador. Nem todos os objetos do mundo estão disponíveis para devaneios poéticos. Mas, assim que um poeta escolheu o seu objeto, o próprio objeto muda de ser. É promovido à condição de poético"

"Temos tanta necessidade das lições de uma vida que começa, de uma alma que desabrocha, de um espírito que se abre!"

"Ver e mostrar estão fenomenologicamente em violenta antítese"

"No devaneio retomamos contato com possibilidades que o destino não soube utilizar. Um grande paradoxo está associado aos nossos devaneios voltados para a infância; esse passado morto tem em nós um futuro, o futuro de suas imagens vivas, o futuro do devaneio que se abre diante de toda imagem redescoberta"

"(...) é preciso ler um grande livro duas vezes: uma 'pensado', como Taine, outra sonhando, num convívio de devaneio, com o sonhador que o escreveu"

"(...) Pois o alquimista é um sonhador que quer, que goza em querer, que se magnifica no seu 'querer grande'. Ao invocar o ouro - esse ouro que vai nascer no subterrâneo do sonhador -, o alquimista pede ao ouro, como outrora se pedia a Indra, para 'criar vigor'. E é assim que o devaneio alquimista determina um psiquismo vigoroso" 

"(...) ouvindo certas palavras, como a criança ouve o mar numa concha, um sonhador de palavras escuta os rumores de um mundo de sonhos"

*Gaston Bachelard in "A poética do devaneio". Ed. Martins Fontes. SP. 2001.

sexta-feira, 22 de dezembro de 2017

Reflexões*


Quem se define se ausenta, se encerra, se enclausura e nem sequer se contenta ou se liberta. Quem se define, mente, sobretudo, para si mesmo. Honestamente quem se define de fato? Porque somente na hipocrisia puritanismos e moralismos são viáveis.

Porventura, surpreende e não raras vezes o estranhamento alheio pela ausência do desejo de se definir. E se isso é uma postura ou impostura pouco importa, uma vez que o sustento dessa poesia é a própria indefinição que não se enquadra e nem se ajuste; e é mestiça, plural, vira-lata, marginal.

Sim, as margens sempre compuseram o meu ninho, os meus caminhos, os meus descaminhos; os fluxos e os refluxos. As margens sempre foram a minha escolha e aquilo que eu privilegiei.

Meus olhos sempre estiveram voltados para os subalternos. E assim, danem-se as convenções, as hierarquias que injustiçam socialmente; danem-se os julgamentos, em especial, daqueles que sequer se conhecem e desconhecem por onde caminhei para ser quem eu sou e para chegar até aqui numa jornada a qual afetos e desafetos inevitavelmente se construíram nessa seara existencial.

E toda vez que as circunstância não me inspiraram serviram de lições para comprovar que se houver amor tudo vale a pena. E mais, quem sabe um dia todos a nossa volta não compreenderão que quando projetamos um futuro com exatidão, o que impera tão somente se resume em frustrações, prepotências ou, ainda, arrogâncias angustiadoras.

Afinal, o que dá certo mesmo é a perseverança quando faz sentido e os inúmeros ajustes até porque eu nunca fui capaz de me ajustar por transbordar demais. Musa!

*Prof. Dr. Pablo Mendes
Filósofo. Educador. Escritor. Filósofo Clínico
Uberlandia/MG

quarta-feira, 20 de dezembro de 2017

Fragmentos Filosóficos, Delirantes*


"Relaciono-me comigo no éter de uma palavra que me é sempre soprada e que me furta exatamente aquilo com que me põe em contato"

"O logos nada é fora da história e do ser, uma vez que é discurso, discursividade infinita e não infinidade atual; e uma vez que é sentido. Ora a irrealidade ou idealidade do sentido foi descoberta pela fenomenologia como as suas próprias premissas (...) Nenhuma história como tradição de si e nenhum ser teriam sentido sem o logos que é o sentido projetando-se e proferindo-se a si próprio"

"Husserl sempre acentuou a sua aversão pelo debate, pelo dilema, pela aporia, isto é, pela reflexão sobre o modo alternativo em que o filósofo, no termo de uma deliberação, pretende concluir, isto é, fechar a questão, parar a expectativa ou o olhar numa opção, numa decisão, numa solução"

"Esta superpotência como vida do significante produz-se na inquietação e na errância da linguagem sempre mais rica que o saber, tendo sempre movimento para ir mais longe do que a certeza pacífica e sendentária

"O livro, semelhante a um 'quadro em movimento', só se descobre por fragmentos sucessivos"

"No escritor o pensamento não dirige a linguagem do lado de fora: o escritor é ele próprio como um novo idioma que se constrói"

"O sonhador inventa sua própria gramática"

*Jacques Derrida in "A escritura e a diferença". Ed. Perspectiva. SP. 2005.

terça-feira, 19 de dezembro de 2017

Sobre a arte de redigir silêncios*


Uma fenomenologia da espera descreve seu vocabulário pela quimera a se mostrar. A palavra refugiada na estrutura do silêncio parece dizer mais. Seu instante fugaz aponta entrelinhas por um esboço. Seu viés de anonimato multiplica-se nos enredos da expressão absurda.

A suspeita de uma razão vigiada persegue eventos pelos contornos da ficção. Talvez a novidade, como um deslize da ideia não declarada, mostre-se nas páginas em branco. Esses episódios se sucedem em pretextos para um sentido à margem do sentido.

Os manuscritos do inesperado podem ser anúncios ao cogitar invisibilidades. Ao interrogar esses indizíveis esconderijos das pérolas imperfeitas, um olhar perscruta a geografia dos exílios. Espaços desacreditados se protegem em códigos próprios. Os rituais da linguagem singular apreciam sua redescoberta. Espaços calados a exibir sua diversidade em seus rastros.

Uma interrogação se desdobra para além das respostas conhecidas. A brevíssima divisão entre dizer e não dizer revela uma legião de personagens, territórios. Ao transbordar em eventos sem nome, protege um continente desconhecido.

O excesso de ruído costuma afugentar a expressividade do silêncio, um desses lugares por onde a alma se manifesta. A pronúncia irrefletida desse vocabulário se descreve ao leitor desavisado, o qual não se permite conhecer algo ainda sem classificação.

Uma singularidade híbrida se abriga na estrutura de pensamento, seus segredos bem protegidos esboçam caricaturas no viés da interseção. Aprisionada nos entremeios de verdade e ficção, seu devir se oferece na pluralidade dos contrassensos. Rumores e pressentimentos insinuam uma lógica superlativa, se apresentados diretamente à vida cotidiana, sem nenhuma tradução eficaz, sugerem episódios fora de si.

Ao se pensar uma expressividade graças à incompletude da autoria, inúmeras derivações podem se apresentar. Reafirma o texto inicial se deslocando para outros inéditos. Essa retórica guarda sua fonte de originais, presente em cada leitura.

*Hélio Strassburger

segunda-feira, 18 de dezembro de 2017

Tabuleiro de cores*


O preto no branco, o branco no teto, o trato mal das ideias,
O branco e preto, o feto, o acerto de contas, o branco dita – regras – dura e purifica linguagem, limpa o chão por onde pisa.
O preto e o branco nos afetos, acerto histórico, a morte é o fim. Todas as cores no céu, sem luta não existe arco-íris.
O branco é a ordem, a bandeira é da liberdade, a história é preta e branca, todas as cores, todos os olhos, linguagem é o que faz da vida o tabuleiro da imaginação.
Amor à vida, olhos desnudos, corpo por cima, todas as cores feminino-masculino, o viés une os dois. Formas de expressar, diversidade de ver, recusar, deixar o céu da boca, saliva da LIBERDADE.

*Prof. Dr. Luis Antonio Paim Gomes
Filósofo. Editor. Livre Pensador.
Porto Alegre/RS

domingo, 17 de dezembro de 2017

Fragmentos Filosóficos, Delirantes*


"Exprimir-se é portanto um empreendimento paradoxal, uma vez que supõe um fundo de expressões aparentadas, já estabelecidas, e que sobre esse fundo a forma empregada se destaque, permaneça suficientemente nova para chamar a atenção. Trata-se de uma operação que tende a sua própria destruição, uma vez que se suprime à medida que se propaga, e se anula se não se propaga. Assim, não se poderia conceber uma expressão que fosse definitiva, pois as próprias virtudes que a tornam geral a tornam ao mesmo tempo insuficiente"

"(...) jamais encontramos na fala dos outros senão o que nós mesmos pusemos, a comunicação é uma aparência, ela nada nos ensina de verdadeiramente novo. Como seria ela capaz de nos arrastar para além de nosso próprio poder de pensar, já que os signos que ela nos apresenta nada nos diriam se já não tivéssemos em nosso íntimo sua significação ?"

"Nossa língua reencontra no fundo das coisas a fala que as fez"

"(...) a linguagem, em todo caso, se assemelha às coisas e às ideias que ela exprime, é o substituto do ser, e não se concebem coisas ou ideias que venham ao mundo sem palavras"

"Na terra, já se fala há muto tempo, e a maior parte do que se diz passa despercebido"

"(...) na leitura, é preciso que num certo momento a intenção do autor me escape, é preciso que ele se retraia; então volto para atrás, retorno impulso, ou então sigo adiante e, mais tarde, uma palavra bem escolhida me fará alcançar, me conduzirá até o centro da nova significação, terei acesso a ela por aquele de seus 'lados' que já faz parte de minha experiência"

"Jamais veríamos uma paisagem nova se não tivéssemos, com nossos olhos, o meio de surpreender, de interrogar e de dar forma a configurações de espaço e de cor jamais vistas até então"

*Maurice Merleau-Ponty in "A prosa do mundo". Ed. Cosac & Naify. SP. 2002. 

sábado, 16 de dezembro de 2017

Todo o mundo tem um pouco*


Diz a sabedoria popular que de médico e de louco todo mundo tem um pouco. De onde surgiu essa ideia? Não gosto muito de generalizações, mas, no meu caso particular, consegui o diploma de médico bem cedo na vida. Aos vinte e três anos já o tinha segurado nas mãos, levado para emoldurar e, poucos dias depois, estava lá, devidamente afixado em lugar nobre na parede do consultório. O título de louco foi muito mais difícil de conquistar. Exigiu um tempo bem maior para me aprimorar e, por enquanto, não está em exposição.

Confesso que durante a faculdade, cheguei a pensar em ser psiquiatra, mas todos os que eu conhecia eram, digamos assim, “um tanto” estranhos, e não queria, de forma alguma, ficar parecido com eles. Na época, fugia de qualquer coisa que se assemelhasse à loucura. A brincadeira era fazer do velho ditado um trocadilho, e dizer que os psiquiatras tinham “um pouco” de médico e “muito” de louco. Generalizações, como é sabido, conduzem a equivocidades.

Durante décadas, me considerei muito médico e pouco ou nada louco, mas a busca (ou quem sabe o caminho) da insanidade sempre esteve latente. Eventualmente apareciam sinais de maluquice, mas ainda muito incipientes. Aprendi a dançar flamenco, me inscrevi para trabalhar no circo de Soleil, ingressei na faculdade de filosofia. Nessa última, descobri  que o certificado de loucura era fornecido apenas para aqueles que estão privados do uso da razão ou do bom senso, e, até onde eu soubesse, filósofos primavam pela busca do saber, do conhecimento e da razão. Sentia-me seguro naquele ambiente racionalista. Mal sabia onde estava pisando.

Mas, afinal de contas, o que vem a ser a tal da razão? De acordo com o dicionário, é a capacidade de criar e articular palavras e pensamentos. Só isso basta? Claro que não. É necessário que tais ideias sejam organizadas de maneira que não contenham contradições nem grandes emoções.

Sócrates, Platão e Aristóteles foram os precursores desse modelo de pensamento. Para eles, o corpo, as sensações e as emoções desviavam o foco da razão e eram fonte de erros contínuos, violência e desordem. Acreditavam que o homem deveria se opor à sensibilidade, percepções e apetites do corpo e buscar a essência das coisas e a verdade no pensamento lógico, sensato e coerente. A razão foi validada como o ideal de interpretação do mundo. 

Aquelas pessoas que não conseguiam controlar seus afetos, contradições e paixões passaram a ser excluídas da sociedade e rotuladas como loucas. Eram internadas em sanatórios para que não atrapalhassem a vida dos tidos como “normais”, e a medicina viu-se forçada a criar uma especialidade -  psiquiatria -  para tentar, primeiro entender e, passo seguinte, tratar assuntos que fugiam à razão. Agora aquela brincadeira inicial começava a fazer sentido, uma vez que psiquiatras foram os primeiros, e, quem sabe, os únicos médicos que se aproximaram da “loucura”.

Felizmente, nem todos pensavam assim. David Hume, filósofo escocês do século 18, discordava dizendo que “a razão é, e deveria sempre ser, escrava das paixões”. Nietzsche, um século depois, aprofundou o tema: “a razão escraviza o homem, levando-o à loucura”. Foucault, filósofo francês contemporâneo, atacou fortemente a psiquiatria, ao afirmar que médicos nunca dialogavam com a loucura, considerando que apenas a razão falava sobre a loucura e, quando esta tentava “falar” sobre a razão, era sempre forçada a se calar.

Como médico, fui treinado a trabalhar com fundamento, lógica e coerência. Interpretar os sinais físicos, ler os números que aparecem nos exames laboratoriais e enquadrar pacientes dentro das patologias conhecidas.  Minhas verdades eram os paradigmas científicos, limitados pela razão e por valores absolutos. O objetivo era sempre o mesmo, curar doenças e salvar vidas. A vivência clinica foi me mostrando um caminho diferente e não menos fascinante. Doenças se repetem nas pessoas, mas não de maneira igual. Cada um tem sua forma própria de sofrer, fornecendo uma série de sinais e sintomas exclusivos. Inquietava-me ver que nem sempre existia ferida aparente ou lesão física que justificasse o pranto ou a dor referida.

Aos poucos, fui deixando de racionalizar e me preocupar com respostas exatas. Comecei a descartar algumas certezas e experimentar afetos, incoerências, paixões. Ao invés de posicionar o estetoscópio no peito do paciente e escutar seus batimentos cardíacos, colocava meu ouvido a sua disposição. Queria sentir se a pessoa à minha frente estava satisfeita com seu modo de viver, orgulhosa de si, possuía medos, sonhos, apegos, devoções.   

Progressivamente comecei a apagar em mim a tênue linha imaginária que separa a razão da loucura. O mundo não se divide entre os que compreendem a vida e os insanos. É possível transitar entre os conceitos de doença, cura, loucura e normalidade. Hoje consigo, sem pudor, afirmar que louco não é a pessoa que perdeu a razão, louco é aquele que perdeu tudo, menos a razão.

Maria idealiza a pessoa amada e projeta nela tudo o que sempre sonhou. Está encantada com o novo amor. Atribui características de personalidade, elimina defeitos e cria nessa pessoa virtudes que na verdade não existem. Não se relaciona com a realidade, mas com o ser inventado de acordo com as próprias necessidades. A convivência diária do casamento a obriga a enxergar o parceiro como ele é, não deixando espaço para sustentar a idealização. Maria não sabe mais o que fazer. Descobriu que o marido é um ser humano e não a personificação de suas fantasias. Está ressentida. Sente-se enganada e culpa o companheiro pelo fracasso do casamento. Maria é uma pessoa normal? Está fora da realidade? Perdeu a razão? Quantas Marias assim você conhece?

Louco é quem vive fora da realidade? Esperança, saudade, sonhos, projetos, sentimentos, são menos reais que mesas, tijolos ou árvores? É preciso ser concreto para dizer que algo existe? Sempre nos ensinaram a beliscar nossos braços para saber que não estávamos sonhando. É exatamente ao contrário que funciona. Se formos capazes de sentir, seja lá o que for, é porque aquilo realmente existe. A maioria pensa com sensibilidade, loucos sentem com o pensamento. Frio na barriga, coração acelerado, saliva na boca, lágrimas nos olhos são sinais de materialidade do pensamento.

A maior loucura do homem é ele se achar normal. Num mundo onde os normais fabricam bombas, mentem, enganam, corrompem, matam, deixam morrer, o que sobra para os loucos? Penso que loucura, hoje em dia, é ser original quando quase tudo são replicas. É permitir que anjos e demônios apareçam sem censura e possam dizer certas verdades que a sociedade se nega a ouvir. É ter sensibilidade para enxergar uma lágrima muito antes dela ter caído dos olhos de alguém..

Cansei de ser só razão. Antes tarde que nunca. Prefiro a coerência irracional dos loucos à incoerência racional dos lúcidos. A vida é como uma música, deve ser composta de ouvido, com sentimento, delicadeza e emoção, jamais por normas rígidas. Preciso do diploma de médico para exercer minha profissão, mas para trabalhar e viver, uso o de louco. Existe um prazer garantido em ser louco, mas apenas os loucos o conhecem. Quando me chamam de louco, considero até um elogio. Talvez a loucura seja agora minha lucidez. De médico e de louco certamente tenho um bocado, e não é pouco. 

Ainda bem.

*Ildo Meyer
Médico. Escritor. Palestrante. Filósofo Clínico
Porto Alegre/RS

sexta-feira, 15 de dezembro de 2017

Fragmentos Filosóficos, Delirantes*


"Percebi que é inútil falar aos outros sobre coisas que não sabem. Quem não compreende a injúria que inflige a seus semelhantes falando de coisas que ignoram é um ingênuo. Perdoa-se um tal descuido só ao prosador, ao jornalista, ao poeta. Compreendi que uma ideia nova, isto é, um aspecto inusitado das coisas só se afirma pelos fatos. Os fatos abandonados nem por isso desaparecem; um belo dia ressurgem, revelados por alguém que compreende seu significado" 

"O que se é (...) só pode ser expresso através de um mito. Este último é mais individual e exprime a vida mais exatamente do que o faz a ciência, que trabalha com noções médias, genéricas demais para poder dar uma ideia justa da riqueza múltipla e subjetiva de uma vida individual"

"Em muitos casos psiquiátricos, o doente tem uma história que não é contada e que, em geral, ninguém conhece. Para mim, a verdadeira terapia só começa depois de examinada a história pessoal"

"(...) Foi um sucesso inesperado pois não imaginara que nossa leitura da Bíblia pudesse ter um efeito terapêutico"

"Cada caso exige uma terapia diferente. Quando um médico me diz que 'obedece' estritamente a este ou àquele 'método', duvido de seus resultados terapêuticos"

"(...) sempre constatei que os leigos que se ocuparam de psicoterapia durante anos, e que passaram, eles próprios, por uma análise, têm conhecimentos e eficácia. Por outro lado, raros médicos praticam a psicoterapia. A profissão exige uma formação muito longa e profunda e uma cultura geral que pouquíssimos possuem"

"(...) o que é principal, tinha o fogo sagrado"

"Era vital e necessário levar uma vida ordenada e racional como contrapeso à singularidade do meu mundo interior"

"Nietzsche perdeu o solo debaixo dos pés porque nada mais possuía senão o mundo interior de seus pensamentos - mundo que o possuiu muito mais do que Nietzsche a ele"

*Carl Gustav Jung in "Memórias, sonhos, reflexões". Ed. Nova Fronteira. 2006. RJ. 

quarta-feira, 13 de dezembro de 2017

A brisa e o poema*


Receba este poema
Não faz mal
Que eu não veja
Não faz mal
Que eu não seja
É para que o mundo
Te veja mais bonita.

Só ria, neste dia
Voa, vai você
Eu fico
Com a brisa suave
Da saudade
Que me leva
Para onde moram
Os olhinhos teus.

Que seja
Receba este poema
Para fazermos um abrigo
Nos braços dos abraços
A janelinha por onde espio
O nascente e o poente
É uma espécie de melodia
Da minha poesia...!

*José Mayer
Filósofo. Poeta. Livreiro. Especialista em Filosofia Clínica
Porto Alegre/RS

terça-feira, 12 de dezembro de 2017

Fragmentos Filosóficos, Delirantes*


"(...) o interesse da vida onde sempre esteve foi nas diferenças"

"(...) a pintura não é mais do que literatura feita com pincéis. Espero que não esteja esquecido de que a humanidade começou a pintar muito antes de saber escrever"

"A literatura já existia antes de ter nascido"

"É bem verdade que na natureza nada se cria e nada se perde, tudo se aproveita"

"Entre o martelo e a bigorna somos um ferro em brasa que de tanto lhe baterem se apaga"

"Duvida-se, por exemplo, ainda que seja sempre de boa prudência duvidar da própria dúvida"

"Quem não sabe deve perguntar, ter essa humildade, e uma precaução tão elementar deveria tê-la sempre presente o revisor, tanto mais que nem sequer precisaria sair de sua casa, do escritório onde agora está trabalhando, pois não faltam aqui os livros que o elucidariam se tivesse tido a sageza e prudência de não acreditar cegamente naquilo que supõe saber, que daí é que vêm os enganos piores, não da ignorância"

"(...) se quisermos acreditar nos insuficientes olhos com que viemos ao mundo"

"Não é tão raro assim revelarem-se nos sonhos grandes mistérios"

"As palavras não podem ser levianamente transportadas de cá para lá e de lá para cá, cuidado (...)"

*José Saramago in "História do cerco de Lisboa". Ed. Folha de São Paulo/SP. 2003.

segunda-feira, 11 de dezembro de 2017

O homem como objeto abstrato da ciência*


O positivismo não é criticado pelo valor que a ciência possui ou adquiriu na sociedade. O problema não é a ciência, que demonstra a cada dia seu valor a partir das suas conquistas e resultados. O problema da mentalidade positivista está postular o conhecimento científico como o único possível e aplicável a todos os âmbitos da realidade, inclusive às relações humanas e sociais em geral.

O grande problema de reduzir todo o conhecimento ao científico está em despersonalizar o homem. Pois, para que o homem seja o centro de referência da investigação científica, ele precisa ser concebido de modo abstrato. Ou seja, o homem é despojado de suas determinações singulares, reduzindo-se a um objeto de investigação. Mais do que isso, ele é convertido a um sujeito formal e genérico e inserido em uma rede de relações abstratas e estruturas quantitativas.

Desse modo, a mesma ciência que tem como procedimentos metodológicos o trabalho com esquemas, mensuração, repetição, relações e regularidades, toma tudo o que é próprio e exclusivo do sujeito e o elimina ou deprecia uma vez que não possui importância para a pesquisa.

Um exemplo disso pode ser tomado da medicina. O médico não conhece todos os corpos humanos. Ele tem um conhecimento geral, no qual aprende a estrutura corporal humana por meio de um modelo universal. Quando encontra com um paciente concreto, o médico compara o corpo do paciente à estrutura corporal de um ser humano normal e abstrato que ele aprendeu. Na medida em que esse humano concreto não se enquadra na estrutura geral e regular, percebe que algo não está funcionando bem. Diante disso, o médico buscará consertar, curar, normalizar ou regularizar essa anomalia.

No caso de um procedimento médico, essa visão científica do ser humano é boa e eficaz. Todavia, essa perspectiva não deve ser aplicada a todas as questões humanas. Pois, algumas questões decisivas, próprias ou individuais, características da existência, encontram-se de modo singular em cada sujeito. 

*Prof. Dr. Miguel Angelo Caruzo
Filósofo. Educador. Escritor. Filósofo Clínico
Teresópolis/RJ

domingo, 10 de dezembro de 2017

Fragmentos Filosóficos, Delirantes*



"É com seu próprio deus que as pessoas são mais desonestas: não lhe é permitido pecar"

" O amor a um único ser é uma barbaridade: pois é praticado às expensas de todos os outros. Também o amor a Deus"

"O sábio como astrônomo - Enquanto você sentir as estrelas como 'algo acima', falta-lhe ainda o olhar do conhecimento'"

"A mulher aprende a odiar na medida em que desaprende a - enfeitiçar"

"Experiências terríveis fazem pensar se aquele que as vive não é algo terrível"

"Não existem fenômenos morais, apenas uma interpretação moral dos fenômenos"

"Na vingança e no amor, a mulher é mais bárbara que o homem"

"É o baixo ventre que impede o homem de considerar-se um deus"

"Quem combate monstruosidades deve cuidar para que não se torne um monstro. E se você olhar longamente para um abismo, o abismo também olha para dentro de você"

"O que se faz por amor sempre acontece além do bem e do mal"

*Friedrich Nietzsche in "Além do bem e do mal". Ed. Cia de Bolso. SP. 2005.

sábado, 9 de dezembro de 2017

O Movimento da Vida, o Livro*


É claro que o que move o livro é o acesso ao leitor, vice-versa, o leitor só faz o livro ter alguma importância se tiver o livro em mãos. Aos olhos, o pensamento movente e o que Bergson entoou: “O conhecimento que você me traz incompleto, eu o completarei”. Eis a questão: que tipo de livro, qualquer livro, qualquer texto, um romance, um ensaio, uma biografia, autoajuda, técnico, filosofia, qual mesmo?

O desconexo para muitos não precisa ser e nem assim deseja a unificação mas o livro é nexo dos desconexos, é texto que vai da vertigem da linguagem à compreensão das páginas. Eu digo que tenho minhas preferências, como leitor, como alguém que busca escolher a partir do que lê, do que gosta, mesmo que isso tenha sua complexidade, que não contemple o todo do meu gosto, porque o negócio do livro é o negócio, mas eu aprendi mesmo sobre a importância do livro foi com o negócio Vida, com as relações que tive até aqui... até o século XXI desbancar o século passado.

Nada de excepcional se o livro acabar, afinal de contas o dito pelo não dito não precisa da escritura para ser dito. Para clarear as ideais, aí sim, é como se a vida tivesse no sentido de dois trens que deslizam sobre os trilhos, a mesma velocidade, em vias paralelas, a sensação, é que para cada um dos trens, o que está sentado de um lado olha o outro, e se veem, sem movimento, como se estivessem parados, é assim, quando se está com o livro na mesma velocidade da vida. A vida parece que não passa, não sai do lugar, mas na realidade um desaparecerá antes que o outro possa perceber, tão rapidamente, que o outro só enxergará o que ficou na memória. Vestígios. 

“O mundo material, dizem, irá dissolver-se e o espírito afogar-se no fluxo torrencial das coisas. – Que se tranquilizem! A mudança, se consentirem em olhá-la diretamente, sem véu interposto, bem rapidamente lhes aparecerá como o que pode haver no mundo de mais substancial e de mais durável.”
                                                                              Henri Bergson

*Prof. Dr. Luis Antonio Paim Gomes
Filósofo. Editor. Livre Pensador.
Porto Alegre/RS

sexta-feira, 8 de dezembro de 2017

Quem é o Filósofo Clínico e quem é o Partilhante na concepção de Hélio Strassburger***


Final:

Em relação aos estudos ficam claras as etapas teóricas e práticas a serem seguidas, como a especialização, o pré-estágio - etapa em que o estudante passeia por dentro de si mesmo, conhecendo-se melhor - e o estágio - quando o aprendiz atende, sob supervisão, seus partilhantes e usa desse momento para compartilhar dúvidas, inseguranças, além de se aprofundar nas leituras e práticas.

Mas, sem fechar a questão o autor nos coloca diante de uma profunda e complexa abordagem: o crescimento pessoal em direção ao ser filósofo clínico. Esta é uma etapa que não está prevista nas estruturas dos cursos de formação, e para ela não existe uma fórmula ou um trajeto pré-determinado a ser seguido. Porém, Strassburger, em outro texto de sua autoria, Ser Filósofo Clínico, 2007, vai mais adiante nessa questão, diz ele:

“Chama atenção um ingrediente, considerado como falha ou defeito por outras abordagens: as carências e fragilidades do terapeuta. No referencial metodológico da Filosofia Clínica, este componente pode ser aliado imprescindível ao ser cuidador! No exercício do papel existencial, este aspecto, quando bem elaborado, vincula-se poderosamente a uma excepcional manifestação de humanidade. Aptidão que anuncia a natureza das interseções e costuma acompanhar a pessoa bem depois da alta compartilhada. Pode significar força e dedicação incomuns a pluralidade do fenômeno humano.”

Strassburger nos apresenta uma versão romântica da humanidade do filósofo clínico e do partilhante enquanto caminhantes em busca de um mesmo fim. Mesmo depois da alta (decidida em conjunto) os dois, filósofo e partilhante, podem estar sempre em contato alicerçando ainda mais os resultados clínicos. E juntamente com Hélio, em Poéticas da Singularidade, podemos ainda sentir a magia do exercício clínico quando:

“colocar-se no lugar do outro, em perspectiva de ajuda, constitui elemento, essencial à natureza dos cuidados. (...) Uma permuta de papéis existenciais, elabora ingredientes imprescindíveis ao existir desses provisórios acordos.” (Strassburger, 2007)

Logo, as concepções de filósofo clínico e partilhante propostas por Strassburger são tão plásticas quanto à própria metodologia da filosofia clínica, e são também definidas  pela qualidade da interseção entre ambos no caminhar do processo terapêutico e no desvelar de cada singularidade em devir.

Considerações finais:

No decorrer deste pequeno trabalho pudemos nos informar de algumas conceituações sobre quem é o filósofo clínico e o partilhante, mais especificamente na concepção Strassburgeriana. Alguns autores, em meu entendimento, simplificam essas conceituações e nos trazem a ideia de filósofo clínico/terapeuta e partilhante/quem partilha suas vivencias com o clínico -, deixando de observar os meandros vivenciados por ambos durante a clínica. Hélio Strassburger vai além da definição da identidade teórica de ambos, adentrando pelas vias da interseção que se estabelecem durante a terapia e o exercício dos papéis existenciais. Mais do que dar definições o autor nos leva a um passeio sobre a construção do Ser terapeuta, que segundo ele nunca chega ao fim.

Um dos pressupostos da filosofia clínica vem do filósofo Protágoras de Abdera (480-410 Ac.), que diz: “O homem é a medida de todas as coisas, das coisas que são, enquanto são, das coisas que não são, enquanto não são.” Logo as conceituações sobre filosofo clínico e partilhante também partem da singularidade de cada autor e cada clínico, que é a medida das coisas, seja em processo terapêutico, seja na construção teórica da filosofia clínica. O que nos chama a atenção em Strassburger é que a sua conceituação, além de obra aberta, vem da prática clínica, ou seja, faz o caminho inverso na construção dos conceitos.

Porém, cabe aqui ressaltar que cada filósofo clínico deve estar ciente de seu estilo clínico, independente de concepções ou conceituações, pois este também é para si, como profissional, a medida de todas as coisas.

*Marta Claus
**Revista Partilhas
 Instituto Mineiro de Filosofia Clínica Ano IV, n. 4, nov. 2017