sexta-feira, 31 de março de 2017

Fragmentos Filosóficos, Delirantes*


"Feitiçaria é o mundo onde as palavras têm poder. O feiticeiro fala e a palavra, sem o auxílio das mãos realiza o que diz. Deus diz 'Paraíso', e um jardim de delícias aparece. A bruxa diz 'Sapo!', e o príncipe se transforma em sapo"

"O mundo humano é construído com palavras. Como dizem os textos sagrados: 'No princípio de todas as coisas está a palavra...' E, à semelhança da aranha, é dentro do corpo que a palavra é gerada. É ali, no caldeirão mágico do corpo, que se processa a transformação alquímica de palavras em carne"

"Cada conclusão faz parar o pensamento. Como nos livros de Agatha Christie: resolvido o crime, nada sobra em que pensar. E não adianta ler o livro de novo. Quando o pensamento aparece assassinado, pode-se ter a certeza de que o criminoso foi uma conclusão"

"A etiqueta da ciência. Sua primeira regra é que só devem ser comidas palavras solidamente enraizadas nas coisas. Ao cientista é interditado gozar a palavra, pelo simples prazer que ela contém. Na verdade, ele afirma que o prazer estraga a refeição. Ele não acredita no testemunho de seu corpo, no prazer da boca, na alegria do nariz"

"'A ciência normal', diz T.S. Kuhn, "não procura nem novidades de fato nem de teoria. Quando é bem sucedida, ela não encontra novidades"

"Ensinar é mapear o mundo, fazer visíveis, pelo poder da palavra, os lugares desconhecidos. 'Minha linguagem denota os limites de meu mundo', dizia Wittgenstein..."

"Os gregos sabiam que a verdade mora na escuridão: os que vêem são cegos, e somente os cegos podem ver. Aqueles que possuem bons olhos e são sóbrios não podem"

"Palavras de ordem não toleram as brumas, pois é lá que moram os sonhos. Luminosidade total para tornar impossível sonhar. Pois os sonhos são testemunhos de que a alma se recusa a se tornar um pássaro engaiolado"

*Rubem Alves in "Lições de feitiçaria - meditações sobre a poesia". Ed. Loyola. SP. 2003.  

quinta-feira, 30 de março de 2017

Existência invisível*



Quando se davam conta
Do lugar onde estavam
Já tinham ido embora...
Morava alguma coisa
Estranha dentro dela
Alguma coisa havia
Que não era ela
Ela queria esquecer
Mas não se lembrava
Ao certo o que era
E isto era terrível !
Ele fechava os olhos
Para ver o que não sabia
Sentia-se invisível
Duvidava da sua existência
Uma sensação esquisita
De que as pessoas
Não o enxergavam
E isto era terrível !

*José Mayer
Filósofo. Poeta. Livreiro. Estudante na Casa da Filosofia Clínica
Porto Alegre/RS

quarta-feira, 29 de março de 2017

Noções*


Entre mim e mim, há vastidões bastantes
para a navegação dos meus desejos afligidos.

Descem pela água minhas naves revestidas de espelhos.
Cada lâmina arrisca um olhar, e investiga o elemento que a atinge.

Mas, nesta aventura do sonho exposto à correnteza,
só recolho o gosto infinito das respostas que não se encontram.

Virei-me sobre a minha própria existência, e contemplei-a
Minha virtude era esta errância por mares contraditórios,
e este abandono para além da felicidade e da beleza.

Ó meu Deus, isto é a minha alma:
qualquer coisa que flutua sobre este corpo efêmero e
precário, como o vento largo do oceano sobre a areia passiva e inúmera...

*Cecília Meireles

terça-feira, 28 de março de 2017

Fragmentos Filosóficos, Delirantes*


"(...) o labirinto é evidente símbolo de perplexidade e a perplexidade fora uma das emoções mais comuns da sua vida, a reação diante de muitos atos e decisões que lhe pareciam inexplicáveis"

"Meu primeiro conhecimento das coisas veio sempre dos livros, antes que do contato real com elas"

"(...) Outra aquisição dos últimos anos de ensino médio genebrino foi Schopenhauer, de quem admirou O mundo como vontade e representação. Sempre achou que, se fosse possível expressar o universo em palavras e pudesse algum livro servir de plano, tal livro seria o de Schopenhauer"   

"Apaixonava-o a mitologia sensual do submundo"

"(...) apaixonou-o uma Buenos Aires que logo deixaria de existir, relegada ao esquecimento pelo progresso. E Borges, deslumbrado, saiu a descobrir a cidade"

"Desejava fazer poemas essenciais, para além do aqui e agora, livres de cor local e das circunstâncias cotidianas"

"As ruas de Buenos Aires - são-me já as entranhas da alma"

"(...) o poeta volta a uma constante em sua poesia e em sua prosa: o mundo real é ilusório; o verdadeiro é o outro, o dos sonhos, o que aparece nos espelhos"

"Borges que se obstinou em buscar as memórias primeiras, conquanto, em verdade, a depressiva 'imemória' paterna o tivesse instalado para sempre num mundo em que a realidade e a ficção não se distinguem; mundo de dupla participação e interação do real e irreal"

"Em 'A biblioteca de babel' estão presentes dois autores muito caros a Borges: Gustav Meyrink e Kafka; ambos se regozijam em manipular absurdos" 

*María Eshter Vázquez in "Jorge Luis Borges - Esplendor e derrota. Uma biografia". Ed. Record. RJ. 1999.

segunda-feira, 27 de março de 2017

Da coleção de contos "As mulheres que não fui"*


Daliza se formou na leitura das revistas de 1950, na linha do Clube das Moças e nos filmes da sessão da tarde que padronizavam o romantismo, com Fred Astaire, Elvis e o humor inocente de Jerry Lewis. Assim, era velho seu nascimento cultural, um óvulo desabrochando num corpo mignon. Palavra antiquada, agora gostam mesmo é de picanha, vitelas com gordura pouca, só para dar o charme da sedução visual.

Estava ligada ao movimento lascivo da vida instintiva por poucos fios... pena que ela não se alimentava de verduras, carnes e carboidratos como os seres normais. Pensava num tanto de preocupações sobre isso, os efeitos da vida medicamentosa para os órgãos.. mas... é a vida que conseguia ter, e os desdobramentos ela sempre pagava.

Às vezes se sentia a moça casamenteira, ao estilo da sobrinha em "Meu amigo Harvey". Daliza era uma musa pin up. Tinha a leveza das panquecas com espessura de papel; diria que ela seria uma geleia de pêssego, se gostasse de doces. Deles só saboreava os cheiros: a volúpia dos figos, mesmo que frescos, com pistilos abertos, se deflorando quando pressionados com os dedos. A tez do pêssego mesmo, com o odor das festas de fim de ano. A visão dos morangos q têm sementes na casca fina. A explosão das jabuticabas numa surpresa, mais doce ou amarga.

Daliza tinha que se enganar para comer. Até parece que o estômago estava caminhando por aí e vez por outra voltava, ébrio reclamando. Realmente, uma parceira para Macabéa, de Clarice. Quem sabe se nutrir de sol daria algum resultado na sua opacidade? Aparentemente, o ar pequeno que entrava era suficiente. Desse modo, sua vida era sutil, como se se desprendesse constantemente para a quarta dimensão e tocasse nela através dos aromas.

*Vania Dantas
Filósofa Clínica
Uberlândia/MG

domingo, 26 de março de 2017

A perfeição*


O que me tranquiliza
é que tudo o que existe,
existe com uma precisão absoluta.

O que for do tamanho de uma cabeça de alfinete
não transborda nem uma fração de milímetro
além do tamanho de uma cabeça de alfinete.

Tudo o que existe é de uma grande exatidão.
Pena é que a maior parte do que existe
com essa exatidão
nos é tecnicamente invisível.

O bom é que a verdade chega a nós
como um sentido secreto das coisas.

Nós terminamos adivinhando, confusos,
a perfeição.

*Clarice Lispector

sábado, 25 de março de 2017

Ditirambos*


Existe uma lógica superlativa em meio às façanhas usuais. Não fora seu ser extraordinário a desalojar cotidianos, poderia acessar, com mais facilidade, a epistemologia das coisas ao seu redor. Sua encenação de caráter imperfeito escolhe a vertigem para traduzir amanhãs.

Um inusitado cio criativo, de essência exploratória, realiza festejos para representar mesclas de exclusão e integração. Sua essência Dionisíaca sugere uma nova página às promessas de um para sempre. Seu jogo de cena inventa linguagens para redesenhar a vida acontecendo.

Essa dança de consciência alterada ensaia rupturas ao padrão existencial. Sua expressividade é das ruas, praças, teatros, diante do espelho. Seu êxtase menciona um lugar quase esquecido, recém chegando pelo deslocamento fora de si.

Num estado diferenciado a existência se encontra com sua irrealidade, rascunha novas proposições. Ao surgir em retórica dançarina, o fenômeno ditirambo prescreve eventos de paixão desarrazoada. Em trânsitos de agonia e êxtase se oferece uma desconstrução avassaladora. Um tempo e lugar onde o sujeito mobiliza forças para descrever-se numa língua intermediária.

Assim, não sendo apenas um ou outro, poderá surgir como transbordamento. Sua essência de ser avesso se apresenta como esteticidade. A disponibilidade em soltar a voz, balançar o corpo, sacudir a alma, refaz um território singular. Interseção das coreografias e adereços com o palco imaginário de todo lugar. 

A peça de ficção da irregularidade narrativa aponta suas mensagens. Seu ímpeto criativo, ao manifestar silêncios refugiados, aprecia emancipar memórias esquecidas. Reconhece e atua sobre as origens da inspiração. O fenômeno ditirambo aprecia gerar a própria gravidez.

Seu cenário de preliminares é a confusão de possibilidades existenciais. Um desses pontos de encontro onde o canto, a dança, o teatro insinuam vontades desconhecidas. Ao deslizar das formas conhecidas, recria experimentos, descreve seus inéditos. Numa lógica delirante rascunha pretextos de transgressão ao paradoxo realidade_ficção. Sua lírica propicia uma comunicação sem palavras. Versão onde o sujeito se desloca em alegorias para sonhar o paraíso.

*Hélio Strassburger
Filósofo Clínico

sexta-feira, 24 de março de 2017

Fragmentos Filosóficos, Delirantes*


"Temos tanta necessidade das lições de uma vida que começa, de uma alma que desabrocha, de um espírito que se abre"

"Ver e mostrar estão fenomenologicamente em violenta antítese"

"Não é também no devaneio que o homem se mostra mais fiel a si mesmo ?"

"(...) o psicanalista pensa demais. E não sonha o bastante. Ao pretender explicar o fundo do nosso ser por resíduos que a vida diurna deposita na superfície, ele oblitera em nós o sentido do abismo. Em nossas cavernas, quem nos ajudará a descer ? Quem nos ajudará a reencontrar, a reconhecer, a conhecer o nosso ser duplo, que, de uma noite para outra, nos guarda na existência, esse sonâmbulo que não caminha nas estradas da vida, mas que desce, sempre e sempre, em busca de jazidas imemoriais ?" 

"(...) Os grandes sonhadores são mestres da consciência cintilante. Uma espécie de cogito múltiplo se renova no mundo fechado de um poema. Por certo serão necessários outros poderes conscienciais para se tomar posse da totalidade do pema"

"O devaneio poético é sempre novo diante do objeto ao qual se liga. De um devaneio a outro, o objeto já não é o mesmo; ele se renova, e esse movimento é uma renovação do sonhador"

"Que importam para nós, filósofo do sonho, os desmentidos do homem que reencontra, após o sonho, os objetos e os homens ? O devaneio foi um estado real, em que pesem as ilusões denunciadas depois. E estou certo de que fui eu o sonhador. Eu estava lá quando todas essas coisas lindas estavam presentes no meu devaneio. Essas ilusões foram belas, portanto benéficas. A expressão poética adquirida no devaneio aumenta a riqueza da língua"

"Que convite para sonhar o que vemos e o que somos! O cogito do sonhador se desloca e vai emprestar o seu ser às coisas, aos ruídos, aos perfumes. Quem existe ? Que distensão para a nossa própria existência"

*Gaston Bachelard in "A poética do devaneio". Ed. Martins Fontes. SP. 2001.

quinta-feira, 23 de março de 2017

O outono e a harmonia*


Outono chegou trazendo seus ventos e derrubando as lindas folhas de múltiplos matizes coloridos. Convidando a transformação. Fazendo nossa pele arrepiar e nossa alma se aquietar.

Outono chegou no tempo do relógio cósmico da harmonia. No tomar o chá e ouvir Beethoven. No pegar os pincéis e pintar os caminhos.

Sinto-me aconchegada por esta estação das rugas e cabelos brancos encaracolados. Estação do "não ter que". Da sabedoria das coisas simples. Do olho no olho e das amizades eternas.

Entro junto com o outono e convido você a caminhar comigo neste tempo sagrado a recitar o poema do existir e ser em sintonia. E saborear um chá de consciência e beleza observando o por do sol e a lua cheia chegando de mansinho. Pois, apesar de tudo, de tanto descompasso neste mundo insano, há a possibilidade de um instante de felicidade, quando nos damos tempo de respirar os ventos a tocar nosso rosto sussurrando: -viva o agora, porque o paraíso é também aqui!

*Dra RosângelaRossi
Psicoterapeuta. Escritora. Filósofa Clínica
Juiz de Fora/MG

quarta-feira, 22 de março de 2017

Mundo pequeno*


I
O mundo meu é pequeno, Senhor.
Tem um rio e um pouco de árvores.
Nossa casa foi feita de costas para o rio.
Formigas recortam roseiras da avó.
Nos fundos do quintal há um menino e suas latas
maravilhosas.
Todas as coisas deste lugar já estão comprometidas
com aves.
Aqui, se o horizonte enrubesce um pouco, os
besouros pensam que estão no incêndio.
Quando o rio está começando um peixe,
Ele me coisa
Ele me rã
Ele me árvore.
De tarde um velho tocará sua flauta para inverter
os ocasos.

II
Conheço de palma os dementes de rio.
Fui amigo do Bugre Felisdônio, de Ignácio Rayzama
e de Rogaciano.
Todos catavam pregos na beira do rio para enfiar
no horizonte.
Um dia encontrei Felisdônio comendo papel nas ruas
de Corumbá.
Me disse que as coisas que não existem são mais
bonitas.

IV
Caçador, nos barrancos, de rãs entardecidas,
Sombra-Boa entardece. Caminha sobre estratos
de um mar extinto. Caminha sobre as conchas
dos caracóis da terra. Certa vez encontrou uma
voz sem boca. Era uma voz pequena e azul. Não
tinha boca mesmo. "Sonora voz de uma concha",
ele disse. Sombra-Boa ainda ouve nestes lugares
conversamentos de gaivotas. E passam navios
caranguejeiros por ele, carregados de lodo.
Sombra-Boa tem hora que entra em pura
decomposição lírica: "Aromas de tomilhos dementam
cigarras." Conversava em Guató, em Português, e em
Pássaro.
Me disse em Iíngua-pássaro: "Anhumas premunem
mulheres grávidas, 3 dias antes do inturgescer".
Sombra-Boa ainda fala de suas descobertas:
"Borboletas de franjas amarelas são fascinadas
por dejectos." Foi sempre um ente abençoado a
garças. Nascera engrandecido de nadezas.

VI
Descobri aos 13 anos que o que me dava prazer nas
leituras não era a beleza das frases, mas a doença delas.
Comuniquei ao Padre Ezequiel, um meu Preceptor, esse gosto esquisito.
Eu pensava que fosse um sujeito escaleno.
- Gostar de fazer defeitos na frase é muito saudável, o Padre me disse.
Ele fez um limpamento em meus receios.
O Padre falou ainda: Manoel, isso não é doença,
pode muito que você carregue para o resto da vida um certo gosto por nadas...
E se riu.
Você não é de bugre? - ele continuou.
Que sim, eu respondi.
Veja que bugre só pega por desvios, não anda em estradas -
Pois é nos desvios que encontra as melhores surpresas e os ariticuns maduros.
Há que apenas saber errar bem o seu idioma.
Esse Padre Ezequiel foi o meu primeiro professor de
gramática.

(...)

*Manoel de Barros

terça-feira, 21 de março de 2017

Silêncio da letra*


Cansei dos teus olhos,
de tua voz, a duração deste momento,
o movimento faz o tempo durar o sempre na imagem.
O breviário do solitário é catar os dias, então, do previsível, da atitude dos versos, a métrica é o fluxo do pensamento:
e o silêncio fascina.
Morrerei em Paris como César Vallejo e Celan.
O Sena que lava a textura do tecido,
palavras entre as pernas abrem-se às manhãs da cidade.
A poesia nasce da algaravia, da alma perdida, morrer em águas turvas.
O silêncio abre-se coberto de tardes tristes,
um beijo na beleza incessante dos olhos esquecidos dos
os amantes  que não se cansam de partir.
O silêncio fascina sobre o escrito.

*Prof. Dr. Luis Antonio Paim Gomes
Filósofo. Editor. Escritor. Livre Pensador.
Porto Alegre/RS

segunda-feira, 20 de março de 2017

Fragmentos Filosóficos, Delirantes*


"O que significa, aqui, dizer que a existência precede a essência ? Significa que, em primeira instância, o homem existe, encontra a si mesmo, surge no mundo e só posteriormente se define. O homem, tal como o existencialista o concebe, só não é passível de uma definição porque, de início, não é nada; só posteriormente será alguma coisa e será aquilo que ele fizer de si mesmo" 

"(...) o primeiro passo do existencialismo é o de pôr todo homem na posse do que ele é, de submetê-lo à responsabilidade total de sua existência"

"O existencialista não pensará nunca, também, que o homem pode conseguir o auxílio de um sinal qualquer que o oriente no mundo, pois considera que é o próprio homem quem decifra o sinal como bem entende. Pensa, portanto, que o homem, sem apoio e sem ajuda, está condenado a inventar o homem a cada instante"

"(...) se vocês procurarem um padre, por exemplo, para que ele os aconselhe, vocês estarão escolhendo esse padre, e, no fundo, vocês já estarão sabendo, aproximadamente, o que ele lhes irá aconselhar"

"O homem nada mais é do que o seu projeto; só existe na medida em que se realiza; não é nada além do conjunto de seus atos, nada mais que sua vida"

"O homem faz-se; ele não está pronto logo de início; ele se constrói escolhendo a sua moral; e a pressão das circunstâncias é tal que ele não pode deixar de escolher uma moral"

"(...) aliás, dizer que nós inventamos os valores não significa outra coisa senão que a vida não tem sentido a priori. Antes de alguém viver, a vida, em si mesma, não é nada; é quem a vive que deve dar-lhe um sentido; e o valor nada mais é do que esse sentido escolhido"

"(...) não existe natureza humana, ou seja, cada época se desenvolve segundo leis dialéticas, e os homens dependem da época e não de uma natureza humana"

*Jean-Paul Sartre in "O existencialismo é um humanismo". Ed. Nova Cultural. SP. 1987. 

domingo, 19 de março de 2017

Singularidades*


Gosto de observar, de pensar ... algumas vezes escrevo expressando semioticamente minhas emoções através de uma analítica de linguagem.

Não intenciono disputar saberes mas uma tentativa de compreender a essência da minha existência como significado e paixão. Aprecio discursos organizados e " limpos", bem estruturados que me ajudem nas buscas e no cuidado com meus pré-juizos assim como um instrumento de mediação que conduz a se sentir melhor. Sou ação.

Aprecio termos , palavras leves e descontraídas através das quais posso ter uma interseção agradável e segura para expressar fenomenológicamente, como o mundo me parece. Não domino conhecimentos; minha intencionalidade é única e exclusiva para a tentativa de uma compreensão do Todo que habita em mim.

Utopia ?!? Não creio. Porém, ter a liberdade de agir, pensar e sentir sem os limites dos agendamentos e padronizações Sociais me são por demais agradáveis.

*Marize Ouriques
Filósofa Clínica
Florianópolis/SC

sábado, 18 de março de 2017

Fragmentos Filosóficos, Delirantes*


"O que desejo enfatizar aqui, logo de início, é que a afirmação de que algumas pessoas têm uma doença chamada esquizofrenia (e de que algumas, presumivelmente, não a têm) baseia-se unicamente na autoridade médica e não em qualquer descoberta da Medicina; de que isso foi, em outras palavras, o resultado de uma tomada de decisão ética e política, e não de um trabalho científico empírico" 

"Como Bleuler tampouco descobriu qualquer doença nova nem desenvolveu qualquer novo tratamento, sua fama assenta, em minha opinião, no fato de ter inventado uma nova doença - e, através dela, uma nova justificativa para se considerar o psiquiatra um médico, o esquizofrênico um paciente e a prisão em que aquele confina este, um hospital"

"(...) ao descrever um paciente esquizofrênico, está descrevendo meramente alguém que fala de modo bizarro ou diferente dele, ou com quem ele, Bleuler, está em desacordo"

"Através dessa transformação pseudocientífica do médico alienista em psiquiatra, a psiquiatria passou a ser - e é hoje aceita em toda a parte - o estudo "científico" do mau comportamento e sua administração "médica". E a esquizofrenia é o seu símbolo sagrado - o maior saco de retalhos de todas as más condutas que os psiquiatras coagidos pela sociedade ou convencidos pelo seu próprio zelo, estão hoje dispostos a diagnosticar, prognosticar e tratar"

"A moderna psiquiatria é uma ideologia poderosa e uma instituição"

"A loucura, conforme sugeri há algum tempo, é fabricada, num certo sentido, por alienistas. Em outras palavras, a Psiquiatria produz a esquizofrenia ou, mais precisamente, os psiquiatras criam esquizofrênicos"

"A esquizofrenia é definida de modo tão vago que, na realidade, trata-se de um termo frequentemente aplicado a quase toda e qualquer espécie de comportamento reprovado pelo locutor (...) a esquizofrenia é um símbolo sagrado da Psiquiatria da mesma forma que o Cristo crucificado é um símbolo sagrado do cristianismo"

"(...) uma suposta doença cerebral só se converte em doença cerebral autêntica quando comprovada por sistematicamente repetíveis; e, terceiro, em que as pessoas com ou sem doenças cerebrais só são "pacientes" na medida em que consentem em assumir esse papel, visto que, como indivíduos numa sociedade livre, elas têm um direito fundamental de rejeitar o diagnóstico médico, a hospitalização e o tratamento" 

*Thomas S. Szasz. Médico. Professor de Psiquiatria da Universidade Estadual de Nova York. in "Esquizofrenia - o símbolo sagrado da Psiquiatria". Ed. Zahar. RJ. 1978.

sexta-feira, 17 de março de 2017

A palavra mágica*


“Vive a tua hora como se gravasses o teu nome na epiderme de um tronco novo. Mas não voltes mais tarde para junto dessa árvore, porque podes não reconhecer o teu nome nas cicatrizes das velhas letras.”
                                Felippe D’Oliveira

Sua tez de singularidade maldita refere uma simbologia em viés de encantamento. Na veemência discursiva compartilha uma fatia generosa de paraíso. O sagrado_profano esboça uma íntima convivência com a reciprocidade. Os significados apreciam aliar-se aos papéis existenciais de travessia. Assim o feitiço da palavra como medicamento aprecia as estruturas mutantes envolvidas na interseção. 

Ao sugerir a cidade das maravilhas, é possível um novo entendimento e relação com o universo interior. Sua fonte de inspiração, muitas vezes, se faz menção em dialetos de esquiva. A magia, um pouco antes de ser representação traduzível, aprecia transbordar nalguma forma de excesso.

Uma fenomenologia em aromas de dama da noite aponta o lugar renascimento de todo lugar. O discurso assim descrito considera um artesão em meio a raridades, sua arte de acessar e esculpir subjetividades convida aos eventos de simplicidade complexa. Um ser se lança em busca de antigas promessas, seu compêndio de páginas por vir acolhe originalidades à margem do instante. 
      
O vocabulário possui raízes na historicidade da pessoa, muitas vezes refém de prescrições a considerar irrealizáveis seus projetos. Nessa ótica de contra ideologia os termos agendados, quando substituídos, podem oferecer códigos de libertação. Numa contemplação indefinível das ideias e sensações, se encontra um cogitar de amanhãs. Um esboço, ainda tímido, revela possibilidades em processo. Vislumbre de outras linguagens a percorrer os subúrbios de si mesmo.

Ao andarilho que se sabe andarilho, encontra um abrigo eficaz na sua pronúncia. Seu aspecto de ser errante é cúmplice desses momentos, onde razão e desrazão deixam de ser para devir. Em seus relatos de magia, uma mescla de fantasia e realidade reescreve as contradições em possibilidades. Sua natureza grávida de originais reflete os nomes da singularidade.

Assim o sujeito rascunha-se em busca de alguma edição para sua utopia em processo. A trama delirante anuncia pluralidades pela alma inadequada. Na concepção e uso da palavra exilada destitui-se sua condição de refém das circunstâncias, nela se apresentam ensaios aos novos horizontes, ingredientes, até então, refugiados nalguma espécie de devaneio ou loucura. 

*Hélio Strassburger
Filósofo Clínico e Professor

quinta-feira, 16 de março de 2017

Reflexão n°.1*


Ninguém sonha duas vezes o mesmo sonho
Ninguém se banha duas vezes no mesmo rio
Nem ama duas vezes a mesma mulher.

Deus de onde tudo deriva
E a circulação e o movimento infinito.

Ainda não estamos habituados com o mundo
Nascer é muito comprido.

*Murilo Mendes

quarta-feira, 15 de março de 2017

Primeiro ler, depois filosofar*


A literatura é um ponto de partida fundamental para quem quer se aventurar a pensar filosoficamente a própria existência. Aliás, só há filosofia em seu sentido originário – tal como proposto e exercido por Platão e Aristóteles – se for intrinsecamente ligada à vida, à própria vida. E em tempos nos quais as chamadas ideologias estão em voga, a realidade perde a vez para atribuições que se propõem a descrevê-la quando, na verdade, a reduz a elementos limitantes: direita/esquerda, proletariado/burguesia, cativeiro/libertação etc. Mas, o que tem a ver a filosofia com a literatura?

Nossa vida é constituída de experiências restritas. Não conseguimos viver todas as possibilidades por nossas próprias condições limitantes: geográfica, somática, psíquica, social, histórica etc. Com isso, pensar a vida em seu caráter mais amplo, em busca dos elementos universalmente constitutivos somente é possível ampliando o horizonte de perspectivas e experiências. Para isso é que a literatura auxilia.

O convívio com a obra literária nos aproxima das possibilidades de existência pensadas e imaginadas pelo escritor. O conjunto de perspectivas acrescentadas à nossa experiência por meio de inúmeros autores amplia a visão de mundo de tal modo a dar abertura para a reflexão filosófica. Mas, o que é uma reflexão filosófica?

A filosofia não é um conteúdo, mas uma ação. Quando se coloca a filosofar, o filósofo envereda pelo processo de conhecimento de algo, mais especificamente, o que podemos chamar de realidade. A realidade é o todo no qual estamos imersos e do qual fazemos parte.

Outro aspecto fundamental a se compreender é que a filosofia é mais ampla do que um experimento efetuado pela ciência moderna. Quando um cientista investiga um fenômeno da natureza ou um comportamento humano, é necessário que haja controle das variáveis ambientais de modo geral. Os resultados são válidos na medida em que o experimento seja passível de ser repetido obtendo o mesmo resultado. A explicação do recorte da experiência deve estar sob o crivo da repetição. Em suma, a compreensão se dá na própria execução reproduzida tantas vezes quantas forem necessárias.

No entanto, a vida nunca apresenta um resultado idêntico em todas as vezes que se propõe a fazer a mesma coisa. As pessoas, o ambiente, o tempo, enfim, tudo está em mudança. Essa não é acessível a um juízo científico. Para que se encontre um dado comum a todas as variáveis da vida, não se deve tomar a “régua”, mas a mente. A imaginação possui a riqueza das variações possíveis de uma experiência. É nela que a unidade ou universalidade é possível.

Para que seja compreendido a partir de casos extremos, tomemos como exemplo a abordagem científica e sua negação da experiência subjetiva religiosa. Isso não é um demérito, mas simplesmente algo constitutivo dos limites e alcances do método científico. Ora, toda experiência religiosa é subjetiva e as variáveis são tantas quanto são as pessoas que a vivenciam. Diante disso, como proceder? Por enriquecimento da imaginação. Pois, somente quando se pode imaginar as variantes de uma experiência, algo que há em comum em todas elas pode ser percebido. Geralmente não são os estados hormonais ou sinápticos que ditarão essa unidade – o que seria acessível às ciências – mas a realidade objetiva desses fatos.

Outro exemplo: tomemos a experiência dos primeiros cristãos. Cientificamente nenhum milagre pode ser provado naqueles relatos. Curiosamente, os relatos de milagres não são exclusividade do tempo que precedeu a escrita dos Evangelhos. Há relatos até hoje. E não digo o gerado pela histérica manifestação de diversos cultos contemporâneos que bem servem para enriquecer o “líder” da instituição. Digo mais naqueles casos em que pessoas mudaram de vida e testemunharam a presença de algo que os elevou.

Nesses dois casos, poderia se questionar sobre a viabilidade de prova de verdade de tais experiências. Como nenhuma pode ser reproduzida – nem pela ciência, nem pelos crentes – ela pode se tida como falsa, ilusória, fruto do delírio, histeria individual e coletiva etc. Todavia, são relatados. E quem as relata não está tentando provar nada para ninguém. Ela apenas vivenciou. Dito isso, pode-se perceber que essas experiências jamais poderão ser provadas, o que não as invalida enquanto possibilidades da vida. Enquanto a ciência explica os fatos pelos resultados obtidos na repetição de seus experimentos controlados, a filosofia compreende a vida a partir da variabilidade e irrepetibilidade de seus acontecimentos.

Portanto, é aí que reside a necessidade de enriquecer a imaginação. Não de uma imaginação pejorativamente ilusória. Trata-se de um imaginário enquanto possibilidades da própria vida. Se houve, como os exemplos citados, relatos de milagre, em vão se debaterá sobre a afirmação ou negação de sua veracidade. Resta, assim, perceber a realidade em sua riqueza de possibilidades.

Se nos exemplos mais radicais, a imaginação pode ser uma arma poderosa para compreensão da realidade, no âmbito mais cotidiano ela o será igualmente e com maior facilidade de aceitação. Para pensar em questões da vida como culpa, medo, dor, sacrifício e amor as experiências próprias ajudam, mas não contemplam a rica extensão de possibilidades nas quais estes termos podem ser compreendidos na realidade. 

Diante do que foi dito, fica a seguinte reflexão: se queremos ser filósofos, sejamos antes assíduos leitores da boa literatura. Comece pelos autores de seu idioma. Esses além de enriquecer seu vocabulário de palavras e expressões que relatam a realidade, explicam sua própria história, seu próprio povo, o que constitui sua cultura – no caso, é claro, de autores de língua portuguesa que vivem no Brasil. Depois de poder dizer sua realidade com maior riqueza de detalhes possíveis e de compreendê-la até sem conseguir expressá-la, a leitura de textos filosóficos ajudará nesse segundo passo de contemplação da realidade, da sua vida, da existência.

*Prof. Dr. Miguel Angelo Caruzo
www.atotalidadedavida.blogspot.com.br
Filósofo. Educador. Escritor. Filósofo Clínico
Teresópolis/RJ

terça-feira, 14 de março de 2017

Retrato Quase Apagado em que se Pode Ver Perfeitamente Nada*


I
Não tenho bens de acontecimentos.
O que não sei fazer desconto nas palavras.
Entesouro frases. Por exemplo:
- Imagens são palavras que nos faltaram.
- Poesia é a ocupação da palavra pela Imagem.
- Poesia é a ocupação da Imagem pelo Ser.
Ai frases de pensar!
Pensar é uma pedreira. Estou sendo.
Me acho em petição de lata (frase encontrada no lixo)
Concluindo: há pessoas que se compõem de atos, ruídos, retratos.
Outras de palavras.
Poetas e tontos se compõem com palavras.

II
Todos os caminhos - nenhum caminho
Muitos caminhos - nenhum caminho
Nenhum caminho - a maldição dos poetas.

III
Chove torto no vão das árvores.
Chove nos pássaros e nas pedras.
O rio ficou de pé e me olha pelos vidros.
Alcanço com as mãos o cheiro dos telhados.
Crianças fugindo das águas
Se esconderam na casa.

Baratas passeiam nas formas de bolo... 
A casa tem um dono em letras. 
Agora ele está pensando - 
no silêncio Iíquido
com que as águas escurecem as pedras... 
Um tordo avisou que é março.

IV
Alfama é uma palavra escura e de olhos baixos.
Ela pode ser o germe de uma apagada existência.
Só trolhas e andarilhos poderão achá-la.
Palavras têm espessuras várias: vou-lhes ao nu, ao
fóssil, ao ouro que trazem da boca do chão.
Andei nas pedras negras de Alfama.
Errante e preso por uma fonte recôndita.
Sob aqueles sobrados sujos vi os arcanos com flor!

V
Escrever nem uma coisa Nem outra -
A fim de dizer todas
Ou, pelo menos, nenhumas.
Assim,
Ao poeta faz bem
Desexplicar -
Tanto quanto escurecer acende os vaga-lumes.

(...)

*Manoel de Barros

segunda-feira, 13 de março de 2017

Fragmentos Filosóficos, Delirantes*


"(...) ninguém pode penetrar no universo dos sonhos se não está dormindo; da mesma forma, ninguém pode entrar no mundo fantástico se não se torna fantástico"

"Se estou no avesso de um mundo pelo avesso, tudo me parece direito. Portanto, se eu habitasse, eu mesmo fantástico, um mundo fantástico, não poderia de modo algum considerá-lo fantástico"

"O artista teima ali onde o filósofo desistiu"

"As palavras, ademais, são 'instrumentos de atos úteis', de modo que nomear o real é cobri-lo, velá-lo com familiaridades, transpô-lo assim à condição daquilo que Hegel chamava 'das Bakannte': o demasiadamente conhecido, que passa despercebido. Para rasgar os véus e trocar a quietude opaca do saber pelo espanto do não-saber é preciso um 'holocausto das palavras', esse holocausto que a poesia realiza de saída" 

"O ponto de partida é o fato de que o homem nasce da terra: ele é 'engendrado pela lama'. Entendemos por isso que ele é o produto de uma das inumeráveis combinações possíveis dos elementos naturais"

"(...) só somos na medida em que nos descobrimos: o ser coincide com o movimento da descoberta"

"Se uma sociedade filosofa, é porque 'há folga na engrenagem', é porque há espaço para o sonho individual, para a fantasia de cada um, para a interrogação e para a incompreensão. E enfim porque não há ordem social perfeitamente rigorosa"

"(...) o olho prefigura, seleciona aquilo que vê. E esse olho não está dado de saída: ele tem de inventar sua maneira de ver; por isso determina-se a priori e por uma livre escolha o que se vê. As épocas vazias são aquelas que escolhem se ver com olhos já inventados. Elas não podem fazer mais que refinar as descobertas das outras; pois aquele que traz o olho traz ao mesmo tempo a coisa vista"

*Jean-Paul Sartre in "Situações". Ed. Cosacnaify. SP. 2005.