quinta-feira, 22 de junho de 2017

Inocência*


“Mas quanto mais me tornava transparente e leve, mais meus despojos cinzentos ganhavam consistência para seus sentidos fatigados.”
Pierre Klossowski

Imagino meu corpo além do meu corpo. Além, um pouco mais distante do que hoje sou. Bem antes, quando bem pequenino ao lado de minha mamãe. Bem ao lado, sentadinho em um banquinho, enquanto ela cuidava de minha avó enferma. Estava ali, ainda sem a consciência real das coisas, nada a perder, e o lado humano de estar à deriva da lógica da vida. 

A vida dos homens não existia. A inocência e a vida, brincava com o Nada: suprema maneira de ser apreendida pelo pequeno Ser. Uma alegoria do impossível, desde que, hoje, já não sei o que estava a viver. Construí esse mundo, através do imaginário de minha mãe, pude ir além do que hoje posso compreender. 

Falava sozinho, como um humano que ainda está a ver o mundo, o poente é mais distante hoje. Minha mãe cuidava de sua mãe, olhava-me com lágrimas de dor e felicidade.

Essa é uma imagem que não lembro por mim mesmo, é a recordação de relato que minha mãe volta sempre a me contar. Já narrou inúmeras vezes, não importa, estou sempre pronto para ouvi-la novamente. Todos os ângulos, a vida é sempre a mesma, o amor está dentro e fora dessa narrativa. O amor é infinito, a dor morre logo ali [...] outras narrativas.

“Dalgum modo outra vez e todos outra vez no olhar fixo. Todos duma vez como uma vez.” Samuel Beckett

*Prof. Dr. Luis Antonio Paim Gomes
Filósofo. Editor. Escritor. Livre Pensador.
Porto Alegre/RS

quarta-feira, 21 de junho de 2017

Fragmentos Filosóficos, Delirantes*


"Em nenhum outro sentido a palavra 'espírito livre' quer ser entendida: um espírito que se tornou livre, que voltou a tomar posse de si mesmo"

"(...) reconheci que havia chegado o tempo de me voltar para mim mesmo. De uma vez por todas ficou claro para mim, de uma maneira terrível, quanto tempo já havia sido desperdiçado (..)"

"(...) o fato de que a humanidade até hoje esteve nas piores mãos, de que ela foi regida pelos malogrados, pelos vingativos-astutos, pelos assim chamados 'santos', esses caluniadores do mundo e violadores do homem"

"Quando se desvia a seriedade da autoconservação, da fortificação do corpo, quer dizer, da vida, quando se faz da anemia um ideal, quando se constrói 'a salvação da alma' sobre o desprezo ao corpo, o que é isso se não uma receita para a décadence?"

"Com a 'aurora' iniciei, pela vez primeira, a luta contra a moral da renúncia a si mesmo"

"(...) tudo aquilo que é decisivo nasce 'apesar de tudo'"

"A gente paga caro por ser imortal: morre-se mais de uma vez durante a vida por causa disso"

"Foi o próprio Deus que ao fim de sua obra se disfarçou de serpente indo se deitar sob a árvore do conhecimento: assim ele se restabeleceu do fato de ser Deus... Ele havia feito tudo demasiado belo... O diabo é apenas a ociosidade de Deus a cada sétimo dia (...)"

"No fim das contas ninguém pode captar nas coisas, incluídos os livros, mais do que ele mesmo já sabe. Para aquilo que a gente não alcança através da vivência, a gente também não tem ouvidos"

*Friedrich Nietzsche in "Ecce Homo". Ed. L&PM Pocket. Porto Alegre/RS. 2014. 

terça-feira, 20 de junho de 2017

Escrever as palavras*


Escrever é gravar
As palavras para sempre.
Falar é jogá-las
Ao vento.
Sentado no chão
Colhi as ervas
Para a minha cura.
Ajoelhado, rezando
Apanhei as flores
À tua procura.
Deitado, sonhando
Sobre o nosso leito
Inventei você mil vezes.
Escrevendo
Eternizei você
Para todo o sempre.

*José Mayer
Filósofo. Livreiro. Poeta. Especialista em Filosofia Clínica.
Porto Alegre/RS

segunda-feira, 19 de junho de 2017

Fragmentos Filosóficos, Delirantes*


"Suponho que haja tantos credos, tantas religiões, quantos são os poetas"

"(...) há duas maneiras de usar a poesia (...) Uma das maneiras é o poeta usar as palavras comuns e de algum modo torná-las incomuns - extrair-lhes a mágica"

"(...) Quando penso em amigos meus tão caros como Dom Quixote, o sr. Pickwick, o sr. Sherlock Holmes, o dr. Watson, Huckleberry Finn, Peer Gynt, etc. (não estou certo se tenho muito mais amigos)

"(...) de súbito a palavra ganha vida"

"(...) imagino que uma nação desenvolve as palavras de que necessita"

"(...) uma língua não é, como somos levados a supor pelo dicionário, a invenção de acadêmicos ou filólogos. Ao contrário, ela foi desenvolvida através do tempo, através de um longo tempo, por camponeses, por pescadores, por caçadores, por cavaleiros. Não veio das bibliotecas; veio dos campos, do mar, dos rios, da noite, da aurora"

"(...) gostaria de dizer que cometemos um erro bastante comum ao pensar que ignoramos algo por sermos incapazes de defini-lo"

"(...) Passamos à poesia; passamos à vida. E a vida, tenho certeza, é feita de poesia. A poesia não é alheia - a poeisa, como veremos, está logo ali, à espreita. Pode saltar sobre nós a qualquer instante"

*Jorge Luis Borges in "Esse ofício do verso". Ed. Companhia das Letras. 2007. SP. 

domingo, 18 de junho de 2017

As palavras iniciais*













As expressões preliminares possuem um teor de anúncio de incertezas. Sua linguagem cifrada, em um discurso incomum, abre espaço, compartilha desafogo, reapresenta as formas do indizível. De antemão, tem-se um imenso nada a se mostrar na crise desconstrutiva pessoal.

Essas palavras desarticuladas realçam um caos subjetivo em ação. Nesses conteúdos de rascunho, já se pode vislumbrar endereços existenciais, descrever a novidade chegando. Por esse começo é possível investigar o mundo das vontades, das representações. Nos ditos de assunto imediato, nem sempre confirmados no discurso posterior, os relatos oscilam em busca de legitimidade. A partir desse acolhimento, pode-se qualificar a relação clínica, regular o ângulo da visão, ajustar a lógica desse encontro singular.

O teor de con-fusão entre o passado e o agora passando, além de traduzir um viés im-paciente, proporciona atenção a esse sujeito em estado nascente. Após essa antítese com as anterioridades, existe um lugar para restabelecer novos pontos de equilíbrio. Nesse instante de des-ordem, onde uma esteticidade desconstrutiva se apresenta, a pessoa deveria ter o direito de realizar ensaios existenciais com segurança, cuidado especializado.

Em uma livre associação discursiva assim descrita, a categoria tempo costuma ser aliada das ressignificações. Com ela é possível vislumbrar as intencionalidades e desdobramentos da manifestação primeira. Seu incômodo com a paz dos cemitérios sugere uma vida transbordando ao antever horizontes. Conteúdos clandestinos insinuam-se nas entrelinhas das primeiras menções.

Essas considerações de abertura, muitas vezes irreconhecíveis à primeira vista, possuem a força e o significado do instante. Seu desconcerto busca redesenhar uma arquitetura subjetiva que desponta. Suas divagações e desencontro de ideias, falsetes, rascunham impropriedades a quem vai ficando pelo caminho. Esses conteúdos restariam indescritíveis, classificados nalguma forma de loucura, não fosse a tradução do olhar diferenciado, a partir da compreensão dessa expressividade singular.

Nessa antevéspera de novidades, o papel existencial do Filósofo Clínico aprecia ser um cúmplice a sustentar travessias. Seus termos sugerem apontamentos para reinvenção existencial. Sua estética de manifestação absurda reivindica um chão às promessas de libertação. A palavra inicial segue inconclusa.

*Hélio Strassburger 

sábado, 17 de junho de 2017

Por Não Estarem Distraídos*


Havia a levíssima embriaguez de andarem juntos, a alegria como quando se sente a garganta um pouco seca e se vê que, por admiração, se estava de boca entreaberta: eles respiravam de antemão o ar que estava à frente, e ter esta sede era a própria água deles.

Andavam por ruas e ruas falando e rindo, falavam e riam para dar matéria e peso à levíssima embriaguez que era a alegria da sede deles. Por causa de carros e pessoas, às vezes eles se tocavam, e ao toque – a sede é a graça, mas as águas são uma beleza de escuras – e ao toque brilhava o brilho da água deles, a boca ficando um pouco mais seca de admiração.

Como eles admiravam estarem juntos! Até que tudo se transformou em não. Tudo se transformou em não quando eles quiseram essa mesma alegria deles. Então a grande dança dos erros. O cerimonial das palavras desacertadas.

Ele procurava e não via, ela não via que ele não vira, ela que, estava ali, no entanto. No entanto ele que estava ali. Tudo errou, e havia a grande poeira das ruas, e quanto mais erravam mais com aspereza queriam, sem um sorriso.

Tudo só porque tinham prestado atenção, só porque não estavam bastante distraídos. Só porque, de súbito exigentes e duros, quiseram ter o que já tinham. Tudo porque quiseram dar um nome; porque quiseram ser, eles que eram.

Foram então aprender que, não se estando distraído, o telefone não toca, e é preciso sair de casa para que a carta chegue, e quando o telefone finalmente toca, o deserto da espera já cortou os fios. Tudo, tudo por não estarem mais distraídos.

*Clarice Lispector. Livro “A Descoberta do mundo: crônicas”. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1984, p. 508.

sexta-feira, 16 de junho de 2017

Buen Camino*


Depois de atravessar o Caminho de Santiago andando, passei a gostar de caminhar. Solitário ou em grupo, nunca fiquei só, mesmo que não houvesse ninguém a meu lado. O pensamento se tornou meu companheiro de viagem. O corpo também assumiu papel determinante e passou a mostrar o valor de cada unha, cada dedinho do pé, cada quilo a mais por carregar.

Muitas vezes não havia ninguém para compartilhar o raiar do dia, uma cafeteria cheirosa escondida no meio do nada, uma cegonha trazendo comida para os filhotes. Batia fotos, mas por melhor que fosse a câmera, não conseguia transmitir a euforia daqueles momentos. Ficava com aquelas imagens e sensações guardadas em mim.

Houve uma noite especial em que me senti só. O peregrino russo tirou o violino da mochila e começou a tocar no pátio do albergue. Logo um casal de gregos passou a cantar e vários outros dançavam depois de quilômetros rodados e pés cansados. Ali, apesar de estar rodeado de pessoas, senti que estava carente e precisava de alguém especial para me abraçar,  segurar em seus braços e dançar. 

Outros dias, bastava cumprimentar alguém com um “buen camino” e logo estava enturmado  como se fossemos irmãos. Andávamos horas conversando, mesmo sem falar o mesmo idioma. Logo se aprende quem quer falar e quem quer ficar quieto na caminhada.

No inicio minha mochila pesava demais. Carregava segredos que já não me pertenciam, preconceitos que atrapalhavam, regras de moral com prazos de validade vencidos, rancores mofados, amizades ilusórias, casos mal resolvidos, frustrações enferrujadas, certezas duvidosas, dúvidas cruéis, grandes, médios e pequenos medos.  Foram importantes em uma época, agora dificultavam meus passos.

Tinha que esvaziar aqueles fardos inúteis para ir adiante. O problema é que não tinha certeza se eram tão inúteis assim, poderiam fazer falta um dia. Vacilava e não jogava nada fora. Caminhadas longas obrigam o caminhante a ficar dias inteiros grudado na mochila. É assim que se aprende o peso do supérfluo. As costas doíam, a coluna pesava, precisava tomar uma atitude. Sentei no chão, olhei para a mochila distendida, tirei as coisas de dentro, escolhi o que poderia ser dispensável.

Hesitei um bocado, mas finalmente comecei a descarregar. Poderia ter feito isto muitos anos antes no consultório de um analista, no entanto, o caminho é mais ecológico, acolhe aquilo que não  nos serve e entrega a quem necessita. O caminho é solitário e solidário. 

Depois de Santiago, fiz outras caminhadas. Em cada uma, planejava o roteiro, traçava as melhores trilhas, calculava a quilometragem diária, condições climáticas, hospedagem mais econômica. Tudo estudado com bastante antecedência e atenção. Meses antes já estava sonhando com a viagem. Fazia inclusive a contagem regressiva dos dias.  Mas quando lá chegava, me surpreendia pensando em minha casa, meu trabalho, minhas rotinas, meus problemas.  Fisicamente estava no caminho, mas não estava inteiro lá.

Por outro lado, cada caminhada serviu para despejar uma ou outra carga obsoleta residual. Não é fácil se livrar de tudo de uma só vez, mas progressivamente vai se tornando menos complicado e indolor. Este é um trabalho que ninguém pode fazer por nós, cada um tem sua hora, seu jeito de lidar com exclusões. Nem tudo que excluí foram coisas ruins. Às vezes é preciso deixar para trás coisas boas, sair da zona de conforto e abrir espaço para o desconhecido.

Um peregrino não nasce pronto, ele se faz. Não me considero pronto. Sei que ainda existem muitos caminhos por percorrer e muito por descarregar. Sei também que não vou ter pernas suficientes para andar por todos lugares que sonhei, mas preciso continuar. Meus passos me conduziram até aqui, preciso e quero prosseguir nesta jornada.

Agora, depois de tantos quilômetros rodados, pretendo iniciar uma nova caminhada. Um jeito diferente de andar.  Talvez nem precise levar cajado, botas, mochila, saco de dormir. Tampouco metas, lugar, dia ou hora para chegar.

Quero caminhar bem devagar, quase parando. O tempo e a distância serão mensurados ao contrário do habitual. Desapegar já não será necessário. Paradas valerão mais que passos. O acostamento será tão importante quanto a estrada. O apego será minha bússola e o amor meu norte.


Há muitas histórias por contar. Há tanto que quero saber. Há tanto por compartilhar. Quer andar comigo?  

*Ildo Meyer
Médico. Escritor. Palestrante. Filósofo Clínico
Porto Alegre/RS

quinta-feira, 15 de junho de 2017

Fragmentos Filosóficos, Delirantes*


"Há sabedoria em conviver com o raio. Apanhar o momento único em que o raio luz: uma ideia, um som, momento que não se repete nunca mais, capaz de gerar ideias e palavras e sons"

"Heráclito vê, entretanto, na linha traçada sobre a curvatura do vaso, a convergência dos contrários, pois aí a linha reta se dobra"

"O médico e o paciente foram escolhidos como exemplo da convergência dos contrários"

"O rio de Heráclito rasga um curso de dois mil e quinhentos anos na literatura ocidental, recolhendo as águas de afluentes que nascem em todas as épocas. Os poetas não resistem à força de suas imagens. Combatendo os poetas, ele os atraiu. Mandou silenciar a voz dos poetas nos concursos sem molestar o poeta que trazia em si mesmo. Não silenciaria voz alguma o pensador que compreendeu o universo na contradição"

"Não contemplamos o mundo de fora, como se assistíssemos a um espetáculo sentados na platéia"

"Estamos sem medida para avaliar objetivamente o extraordinário"

"O homem, dotado de uma psique sem limites, limita-lhe os movimentos ao se deter em coisas: propriedades, dinheiro, prestígio. O homem que quer coisas sofre o cerceamento delas. Quem se contenta com coisas recua diante do melhor"

"A busca da verdade empreende-se no silêncio, longe do ruído das multidões. Estas exigem palavras claras, consagradas, familiares. Como esperar que aplaudam intrincadas oposições ? Os que se embrenham no matagal do saber carregam a singularidade como sacrifício. Isolam-se, porque a poucos interessa tão insólita aventura. Forma-se uma elite marginalizada, porque colocada sem recursos à margem"

*Donaldo Schuler in "Heráclito e seu discurso". Ed. L&PM Pocket. Porto Alegre/RS. 2004.  

quarta-feira, 14 de junho de 2017

Reflexões aleatórias e fragmentadas #1*


Considere que compreendeu a ideia de um autor quando for capaz de expor, com suas próprias palavras, o que foi assimilado.

A memorização foi (e creio que é) fundamental para o ensino ao longo dos milênios. Mas, isso não desconsidera a interpretação.

Se a gente não assimila o que memoriza, corre o risco de estabelecer diálogos vazios mesmo com uma imensa gama de conteúdos na memória.

Não se deve considerar apenas a compreensão do que um autor disse, mas se o que ele disse é verdadeiro.

Um texto de filosofia é um caminho e não um fim em si mesmo. O que é falado importa na medida em que se refere àquilo que diz.

Experimente apreciar uma boa música, pintura ou ler um clássico da literatura após acompanhar um noticiário. A atualidade torna-se trivial.

Intenta cursar uma pós-graduação e tem como escolher um bom orientador. Escolha! Tive um excelente orientador e fez toda a diferença.

Estudar profundamente um autor é como conviver intimamente com alguém. Algo desse autor fará parte de você para o resto de sua vida.

Começar é o primeiro passo, o segundo é perseverar. Pois se há pedras no caminho de quem inicia, há montanhas para quem decide continuar.

A soberba de quem não admite a ignorância acerca de algo é o maior impedimento ao conhecimento do novo.

A “Apologia de Sócrates” mostra que a atividade filosófica tem consequências práticas. O preço da verdade pode ser a própria vida.

Cada parágrafo de “Fides et Ratio” daria um artigo ou aula. Há uma riqueza admirável de conteúdo condensada em cada frase.

Uma das melhores maneiras de melhorar a fluência na prática da escrita é escrevendo, de preferência, diariamente.

Escreve melhor quem escreve sobre o que sabe. Mesmo que seja um saber sobre a dificuldade de escrever. Eis um tema para começar.

Para mim, a escrita com caneta e papel e a digitada em computador exigem algumas habilidades diferentes. Exercite as duas modalidades.

Outra maneira de exercitar a escrita é formando ideias de maneira sintética, como tenho feito aqui, e detalhada, como faço no blogue. A prática da escrita por meio de um diário também é uma modalidade que alia autoconhecimento com aprimoramento da técnica. Experimente!

Temos diversas plataformas para exercitar a boa escrita como Whatsapp, Facebook e e-mail. Comece melhorando a qualidade de suas mensagens.

Antes de sentir a necessidade de aprender a gramática, percebi que a leitura de bons livros era fundamental para melhorar minha escrita.

Comecei a ler com frequência depois dos vinte anos. Foi somente após isso que comecei a escrever melhor. Antes escrevia penosamente.

Nunca li com o fim de melhorar a escrita. Li com interesse em conhecimento do conteúdo que o texto ensinava. A melhora foi consequência.

Professor de filosofia não é necessariamente Filósofo. Já vi a incapacidade de alguns desses professores para constatar meras obviedades.

Ser filósofo não é ter “opinião” própria. É abordar algo que seja acessível a outros filósofos, viabilizando o debate sobre sua veracidade.

Se não houvesse alguma objetividade no discurso filosófico – ainda que seja sobre a subjetividade –, sua exposição ou debate seria estéril.

Não somos obrigados a ler todos os autores que versam sobre um assunto, nem temos tempo pra isso. Mas, devemos ler bem os que escolhemos.

Saber que obras são essenciais para ler é tão importante quanto saber lê-las. Comece pelos clássicos que versam sobre seu tema de interesse.

Ler muitos livros sem assimilação e reflexão sobre seus conteúdos, pode deixar você cheio de ideias... confusas, desconexas e inúteis.

Se você lê dois grandes autores que discordam e concorda plenamente com o que os dois escreveram, provavelmente não entendeu nada.

Escrever postagens limitadas a 140 caracteres, como no Twitter, é um desafio pessoal. Tendo a escrever demais até em conversa pelo Whatsapp.

Pierluigi Piazzi insistia que o estudo não rende quando se estuda muitas horas em um dia, mas um pouco todos os dias. Seja constante!

*Prof. Dr. Miguel Angelo Caruzo
Filósofo. Escritor. Livre Pensador. Filósofo Clínico.
Teresópolis/RJ

quinta-feira, 8 de junho de 2017

Canção de Mim Mesmo*


1.
Eu celebro o eu, num canto de mim mesmo,
E aquilo que eu presumir também presumirás,
Pois cada átomo que há em mim igualmente habita em ti.
Descanso e convido a minha alma,
Deito-me e descanso tranqüilamente, observando uma haste da relva de verão.
Minha língua, todo átomo do meu sangue formado deste solo, deste ar,
Nascido aqui de pais nascidos aqui de pais o mesmo e seus pais também o mesmo,
Eu agora com trinta e sete anos de idade, com saúde perfeita, dou início,
Com a esperança de não cessar até morrer.
Crenças e escolas quedam-se dormentes
Retraindo-se por hora na suficiência do que não, mas nunca esquecidas,
Eu me refugio pelo bem e pelo mal, eu permito que se fale em qualquer casualidade,
A natureza sem estorvo, com energia original.

2.
Casas e cômodos cheios de perfumes, prateleiras apinhadas de perfumes,
Eu mesmo respiro a fragrância, a reconheço e com ela me deleito,
A essência bem poderia inebriar-me, mas não permitirei.
A atmosfera não é um perfume, mas tem o gosto da essência, não tem odor,
Existe para a minha boca, eternamente; estou por ela apaixonado
Irei até a colina próxima da floresta, despir-me-ei de meu disfarce e ficarei nu,
Estou louco para que ela entre em contato comigo.
A fumaça da minha própria respiração,
Ecos, sussurros, murmúrios vagos, amor de raiz, fio de seda, forquilha e vinha,
Minha expiração e inspiração, a batida do meu coração, a passagem de sangue e de ar através de meus pulmões,  odor das folhas verdes e de folhas ressecadas, da praia e das pedras escuras do mar, e de palha no celeiro,
O som das palavras expelidas de minha voz aos remoinhos do vento,
Alguns beijos leves, alguns abraços, o envolvimento de um abraço,
A dança da luz e a sombra nas árvores, à medida que se agitam os ramos flexíveis,
O deleite na solidão ou na correria das ruas, ou nos campos e colinas,
O sentimento de saúde, o gorjeio do meio-dia, a canção de mim mesmo erguendo-se da cama e encontrando o sol.

Achaste que mil acres são demais? Achaste a terra grande demais?
Praticaste tanto para aprender a ler?
Sentiste tanto orgulho por entenderes o sentido dos poemas?
Fica esta noite e este dia comigo e será tua a origem de todos os poemas,
Será teu o bem da terra e do sol (há milhões de sóis para encontrar),
Não possuíras coisa alguma de segunda ou de terceira mão, nem enxergarás através do olhos de quem já morreu, nem te alimentarás outra vez dos fantasmas que há nos livros.
Do mesmo modo não verás mais através de meus olhos, nem tampouco receberás coisa alguma de mim,
Ouvirás o que vem de todos os lados e saberás filtrar tudo por ti mesmo.

(...)

*Walt Whitman

quarta-feira, 7 de junho de 2017

O texto e a vida*


Em uma obra de essência inacabada, a pluralidade discursiva, nem sempre coerente e recheada com algum tipo de fundamentação, exibe capítulos de uma subjetividade em vias de acontecer.

Nessa arquitetura de palavras, a versão dos rascunhos se inicia na multidão improvável dos sentidos sem tradução. Por esse não-lugar se alternam pronuncias da voz na palavra escrita. Um apurado senso de irrealidade parece tomar conta da estrutura narrativa.

Ao (re)nascer de cada pessoa uma nova obra se inicia. As lógicas da incompletude ampliam as chances para descrever o infindável movimento da vida. Sua eficácia institui novos parágrafos existenciais e se oferece como possibilidade inadiável de reescritas.

A autoria, em sua singularidade, esboça um cotidiano de páginas inéditas. A letra parece querer anunciar, desvendar, transgredir cotidianos em roteiros de inconclusão. Uma estranha alquimia ressoa no desajuste das entrelinhas. Como uma literatura que se esboça aos sons do silêncio, das dúvidas sobre a expressividade dos eus possíveis.

O paraíso onde a linguagem se desenvolve é um imenso território que aguarda. Seu dicionário de páginas em branco é um chão para compor o que vier. Nessa arquitetura de alegorias se insinuam outras paragens, como a ilusão das noites a brincar os dias.

Uma poesia interminável se esparrama nas páginas vividas em por vir. A reflexão especulativa tenta imaginar os dialetos impronunciáveis. O sobressalto do texto refugiado no cotidiano se esboça numa estética quase ilegível. Seus manuscritos apontam vestígios de algo mais ao integrar sim e não. A literalidade, embora não diga tudo, realiza uma aproximação com a perspectiva das fontes. As derivações ampliam versões subentendidas para visualizar utopias.

A textura desses testemunhos se oferece ao nascer sem palavras. Em dialeto próprio refere seus exílios num presente difuso. O percurso assim mencionado aprecia descrever, em termos de intimidade, a paisagem desmedida pelos deslocamentos. A interseção entre o texto e a vida acena novos refúgios ao teor discursivo. Nessa página impregnada de originais, autores e leitores reescrevem sua história. 

*Hélio Strassburger

terça-feira, 6 de junho de 2017

Fragmentos Filosóficos, Delirantes*


"O tempo é uma realidade encerrada no instante e suspensa entre dois nadas"

"Numa evolução verdadeiramente criadora, existe apenas uma lei geral, segundo a qual um acidente está na raiz de qualquer tentativa de evolução"

"Requer-se o novo para que o pensamento intervenha, requer-se o novo para que a consciência se afirme e a vida progrida. Ora, em princípio a novidade é, evidentemente, sempre instantânea"

"Mas a função do filósofo não será a de deformar o sentido das palavras o suficiente para extrair o abstrato do concreto, para permitir ao pensamento evadir-se das coisas ?"

"(...) ela leva em conta não apenas os fatos, mas também, e sobretudo, as ilusões - o que, psicologicamente falando, é de uma importância decisiva, porque a vida do espírito é ilusão antes de ser pensamento" 

"Para as concepções estatísticas do tempo, o intervalo entre dois instantes é apenas um intervalo de probabilidade; quanto mais seu nada se alonga, maior é a chance de que um instante venha terminá-lo"

"Os partidários do tempo descontínuo são antes impressionados pela novidade dos instantes fecundos que conferem ao hábito sua flexibilidade e sua eficácia"

"Como realidade, só existe uma: o instante. Duração, hábito e progresso são apenas agrupamentos de instantes, são os mais simples dos fenômenos do tempo"

"Lembrando Roupnel: 'Ensina-nos a ver e a escutar o Universo como se só agora tivéssemos dele a sã e súbita revelação. Reconduz a nossos olhares a graça de uma Natureza que desperta. Devolve-nos as horas encantadoras da manhã primitiva banhada de criações novas"

*Gaston Bachelard in "A intuição do Instante". Verus Editora Ltda. SP. 2007. 

segunda-feira, 5 de junho de 2017

Fazer poesia*


Escrever poesia é esta tentativa de dizer algo sobre alguma coisa que não se deixa dizer inteiro.
O que escapa é mais que aquilo que se escreve.
É uma tentativa infrutífera de dar forma a alguma coisa que não se deixa "com-formar".
Fazer poesia
É tão somente tentar
Sutis aproximações
Tímidos achegamentos
Sublimes congraçamentos
Delicadas harmonizações.
É um esforço
De tentar moldar
As nuvens com as mãos...

*José Mayer
Filósofo. Livreiro. Estudante na Casa da Filosofia Clínica
Porto Alegre/RS

domingo, 4 de junho de 2017

Fragmentos Filosóficos, Delirantes*


"Vivemos todos, neste mundo, a bordo de um navio saído de um porto que desconhecemos para um porto que ignoramos; devemos ter uns para os outros uma amabilidade de viagem"

"Sou o intervalo entre o que sou e o que não sou, entre o que sonho e o que a vida fez de mim, a média abstrata e carnal entre coisas que não são nada, sendo eu nada também"

"Mas, felizmente para a humanidade, cada homem é só quem é, sendo dado ao gênio, apenas, o ser mais alguns outros"

"Há metáforas que são mais reais do que a gente que anda na rua. Há imagens nos recantos de livros que vivem mais nitidamente que muito homem e muita mulher"

"Transeuntes eternos por nós mesmos, não há paisagem senão o que somos. Nada possuímos, porque nem a nós possuímos. Nada temos porque nada somos. Que mãos estenderei para que universo ? U universo não é meu: sou eu"

"Qualquer coisa, conforme se considera, é um assombro ou um estorvo, um tudo ou um nada, um caminho ou uma preocupação. Considerá-la cada vez de um modo diferente é renová-la, multiplicá-la por si mesma. É por isso que o espírito contemplativo que nunca saiu da sua aldeia tem contudo à sua ordem o universo inteiro. Numa cela ou num deserto está o infinito. Numa pedra dorme-se cosmicamente"  

"Toda a vida da alma humana é um movimento na penumbra. Vivemos, num lusco-fusco da consciência, nunca certos com o que somos ou com o que nos supomos ser. Nos melhores de nós viva a vaidade de qualquer coisa, e há um erro cujo ângulo não sabemos. Somos qualquer coisa que se passa no intervalo de um espetáculo"

*Fernando Pessoas in "Livro do desassossego". Ed. Companhia de Bolso. SP. 2014.

sábado, 3 de junho de 2017

Técnica dos cupins e o blogueiro*


“Dois mil e quinhentos anos depois da tecedura de Platão, parece que agora não só os deuses, mas também os sábios se retiraram, deixando-nos sozinhos com nossa ignorância e nosso parco conhecimento das coisas.”
Peter Sloterdijk

Definitivamente o determinismo decretou que os blogs estão em crise, que as pessoas migram mais rápido que cupins de uma madeira a outra, que passam num movimento rápido à noite e que de durante o dia já se percebe que ali viveu um blog. Ninguém naquele espaço habitará mais, a não ser o vazio de caracteres deixados consiga ser a metafísica constante das linguagens trôpegas de uma modernidade cínica.

Assim penso, será que foram os blogs que migraram à noite para outro espaço em caracteres em uma necessidade causal, que no lugar onde existia uma linguagem restou uma pasta oculta e que um dia alguém ainda irá lembrar? Ou mesmo, posso pensar, que de onde havia a linguagem nunca existiu destino e significados em sua textura, que tudo é fruto dos que pensam em guardar apenas na memória. Nem memória existe mais agora, a não ser que fique impresso e guardado em uma gaveta imaginária onde cupins não possam abocanhar. Nem a nuvem consegue suportar a memória, ela exige demais, é altamente corrosiva, poderia muito bem acabar com o esquecimento, desmitificar previsões e mudar o rumo do que era um determinante e se tornar em fractais.

O fim é o espelho da repetição diferenciada, não existe propriedade do que se espelha se não tivermos a velha crença de que a ideia combinada com a lógica dos acontecimentos só permanece se puder continuar corroendo as madeiras.

As nuvens que alimentam e guardam memórias são raras hoje em dia. Nem um pouco de sentimentalismo, mas uma porção de devaneio nos permite esquecer o acontecimento, depois é crer que o agora é diferente do antes. Como diz o designer, “o que parece simples para mim, talvez seja complexo para outra pessoa” (Vitor Lourenço), mas o que é complexo nunca deixará sua complexidade pelo simples fato que o finalismo contemporâneo está mais para uma migração do que para uma etapa avançada do pensamento.    

O grau de complexidade é a luz de linguagens jogadas no tempo e para que alguém pessoa possa tê-la é não necessariamente poder tornar simples o seu grau de uso. E, hoje, definitivamente a imagem é apenas o cenário em movimento às linguagens que correm tempo das certezas. Para os fins dos determinantes e para novas crenças existirem serão imprescindíveis sujeitos privilegiados ou não. Estar rompendo e descobrindo a melhor maneira de desmitificar o destino é tarefa do pensamento.

(texto ampliado de 2011)

*Prof. Dr. Luis Antonio Paim Gomes
Filósofo. Editor. Escritor. Livre Pensador.
Porto Alegre/RS

sexta-feira, 2 de junho de 2017

Fragmentos Filosóficos, Delirantes*


"(...) Croce entendia originariamente que a representação de um drama ou a declamação de um poema eram obras novas e diferentes da obra original; tal como na tradução, também neste caso, após um 'primeiro momento' em que o ator ou o declamador evocava a obra originária, com base neste 'antecedente' ou 'ponto de referência', desencadeava o 'segundo momento', a tradução propriamente dita, expressão da personalidade do intérprete e, portanto, obra nova e 'novo canto'" 

"O estilo é o 'modo de formar', pessoal, irrepetível, característico; a marca reconhecível que a pessoa deixa de si na obra; e coincide com o modo como a obra é formada. A pessoa forma-se, portanto, na obra: compreender a obra é possuir a pessoa do criador feita objeto físico"

"A pessoa forma na obra a sua experiência concreta, a sua vida interior, a sua irrepetível espiritualidade, a sua reação pessoal ao ambiente histórico em que vive, os seus pensamentos, costumes, sentimentos, ideias, crenças, aspirações"

"E cada abordagem é um modo de possuir a obra, de a ver inteira e, no entanto, sempre passível de ser percorrida por novos pontos de vista"

"Existe ainda um ponto de vista que é científico no melhor sentido da palavra, precisamente porque exige que para cada fenômeno a pesquisa se faça com instrumentos adaptados à natureza do próprio fenômeno"

"(...) a Idade Média não é uma ilha histórica, mas uma dimensão do espírito"

"Uma constelação é, portanto, uma proposta de formas possíveis continuamente aberta"

"A arte contemporânea descobriu o valor e a fecundidade da matéria. Isto não quer dizer que os artistas de outros tempos ignorassem que trabalhavam a partir de um material, e não compreendessem que desse material advinham as suas limitações e sugestões criativas, obstáculos e libertações"

"Há alguns anos um antropólogo, Claude Lévi-Strauss, explicou de modo convincente esta operação e os seus pressupostos linguísticos: ao fim e ao cabo, quem reúne e expõe, evidencia objetos encontrados, faz um pouco como o bricoleur, artesão caseiro que por hobby utiliza peças tiradas de vários aparelhos, que originariamente tinham uma função, e insere-os numa nova estrutura, com um significado novo; faz uso dos significados originários dos objetos utilizados e, ao mesmo tempo, despreza-os e altera-os. É a máquina construída com peças de outras máquinas, utilizando velhos candeeiros, palitos, arames e parafusos que pertenciam a qualquer outra coisa. E o que daí resulta é sempre um mundo novo, um outro universo formal, no qual aquilo que tinha sido recolhido por acaso adquire agora uma dimensão necessária"

*Umberto Eco in "A definição da arte". Edições 70. Portugal. 1972. 

quarta-feira, 31 de maio de 2017

As palavras e eu*


Ah, as palavras que eu falava
E aquelas que não falava
Só eram um convite para a dança
Um convite para o canto
Ah, minhas palavras
Queriam só ser palavras outras
De um mundo outro
Cansei das palavras cansadas
Cansadas de tão reais
Ah, minhas vãs palavras
Caíram no vazio de um vão
De um chão frio.
Ah, as minhas palavras
Apontavam um mundo que não existe
Mas que poderia existir
Afinal, quantos mundos existem
Além deste único, meio cansado
Que fazemos acontecer?
Ah, minhas palavras vãs
Beijavam os olhinhos dela
Última tentativa de tirar as vendas
Dos nossos olhos
Mas éramos cegos
Eu e ela.

*José Mayer
Filósofo. Livreiro. Estudante na Casa da Filosofia Clínica
Porto Alegre/RS

terça-feira, 30 de maio de 2017

Fragmentos Filosóficos, Delirantes*


"No escritor o pensamento não dirige de fora a linguagem: o escritor é ele mesmo um novo idioma que se constrói, que inventa meios de expressão e se diversifica segundo seu próprio sentido. O que chamamos de poesia talvez seja apenas a parte da literatura onde essa autonomia se afirma com ostentação. Toda grande prosa é também uma recriação do instrumento significante, doravante manejado segundo uma sintaxe nova"

"Nossa língua reencontra no fundo das coisas a fala que as fez"

"(...) jamais encontramos na fala dos outros senão o que nós mesmos pusemos, a comunicação é uma aparência, ela nada nos ensina de verdadeiramente novo. Como seria ela capaz de nos arrastar para além de nossos próprio poder de pensar, já que os signos que ela nos apresenta nada nos diriam se já não tivéssemos em nosso íntimo sua significação?"

"(...) o olhar de minha memória a envolve, bastará que me reinstale no acontecimento para que tudo, os gestos do interlocutor, seus sorrisos, suas hesitações, suas frases reapareçam em seu justo lugar"

"(...) a perfeição da linguagem é de fato passar despercebida"

"Exprimir-se é portanto um empreendimento paradoxal, uma vez que supõe um fundo de expressões aparentadas, já estabelecidas, e que sobre esse fundo a forma empregada se destaque, permaneça suficientemente nova para chamar a atenção. Trata-se de uma operação que tende à sua própria destruição, uma vez que se suprime à medida que se propaga, e se anula se não se propaga. Assim, não se poderia conceber uma expressão que fosse definitiva, pois as próprias virtudes que a tornam geral a tornam ao mesmo tempo insuficiente"

"Lembrando Malraux, diz assim: 'o estilo é o 'meio de recriar o mundo segundo os valores do homem que o descobre'"

"(...) mas o que resta por fazer para exprimir ainda mais o encontro e o conflito do olhar com as coisas que o solicitam, do corpo com o mundo que ele habita, daquele que precisa ser com aquilo que é"

*Maurice Merleau-Ponty in "A prosa do mundo". Ed. Cosac & Naify. SP. 2002.

segunda-feira, 29 de maio de 2017

Poética do existir*


A gente não precisa dizer o que fez e faz.
Cada vez mais viver é o que im-porta de verdade.
Im-porta ser sempre aprendiz.
Im-porta o carinho amigo.
Im-porta o doar amor.
Im-porta as coisas simples.
Im-porta o agora pleno de histórias.
Im-porta abrir a porta da existência
E viver as Autogenias transformadoras.
Im-portar com o outro que precisa de nossa escuta e presença.
Im-portar as estrelas do céu e
Pintar os fios de ouro nas estradas do viver.
No portar-se como gente In-teira.
In-teirando-se com o fogo, o ar a terra e água.
Inteirando-se com múltiplas pessoas.
Dissolvendo-se na poética do existir.

*Dra. Rosângela Rossi
Psicoterapeuta. Escritora. Filósofa Clínica
Juiz de Fora/MG