quarta-feira, 31 de maio de 2017

As palavras e eu*


Ah, as palavras que eu falava
E aquelas que não falava
Só eram um convite para a dança
Um convite para o canto
Ah, minhas palavras
Queriam só ser palavras outras
De um mundo outro
Cansei das palavras cansadas
Cansadas de tão reais
Ah, minhas vãs palavras
Caíram no vazio de um vão
De um chão frio.
Ah, as minhas palavras
Apontavam um mundo que não existe
Mas que poderia existir
Afinal, quantos mundos existem
Além deste único, meio cansado
Que fazemos acontecer?
Ah, minhas palavras vãs
Beijavam os olhinhos dela
Última tentativa de tirar as vendas
Dos nossos olhos
Mas éramos cegos
Eu e ela.

*José Mayer
Filósofo. Livreiro. Estudante na Casa da Filosofia Clínica
Porto Alegre/RS

terça-feira, 30 de maio de 2017

Fragmentos Filosóficos, Delirantes*


"No escritor o pensamento não dirige de fora a linguagem: o escritor é ele mesmo um novo idioma que se constrói, que inventa meios de expressão e se diversifica segundo seu próprio sentido. O que chamamos de poesia talvez seja apenas a parte da literatura onde essa autonomia se afirma com ostentação. Toda grande prosa é também uma recriação do instrumento significante, doravante manejado segundo uma sintaxe nova"

"Nossa língua reencontra no fundo das coisas a fala que as fez"

"(...) jamais encontramos na fala dos outros senão o que nós mesmos pusemos, a comunicação é uma aparência, ela nada nos ensina de verdadeiramente novo. Como seria ela capaz de nos arrastar para além de nossos próprio poder de pensar, já que os signos que ela nos apresenta nada nos diriam se já não tivéssemos em nosso íntimo sua significação?"

"(...) o olhar de minha memória a envolve, bastará que me reinstale no acontecimento para que tudo, os gestos do interlocutor, seus sorrisos, suas hesitações, suas frases reapareçam em seu justo lugar"

"(...) a perfeição da linguagem é de fato passar despercebida"

"Exprimir-se é portanto um empreendimento paradoxal, uma vez que supõe um fundo de expressões aparentadas, já estabelecidas, e que sobre esse fundo a forma empregada se destaque, permaneça suficientemente nova para chamar a atenção. Trata-se de uma operação que tende à sua própria destruição, uma vez que se suprime à medida que se propaga, e se anula se não se propaga. Assim, não se poderia conceber uma expressão que fosse definitiva, pois as próprias virtudes que a tornam geral a tornam ao mesmo tempo insuficiente"

"Lembrando Malraux, diz assim: 'o estilo é o 'meio de recriar o mundo segundo os valores do homem que o descobre'"

"(...) mas o que resta por fazer para exprimir ainda mais o encontro e o conflito do olhar com as coisas que o solicitam, do corpo com o mundo que ele habita, daquele que precisa ser com aquilo que é"

*Maurice Merleau-Ponty in "A prosa do mundo". Ed. Cosac & Naify. SP. 2002.

segunda-feira, 29 de maio de 2017

Poética do existir*


A gente não precisa dizer o que fez e faz.
Cada vez mais viver é o que im-porta de verdade.
Im-porta ser sempre aprendiz.
Im-porta o carinho amigo.
Im-porta o doar amor.
Im-porta as coisas simples.
Im-porta o agora pleno de histórias.
Im-porta abrir a porta da existência
E viver as Autogenias transformadoras.
Im-portar com o outro que precisa de nossa escuta e presença.
Im-portar as estrelas do céu e
Pintar os fios de ouro nas estradas do viver.
No portar-se como gente In-teira.
In-teirando-se com o fogo, o ar a terra e água.
Inteirando-se com múltiplas pessoas.
Dissolvendo-se na poética do existir.

*Dra. Rosângela Rossi
Psicoterapeuta. Escritora. Filósofa Clínica
Juiz de Fora/MG

domingo, 28 de maio de 2017

Fragmentos Filosóficos, Delirantes*


"Na era moderna, uma das mais ativas metáforas para o projeto espiritual é a Arte. As atividades do pintor, do músico, do poeta, do bailarino, uma vez reunidas sob essa designação genérica (um gesto relativamente recente), mostraram-se um lugar particularmente propício à representação dos dramas formais que assediam a consciência, tornando-se cada obra de arte individual um paradigma mais ou menos perspicaz para a regulamentação ou a reconciliação de tais contradições"

"Embora não seja mais uma confissão, a arte é mais do que nunca uma libertação, um exercício de ascetismo"

"A história da arte é uma sucessão de transgressões bem-sucedidas"

"O silêncio também existe como uma punição - na loucura exemplar de artistas (Holderlin, Artaud) que demonstram que a própria sanidade pode ser o preço da violação das fronteiras aceitas da consciência e, com certeza, nas penalidades (que vão da censura e da destruição física das obras de arte às multas, ao exílio, à prisão do artista) impostas pela sociedade face ao inconformismo espiritual ou à subversão da sensibilidade do grupo, por parte do artista"

"O silêncio continua a ser, de modo inelutável, uma forma de discurso (em muitos exemplos, de protesto ou acusação) e um elemento em um diálogo"

"Oscar Wilde salientou que as pessoas não viam os nevoeiros antes que certos poetas e pintores do século XIX lhes ensinasse como fazê-lo (...)"

"Como diz Jaspers: 'Já é muito ver alguma coisa claramente, pois nós não vemos nada claramente"

"O espectador se aproximaria da arte como o faz de uma paisagem. Uma paisagem não exige sua 'compreensão', suas imputações de significado, suas angústias e suas simpatias; ao contrário, requer sua ausência, solicita que ele não acrescente nada a isso"

"Como algumas pessoas atualmente sabem, há modos de pensamento que ainda não conhecemos"

"Em explícita revolta contra aquilo que se considera a vida classificada e dessecada da mente comum, o artista lança um apelo pela revisão da linguagem" 

"(...) a obra de arte eficaz deixa o silêncio em seu rastro. O silêncio, administrado pelo artista, é parte de um programa de terapia perceptiva e cultural, calcado frequentemente mais no modelo da terapia de choque que no da persuasão"

"(...) a busca de expressão do inexprimível é assumida como o próprio critério da arte (...)"

*Susan Sontag in "A vontade radical". Ed. Companhia de Bolso. SP. 2015.

sábado, 27 de maio de 2017

A palavra mundo*










Uma poética se anuncia num esboço de captura às múltiplas verdades. Nesse horizonte nem sempre coerente, a pessoa encontra um refúgio para integrar suas possibilidades existenciais.  
Ao ser a visão de mundo inseparável de uma subjetividade, o teor dos termos agendados denuncia até onde se pode chegar. Um pouco antes dos movimentos de rebeldia, a linguagem, em vias de se ultrapassar, costuma emitir dissonâncias. Uma dessas características é o excesso de equivocidades discursivas, as quais, nem sempre podem ser traduzidas. 
O sentido de ser sem sentido surge como afronta, sedução ou promessa, uma expressão para superar anterioridades. Ainda quando transcende na direção de alguém, em busca de acolhimento e compreensão, o sujeito pode se apresentar, inicialmente, fora de foco.  
A palavra mundo exibe uma predisposição à vida, sua existência começa, se desenvolve e se conclui com ela. Sua voz se confunde com o sujeito que a pronuncia. Assim, ao reconhecer nesse dialeto um espaço de enigmas, desafios, possibilidades, é possível, na cumplicidade de uma interseção, enunciar os contornos dessa fonte. Nesse sentido, parece não haver amanhã sem o instante a desalojar seus outros. 
 É comum a associação nalgum abrigo, onde os novos horizontes possam se esboçar. Num diálogo da estrutura de pensamento com seu entorno, a palavra mundo existe em tempo próprio. Essa percepção descreve a natureza inteira num único representante. A vastidão circunscrita a um só olhar aprecia multiplicar-se no imenso universo diante de si mesmo. Nesse cotidiano impregnado de originais pode se cogitar: o que se refugia naquilo que se revela ? 

*Hélio Strassburger

sexta-feira, 26 de maio de 2017

Fragmentos Filosóficos, Delirantes*














"Um comentário filológico dos textos não produziria nada: só encontramos nos textos aquilo que nós colocamos ali (...)"

"É em nós mesmos que encontramos a unidade da fenomenologia e seu verdadeiro sentido"

"Trata-se de descrever, não de explicar nem de analisar"

"Descartes e sobretudo Kant desligaram o sujeito ou a consciência, fazendo ver que eu não poderia apreender nenhuma coisa como existente se primeiramente eu não me experimentasse existente no ato de apreendê-la"

"O filósofo, dizem ainda os inéditos, é alguém que perpetuamente começa"

"(...) não é preciso perguntar-se se nós percebemos verdadeiramente um mundo, é preciso dizer, ao contrário: o mundo é aquilo que nós percebemos"

"O mundo é não aquilo que eu penso, mas aquilo que eu vivo; eu estou aberto ao mundo, comunico-me indubitavelmente com ele"

"Todas as explicações econômicas, psicológicas de uma doutrina são verdadeiras, já que o pensador pensa sempre a partir daquilo que ele é"

"(...) olhar um objeto é vir habitá-lo e dali apreender todas as coisas segundo a face que elas voltam para ele. Mas, na medida em que também as vejo, elas permanecem moradas abertas ao meu olhar e, situado virtualmente nelas, percebo sob diferentes ângulos o objeto central de minha visão atual. Assim, cada objeto é o espelho de todos os outros"

"Todo saber se instala nos horizontes abertos pela percepção"

"(...) o mundo torna-se o correlativo de um pensamento do mundo e só existe para um constituinte"

"O corpo próprio está no mundo assim como o coração no organismo: ele mantém o espetáculo visível continuamente em vida, anima-se e alimenta-o interiormente, forma com ele um sistema"

*Maurice Merleau-Ponty in "Fenomenologia da Percepção." Ed. Martins Fontes. SP. 1994.

quinta-feira, 25 de maio de 2017

A involução formativa do medievo aos nossos dias*









No tempo das universidades medievais, um jovem iniciava sua vida de estudos aos quatorze anos e um título de doutor em teologia era obtido somente a partir dos trinta e cinco anos. A base inicial dos estudos era o “trivium” – gramática, retórica e dialética – e, em seguida, o “quadrivium” – aritmética, geometria, música e astronomia – e de lá saíram grandes pensadores como Tomás de Aquino, Duns Scot, Alberto Magno, Pedro Abelardo e tantos outros. Hoje se entra cada vez mais cedo nas escolas e universidades, se adquire cada vez mais precocemente os títulos de mestrado e doutorado e o resultado das pesquisas sobre esse “fantástico mundo regido pelo MEC” é o número crescente de analfabetos funcionais, até entre nós universitários.
Outro aspecto a ser destacado é que na Idade Média, a formação era para a vida e não havia “pressa” de concluí-la. Mas, hoje, no “auge do desenvolvimento”, no “século XXI”, na era “pós-moderna” etc., ai daquele que não é enviado à escola com, no máximo, sete anos. Com as chances de viver até os setenta, o sujeito deve estar “pronto” para enfrentar o mundo aos vinte. Enfrentamento que não mais se dá com a busca da plenitude da humanização, mas com a capacidade de servir com mais qualidade ao mercado de trabalho.
Em suma, a formação integral humana – que se encontra desde as escolas de Platão e Aristóteles às universidades medievais – paulatinamente deu lugar à preparação de autômatos na chamada modernidade que, paradoxalmente, são convidados a serem criativos, dinâmicos, bem informados, isto é, humanos. Alguém formado em uma universidade medieval era convidado a assimilar na própria vida o conhecimento adquirido; tratava-se de educação para a virtude, o que também era base da formação grega desde Sócrates. Hoje a formação é para o “bem fazer” o trabalho que lhe cabe para gerar lucros. Parece-me que o ser por meio do tornar-se, deu lugar ao fazer para ter.
*Prof. Dr. Miguel Angelo Caruzo
Filósofo. Escritor. Filósofo Clínico.
Teresópolis/RJ

quarta-feira, 24 de maio de 2017

Fragmentos Filosóficos, Delirantes*













"Não é a crítica que me quero referir, porque ninguém pode esperar ser compreendido antes que os outros aprendam a língua em que fala. Repontar com isso seria, além de absurdo, indício de um grave desconhecimento da história literária, onde os gênios inovadores foram sempre, quando não tratados como doidos (como Verlaine e Mallarmé), tratados como parvos (como Wordsworth, Keats e Rossetti) ou como, além de parvos, inimigos da pátria, da religião e da moralidade, como aconteceu a Antero de Quental"

"(...) Porque não é a teoria que faz o artista, mas o ter nascido artista"

"Toda a arte é uma forma de literatura, porque toda a arte é dizer qualquer coisa. Há duas formas de dizer - falar e estar calado. As artes que não são a literatura são as projeções de um silêncio expressivo. Há que procurar em toda a arte que não é a literatura a frase silenciosa que ela contém, ou o poema, ou o romance, ou o drama"

"O princípio da cura está na consciência da doença, o da verdade no conhecimento do erro. Quando um doido sabe que está doido, já não está doido. Estamos perto de acordar, disse Novalis, quando sonhamos que sonhamos"

"Se é este, porém, o efeito do ideal puramente objetivo nas almas inferiores, nos espíritos superiores, que são os suscetíveis de criar, o efeito é outro. Não podendo buscar consolação espiritual na religião, força é que a busquem na vida"

"Ora um desvio patológico equilibrado é uma de duas cousas - ou o gênio ou o talento. Ambos estes fenômenos são desvios patológicos, porque, biologicamente considerados, são anormais; porém não são só anormais, porque têm uma aceitação exterior, tendo, portanto, um equilíbrio. A esse desvio equilibrado chamar-se-á gênio quando é sintético, talento quando é analítico; gênio quando resulta da fusão original de vários elementos, talento quando procede do isolamento original de um só elemento"

"Sinto-me viver vidas alheias, em mim, incompletamente, como se o meu ser participasse de todos os homens incompletamente de cada, por uma suma de não-eus sintetizados num eu postiço"

"Um raio hoje deslumbrou-se de lucidez. Nasci"

*Fernando Pessoas in "Alguma prosa". Ed. Nova Fronteira. RJ. 1990. 

terça-feira, 23 de maio de 2017

O abraço e a felicidade*










Pode ser, claro que sim
Você me leu confuso
Neste seu jeito de me ler.
Seus olhos nublados
Me viram no côncavo
Ou no convexo me viram.

E me leram invertido.

Pode ser, claro que sim
Este seu medo tremido
De um grande amor.
Pode ser este seu riso
Que me fez de casa
E feliz por um dia.
Pode ser este desespero
Caindo no copo vazio
De uma saudade.
Pode ser este seu cheiro
De fruta madura
Dos dias finais de outono.
Pode ser a pele infantil
De uma neblina suave
Pedindo um abraço.

*José Mayer
Filósofo. Livreiro. Estudante na Casa da Filosofia Clínica
Porto Alegre/RS

segunda-feira, 22 de maio de 2017

Fragmentos Filosóficos, Delirantes*









"A terra é um paraíso, o único que jamais conheceremos. Temos de entender isso no momento em que abrimos os olhos. Não precisamos fazer dela um paraíso - ela é um paraíso. Só temos de nos capacitar para habitar nele"

"O sonhador cujos sonhos não sejam utilitários não tem lugar neste mundo. Quem quer que não se preste a ser comprado e vendido, seja no campo das coisas, das ideias, dos princípios, sonhos ou esperanças, acaba excluído. Neste mundo, o poeta é anátema, o pensador, um tolo, o artista é um escapista, o homem de visão, um criminoso"

"(...) Sabem coisas com que o cidadão mediano nem sonha. Poderiam nos contar mil jeitos melhores de lidar com a situação do que os que costumamos usar agora" 

"Em certos indivíduos, o fato de estarem isolados do mundo tende a produzir um florescimento forçado; eles irradiam força e magnetismo, sua fala é cintilante e estimulante. Têm uma vida sossegada e rica, toda própria, em harmonia com seu meio ambiente e livre das mesquinhas ambições e rivalidades do homem do mundo. (...) a maior parte deles possui talentos e energias insuspeitadas pelo invasor curioso"

"Mas existe uma classe de homens resistentes, antiquados o suficiente para se terem mantido asperamente individuais, abertamente desdenhosos da moda, apaixonadamente dedicados a seu trabalho, imunes ao suborno e à sedução, que trabalham longas horas, muitas vezes sem recompensa ou fama, que são motivados por um impulso comum: a alegria de fazer o que bem entendem. El algum momento ao longo do trajeto eles se destacaram dos outros. Os homens de que estou falando são identificáveis a um mero olhar: seu rosto registra algo muito mais vital, muito mais eficiente, do que a sede de poder. Eles não procuram dominar, mas realizar-se. Operam a partir de um centro que está em repouso. Evoluem, crescem, alimentam só por serem o que são"

"Então veremos se capacidade de fazer dinheiro e capacidade de sobreviver são a mesma coisa. Então veremos o sentido da verdadeira riqueza"

"A palavra significa para o paciente a mesma coisa que a linha e a forma para o pintor. É quase incrível como uma mera palavra, um ponto ou uma linha podem moldar e influenciar a vida de um indivíduo"

"Não são os oceanos que nos isolam do mundo - é o jeito americano de olhar as coisas. Nada se realiza aqui a não ser projetos utilitários"

*Henry Miller in "Pesadelo refrigerado". Ed. Francis. SP. 2006.

domingo, 21 de maio de 2017

Cabelos de Baudelaire*











Certas cores, cabelos que esvoaçam no tempo,
mistura cheiros e sons, açafrão no tilintar do outono,
Tinta que borda a pele, marca a alma, o frio se aproxima.

Ilumina partes do corpo, o tom certo, é como a luz,
Atravessa fendas, melodias espalham, clarão que dança,
Como melodia na luz assombradas de pensamento. 

Dedico meu tempo a teus cabelos, a poética imortal,
Mesmo que não crês no Nada, a cabeleira brilha,
O tempo não apaga os versos, o tempo esquece o presente.

Como o barco de Debussy, eleva a dor diante da música,
Em perdidas matemática antes do sol do meio-dia,
Fios voam mar dentro de luz, fonte da vida, os cabelos em direção à margem,
Morre no horizonte o que oculta. 

*Prof. Dr.Luis Antonio Paim Gomes 
Filósofo. Editor. Livre Pensador
Porto Alegre/RS

sábado, 20 de maio de 2017

Fragmentos Filosóficos, Delirantes*













"O que, portanto, deve manter-se impronunciado resguarda-se no não dito, abriga-se no velado como o que não se deixa mostrar, é mistério"

"Uma compreensão de mundo assim orientada pode surgir de diferentes fontes porque a força expressiva do espírito é ativa de muitas maneiras"

"Apreendida em sua verdadeira essência, a linguagem é algo consistente e, a cada instante, transitória. Mesmo a sua preservação na escrita é sempre uma preservação incompleta, mumificada, mas necessária quando se busca tornar perceptível a vida de seu pronunciamento"

"A linguagem é, na verdade, o eterno trabalho do espírito de tornar a articulação sonora capaz de exprimir o pensamento. Rigorosa e imediatamente, esta é a definição da fala em cada situação; sem sentido verdadeiro e essencial, apenas a totalidade dessa fala pode ser considerada como linguagem"

"(...) o poder suave da simplicidade de um saber escutar"

"(..) Do dizer e de sua saga em que se oferece o mundo como um deixar aparecer"

"É que o dicionário não é capaz de apreender e abrigar a palavra pela qual as palavras vêm à palavra"

"(...) uma coisa, chamada palavra, confere ser a uma outra coisa"

"(...) a linguagem é a casa do ser"

"É indispensável perdermos o hábito de só ouvir o que já compreendemos"

"A linguagem da poesia é essencialmente polissêmica e isso de um jeito muito próprio. Não conseguiremos escutar nada sobre a saga do dizer poético enquanto formos ao seu encontro guiados pela busca surda de um sentido unívoco"

*Martin Heidegger in "A caminho da linguagem". Ed. Vozes. Petrópolis/RJ. 2004.

sexta-feira, 19 de maio de 2017

Um sentido pra viver*










A névoa deste amanhecer

Não calou o canto do passarinho
Nem escondeu os primeiros raios do sol
Há no ar um desassossego coletivo
Na dúvida em que acreditar
Há, porém, um fio de esperança 
Se não, não teria sentido o viver
Tudo passa... no vir a ser eterno
E as flores brotam e o riacho desenha os caminhos até o mar

*Dra. Rosângela Rossi
Psicoterapeuta. Escritora. Filósofa Clínica.
Juiz de Fora/MG

quarta-feira, 17 de maio de 2017

Fragmentos Filosóficos, Delirantes*













"Criticar é rasgar novos horizontes de compreensão. Uma crítica enclausurada será fatalmente uma crítica cega, provinciana ou parasitária. O seu entendimento superlativo pressupõe a consciência da sua interdisciplinaridade"

"Cada discurso traz consigo a sua lei e o seu horizonte"

"A arte é dimensão fundadora do homem. Restará sempre, para além da morte do poema, a dimensão poética da existência"

"E em toda operação metodológica há muito mais do que uma operação metodológica. Enganam-se aqueles que, confundindo o método com uma simples técnica mecanizada, não são capazes de perceber na presença condicionada do seu contorno, todo um jogo matizado de representações que com ele estabelece um diálogo criador"

"A hermenêutica empreende o percurso inverso da modelização: vive da sua capacidade de abrir-se"

"(...) a própria ciência perdeu a tradicional univocidade, passando a estruturar-se por níveis polissemicamente"

"A ambiguidade ganha corpo quando a sobrecarga impulsiva da linguagem transborda os limites da língua"

"É que o real se realiza numa variedade de níveis e graus de mostrar-se. Há inclusive a possibilidade de o real se mostrar como uma coisa que, em si mesmo, ele não é"

"A linguagem sempre pode mais, porque o homem transcende o seu discurso"

"O poeta é poeta a partir da fala impossível, do silêncio, e o silêncio é o máximo de concentração da voz"

*Eduardo Portella in "Fundamento da investigação literária". Ed. Tempo brasileiro. RJ. 1974. 

terça-feira, 16 de maio de 2017

Opiniões de idiotas cultos e ignorantes*










Embora os conhecimentos humanos sejam fragmentos da totalidade de sua existência, não significa que quem é versado em um conhecimento, possa dar opiniões sobre todo o resto com a mesma convicção. Algumas pessoas reivindicam a especialização em suas áreas devido ao tempo de formação necessário para tal construção de conhecimento para falar sobre seus temas, mas pensam que todos os assuntos que se encontram em “conversas de boteco” possam ser abordadas por todos da mesma maneira. Temas como política e religião são os que mais aparecem nesses pretensos conhecimentos de domínio público. Não se estuda esses fenômenos, porém fala-se como se todos soubessem exatamente o que é. 

Além disso, ainda há aqueles que se tornam “especialistas” quando são famosos como atores, youtubers, blogueiros, jornalistas (leitores de tele pronto), músicos, entre outros. Estes são usados com frequência como discurso de autoridade, não pela verdade do que apresentam, mas pela consonância que seus discursos têm com as ideologias e os interesses daqueles que os usam. Aliás, verdade não é algo discutido. O que importa é a opinião vazia e, ao mesmo tempo, travestida de convicção fundamentada. 
Experimente ler três livros específicos sobre um assunto político ou religioso e depois leia algumas notícias. Você verá que se fala muita besteira e pouco ou nenhum conteúdo relevante. Na maioria dos casos trata-se de apenas de conveniência e perpetuação do politicamente correto ou do ideologicamente correto, em detrimento do que as coisas realmente são. Se com pouco conhecimento de caso é assim, imagine aqueles que dedicam anos a conhecer esses assuntos em voga nas suas fontes de informações favoritas.
Em uma entrevista concedida há alguns anos, Umberto Eco disse que as redes sociais deram voz aos idiotas. Ele complementou dizendo que também é um erro chamar especialistas em determinados temas para dar opinião sobre tudo, como acontece nas mídias atualmente. Ser especialista em algo não o capacita a falar seguramente sobre qualquer coisa. Há idiotas ignorantes e idiotas cultos e o que os iguala é a pretensão de que as afirmações sobre o que não está dentro de seus respectivos domínios de conhecimento possam ter o mesmo peso de autoridade.
Leia mais livros do que notícias. Leia as notícias com base nos conhecimentos adquiridos nos livros. Aprenda a escolher os melhores livros. Confie mais naqueles que falam a partir do conhecimento adquirido a duras penas. Fuja de opinadores.
*Prof. Dr. Miguel Angelo Caruzo
Filósofo. Escritor. Filósofo Clínico. 
Teresópolis/RJ

segunda-feira, 15 de maio de 2017

Pensar é transgredir*









Não lembro em que momento percebi que viver deveria ser uma permanente reinvenção de nós mesmos — para não morrermos soterrados na poeira da banalidade embora pareça que ainda estamos vivos. 
Mas compreendi, num lampejo: então é isso, então é assim. Apesar dos medos, convém não ser demais fútil nem demais acomodada. Algumas vezes é preciso pegar o touro pelos chifres, mergulhar para depois ver o que acontece: porque a vida não tem de ser sorvida como uma taça que se esvazia, mas como o jarro que se renova a cada gole bebido. 
Para reinventar-se é preciso pensar: isso aprendi muito cedo. 
Apalpar, no nevoeiro de quem somos, algo que pareça uma essência: isso, mais ou menos, sou eu. Isso é o que eu queria ser, acredito ser, quero me tornar ou já fui. Muita inquietação por baixo das águas do cotidiano. Mais cômodo seria ficar com o travesseiro sobre a cabeça e adotar o lema reconfortante: "Parar pra pensar, nem pensar!" 
O problema é que quando menos se espera ele chega, o sorrateiro pensamento que nos faz parar. Pode ser no meio do shopping, no trânsito, na frente da tevê ou do computador. Simplesmente escovando os dentes. Ou na hora da droga, do sexo sem afeto, do desafeto, do rancor, da lamúria, da hesitação e da resignação. 
Sem ter programado, a gente pára pra pensar. 
Pode ser um susto: como espiar de um berçário confortável para um corredor com mil possibilidades. Cada porta, uma escolha. Muitas vão se abrir para um nada ou para algum absurdo. Outras, para um jardim de promessas. Alguma, para a noite além da cerca. Hora de tirar os disfarces, aposentar as máscaras e reavaliar: reavaliar-se. 
Pensar pede audácia, pois refletir é transgredir a ordem do superficial que nos pressiona tanto. 
Somos demasiado frívolos: buscamos o atordoamento das mil distrações, corremos de um lado a outro achando que somos grandes cumpridores de tarefas. Quando o primeiro dever seria de vez em quando parar e analisar: quem a gente é, o que fazemos com a nossa vida, o tempo, os amores. E com as obrigações também, é claro, pois não temos sempre cinco anos de idade, quando a prioridade absoluta é dormir abraçado no urso de pelúcia e prosseguir, no sono, o sonho que afinal nessa idade ainda é a vida. 
Mas pensar não é apenas a ameaça de enfrentar a alma no espelho: é sair para as varandas de si mesmo e olhar em torno, e quem sabe finalmente respirar. 
Compreender: somos inquilinos de algo bem maior do que o nosso pequeno segredo individual. É o poderoso ciclo da existência. Nele todos os desastres e toda a beleza têm significado como fases de um processo. 
Se nos escondermos num canto escuro abafando nossos questionamentos, não escutaremos o rumor do vento nas árvores do mundo. Nem compreenderemos que o prato das inevitáveis perdas pode pesar menos do que o dos possíveis ganhos. 
Os ganhos ou os danos dependem da perspectiva e possibilidades de quem vai tecendo a sua história. O mundo em si não tem sentido sem o nosso olhar que lhe atribui identidade, sem o nosso pensamento que lhe confere alguma ordem. 
Viver, como talvez morrer, é recriar-se: a vida não está aí apenas para ser suportada nem vivida, mas elaborada. Eventualmente reprogramada. Conscientemente executada. Muitas vezes, ousada. 
Parece fácil: "escrever a respeito das coisas é fácil", já me disseram. Eu sei. Mas não é preciso realizar nada de espetacular, nem desejar nada excepcional. Não é preciso nem mesmo ser brilhante, importante, admirado. 
Para viver de verdade, pensando e repensando a existência, para que ela valha a pena, é preciso ser amado; e amar; e amar-se. Ter esperança; qualquer esperança. 
Questionar o que nos é imposto, sem rebeldias insensatas mas sem demasiada sensatez. Saborear o bom, mas aqui e ali enfrentar o ruim. Suportar sem se submeter, aceitar sem se humilhar, entregar-se sem renunciar a si mesmo e à possível dignidade. 
Sonhar, porque se desistimos disso apaga-se a última claridade e nada mais valerá a pena. Escapar, na liberdade do pensamento, desse espírito de manada que trabalha obstinadamente para nos enquadrar, seja lá no que for. 
E que o mínimo que a gente faça seja, a cada momento, o melhor que afinal se conseguiu fazer.
*Lya Luft

domingo, 14 de maio de 2017

A região singular*








                            
A estrutura de pensamento, mesmo quando desmerecida, possui propensões de ação, desenvolvimento. Assim criar, inventar, descobrir versões para decifrar-se no mundo, pode ter um quintal conhecível como ponto de partida. Talvez seja relevante saber mais sobre as estranhezas que vão chegando, seu caráter de anúncio.

Uma expressividade realçada no encontro das origens com os desdobramentos do cotidiano, um pouco antes de ser reconhecida, qualifica buscas pelo lugar ponto de partida, de onde as novas palavras pululam a transgredir vocabulários, acrescentando pronúncias, desvendando espaços de aparente invisibilidade. Nessa geografia subjetiva por onde prosperam ensaios, transitam inúmeras vontades ainda sem representação. Um desses lugares onde se antecipa o rumor das ruas.  
Nesse chão de imprevisibilidades a pessoa rascunha-se, reaviva interrogações esquecidas, concebe territórios. O processo existencial de cada um, ao escolher seu endereço preferencial acolhe sons, ruídos, imagens, convivências. Circunscreve termos agendados no intelecto, delimita seus horizontes. 
O ser singular nem sempre é refém desses convívios com a categoria lugar, algumas vezes o que prepondera é a categoria tempo, noutras a categoria interseção... Onde encontrar a chave desses recantos subjetivos? Não é raro a pessoa insurgir-se com essa condição onde se desencontra, sentindo-se desajustada, fora de foco. 
A possibilidade de conversação e aperfeiçoamento da singularidade costuma se associar ao local onde exercita seus dias. Existem ditos de aproximação e ditos de distanciamento. Onde encontrar o dicionário apropriado aos dialetos chegando? Aquilo que surge vagamente pode anunciar seus inéditos. Todo parto necessita de uma gravidez, um esboço da Fênix em prenuncio de renascimentos.
Um mundo de novidades aprecia a insinuação da palavra desconhecida. Um desses refúgios onde o sujeito vivencia suas crises para emancipar fronteiras. Seu percurso pela subjetividade assim estruturada expõe seus limites.   

O que faz de um território uma singularidade, é a integração de seus múltiplos labirintos tópicos. Uma visita nem sempre deliberada aos subúrbios e margens de si mesmo. Algo que, ao não ser compreensível de imediato, possa ser acolhido, admitido num rol de especulações e rascunhos preliminares.  
Essa nascente por onde as palavras articulam suas versões, ao ser uma aproximação entre o sujeito e seus deslocamentos existenciais, desagrega o lugar de conforto, contradiz o mundo conhecido, amplia fronteiras. Acrescenta, descobre, reinventa-se na interseção com o lugar onde acontece existencialmente. 
As falas de primeira vez apreciam desalojar exílios silenciados. Sua libertação acena horizontes pela fresta do olhar. Nesse sentido, as frases imprevisíveis, deslocadas no tempo, espaço, podem ser indício de expansão territorial. Bem assim os gestos desconhecidos, antecipando as novas ideias, pensamentos, atitudes. Um endereço subjetivo onde o sujeito se esboça para ser inédito.  
*Hélio Strassburger

sábado, 13 de maio de 2017

Fragmentos Filosóficos, Delirantes*


"A subjetividade, de fato, é plural, polifônica, para retomar uma expressão de Mikhail Bakhtine. E ela não conhece nenhuma instância dominante de determinação que guie as outras instâncias segundo uma causalidade unívoca"

"(...) é a mutação existencial coletiva que terá a última palavra! Porém os grandes movimentos de subjetivação não tendem necessariamente para um sentido emancipador"

"(...) pode-se dizer que a história contemporânea está cada vez mais dominada pelo aumento de reivindicações de singularidade subjetiva"

"Universos plásticos insuspeitados"

"O melhor é a criação, a invenção de novos Universos de referência; o pior é a mass-midialização embrutecedora, à qual são condenados hoje em dia milhares de indivíduos"

"(...) não se trata absolutamente de 'fases', no sentido freudiano, mas de níveis de subjetivação"

"O que importa aqui não é unicamente o confronto com uma nova matéria de expressão, é a constituição de complexos de subjetivação: individuo-grupo-máquina-trocas múltiplas, que oferecem à pessoa possibilidades diversificadas de recompor uma corporeidade existencial, de sair de seus impasses repetitivos e, de alguma forma, de se re-singularizar"

"(...) ou se objetiva, se reifica, se 'cientificiza' a subjetividade ou, ao contrário, tenta-se apreendê-la em sua dimensão de criatividade processual"

"(...) o consumidor se torna, de algum modo, co-criador"

"Por um longo período, o tempo foi considerado uma categoria universal e unívoca, ao passo que, na realidade, sempre lidamos apenas com apreensões particulares e multívocas"

"(...) invenção de novos focos catalíticos suscetíveis de fazer bifurcar a existência. Uma singularidade, uma ruptura de sentido, um corte, uma fragmentação, a separação de um conteúdo semiótico - por exemplo, à moda dadaísta u surrealista - podem originar focos mutantes de subjetivação"

*Félix Guattari in "Caosmose - um novo paradigma estético". Ed. 34. SP. 2000.

sexta-feira, 12 de maio de 2017

A gleba me transfigura* 








Sinto que sou abelha no seu artesanato.
Meus versos tem cheiro de mato, dos bois e dos currais.
Eu vivo no terreiro dos sítios e das fazendas primitivas.
(...)

Minha identificação profunda e amorosa
com a terra e com os que nela trabalham.
A gleba me transfigura. Dentro da gleba,
ouvindo o mugido da vacada, o mééé dos bezerros.
O roncar e focinhar dos porcos o cantar dos galos,
o cacarejar das poedeiras, o latir do cães,
eu me identifico.

Sou arvore, sou tronco, sou raiz, sou folha,
sou graveto sou mato, sou paiol
e sou a velha tulha de barro.

(...)

pela minha voz cantam todos os pássaros,
piam as cobras
e coaxam as rãs, mugem todas as boiadas que 
vão pelas estradas.

Sou espiga e o grão que retornam a terra.
Minha pena (esferográfica) é a enxada que vai cavando,
é o arado milenário que sulca.
Meus versos tem relances de enxada, gume de foice
e o peso do machado.
Cheiro de currais e gosto de terra.

(...)

Amo aterra de um velho amor consagrado.
Através de gerações de avós rústicos, encartados
nas minas e na terra latifundiária, sesmeiros.
A gleba está dentro de mim. Eu sou a terra.

(...)

Em mim a planta renasce e floresce, sementeia e sobrevive.
Sou a espiga e o grão fecundo que retorna à terra.
Minha pena é enxada do plantador, é o arado que vai sulcando.
Para a colheita das gerações.

Eu sou o velho paiol e a velha tulha roceira.
Eu sou a terra milenária, eu venho de milênios
Eu sou a mulher mais antiga do mundo, plantada 
e fecundada no ventre escuro da terra.
*Cora Coralina