sexta-feira, 2 de junho de 2017

Fragmentos Filosóficos, Delirantes*


"(...) Croce entendia originariamente que a representação de um drama ou a declamação de um poema eram obras novas e diferentes da obra original; tal como na tradução, também neste caso, após um 'primeiro momento' em que o ator ou o declamador evocava a obra originária, com base neste 'antecedente' ou 'ponto de referência', desencadeava o 'segundo momento', a tradução propriamente dita, expressão da personalidade do intérprete e, portanto, obra nova e 'novo canto'" 

"O estilo é o 'modo de formar', pessoal, irrepetível, característico; a marca reconhecível que a pessoa deixa de si na obra; e coincide com o modo como a obra é formada. A pessoa forma-se, portanto, na obra: compreender a obra é possuir a pessoa do criador feita objeto físico"

"A pessoa forma na obra a sua experiência concreta, a sua vida interior, a sua irrepetível espiritualidade, a sua reação pessoal ao ambiente histórico em que vive, os seus pensamentos, costumes, sentimentos, ideias, crenças, aspirações"

"E cada abordagem é um modo de possuir a obra, de a ver inteira e, no entanto, sempre passível de ser percorrida por novos pontos de vista"

"Existe ainda um ponto de vista que é científico no melhor sentido da palavra, precisamente porque exige que para cada fenômeno a pesquisa se faça com instrumentos adaptados à natureza do próprio fenômeno"

"(...) a Idade Média não é uma ilha histórica, mas uma dimensão do espírito"

"Uma constelação é, portanto, uma proposta de formas possíveis continuamente aberta"

"A arte contemporânea descobriu o valor e a fecundidade da matéria. Isto não quer dizer que os artistas de outros tempos ignorassem que trabalhavam a partir de um material, e não compreendessem que desse material advinham as suas limitações e sugestões criativas, obstáculos e libertações"

"Há alguns anos um antropólogo, Claude Lévi-Strauss, explicou de modo convincente esta operação e os seus pressupostos linguísticos: ao fim e ao cabo, quem reúne e expõe, evidencia objetos encontrados, faz um pouco como o bricoleur, artesão caseiro que por hobby utiliza peças tiradas de vários aparelhos, que originariamente tinham uma função, e insere-os numa nova estrutura, com um significado novo; faz uso dos significados originários dos objetos utilizados e, ao mesmo tempo, despreza-os e altera-os. É a máquina construída com peças de outras máquinas, utilizando velhos candeeiros, palitos, arames e parafusos que pertenciam a qualquer outra coisa. E o que daí resulta é sempre um mundo novo, um outro universo formal, no qual aquilo que tinha sido recolhido por acaso adquire agora uma dimensão necessária"

*Umberto Eco in "A definição da arte". Edições 70. Portugal. 1972. 

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