terça-feira, 31 de janeiro de 2017



"É preciso ainda observar que as definições do fantástico que se encontram na França em escritos recentes, se não são idênticas à nossa, tampouco a contradizem. Alguns exemplo dos textos canônicos: Castex escreve em 'Le Conte fantastique': 'O fantástico... se caracteriza... por uma intromissão brutal do mistério no quadro da vida real'. Louis Vax, em 'L'Art et la Littérature fantastiques': 'A narrativa fantástica... gosta de nos apresentar, habitando o mundo real em que nos achamos, homens como nós, colocados subitamente em presença no inexplicável'. Roger Caillois em 'Au Coeur du fantastique': 'Todo o fantástico é ruptura da ordem estabelecida, irrupção do inadmissível no seio da inalterável legalidade cotidiana'" 

"O fantástico leva pois uma vida cheia de perigos, e pode se desvanecer a qualquer instante. Ele antes parece se localizar no limite de dois gêneros, o maravilhoso e o estranho, do que ser um gênero autônomo"

"A definição clássica do presente, por exemplo, descreve-o como um puro limite entre o passado e o futuro. A comparação não é gratuita: o maravilhoso corresponde a um fenômeno desconhecido, jamais visto, por vir: logo, a um futuro; no estranho, em compensação, o inexplicável é reduzido a fatos conhecidos, a uma experiência prévia, e daí ao passado. Quanto ao fantástico mesmo, a hesitação que o caracteriza não pode, evidentemente, situar-se senão no presente"

"Seja como for, não se pode excluir de um exame do fantástico o maravilhoso e o estranho, gêneros com os quais se imbrica. Mas não esqueçamos tampouco que, como diz Louis Vax, 'a arte fantástica ideal sabe se manter na indecisão'"

"Citando Alan Watts in The Joyous Cosmology: 'Pois neste mundo não há nada de errôneo, nem mesmo de estúpido. Sentir um erro é simplesmente não ver o esquema no qual se inscreve tal acontecimento, não saber a que nível hierárquico este acontecimento pertence'"

"Mas é justamente o que se passa na literatura fantástica, como no pensamento mítico por exemplo; ele permanece presente para fornecer o pretexto às transgressões incessantes" 

"Por sua própria definição, a literatura ultrapassa a distinção do real e do imaginário, daquilo que é e do que não é. Pode-se mesmo dizer que é, por um lado, graças à literatura e à arte, que esta distinção torna-se impossível de se sustentar"

"É da própria natureza da linguagem cortar o dizível em pedaços descontínuos; o nome, ao escolher uma ou várias propriedades do conceito que o constitui, exclui todas as outras propriedades e coloca a antítese deste e de seu contrário"

"(...) a própria literatura. Temos muitas vezes evocado o estatuto paradoxal desta: ela não vive senão daquilo que a linguagem cotidiana chama, por seu lado, de contradições. A literatura assume a antítese entre o verbal e o transversal, entre o real e o irreal"

*Tzvetan Todorov in "Introdução à literatura fantástica". Ed. Perspectiva. SP. 2004.

segunda-feira, 30 de janeiro de 2017

Contradição*


Me contradigo
Sou um louco
Para poucos
Sou somente um oco
Do meu vazio.
Me contradizem
Sou o contrário
Do que pensam
Um fio oposto
Do que dizem.
Sou a lógica
Da minha contradição
O contraditório
Do meu contrário
Sou um otário.
Sou um descrente
Em minha frente
Um anarquista
Das minhas conquistas
Sou somente pistas.
Sou agosto
Mês do cachorro louco
Sou o vento norte
Que desnorteia a mente
Ateu, mas crente
Confuso , confesso.
Sou a soma do que fui
Um sonho do que serei
Serei o que não sou...!!!

*José Mayer
Filósofo. Livreiro. Poeta. Estudante na Casa da Filosofia Clínica
Porto Alegre/RS

domingo, 29 de janeiro de 2017

Fragmentos Filosóficos, Delirantes*


"Aquilo que choca o filósofo virtuoso, deleita o poeta camaleônico. Não causa dano, por sua complacência, no lado sombrio da coisas, nem por seu gosto, no lado luminoso, já que ambos terminam em especulação"

"Um poeta é o menos poético de tudo o que existe, porque lhe falta identidade; continuamente está indo para - e preenchendo - algum outro corpo"

"(...) é o homem esse animal que quer permanecer, o artista busca permanência transferindo-se para sua obra, fazendo-se sua própria obra, e atinge-a na medida em que se torna obra"

"Se o poeta é sempre 'algum outro', sua poesia tende a ser igualmente 'a partir de outra coisa', a encerrar visões multiformes da realidade na recriação singularíssima da palavra"

"Os poetas se compreendem de poema a poema melhor do que em seus encontros pessoais"

"Com Antonin Artaud calou na França uma palavra dilacerada que só esteve pela metade do lado dos vivos enquanto o resto, partindo de uma linguagem inalcançável, invocava e propunha uma realidade vislumbrada nas insônias de Rodez"

"Viver importa mais do que escrever, a não ser que o escrever seja - como tão poucas vezes - um viver"

"O Surrealismo propõe o reconhecimento da realidade como poética"

"O poeta não é um primitivo, mas, sim, esse homem que reconhece e acata as formas primitivas: formas que, olhando-se bem, seria melhor chamar 'primordiais', anteriores à hegemonia racional, e logo subjacentes ao seu famigerado império"

"(...) no coração do homem que não se conformará jamais - se é poeta - com ser somente um homem. Por isso o poeta se sente crescer em sua obra. Cada poema o enriquece em ser. Cada poema é uma armadilha onde cai um novo fragmento da realidade"

"Os acontecimentos do mundo exterior que intervêm nas pausas da leitura modificam, anulam ou rebatem, em maior ou menor grau, as impressões do livro ... O conto breve, ao contrário, permite ao autor desenvolver plenamente seu propósito..."

*Julio Cortázar in "Valise de Cronópio". Ed. Perspectiva. SP. 2013

sábado, 28 de janeiro de 2017

Um dia em Barthes*


“Sem dúvida numa época de minha vida, atravessei uma fase que chamei de fantasia científica.”
Roland Barthes

Barthes sugere-me “trapacear” para podermos ouvir a língua fora do Poder, mas isso é o que procuro no dia a dia, ou seja, ter as condições ideais de jogar com a linguagem. Ter as possibilidades de controlar aquilo que não podemos jamais atar, a produção individual e os sentidos. O resto é domínio. Mas aqui não estou mais nessa arqueologia.

Saber quem domina quem é de menos na reflexão desta manhã, mas de saber o que foi feito dos domínios da razão. Em minha observância teórica e de suas aplicações, percebi que há indícios de um domínio desenfreado pelo culto da ciência, e que outras tentativas de domínio, seja pela espetacularização dos acontecimentos, seja pelas novas mitificações de sentidos vai longe, longe demais. Ainda bem.

Como já dizia Cioran, “os caminhos da crueldade são diversos”, preciso de um pouco de complexidade para arejar as ideias. Ainda ontem, lembrei-me, certa vez, em plena disputa saudável de uma banca de doutorado, eu evocava no texto um conceito “trajetória antropológica”, fui picado pela vespa da racionalidade acadêmica, fui indiciado por usar conceitos ao léu.

Fiquei entre o espaço literário de Blanchot ao ritual daquela cena. Passou. Não me desfiz da trajetória e os caminhos da complexidade me ajudaram na compreensão de muita coisa. A saber, o prazer em voltar a textos clássicos que me faziam sentir excluído do próprio texto. O prazer da leitura, é certo, percorre disciplina, compreensão e dialogia com os textos, com as vozes.

*Prof. Dr. Luis Antonio Paim Gomes
Filósofo. Editor. Livre Pensador.
Porto Alegre/RS

sexta-feira, 27 de janeiro de 2017

O leitor*


Quem pode conhecer esse que o rosto
mergulha de si mesmo em outras vidas,
que só o folhear das páginas corridas
alguma vez atalha a contragosto ?

A própria mãe já não veria o seu
filho nesse diverso ele que agora,
servo da sombra, lê. Presos à hora,
como sabermos quanto se perdeu

antes que ele soerga o olhar pesado
de tudo o que no livro se contém,
com olhos, que, doando, contravém
o mundo já completo e acabado:
como crianças que brincam sozinhas
e súbito descobrem algo a esmo;
mas o rosto, refeito em suas linhas,
nunca mais será o mesmo.  

*Rainer Maria Rilke

quinta-feira, 26 de janeiro de 2017

Des-presença*


Não ser e ser muitos eus
Leveza sem forma
A cada agora um fio de estrelas
Lua sobre o lago
Serenidade oceânica
Num tempo fluido
Caminhante peregrina
Dissolvida na névoa da vastidão

*Rosângela Rossi
Psicoterapeuta. Escritora. Filósofa Clínica
Juiz de Fora/MG

quarta-feira, 25 de janeiro de 2017

Fragmentos Filosóficos, Delirantes*


" (...) a rua tem alma!"

"A rua continua matando substantivos, transformando a significação dos termos, impondo aos dicionários as palavras que inventa, criando o calão que é o patrimônio clássico dos léxicons futuros"

"Para compreender a psicologia da rua não basta gozar-lhe as delícias como se goza o calor do sol e o lirismo do luar. É preciso ter espírito vagabundo, cheio de curiosidades malsãs e os nervos com um perpétuo desejo incompreensível, é preciso ser aquele que chamamos flâneur e praticar o mais interessante dos esportes - a arte de flanar"

"(...) ruas melancólicas, da tristeza dos poetas; ruas de prazer suspeito próximas do centro urbano e como que dele muito afastadas; ruas de paixão romântica, que pedem virgens loiras e luar"

"Qual de vós já passou a noite em claro ouvindo o segredo de cada rua ? Qual de vós já sentiu o mistério, o sono, o vício, as ideias de cada bairro ?"

"(...) são ruas da proximidade do mar, ruas viajadas, com a visão de outros horizontes"

"Se as ruas são entes vivos, as ruas pensam, têm ideias, filosofia e religião. Há ruas inteiramente católicas, ruas protestantes, ruas livres-pensadoras e até ruas sem religião"

"As ruas têm os rolos, as casas mal-assombradas, e há até ruas possessas, com o diabo no corpo"

"Mas a quem não fará sonhar a rua ? A sua influência é fatal na palheta dos pintores, na alma dos poetas, no cérebro das multidões"

*João do Rio in "A alma encantadora das ruas. Ed. Cia de Bolso. SP. 2009.

terça-feira, 24 de janeiro de 2017

Verdes anos*


Vai, folha de minha vida, vai
que o verão não te conhece,
melancólica estação passada.

Voem, folhas de anos verdes,
que o tempo me quer mais tempo
e não me descreveis mais.

Mas as dou para o vento,
quem sabe achadas pelos meninos
nas praias desertas
sejam motivo de curiosidade,
pois para os adultos, desdém.

De que adiantam letras escritas
num mundo de objetos elétricos
que amainam tudo
no ramo das sensações,
se ao coração ninguém quer chegar-se.

*Vânia Dantas
Filósofa Clínica
Uberlândia/MG

segunda-feira, 23 de janeiro de 2017

Vagabundo*


Eu durmo e vivo no sol como um cigano,
Fumando meu cigarro vaporoso,
Nas noites de verão namoro estrela;
Sou pobre, sou mendigo, e sou ditoso!

Ando roto, sem bolsos nem dinheiro;
Mas tenho na viola uma riqueza:
Canto à lua de noite serenatas,
E quem vive de amor não tem pobreza.

Não invejo ninguém, nem ouço a raiva
Nas cavernas do peito, sufocante,
Quando à noite na treva em mim se entornam
Os reflexos do baile fascinante.

Namoro e sou feliz nos meus amores;
Sou garboso e rapaz... Uma criada
Abrasada de amor por um soneto
Já um beijo me deu subindo a escada...

Oito dias lá vão que ando cismado
Na donzela que ali defronte mora.
Ela ao ver-me sorri tão docemente!
Desconfio que a moça me namora!...

Tenho por meu palácio as longas ruas;
Passeio a gosto e durmo sem temores;
Quando bebo, sou rei como um poeta,
E o vinho faz sonhar com os amores.

O degrau das igrejas é meu trono,
Minha pátria é o vento que respiro,
Minha mãe é a luz macilenta,
E a preguiça a mulher por quem suspiro.

Escrevo na parede as minhas rimas,
De painéis a carvão adorno a rua;
Como as aves do céu e as flores puras
Abro meu peito ao sol e durmo à lua.

Sinto-me um coração de lazzaroni;
Sou filho do calor, odeio o frio;
Não creio no diabo nem nos santos...
Rezo à Nossa Senhora, e sou vadio!

Ora, se por aí alguma bela
Bem doirada e amante da preguiça
Quiser a nívea mão unir à minha
Há de achar-me na Sé, domingo, à Missa.

*Álvares de Azevedo (1831-1852) in “Poemas malditos”. Ed. Francisco Alves. RJ. 1988.  

domingo, 22 de janeiro de 2017

Limites do poeta*


Que faria um poeta
Sem certas palavras
Sem as palavras certas
No tempo certo
Que poderia fazer um poeta
Proibindo-se certas palavras?

Mamãe e papai
Me recomendavam:
Amar e ser sincero
Sempre!

"Mas porquê, mamãe e papai,
Devo amar e ser sincero
Sempre?"

Alguém pode fazer ideia
Da falta que faz
A palavra certa na hora incerta
A palavra incerta na hora certa
Nunca diga nada para sempre!

Alguém sabe o tempo que dura um sempre!
Onde é a pousada de um nunca!
O que mora dentro de um nada!
O que permanece, afinal
De tudo isto que muda!

*José Mayer
Filósofo. Poeta. Livreiro. Estudante na Casa da Filosofia Clínica
Porto Alegre/RS

sábado, 21 de janeiro de 2017

Fragmentos Filosóficos, Delirantes*



"Um poema não tem moral; a obra de arte não tem moral. Não ensina qualquer lição específica, nem dá qualquer conselho específico. Em um poema há muitas implicações que enriquecem nossa experiência da vida: mas essa experiência tem vários lados e não se espera que precisemos escolher um deles. A natureza da arte é ilustrada por Dylan Thomas, ao confrontar dois aspectos da natureza, ou por Robert Frost, com um sentido de humor macabro, simulando ensinar uma lição que não quer que aprendamos. Trata-se de explorar as alternativas da ação humana sem chegar a uma decisão sobre elas. Nessa indecisão, feliz e repleta de tensões, e somente nisso, a obra de arte difere profundamente da obra científica"

"O mesmo poema é lido por várias pessoas, e cada uma delas faz dele o 'seu' poema. Assim funciona a imaginação: cada um precisa reimaginar por si mesmo. Dylan Thomas foi o primeiro a imaginar esse poema, ao criá-lo. No entanto, quem quiser compreendê-lo terá que recriá-lo outra vez para si"  

"Essa ideia é estranha, mas fundamental. Não há obra de arte autêntica que dispense a nossa contribuição. Será sempre preciso recriá-la: ela não pode ser apresentada já pronta"

"Na verdade, há muitas razões para dizer que o poder de manipular imagens em situações hipotéticas é uma forma de magia"

"A obra de arte, ao contrário, é essencialmente uma proposição incompleta, que nos é apresentada para que com ela possamos construir nossa própria generalização"

"E depois de ler essa passagem de Gertrude Stein, estilisticamente estranha (como A Rose is a Rose, is a Rose) {Uma rosa é uma rosa, é uma rosa}, ela de repente nos faz perceber que os problemas que a preocupavam só podiam ser expressos daquela forma"

"(...) a história é feita por fanáticos. As pessoas de mentalidade aberta e generosa fazem ciência, poesia ou outra arte produzida pela imaginação. Mas é preciso decidir: quem quer fazer história deve ser como Stalin e Hitler"  

"(...) lembrando Dylan Thomas: 'E não sei como dizer à tempestade                                                   que nas estrelas o tempo criou um paraíso'. (...) Envelhecemos, a vida e o tempo matam-nos um pouco com cada experiência"  

*Jacob Bronowski in "O olho visionário". Editora da UNB. Brasília/DF. 1998.

sexta-feira, 20 de janeiro de 2017

Ilusão*


“Ouvir meras fábulas talvez não seja o programa favorito de vocês – talvez queiram ouvir A VERDADE. Bom, se é isso que vocês querem, então é melhor procurarem outro lugar – mas juro pela minha vida que não posso dizer exatamente que lugar é esse.”  Paul K. Feyerabend

O momento em que começamos a pensar mais e mais sobre o mundo, sobre os mistérios que envolvem um mundo coerente e a incoerência que temos em vivenciá-lo. Todos vivem no mesmo barco, a nau do mundo é a mesma no plano teórico no que concerne ao corpo, na relação do corpo com o mundo. Como proferiu Feyerabend em uma de suas últimas conferências, “Ademais, os cientistas, os senhores da guerra, os esfomeados e os abastados são todos seres humanos”.

Existe uma ponte imaginária nesta minha perspectiva, pois, se estou a pensar em português (ironia da reflexão), é a busca cotidiana de conhecer a natureza do mundo. Não há pretensão nisso, a pior arrogância e delimitar o pensamento em uma representação do pensamento apenas especializado.

Quando nos deparamos, por exemplo, com a dor, quando ficamos dias e dias na insônia, quando a produção diária e a queima de energia é melhor que deitar, é quando penso: estamos num dilema, ou salvamos a razão, ou aprimoramos a vida. Uma maneira básica de começar, quando se chega a meio século, é naturalmente intensificar o movimento, principalmente do corpo.

Mesmo assim somos traídos por uma cultura racional instintiva da modernidade que é o consumo desenfreado. Em todas as áreas e partes misturamos o que é bom e o que é ruim, somos iludidos por nossas ações, mas muitas vezes, nos recuperamos diante do inesperado que sempre aparece, seja, no acordar cedo para ir mover-se na água, na quadra, nas ruas, no campo aberto etc.

Nem estou pensando em Descartes na sua moral em dizer que a realidade está objetivamente em suas causas. Pretérito, meu caro. A reflexão vem sim, distante, de uma melhor descrição coerente de tudo existe. Platão fazia, então, precisamos nos aprimorar sobre o que existe, sempre foi assim, acontece que hoje existem formas de ir por estes caminhos.

Uma alternativa, a circularidade de uma hermenêutica oriental, outros roteiros que possam envolver o corpo e a mente. Não sou adepto do experimentalismo por ser um homem do meu tempo. Adeptos ou não, o mundo bem que podia se conectar de forma mais harmoniosa, mas é tão difícil quando nem mesmo ainda temos a capacidade de recomeçar do nada e fazer as coisas todas num só dia. Depois, voltar a pensar sobre tudo, ou esquecer tudo para não perder o outro dia que está prestes a nos acordar.

*Prof. Dr. Luis Antonio Paim Gomes
Filósofo. Editor. Livre Pensador.
Porto Alegre/RS

quinta-feira, 19 de janeiro de 2017

Tartarugar*


Sem pressa, vivendo a serenata dos pássaros ao amanhecer... uma alegria serena brota da alma. Comunhão com a sacralidade da vida.

O dia nos convida a sermos eternos aprendizes.

No aprender a lidar com materialidade, desapegando dos excessos, contemplando o belo sem desejar possuí-los, trabalhando pelo prazer da realização, cuidando de cada coisa com a delicadeza da gratidão.

No aprender a administrar nosso corpo, mistério sagrado, sem modismos, aceitando nossa natureza sem comparar e desejar ser o que a moda tenta impor, compreendendo com sabedoria que tudo tem seu tempo certo.

No aprender a arte do relacionar, aceitando que cada pessoa é única, com historicidade múltipla, com paciência e muito amor.

Tartarugar é ser Zen. Viver em estado contemplativo, vivendo o que a vida vai oferecendo.
Para viver plenamente só precisamos desaprender...

*Rosângela Rossi
Psicoterapeuta. Escritora. Filósofa Clínica
Juiz de Fora/MG

quarta-feira, 18 de janeiro de 2017

Presença de Clarice*













Meu primeiro encontro com Clarice Lispector foi numa tarde de domingo na casa da escultora Zélia Salgado, em Ipanema, creio que em 1956. Eu havia lido, quando ainda vivia em São Luís, o seu romance "O Lustre", que me deixara impressionado pela atmosfera estranha e envolvente, mas a impressão que me causou sua figura de mulher foi outra: achei-a linda e perturbadora. Nos dias que se seguiram, não conseguia esquecer seus olhos oblíquos, seu rosto de loba com pômulos salientes.

Voltei a encontrá-la, pouco tempo depois, no "Jornal do Brasil", durante uma visita que fez à redação do "Suplemento Dominical". Conversamos e rimos, mas não voltamos a nos ver num espaço de uns dez anos. De fato, só voltei a encontrá-la logo após voltar do exílio, em 1977. Ela ligou para minha casa: queria entrevistar-me para a revista "Fatos e Fotos", para a qual colaborava naquela época.

Clarice já era então uma mulher de quase 60 anos, marcada por acidente que resultara em sérias queimaduras que lhe deixaram marcas na mão direita. Já quase nada tinha da jovialidade de antes, embora continuasse perturbadora em sua natural dramaticidade. Depois de ouvir dela algumas palavras carinhosas, decidi revelar-lhe como me fascinara em nosso primeiro encontro.

-Você era linda, tão linda que saí dali apaixonado.
-Quer dizer que eu "era" linda?
-E ainda é, apressei-me em afirmar..

Terminada a entrevista, despedimo-nos carinhosamente, mas no dia seguinte ela ligou de novo. Queria encontrar-me para conversar. Fui até sua casa, no Leme, e de lá fomos caminhamos até a Fiorentina, que ficava perto.

Lembro-me que Glauber Rocha, vendo-nos ali, veio sentar-se em nossa mesa e começou a elogiar o governo militar. Clarice me olhava para com espanto, sem entender. Ele, depois daquele discurso fora de propósito, mudou de mesa.

-Ele veio provocar você, disse Clarice. Com que intenção falou essas coisas?
-Glauber agora cismou de defender os milicos. É piração.

Depois dessa noite, voltei a vê-la num encontro que ela promoveu em sua casa com alguns amigos, entre os quais Fauzi Arap, José Rubem...

Foi a última vez que a vi. A roda-viva daqueles tempo me arrastou para longe dela, em meio a problemas de toda ordem, crises na família, filhos drogados, clínicas psiquiátricas. De repente, soube que ela havia sido internada num hospital em estado grave. Localizei o hospital, telefonei para o seu quarto e acertei com a pessoa que me atendeu ir visitá-la no dia seguinte. Mas, ao chegar à redação do jornal, antes de sair para a visita, a telefonista me passou um recado: "Clarice pede ao senhor que não vá vê-la no hospital. Deixe para visitá-la quando ela voltar para casa". E se ela não voltasse mais para casa? Dobrei o papel com o recado e guardei-o no bolso, desapontado.

Àquela noite, quando contei o ocorrido a minha mulher, ela explicou: "Clarice, vaidosa como era, não queria que você a visse no estado em que estava". Pode ser, mas, de qualquer forma, até hoje lamento não ter podido vê-la uma última vez.

Dois ou três dias depois do recado, ela morria. Ao sair do banho, pela manhã, alguém me informou: "Clarice Lispector morreu". De viagem marcada para São Paulo, entrei num táxi que me levou pela lagoa Rodrigo de Freitas. Não poderia ir a seu sepultamento. O táxi corria dentro de uma manhã luminosa, enquanto a brisa balançava alegremente os ramos das árvores. Clarice morrera e a natureza o ignorava. No avião, escrevi um poema falando nisso. Que mais poderia fazer?

Alguns meses atrás, quando aceitei fazer a curadoria da exposição sobre ela, no Museu da Língua Portuguesa, todas essas lembranças me acudiram. Ia ser bom voltar a pensar nela, reler seus livros, pois é neles e só neles que é possível reencontrá-la agora e nunca naquele saárico túmulo do Cemitério Israelita do Caju, aonde certo dia, sob sol escaldante, fui, com Cláudia Ahimsa, visitá-la. 

Não havia Clarice nenhuma sob aquela laje de pedra, sem flores. E não havia porque, de fato, o que Clarice efetivamente foi, o que fazia dela uma pessoa única e exasperada, era sua patética entrega ao insondável da existência -e a necessidade de escrever, de tentar incansavelmente dizer o indizível, mas certa de que, ao torná-lo dizível, o dissiparia.

Não obstante, isso era tudo o que valia a pena fazer na vida, conforme afirmou: "Quando não escrevo, estou morta".

*Ferreira Gullar

terça-feira, 17 de janeiro de 2017

Desejos*


Há muito, muito tempo começamos a gestar o micróbio da realidade que temos agora. Os anos calcificaram tanto a percepção até não mais lembrarmos que as agruras enfrentadas são justamente os males um dia pensados, materializados nas condições físicas do entorno ora vil.

Um ditado para isso: “cuidado com o que desejas, pois pode se realizar”. Naquele tempo, não se sabia do “Segredo”, essa geração espontânea a partir do pensamento. E foi-se, dia após dia, não podendo mudar as circunstâncias nem a si mesmo, elaborando pragas e perjúrios, fornecendo substância para o que seria, no meio da jornada, uma pedra oca a guardar a escuridão.

Numa estrada de terra no meio do quase nada, o motorista diz: “Olhe como são as coisas. Quando eu era menino, ficava andando nas estrada no Ceará, andava muito mesmo; de vez em quando, pegava carona e eu pensava – ainda vou dirigir um carro por essa terra toda. E hoje to aqui, sou motorista”. Por isso a gente precisa planejar o que quer. E livrar-se do mal, que é o mesmo pensamento. Se o desejo afetará negativamente alguém, não pode se realizar, ou será magia negra e virá acompanhado sabe-se lá de que outro pesar.

Ocidente maniqueísta. Parece que tudo vindo do oriente é melhor. A noção do uno, somos todos um. Mas quem é que está do lado? De que importa viver com a mínima consideração pelos sofrimentos espalhados pelos caminhos, as joaninhas andando lentamente sobre as plantas, igualmente massacradas pelas crianças que pisam nas lesmas, quando não vítimas de sal.

Pois bem, chega um momento em que cada um que envelhece – caso viva tanto – se torna a lesma com sal e já não se volve solene e flexível sobre a terra. A alimentação por ar ou nutrientes e a excreção lhe serão difíceis e aos poucos seu corpo endurecerá como tábua, precisando de ajuda, que é piedade.

Mas cada década revela a menor importância que cada um tem como gente, enquanto não se transforma em cyborg portador de novidades e distrações continuamente, com uma tela na altura dos olhos. É tempo de se recolher e olhar para dentro.

*Vânia Dantas
Filósofa Clínica
Uberlândia/MG

segunda-feira, 16 de janeiro de 2017

O que faz bem pra saúde?*


Cada semana, uma novidade.
A última foi que pizza previne câncer do esôfago.
Acho a maior graça.
Tomate previne isso, cebola previne aquilo, chocolate faz bem, chocolate faz mal, um cálice diário de vinho não tem problema, qualquer gole de álcool é nocivo, tome água em abundância, mas peraí, não exagere...
Diante desta profusão de descobertas, acho mais seguro não mudar de hábitos.
Sei direitinho o que faz bem e o que faz mal pra minha saúde.
Prazer faz muito bem.
Dormir me deixa 0 km.
Ler um bom livro faz eu me sentir novo em folha.
Viajar me deixa tenso antes de embarcar, mas depois eu rejuvenesço uns cinco anos.
Viagens aéreas não me incham as pernas, me incham o cérebro, volto cheio de idéias.
Brigar me provoca arritmia cardíaca.
Ver pessoas tendo acessos de estupidez me embrulha o estômago.
Testemunhar gente jogando lata de cerveja pela janela do carro me faz perder toda a fé no ser humano.
E telejornais os médicos deveriam proibir - como doem!
Essa história de que sexo faz bem pra pele acho que é conversa, mas mal tenho certeza de que não faz, então, pode-se abusar.
Caminhar faz bem, dançar faz bem, ficar em silêncio quando uma discussão está pegando fogo faz muito bem: você exercita o autocontrole e ainda acorda no outro dia sem se sentir arrependido de nada.
Acordar de manhã arrependido do que disse ou do que fez ontem à noite é prejudicial à saúde.
E passar o resto do dia sem coragem para pedir desculpas, pior ainda.
Não pedir perdão pelas nossas mancadas dá câncer, não há tomate ou muzzarela que previna.
Ir ao cinema, conseguir um lugar central nas fileiras do fundo, não ter ninguém atrapalhando sua visão, nenhum celular tocando e o filme ser espetacular, UAU!
Cinema é melhor pra saúde do que pipoca.
Beijar é melhor do que fumar.
Exercício é melhor do que cirurgia.
Humor é melhor do que rancor.
Amigos são melhores do que gente influente.
Pergunta é melhor do que dúvida.
Tomo pouca água, bebo mais que um cálice de vinho por dia, faz dois meses que não piso na academia, mas tenho dormido bem, trabalhado bastante, encontrado meus amigos, ido ao cinema e confiado que tudo isso pode me levar a uma idade avançada.
Sonhar é melhor do que nada.

*Luis Fernando Veríssimo

domingo, 15 de janeiro de 2017

Limites do poeta*


Que faria um poeta
Sem certas palavras
Sem as palavras certas
No tempo certo
Que poderia fazer um poeta
Proibindo-se certas palavras?
Mamãe e papai
Me recomendavam:
Amar e ser sincero
Sempre!
"Mas porquê, mamãe e papai,
Devo amar e ser sincero
Sempre?"
Alguém pode fazer ideia
Da falta que faz
A palavra certa na hora incerta
A palavra incerta na hora certa
Nunca diga nada para sempre!
Alguém sabe o tempo que dura um sempre!
Onde é a pousada de um nunca!
O que mora dentro de um nada!
O que permanece, afinal
De tudo isto que muda!

*José Mayer
Filósofo. Livreiro. Poeta. Estudante na Casa da Filosofia Clínica

sábado, 14 de janeiro de 2017

Transitórios*

                          
“A poesia se torna (... ) se reduzida à sua essência silenciosa: um andamento e um desdobramento de puras relações, isto é, a mobilidade pura.”
Maurice Blanchot

Entre a ponte e o continente, estamos nos dois lados ao mesmo tempo. Percorremos os caminhos na metáfora da liquidez, o lado mais próximo da salvação é se distanciar das promessas, da segurança garantida que tínhamos sob a égide de um tempo de racionalidade fácil.

O mundo antes de sua liquidez explodiu. Antes mesmo de juntarmos os pedaços, a razão não deixou de espiar o presente com os olhos no futuro, a razão flertou com o lado mais duro da vida. Sempre penso: se sairmos desta armadilha, quantas outras teremos pela frente? A crítica enfurecida da modernidade bem que tentou, demonizou o quanto pode as formas lúdicas de vivenciar e constatar o mundo em movimento.

A socialidade, o vivencial foi resgatado no lúdico, entre a forma e o conteúdo, vieram “baumans” na fluidez dos acontecimentos e das rupturas com verdades eternas. 

Na tradição anárquica e libidinosa do pensamento ocidental, na esteira humanista de pós-iluministas, homens com sensibilidade rara souberam prover-se com o que havia de melhor dos signos, das significações de um tempo em que estar face a face era produto da responsabilidade social para uma responsabilidade que o “eu” e o “nós” nos enredamos em Ato e Vida.

Bauman foi um desses, humanista, homem de pensamento que via no Outro o seu lado mais responsável. Se ver nele mais um igual sem fronteiras. Humanos simplesmente. Precisamos de homens assim, de Bauman na simetria dos significados e das responsabilidades é “que a liberdade do eu ético seja talvez, paradoxalmente, a única liberdade que se veja livre da sombra ubíqua da dependência.”

*Prof. Dr. Luis Antonio Paim Gomes
Filósofo. Editor. Livre Pensador.
Porto Alegre/RS