sábado, 31 de julho de 2010

Entrar na singularidade existencial


Vânia Dantas
Filósofa Clínica
Uberlândia/MG


Os rituais intuitivos se realizam na mente; nela são revisitados espaços mágicos por onde passamos, onde estiveram duendes, os elementais da natureza, por entre os troncos estreitos de árvores adolescentes ainda um pouco verdes no cerrado de inverno.

Estão lá, na baixada da capoeira de nosso altiplano rodeado de represas. Muita terra se vira em poeira e repousa nos sapatos, no rosto e faz parte de nós pela respiração.

A conexão do chacra raiz com a terra se faz, seja pelos pés bem fincados no chão, seja na postura de lótus, absorvendo do cosmos o “Segredo” ou na manipulação da energia. Tai chi chuan, aikidô, I ching.

A ecologia do corpo vincula-se à natureza alquímica. Absorver o brilho pelo olhar, captar as temperaturas do ar pela pele, conhecer a umidade pelas narinas; sentir em tudo o cheiro, o perfume, o ondear das nuvens, os cochichos do mar, as energias impregnada nos papéis de parede das casas de outrora que hoje são clínicas. Esse instante é eterno.

O coração palpita. A uma grande distância, ele ainda se transporta para as paisagens paraíso. Lá o ritual acontece, com vestes brancas. A inspiração da natureza faz o corpo girar em repouso. O ser se conecta ao todo, é o universo. As árvores são mais belas que as estátuas, pois flexíveis.

As metáforas verbais passam a se iniciar na voz em momentos inspirados; assim é o amor em expansão. De memória, os versos se tornam letras, talvez acalentem os sonhos de alguém, talvez lhe diga de uma vida que canta e o chame para um uníssono.

Nas aulas de pós-graduação, estivemos em danças circulares, mas não o percebemos. Nossos destinos voltam a convergir como há décadas, nos reencontramos com várias pessoas; o destino bate a porta, a roda recomeça. O que há a resolver? Vivamos o desafio: tomemos outros caminhos.

sexta-feira, 30 de julho de 2010

O OLHAR QUE BEIJA

Ildo Meyer
Médico e Filósofo Clínico
Porto Alegre/RS


O poder da mídia é inquestionável e ao mesmo tempo assustador. Através de mensagens diretas ou subliminares, recebemos em média trezentas sugestões diárias de como tornar nossa vida melhor e sermos mais felizes.

Quase todas indicando dois endereços bem pontuais: consumo e beleza física. Quanto maior a capacidade de consumo e proximidade da perfeição estética, maior também será o grau de satisfação pessoal e a admiração dos outros.

Certo ou errado? A pretensão aqui não é entrar no mérito dessa discussão, apenas comentar as
implicações desses comportamentos nas relações afetivas.

Uma mentira repetida mil vezes pode acabar parecendo verdade. Depois de bombardear o público durante um mês com o comercial do pop-star vendendo determinado produto ou estilo de vida, a mensagem acaba sendo assimilada e o desejo de compra passa a ser uma consequência lógica. É mais ou menos assim que somos induzidos à mudança de hábitos ou comportamentos.

Quase tudo nos é oferecido de maneira instantânea, com promessa de satisfação imediata. Cada vez mais as pessoas utilizam seu tempo livre para navegar em sítios de compras, de sexo explicito, salas de bate-papo, interagindo apenas virtualmente. Um olho no monitor e outro no teclado, buscando o imediatismo, o já, o agora.

Esta instantaneidade invadiu também as relações afetivas, uma vez que a escolha do sujeito da cobiça amorosa tem se restringido a um simples passar de olhos, um relance, com vista apenas, na maioria das vezes, em patrimônio, medidas de busto, coxa e quadril.

Um outro tipo de olhar foi esquecido. Aquele olhar que não tem pressa, porque sabe que vai precisar de tempo para atravessar a retina, sondar a alma, devassar os segredos, deixar seu recado e buscar o brilho ou a escuridão do retorno.

Enquanto a pupila de um vai pedindo licença, a do outro vai dilatando, e vão se deixando conhecer, abrindo passagem, esquentando, querendo, gostando, encaixando. E ‘clac’.

Sustentar o olhar do outro não é para qualquer um, ou quaisquer dois. É preciso parceria, a verdade de um olhar encontrando eco na verdade do outro, e novamente refletindo para dentro de cada um.

Notem como hoje se tornou mais fácil beijar, tirar a roupa, se deixar
tocar, ficar, comprar, viajar, fazer cirurgia plástica do que sustentar por mais de dez segundos o olhar de alguém. Ao que tudo indica, nesta nova ordem da instantaneidade e felicidade comprada, pode-se adquirir, mostrar e tocar quase tudo, menos o olhar.

Qual seria, então, a parte mais sedutora e, se tivesse preço, mais cara do ser humano hoje em dia? Sem dúvida que seriam os olhos. Aquele olhar de quem se entrega, conseguindo assim falar melhor que a boca, escutar além das palavras, sentir acima e abaixo da pele e enxergar bem mais que as aparências.

Quando esse brilho atinge o outro, é chegada a hora de fechar as pálpebras e deixar que os lábios se busquem, para de outra forma enxergar o que os olhos já haviam visto.

Beijar sem antes olhar fundo é como comprar no escuro. É um beijo roubado. Beijar com a luz apagada, então, é um assalto. Beijar de olhos fechados só tem sentido se antes houver o espelhamento das retinas. Encarar antes e depois de um beijo é um prazer tão grande, que talvez palavras não consigam expressar, mas chega a ser melhor que o próprio beijo.

Enfim, acertar o foco é uma questão de tempo, direcionamento do olhar e mais do que tudo, vontade de enxergar e se ver ao mesmo tempo.

Artigo escrito em parceria com Maria Janice Vianna

quinta-feira, 29 de julho de 2010

O Espelho perdeu Joana

Lúcio Packter
Pensador da Filosofia Clínica
Da estrada


A partir de uma terça-feira, no outono de 2005, Joana acordou com a música do despertador (que ela não gostava, mas nunca trocava), foi para o banho e notou, no Box envidraçado do banheiro, que não via mais a própria imagem refletir.

Durante três meses ela tentou vários espelhos, roupas e chapéus à prova de invisibilidade, chegou a pendurar fotos suas no vidro polido e visitou duas espelharias para saber o que havia de errado com os refletidores.

Quando de fato constatou que sua imagem não retornava de superfícies lisas e polidas, nem mesmo a de um lago, um copo, o chão encerado que fosse, tomou algumas medidas urgentes.

Primeiro, passou a usar os outros para luzir sua imagem. Perguntava freqüentemente o que achavam de seu penteado, de sua roupa, de seu jeito para o dia. O retorno a deixava animada, ainda que às vezes certas roupas dividissem opiniões e a jogassem em confusão. Passou então, mas isso foi acontecendo bem lentamente, a perguntar também aos outros sobre se os sentimentos que tinha estavam adequados.

Afinal, pensou, se sabem opinar sobre a imagem, sobre como se vestir, certamente saberão sobre as emoções que levam às cores, tecidos, cortes. E foi mais ou menos assim que Joana se casou com Deodilson, por indicação. Mais tarde, também por indicação, ela teve dois filhos com ele. O primeiro filho se chamou Reflexo e o segundo filho, Amplexo (não pelo sentido, apenas para combinar).

Joana sabia o que era certo e errado porque lia nos livros de Ética. Não compreendia exatamente o motivo de algo ser certo ou errado, mas conseguia identificar com grande acuidade comportamentos mediante a correção ou impostura.

Joana era feliz, claro, afinal os outros diziam que ela era. Joana era amiga, as pessoas não diziam? E Joana se achava Joana porque todos a chamavam de Joana.

terça-feira, 27 de julho de 2010

Em cima da hora!

Diversos Planos de Saúde abrem as portas para profissionais da Filosofia Clínica.

Um exemplo acontece em Uberlândia, Minas Gerais, onde colegas atendem pelos planos de saúde Pirâmide e Nossa Clínica.

A partir de agora, os associados desses sistemas de saúde, poderão contar com atendimentos diferenciados e ampliar sua rede de profissionais.

Assessoria de comunicação.
Saudade

Olympia
Juiz de Fora/MG

Ouço os apitos das fábricas
Hora do almoço
Lá vem o Pedro
Pequenino, gordinho e barrigudinho
Chapéu velhinho
Lembra um anãozinho
No braço direito um balaio enorme de bambu
Dentro muitas marmitas dos Operários têxteis
No esquerdo, o amigo Guarda-Chuva
A meninada grita
O sol Pedro
Pedro responde bravo
A tarde chove!
Olhem o céu
Sinto...
Pedro com seu amigo
Amando as chuvas

segunda-feira, 26 de julho de 2010

Quando o pouco ainda é muito

Rosângela Rossi
Psicoterapeuta e Filósofa Clínica
Juiz de Fora/MG


Diógenes de Eneoda mandou entalhar o grandioso livro mural que atesta a vitalidade do epicurismo do século II a.C..Para ele o pensamento de Epicuro trazia paz e tranqüilidade a alma.

No mural, dentre outros pensamentos, está inscrito:

- A maioria dos homens tem por doença comum as falsas opiniões sobre as coisas.

- Contagiam-se uns aos outros por imitação.

- É dever da humanidade cuidar dos forasteiross que se encontram entre nós.

- A pátria única de todos é toda a Terra e sua única morada é o mundo.

- Deus, ou quer impedir os males e não pode, ou pode e não quer, ou não quer nem pode, ou quer e pode.

- Se quer e não pode, é impotente: o que é impossível em Deus.

- Se pode e não quer, é invejoso: o que, do mesmo modo, é contrário a Deus.

- Se nem quer nem pode, é invejoso e impotente: portanto nem sequer é Deus.

- Se pode e quer, que é a única coisa compatível com Deus, donde provém então existência dos males? Por que razão é que não os impede?

- É tolo pedir aos deuses o que se pode conseguir sozinho.

- A amizade e a lealdade residem numa identidade de almas raramente encontrada.

- Os grandes navegadores devem sua reputação aos temporais e tempestades.

- Tu, que não és senhor do teu amanhã, não adies o momento de gozar o prazer possível! Consumimos nossa vida a esperar e morremos empenhados nessa espera do prazer.

Temos aqui muito para refletir. Pensar bem qualifica nossa vida. Vida simples é escolha voluntária. Vida amorosa é respeito as diferenças.
Rastro

Idalina Krause
Filósofa Clínica
Porto Alegre/RS

Meu rastro eu mesma faço! Curvas, retas, pontes, edificações de uma existência. Lágrimas molham as vicinais, suores translitorâneos, alados torno-zelos, deviente via, acessos remotos, fados viajantes, amanhecer, orvalhos e lua cheia.

domingo, 25 de julho de 2010

A TROCA DO INSUBSTITUÍVEL

Ildo Meyer
Médico e Filósofo Clínico
Porto Alegre/RS


Durante vinte e cinco anos André trabalhou na mesma empresa. Começou como faxineiro e foi sendo promovido até alcançar o cargo de gerente executivo. Dedicou corpo e alma ao trabalho, conhecia com detalhes todos os setores. A empresa era seu lar.

Um belo dia, ao entrar em sua sala, recebe a noticia de que foi demitido. Substituido por um funcionário mais jovem, mais graduado e menos oneroso para a empresa. Esta não é uma história rara, pelo contrário, está cada dia mais frequente.

André ficou muito magoado e porque não dizer, decepcionado. Gostaria de ser considerado uma pessoa especial e não ser trocado por um “alguém” qualquer. Com que direito André pode ficar contrariado e se achar insubstituível? Afinal de contas, pessoas são ou não são insubstituíveis?

Acredito que cada ser humano trabalhe e conviva com suas características únicas e especiais, e na impossibilidade ou ausência do mesmo, uma reposição possa ser feita para que outro ocupe o seu lugar. Não se trata de substituição, mas de ocupar o lugar deixado vago. Todos somos insubstituíveis.

Quem sabe o outro possa trabalhar e se relacionar de uma maneira diferente e até mesmo mais eficiente, mas não será uma substituição. Peças podem ser substituidas por outras iguais, seres humanos por serem tão diferentes entre si, por envolverem sentimentos, podem ser trocados, jamais substituidos. Deixarão saudades ou não, mas sua troca não será uma simples reposição.

Tudo isto pode ser apenas um jogo de palavras, mas a verdade é que no íntimo sonhamos com a possibilidade de sermos únicos, especiais e insubstituíveis.

Antoine de Saint Exupéry em sua fábula “O Pequeno Príncipe” fala da idéia de formar laços, cativar. Dizia a raposa : Tu não és para mim senão um garoto inteligente igual a cem mil outros garotos. E eu não tenho necessidade de ti. E tu não tens necessidades de mim. Mas, se tu me cativas, nós teremos necessidade um do outro. Serás para mim o único no mundo. E eu serei para ti a única no mundo...

Não importa quem será o substituto, a dor é por saber que não somos imprescindíveis. Que por mais e melhor que possamos ser ou fazer, um dia sairemos do palco, e o show vai continuar. O incômodo pela troca nada mais é do que uma demonstração de amor.

Amor próprio e amor pelo palco que um dia vamos ter que deixar, seja porque nos mandaram sair ou porque um dia vamos morrer. No caso de André, amor pela empresa também.

A empresa faltou com fidelidade ao demitir o funcionário André? Fidelidade é a capacidade de conservar, manter ou preservar as características originais, ou seja, manter as referências. Exemplos: fidelidade conjugal consiste na manutenção dos votos realizados por ocasião da união, fidelidade partidária envolve adesão a ideais politicos, traduções fidedignas mantem exatamente o texto original...Fornecedor e cliente também podem manter relações de fidelidade. O que seria fidelidade empresarial?

Vivemos em constante mudança. A mudança não só é necessária à vida; ela é a própria vida. É difícil manter um equilibrio entre ser fiel e conservar referências originais de um lado e acompanhar as mudanças essenciais à vida e ao mercado de trabalho de outro. Mudanças não acontecem com a mesma velocidade para todos. Como ser fiel e mudar ao mesmo tempo?

O equilibrio da vida é dinâmico. O grande desafio é mudar e ainda assim ser fiel. Uma banda de rockeiros cabeludos dos anos 80 pode continuar tocando o mesmo estilo musical e decidir raspar a cabeça. Os cabelos mudaram, mas a voz e a musica permanecem as mesmas. Desde que as referências originais sejam claras e haja acordo na mudança, a fidelidade estará mantida.

Talvez a dificuldade esteja nas entrelinhas, no que nunca foi questionado, naquilo que não foi conversado, mas que se acredita esteja muito bem esclarecido. Quando eventualmente as expectativas não se realizam, aparecem mágoas, acusações, decepções.

Papéis e expectativas precisam estar muito claros para todos. Talvez as mudanças tenham acontecido na empresa e André não tenha acompanhado. Em outros casos são os funcionários que mudam e a empresa permanece estagnada.

Mudança não significa infidelidade. A infidelidade acontece quando só um lado muda. Se ambos mudarem juntos, a fidelidade se preserva e em muitos casos, ser fiel é mudar.

Houve falha? Quem falhou? A empresa ou André?

sábado, 24 de julho de 2010

*A estética dos intervalos


“A verdade que se abre na obra, nunca é atestável nem deduzível a partir do que até então havia. Pelo contrário, o que até então havia é que é refutado pela obra, na sua realidade exclusiva.”
Martin Heidegger


A fluência discursiva da ficção aprecia o lugar qualquer de todo lugar para justificar suas origens. Em algum ponto da interseção com a realidade empírica, sua atuação prolifera entremeios de uma zona incrível.

Nesse extraordinário idioma é possível localizar várias fontes – de saber –, devaneios de reinvenção. Contradição bem vinda a inaugurar pontos de vista, até então, cristalizados num passado sem sentido. A pressa em querer consertar desajustes pode manter tudo como está.

O codinome incomum dessas irregularidades criativas tenta descrever o território por onde a não-palavra se desloca, num processo a vislumbrar contornos invisíveis ao raciocínio das convenções.

A pessoa condenada a viver em intervalos existenciais, onde as crises se alternam, nem sempre consegue traduzir seus próprios rituais. Ao deixar acessível esse viés expressivo, mostra de um jeito único, a natureza imprevisível das lacunas impreenchíveis. O espectro institucional trabalha para convencer a pessoa em estado nascente a deixar de lado suas vontades.

Com o apoio da arte o indizível prefere estar em obra, sua manifestação acontece por uma abertura: interseção, pincéis, tinta, música ou teatro. Desenho, esboço ou pintura protegem as versões entrincheiradas. Algumas vezes até, lhes permite passear lá fora, num dia de sol.
No agora de quase tudo existem vestígios às novas elocubrações.

Ao reduzir a alma criativa aos termos reconhecíveis, isso pode significar seu fim. Muitas aptidões viram cinzas ao se encontrar com a educação formal. Ao alienista, o paciente sem nome e o homem sem rosto são a mesma coisa. Cabisbaixo, elabora alguma transgressão para reconduzi-lo a paz dos vegetais, condição de prosperidade à sua medicina.

Em se tratando da errância estética, algo novo se anuncia. Num meio despreparado para as lógicas da desconformidade, o esquisito propõe atitudes que advogam contra sua autoria. Imagine uma situação onde as referências sejam de natureza subjetiva, em um ponto de difícil acesso a epistemologia familiar, escolar, igreja. Para aprender o novo vocabulário é impreciso resgatar os esboços, deixados de lado como erro ou incompetência.

Eu e não-eu se integram na dessemelhança rarefeita a transfigurar clausuras. Martin Heidegger sugere rotas à criação: “O ser-criado da obra só se deixa manifestamente compreender a partir do processo da criação. Por imposição das próprias coisas, temos de aceder a levar em conta a atividade do artista para encontrar a origem da obra de arte.”

Assim é imprescindível ter visto algo mais que um “paciente insano”, para ser escolhido tradutor da singularidade, até então, indisponível. O avesso da palavra também abriga suas verdades. Um silêncio fica a ressoar, como a chamar atenção às regiões inexploradas da condição humana. Nesse processo não linear de experimentação pessoal a produção artística é cúmplice e meio. Ainda quando sombra ou rabisco ilegível, busca reaproximar aquilo que parecia perdido.

Um andarilho com pés descalços procura alguma interseção para entender seus refúgios. Como se fora um asilado, tenta ultrapassar os monólogos e multiplicar personagens nos gritos, rascunhos ou pinceladas. Existência fugaz a se perseguir dentro de si mesmo.

Nesse exílio delirante, a reviravolta pessoal pode conter as sagradas escrituras. Semiose fugidia da singularidade aprendiz, em tentativas de significar as letras do novo alfabeto.
A estrutura significante, nesse intermédio, extrapola e modifica, com sua presença, o entorno. O signo recém inventado desveste o dia-a-dia de banalidade e oferece outras leituras, num vocabulário a ser descoberto.

Na dialética de Jean-Claude Carrière: “Quanto maior o pintor, mais nos faz trabalhar. A obra que ele nos propõe sugere mais do que especifica. Desafia nossa visão, obriga-nos a completar os traços, a preencher as cores. Está aberta; muda enquanto estamos olhando.”

Nessa região inédita e ainda sem memória, um vidente aponta miragens. Para acessar as regiões tidas inacessíveis, é impreciso seguir seus rituais de introspecção, os quais se afastam do convívio comum, para retornar a ele modificando-o. Uma espécie de harmonia a estruturar o caos de mundos difusos.

A sensação de estar fora de si aparece como um achado, nem sempre descritível. Mesmo quando tenta falar sobre seus vislumbres, a pessoa pode ouvir sons irreconhecíveis. A clarividência ao seu redor pode referir uma nostalgia sem nitidez na trama das suas complexidades.

Nessa região de incerteza, pois de criação permanente, um saber primitivo se embaralha na coexistência de múltiplos personagens. Talvez o surgimento do sujeito ocorra concomitante a sua produção estética.

Cúmplice e atuante nessas aproximações com o universo irreal, o Filósofo Clínico participa da movimentação partilhante com um olhar de primeira vez. Ao aceitar o irresistível apelo do instante precursor no outro, contribui com o enunciado daquilo, até então, sem palavras para se dizer.

*Hélio Strassburger
Filósofo Clínico

sexta-feira, 23 de julho de 2010

Bem vindos à Semana de estudos 2010!

27 de julho, terça-feira

12:30hs às 13h00 - os colegas são acomodados na sala de atividades. Recebem instruções iniciais, além dos materiais de trabalho (blocos, canetas etc).

13h30 - Exercícios práticos de Autogenia - primeira parte.
Explicação: os colegas inscritos estudaram como requisito o curso de Autogenia, extensão, em nossa plataforma de ensino. Nesta primeira parte dos trabalhos, aprenderão como efetuar mudanças no padrão autogênico e os rudimentos da sustentação.

16h00 - 16h40 - lanche.

16h45 - Exercícios práticos de Autogenia - segunda parte.
Explicação - os colegas trabalharão as consequências da sustentação de um padrão autogênico e como proceder.

18h45 - final dos trabalhos no dia.

28 de julho, quarta-feira

13h30 - A EP trabalhando para a pessoa e/ou a pessoa trabalhando para a EP? - identificando freios, armadilhas conceituais.
Explicação: modos de alimentação da EP; pressupostos e riscos; aprendendo a fazer.

16h00 - 16h40 - lanche.

16h45 - A EP trabalhando para a pessoa X a pessoa trabalhando para a EP? - exercícios práticos.
Explicação - os procedimentos clínicos informais.

18h45 - final dos trabalhos no dia.

29 de julho, quinta-feira

13h30 - Tomo I - Como a EP se comunica? Como acessar os conteúdos destas comunicações?
Tomo II - Soltando-se aos mecanismos inerciais.
Explicação: modelos, especificidades, a compreensão dos movimentos estruturais.

16h00 - 16h40 - lanche.

16h45 - Fazendo contato. Exercitando comunicações com a EP.
Explicação: trabalhos práticos nos quais os colegas executarão testes e verificações da acuidade das comunicações com a EP.

18h45 - final dos trabalhos no dia.

30 de julho, sexta-feira

13h30 - Conversações I
Explicação: os colegas conversarão, trocarão experiências, dúvidas, reflexões, considerações sobre os trabalhos e terão orientações dos coordenadores.

16h00 - 16h40 - lanche.

16h45 - Conversações II
Explicação: os colegas conversarão, trocarão experiências, dúvidas, reflexões, considerações sobre os trabalhos e terão orientações dos coordenadores.

18h45 - final dos trabalhos no dia.

31 de julho, sábado

13h30 - Possibilidades. Para onde vamos? As relações entre o que será, o que ocorre agora, o que houve: equilíbrio em movimento.
Explicação: alguns paralelos e analogias sobre aspectos que apontam um horizonte provável e as vivências nesta caminhada para lá.

16h00 - 16h40 - lanche.

16h45 - Exercícios e Adequações.
Explicação: os colegas trabalharão os movimentos usuais neste momento de passagem entre o que é vivido hoje, o possível em nossa concretude, e o que se anuncia como próximo e provável.

18h45 - final dos trabalhos.

Instituto Packter
Rua Cel. Lucas de Oliveira, n. 1937 - cjs. 301/302/303/304
Bairro Petrópolis
Porto Alegre/RS
Fone: 051.3330-6634
Olá amigos,

O Banquete Filosófico Clínico no Casarão do Belvedere não ocorrerá na próxima semana, sendo o próximo Banquete no dia 21 de agosto, 16 horas.

Dia 28 de julho (quarta-feira), às 18h30, ocorrerá no Espaço Cultural IBEP (Rua Santo Amaro, 766 - Bela Vista - Tel. 2936-4491), palestra sobre Filosofia Clínica.

Aproveito para informar que em agosto, além do Café Filosófico Clínico na Livraria Martins Fontes (dia 5), realizaremos um Café Filosófico Clínico na Bienal de São Paulo, no estande da WAK editora, no dia 19 (quinta-feira), às 19 horas.

Abraços,

Monica
Instituto Interseção
www.institutointersecao.com
(11)3337-0631
A solidão no instante que passa

Margarida Nichele Paulo
Filósofa Clínica
Porto Alegre/RS


A solidão neste momento
É tudo que eu sinto.
Solidão no instante que passa
Fugi de mim ... Fugi de você.

Fiquei com a solidão e ela entrou em mim.

A solidão do instante que passa
Deixou uma marca
Que brota como lágrimas
E lava meu ser.

Não estou só, mas sinto-me só
É a solidão que permeia
No instante que passa
No momento que existo sem você!

quinta-feira, 22 de julho de 2010

Agna é menina

Gustavo Bertoche
Filósofo Clínico
Rio de Janeiro/RJ


Agna, portanto, é uma menina. Surpreende-se com o mundo - e com ela mesma. Haverá diferença entre o mundo que Agna vê e a própria Agna ? Não vê ela o mundo com seus olhos ? Agna tem dúvidas: não sabe se ela é um ser-no-mundo ou se o mundo é um ser-em-Agna. Existirá de fato ?

A leitora sabe a resposta. Agna é um ser-no-mundo, porque é uma invenção da pobre alma que escreveu este livro. A dúvida de Agna não tem sentido. Uma outra leitora, que sabes superficial como não és (te sei profunda), diria talvez ser Agna um não-ser - um fruto da imaginação de um autor louco. Não responda à outra leitora que sabes que um ser imaginado é um ser real, um ser mais real até do que o que é real, um ser que é real em sua própria e específica realidade - é um ser super-real, um ser surreal.

Sabes que a palavra surreal é a equivalente francesa de super-real, e sabes que o super-homem é exatamente o homem que vive na realidade mais real, a super-realidade, a surrealidade. Agna é super-humana. Tu poderias sê-la também, adorável leitora. Bastaria viveres na surrealidade - bastaria esquecer-te dos valores que tomaste emprestados, aliená-los, buscar a realidade e só a realidade; assim serias, como Agna, um ser completamente livre.

"Livre?" poderias perguntar-me. Pode ser livre alguém privado de sua vontade ? Não é Agna uma personagem ? Não podemos fazer dela marionete de nossas fantasias ? Não. Agna é quem utiliza-nos, é ela quem faz de nós um instrumento.

Agna existe, mas quer emergir - nós somos os pesos do escafandrista. Agna é o escafandrista. Somos criadores que dependem de nossa criatura; somos Deus, Agna é o homem. Se somos mais reais do que Deus, Agna é mais real do que nós - na mesma proporção.

Viste, leitora, o que é sentir-se Deus ? Agna é tão fruto teu quanto é meu. Enquanto lês, crias. Enquanto lês, escreves. Não sentes o prazer de escrever o sentimento de nossa criança ? Não amas a sensação de ter o poder de matar Agna, se quiseres ? Mas não matemo-la. Deixemos que ela mate alguém. Deixemo-la matar-nos.

Deixemo-la matar-nos. "Louco!", novamente pensarão. Sabes como eu, leitora, que há os que creem uma personagem jamais ser capaz de matar seu criador. Certamente, há criaturas mansas - mas elas são tão pestilentamente monótonas.

A monotonia, que devém da imagem dócil, é morna e mole. Não faz o convite à guerra, não é provocadora. São mais deliciosas e iluminadas as imagens rudes, hostis e autônomas - as imagens secas, mas repletas de sonhos, da liberdade.

E Agna não é monocórdia.

quarta-feira, 21 de julho de 2010

Todos falam mal de todos

Rosângela Rossi
Psicoterapeuta e Filósofa Clínica
Juiz de Fora/MG


Por que todos falam mal de todos? Esta é uma pergunta que não cala.

Constantemente me perguntam com ansiedade se falar do outro é instintivo ou aprendido. Fico num beco sem saída, pois a cada dia mais compreendo que não existe resposta certa ou verdadeira. As questões têm vários ângulos e normalmente pegamos um só ângulo, o tomamos como um todo, o reduzindo a uma reposta, nos arvorando de uma saber poder equivocado.

Quem pergunta quer uma resposta. No caso desta pergunta a coisa fica mais feia, pois o mal estar de se perceber no centro do julgamento do outro é profundamente incomodativo. Falar do outro é fácil, mas se sentir alvo de crítica é muito ruim.

Vamos pegar uma vertente psicológica e refleti-la filosoficamente. Começando co uma dúvida: - Por que o outro nos incomoda a ponto de falarmos mal dele? Projeção da sombra? Inveja? Competição? E muito mais questões subjetivas.

Que temos uma sombra fica difícil negar. Ela está presente e não tem como livrarmos dela facilmente, a não ser acendendo a luz da consciência. Compreender nossa sombra já é um bom início de caminhada para não falarmos mal dos outros. Mas, quem consegue ver os próprios defeitos e deficiências com honestidade? Falar mal do outro, muitas vezes, pode ser uma forma de fugir de si mesmo.

Muitas vezes olhamos para o outro e o admiramos. Porém, não damos conta em saber que ele é mais ok que eu. A inveja toma conta e assim, no minuto seguinte o criticamos para colocá-lo no mesmo nível não ok que me encontro. A fofoca começa aqui.

Ao falar mal dos outros, muitas mentiras são inventadas, muitos julgamentos levam para cruz inocentes. Os espelhos são ampliados no jogo de complexos e repressões. A relação de poder está montada no palanque da vida dos insatisfeitos.

Consciência não rima com fofoca. Luz apaga a sombra. Verdade desfaz a mentira. Liberdade não combina com escravidão.

Tudo para responder que o falar mal dos outros é antes de tudo o falar mal de si mesmo, porque é de dentro de quem fala mal que sai o mal. Assim mal é quem fala mal, o resto é pura invenção de quem não tem o que fazer.

terça-feira, 20 de julho de 2010

Verdades subjetivas

Bruno Packter
Filósofo Clínico
Florianópolis/SC


Na filosofia clínica, tratamos dos pré-juízos como verdades subjetivas que a pessoa traz previamente e que entrarão em contato com suas vivências. Por exemplo, algo é assim para ela, antes mesmo de conhecer mais a seu respeito.

Portanto, pré-juízos dizem respeito a verdades, tratam do que é a priori e tendem a uma conclusão, um dado que se cristalizou em uma verdade.

Em alguns casos, os pré-juízos não passam por questões ligadas aos defeitos ou virtudes. Os pré-juízos correspondem a tudo o que uma pessoa é, tudo o que ela pensa ser, fazendo parte de suas crenças e verdades subjetivas, e que também para o “outro”, ocorra desta forma.

Podemos ser diferentes e ainda assim estarmos certos, tudo ao mesmo tempo. É preciso, na medida do possível, partindo-se de cada estruturação, abrir caminho às diferenças.

segunda-feira, 19 de julho de 2010

Sou

Flávio Sobreiro
São Paulo/SP


Sou a mistura das cores
o preto e o branco
o cinza das nuvens e o azul do mar

Sou a chuva com raios e trovões
a brisa serena
o sol que queima e arde

Sou a poeira da inexatidão
o abstrato das impressões
o sal que dá sabor

Sou um coração que sonha
uma alma que acredita

Sou a essência de mim mesmo
e nada mais que isso

Sou a crença no futuro
a esperança que é verde
a tristeza que também chora

Sou o encanto que se perde na utopia
o reencontro com a chegada
o desespero da partida

Sou a alegria que vem do olhar
a melodia que vem do ar
o frio das madrugadas de inverno

Sou todas as estações ao mesmo tempo
sou humano

domingo, 18 de julho de 2010

INVESTIR NA INCERTEZA

Ildo Meyer
Médico e Filósofo Clínico
Porto Alegre/RS


Poetas gostam de falar de amor. São grandes amantes, flertam, escrevem lindas poesias, mas quase nunca permanecem casados. A maioria dos mestres espirituais que transcenderam são solteiros e castos, não trabalham e vivem de auxílios financeiros. Grandes filósofos também não fogem à regra e terminam seus dias solitários.

Apesar de todos esforços, não me considero grande poeta, guru, filósofo ou amante. Isto não impede minha eterna busca, curiosidade e aprendizagem, mesmo que à duras penas, das nuances do amor. Com os devidos cuidados, para não ser condenado à solidão amorosa por pensar demais, vou me aventurar a discutir o assunto iniciando pelas bordas, muito embora exista a versão de que em matéria de amor o segredo é envolver-se por inteiro, não deixando espaço para um relacionamento morno.

O fato de pensar o amor seria um obstáculo para a convivência entre amantes? O velho ditame popular “Quem pensa muito, não casa” faz sentido? Amar, casar e conviver precisam andar juntos?

Jiddu Krishnamurti, filósofo e místico indiano, dizia ser mais fácil amar Deus do que um ser humano. Conviver é muito mais difícil do que amar um ser divino; conviver é mais prosa do que poesia, é mais troca do que oração. Nosso companheiro(a) come, dorme, fala, chora, protesta, abraça, tem nome, sobrenome, CPF, carteira de identidade... Tem pele, cheiro, gosto. Relaciona-se.

Relacionamentos envolvem riscos. O amor assim como outros sentimentos, é pouco previsível, confuso e difícil de domesticar. Envolve incertezas e faz parte do amor ser refém do destino. Pode ser atemorizante, perigoso e extremamente doloroso, mas também envolve desejo, excitação, podendo ser sensorialmente encantador. Esta alternância agridoce promove uma ambivalência entre fugir e cair de amor. Amar exige coragem.

Comprometer-se a amar alguém por longo prazo é uma aposta alta. Amor é um processo e não um simples substantivo. Deveria sempre ser utilizado na forma verbal, ou seja, amar, pois isto envolve ação, movimento, envolvimento. Sentimentos entram pela porta da frente e muitas vezes saem pelos fundos sem ao menos avisar. A insegurança é a única certeza.

Tanto o amor como a bolsa de ações são investimentos de risco. Bons acionistas informam-se todas as manhãs sobre o mercado de capitais, fazem cálculos, consultam especialistas e decidem se compram ou vendem ações. Não existe promessa de lealdade a longo prazo, e assim, dia a dia, hora a hora, minuto a minuto, vão administrando os riscos inerentes do investimento.

Nem sempre ganham, mas sabem que a médio e longo prazo, é um bom negócio e continuam apostando. Investir em ações não é um jogo de azar, exige envolvimento, experiência, estudo, ousadia e um pouquinho de sorte.

Com o amor é um pouco mais complicado, pois a administração do risco não está restrita somente a um investidor que decide o momento de comprar ou vender ações. O parceiro também tem o poder de manter ou passar adiante o amor, investindo ou descartando o compromisso.

A relação é bilateral, baseada em sentimentos, envolve pessoas que a cada dia se transformam e as estatísticas demonstram probabilidades de fracasso.

Como fazer um pacto para a vida inteira nestas condições? O amor atual ainda corresponderá daqui a 20 ou 30 anos quando os amantes se tornarem pessoas diferentes? Eis o desafio: apostar no amor ou desistir dele.

Amar, além de ser um sentimento, é uma construção que envolve dois amantes. Dia a dia, hora a hora acreditando que vai dar certo e trabalhando para adaptá-lo, reorientá-lo e transformá-lo naquilo que os dois conseguirem fazer juntos, com defeitos e qualidades, ganhos e perdas, mas uma relação única, singular e irreproduzível que está valendo a pena.

Dois amantes que se transformam também em sócios, parceiros e cúmplices, e apostam todas suas fichas no desafio contra a incerteza do amor eterno. Um compromisso silencioso que precisa ser muito mais compreendido do que verbalizado.

Escrever, pensar e cantar o amor é muito bonito, mas não é o suficiente. Construir e oferecer amor exige humildade, ousadia e coragem. Amar é para poucos. Falar de amor é consolo para muitos.

sábado, 17 de julho de 2010

Inventários

Lúcio Packter
Pensador da Filosofia Clínica


J., 50 anos, em uma quarta-feira à tarde, em meu consultório, fez seu inventário habitual de final de ano.

Entre os que partiram em 2008, Paul Newman (uma geração o lembrará para sempre como Butch Cassidy, de 1969), Bobby Fischer (que em 1972 venceu Spassky em uma das mais improváveis páginas enxadrísticas de todos os tempos), Dorival Caymmi (É doce morrer no mar...), Ruth Cardoso, Arthur Clarke (2001: uma Odisséia no Espaço), Jamelão.

Para quem mais além deles morreu, a J. não interessa. Interessante notar que em 2008 J. perdeu um filho.

Livro, só houve um: A Viagem do Elefante, de José Saramago. O Filho Eterno, de Cristóvão Tezza, é muito bom, mas J. não comenta.

A cheia em Santa Catarina, quase 80 mil pessoas desabrigadas, fome, saques, medo. Por muito tempo será lembrada.

A eleição de Barack Obama será um marco, assim como Sarah Palin, marcos por motivos que não se encontram, mas que se explicam um diante do outro.

Em sue inventário, 2008 será lembrado pelo mês de setembro, com a quebra do Lehman Brothers, símbolo do arrastão financeiro que se alastraria pelo mundo. Será lembrado por Isabella Nardoni e Eloá Pimentel. Será lembrado pela liberação do uso das células-tronco embrionárias nas pesquisas científicas, mas isso logo será esquecido. A ecologia e a pergunta crítica: o planeta agüenta?

Algumas coisas serão lembradas de vez em quando, como o salto de Maurren Maggi, mais de 7 metros, em Pequim. Mas muitos lembrarão que Pequim agora é Beijin.

Os narcoguerrilheiros das Farc, coisa que muitos parecem não entender o que são, serão lembrados – sobretudo porque andarão por aí.

Bush não será mais lembrado. Desde janeiro de 2001, George W. Bush acompanhou o mundo ladeira abaixo. Sua maior obra foi o evento no World Trade Center, o Afeganistão, o Iraque. Bush foi o criador de Bin Laden.

Cristina Kirchner, Carla Bruni, Madonna, a menininha Maisa Silva, e aquelas moças com as bundas enormes tipo mulher melancia, mulher jaca...

As frases e pensamentos de 2008 refletiram muito do que foi o tumulto e a confusão que se instaurou. O prestigiado Financial Times publicou na metade do ano que o Brasil estava quase às portas de ser uma super potência, uma frase que traz humor, ameaça e promessas, mas misturadas de um jeito que não temos como saber o que e quem.

Perguntas, muitas, perguntas. O que houve exatamente com a Islândia? Quais os resultados iniciais do LHC, o famoso acelerador de partículas? Como está o Tibete de Dalai-Lama após os Jogos de Pequim e a exposição à mídia?

O que houve que não se fala mais na falta de comida para os países ricos? Severino Cavalcanti foi eleito prefeito de João Alfredo, sua cidade natal? O que é Josef Fritzl? Radovan Karadzic, o que é? E as operações policiais no Brasil com os nomes curiosos como João de Barro?

sexta-feira, 16 de julho de 2010

Vidas do Fora

Idalina Krause
Filósofa Clínica
Porto Alegre/RS

Ainda estou impregnada de vocês, de vida, excesso de pensamentos. Os livros entre as mãos num devorar de escrituras. A chuva que cai, seus pingos tilintantes fazem passar imagens entre suspiros, um mosaico de gritos, silêncios. Sem escafandro me lanço!

"O caminho do excesso leva ao palácio da sabedoria" (William Blake)

Aos que me tocaram mesmo sem saber, meu abraço e meu carinho.
RASCUNHOS FILOSÓFICOS SOBRE UM (NOVO) CONCEITO ÉTICO DE SUBJETIVIDADE EM CLÍNICA


Will Goya
Filósofo Clínico
Brasília/DF


Resumo: A Filosofia clínica tem sido equivocadamente compreendida como uma razão instrumental e criticada como não sendo nem autêntica filosofia, nem sequer terapêutica. Entretanto, nela subjaz um novo contorno fenomenológico do conceito de subjetividade e um núcleo ético capaz de orientar, com grande força terapêutica, costumes e modos de ser aos indivíduos que partilham junto ao filósofo clínico um cuidado existencial.

Palavras-chave: filosofia clínica, subjetividade, ética.


Um texto como pretexto de discussão, uma canção a tantas músicas sem letras, quem sabe apenas uma distração aos ânimos demasiadamente concentrados em seus focos de vigilância, não sei... O que aqui pretendo é mais um repensar algo da práxis clínica da filosofia, criada pelo filósofo Lúcio Packter. Em particular, gostaria de atender ao reclame da ainda tarda polêmica questão de ser ou não a Filosofia Clínica (FC) uma autêntica filosofia ou mesmo uma psicoterapia, como alguns dizem, outros repetem e poucos investigam.

Dos vários alardes ultimamente feitos a respeito da FC, principalmente dos que não a conhecem ou sequer estudaram dela alguma coisa, vale destacar, para começo, sua importância social. Politicamente ela tem o mérito de haver conseguido o que muitas doutrinas teóricas pretenderam, justificaram abstratamente, mas não saíram do papel inútil das intenções utopistas: a missão de levar a filosofia da epoché de volta ao “mundo da vida”, para a praça pública, para as questões vivenciais; pelas quais, a exemplo, Aristóteles justificou a lógica nascer e que, infelizmente, o academicismo pseudofilosófico afastou-a da Politéia, da cidade, do povo, em abandono nocivo da formação humanista, ficando os homens sem o amparo recorrente das discussões e resoluções de seus problemas cotidianos acima das futilidades.

Urge, pois, o tempo em que a sociedade, ante a crise dos seus alicerces, reconheça novamente na filosofia o seu valor específico: iluminar a estrada não apenas aos que se encontram perdidos, mas, sobretudo, em reconduzir às incertezas os que estão convictos de que o abismo é seguro. Como dizia o Estagirita, o ser humano é um ser racional, isto é, somente se exercitar sua potência.

A filosofia nasceu assim, como uma atividade, não como doutrina... Atualmente e muitas vezes nos debates universitários, ela virou disputa medieval de feudos epistemológicos, confundindo conflito de idéias com violência aos que pensam as diferenças.

Certamente que para além da reinserção mercadológica do graduado em filosofia, num país sem a profissão de pesquisador em ciências humanas, a filosofia, graças em grande parte ao embate heróico do senhor Packter, está de novo sendo discutida na àgora da mídia, dos hospitais, de outras faculdades aparentemente longe da filosofia, como na medicina, no direito, nas psicoterapias, na administração etc.

Pouco se pensa, entretanto, que a Filosofia Clínica não é só um espaço de consultório, mas uma redefinição ou uma rediscussão da ética e do conceito de subjetividade na antropologia filosófica e na práxis psicoterápica. Portanto, como assim me parece ser, não se trata apenas de uma discussão dos poderes terapêuticos da filosofia e ou das psicologias, mas da redefinição do humano por um avanço ou um novo enfoque fenomenológico. No caso, do conceito de homem, como indivíduo em suas relações consigo e para com o mundo e da linha limítrofe da subjetividade como vivência psíquica e demarcação teórica.

Oportunamente, e com alegria, é justo reconhecer a seriedade e alto nivelamento de algumas críticas à problemática que a FC vêm suscitando, em franco reavivamento das discussões em torno da filosofia à gente mais simples e carente do amparo estreito dos filósofos, do reconhecimento de seu valor.

Em especial um destaque ao belíssimo artigo, do zelo teórico do Prof. Renato Machado, em O que faz o filósofo clínico? (2004). Merece alguns comentários. O autor afirma “um duplo paradoxo: o filósofo clínico não é filósofo, embora se exija que o seja para obter a licença profissional; filósofo clínico não é terapeuta, embora a licença que obtém o qualifique para a prática da terapia”.

Isto porque ele entende que a FC é, de um lado instrumental e de outro porque não pretende nenhuma cura. Ressalva, todavia, que “a prática do filósofo clínico pode ser entendida como um exercício de vivência humana, no mais humanístico sentido dessa palavra”. Gostaria de poder ofertar à questão alguma luz, analisando isso, pormenorizadamente.

Irretorquível em seu raciocínio, equivocado em seus pressupostos, Renato Machado justifica sua leitura da FC pelo rigor da colheita literal do pensamento escrito e publicado da obra de Lúcio Packter.

Todavia, vale advertir, este não é um teórico fácil, não por ainda ser um autor vivo – contrariando a incompreensível tradição acadêmica brasileira de recusar diálogo com os que podem ainda debater –, mas porque sua obra, isto é, a Filosofia Clínica, não está conceitualmente concluída nos limites epistêmicos e metodológicos que seu esforço inaugura.

Limitar-se, portanto ao que se encontra já publicado a respeito, não somente impossibilita um bom entendimento sobre o assunto, como também pressupõe nitidez à uma escrita que merece adequadas releituras, contextualizações e retificações também, conforme o próprio autor recomenda. Essa é a missão por nós herdada agora, cada vez mais democrática e exigente, nos novos Grupos de Trabalho de Filosofia.

Dito isso, é preciso esclarecer o atual caráter teórico do trabalho de Lúcio Packter, em seus Caderno (s) de Especialização em Filosofia Clínica e demais publicações oficiais do Instituto Packter. Isto é, teórico não sob as exigências de uma fundamentação conceitual, embora se justifique na demonstrabilidade terapêutica, mas nos indicativos da práxis clínica de certa condição psíquica estrutural humana que, mesmo que não seja inédita (não o sei) – por reinvidicar um novo enfoque fenomenológico –, com certeza é original.

Tal hipótese de uma nova configuração do conceito de subjetividade seria, acredito, capaz de permitir de um lado, um desenho epistemológico formal, transcendente, a priori de ser humano e, de outro, uma compreensão vivencial, sobretudo terapêutica, do sujeito empírico, psicológico, singular.

Nesse sentido, apresento minha leitura de sua obra, procurando assegurar respeito ao princípio de fidelidade ao autor, que nunca se lhe alcançaria profundidade ou pertinência sem as devidas interlocuções através de suas aulas, para a explicitação dos conceitos básicos da estrutura do seu discurso, com elementos obtidos exclusivamente da análise do próprio discurso e de sua integração num todo articulado, que revela sua coerência interna.

O movimento do discurso “packteriano” deve ser acompanhado a partir do seu interior, buscando identificar possíveis cortes e fraturas e ressaltar sua harmonia e unidade estrutural. Na verdade, apesar de coerente, o discurso dele carece de harmonia visível e deixa, no leitor incauto, a impressão de uma construção rebelde à perfeita ordem das razões.

Certa dispersão é perceptível, assemelhando-se os conceitos filosóficos a uma “colcha de retalhos”, ou seja, um leque variável de correntes epistemológicas, colhidas ao longo da história da filosofia e contraditórias entre si, e é importante esclarecê-la na estrutura do meu próprio discurso de leitor. Isto me parece também um critério de fidelidade.

Não obstante, espero deixar claro nestes rascunhos um quadro conceitual básico de alguns conceitos que fundamentam ou justificam toda a arquitetura do seu pensamento a fim de também instar discussão às minhas próprias reflexões sobre.

Em consonância com os parágrafos anteriores, em minha opinião, é tranqüilo dizer que em FC mantém-se a concepção de que filosofia não “se aplica”, feito tinta nobre sobre os tijolos gastos do mundo humano. A definição de FC, localizada no site do Instituto Packter, de que “A Filosofia Clínica é a Filosofia acadêmica aplicada à clínica”[1], logo tem direito a reparos, se compreendida isoladamente.

Contudo, no bojo da ainda construção da FC, de sua problemática e proposta teórica, é necessário reconhecer que o sentido real é bem outro, a saber: nenhuma filosofia (e digo eu, muito menos a Filosofia Clínica) é pura tecnologia. Renato Machado está absolutamente certo, neste ponto. Felizmente, sem o saber – pelos seus estudos recentes em FC, descrevendo-se “como aprendiz nessa arte” –, ele nos ajuda a combater o resquício dessa prática positivista ainda freqüente nalguns poucos estudantes e colegas de formação em FC hoje no Brasil.

Mas somente neste aspecto sua crítica é ainda válida. O equívoco destes em simplesmente quererem aprender a prática de consultório, os procedimentos de montagem da Estrutura de Pensamento (a estrutura psíquica subjetiva do partilhante - EP) e a conseqüente utilização de Submodos (conjuntos de processos e ações práticas aplicadas segundo a conformidade do interesse clínico)[2] faz-lhes esquecer que metodologia não é um uso de técnicas.

Esse erro grosseiro sustentaria a possibilidade leviana de qualquer um, relativamente inteligente e com certa boa vontade, mesmo não-filósofo – isto é, sem reflexão filosófica –, praticar a clínica filosófica, reduzindo-a aos seus procedimentos técnicos, mecanicamente. Eles se esquecem que pensar filosoficamente é pensar a realidade por um conceito ou por meio de conceitos. Sim, existem técnicas na FC, enquanto clínica.

Porém, como qualquer filosofia, a FC é um pensar reflexivo, com análises, críticas e sínteses do real permanentemente recusado em suas aparências e reapresentado como entendimento justificado. Fazer filosofia, aos principiantes e leigos em geral, comumente traz esse engano de pensar como se houvesse uma ordem natural de primeiramente entender uma teoria para depois colocá-la em prática, sem ao menos duvidar se os problemas ou teorias apresentados são corretos, fundamentais ou mesmo se as perguntas foram bem elaboradas, antes do afoito interesse de respondê-las.

Exemplos outros, fora da FC, encontram-se nos cursos que se apresentam e se executam sob títulos como “Filosofia aplicada à Administração” etc. Assim, a pertinência da crítica do prof. Renato é, sobretudo, à cultura universitária de assim mal se compreender o estatuto do pensar filosófico em geral, confundindo-se práxis com prática. Crítica necessária, atuante, bem feita.

Também não é justo dizer que a FC seria exclusivamente uma forma nova de terapia, que se nutriu da história e da cultura filosóficas e que não se trata por isso de uma nova modalidade da filosofia ou de um jovem ramo da filosofia como clínica.

Malgrado certos recortes literais, tais como ser a FC “um novo método de fazer terapia fundamentado nas teorias filosóficas”[3], é preciso ler, quem sabe até ajudar a escrever o que se apresenta como uma idéia, pelo menos incomum, que da prática clínica de Lúcio Packter se fez brotar uma intuição e um delineamento filosófico de uma releitura dos conceitos de psicoterapia e de subjetividade, que adiante procurarei modestamente indicar alguns contornos de sua definição ou repercussão ética.

É imprescindível observar que da clínica de L. Packter[4] nasceu um esboço filosófico, enquanto práxis, mas não é uma doutrina, por mais propositiva que seja. Esclarecendo os termos, a FC, pura atividade prática, não é filosofia. Equivale a dizer que a práxis é pressuposto, mas não garante uma filosofia.

A filosofia é um esforço conceitual de compreensão do mundo que nasce dialeticamente, penso, dos conflitos da realidade que exigem ser respondidos ante as diversas soluções do passado e do presente que não mais podem atender aos seus reclames.

Deste modo ele sofreu a realidade das suas circunstâncias históricas com tal impacto e de tal maneira que ela lhe reivindicou mudar a compreensão que tinha dela. Ao pensar universalmente suas questões, Packter atualiza seu tempo aos seus contemporâneos. É a isso que se preza um filósofo nascer no mundo.

Incansavelmente, ele nos compartilha as suas vivências e reflexões para que tanto a clínica se aperfeiçoe, quanto enfrentemos o desafio de elaborar o embasamento teórico último que fundamente essa práxis. Mais que um novo método de fazer terapia, o diferencial da clínica filosófica é a nascente Filosofia Clínica.

Uma das possibilidades que se nos apontam nessa direção é a abordagem objetiva sobre o método de apreensão e entendimento do sujeito. Isso significa que os limites metodológicos da FC constituem os limites de existência e significados do partilhante envolvido. A ontologia, conforme a penso, em FC, isto é, o estatuto teórico do ser, definido em clínica como subjetividade, é destituída do idealismo puro que interpreta a experiência e que faz do pensamento um pensamento da medida.

O outro, o ser humano, sempre transborda em conteúdos que os meus olhos não alcançam. Por isso, mesmo sabendo que o sujeito é um substantivo próprio, também está sujeito; é qualidade do meu olhar, do método filosófico que à mim assegura a constituição de alguma realidade dele.

Inevitável o esforço de construir nos limites do possível – e a razão está a esse mérito – uma visão capaz de vencer a miopia do imediatismo seja do senso comum ou dos paradigmas dominantes e dogmáticos. Porque é no encontro entre filósofo clínico e partilhante que se afirma a região do ser. A ontologia pura cede lugar à existência.

O cuidar do outro, quando inevitavelmente de alguma forma estou, como filósofo clínico, comprometido com ele na relação intersubjetiva e na configuração ôntica, segundo a qual ele é percebido e interagido nos limites dessa percepção, obriga-me reconhecer que uma interseção clínica é geneticamente uma questão ética do saber respeitar o mundo do outro, olhá-lo ou ouvi-lo conforme suas necessidades mais reais de per si e, sobretudo, esforçar-me para não diminuí-lo por qualquer meu descomprometimento filosófico.

Avançando os limites impeditivos das correntes psicológicas e psicanalíticas, a partir da experiência de consultório, o prof. Packter julga necessário rever tais paradigmas em suas falácias de acidente, de generalização, que desconsideraram a força da existência individual e privilegiaram abstratas e falsas universalizações do mundo subjetivo.

Além do que mais condenaram as idiossincrasias da pessoa às vistorias e aos consertos – equivocadamente chamados de “curas” – do que souberam estimar o valor à liberdade de ser da condição psíquica humana. De uma epistemologia das psicologias, Packter busca radicalizar o conceito de subjetividade.

Bem sabido na contemporaneidade que a razão não é capaz de dar conta do absoluto, esta se justifica à competência não de buscar a verdade metafísica do universo humano, quem sabe talvez simplesmente alcançar alguma fundamentação num consenso sobreposto, prático ou político da pluralidade das exigências coletivas.

No bojo das ciências humanas ou do espírito, segundo uma metodologia que supera os limites positivistas das ciências da natureza, a FC se convoca ao âmago dos problemas mais importantes da especulação filosófica moderna: a possibilidade de se construir uma radicalidade metodológica capaz da negação máxima de qualquer pressuposto – em seu caso especificamente terapêutico – como ponto de partida.

Apriorismo que caracteriza toda a filosofia e garante universalidade e necessidade do conhecimento a que se possa predicar como verdadeiro. Tal radicalismo crítico no campo a priori do ser, do conhecimento do ser, é possível pelo acréscimo de novas categorias ao entendimento fenomenológico[5], em que o objeto apreendido (o outro, o partilhante, o si-mesmo) coincide plenamente com o modo como ele é.

Essa exigência do ser – isto é, da realidade – não se contenta com uma pretensa descrição de um independente “conteúdo em si”, da psique investigada. Mais do que simplesmente exposto à minha análise, ver[6] o outro, numa alteridade filosófica, pede compreensão, porque o real é atingido por intencionalidade e, dito isso, se processa por uma hermenêutica, com a busca do sentido dos diversos contextos da atividade humana e em particular na história singular de cada indivíduo.

Bem longe do realismo metafísico, da antiguidade clássica e da modernidade, o sujeito clínico, o partilhante, não é tido como um objeto atômico da realidade, separado intersubjetivamente do filósofo clínico, enquanto outro sujeito independente daquele. A FC insere-se na contemporaneidade (pós-moderna?) das noções de sujeito significante em si, rediscutindo concepções de subjetividade para as quais o indivíduo é visto não como unidade, mas como um ser duplo, em relação ao Outro (Lévinas), ou como um ser de razão dialógica (Buber), ou de dimensão pública (Apel, Habermas) etc.

Por meio do método fenomenológico existencial, ao menos por base, a FC descreve ou alcança na clínica a subjetividade por uma redução do aparente até o máximo possível e ou o necessário à clínica, isto é, às necessidades singulares dos que reclamam ajuda psicoterápica. Assim, o mundo humano é investigado pelo filósofo clínico em seu íntimo ou em sua trama na coletividade, segundo a altura dos interesses específicos de pesquisa.

Equívoco pensar e ainda comum ouvir que a FC, no seu estatuto filosófico, defende um subjetivismo empírico ou um relativismo antropológico. Ao contrário, caracteriza-se pela construção de uma plena objetividade formal, mas em nada restrita ao caráter idealista e unilateralmente intelectual de Husserl.

A eliminação dos impedimentos à compreensão do humano e o acesso à pretensa essência – de todo inalcançável – acontece por meio de uma específica e nova redução fenomenológica, proposta por Lúcio Packter, segundo a qual não se garantem evidências apodídicas pelas experiências descritas, mas pela compreensão das vivências descritas e ou verificadas nas diversas (e abertas ao infinito, por definição) categorias ou nos trinta[7] tópicos e submodos existenciais colhidos na história do partilhante clínico.

Noutra instância, enquanto clínica, o filósofo clínico naturalmente cuida, atua e se relaciona com pessoas, ou seja, com subjetividades individuais, psicológicas, que dizem respeito apenas ao processo terapêutico (com suas doutrinas, valores, corpos e incomensurabilidades vivenciais), únicas em relação aos fatores que se lhe encontram em interseção.

Neste porém, graças aos Exames Categoriais, é preciso reconhecer que os métodos terapêuticos, o uso de Submodos, que me permitem ir ao mundo do outro não se fixam especialmente em nenhuma corrente ou em nenhum filósofo em particular, as vezes fazendo o caminho inverso que muitos autores fizeram, por exemplo, optando pelas formas puras, apriorísticas ao invés da alteridade pelo diálogo.

Disso se conclui que a prática clínica exige profunda revisão epistemológica (fenomenológica, estruturalista, neopositivista etc) em que o clínico, como filósofo, se questiona: “será que eu conheço este de quem eu falo e a quem me reporto?” Muitas vezes não. Posso ter uma noção que o conheço... e aquele que eu estou aceitando na verdade ser aquilo que eu acho que é real ou uma parte dele que eu captei, independentemente da totalidade que não alcanço. Sobre a proposta metodológica empregada na FC, cabe melhor dizê-la nas palavras de seu próprio arquiteto:

“Na colheita das categorias aristotélico-Kantianas, cujo objetivo é localizar existencialmente a pessoa (questões imediatas e remotas, situações atuais e em cada momento de vida, histórico, sensações, temporalidade e relações com os objetos importantes), o filósofo usa de historicidade, fenomenologia, empirismo e analítica da linguagem, essencialmente.
(...)".

Como ilustração, consideremos o uso modificado que realizei a propósito da metodologia mencionada:

Historicidade:
a. Interpretação de fatos, conceitos, eventos na vida pessoal e suas implicações atuais e futuras (profilaxia) correlatas.
Fenomenologia; distante de Husserl, mas devida ao mestre:
a. Investigação do que aparece.
b. Divisões sucessivas em busca do dado de intencionalidade (John Searle).

Empírico e Analítico de Linguagem:
a. Pesquisar as relações entre conceito e termo.
b. Ater-se à experiência.

Na Esteticidade e na Matemática Simbólica outros métodos uniram-se a esses...” (Packter, s.d.: A, tomo 12).

À radicalização metodológica, ao rigor de tal concepção original de subjetividade, haurida ao longo de toda a história da filosofia, que a FC apresenta aos cuidados terapêuticos, defino, ou ao menos por enquanto indico, o que entendo por subjetividade holoplástica. Não se trata de uma plasticidade pelo lado de fora, da entidade psicofísica que se adapta a. Trata-se de uma predicação ontológica do sujeito que é constitutivamente aberto à sua redefinição, pelos tópicos existenciais da EP.

Esclarecido porque o filósofo clínico é sim filósofo, cabe agora dizer porque o filósofo clínico também é um terapeuta. Não se trata de um filósofo que, munido de técnicas psicoterápicas, colhidas aqui ou acolá, vale-se delas para aplicá-las, e sim como um hermeneuta que redefine seu olhar crítico do outro (e de si próprio) quando a vivência lhe reclama, reiteradamente a cada encontro com seus partilhantes. Hermenêutica que rediscute, sobretudo, a noção de psicoterapia, enquanto “cura” ou “patologia”[8].

A discussão do conceito de terapia precisa ser feita atualizando o centro de gravidade do binômio: patologia versus saúde psíquica para outra qualidade de “disfunção”, entendida como uma incompatibilidade funcional do sujeito frente aos elementos tópicos de sua própria Estrutura de Pensamento, manifestando-se choques, bloqueios ou embaraços existenciais internos frente às suas vivências do mundo.

Ao se pensar assim, a psicoterapia (não-biológica, psiquiátrica) precisa ser vista sempre como uma questão geneticamente epistemológica, que se investiga caso a caso, individualmente, segundo as idiossincrasias de cada subjetividade empírica e com os dados históricos inigualáveis de cada um. Em termos práticos ou segundo uma clínica filosófica, só é possível entender qualquer sentido de uma psique desestruturada via análise empírica com fundamentação transcendental da inter-relação que os tópicos da EP têm entre eles mesmos e a associação disso com o problema evidenciado em clínica.

Em outros termos, só há clínica se houver filosofia. Mas, qual o tratamento psicoterápico que o filósofo clínico proporia ao seu partilhante, a fim de reestruturá-lo em seu modo de ser?

Mesmo vencida essa dicotomia, a FC ainda garante um critério de julgamento sobre o partilhante capaz de orientá-lo a caminhos existencialmente favoráveis e igualmente ajudá-lo a evitar outros que lhe seriam contraproducentes. Assim como nas psicologias, a FC também traça uma linha limítrofe entre o fim, as condições e os meios para atingi-lo.

Ela é teleológica, quer um resultado mediante conhecimento de causa. Todavia, o processo de ajuda existencial ao partilhante, entendido como psicoterapia, não é uma “reconfiguração feliz de sua EP”, conforme o pensa Renato Machado, mas uma orientação à autonomia. Longe dos mais variados significados tradicionais do termo, trata-se aqui do sentido de liberdade subjetiva que só podemos compreendê-la no reconhecimento e análise da Estrutura de Pensamento em questão.

Na FC o respeito ao modo de ser do outro, não apenas aos seus dados axiológicos, mas à sua subjetividade holoplástica, afirma, segundo o alcance ou o acréscimo de minhas próprias reflexões, uma nova noção de valor: a potência de autenticidade, ou seja, a capacidade de promover uma existência (ou uma função existencial) assumir o maior valor que sua grandeza é capaz de ser.

Numa palavra, suscitar o máximo de eficácia às realizações subjetivas de cada um, segundo a autogenia[9] da Estrutura de Pensamento considerada. Enquanto tal, este valor possui uma validade irrestrita na medida em que garantiria um total respeito à liberdade existencial do sujeito, orientando-lhe terapeuticamente no uso de Submodos[10], isto é, gerando sobre seus costumes e sua existência em geral, se possível e ou necessário, um novo modo ser, buscando soluções aos seus conflitos internos, muitas vezes independentemente dos interesses axiológicos culturais, plurais ou hegemônicos vigentes fora dele.

Para além dos limites da esfera da pura racionalidade, a minha leitura de Packter entende uma ética distinta tanto do a priori lógico quanto do a priori axiológico, na esfera dos sentimentos. Na FC o a priori axiológico reconhece sua legitimidade específica apenas quando inserido nos Exames Categoriais[11], em uma autogenia da EP. Fato que permite averiguar clinicamente que, inclusive, nalguns sujeitos não se verifica nenhuma manifestação emocional ou sequer a necessidade da existência ou predominância de dados axiológicos.

Ausente quaisquer “conteúdos”, tipologias psicológicas ou metafísicas da natureza humana universal não haveria porque também uma pessoa sofrer reconduções sanitárias ou morais. Nessa leitura, não subsiste uma forma transcendental de dever ser ou de bem/amor na subjetividade holoplástica. Isto é maiormente uma constatação clínica.

Dessa forma, a FC não prolonga, como simples aperfeiçoamento, a continuidade das leituras dos dados fenomenológicos das análises de natureza intelectual (Husserl) ou das vivências emocionais, distante das experiências intelectual e religiosa (Scheler). Pensar uma ética, na FC, é pensar um valor moral para além dos imperativos ou das emoções, embora possa haver justaposição.

Trata-se de uma ética da potência, para além do Bem e do Mal, mas em nada privilegiando uma vontade de poder, como um instinto natural (Nietzsche). Para além dos postulados filosóficos de quaisquer concepções definidas de certa natureza ou condição humana, conforme lista a história do pensamento. Todas estão circunscritas ou relativamente verdadeiras, por coincidência ou não, se estiverem ajustadas às singularidades subjetivas. Indefensável querer que um paradigma ético, ainda que longinquamente, abarque a infinitude de cada um na história de si próprio e ou na das sociedades.

Se esses rascunhos indicarem um válido caminho de pesquisa – enquanto intuições nascidas tanto da minha práxis clínica, quanto das releituras feitas – conjeturo dizer que a Filosofia Clínica acrescenta, talvez ainda nas mesmas direções, o que a fenomenologia existencial já expôs a respeito. Conseqüentemente, antevejo que a FC cria sim um novo valor, para além de Kant e da ética da responsabilidade de Scheler, justamente porque retira do conceito de moralidade seus valores de bem/mal e as hierarquias de amor/ódio.

As divergências não afetam o princípio do kantismo, que rege o mundo ocidental em todas as relações, ou seja: age de tal forma que a sua ação seja uma norma universal de conduta, sempre como um fim e nunca como um meio. Nos estatutos da FC o que se questiona é o cumprimento da norma como um dever puro e simples.

Discorda-se também de Scheler, quando este buscou garantir a universalidade da ética pela experiência emocional dos valores, fazendo da afetividade o tópico fundamental da escolha. O resultado da crítica envereda por uma genealogia dos juízos de valor, não da introspecção psicológica, mas recolocando em debate a questão da subjetividade e das relações de autogenia que atuam sobre a vontade.

O fato de novas categorias de entendimento serem acrescentadas à fenomenologia enseja uma ética porque ensaia uma reflexão em dois campos, a saber: 1. do ponto de vista teórico, é cogitável a fundamentação de uma ética da potência nos parâmetros aqui rapidamente delineados? 2. Anteriormente, o que está ao campo da observação e análise clínica, é inevitável que a práxis da FC tem pressupostos éticos, o que justificaria investigar quais seriam[12].

O que nos permitiria fundamentar uma ética na FC, a fim de que os juízos de valores possam ter uma significância predicativa de verdadeiro ou falso e saibam nortear a atividade humana na conformidade de um entendimento filosófico-clínico, não deve se apoiar em nenhum realismo metafísico, religioso ou cultural.

Portanto, na FC eles se colocam acima das influências do absolutismo de uma ética individual, nem advogam a ênfase de uma ética essencialmente pública (seja universal, seja em versões comunitárias, relativistas), e superam o debate entre o individualismo/universalismo/racionalismo versus holismo e leituras antropológicas (social, histórica, hermenêutica ou contextualista).

Na medida em que isso permanece ainda uma leitura fenomenológica existencial, também não subsistem mais condições transcendentais ou formais cuja materialidade dos valores objetivos advenha mediante uma percepção emocional pura, por se tratarem de fenômenos axiológicos irredutíveis.

Diferentemente, na FC a manifestação fenomenal dos valores éticos, enquanto ato intencional na realização de quaisquer valores, parece-me que, certifica uma nova fundamentação: o acesso à uma objetividade dar-se-á não pela observação fenomenológica da experiência vivida pelo sujeito psicológico, mas pela investigação das condições e circunstâncias da manifestação fenomenal do valor de uma força vital subjetiva.

Nesta concepção ética, bom é todo valor que se manifesta no ato intencional que permita o exercício existencial da pessoa, potencializando o que ela é fenomenologicamente em interseção com o mundo, isto é, tudo que maximiza o modo de ser único e talvez flutuante de cada um. E por atitude ética do filósofo clínico tudo o que, por esforço e competência necessários, puder fazer ao partilhante com o propósito de lhe garantir uma autogenia forte em sua interseção com o ambiente – o conjunto de pessoas e coisas importantes e complexas – no qual está inserido.

Ora, não coincidindo necessariamente ética com busca de “bem-estar” ou “felicidade”, dadas as holoplásticas configurações subjetivas, pode haver escolhas pelo sofrimento, sem a conotação moral de um valor mau. Naturalmente que isso só é validado através da metodologia filosófico-clínica de acordo com os elementos ou categorias internas da Estrutura de Pensamento e aplicação de Submodos compatíveis a cada um.

Critério terapêutico ambivalente porque essa força vital subjetiva ou potência de autenticidade pode se apresentar de duas maneiras. Em princípio, é desejável, ao menos possível conseguir a tão desejada autonomia do partilhante clínico sobre os seus pesares, enquanto uma questão interna, localizada no restrito universo da sua subjetividade. Esse tipo de autonomia é vista no limite clínico intra-organizacional à Estrutura de Pensamento.

Noutras palavras, o conceito de autonomia psíquica geralmente pressupõe independência de fatores externos sobre o controle da própria vontade, tendo por oposto graus de alienação antiética. Enfatizando, isto apenas estabelece uma verdade se e somente se após a feitura de uma autogenia clínica constatar-se um importante entrave na existência ou perda daquela força vital, devido a vínculos de subjugação ou reificações etc.

Neste caso, a FC cuidaria do partilhante no sentido de orientá-lo a uma reorganização produtiva dos elementos constitutivos da sua Estrutura de Pensamento, para o seu próprio bem. Todavia, contrariando, por citar as correntes freudo-marxistas, longe dos estigmas paradigmáticos, a FC constata, pela exigência da práxis clínica, outra manifestação de autonomia, capaz de revelar a existência de Estruturas de Pensamentos individuais que se unem de forma indissociável, às vezes até confusa, feito uma única EP com outras pessoas ou mesmo com objetos inanimados.

Neste caso a potência de autenticidade é otimizada no sentido da autonomia como pertencendo a uma análise e tratamento de âmbito estrutural. Eticamente, por conseqüência, seria condenável orientar ou mesmo conduzir uma pessoa a se separar dos seus mais rígidos apegos – sejam pessoas e ou coisas –, por motivo de sofrimento ou por incompatibilidades ideológicas entre o filósofo clínico e o partilhante. A priori e sem os devidos Exames Categoriais e, sobretudo, classificando-a de “patológica” seria à FC um crime ético. Nenhuma resposta carismática vale mais que as infinitas perguntas que o mistério do outro nos suscita.

Não poderia ser de outra forma, compreendo uma ética nascida da clínica e não para a clínica; um filósofo terapeuta e não um terapeuta que estudou filosofia. É o que a FC soube dar à luz. No sentido que apresento, a Filosofia Clínica é uma terapia ética. Uma ética de tautologia, que não pretende no ser humano uma evolução moral apoiada em qualquer doutrina abrangente, de um preceito, valor para outro.

Quando a necessidade exige um cuidado clínico, o partilhante busca alguma mudança no conjunto de suas vivências pessoais, não necessariamente no que pensa ou sente de si, mas na condição da sua Estrutura de Pensamento, que não se lhe satisfaz. Podem ser choques tópicos, conflitos nas categorias existenciais de sua totalidade psíquica, insuficiências ou excessos, ausência de submodos, etc.

Coisa que não se pode saber sem devida análise. Importa que ele, sintomaticamente com assuntos imediatos (em geral), encontra-se numa situação limítrofe, da qual se sente prisioneiro ou aquém de sua plena liberdade existencial. A esse estado de ser que, segundo os Exames Categorias previamente feitos, reivindica ser diferentemente do que é ou se encontra, pode ser chamado de condição de inautenticidade.

Este novo conceito filosófico de sujeito (Estrutura de Pensamento) e do método que o revela (Exames Categoriais) ligam-se à noção de prática clínica (Submodos) por uma inseparável configuração triangular eqüilátera, não apenas constituída de lados, mas com uma área e ângulos existenciais.

Entender a FC fragmentando esta configuração decorreria necessariamente numa razão instrumental, em que se preferiria uma mera técnica de conhecimentos mais ou menos utilizáveis, por quaisquer interesses, acima dos fins a que se destinam, ou seja, a eficiência psicoterápica.

Pensar a subjetividade num Exame das Categorias sem a consoante elaboração/leitura de uma Estrutura de Pensamento condizente, seria puro, inútil academicismo, cujo único valor estaria na vanglória da reflexão que se afasta do mundo para melhor compreendê-lo teoricamente, mas se esquece de a ele voltar. Afinal, de que vale saber um método se não se pode dele valer-se para o fim a que se destina?

Uma Estrutura de Pensamento, frente aos Submodos, sem Exames Categoriais é antiético, por fazer do outro o que eu quero que ele seja, a partir de pré-juízos. É reificá-lo como meu objeto de estudo e prática, como tão flagrantemente se observa nas teses psicológicas e filosóficas que engessaram, cada qual em disputa, o que condenaram ser a “sua verdadeira” e universal natureza humana.

Submodos sem Exames Categoriais ou Estrutura de Pensamento, apreciados nas múltiplas técnicas psicoterápicas existentes – e quase todas eficazes nos propósitos a que se destinam – incorrem no conhecido equívoco de se valorizar a técnica antes do seu intento. Fazer antes de saber é algo como insistir com a chave certa na fechadura errada. Mais que simplesmente não abrir a porta é aprisionar-se.

Sei que para um rascunho há muitas palavras aqui, sobretudo com uma idéia ousada, apesar de interessante. Do ponto de vista da fenomenologia, a FC propõe (se é que bem entendi o pensamento do filósofo Packter), dentre outras coisas, uma ética-antropológica, um espectro de compreensão aberto por categorias que é antes de tudo uma responsabilidade e depois um pensamento da responsabilidade em busca dos infinitos caminhos da verdade e do pensamento.

Nesse particular, penso, há concordância com Emmanuel Levinas, segundo o qual o sentido primeiro surge da moralidade. A questão ético-gnoseológica da Filosofia Clínica perante a intencionalidade do ego é esta: quem posso ou não ser em interseção com o mundo, conforme minha autonomia?

Isso ao invés de um idealismo teorético totalizante: quem sou, segundo qual perspectiva além de mim ou nas minhas puras representações? Com a ontologização do ser humano corremos sempre o risco de alienarmos esse mesmo ser por ideologias, não raro, autoritárias travestidas de um discurso “sobre” a realidade. Ao menos pelas intenções, este rascunho cumpre o seu papel: convidar os erros à aprendizagem e as verdades à revisão.

quinta-feira, 15 de julho de 2010

"Meus heróis morreram de overdose"

Ildo Meyer
Médico e Filósofo Clínico
Porto Alegre/RS


Um milhão de anos atrás, o mundo era bem diferente, e por incrivel que pareça, ainda carregamos certos traços e predileções herdadas de nossos antepassados. As emoções permanecem as mesmas desde que o mundo é mundo. Alegria, tristeza, raiva, amor, saudade, ódio foram sendo estudados, segmentados, refinados, mas a verdade é que em maior ou menor intensidade, sempre se fizeram presentes na humanidade.

Os homens das cavernas defendiam-se dos inimigos como podiam. Usavam mãos, pedras e ossos e só os mais aptos sobreviveram. Quando sobrava algum tempo, se acasalavam e procriavam. Alguém tinha que cuidar dos filhos pequenos, pois cobras, aranhas, ursos, lobos e até inimigos de outras tribos podiam atacá-los. O homem primitivo aprendeu que vivendo em grupo, poderia ter benefícios em relação a segurança, alimentação e acasalamento.

Os mais fortes eram destacados para as tarefas perigosas (caça, guerra, luta), enquanto os menos dotados fisicamente cuidavam das crianças, da alimentação, do fogo, da coleta de folhas e frutos. Os guerreiros eram respeitados e tratados como ídolos, ou até mesmo heróis, pois eram os responsáveis pela alimentação e segurança do grupo.

Enquanto os guerreiros lutavam, os que esperavam torciam pelo retôrno e sucesso dos lutadores, pois seu destino dependia deles. O sentimento ou a segurança de ter alguém mais apto, escolhido pelo grupo para defendê-lo dos inimigos invasores é a herança que trouxemos das cavernas.

Assim, escolhemos um time de futebol, que fará a representação de nossos guerreiros, e torcemos para que ele vença os inimigos invasores. Torcemos, aplaudimos, choramos, ficamos excitados e até agoniados mesmo sabendo que aqueles jogadores não são os nossos garotos, a nossa tribo. O que está em jogo não é a nossa sobrevivência. São apenas profissionais do esporte realizando seu trabalho e momentâneamente vestindo a camisa de um clube.

Escolher heróis que vão nos defender faz parte da história da humanidade. Quando crianças nossos pais são heróis e nos fazem dormir contando histórias de outros super-heróis. Mais tarde, escolhemos atletas, politicos, soldados, martires e outros personagens para torcer. Quase sempre torcemos pelo mocinho nos filmes, novelas e na vida. Os mais fracos e os injustiçados também ficam com uma parte dos votos. Torcer está em nossos gens.

O mais intrigante é que quase sempre somos incorporados por um sentimento de igualdade, familiaridade e amor por quem torcemos e desprezo pelos adversários,considerando-os como se fossem inimigos invasores querendo nos tirar algo precioso. Talvez isto seja um mecanismo de proteção para que não nos sintamos culpados por querer a derrota do inimigo.

Com o tempo, vamos descobrindo que nossos pais envelheceram, papai noel não existe, super homem é uma história de ficção, atletas são profissionais do esporte, politicos viraram carreiristas,ou, como dizia o poeta Cazuza, "nossos heróis morreram de overdose, nossos inimigos estão no poder".

O que aconteceu? Não se fazem mais super-heróis? Não estamos fazendo boas escolhas? Os invasores venceram a guerra?

A resposta está em nossas mãos. A genética continuará nos impulsionando a escolher novos representantes e torcer por eles. Ficar apenas torcendo para que nosso time e nossa escola de samba vençam é o mesmo que condenar nossos heróis a morrer antes de nascer. Os invasores percebem a alienação e tomam o poder.

Se quisermos reverter o quadro e vencer a guerra, temos que nos unir aos guerreiros que ainda restam e expulsar os invasores. Mas se quisermos ser heróis de verdade, precisamos não mais considerar os outros como invasores ou inimigos e querer derrotá-los.

Heróis são aqueles que nos momentos mais difíceis, quando todos os seus iguais estão perdidos, resignados, alienados e derrotados, conseguem forças para lutar. Lutam por justiça, bem comum, solidariedade, liberdade, esperança...

Heróis de verdade não se regozijam com a vitória e morrem de overdose. Heróis de verdade não tem sede de poder. Heróis de verdade não torcem. Heróis de verdade agem.

quarta-feira, 14 de julho de 2010

Axiologia

Andrea Vermont
Filósofa Clínica
Uberlândia/MG


O grande desafio do “terapeuta”, e ai incluindo todas as “terapias”, talvez não seja a absorção de conteúdos, nem o labor da formação, e nem mesmo os mundos que se fenomenalizam diante de si, na pessoa do outro. O maior desafio talvez, seja ter que conflitar constantemente seus valores, com os valores que ali se desnudam e ainda assim não pré-conceituar, não direcionar, não significar...

Bem dizia o velho Sartre: “Meu inferno são os outros”, pois o diferente atua em mim como um fator revelador, que coloca em questionamento também a minha história, meu ser, meus valores, e especialmente a minha dificuldade de lidar com a alteridade.

Pensando no mundo Schopenhaueriano, como sendo uma representação pessoal de cada um, nos deparamos com as dificuldades em aceitar a representação axiológica do outro, quando esta é muito diferente da minha, pois quando eu “estou” terapeuta, eu não consigo prescindir em totalidade daquilo que eu “sou”.

Acontecerá então, em algumas partilhas, que a intercessão entre “E.Ps” se tornará deveras sofrida para o terapeuta, que também tem os seus valores e é movido por eles, necessitará então de descobrir um submodo que o faça sentir-se mais a vontade no seu papel existencial, desempenhado ali.

A axiologia é um submodo muito eficaz, por que talvez ela seja um arcabouço de todos os outros, pois tudo do que nós fazemos tem haver com aquilo no qual acreditamos e valoramos.

Questão complexa, num mundo onde valores são tantos quanto á necessidade de auto-justificativa das pessoas.

Pensar em valores e respeitá-los, tendo como verdade que cada homem é a sua própria medida, não é tarefa das mais simples.

Luta árduo ser o personagem de quem sempre se espera a solução ou resposta, numa situação onde os confrontos de valores e suas superações são os grandes desafios.

Terapêutico seriam então, não os relatos, e menos ainda “os conselhos”, mas a possibilidade de se ver respeitado por alguém que representa totalmente diferente de mim, e ainda assim me acolhe e me aceita.
O melhor caminho

Gustavo Bertoche
Filósofo Clínico
Rio de Janeiro/RJ


Sei qual é o caminho mais curto até minha casa. Faço o trajeto mais longo, caminhando sob a chuva, só para me divertir às minhas custas.

terça-feira, 13 de julho de 2010

Vida Compartilhada

Dra. Rosângela Rossi
Juiz de Fora/MG


A inteligência humana sempre acha soluções incríveis que vão superando nossa imaginação. Hoje, quando se opta pela simplicidade voluntária, possibilidades infinitas surgem facilitando a vida, driblando a rotina.

Você já pensou em compartilhar sua casa de praia com outros que têm casa de veraneio em outros lugares do país e do mundo? A troca de casa abre novas oportunidades de conhecer lugares nunca antes pensados e pessoas diferentes no entorno.

Quem já pensou e compartilhar carros, livros e mil outras coisas úteis e mesmo inúteis? È a antiga troca entre amigos que foi deixado de lado.

Abrindo mão do egoísmo, colocando a economia e a criatividade em foco, o brincar acontece simplesmente na vida compartilhada.

As mulheres, que adoram as novidades, poderiam trocar bolsas, roupas, enfeites e exercitar a criatividade abrindo para a economia sustentável. Basta organizar um grupo de amigas e experimentar.

Homens podem compartilhar da bicicleta às ferramentas. Iriam se abrir para um bom bate papo na troca dos objetos.

A vida compartilhada abre espaço para o respeito, o cuidado, a criatividade, o diálogo, o desapego e amizade. É simples. Basta querer e agir organizando um código comum para evitar contrariedades. A liberdade respeitosa prima. As escolhas conjuntas abrem um espaço de diálogo franco. Todos saem ganhando.

Pense nisso e me avise se aderir à vida compartilhar. Quem sabe sua lista começa a ser feita e você se anima a experimentar uma vida mais solidária?

segunda-feira, 12 de julho de 2010

Onde está você?

Vânia Dantas
Filósofa Clínica
Uberlândia/MG


Novamente, a experiência e a reflexão provam: ninguém quer a sua vida.

Os comportamentos machistas que ainda imperam no interior do Brasil ou mesmo nas capitais, mascarados sob o direcionamento dos projetos de igualdade de gênero, resultam na comprovação desta tese.

Se o homem se envolve com uma mulher, exige dela submissão, decoro, respeitabilidade – que seja uma dama, comporte-se, torne-se digna de carregar seu nome (ou sua personalidade do lado, como um obsessor, como o vigia do panóptico). Seja a empregada de sua casa, babá de seus filhos, profissional da sua cama, subserviente em todos os momentos.

Mas que ela não chame a atenção de mais ninguém. Se feche para o mundo, adote a família dele, suas festas, suas metas – aliás, forneça o suporte do lar para que ele as alcance. No feminino.

As setas de seu fluxograma devem ter a direção dele; os horários por ele ditados, a vida em sua função. Aí a aparência é deixada pra lá, já que, afinal, como haverá tempo, uma vez que ele é o foco... e está sempre ali, a exigir? Fantasma da consciência.

As carências comandam. Entretanto, “a mulher faminta resiste a muitos períodos de privação. Ela pode planejar escapar e, não obstante, considerar alto demais o preço da fuga, acreditando que ela lhe exigirá muita libido, muita energia.” Assim diz a psicóloga junguiana Clarissa Pinkola Estés em Mulheres que correm com os lobos. (Estés, 1994: 290)

O preço de se assumir é muito alto.

Aí, quando a mulher morre, quando esquece que um dia foi plano, determinação, viço e desejo, quando já se deu de todo a ponto de se perder – e se deixou lá atrás, no passado – esse homem se desinteressa. E não é só pela preponderância do mercado, é porque aquela pessoa por quem se apaixonou não existe mais.

Ela é agora o espelho baço de Hume.

Lá no chão, o que fica? Um ser insosso, uma canja de parturiente supersticiosa. Cadê a substância, o mover do corpo? Cadê os gestos lânguidos, os passos de bailarina em ponta, a chave de pernas do tango, a transparência das pétalas?

As mucosas secaram, a face vincada. Por ali, quanto sofrimento já foi carreado? Não se viram auto-massagens. Não havia motivo para cuidados – jogo ganho.

Mas aí ele se foi, mesmo que ainda dentro de casa. Seqüestrou sua alma, só que não a levou, nem quer resgate. A alma dela se perdeu e a dele é ausente – voou para longe. Viradas de boca para baixo, sem conteúdo, sem contato, garrafas vazias no quintal.
O que é ser feliz ?

Mônica Aiub
Filósofa Clínica
São Paulo/SP


"A felicidade consiste em ser o que se é", afirmava Erasmo de Rotterdam no Elogio da Loucura "... a felicidade é algo final e autosuficiente, é o fim a que visam as ações" Aristóteles

Desde a Antiguidade, muitos filósofos consideraram a felicidade como o fim último da vida humana. Muitos foram os tratados sobre o que é a felicidade, sobre os caminhos para encontrá-la. Somos felizes? Em que consiste a felicidade?

Aristóteles inicia o livro I da Ética a Nicômacos discorrendo sobre a finalidade das ações que praticamos: "Se há, então, para as ações que praticamos, alguma finalidade que desejamos por si mesma, sendo tudo mais desejado por causa dela, e se não escolhemos tudo por causa de algo mais, evidentemente tal finalidade deve ser o bem e o melhor dos bens. Não terá então uma grande influência sobre a vida o conhecimento deste bem?"(cap. 2).

Epicuro, na Carta sobre a Felicidade, afirma que "o prazer é o início e o fim de uma vida feliz", mas faz uma ressalva:

Quando dizemos que o fim último é o prazer, não nos referimos aos prazeres dos intemperantes ou aos que consistem no gozo dos sentidos, como acreditam certas pessoas que ignoram nosso pensamento, ou não concordam com ele, ou o interpretam erroneamente, mas ao prazer que é a ausência de sofrimentos e de perturbações da alma.

Não são, pois, bebidas nem banquetes contínuos, nem a posse de mulheres e rapazes, nem o sabor dos peixes ou das outras iguarias de uma mesa farta que tornam doce uma vida, mas um exame cuidadoso que investigue as causas de toda escolha e de toda rejeição e que remova as opiniões falsas em virtude das quais uma imensa perturbação toma conta dos espíritos (Epicuro, 2002: 44-45).

Ser feliz é, muitas vezes, uma ideia associada a modelos previamente estabelecidos por nossa sociedade: o consumo desenfreado, a posse de objetos, dinheiro, fama, poder, status e o consumo de drogas lícitas ou ilícitas. Se observarmos nossos modos de vida hoje, veremos o quanto investimos na busca da felicidade, na ausência do sofrimento, na anestesia para as dores da existência.

Ser feliz é, muitas vezes, uma ideia associada a modelos previamente estabelecidos por nossa sociedade: o consumo desenfreado, a posse de objetos, dinheiro, fama, poder, status. Quanto mais temos, mais tememos perder. Quanto menos temos, mais infelizes parecemos ser diante desse modelo.

Necessitamos atingir os parâmetros estipulados por um modelo econômico-social? Nossa felicidade se resume a quanto podemos gastar? E quando não temos recursos para gastar? E quando gastamos muito e, ainda assim, não atingimos o que considerávamos ser um estado de felicidade?

Há uma forte tendência atual a buscar a felicidade em drogas ou medicamentos. Anestesias para os problemas da existência, felicidade artificial, encontrada em drogas lícitas ou ilícitas. Necessitamos desses recursos? Se minha infelicidade é fruto de um problema que não resolvi, uma droga que provoque um estado de torpor, ou de felicidade artificial resolverá o problema?

Este é o movimento de muitas pessoas hoje. Buscam entorpecer-se para esquecer o que lhes traz sofrimento, o que lhes perturba a existência. Com isso, deixam ao lado os problemas, que ali permanecem, exigindo doses das drogas ou dos medicamentos cada vez maiores, somente assim conseguem não enxergar o que lhes perturba.

Quando as dores se tornam insuportáveis, uma opção, muitas vezes, é desistir. Assumir o fracasso da existência e esperar, com a derrota, a morte.

Das muitas formas de morte, aquela que faz os dias parecerem sem fim, aquela que nos impede de ser o que somos, a morte em vida, é extremamente dolorosa. Então, mais alguns medicamentos para suportar a espera do fim. É preciso viver desta maneira? Alguém opta, livremente, por esta forma de existência?

Poderia ser um caminho mais adequado buscar formas para solucionar as questões que nos incomodam, ainda que isso implique em algum transtorno, em um pouco de sofrimento, em algumas dores? Talvez seja dolorido afastar os erros, os enganos, as falsas opiniões.

Talvez seja triste descobrir que algumas coisas não são como pensávamos que fossem. Mais triste talvez seja perceber que o que escolhemos como caminho não é bem como imaginávamos ser. O que fazer diante de situações dessa natureza? Como produzir vida em nós?

Há quem não queira ser feliz? Lembro de Elizandra, uma moça que atendi que se revoltava toda vez que alguém perguntava a ela se fazia terapia porque buscava a felicidade. Elizandra não queria, e não quer ser feliz.

Ser feliz, diz ela, numa sociedade como a nossa, em que se morre de fome e de miséria, em que se vê a violência a toda hora, em cada esquina, é ser alienado. Eu não quero ser alienada. Prefiro morrer a ser feliz dessa maneira. Minha infelicidade me faz buscar, incessantemente, formas de transformar a sociedade.

Elizandra envolve-se constantemente em ações sociais, tentando encontrar formas de transformar o quadro de violência e miséria em que vivemos. Assim ela se sente bem, mas não feliz, pois, para ela, se estivesse feliz, não precisaria mais buscar.

Seria Elizandra louca por não querer a felicidade? Ou seria doentio o modo de ser que encontra felicidade gastando no shopping? Como distinguir entre uma "loucura" a ser contida ou uma inquietação criativa, necessária à construção da pessoa?

Até que ponto a busca por "restabelecer a normalidade" não é um impedimento, um entrave à construção de um modo de ser singular? Poderia um tratamento que pretende "restabelecer a normalidade" transformar-se em um processo de alienação, acomodando as inquietações e adaptando a pessoa a um modo de ser construído socialmente? Até que ponto esse modo de ser é saudável?

"A felicidade consiste em ser o que se é", afirmava Erasmo de Rotterdam no Elogio da Loucura.

Conhecer e respeitar aquilo que somos, as nossas necessidades, encontrar modos para exercer o que somos, pode ser um caminho saudável para a existência.

Distante de padrões estipulados socialmente, longe da hipocrisia social que exige a anulação do que se é, como forma de ser, podemos valorizar tudo o que produz vida em nós.
TECNOLOGIAS: ALGO MUITO ANTIGO

Wilson Barbosa
Filósofo Clínico
Goiânia/GO


Tenho aprendido em minhas viagens, cursos, workshop e oficinas, que muitas pessoas e professores, por mais paradoxal que isso possa parecer, ainda não entendem o uso das tecnologias em apoio ao ensino-aprendizagem como propósito de algo que veio para trazer leveza, simplicidade e, sobretudo, facilidade ao trabalho humano.

É um equívoco pensar que todos os artefatos tecnológicos suprem o que o professor já trás consigo, seja por fruto de seus valores pessoais, seja por tudo o que aprendeu desde os bancos da faculdade. Outro engano é pensar que quando usamos a terminologia “tecnologia” refere-se sempre a algo inédito e futurista.Definitivamente não é.

Desde que nos entendemos por seres pensantes, construímos, inovamos e inventamos, dessa forma, a muito já usamos subsídios para tornar mais fácil nosso trabalho que culmina, em nosso caso, no ato de ensinar. O papel-carbono e o mimeógrafo são exemplos clássicos do que quero dizer em todo o parágrafo. Como essas “ferraris” revolucionaram a educação!

O computador com programas ultramodernos, o datashow, a máquina fotográfica digital, o microscópio, todo esse aparato produz um marco ímpar na história da educação, e o melhor de tudo isso, caro professor, é que você faz parte dessa revolução, o que é simplesmente esplêndido. Esses elementos são continuidade tecnológica e não um começo.

A expressão continuidade é porque você já vêm naturalmente usando tecnologias de tempos imemoriais, com vista no prisma da história. Faz sentido lembrar aos educadores o fato de que a fala humana, a escrita, e, consequentemente, os livros didáticos, revistas, projetos bimestrais e anuais são, indubitavelmente, tecnologias.

Por conta disso e muito mais a finalidade do nosso artigo é tão somente imbuir-nos de que vale a pena buscarmos compreender a proposta dos recursos contemporâneos remanescentes da nossa antiga máquina de escrever. Remanescentes para ironizar o raciocínio.

Não teria nenhuma valia tudo o que falamos se as propostas do uso das tecnologias não viessem trazer melhor qualidade de ensino e, antes de tudo, melhor qualidade de vida.

O que precisamos atentar e de modo algum aceitar é que nossos professores abneguem-se, por força de sua vocação ou por “imposição” de seu profissionalismo, de viverem melhor qualitativamente, ou ainda que sucumbam-se inconscientemente em workaholic: uma compulsão desmedida pelo trabalho, o que as vezes o faz para darem o seu melhor na sua pedagogia de ensino.
O Ato médico e o Ato filosófico

Lúcio Packter
Pensador da Filosofia Clínica


Ato Médico, projeto de lei em discussão no Congresso, torna privativos da classe médica todos os “procedimentos diagnósticos” e “indicações terapêuticas”. Se aprovado poderá ameaçar a sociedade com O Alienista, de Machado de Assis.

O projeto baseia-se no saudosismo do poder que a Igreja teve durante a Idade Média ou no corporativismo que os militares desfrutaram durante o regime militar. A idéia acendeu os desejos de outros setores. O Ato Enfermeiro proibirá as mães de curativos e relegará os band aids às farmácias, mas nada poderá ser vendido em farmácia por causa do Ato Farmacêutico.

De tanto não venderem nada, os farmacêuticos terão lesões na coluna, mas nem pensar em massagens porque o Ato Fisioterápico valerá em todo o território nacional.

O problema é que de tanta vigilância, os fisioterapeutas ficarão doidos e não poderão ir a um médico psiquiatra porque estará vigente o Ato Psicológico, pelo qual nenhum paranóico ousará paranóias como procurar gente desabilitada a lidar com isso, como um médico.

Nervosos, os médicos passarão a comer mal e pouco, mas não poderão fazer qualquer coisa, uma vez que estarão condenados a alimentação eterna que iniciaram devido ao Ato Nutricionista. Os próprios nutricionistas não poderão explicar nada aos médicos para não incorrerem em uma afronta ao Ato Pedagógico que restringe o ensino aos professores. Pena que nessa altura os professores já tenham morrido em conseqüência do Ato Político que, por sua vez, agonizará pelo embate entre o Ato Econômico e o Ato Circense. Ninguém mais estará a salvo.

Os advogados serão impedidos de quase tudo pelo Ato de Direito, segundo o qual todo o juiz prescindirá de advogados. Mediante o Ato Teológico os juízes serão proibidos de julgar, já que isso a Deus pertence. Mas o Ato Filosófico será supremo e cerceará a todos, já que ninguém poderá fazer algo sem o uso da razão, o que impedirá na prática a própria Filosofia.

Qualquer coisa que qualquer um faça será condenado pelo Ato dos Atos que é o projeto de lei que proíbe todas as coisas mediante a suspeita de alguma coisa que possa invadir remotamente outra.

Ninguém mais sairá de casa, ninguém dará mais um piu, nem Bush, e juntos, em silêncio, todos aguardarão quietos, sem piu, o Ato do Juízo Final.