segunda-feira, 24 de julho de 2017

Ilusão*


“Ouvir meras fábulas talvez não seja o programa favorito de vocês – talvez queiram ouvir A VERDADE. Bom, se é isso que vocês querem, então é melhor procurarem outro lugar – mas juro pela minha vida que não posso dizer exatamente que lugar é esse.”  Paul K. Feyerabend

O momento em que começamos a pensar mais e mais sobre o mundo, sobre os mistérios que envolvem um mundo coerente e a incoerência que temos em vivenciá-lo. Todos vivem no mesmo barco, a nau do mundo é a mesma no plano teórico no que concerne ao corpo, na relação do corpo com o mundo.

Como proferiu Feyerabend em uma de suas últimas conferências, “Ademais, os cientistas, os senhores da guerra, os esfomeados e os abastados são todos seres humanos”. Existe uma ponte imaginária nesta minha perspectiva, pois, se estou a pensar em português (ironia da reflexão), é a busca cotidiana de conhecer a natureza do mundo.

Não há pretensão nisso, a pior arrogância e delimitar o pensamento em uma representação do pensamento apenas especializado. Quando nos deparamos, por exemplo, com a dor, quando ficamos dias e dias na insônia, quando a produção diária e a queima de energia é melhor que deitar, é quando penso: estamos num dilema, ou salvamos a razão, ou aprimoramos a vida.

Uma maneira básica de começar, quando se chega a meio século, é naturalmente intensificar o movimento, principalmente do corpo. Mesmo assim somos traídos por uma cultura racional instintiva da modernidade que é o consumo desenfreado. Em todas as áreas e partes misturamos o que é bom e o que é ruim, somos iludidos por nossas ações, mas muitas vezes, nos recuperamos diante do inesperado que sempre aparece, seja, no acordar cedo para ir mover-se na água, na quadra, nas ruas, no campo aberto etc.

Nem estou pensando em Descartes na sua moral em dizer que a realidade está objetivamente em suas causas. Pretérito, meu caro. A reflexão vem sim, distante, de uma melhor descrição coerente de tudo existe. Platão fazia, então, precisamos nos aprimorar sobre o que existe, sempre foi assim, acontece que hoje existem formas de ir por estes caminhos.

Uma alternativa, a circularidade de uma hermenêutica oriental, outros roteiros que possam envolver o corpo e a mente. Não sou adepto do experimentalismo por ser um homem do meu tempo. Adeptos ou não, o mundo bem que podia se conectar de forma mais harmoniosa, mas é tão difícil quando nem mesmo ainda temos a capacidade de recomeçar do nada e fazer as coisas todas num só dia. Depois, voltar a pensar sobre tudo, ou esquecer tudo para não perder o outro dia que está prestes a nos acordar.

*Prof. Dr. Luis Antonio Paim Gomes
Filósofo. Editor. Livre Pensador.
Porto Alegre/RS

domingo, 23 de julho de 2017

Fragmentos Filosóficos, Delirantes*


"Como se visse alguém beber água e descobrisse que tinha sede, sede profunda e velha. Talvez fosse apenas falta de vida: estava vivendo menos do que podia e imaginava que sua sede pedisse inundações."

"(...) encontro a maior serenidade na alucinação"

"Queria saber: depois que se é feliz o que acontece? O que vem depois? - repetiu a menina com obstinação"

"E havia um meio de ter as coisas sem que as coisas a possuíssem?"

"(...) para nascer as coisas precisam ter vida" 

"Já agora nem sabia se vira o céu por si mesma como quem vê o que existe ou se pensara em céu e conseguira inventá-lo"

"(...) a praça de pedra se perdeu entre os gritos com que os carroceiros imitavam os animais para falar com eles"

"(...) a vida que se leva por dentro não é a vida terrena"

"Toda a parte mais inatingível de minha alma e que não me pertence - é aquela que toca na minha  fronteira com o que já não é eu, e à qual me dou. Toda a minha ânsia tem sido esta proximidade inultrapassável e excessivamente próxima. Sou mais aquilo que em mim não é"

"Vivia de coincidências, vivia de linhas que incidiam e se cruzavam e, no cruzamento, formavam um leve e instantâneo ponto, tão leve e instantâneo que era mais feito de segredo"

*Clarice Lispector in "Clarice na cabeceira - Organização de José Castello". Ed. Rocco. RJ. 2011.  

sábado, 22 de julho de 2017

Conjugações existenciais*














Existe um lugar onde é possível reinventar-se em vida. Nesse refúgio intersubjetivo é crível desfazer e refazer as coisas, segredar vontades, qualificar ensaios existenciais, traduzir sonhos. Num contexto de significação flutuante, ampliam-se horizontes numa arte do encontro.

Em um espaço de acolhimento, cultivo, reciprocidade, as narrativas compartilhadas sugerem uma hermenêutica do estar junto. Atiça expressividades na integração das incompletudes. Em busca de fluência discursiva, ao instituir um novo território, aponta originais no ângulo fugaz do instante.

Algo mais acontece quando duas ou mais pessoas se encontram. Seu teor de abrigo é um farol na solidão dos exílios. Sua matéria-prima é a afinidade das palavras, por onde um extraordinário encontro se realiza. Com essa integração provisória da malha intelectiva, institui-se um chão para se ousar o não pensado, cogitado, tentado.

 Nessa reunião de vontades, acessada numa determinada sintonia, é possível transcender em direção ao outro. Em um empreendimento comum, emancipam-se os limites da singularidade, institui-se um diálogo com as lógicas da diferença. Na unidade provisória de um talvez, é possível localizar ilegibilidades. Ponto de partida a descrever vontades, traduzir representações.

Para essa exploração compartilhada reivindica-se, preliminarmente, uma disposição fenomenológica e a hermenêutica compreensiva. A partir da adequada leitura da estrutura de pensamento, é possível elucidar equivocidades discursivas, esboçar uma estética a cultivar afinidades. Mais que entendimento, propõe uma atitude de inclusão e partilha. Aqui se trata de conjugar como elaborar, prosperar. Reivindica-se o acesso aos possíveis e inacreditáveis eventos.

Nesse sentido, sua junção concede visibilidade aos tempos verbais desconsiderados. Seu teor de novidade, ao ser desenvolvimento interpessoal, qualifica processos de libertação criativa. As conjugações existenciais possuem fluidez nas pronúncias no viés da interseção. Com a desconstrução dos isolamentos, tendo como ponto de partida o texto silenciado, insinuam-se rituais de novidade. Neles um significado inédito se reapresenta na perspectiva dos encontros.

*Hélio Strassburger

sexta-feira, 21 de julho de 2017

Onde anda você ?*


Às vezes escrevo para te lembrar
Por onde tu andas ,agora,
Minha pequena amada?
Seus passos por onde passam
Que não cruzam mais com os meus?
Minh'alma sabia desde sempre
Então te pintei na ponta
Da estrela da manhã
Pendurei teu nome
Na ponta da lua crescente.
Quando de longe te vi
Logo de saída percebi
Que em mim também pensavas
A harmonia da natureza
Perdeu com o fim do nosso amor.
Bateu mais forte meu coração
Meu corpo sentiu uma vertigem
Ah, teu canto, tua dança
Teus lábios se abrindo
Neste teu riso tão limpo.
Ah, traga-me de volta o teu abraço
Compramos uma charrete cheia de flores
Com dois cavalos alados brancos
E andamos pela Rua da Praia...

*José Mayer
Filósofo. Livreiro. Poeta. Especialista em Filosofia Clínica.
Porto Alegre/RS

quinta-feira, 20 de julho de 2017

Do bom, belo e aparentemente justo*


Maria tanto amava que ardia..
Mas até o último suspiro negaria...
Era direita, a Maria.
Só que todo santo dia numa saída ela pensava
Bolava, rebolava, revirava.
Nem mais dormia, a Maria.
Ainda honesta,
enlouquecida, definhava..
(nada bom) 

Foi então que conheceu Teresa.
Era bem puta, a vadia.
(faria o que o Zé gostava
que era também o que queria)
(o duplamente bom) 

Maria deu ao Zé , de presente, a Teresa
E a si própria, deu João e deu ao João...
Zé ficou alegre de repente.
Cantarolava. Assobiava. Até sorria!
Trazia flor pra Maria.
Comprava carne de primeira.
Vestido novo de chitão...
Nem cogitava um João!!!
(mas era justo, justíssimo!)

Enquanto isso a Maria
Agradecida ( e direita )
Trabalhava à tarde
E à noite dormia.
Cansada e feliz
Com o seu Zé, a Teresa
E com João., a Maria!
(bonito, muito bonito, dona Maria!)

"Quem em prol da sua boa reputação, não se sacrificou já uma vez a si
próprio?" (Nietzche)

*Aila Magalhães

quarta-feira, 19 de julho de 2017

Leitor anarquista da Filosofia Cristã*

       
“Quer dizer, no momento em que adentramos o espaço da memória, entramos no mundo.”**
Paul Auster

Gosto de ler os filósofos cristãos, principalmente os dos séculos XIX e alguns do XX. Assim, ao lê-los aprendo mais do que muita ironia vã da ignorância religiosa e fanática sobre Deus. Sou de fato um ser em movimento, mas o que nunca deixou-me impressionar é a latência reflexiva dos moralistas ao tratar da vida como se ela tivesse uma base sólida para todas os questionamentos. 

Escamotear a existência em nome de um ser superior. De fato, a vida é onde tudo se inicia e tudo se perde no fim. O acontecimento tem seu apogeu. Os observadores mais atentos, os desavisados e dispersos, porém atentos, a todos que param um pouco para apenas sentir e deixar o tempo passar ou ficar parado no ato de pensar. Éttienne Gilson escreveu:

O pânico que parece se apoderar dos apologistas sempre preocupados em não perder o último navio, é algo que lhes é natural, mas não deixa de ser inútil. Não há último navio. Da popa daquele no qual você embarcar, você verá outros três ou quatro se preparando para partir.***

Ou seja, prefiro a reflexão inteligente do que ardor de uma crença, de uma outra ordem de religião. Isso se aprende ao longo dos tempos. Quantos Tempos existe quando vive em uma só vida? Depende, não da crença, a meu ver, da capacidade que se tem de encarar a realidade sem temer que a ordem das coisas não gerida pelo fervor de uma crença, mas por circunstâncias que envolvem essa vida.

No caso dos exegetas, daqueles que dedicam sua vida a interpretar, a eles meu profundo respeito, mas nem com todos me sentaria para conversar, ouvi-los. Porque se tem algo que me deixa numa profunda dislexia é o tom professoral, é querer dar aula no mais alto grau da tonalidade e expressão teatral de um professor. Isso me tira do sério, então, prefiro conversar com os livros. 

O Éttinne Gilson é meu companheiro por excelência. Com ele aprendi a ler melhor textos filosóficos, a ouvir e, principalmente, recusar verdades e tons pseudo educadores de alguns seres monocórdios. No final da última página de um Gilson, acredito cada vez menos na luz duradoura de uma Verdade única.

*Prof. Dr. Luis Antonio Paim Gomes
Filósofo. Editor. Livre Pensador.
Porto Alegre/RS

** A Invenção da Solidão. Paul Auster. Companhia das Letras, 1999.
*** O Filósofo e a Teologia. Éttinne Gilson. Paulus, 2012.

sexta-feira, 14 de julho de 2017

Fragmentos Filosóficos, Delirantes*


"O excesso é simplesmente revelador de um estado de espírito latente"

"(...) existe uma interação entre a 'força vital própria' de um determinado indivíduo e as 'circunstâncias exteriores', ou seja, as determinações impostas pelo destino"

"(...) da relação entre a subjetividade individual e a importância do meio, de qualquer ordem que seja"

"Acrescentarei que o redobramento é a marca simbólicas do plural. Por isso, cada um torna-se um outro. Comunga com o outro e com a alteridade em geral"

"(...) nenhum problema é definitivamente resolvido, mas que encontramos, pontual e empiricamente, respostas aproximadas, pequenas verdades provisórias, postas em prática no cotidiano, sem que se acorde um estatuto universal, oralmente válido em todo lugar, em todo tempo, e para cada um"

"Há aqui uma antinomia de valores que merece ser pensada: a morosidade do instituído, a alegria do instituinte. Antinomia que se manifesta, cada vez mais, com toda clareza, em particular nas voracidades festivas, no culto ao corpo, na exacerbação da aparência, tudo, certamente, fundado sobre a saturação do projeto longínquo e a celebração de uma espécie de instante eterno"

"O excesso sobrevém como uma vibração que legitima e dá sentido à monotonia cotidiana. A transgressão e a anomia necessitam de limites, ainda que seja somente para serem ultrapassadas"

"O bárbaro já não se opõe ao civilizado, é um de seus componentes mais fecundos. Essa conjunção é, sem dúvida, a marca essencial da pós-modernidade"

*Michel Maffesoli in "O instante eterno - O retorno do trágico nas sociedades pós-modernas". Ed. Zouk. SP. 2003. 

quinta-feira, 13 de julho de 2017

A festa e o trem*


Peregrinando vou contemplando
Pássaros e flores
Lagos e caminhos
Cabelos brancos feito algodão
Peregrinando vou sentindo
Perfumes e sabores
Arrepios de tantas belezuras
Gente sem pressa sorrindo
Peregrinando vou admirando
O simples e o complexo
A luz e a sombra
As pinturas e a natureza
Porque é verão aqui em Stresa
O trem chega
O trem parte
E tudo se faz festa

*Dra. Rosângela Rossi
Psicoterapeuta. Escritora. Filósofa Clínica
Juiz de Fora/MG

quarta-feira, 12 de julho de 2017

A serpente que nos seduz/conduz/traduz*


      Eva era uma mulher metódica e compulsiva, para ela as coisas deveriam ser pretas ou brancas, oito ou oitenta. Não havia meio termo. As pessoas eram solteiras ou casadas, amigos ou namorados. Ignorava situações como “ficante”, “peguete” ou “amizade colorida”, que seriam representadas pela cor cinza. Para ela, cinza era uma mistura de cores, uma situação indefinida, uma transição para o autêntico. Nada a ver. As situações da vida precisavam ter cor definida, rótulo e se possível, carimbo de autenticação. Preto ou branco, solteiro ou casado, amor ou nada.

      Conheceu Adão em uma festa, trocaram telefones, conversaram bastante durante três semanas, sentiram vontade de se ver mais uma vez e marcaram um encontro para a sexta feira seguinte. Gostaram tanto um do outro, que combinaram  sair de novo no sábado. No domingo, beijaram-se. Ao se despedir, no portão de casa, Eva perguntou se estavam namorando, pois para ela, amigos não se beijam. Preto era sinônimo de amigo e branco significava namorado.

     Adão, surpreso com a cobrança, argumentou que ainda estavam se conhecendo, já considerava Eva mais que uma amiga, porém menos que uma namorada. Era muito cedo para assumirem um namoro. Eva ficou confusa, pois não conhecia aquela cor, era um cinza muito escuro, quase preto. Perdeu até a vontade de beijar. Comunicou que diante do exposto, seriam apenas bons amigos virtuais, não trocariam mais carinhos e retornou para seu branco existencial.

        Pressionado, Adão assumiu o namoro, mas foi logo avisando que terças feiras jogava futebol com os amigos, quartas frequentava a maçonaria, quintas tinha plantão no hospital e sábados, cuidava da mãe, que era doente. Namorariam na segunda e na sexta feira à noite. Domingos iriam juntos à igreja e passariam a tarde juntos.

      Eva entendia que namoro significava quartas, sextas, sábados e domingos juntos. Além disso, tinha outro credo religioso. Mais uma vez, seu branco pretendido não tinha nada a ver com o preto de Adão, surgindo um cinza escuro, diferente do anterior, mas ainda muito longe da tonalidade pretendida. Perdeu um pouco do entusiasmo, mas decidiu experimentar esta forma rasa e descolorida de namoro.

      Em poucas semanas o namoro começou a ficar confuso demais para Eva, que cobrou a presença mais efetiva de Adão na relação. Este alegava que o importante era a qualidade dos encontros e não a frequência, mas para ela aquilo não era preto nem branco e preferiu terminar de vez, apagando aquela cor estranha de sua vida. Disse ainda que não seriam nem mais amigos, pois ela o desejava como namorado e não tinha mais condições de manter a amizade.

        Certo dia, na tela preta imaculada de seu computador, Eva recebe uma mensagem de Adão pedindo para se encontrarem. Recusou, mas disse que poderiam conversar por mensagens. Aquilo representava apenas uma manchinha cinza, muito clara em seu preto existencial.

       Logo as conversas esquentaram, foram clareando a tela de Eva, que pressionou mais uma vez Adão. Voltariam a namorar desde que ele largasse o futebol e a maçonaria. Ainda não era o branco desejado, mas Eva já respirava mais aliviada.

        Durou pouco tempo esta fase mais clara. Adão quis fazer sexo, Eva pretendia casar virgem e de branco. Acinzentou tudo. Sexo antes do casamento era uma nuvem cinza muito feia, uma tempestade sujando seu vestido branco. Terminaram o namoro, Eva queimou as fotos do casal, devolveu os livros que estavam em sua casa, e solicitou que ele nunca mais a procurasse. Quase o expulsou de casa. Demorou uns dias, o cinza foi sumindo, porém nunca mais o branco nem o preto de Eva foram os mesmos.

        Ainda tentaram mais algumas vezes transformar o preto no branco sonhado por Eva, mas ela não conseguia suportar os tons cinza da transição. Adão se esforçava, mas não sabia como fazer, não era pintor, tampouco mágico. Sua natureza acabava sempre escurecendo o branco sonhado por Eva, que com o tempo já era desbotado e sujo. Eva sonhava com o paraíso, mas estava longe disso.

        O tempo passou e um belo dia o destino aprontou. Uma serpente muito esperta, explicou a Eva que o branco e o preto, convencionalmente designados por cores, nada mais são que o resultado da presença ou ausência de luz, que em sentido figurado significa conhecimento, sabedoria, tranquilidade, amor.  Não eram cores autênticas. O branco é a luz pura, onde há uma mistura total das sete cores e, o preto, a ausência total de luz. 

       Além disso, a serpente explicou o conceito de Yin e Yang no taoísmo. Duas forças opostas que expõem a dualidade de tudo que existe no universo. Estes dois pólos arquetípicos são representados pelo branco e preto, claro e escuro, representando o inflexível e o dócil, o acima e o abaixo. No entanto, não existe simetria estática no diagrama. As cores estão em um constante movimento cíclico. Dentro do pólo branco, existe um pequeno ponto preto, e no polo negro, um pequeno ponto branco fazendo o contraste, e simbolizando a ideia de que, toda vez que uma das forças atinge seu extremo, manifesta dentro de si a semente de seu oposto.

     Complicou demais a cabeça de Eva. Preto e branco, que sempre foram seus limites para a vida, deixaram de ser referência e até mesmo cores.  O preto em que antes vivia, agora significava uma ausência de cor, de luz e de amor.  O branco que sonhara seria uma mistura e não a pureza imaginada?

      Estonteada, confusa, Eva perdeu o sono. Não sabia mais no que acreditar. Andou um tempo sem rumo, tropeçou, caiu na cama de Adão. Este a acolheu, envolveu em seus braços, manchou seu vestido existencial de vermelho. Eva entregou-se e nunca mais foi a mesma. Virou mulher, finalmente. Adão também nunca mais foi o mesmo, transformou-se em companheiro. Estão felizes. Às vezes é preciso fechar os olhos para clarear a visão e perder o rumo para encontrar o sentido.  Conduzidos pela serpente, Adão e Eva retornaram ao paraíso, um lugar onde todas as cores combinam e os preconceitos se calam.

*Ildo Meyer
Médico. Escritor. Palestrante. Mágico. Filósofo Clínico
Porto Alegre/RS

terça-feira, 11 de julho de 2017

Convite*

Não sou a areia
onde se desenha um par de asas
ou grades diante de uma janela.
Não sou apenas a pedra que rola
nas marés do mundo,
em cada praia renascendo outra.
Sou a orelha encostada na concha
da vida, sou construção e desmoronamento,
servo e senhor, e sou
mistério

A quatro mãos escrevemos este roteiro
para o palco de meu tempo:
o meu destino e eu.
Nem sempre estamos afinados,
nem sempre nos levamos
a sério.

*Lya Luft

segunda-feira, 10 de julho de 2017

De onde vem isto que é ?*


A gente acaba falando de uma coisa
Para falar de uma outra bem diferente.
O que é isto
Que nos faz humanos
E nos diferencia
Dos outros animais?
O que é isto
Que nos torna sublimes
E nos eleva na prática
Do bem-querer e do amor?
E o que é esta outra coisa
Que nos joga e rebaixa
Causando ao nosso redor
Malevolência e desamor?
Duas forças nos habitam:
Eros e Thanatos
Amor e Ódio
Laços de Vida e de Morte
Luzes e Sombras.
Sabe aqueles círculos
Que se formam ao redor
De uma pedra que se joga
N'água de um lago...??
O que é isto que dói
Na gente, por vezes,
E não precisaria doer?

*José Mayer
Filósofo. Livreiro. Poeta. Filósofo Clínico
Porto Alegre/RS

domingo, 9 de julho de 2017

Retrato*


Eu não tinha este rosto de hoje,
Assim calmo, assim triste, assim magro,
Nem estes olhos tão vazios,
Nem o lábio amargo.

Eu não tinha estas mãos sem força,
Tão paradas e frias e mortas;
Eu não tinha este coração
Que nem se mostra.

Eu não dei por esta mudança,
Tão simples, tão certa, tão fácil:
- Em que espelho ficou perdida
a minha face?

*Cecília Meireles

sábado, 8 de julho de 2017

Uma metafísica dos refúgios*


“Deram-me um corpo, só um! Para suportar calado, tantas almas desunidas, que esbarram umas nas outras.”
                                                         Murilo Mendes

Um íntimo estranhamento chega à superfície na forma de dizer desencontrado. O gesto inseguro, a voz trêmula, a lágrima bailarina, parecem traduzir a indefinição em curso dentro de si. Em nuanças de antigas vivências, a linguagem faz voltar o que parecia esquecido.

Ao descrever invisibilidades seu olhar insinua um caminho às mil mensagens interditas. A contenção física não fora capaz de desarrumar o caos precursor, aliás, amarrar o corpo serviu para liberar a alma.

O espanto inicial multiplica os acessos a essa nascente. Através das miragens, franjas e detalhes quase imperceptíveis descrevem-se num parágrafo maldito. O movimento especulativo se disfarça de realidade para insinuar segredos. Demonstra-se em trajetos pelos labirintos de si mesmo. Assim uma alma, exilada em um corpo refém, transcreve um sonho acordando.

As dialéticas do instante denunciam algo inesperado. Desatino e imprecisão a tentar decifrar essas rotas para si mesmas. Talvez a historicidade compartilhada possa adentrar a fronteira onde a pessoa se internou.

Nessa fonte de imprevisibilidades a leitura nem sempre se dá à primeira vista. Os ânimos de excesso podem ser fonte de contágio, um hiato a se refugiar na própria fundamentação. Um dialeto intraduzível permanece grávido de originalidades. Essa fonte onde nasce a palavra se alimenta do próprio laboratório existencial.

Anotações à margem do texto dão conta de uma dessintonia com a palavra bendita. As vozes do traço silenciado expressam o indisponível, por onde transitam os ecos da vida antiga. Uma interseção da essência com a existência no teor discursivo delirante. Um convívio assim busca ampliar o velho dicionário da singularidade. Sua decifração, ao rascunhar geografias indeterminadas, escolhe um cúmplice de raridades para se mostrar.

Sua apresentação esboça uma metafísica dos refúgios. Um lugar onde pensar e dizer se integram. Acontecem na realidade imperfeita do cotidiano. Intencionalidade na estética dos exploradores de amanhãs. Enquanto isso, esse habitante de lugar nenhum parece referir mais do que se possa entender.

A periferia de alma nova aprecia oferecer milagres no meio da rua, sugerir um logos nem sempre conhecível à primeira vista. Quando uma pessoa se coloca a pensar, numa perspectiva desajustada, modifica-se e desarruma o mundo inteiro ao seu redor. Interseção sensível a reivindicar, em seus rumores, a pessoa sem maquiagem. Reminiscências onde dizer e desdizer integram seus paradoxos.

Ao perseguir uma poética da descontinuidade, é fundamental o inacabamento das coisas. A língua desconhecida desses prefácios sugere a incompletude em busca de preenchimento. Um desses lugares onde a loucura de toda lucidez se apresenta na equivocidade de ser sempre a mesma.

*Hélio Strassburger 

sexta-feira, 7 de julho de 2017

Elegia Simultânea*

“Uma melodia que ouvimos de olhos fechados, pensando apenas nela, está muito perto de coincidir com esse tempo que é a própria fluidez de nossa vida interior...”
Henri Bergson

Todo mês um dia, o ano que se aproxima,
Uma vida distancia-se,
flor explode o coração no ensaio que dos olhos firmes,
espanta solidão, todo mês a mesma via.
Todo ano que chega ao fim, uma dor se aproxima,
uma vida a discorrer, um poema de interlúdio,
todas as notas, todas as músicas, fim do mundo.
Todos os lugares no coração, um ser que viaja,
viver no sol da Andaluzia, frio da Serra da Estrela,
um dia entre o céu e o pensamento, ruas e destino.

Todas as edificações e o Distrito da Guarda, o alto dos morros,
Viver a luz de Lisboa, a ribeira do Porto,
aos trilhos entre Paris e o Mediterrâneo.
Todo o dia a luz a acordar, vê sonhos pintalgados a serpentear extensão do corpo.

O espreguiçar da vida, uma roda de turbante, os passos, entre trens, a nuvem leva a nado o corpo que vive entre águas.
Toda manhã, a sombra desce a montanha,
ao lado de sua companheira, dois passos, um gole, a vida e o rio desce o pouco que pode ainda – Pensamento.

O que não tem espaço em teu heraclitiano lastimoso de lágrimas e música desce correntezas. 
Dois a observar o mundo: passa o tempo, nem a morte os alcança.
Deus do inverno é o mesmo do castigo que incendeia o corpo congelado.
Estão, num outro nível de prazer, disse-me a voz misteriosa –

“Descem o rio - no corpo de um barco criado na ilusão dos mortais, eles afundam, cada dia de minha vida num espelho. A verdade vem das águas.”

*Prof. Dr.Luis Antonio Paim Gomes 
Filósofo. Editor. Livre Pensador.
Porto Alegre/RS

quarta-feira, 5 de julho de 2017

Fragmentos Filosóficos, Delirantes*


"(...) um teólogo alemão que, em princípios do século XVII, descreveu a imaginária comunidade da Rosa-Cruz - que outros fundaram mais tarde, à semelhança da que ele preconcebera"

"Todo estado mental é irredutível: o mero fato de nomeá-lo, de classificá-lo, implica um falseamento"

"Os metafísicos de TlOn não buscam a verdade nem sequer a verossimilhança: buscam o assombro. Julgam que a metafísica é um ramo da literatura fantástica"

"A base da geometria visual é a superfície, não o ponto. Esta geometria desconhece as paralelas e declara que o homem que se desloca modifica as formas que o circundam"

"Um livro que não inclua seu contralivro é considerado incompleto"

"Inútil responder que a realidade também é ordenada. Talvez seja, mas de acordo com leis divinas - traduzo: com leis inumanas - que nunca chegamos a perceber inteiramente"

"Pensar, analisar, inventar não são atos anômalos, são a respiração normal da inteligência"

"Conheci o que os gregos ignoram: a incerteza"

"Para perceber a distância que existe entre o divino e o humano, basta comparar estes rudes símbolos trêmulos que minha mão falível rabisca na capa de um livro, com as letras orgânicas do interior: pontuais, delicadas, negríssimas, inimitavelmente simétricas"

"Depois refleti que todas as coisas sempre acontecem precisamente a alguém, precisamente agora. Séculos de séculos e só no presente ocorrem os fatos"

"Logo refletiu que a realidade não costuma coincidir com as previsões; com lógica perversa inferiu que prever um detalhe circunstancial é impedir que este aconteça"

*Jorge Luis Borges in "Ficções". Ed. Cia das Letras. 2007. SP.  

terça-feira, 4 de julho de 2017

Cristal Multifacetado*


Meu grito de liberdade criou eco...
Posso ser eu mesma em tudo!
Criar a minha moda.
Construir meu método terapêutico: FiloNeuroTerapiaHolística
Escrever com minha alma
Falar o que penso sem copiar
Agir de acordo com meus princípios.
Sair do Jogo de Dados político
Inverter o relógio e pintar minha história
Ah! Aos 66 anos tudo é permitido!
Posso ser artista de minha vida
Não preocupar com os julgamentos(projeções)
Não dar bola a crítica (ilusão de poder)
Analisar através da investigação dialógica
Ser cristal multifacetado
Sem perder a essência de mim!
Uau!

Dra. Rosângela Rossi
Psicoterapeuta. Escritora. Filósofa Clínica
Juiz de Fora/MG

segunda-feira, 3 de julho de 2017

Fragmentos Filosóficos, Delirantes*



"É possível, no entanto, que em tudo isso que está impensado subsista um nexo encoberto"

"Quanto mais poético um poeta, mais livre, ou seja, mais aberto e preparado para acolher o inesperado é o seu dizer"

"A arte do poeta consiste em desconsiderar o real. Em lugar de agir, os poetas sonham"

"Pequeno distanciamento ainda não é proximidade, como um grande afastamento ainda não é distância"

"Todo pensamento essencial atravessa incólume o cortejo dos prós ou dos contras"

"Se os grandes pensamentos sempre chegam com os pés do silêncio, muito mais ainda é o que acontece com a transformação da vigência de todo vigente"

"É o poético que leva a verdade ao esplendor superlativo (...) o que sai a brilhar da forma superlativa. O poético atravessa, com seu vigor, toda arte, todo desencobrimento do que vige na beleza"

"Não foi Platão que fez com que o real se mostrasse à luz das ideias. O pensador apenas respondeu ao apelo que lhe chegou e que o atingiu"

*Martin Heidegger in "Ensaios e conferências". Ed. Vozes. 2002. Petrópolis/RJ.

domingo, 2 de julho de 2017

Incompletudes*


Deitei-me no colo
Do frágil caniço da noite.
Quem não sabe
Que tornar-se livre
Era uma coisa fácil
Tomar o controle
Desse ser vivo
Era outra coisa.
Afinal, nossa vida é
Apenas uma sucessão
De primeiros momentos
E de momentos últimos
Por isso mesmo estamos
Nos acabando a todo momento
Mas nunca terminando
O nosso fim.
No final das contas
Nada estará perdido
Se tivermos a coragem
De proclamar bem alto
Que tudo está perdido
E que devemos começar
Tudo de novo...

*José Mayer
Filósofo. Livreiro. Poeta. Filósofo Clínico
Porto Alegre/RS