terça-feira, 28 de fevereiro de 2017

Fragmentos Filosóficos, Delirantes*


"(...) que mais poderia convir à Loucura do que ser o arauto do próprio mérito e fazer ecoar por toda parte os seus próprios louvores ? Quem poderá pintar-me com mais fidelidade do que eu mesma ?"

"(...) os meus progenitores não eram ligados pelo matrimônio (...) Sou filha do prazer e o amor livre presidiu ao meu nascimento. (...) Nasci nas ilhas Fortunadas, (...) Não se sabe, ali, o que sejam o trabalho, a velhice, as doenças. (...) Nascida no meio de tantas delícias, não saudei a luz com o pranto, como quase todos os homens; mas quando fui parida, comecei a rir gostosamente na cara da minha mãe" 

"(...) haverá no mundo coisa mais doce e mais preciosa do que a vida ? E quem, mais do que eu, contribui para a concepção dos mortais ? Nem a lança poderosa de Palas, nem a égide do fulminante Júpiter, nada valem para produzir e propagar o gênero humano"

"Sois todos muito sábios, uma vez que, a meu ver, loucura é o mesmo que sabedoria"

"Quero que me chamem de mentirosa, se não for verdade que os jovens mudam inteiramente de caráter logo que principiam a ficar homens e, orientados pelas lições e pela experiência do mundo, entram na infeliz carreira da sabedoria. Vemos, então, desvanecer-se aos poucos a sua beleza, diminuir a sua vivacidade, desaparecerem aquela simplicidade e aquela candura tão apreciadas. E acaba por extinguir-se neles o natural vigor" 

"O delírio e a loucura não serão, talvez, próprios das crianças ? Que é que, a vosso ver, mais agrada nas crianças ? A falta de juízo. Um menino que falasse e agisse como um adulto não seria um pequeno monstro ?"

"(...) Júpiter, com receio de que a vida do homem se tornasse triste e infeliz, achou conveniente aumentar muito mais a dose das paixões que a da razão (...) relegou a razão para um estreito cantinho da cabeça, deixando todo o resto do corpo presa das desordens e da confusão"

"Todas as coisas são de tal natureza que, quanto mais abundante é a dose de loucura que encerram, tanto maior é o bem que proporcionam aos mortais. Sem alegria, a vida humana nem sequer merece o nome de vida"

"Não haveria, pois, diferença alguma entre os sábios e os loucos, se não fossem mais felizes estes últimos. Sim, porque estes o são por dois motivos: o primeiro é que a felicidade dos loucos não custa nada, bastando um pouquinho de persuasão para formá-la; o segundo é que os meus loucos são felizes mesmo quando estão juntos com muitos outros. Ora, é impossível gozar um bem quando se está sozinho" 

*Erasmo de Rotterdam in "Elogio da loucura". Ed. Abril. 1972. SP.

segunda-feira, 27 de fevereiro de 2017

Poéticas do indizível*


“(...) Graças às sombras, a região intermediária que separa o homem e o mundo é uma região plena, de uma plenitude de densidade ligeira. Essa região intermediária amortece a dialética do ser e do não-ser.”
                       Gaston Bachelard

Uma crença muito antiga aprecia atualizar-se desse enigmático hoje que um dia foi amanhã. Poderia ser o pretérito imperfeito de uma busca ou aquele quase nada onde tudo acontece. Atualização de um dialeto nem sempre dizível, a se alimentar nas fontes inenarráveis, nos paradoxos, nas desleituras criativas.

Seu visar inédito sugere desvãos ao mundo que se queria definitivo. Costuma ser abrigo do acaso na versão do avesso das coisas. Ao referir o encantamento das pequenas devoções, parece traduzir esse texto interminável, por onde a vida escoa seus segredos. Realiza um esboço sobre as tentativas de decifrar um mundo que é mistério por natureza.  
  
A característica de ser imprevisível seria insuportável, não fora a poesia re_significada em lógica delirante. No submundo dos outros é possível reconhecer parte do nosso, isso pode acontecer no elogio, censura, crítica. Essa contradição parece fundamentar uma distância aproximada de cara metade. Assim ódio e paixão podem se reconhecer no mesmo objeto de desejo.

O transbordamento discursivo relata a vida num desses lugares onde os sonhos acontecem. A recriação estética imprecisa sua matéria-prima nas gavetas desmerecidas, na via marginal, no rastro dos rituais exóticos. Ao primeiro olhar, a inexatidão dos rascunhos aponta manuscritos ilegíveis. Há que se conviver em meio às brumas para aprender sua dialética, a trama significativa de um existir absurdo.  

Talvez os papéis existenciais de cada um se ofereçam na percepção de consciência alterada, oferecendo vislumbres sobre os fenômenos ao seu redor, como ousadia retórica a testar o limite das palavras.

Nesse universo subjetivo, inconformado com a definição refém de si mesma, ao deixar entrever sua fonte de originais, se alimenta nas ressonâncias dos ensaios irrefletidos.  

As poéticas do indizível se associam em código próprio. Para desvendar sua arquitetura irreal, reivindicam uma interseção nem sempre cabível a verdade dos consensos. Ao se colocar numa ótica de devaneio e invenção sua decifração percorre os instantes de um discurso que silencia. 

*Hélio Strassburger                                   

domingo, 26 de fevereiro de 2017

Fragmentos Filosóficos, Delirantes*


"O homem sempre é, além de homem, outra coisa: anjo, demônio, fera, deus, fatalidade, história - algo impuro, alheio, 'outro'"

"O artista se debruça sobre a obra e não vê nela senão o seu próprio rosto, que atônito, o contempla. Os heróis modernos são tão ambíguos como a realidade que os sustenta"

"Podemos mudar, ser pedras ou astros, se conhecermos a palavra justa que abre as portas da analogia. O homem mágico está em comunicação constante com o universo, faz parte de uma totalidade na qual se reconhece e sobre a qual pode agir"

"No herói lutam dois mundos, o sobrenatural e o humano"

"O poeta limpa de erros os livros sagrados e escreve inocência onde se lia pecado, liberdade onde estava escrito autoridade, instante onde se gravara eternidade"

"O poeta moderno não tem lugar na sociedade porque efetivamente, não é 'ninguém'. Isso não é uma metáfora: a poesia não existe para a burguesia nem para as massas contemporâneas"

"O programa surrealista - transformar a vida em poesia e provocar assim uma revolução decisiva nos espíritos, nos costumes e na vida social - não é diferente do projeto de Friedrich von Schlegel e seus amigos: tornar poéticas a vida e a sociedade"

"Ser si mesmo é condenar-se à mutilação porque o homem é apetite perpétuo de ser outro"

"O homem é o inacabado, embora seja cabal nessa inconclusão; e por isso faz poemas, imagens, nas quais se realiza e se conclui sem nunca concluir totalmente"

*Octavio Paz in "O arco e a lira". Ed. Cosac Naify. SP. 2012. 

sábado, 25 de fevereiro de 2017

Decifra-me ou te apaixono*


Audácia de pensamentos
És o turbilhão da tempestade em alto mar.
Vento sem direção certa
E troveja. E raios cortam os ares.

E Marte, o deus da guerra,
Vermelho em fogo de dragão.
Decifra-me ou te apaixono:
É o que me fazes.

E montas ciranda de emoções
Pulando em meu coração,
Quebrando o piso com o risco de dizer adeus.

Enxurrada descendo a serra,
Teu ser é maior do que eu imaginava
para o meu, que não é pouco.

*Vânia Dantas
Filósofa Clínica
Uberlândia/MG

sexta-feira, 24 de fevereiro de 2017

Antes do nome*


Não me importa a palavra, esta corriqueira.
Quero é o esplêndido caos de onde emerge a sintaxe,
os sítios escuros onde nasce o “de”, o “aliás”,
o “o”, o “porém” e o “que”, esta incompreensível
muleta que me apoia.

Quem entender a linguagem entende Deus
cujo Filho é Verbo. Morre quem entender.

A palavra é disfarce de uma coisa mais grave, surda-muda,
foi inventada para ser calada.

Em momentos de graça, infrequentíssimos,
se poderá apanhá-la: um peixe vivo com a mão.
Puro susto e terror.

*Adélia Prado 

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2017

A simplicidade da vida*


Há tantos modismos e "tem quê" ...e a vida passa, e nos amarramos em ilusões e frustrações.
Para que?

Daqui a pouco seremos cinzas e perderemos a vida com tantas regras inúteis.

Julgamos, criticamos e deixamos de compreender e aceitar as pessoas em suas singularidades. Amor e compaixão ficam de lado, logo que a pessoa faz diferente do que pensamos ser certo.

Tantos sofrimentos inúteis por apegos e desejos...
Vivemos deprimidos apegados ao ontem que já passou...
Ansiosos e cheios de medo por um amanhã incerto.

O agora que é o único instante de viver se perde e assim a felicidade, que é nossa natureza, se esvai.
... e tudo passa, passarinho...

Deixando apegos, modismos, poder, vaidade, orgulho, raiva de lado... A vida acontece.
São tantas teorias inúteis a nos escravizar.

A vida é simples...

As flores nos dão bom dia, o sol nos aquece e as pessoas nos encantam sendo como são.

Descomplicando o viver agora se torna a poética encantada do existir e pronto!

*Dra. Rosângela Rossi
Psicoterapeuta. Filósofa Clínica. Escritora.
Juiz de Fora/MG

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2017

Fragmentos Filosóficos, Delirantes*


"Quando a mãe do poeta se perguntava onde o poeta fora concebido, apenas três possibilidades eram levadas em consideração: uma noite sobre um banco de praça, uma tarde no apartamento de um pai do poeta, ou uma manhã num lugar romântico dos arredores de Praga"

"(...) foi exatamente na primavera, quando os lilases estavam em flor, que ela foi levada para a maternidade; lá, após algumas horas de sofrimento, o jovem poeta deixou-se escorregar de sua carne sobre o lençol manchado do mundo" 

"Jaromil sabia muito bem (...) que a originalidade do seu universo interior não era resultado de um esforço laborioso mas sim que se exprimia através de tudo o que passava fortuita e maquinalmente pela sua cabeça; que lhe fora dada, como um dom"

"Desde então, acompanhou com muito mais atenção os seus próprios pensamentos e começou a admirá-los. (...) ocorreu-lhe a ideia de que, com a sua morte, o mundo onde vivia deixaria de existir"

"(...) o que há de mais belo nos sonhos, dizia ele, é o encontro improvável de seres e de coisas que não poderiam encontrar-se na vida real"

"(...) porque os versos de Jaromil pareciam-lhe ininteligíveis e pensou consigo mesma que havia nos seus versos mais do que seria capaz de compreender e que, consequentemente, era mãe de uma criança prodígio"

"E nada há mais belo que o momento que antecede à viagem, o instante em que o horizonte de amanhã vem visitar-nos e contar as suas promessas"

"Os mais belos momentos eram aqueles em que um sonho ainda durava, enquanto outro começava a nascer, e no qual ele despertava"

"As horas passadas diante do espelho faziam-no tocar o fundo do desespero: felizmente havia um espelho que o levava até as estrelas. Esse espelho sublime eram os seus versos"

"(...) encontrara uma sociedade de gente onde não era apenas o filho de sua mãe ou um aluno de sua classe, mas onde era ele mesmo. E pensou que alguém só é ele mesmo a partir do momento em que o é entre os outros"

*Milan Kundera in "A vida está em outro lugar". Ed. Círculo do livro. SP. 1973. 

terça-feira, 21 de fevereiro de 2017

Retrato do artista quando coisa*


A maior riqueza
do homem
é sua incompletude.
Nesse ponto
sou abastado.
Palavras que me aceitam
como sou
— eu não aceito.
Não aguento ser apenas
um sujeito que abre
portas, que puxa
válvulas, que olha o
relógio, que compra pão
às 6 da tarde, que vai
lá fora, que aponta lápis,
que vê a uva etc. etc.
Perdoai. Mas eu
preciso ser Outros.
Eu penso
renovar o homem
usando borboletas.

*Manoel de Barros

segunda-feira, 20 de fevereiro de 2017

Sobre o começo de tudo*


Ah, se nós soubéssemos
Daquele lugar comum
De onde todos viemos
Anterior ao Jardim do Éden
Antes da explosão inicial
Aquela poeira cósmica
Útero fecundo da humanidade.
Ah, se nós soubéssemos
De onde todos viemos
Tão singulares e únicos
Tão semelhantes entre nós
E que o que nos une
É bem maior
Daquilo que nos pode separar.
Deve haver um lugar
Uma rachadura na armadura da palavra
Um furo quase mudo no silêncio
Uma brecha na flecha do tempo.
Um tempo, uma linguagem, um silêncio...
Bem antes...
Ou bem depois...

*José Mayer
Filósofo. Livreiro. Poeta. Estudante na Casa da Filosofia Clínica
Porto Alegre/RS

domingo, 19 de fevereiro de 2017

Milagres*


Ora, quem acha que um milagre é alguma coisa de especial?
Por mim, de nada sei que não sejam milagres:
ou ande eu pelas ruas de Manhattan,
ou erga a vista sobre os telhados
na direcção do céu,
ou pise com os pés descalços
bem na franja das águas pela praia,
ou fale durante o dia com uma pessoa a quem amo,
ou vá de noite para a cama com uma pessoa a quem
                                                                                     /amo,
ou à mesa tome assento para jantar com os outros,
ou olhe os desconhecidos na carruagem
de frente para mim,
ou siga as abelhas atarefadas
junto à colmeia antes do meio-dia de verão
ou animais pastando na campina
ou passarinhos ou a maravilha dos insectos no ar,
ou a maravilha de um pôr-de-sol
ou das estrelas cintilando tão quietas e brilhantes,
ou o estranho contorno delicado e leve
da lua nova na primavera,
essas e outras coisas, uma e todas
— para mim são milagres,
umas ligadas às outras
ainda que cada uma bem distinta
e no seu próprio lugar.

Cada momento de luz ou de treva
é para mim um milagre,
milagre cada polegada cúbica de espaço,
cada metro quadrado da superfície da terra
por milagre se estende, cada pé
do interior está apinhado de milagres.

O mar é para mim um milagre sem fim:
os peixes nadando, as pedras,
o movimento das ondas,
os navios que vão com homens dentro
— existirão milagres mais estranhos?

*Walt Whitman

sábado, 18 de fevereiro de 2017

Uma metafísica dos refúgios*



“Deram-me um corpo, só um! Para suportar calado, tantas almas desunidas, que esbarram umas nas outras.”
                             Murilo Mendes

Um íntimo estranhamento chega á superfície na forma de dizer desencontrado. O gesto inseguro, a voz trêmula, a lágrima bailarina, parecem traduzir a indefinição em curso dentro de si. Em nuanças de antigas vivências, a linguagem faz voltar o que parecia esquecido.   

Ao descrever invisibilidades seu olhar insinua um caminho às mil mensagens interditas. A contenção física não fora capaz de desarrumar o caos precursor, aliás, amarrar o corpo serviu para liberar a alma.

O espanto inicial multiplica os acessos a essa nascente. Através das miragens, franjas e detalhes quase imperceptíveis, se descreve num parágrafo maldito. O movimento especulativo se disfarça de realidade para insinuar segredos. Demonstra-se em trajetos pelos labirintos de si mesmo. Assim uma alma exilada em um corpo refém, transcreve um sonho acordando.

As dialéticas do instante denunciam algo inesperado. Desatino e imprecisão a tentar decifrar essas rotas para si mesmo. Talvez a historicidade compartilhada possa adentrar a fronteira onde a pessoa se internou.

Nessa fonte de imprevisibilidades a leitura nem sempre se dá a primeira vista. Os ânimos de excesso podem ser fonte de contágio, um hiato a se refugiar na própria fundamentação. Um dialeto intraduzível permanece grávido de originalidades. Essa fonte onde nasce a palavra, se alimenta do próprio laboratório existencial. 

Anotações à margem do texto dão conta de uma dessintonia com a palavra bendita. As vozes do traço silenciado expressam o indisponível, por onde transitam os ecos da vida antiga. Uma interseção da essência com a existência no teor discursivo delirante. Um convívio assim busca ampliar o velho dicionário da singularidade. Sua decifração, ao rascunhar geografias indeterminadas, escolhe um cúmplice de raridades para se mostrar. 

Sua apresentação esboça uma metafísica dos refúgios. Um lugar onde pensar e dizer se integram. Acontecem na realidade imperfeita do cotidiano. Intencionalidade na estética dos exploradores de amanhãs. Enquanto isso, esse habitante de lugar nenhum, parece referir mais do que se possa entender. 

A periferia de alma nova aprecia oferecer milagres no meio da rua, sugerir um logos nem sempre conhecível à primeira vista. Quando uma pessoa se coloca a pensar, numa perspectiva desajustada, modifica-se e desarruma o mundo inteiro ao seu redor. Interseção sensível a reivindicar, em seus rumores, a pessoa sem maquiagem. Reminiscências onde dizer e desdizer integram seus paradoxos. 

Ao perseguir uma poética da descontinuidade, é fundamental o inacabamento das coisas. A língua desconhecida desses prefácios sugere a incompletude em busca de preenchimento. Um desses lugares onde a loucura de toda lucidez se apresenta na equivocidade de ser sempre a mesma.

*Hélio Strassburger 

sexta-feira, 17 de fevereiro de 2017

Fragmentos Filosóficos, Delirantes*


"Ivan Dmitritch sabia muito bem que eles haviam chegado ali para reformar o fogão na cozinha, mas o medo sugeriu-lhe que eram policiais disfarçados de limpa-chaminés"

"O Dr. Andréi Iefimitch, (...) receitou compressas frias na testa e gotas de louro e cereja, balançou tristonho a cabeça e saiu, dizendo à senhoria que não voltaria mais, pois não se devia impedir as pessoas de perder o juízo"

"(...) centenas de loucos passeiam em liberdade, porque a ignorância de vocês é incapaz de distingui-los dos sãos. Por que então eu e estes infelizes devemos ficar aqui, por todos, como bodes expiatórios ? O senhor, o enfermeiro, o vigia e toda esta canalha de hospital está, no sentido moral, muito abaixo de cada um de nós, por que então nós estamos aqui, e não vocês ? Onde está a lógica ?"

"(...) quando, num futuro distante, tiverem terminado sua existência as prisões e os manicômios, não existirão grades nas janelas, nem roupões de internados. Está claro que essa época chegará cedo ou tarde"

"Numa obra de Dostoiévski ou de Voltaire alguém diz que, se Deus não existisse, seria inventado pelos homens. E eu creio profundamente que, se a imortalidade não existe, será inventada cedo ou tarde por uma grande inteligência humana"

"O pensamento livre e profundo, que procura compreender racionalmente a vida, e um desprezo absoluto às vaidades estúpidas do mundo - eis os dois bens mais elevados que o homem jamais conheceu. E o senhor pode possuí-los, ainda que viva atrás de três grades, Diógenes viveu num barril, embora fosse mais feliz que todos os reis da terra"

"A tranquilidade e a satisfação do homem não estão fora, mas dentro dele"

"Um homem comum espera de fora o bom e o mau, isto é, da carruagem e do escritório, e quem pensa, de si mesmo"

"Saindo da prefeitura, o Dr. Andréi Iefímitch compreendeu que fora examinado por uma comissão, encarregada de verificar o seu estado mental. Lembrou-se das perguntas que lhe foram feitas, corou e por alguma razão, pela primeira vez na vida, teve uma pena profunda da medicina"

*Anton P. Tchekhov in "O Beijo e outras histórias. Enfermaria n. 6". Ed. 34. SP. 2006.

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2017

Silêncio da letra*

          
Cansei dos teus olhos,
de tua voz, a duração deste momento,
o movimento faz o tempo durar o sempre na imagem.

O breviário do solitário é catar os dias, então, do previsível, da atitude dos versos, a métrica é o fluxo do pensamento: e o silêncio fascina.

Morrerei em Paris como César Vallejo e Celan.

O Sena que lava a textura do tecido,
palavras entre as pernas abrem-se às manhãs da cidade.

A poesia nasce da algaravia, da alma perdida, morrer em águas turvas.
O silêncio abre-se coberto de tardes tristes,
um beijo na beleza incessante dos olhos esquecidos dos
os amantes  que não se cansam de partir.

O silêncio fascina sobre o escrito.

*Prof. Dr. Luis Antonio Paim Gomes
Filósofo. Editor. Livre Pensador
Porto Alegre/RS

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2017

Fragmentos Filosóficos, Delirantes*


"(...) a percepção é apenas um início de ciência ainda confusa. A relação da percepção com a ciência é a mesma da aparência com a realidade. Nossa dignidade é nos entregarmos à inteligência, que será o único elemento a nos revelar a verdade do mundo"

"(...) a física da relatividade confirmar que a objetividade absoluta e definitiva é um sonho ao nos mostrar cada observação rigorosamente dependente da posição do observador, inseparável de sua situação, e ao rejeitar a ideia de um observador absoluto"

"Isso em nada diminui a necessidade da pesquisa científica e combate apenas o dogmatismo de uma ciência que se considerasse o saber absoluto e total"

"As coisas não são, portanto, simples objetos neutros que contemplaríamos diante de nós; cada uma delas simboliza e evoca para nós uma certa conduta, provoca de nossa parte reações favoráveis ou desfavoráveis, e é por isso que os gostos de um homem, seu caráter, a atitude que assumiu em relação ao mundo e ao ser exterior são lidos nos objetos que ele escolheu para ter à sua volta, nas cores que prefere, nos lugares onde aprecia passear"

"Voltamos a ficar atentos ao espaço onde nos situamos e que só é considerado segundo uma perspectiva limitada, a nossa, mas que é também nossa residência e com o qual mantemos relações carnais - redescobrimos em cada coisa um certo estilo de ser que a torna um espelho das condutas humanas"

"Só sentimos que existimos depois de já ter entrado em contato com os outros, e nossa reflexão é sempre um retorno a nós mesmos que, aliás, deve muito à nossa frequentação do outro"

"O que aprendemos de fato ao considerar o mundo da percepção ? Aprendemos que nesse mundo é impossível separar as coisas de sua maneira de aparecer"

"Quando nos falam de obra clássica como uma obra acabada, devemos lembrar-nos que Leonardo da Vinci e muitos outros deixavam obras inacabadas, Balzac considerava indefinível o famoso ponto de maturidade de uma obra e admitia que, a rigor, o trabalho, que sempre poderia ser prosseguido, só é interrompido para deixar alguma clareza à obra, que Cézanne, que considerava toda a sua pintura como uma aproximação do que ele buscava, fornece-nos contudo, mais de uma vez, o sentimento de acabamento ou de perfeição"

*Merleau-Ponty in "Conversas - 1948". Ed. Martins Fontes. SP. 2004.

terça-feira, 14 de fevereiro de 2017

Fragmentos Filosóficos, Delirantes*


"O conteúdo do espírito se revela tão somente na sua manifestação; a forma ideal é reconhecida somente na e pela totalidade dos signos sensoriais dos quais se serve para expressar-se"

"(..) o processo da formação da linguagem mostra como, para nós, o caos das impressões imediatas somente passa a se aclarar e articular no momento em que lhe 'damos nome', permeando-o, assim, com a função do pensamento linguístico e da expressão linguística"

"Porque cada 'reprodução' do conteúdo já encerra um novo estágio da 'reflexão'"

"(...) cada particularidade faz parte de um determinado complexo e expressa em si mesma a regra deste complexo"

"A concepção mítica da linguagem, que em toda parte precede a filosófica, caracteriza-se sempre por esta indiferença entre palavra e coisa. Para ela, a essência de cada coisa está contida no seu nome. Efeitos mágicos se vinculam de maneira mediata à palavra e à sua posse"

"A obra de um verdadeiro poeta é e sempre será intraduzível"

"Mas estes conceitos somente podem cumprir a tarefa que lhes cabe porque se mantêm, de acordo com a sua estrutura geral, em uma região média ideal e própria, e porque eles, precisamente por sua aderência à forma da expressão sensível, progressivamente conferem ao sensível um conteúdo espiritual e o transformam em um símbolo do espiritual"

"Se o caminho percorrido pela linguagem é, portanto, o caminho que conduz à determinação, pode-se presumir que esta haverá de surgir e se configurar progressiva e continuamente a partir de um estágio de relativa indeterminação"

"(...) confirma-se aqui o mesmo princípio dialético do progresso: quanto mais profundamente a linguagem, no seu desenvolvimento, parece imersa na expressão das coisas sensíveis, tanto mais ela se torna, assim, o meio que permite o processo da libertação espiritual das próprias coisas sensíveis"

*  Ernst Cassirer in "A filosofia das formas simbólicas" Ed. Martins Fontes. SP. 2001.

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2017

Não entendi. Sinto muito.*


Pessoas que terminam frases com a pergunta “não é?” me intrigam. Sempre quis saber como funciona a mente destas criaturas.

Quando Pedro diz que segunda feira é o pior dia da semana, e,  em seguida, me interroga com o detestável “não é?”, na prática, efetivamente está esperando minha confirmação para avançar com a conversação.  Precisa de cumplicidade e aprovação para continuar o raciocínio. Por que a cada duas ou três frases estas pessoas precisam de um apoio, uma base para suas falas?

Geralmente não nos dão tempo para responder, mas é assim mesmo que funciona o jogo. Ao falar o "não é", encaram-nos firmemente, constrangendo-nos e, meio que sem jeito, educadamente balançamos afirmativamente a cabeça, piscamos ou baixamos os olhos. Já é o bastante para que concluam que concordamos e prossigam seu falatório. Na verdade, não querem escutar nossa resposta, precisam apenas de um sinal verde para ir em frente com seu discurso. 

Se para eles funciona como sinal verde, para mim, cada “não é” atua como um quebra molas, retardando e atrapalhando meu discernimento. Já me dei o trabalho de contar,  durante uma palestra, quarenta e sete “não é”s em uma hora de conversa. Dependendo da insegurança de quem fala, a distância entre um “não é” e o próximo, pode ser menor que um minuto. E o pior, eles não se dão conta que repetem e reforçam a pergunta insistentemente.

Em uma crise de impaciência, depois de ouvir algumas dezenas de "não é"s, experimentei balançar negativamente a cabeça. Não recomendo, cada agitação indeferindo um "não é" funciona como um sinal vermelho, as pessoas param imediatamente ou claramente se perturbam no discurso. Interessante notar também que, quando se expressam de forma escrita, não utilizam esta muleta de apoio. O “não é” desaparece, talvez porque a insegurança ou timidez atemorizem apenas no modo falar, mas isto é apenas uma hipótese..

Descobri um parente próximo do “não é”. São aquelas pessoas que terminam as frases perguntando “entendeu?”. A primeira vista, parecem perguntas parecidas, mas não são. Estas últimas são mais sofisticadas. A cada “entendeu” dito, subliminarmente querem nos fazer sentir que não estamos conseguindo acompanhar seu argumento, seja em velocidade ou conteúdo. Provavelmente julgam-nos desqualificados, incompetentes ou incapacitados para seguí-los, precisando parar e aguardar até que os alcancemos. A frequência do "entendeu" pode depender do nivel cultural do ouvinte, mas geralmente é diretamente proporcional ao tamanho do ego e da ansiedade de quem fala.

É compreensível que um médico, depois de explicar o tratamento ao paciente, pergunte se o mesmo entendeu as instruções fornecidas, a letra do receituário, os efeitos colaterais dos medicamentos. Minha experiência mostra que grande parte não entende, mas por vergonha de admitir sua ignorância, confirmam que compreenderam, vão para casa e fazem tudo errado. Estas simulações de entendimento para evitar constrangimentos acontecem em várias profissões e situações de vida.

Juliana terminou o relacionamento com o seguinte diálogo-monólogo:
- Nos conhecemos em dezembro do ano passado, não é? pausa de dois segundos.
- Logo nos apaixonamos e curtimos aquilo que se chama de amor de verão. Foi ótimo, mas quando chegou o outono, o amor desapareceu, entendeu? pausa de 2 segundos.
- Passamos a perceber nossas diferenças, começamos a discutir a relação, não conseguíamos mais ficar juntos, não é? mais uma pausa de dois segundos.
- Então você decidiu que seria melhor darmos um tempo e foi viajar para a Europa. Ao invés de nossa relação melhorar com a distância e o tempo, a verdade é que ela esfriou no inverno, entendeu? pausa um pouco maior, quatro segundos.
- Sei que você está indeciso, não é? sem pausa.
- Não posso mais ficar nesta situação, entendeu? sem pausa
- Preciso ficar mais tranquila, mais segura, e você não está me ajudando, entendeu?

O namorado não teve oportunidade de esboçar uma única palavra, apenas chorava. Não entendeu o que era amor de verão, o que o outono tinha a ver com o amor, as diferenças que surgiram. Nada dito fazia sentido, apenas as lágrimas que lhe saiam dos olhos significavam, pois entender não é uma questão de inteligência, e sim de sentimento. Ele entendia o olhar frio, o tom de voz ácido, a distância que se impunha, mas as palavras fugiam a sua compreensão. Sentia muito, não entendia bulhufas. Tinha medo de começar a entender e deixar de sentir. Preferiu fingir que entendeu para não mais sofrer, sabia que viver ultrapassava qualquer entendimento.

A impressão que fica, é que se você entender e concordar com estas pessoas, tudo terá uma explicação lógica e elas ficarão bem. Não entendo guerra,  traição,  injustiça, hipocrisias que me são empurradas garganta abaixo, bem como vários "entendeu"s engolidos para conviver em sociedade.  Não entendo, não concordo, mas sinto.  Sinto muito por tudo isto. Como dizia Mercedes Sosa, só peço a Deus que não me deixe indiferente. Entender,  até abro mão.

*Ildo Meyer
Médico. Escritor. Filósofo Clínico
Porto Alegre/RS 

domingo, 12 de fevereiro de 2017

Fragmentos Filosóficos, Delirantes*


"O mundo é a minha representação (...) Possui então a inteira certeza de não conhecer nem um sol nem uma terra, mas apenas olhos que vêem este sol, mãos que tocam esta terra; em uma palavra, ele sabe que o mundo que o cerca existe apenas como representação, na sua relação com um ser que percebe, que é o próprio homem"

"(...) esta realidade é, portanto, puramente relativa"

"O mundo como representação, o único que nos ocupa aqui, apenas existe, falando com exatidão, a partir do dia em que se abrem os primeiros olhos; com efeito, ele só poderia sair do nada em que estava mergulhado por meio do conhecimento"

"(...) Foi daí que saiu esse velho erro, de que não há nada de perfeitamente verdadeiro senão aquilo que é provado, e que toda verdade assenta incomprovada, que é o próprio fundamento da prova, ou das provas da prova"

"A peculiaridade da filosofia é que ela não pressupõe nada de conhecido, mas que, pelo contrário, tudo lhe é igualmente estranho e problemático, não só as relações dos fenômenos, mas os próprios fenômenos"

"Lembrando Zenão: 'para chegar ao supremo bem, isto é, à felicidade, ao repouso do espírito, é preciso viver de acordo consigo mesmo'"

"Fenômeno significa representação, e mais nada; e toda representação, todo objeto é fenômeno (...). A vontade é a substância íntima, o núcleo tanto de toda coisa particular, como do conjunto; é ela que se manifesta na força natural cega; ela encontra-se na conduta racional do homem; se as duas diferem tão profundamente, é em grau e não em essência"

"(...) a vontade que consideramos como o que há de mais íntimo na nossa essência, vem principalmente do contraste que se nota entre o caráter de determinação de uns e a aparência de livre-arbítrio que se encontra no outro, visto que, no homem, a individualidade sobressai poderosamente: em cada um tem o seu caráter próprio; é por isso que o mesmo motivo não tem o mesmo poder sobre todos, e mil circunstancias que têm lugar na vasta esfera de conhecimento do indivíduo, e permanecem desconhecidos para os outros, modificam a sua ação"

"(...) grande ensinamento de Kant, que o tempo, o espaço e a causalidade não pertencem à coisa em si, mas apenas ao seu fenômeno; que apenas são formas do nosso conhecimento, e não atributos essenciais da coisa em si"

"(...) a vontade manifesta-se unicamente como aquilo que constitui o mundo, abstraindo da representação; foi então que, segundo esta noção, demos ao mundo, considerando como representação, o seguinte nome, que corresponde tanto ao seu conjunto como às suas partes: a objetividade da vontade, que significa: a vontade tornada objeto, isto é, representação"  

*Arthur Schopenhauer in "O mundo como vontade e representação". Ed. Contraponto. RJ. 2001. 

sábado, 11 de fevereiro de 2017

Caminho do meio*


De um lado a montanha,
morada dos deuses.
Do outro lado o vale,
lagos, riachos e animais.
No caminho do meio o homem
a trilhar peregrino no existir.
Observador aprendiz,
passo a passo, experimenta
a sacralidade do viver.

*Dra Rosângela Rossi
Psicoterapeuta. Escritora. Filósofa Clínica.
Juiz de Fora/MG

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2017

Fragmentos Filosóficos, Delirantes*


"Até que ponto não é a minha mão que sente dor, e sim eu na minha mão ?"

"A língua é um labirinto de caminhos. Você vem de um lado, e se sente por dentro; você vem de outro lado para o mesmo lugar, e já não se sente mais por dentro"

"Não existe um método em filosofia, o que existe são métodos, por assim dizer, diferentes terapias"

"Acredita-se estar indo sempre de novo atrás da natureza, e vai-se apenas ao longo da forma pela qual nós a contemplamos"

"Uma imagem mantinha-nos prisioneiros. E não podíamos escapar, pois ela residia em nossa linguagem, e esta parecia repeti-la para nós, inexoravelmente"

"Pode-se dizer que o conceito 'jogo' é um conceito de contornos imprecisos. - 'Mas um conceito impreciso é, por acaso, um conceito ?' - Uma fotografia desfocada é, por acaso, o retrato de um apessoa ? Bem, pode-se substituir sempre com vantagem um retrato desfocado por um nítido ? Frequentes vezes não é o retrato desfocado precisamente aquilo de que mais precisamos?  

"O significado de uma palavra é seu uso na linguagem"

"Podemos ver nossa linguagem como uma velha cidade: uma rede de ruelas e praças, casas velhas e novas, e casas com remendos de épocas diferentes; e isto tudo circundado por uma grande quantidade de novos bairros, com ruas retas e regulares e com casas uniformes"

*Ludwig Wittgenstein in "Investigações Filosóficas". Ed. Vozes. Petrópolis/RJ. 1996.

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2017

Medos*


Algumas coisas me fazem escrever. Outras trancam a minha escrita.

Sempre tive medos. Medos de não ser aceito. De não ter aonde morar e dormir. De não ter o que comer e vestir. Tive medos de amar demais, De amar de menos. De não conseguir mais amar. E de não conseguir mais me deixar amar. Do silêncio dos outros. E do olhar, que percebia, era lançado sobre mim. Medo do "não" que não me diziam. E que me chocava, quando de surpresa caía sobre mim. Os nãos que eu me dizia já eram suficientemente excessivos

Quando criança , brincava com os presentes que eu não ganhava. Então, entrava dentro de mim mesmo e brincava com as coisinhas que habitavam dentro de mim. E aprendi a brincar com os meus pensamentos. Hoje, ainda, tenho um certo medo do que as pessoas pensam que passa pelos meus pensamentos. Nada maior ou menor, nem melhor ou pior, do que o que passa nos pensamentos de tantos...

Evito o máximo os conflitos e confrontos. Detesto brigas ou discussões. Do mesmo jeito que detesto o silêncio mudo das coisas que deveriam ser ditas. A última me faz mais mal. E me faz escrever. Ou tranca a minha escrita.

Nunca tive medo da dor física. Pelos menos em mim.

*José Mayer
Filósofo. Livreiro. Estudante na Casa da Filosofia Clínica
Porto Alegre/RS