sábado, 18 de novembro de 2017

Fragmentos Filosóficos, Delirantes*


"(...) Bacon: (...) o entendimento humano é como um espelho falso, que, recebendo raios de modo irregular, distorce e descolore a natureza das coisas, que se misturam à própria natureza do espelho"

"Não somos a medida das coisas, mas os logrados pelas coisas. A Caverna é pessoal, uma toca fechada, isolada do mundo comum"

"Samuel Johnson (...) ensinou-nos que a essência da poesia é a invenção, no sentido de descoberta"

"(...) O que há de melhor e mais maduro em nós há de responder, integralmente, àquil que pretendemos enxergar"

"Não temos palavra adequada para explicar Shakespeare: ele escapa a qualquer categorização disponível"

"Lemos, penso eu, para sanar a solidão, embora, na prática, quanto melhor lemos, mais solitários ficamos"

"Nada explica Shakespeare, e nada pode reduzi-lo a uma explicação"

"Contemplamos na vasta escritura de Cervantes aquilo que já somos"

"Vivemos um intervalo e, então, nosso lugar não mais nos reconhece"

*Harold Bloom in "Onde encontrar a sabedoria ?" Ed. Objetiva. RJ. 2009. 

sexta-feira, 17 de novembro de 2017

Limites ou horizontes?*


​- Nosso relacionamento é aberto ou fechado?

- Por mim tanto faz.

- Desculpa, mas para mim não é assim. Só consigo me relacionar se houver fidelidade conjugal. Relacionamento fechado.

- OK, combinado.Vamos fechar, mas precisamos esclarecer algumas questões. Se meu personal trainer convidar para um café depois da aula e eu aceitar, isto é considerado infidelidade?

- Claro que não.

- Preciso lhe contar sobre o café? Não aconteceu nada, conversamos sobre dieta e exercícios.

- A principio, não é necessário que eu saiba tudo sobre sua vida. Tudo certo querida.

- Na outra semana, o personal me convida pra jantar.  Não vai rolar nada proibido, ele só quer me apresentar um programa de treinamento para a maratona de abril. 

Preciso lhe contar? Você acha isto uma forma de infidelidade conjugal?

- Confio em você querida, não precisa contar.

- Quinze dias depois, você vai viajar e o personal me convida para assistir um filme sobre a maratona de Paris em seu apartamento. Oferece-me um vinho, fico um pouco tonta e durmo com ele. Quando você retorna, exponho o que aconteceu e comunico que nosso relacionamento, antes fechado, agora deixou de ser. Você acha que ao narrar o fato fui fiel ou infiel a você? 

Limite é uma linha que delimita, separa, divide, afasta. Fisicamente pode ser representado por cercas, paredes e grades que dificultem a passagem de penetras indesejados. Dependendo do contexto, podem proteger ou vulnerabilizar. Minha dúvida é saber se, de fato, limites afastam ou são convites para invasões. Assaltantes preferem invadir mansões protegidas por muralhas ou casebres indefesos?

Cercas existenciais também são divisões que colocamos em nossas vidas e na vida dos outros. Servem para manter pessoas fora ou para aprisionar dentro. São bem menos delimitadas e muito mais frágeis que cercas físicas. Podem ser questionadas, alteradas, esticadas, ultrapassadas e até mesmo destruídas com o poder da palavra. Promessas e bons argumentos costumam remover paredes, mas os resultados nem sempre são promissores.

Para alguns, fidelidade é uma cerca existencial que se resume apenas ao lado hormonal. Relacionamento sexual fora do casal é traição. Ponto final,  todo o resto é permitido.  Para outros, fidelidade abrange bem mais que contato físico. Envolve também pensamentos, confiança, cumplicidade, sentimento, valores, preconceitos. Para esses, a cerca é quase uma muralha.

Até onde vai a fronteira da fidelidade? Será que João não traiu Maria todas as vezes que foi indiferente aos limites que impunha e ela questionava ameaçando transgredi-los? Ultrapassar limites seria um erro maior do que ficar aquém destes?

Aceitar um convite para jantar é um gesto de educação, mas qual o limite das concessões sociais? Às vezes o terreno é pantanoso, e onde o piso aparenta ser firme, uma taça de vinho pode desequilibrar a estrutura.

Vivemos uma época de limites nebulosos e até mesmo ausentes. Alguns casais, inseguros no relacionamento amoroso, precisam a todo custo colocar uma baliza qualquer para validar seus valores morais e sociais. Idealizam cercas para se aprisionar mutuamente, sem se dar conta que estão se posicionando como controlador e propriedade.

A obrigação de não ultrapassar o limite imposto faz com que o amor fique em segundo ou terceiro plano. Muitas vezes, é justamente a retirada do balizamento que determina de fato e de direito o limite, que não deveria ser a cerca e sim o sentimento e a sensibilidade. Relacionamentos deveriam ter limites ou horizontes?

Portas abertas nem sempre são um convite para entrar ou sair.

*Ildo Meyer
Médico. Escritor. Filósofo Clínico.
Porto Alegre/RS

quarta-feira, 15 de novembro de 2017

Fragmentos Filosóficos, Delirantes*


"Um apetite de vida aumenta com o ardor das palavras. O poeta já não descreve - exalta. É preciso compreendê-lo seguindo o dinamismo de sua exaltação. Entra-se então no mundo admirando-o. O mundo é constituído pelo conjunto das nossas admirações"

"Os poetas, em seus devaneios cósmicos, falam do mundo na linguagem do mundo. As palavras, as belas palavras, as grandes palavras naturais, acreditam na imagem que as criou. Um sonhador de palavras reconhece numa palavra do homem aplicada a uma coisa do mundo uma espécie de etimologia onírica"  

"As palavras do mundo querem fazer frases. Sabe-o bem o sonhador que, de uma palavra que sonha, faz surgir uma avalancha de palavras"

"As cosmogonias antigas não organizam pensamentos, são audácias de devaneios, e para devolver-lhes a vida é necessário reaprender a sonhar"

"E que vem a ser um belo poema senão uma loucura retocada ? Um pouco de ordem poética imposta às imagens aberrantes ? A manutenção de uma inteligente sobriedade no emprego - ainda assim intenso - das drogas imaginárias. os devaneios, os loucos devaneios, conduzem a vida"

"O ser do sonhador invade aquilo que o toca, difuso no mundo. Graças às sombras, a região intermediária que separa o homem e o mundo é uma região plena de uma plenitude de densidade ligeira. Essa região intermediária amortece a dialética do ser e do não-ser"

"Que importam para nós, filósofo do sonho, os desmentidos do homem que reencontra, após o sonho, os objetos e os homens ? O devaneio foi um estado real, em que pesem as ilusões denunciadas depois. E estou certo de que fui eu o sonhador. Eu estava lá quando todas essas coisas lindas estavam presentes no meu devaneio. Essas ilusões foram belas, portanto benéficas. A expressão poética adquirida no devaneio aumenta a riqueza da língua"

*Gaston Bachelard in "A poética do devaneio". Ed. Martins Fontes. SP. 2001. 

terça-feira, 14 de novembro de 2017

A brisa e o coração*


Uma brisa suave
Soprava vindo do sul
Trazendo boas lembranças
Mas parecia existir
Entre nós dois
Um muro de ar!
Uma ponte que ruíra
Afogando nossos abraços.
De agora em diante
O passado seria
Levado pelas águas
O futuro jogado
Na direção dos ventos.
Sentia, todavia
Toda vez que a via sorrir
Uma imensa gratidão
E sabia do dia
Que o seu coração
Se lhe abriria...

*José Mayer
Filósofo. Livreiro. Poeta. Especialista em Filosofia Clínica.
Porto Alegre/RS

segunda-feira, 13 de novembro de 2017

Noruega cria primeiro Hospital Psiquiátrico do mundo sem fazer uso de medicamentos***


Quem possui uma ideia sobre saúde mental, provavelmente não concebe a existência dela sem medicação. Na sociedade contemporânea, praticamente todas as "doenças" mentais são susceptíveis de serem tratadas por drogas, independentemente do grau, muito menos quais são suas particularidades em relação à história de vida do paciente.

Como resultado de uma maneira de entender os conceitos de saúde, paciente, medicina e bem-estar, entre outros, acredita-se que todos os seres humanos podem ser tratados da mesma maneira e que, por exemplo, uma depressão é idêntica em uma mulher de 50 anos e em um adolescente de 16. Em um homem que perdeu sua esposa ou uma jovem que não pode dormir à noite. E sob essa premissa, a todos são oferecidos a mesma solução: uma droga cuja promessa é trazer "equilíbrio", o que quer que isso represente. Além disso, essa compreensão da saúde mental é tão dominante que pensar em outras alternativas pode ser considerado um absurdo, algo realmente louco.

 No entanto, na Noruega, um projeto está sendo promovido buscando demonstrar a viabilidade de outra alternativa, ou seja, que é possível separar a saúde mental e psiquiátrica da abordagem farmacológica que dominou nossa cultura de "saúde" nos últimos 50 anos.

Na remota cidade de Tromso, no norte da Escandinávia, é onde fica o Hospital Psiquiátrico de Asgard, que já na entrada anuncia sua particularidade: " behandlingstilbud medikamentfritt ", (livres do tratamento de drogas) slogan promovido pelo próprio Ministério da Saúde do país e que, entre outros fins, procura explorar outras formas de tratar a mente e seus distúrbios.

Qual é a alternativa? "Ouvir o paciente", disse Merete Astrup, diretora da instituição. Ela descreve a especificidade dessa "nova" perspectiva:

"É uma nova maneira de pensar. Antes, quando as pessoas procuravam ajuda, elas sempre recebiam as necessidades dos hospitais, e não o que os pacientes queriam. Estávamos acostumados à dizer aos pacientes: 'este é o melhor para você'. Mas agora dizemos: 'o que você realmente quer?'. E eles podem dizer: 'estou livre. eu posso decidir'".

Da mesma forma, Magnus Hald, chefe de serviços psiquiátricos do Hospital Universitário do Norte da Noruega, acrescenta:

"Devemos considerar que a perspectiva do paciente é tão valiosa quanto a do médico. Se os pacientes dizem que isso é o que eles querem, parece bom para mim. Trata-se de ajudar as pessoas a continuarem com suas vidas da melhor maneira possível, e devemos ajudar a continuarem tomando medicação se é o que elas quiserem, e apoiá-las se quiserem experimentar [o tratamento] sem medicação. Devemos tornar isso possível".

Esses dois testemunhos expressam com simplicidade o principal problema da psiquiatria moderna: o lugar secundário para o qual ele relegou a história não do paciente, mas da pessoa.

Tanto quanto à abordagem cientificista parece inapelável, a verdade é que, no que diz respeito à mente, suas "doenças" não são o resultado exclusivo de desequilíbrios neuroquímicos. Loucura, depressão, ansiedade e outros distúrbios geralmente são sintomas nos quais às circunstâncias de nossas vidas são condensadas, mas que muitas vezes não compreendemos e ainda não exploramos.

Em outras palavras: não há duas pessoas no mundo que estão tristes pelos mesmos motivos. No entanto, a partir de uma abordagem moderna da mente humana, em vez de tentar entender essas razões, para todos os indivíduos são oferecidos a mesma solução: um antidepressivo.

No momento não é possível saber até que ponto este projeto lançado na Noruega chegará em outras partes do mundo. Entretanto, o mero gesto de ouvir o paciente psiquiátrico é, para os médicos que os tratam, um grande passo cuja direção talvez seja uma compreensão da saúde e do bem-estar como estados que fluem diretamente da subjetividade e das circunstâncias pessoais.

Comentário:

A iniciativa de estabelecer um modelo de tratamento psiquiátrico sem o uso de drogas vai na contramão dos interesses da indústria farmacêutica, motivo pelo qual provavelmente não ganhará destaque essa abordagem e, invés disso, deverá ser combatida por outros "especialistas".

Do ponto de vista estritamente acadêmico, essa abordagem possui ampla fundamentação teórica e é mais coerente do que os métodos atuais aplicados em saúde mental, em sua maioria frutos do modelo biomédico de saúde.

Três textos publicados aqui no blog estão em harmonia com esse conceito, onde a noção de "doença mental" é questionada, bem como o diagnóstico de depressão e o chamado Transtorno de Hiperatividade e Impulsividade. São leituras indispensáveis para quem deseja ampliar sua visão sobre o assunto. São eles:

"Pedofilia é doença? Entenda a estratégia do ativismo pedófilo por trás dessa mentira teórica".
"Depressão - A moda psiquiátrica mais famosa do século XXI"
"O diagnóstico de TDAH é útil ou prejudicial? - Informações importantes".

* Fonte: www.opiniaocritica.com.br
** Ainda se fala em 'saúde mental', 'patologias', 'normalidade e loucura'....conceitos e abordagens ideologizadas (Michel Foucault) mas estão chegando, quem sabe ...!!? Aqui na colônia ? Bem... vamos tomar um café ? HS

domingo, 12 de novembro de 2017

A Fala Cotidiana contra a Verdade*


“O mundo inteiro nos é oferecido, mas por meio do olhar.”
Maurice Blanchot

Por aqui, no país de orientação religiosa pós-liberal, na capital, Porto Alegre, um movimento pela moralidade parece estar além dos deuses; no lugar das decisões mitológicas prevalece a orientação de ordem político-social-moralista. O que deseja implantar como normal e, quiçá, lei, no futuro, vedar olhos em nome de um pretenso desejo de punição aos que pensam contrário. Fadiga dos tempos, o moralismo toma conta do corpo que pensa sem a razão e leva à força toda a diferença na guilhotina do espetacular.

Em tempo de democracia o que cair na rede é válido, até as frustrações de um espírito conservador, que, em forma de ironia, sacraliza o cotidiano. Para eles, os moralistas, a arte deve ser controlada por guardiães do bom costume, como se o prefeito da cidade do Rio de Janeiro, além de pastor, tomasse o controle dos corações e dissesse o que é o lado bom e o lado mau das cabeças.

Na cultura Ocidental o tema é recorrente, desde que a mitologia foi tomada de assalto pelo racional, isso lá distante, na Grécia da epopeia, no lugar em que existia o mito que se fundiu com o racional, o pensamento se formou. Um mundo vive de idas e vindas, mas não permitir que o mito tome conta do “sagrado” invenção para dominar o racional em relação ao medo do mito, o homem se formou.

A educação, no entendimento dos que pensam que tanto faz existir o histórico, o lado mais obscuro do homem está na sua cabeça. Foi criado o bem para eliminar o outro lado. As religiões monoteístas controlam tudo, menos a tara do conservador, nem a gula dos ditadores.

Aqui, o ditador moral, o que move o mundo sendo movido por sua tentativa de cura ao se salvar da morte. Momentâneo. O homem é um passo do desconhecido. Sou do lado anárquico da humanidade. A cultura no seu confinamento moralista empobrece o crivo do pensar. Nem mesmo se tem mais diálogo quando, hoje, na contemporaneidade, se lavam as mãos em nome da purificação do espírito, impondo um lado que, para mim, o grotesco é parte desse lado, então, uniformizar as mentes é uma forma de controle do olhar, uma forma de vigiar na paz democrática, no medo do desconhecido. Ao falar um pouco das origens, a partir da leitura e do ver cinematográfico, do olhar perdido no horizonte, sinto-me distante cada vez mais do cinismo democrático e religioso deste século.

Não sinto saudades do que vivi, a corrente da vida é parte do cotidiano que escapa das mãos do guardião social. Tem uma saída, o possível está na insignificância da linguagem, burlar os olhos, desvelar os véus, mostrar a dor da realidade que já cansou da simples nudez, mostrar o que tem por dentro, pois todo significado pode forjar novas linguagens e embaralhar os códigos do guardião.                      
Prof. Dr. Luis Antonio Paim Gomes
Filósofo. Editor. Livre Pensador.
Porto Alegre/RS

sábado, 11 de novembro de 2017

Fragmentos de clínica e poesia existencial*


"(...) é preciso ser bem ousado e criativo para moldar uma nova terapia para cada paciente"

"Acho que Belle gostou de mim porque eu a tratava como gente. Fiz exatamente o que o senhor está fazendo agora, e quero lhe dizer, dr. Lash, que gosto de como o senhor o faz. Não olhei nenhum dos gráficos dela. Fui às cegas, queria ser inteiramente novo. Belle nunca foi um diagnóstico para mim, não era uma personalidade limítrofe, nem um transtorno alimentar, nem um transtorno compulsivo ou anti-social."

"(...) espero que nunca me torne um diagnóstico para o senhor"

"(...) sei que vocês que estão se formando agora e toda a indústria de psicofármacos vive do diagnóstico"

"Já parou para pensar como é fácil fazer um diagnóstico na primeira vez que examinamos um paciente e como fica mais difícil à medida que o conhecemos melhor ?"

"Pacientes limítrofes são manipuladores ? Foi o que você disse ? Ernest, você nunca será um verdadeiro terapeuta se pensar assim. Foi exatamente o que quis dizer quando falei sobre os perigos do diagnóstico. Existem limítrofes e limítrofes. Os rótulos são uma violência contra as pessoas. Você não pode tratar o rótulo; precisa tratar a pessoa por trás do rótulo"

"(...) Diga-me, Ernest, se você não estaria nesta situação, onde você estaria ? De volta ao seu laboratório ? Ou na biblioteca ? Você estaria a salvo. Digno e confortável. Mas onde estaria a paciente ? Muito longe! Exatamente como os vinte terapeutas de Belle antes de mim - todos eles pegaram a estrada segura, também. Mas sou um tipo diferente de terapeuta. Um salvador de almas perdidas. Recuso-me a desistir de um paciente. Arrisco meu pescoço, colo o meu na reta, tento qualquer coisa para salvar o paciente"  

*Irvin Yalom in "Mentiras no divã". Ed. Agir. RJ. 2006.

sexta-feira, 10 de novembro de 2017

Fragmentos Filosóficos, Delirantes*


"No líquido, os opostos passam mais facilmente um no outro. O líquido é o elemento do Phármakon. E a água, pureza do líquido, se deixa o mais facilmente, o mais perigosamente, penetrar e depois de corromper"

"Lembrando Górgias: 'A potencia do discurso tem a mesma relação com a disposição da alma que a disposição das drogas com a natureza do corpo. Da mesma forma que algumas drogas evacuam do corpo alguns humores, cada uma o seu, e umas estancam a doença, outras a vida; do mesmo modo alguns discursos afligem, outros revigoram, uns aterrorizam, outros animam os auditores; outros, por uma má persuasão, drogam a alma e a enfeitiçam"

"(...) o lógos é um ser vivo selvagem, uma animalidade ambígua. Sua força mágica, farmacêutica, deve-se a esta ambivalência, e isso explica que ela seja desproporcionada a esse quase nada que é uma fala" 

"Ainda Górgias: 'Os encantamentos inspirados pelos deuses através das palavras trazem o prazer, afastam o luto. Confundindo-se, de imediato, com o que a alma pensa, a potência de encantamento a seduz, persuade e transforma pela fascinação (...)'"

"A escritura não é melhor, segundo Platão, como remédio do que como veneno. Antes mesmo que Thamous anuncie sua sentença pejorativa, o remédio é inquietante em si. É preciso, com efeito, saber que Platão suspeita do phármakon em geral, mesmo quando se trata de drogas utilizadas com fins exclusivamente terapêuticos, mesmo se elas são manejadas com boas intenções, e mesmo se elas são eficazes como tais. Não há remédio inofensivo. O Phármakon não pode jamais ser simplesmente benéfico"

"(...) Thot repete tudo na adição do suplemento: suprindo o sol, ele é outro que o sol e o mesmo que ele; outro que o bem e o mesmo que ele, etc.. Tomando sempre o lugar que não é o seu, e que se pode chamar também o lugar do morto, ele não tem lugar nem nome próprios. Sua propriedade é a impropriedade, a indeterminação flutuante que permite a substituição e o jogo"

"(...) O lógos, ser vivo e animado, é também um organismo engendrado" 

*Jacques Derrida in "A farmácia de Platão". Ed. Iluminuras. SP. 2005.

quarta-feira, 8 de novembro de 2017

Fragmentos Filosóficos, Delirantes*


"Assim como a vida é sempre mais rica que as teorias que pretendem expressá-la, uma história é sempre mais que mera ilustração das teorias de quem a conta"

"Manipulando e organizando astutamente os ingredientes da realidade, o narrador construiu outra realidade"

"Cada época tem a sua irrealidade: seus mitos, seus fantasmas, suas quimeras, seus sonhos e uma visão ideal do ser humano que a ficção expressa com mais fidelidade que qualquer outro gênero"

"Basta um fantasma numa reunião para que todos os presentes adquiram um ar fantasmal, basta um milagre para que a realidade se torne milagrosa"

"(...) todas as ficções fazem o leitor viver 'o impossível', tirando-o do seu eu particular, ultrapassando os limites da sua condição, e fazendo-o compartilhar, identificado com os personagens da ilusão, uma vida mais rica, mais intensa, ou mais abjeta e violenta, ou simplesmente diferente daquela em que estão confinados nesta prisão de segurança máxima que á a vida real"

"(...) mostrar como é precário e sujeito a erros o conhecimento que o homem pode ter de outros homens e como, por isso mesmo, seu juízo moral é insuficiente e frequentemente equivocado"

"O homem precisa de certezas. Pode encontrá-las na ciência ? Por certo que não, já que cada avanço científico mostra os erros e as lacunas em que a sociedade viveu até então (...) os limites da realidade são elásticos"

"(...) a realidade cresce a cada dia, à mercê da ciência, no distante (graças ao telescópio) e no próximo (graças ao microscópio)"

*Mario Vargas Llosa in "A tentação do impossível". Ed. Alfaguara. RJ. 2004.

segunda-feira, 6 de novembro de 2017

Em outras palavras*


Um indício do novo padrão existencial é a desestruturação do raciocínio. Noutras palavras, a vida se reapresenta numa perspectiva diferente. Um esboço por onde o vocabulário transgride suas origens. Reconhecíveis por fora pela aceitação, discriminação ou incompreensão, sua tradução aprecia acolher novos territórios.

Essa inadequação linguística anuncia um desconhecido se aproximando. O universo das novas expressões insinua uma estética própria. Sua pronúncia, nem sempre legível às anterioridades, convive em vias marginais, nos arredores da literalidade. Ao se aproximar dessa fonte de equivocidades, é possível sentir a singularidade tentando acontecer.

Aquilo sem possibilidade numa língua, ao refugiar-se na imensidão de si mesmo, quando encontra a ocasião, o lugar, os meios, pode ressurgir como transgressão dos próprios limites, uma suspeita de algo por vir.

Em outras palavras, aquilo indescritível numa semiose passa a ter visibilidade compreensiva noutra. As lonjuras existenciais podem se aproximar ao olhar deslocado. Quando encontra um meio para se expressar, descortina sua fonte de diálogos, desdobra-se para ser reconhecível. Seu teor de vida nova compartilha-se na estrutura de pensamento que o acolhe e protege. Uma verdade assim descrita aprecia viajar-se, movimentando-se na porção infinita de cada um.

As contribuições dos termos agendados introduzem traduções possíveis. Quando se encontram com a diversidade existencial de sua tribo, contribuem uns com os outros. Transformam a aptidão inquieta e de retórica desconhecida nas possibilidades de um devir como anúncio.

A desconstrução da própria casa pode significar a singularidade em vias de tornar-se. Assim, o evento precursor, quando decifrado na estrutura de pensamento, contribui para uma atitude compreensiva, acolhedora. A transposição da desestrutura inicial aponta outras versões. A reescrita existencial considera os horizontes improváveis.

*Hélio Strassburger

domingo, 5 de novembro de 2017

Fragmentos Filosóficos, Delirantes*


"Dizer e ser, palavra e coisa, pertencem um ao outro num modo velado, pouco pensado e até impensável"

"(...) tanto o milagre como a quimera valem para o poeta como o que verdadeiramente lhe concerne, mas cujo ser, longe de querer guardá-lo para si, ele quer somente apresentar"

"Os trechos nos quais e com os quais medimos a proximidade e a distância como intervalos constituem a sequência de agoras, ou seja, o tempo"

"Hermes é o mensageiro dos deuses. Traz a mensagem do destino; é a exposição que dá notícia, à medida que consegue escutar uma mensagem. Esta proposição se transforma em interpretação da mensagem dos poetas que, nas palavras de Sócrates: 'são mensageiros dos deuses'"

"Como se pode dar um nome específico ao que ainda se procura ?"

"A linguagem da poesia é essencialmente polissêmica e isso de um jeito muito próprio. Não conseguiremos escutar nada sobre a saga do dizer poético enquanto formos ao seu encontro guiados pela busca surda de um sentido unívoco"

"O delirante pensa e pensa mais do que qualquer um. Mas nisso ele fica sem o sentido dos outros. Ele é um outro sentido"

"O desprendido é delirante porque está a caminho de outro lugar"

*Martin Heidegger in "A caminho da linguagem". Ed. Vozes. Petrópolis/RJ. 2004.   

sábado, 4 de novembro de 2017

Onde eu moro não existe pecado*


Lá longe onde eu moro
Não se fazem casas
Fazem-se asas.
Lá longe onde eu moro
Não se fazem paredes
Dorme-se em redes.
Lá longe onde eu moro
Moramos debaixo do mesmo teto
De um céu azul.
Onde eu moro, lá longe
Não existe pecado
Vivemos em estado
De graça
Uns pelos outros.
E se eu não me cuidar
Me apaixono de novo
Mais forte e mais fundo
Do que antes.
Onde eu moro, bem distante
O teto que nos cobre
Se chama bem-querer..!!

*José Mayer
Filósofo. Livreiro. Poeta. Especialista em Filosofia Clínica
Porto Alegre/RS

sexta-feira, 3 de novembro de 2017

Fragmentos Filosóficos, Delirantes*


"(...) uma valorização dos devaneios inconfessados, dos devaneios do sonhador que foge da sociedade, que pretende tomar o mundo como único companheiro. Por certo, essa solidão não é completa. O sonhador isolado guarda em particular valores oníricos ligados à linguagem; guarda a poesia própria da linguagem de sua raça. As palavras que ele aplica às coisas poetizam as coisas, valorizam-nas espiritualmente num sentido que não pode fugir completamente das tradições"

"Os sonhos que viveram numa alma continuam a viver em suas obras"

"Os mitólogos amadores algumas vezes são úteis. Trabalham de boa fé na zona de primeira racionalização. Deixam pois inexplicado o que 'explicam', porquanto a razão não explica os sonhos. Também classificam e sistematizam um tanto depressa as fábulas"

"Um instante de sonho contém uma alma inteira"

"É preciso que a íris do olho tenha uma bela cor para que as belas cores entrem em sua pupila. Sem um olho azul, como ver realmente o céu azul ? Sem um olho negro, como contemplar a noite ?"

"A vida real caminha melhor se lhe dermos suas justas férias de irrealidade"

"A imaginação inventa mais que coisas e dramas; inventa vida nova, inventa mente nova; abre olhos que têm novos tipos de visão. Verá se tiver 'visões'. Terá visões se se educar com devaneios antes de educar-se com experiências, se as experiências vierem depois como provas de seus devaneios"

"Não nos banhamos duas vezes no mesmo rio, porque, já em sua profundidade, o sr humano tem o destino da água que corre"

*Gaston Bachelard in "A água e os sonhos". Ed. Martins Fontes. SP. 2002.

quinta-feira, 2 de novembro de 2017

O Homem Nômade: Esqueça as narrativas de iludir razões*


A ebulição que anima o globo é que é também a ebulição do sujeito (pensa Bataille), mas o sujeito em ebulição propriamente dito em total consumo de si. Esse é o passo para o pensamento radical.

O pensamento crítico, aqui seria o da acumulação, que busca através do objeto, em pesquisa, o seu valor de “uma operação fria e calculada”.

Assim, como em “1919”, Sakamoto contorna esse frio com a atonalidade melódica que vai ao seu excesso até os acordes de um pensar radical na música.

O mesmo ocorre na escritura de Bataille e muitos anos antes já parecia estar na parte do liberar de energias no instante eterno das palavras.Assim como a economia se expressa pelo acumulo, mas para Bataille, ela é apenas uma soma calculada e fria que terá seu valor no instante.

O instante da comunicação deixa de ser eterno para ser a energia vinda da informação e para melhor fechar a cadeia do conhecimento ela se perde no fragmento da narrativa partida.O que temos é o instante das coisas, a ilusão da informação e a ilusão de acumular conhecimentos. O falar por falar se expressa nessa economia sem os acordes atonais. De onde vem isso tudo?

Prof. Dr. Luis Antonio Paim Gomes 
Filósofo. Editor. Escritor. Livre Pensador.
Porto Alegre/RS

quarta-feira, 1 de novembro de 2017

Árvore*


Um passarinho pediu a meu irmão para ser sua árvore.
Meu irmão aceitou de ser a árvore daquele passarinho.

No estágio de ser essa árvore, meu irmão aprendeu de
sol, de céu e de lua mais do que na escola.

No estágio de ser árvore meu irmão aprendeu para santo
mais do que os padres lhes ensinavam no internato.

Aprendeu com a natureza o perfume de Deus.
Seu olho no estágio de ser árvore aprendeu melhor o azul.

E descobriu que uma casca vazia de cigarra esquecida
no tronco das árvores só serve pra poesia.

No estágio de ser árvore meu irmão descobriu que as árvores são vaidosas.
Que justamente aquela árvore na qual meu irmão se transformara, 
envaidecia-se quando era nomeada para o entardecer dos pássaros.

E tinha ciúmes da brancura que os lírios deixavam nos brejos.

Meu irmão agradecia a Deus aquela permanência em árvore
porque fez amizade com muitas borboletas.

*Manoel de Barros

terça-feira, 31 de outubro de 2017

Beija flor*



"Nem sei se posso dizer isto.
Há no ar uma interrogação.
Faz-se no ar silêncio.
No entre, uma pausa.
Desamor pulula no egoísmo.
Vaidades tomam o poder.
Complexos geram comparações.
Julgamentos, revólveres de projeções.
Críticas, jogos de saber poder.
Fofocas exaltam a inveja dos impotentes.
Ressentimentos alimentam mágoas.
E, os ventos sopram...
Raios rasgam horizontes.
Outono queima as matas
Num ato intenso de amor
Chega o Beija-flor.
Em seu bico uma gota de amor.
Treme beijando o orvalho.
Seduz a encantar e a despertar.
Analisa e se desfaz em graça.
O mínimo se torna mais,
Como mágica acende a lua,
Distribui amor sem nada esperar.
Entrega-se às flores e goza
Na dança de SerAmor,]Amando sem censura.

*Rosângela Rossi in "Amando sem censura". Ed. SerLivre. MG. 2016.
Psicóloga. Escritora. Filósofa Clínica. Poeta. Livre Pensadora.
Juiz de Fora/MG

segunda-feira, 30 de outubro de 2017

Fragmentos Filosóficos, Delirantes*


"Em seus atos de libertação ele oferece como um presente as possibilidades adormecidas, e apenas quem conhece a palavra mágica é capaz de despertá-las novamente e transformá-las em alegria e festividade"

"Não podendo a arte ser nacional em seus momentos de apogeu, segue-se que todo artista, na verdade, nasce em terra estrangeira. Sua pátria não está em lugar algum, situando-se apenas em seu próprio íntimo. E as obras nas quais traduz a linguagem desta terra são as suas mais genuínas"

"Cada um de nós recria o mundo ao nascer, porque cada um de nós é o mundo"

"(...) Ele permanece pobre, porque é incapaz de revelar a um confidente a existência dos seus tesouros, e segue solitário por não conseguir edificar uma ponte que conduza do seu íntimo para o meio exterior que o circunda. (...) Estes seres caminham pelo mundo, sem tocá-lo, portando em suas almas as estrelas mudas sobre as quais não podem falar com ninguém"

"(...) O homem que não necessita de títulos, porque ele, com o seu trabalho, é portador de todas as honrarias, e haveria de sentir-se tolhido e amedrontado se tivesse de ocupar determinado posto"

*Rainer Maria Rilke in "O diário de Florença". Ed. Nova Alexandria. SP. 2002.

domingo, 29 de outubro de 2017

Fotos históricas*



Boa tarde,

A partir de hoje está à disposição, no final da página inicial do blog, nas "contribuições para uma historicidade da Filosofia Clínica" algumas fotos dos anos iniciais da Filosofia Clínica. 

Nossa equipe de produção recuperou antigas imagens de alguns eventos da Filosofia Clínica (anos 90 e começo dos anos 2000).

Essa breve apresentação é apenas um recorte tímido. Aconteceu muito mais! Alguns colegas históricos possuem outros tantos acervos dessa época, desejo que também compartilhem. 

Um abraço, 
Coordenação da Casa da Filosofia Clínica

Fragmentos Filosóficos, Delirantes*


"No fundo da prática científica existe um discurso que diz: 'nem tudo é verdadeiro; mas em todo lugar e a todo momento existe uma verdade a ser dita e a ser vista, uma verdade talvez adormecida, mas que no entanto está somente à espera de nosso olhar para aparecer, à espera de nossa mão para ser desvelada. A nós cabe achar a boa perspectiva, o ângulo correto, os instrumentos necessários, pois de qualquer maneira ela está presente aqui e em todo lugar"

"Se existe uma geografia da verdade, esta é a dos espaços onde reside, e não simplesmente a dos lugares onde nos colocamos para melhor observá-la"

"Antes do século XVIII, a loucura não era sistematicamente internada e era essencialmente considerada como uma forma de erro ou de ilusão. Ainda no começo da idade clássica, a loucura era vista como pertencendo às quimeras do mundo; podia viver no meio delas e só seria separada no caso de tomar formas extremas ou perigosas"

"(...) Charcot produzia efetivamente a crise de histeria que descrevia"

"(...) o médico transmitia as doenças que devia curar"

"Basaglia: 'a característica destas instituições (escola, fábrica, hospital) é uma separação decidida entre aqueles que têm o poder e aqueles que não o tem"

"(...) Sabemos sobre a sua doença e sua singularidade coisas suficientes, das quais você nem sequer desconfia, para reconhecer que se trata de uma doença; mas desta doença conhecemos o bastante para saber que você não pode exercer sobre ela e em relação a ela nenhum direito. Sua loucura, nossa ciência permite que a chamemos doença e, daí em diante, nós médicos estamos qualificados para intervir e diagnosticar uma loucura que lhe impede de ser um doente como os outros: você será então um doente mental"

"É este círculo que a anti-psiquiatria pretende desfazer, dando ao indivíduo a tarefa e o direito de realizar sua loucura levando-a até o fim numa experiência em que os outros podem contribuir, porém jamais em nome de um poder que lhes seria conferido por sua razão ou normalidade"

*Michel Foucault in "A casa dos loucos - Microfísica do poder". Ed. Graal. RJ. 1990. 

sábado, 28 de outubro de 2017

Ser filósofo no século XXI*


Quer ser “filósofo” no século XXI? Comece escrevendo artigos e submeta-os a boas revistas nas quais há bons avaliadores. Um filósofo inicia sua reflexão dialogando com outros autores, compreendendo-os e discordando deles quando é possível, como Aristóteles nos ensinou.

Acha que o ambiente acadêmico é despreparado? Pior é tornar-se julgador da própria obra ou se valer do julgamento daqueles que pouco sabem a respeito do conteúdo com o qual você lida.

Julga algum filósofo ruim? Experimente escrever um artigo refutando-o e envie para algum avaliador que dedicou mais tempo do que você ao estudo desse pensador.

Por que um artigo e não um livro? Porque, em geral, até o “menino do Acre” escreve um livro e publica por uma editora que visa unicamente o lucro, enquanto a publicação de um artigo depende da ponderação de editores e avaliadores que não recebem nada por isso e têm apenas a intenção de melhorar a qualificação da revista; e, para isso, precisam publicar bons trabalhos.

Mas, até revistas científicas mundialmente consagradas como a “Nature” aceitaram artigos mal feitos ou falsos, não é? No entanto, esses trabalhos foram posteriormente desmascarados.

Ah, isso não é idolatria à academia? Não, estou ciente de que ela também possui falhas e limites, assim como toda instituição humana.

Mas, a academia hoje não aceitaria trabalhos filosóficos como os que foram escritos por Platão, Aristóteles, Agostinho, Tomás de Aquino etc., certo? Cada um deles escreveu de acordo com as características aceitas em seu próprio tempo: diálogos, tratados, confissões, sumas etc. Hoje, certamente, eles se adaptariam e provavelmente seriam tão geniais quanto o foram em suas respectivas épocas.

Há muitos pesquisadores que publicaram muitos artigos e nem todos foram grandes filósofos, certo? Nada nessa vida é para todo mundo. O mesmo vale para a filosofia. Muitos serão excelentes intérpretes de obras filosóficas, outros serão grandes professores de filosofia e alguns serão filósofos no sentido estrito. Não há nada de errado nisso.

Por que praticar hoje uma filosofia diferente da que era praticada na Antiguidade e na Idade Média? Pelo fato de que você, seu contexto, sua cultura e seu período histórico não são daquelas épocas.

Mas, encontramos filósofos em nosso tempo que não vieram da academia, certo? Sim. Mas, atualmente, um filósofo que surge fora da academia é exceção. Você que está lendo este texto, muito provavelmente, é a regra. Caso você seja a exceção, siga a vida e desconsidere as minhas palavras.
Você discorda desta postagem e quer comentar? Seja, pelo menos, educado.

Prof. Dr. Miguel Angelo Caruzo
Filósofo. Escritor. Educador. Filósofo Clínico. Livre Pensador.
Teresópolis/RJ

sexta-feira, 27 de outubro de 2017

Amplidão Mínima*

   
[...] seu crescimento é doloroso como o de um menino e triste como o começo da primavera.” Rainer Maria Rilke

Eu não minto, não meto,
Descubro linhas, acerto, perco o tempo,
Encontro os pontos, absurdo na meta,
Desconto a vida em linha reta.
Sinuosidade da morte:
Acho o lúdico, súbito, mordo língua,
Nado a esmo, lá no fim águas,
Olhos vivos nas algas da solidão,
Enfio mãos, naufrago em Mar de Espanha.[1]
Afundo sonhos, renovo ideias, conto histórias,
Faço o cerco, prolongo a narrativa, escapo da morte,
Invento mundos, amplio a visão, mato tempo em vão,
Encontro espaços entre o Nada e o tempo de viver.
Histórias forjadas, atos do pensamento, nada perdido,
Livros lidos nunca escritos, sonho noutros lugares,
Vivo distante do meu lugar, destino no acaso faz-me errante.
Nunca saio do meu canto antes de olhar a fadiga das paredes.
O ser não envelhece no tempo, é mais velho que a morte dos pensamentos.   

[1] Alusão ao município sem mar, Mar de Espanha – Minas Gerais

* Prof. Dr. Luis Antonio Paim Gomes
Filósofo. Editor. Livre Pensador
Porto Alegre/RS